WeRead Powered by ReaderPub
A Mãe cover

A Mãe

Chapter 30: XXV
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

XXV

Alguem acabava de chegar sob o alpendre. Mãe e filho entreolharam-se, estremecendo.

A porta abriu-se e deu entrada a Rybine. Trazia vestida uma capa curta, de pelles, toda manchada de alcatrão, e nos pés sapatos de canhamo; do cinto pendiam-lhe grosseiras luvas de lã preta; na cabeça um boné de pelles.

—Como vão de saúde? Puzeram-te na rua, Pavel? E tu, Pélagué, como vaes?

—Ah! és tu? muito estimo ver-te!

—Olha que vens mesmo lindo! disse Pavel.

Rybine respondeu, tirando vagarosamente a capa:

—Sim. Fiz-me camponez. Tu e os teus vão-se transformando pouco a pouco em senhores; eu ando para traz.

E passando ao quarto, lançou o olhar em roda.

—Não teem mais mobilia do que d’antes. Os livros é que augmentaram. São o melhor bem que se pode possuir hoje. Como vão as coisas por cá? Conta-me.

Sentou-se abrindo muito as pernas, apoiou as palmas das mãos nos joelhos, parecendo satisfeito na espectativa da resposta de Pavel.

—Vão bem.

—Muito me alegro! muito me alegro!

—Queres chá? perguntou a dona da casa.

—Pudera! e um copinho de aguardente... e se me offerecessem de comer, tambem não recusaria. Estou contente por tornar a vêl-os!

—E como vae?

—Bem. Parei em Eguildiévo. Conhecem? É uma bella villa, com duas feiras por anno e mais de dois mil habitantes. Má gente. Não ha terras para cultivar; arrendam-nas, mas são de má qualidade. Entrei como assalariado ao serviço de um explorador do povo; não faltam d’estas sanguesugas; são como as moscas á roda de um cadaver. Fazemos carvão, extraímos alcatrão das bétulas. Trabalho duas vezes mais do que trabalhava aqui, e ganho quatro vezes menos. Ao serviço d’esta sanguesuga somos sete, todos lá da terra, menos eu. Sabem ler e escrever. Um delles, chamado Jéfim, é muito bulhento...

—E fala muito com elles?

—Está claro. Levei comigo todos os meus folhetos. Tenho trinta e quatro. Mas prefiro servir-me da Bíblia: encontra-se lá tudo o que se quer, e é um livro permittido, publicado pelo Santo-Synodo, e no qual se pode crer.

Piscou o olho, malicioso, e continuou:

—O peor é que não basta. Vim cá buscar leitura. Como vamos fazer uma entrega d’alcatrão, o tal Jéfim e eu, combinámos a patuscada de passar por tua casa... Dá cá livros antes que elle appareça... É inutil que elle fique sabendo...

Pélagué observava-o; parecia-lhe que ao largar a capa, largara tambem qualquer coisa da sua pessôa: estava menos grave do que d’antes, e havia no seu olhar mais astucia.

—Mamã, vae buscar os livros. Dize que vão para o campo, que logo sabem o que te hão de dar.

—Irei apenas o samovar esteja pronto.

—Quero livros proíbidos e bem incisivos. Distribuil-os-ei ás escondidas. E se o padre ou alguem da policia os descobrir, imaginarão que os mestres-escolas é que fazem a propaganda. De mim ninguem suspeitará.

Satisfeito por este achado, desatou a rir.

—Olha sabes? disse Pélagué. Tens assim o aspecto de um urso, e afinal és uma raposa!

Pavel ergueu-se, em tom de censura:

—Dar-lhe-emos os livros que deseja, mas o que pensa fazer não lhe fica bem.

—E porquê?

—Porque se deve responder sempre pelo que se faz.

—Não percebo o que dizes!

—Acha bem que os mestres-escolas sejam mettidos na cadeia como suspeitos de fazerem propaganda?

—Então? que tem isso? Essa é boa! Os livros são coisa que lhes dizem respeito, a elles; portanto elles que tenham a responsabilidade!

Pélagué interveio, mostrando-se da opinião de Rybine, ao que Pavel objectou:

—Se qualquer de nós, o André por exemplo, praticasse uma infracção da lei e me mettessem na cadeia, a mim, o que diria a minha mãe?

