WeRead Powered by ReaderPub
A Mãe cover

A Mãe

Chapter 31: XXVI
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

XXVI

Pélagué tinha saído. Pouco depois alguem entrava.

—É o Jéfim! informou Rybine. Entra! Anda cá. Este homem, que vês aqui, chama-se Pavel. Foi d’elle que eu te falei.

Jéfim era um rapagão de cara ampla, cabellos ruivos, olhos pardos, robusto e bem talhado, trajando uma capa curta. Avançou até Pavel, de boné na mão e olhar baixo.

—Ora viva! resmungou, apertando a mão de Pavel, e tendo percorrido o quarto com o olhar, demorando-o na estante dos livros, poz-se a alisar com a mão os cabellos asperos.

—Já os viu! exclamou Rybine.

Jéfim foi ver os livros mais de perto.

—Ih! quantos ha por cá! E naturalmente lê-os muito. No campo, não temos tempo...

—E pouca vontade, não? perguntou Pavel.

—Ao contrario! Hoje somos obrigados a pensar, se não, não nos