—Ah! ah! É um caso melindroso!... exclamou Rybine. Mas assumindo uns ares doutoraes:

—Ainda és muito ingenuo, irmão! Não nos devemos preoccupar com casos de honra, quando trabalhamos por uma causa secreta. Reflecte: quem primeiro caírá na cadeia será a pessoa a quem forem encontrados os livros, e não o mestre. Depois, o texto dos livros auctorisados que os mestres distribuem é o mesmo dos livros proíbidos, com simples differenças de palavras e com menos coisas verdadeiras do que os nossos. Portanto os mestres teem o mesmo fim que eu, mas servem-se de rodeios, ao passo que eu vou por caminho direito; e assim, aos olhos das auctoridades, somos igualmente culpados; não achas? Em terceiro logar, que tenho eu a ver com os mestres-escolas? Não procederia da mesma maneira com um camponez. O mestre-escola é um filho de padre; a mestra uma filha de proprietario; não sei porque se põem a querer levantar o povo. Eu, camponez, não posso conhecer os seus pensamentos de pessôas instruidas. Sei o que faço, mas ignoro o que elles querem. Durante milhares d’annos, os grandes eram verdadeiros senhores e tiravam a pelle do povo; de repente accordam e começam a abrir os olhos ás suas victimas. Nunca tive predilecção por contos de fadas, e este é um d’elles. Para mim, a gente rica e instruida, seja qual fôr, fica afastada de nós. No inverno, quando atravessamos os campos e vemos ao longe alguma coisa a mexer, perguntamos a nós mesmos: será uma raposa, um lobo, um cão? Sabe-se lá o que é!

E, passando a mão pela barba:

—Não tenho tempo para delicadezas. O momento é grave. Trabalhe cada qual, segundo a sua consciencia... Todas as aves teem o seu canto especial.

—Mas ha ricos que se sacrificam pelo povo, que passam toda a vida na cadeia... observou a velha, recordando-se de pessoas amigas.

—Com esses o caso é outro. Quando o homem do povo enriquece, acotovella-se com os senhores. Estes, quando empobrecem, tornam-se amigo do povo. Quando a algibeira está vasia, a alma torna-se pura, á força.

Ergueu-se e continuou, sombriamente:

—Durante cinco annos, desacostumei-me do campo, andando errante de fabrica em fabrica. Quando para lá voltei e vi o que se passava, disse comigo que não podia viver como vivem os camponezes. Percebes? Parecia-me impossivel. Por cá não se conhece a fome, nem a muita humilhação. Mas na aldeia a fome segue o homem como uma sombra durante toda a vida, sem nunca lhe dar a esperança de obter pão que chegue. A fome devorou as almas, apagou as feições humanas; não se vive: apodrece-se irremediavelmente na miseria. E as auctoridades vigiam, cuidadosas; como os corvos, espreitam, não se dê o caso de que o camponez tenha um bocado de pão a mais. Quando o descobrem, arrancam-lho da mão, e ainda lhe dão com elle na cara!

Encostado á mesa, de pé, falando muito perto de Pavel, proseguiu:

—Julguei que não poderia supportar semelhante vida. Todavia, dominei-me. Disse com os meus botões: «Não devo consentir que a minha alma me faça partidas! Ficarei aqui, e, não podendo dar pão aos camponezes, farei a zaragata!»

Com a fronte coberta de suor, exclamou:

—Dá-me livros que não deixem mais em descanso aquelles que os lerem. Ajuda-me! É preciso metter ouriços dentro da cabeça d’aquella gente. Dize aos que escrevem folhetos para os da cidade, que os escrevam tambem para os do campo. Que os escrevam de maneira a regar o campo de agua a ferver, para que os cultivadores, depois de lel-os, caminhem para a morte sem protestarem!

As frases vigorosas de Rybine impressionavam Pélagué. Havia n’aquelle homem o que quer que fosse que lhe recordava o marido: um e outro mostravam os dentes e arregaçavam as mangas, com a mesma irritação impaciente. Ao menos, Rybine falava.

—Sim! é indispensavel! disse Pavel. É indispensavel organisar um jornal para o campo. Dê-nos o assumpto, narre-nos os factos, e nós lhe daremos um jornal.

Ao que Rybine respondeu.

—Está dito! Mas escrevam com simplicidade, para que até os vitellos os entendam!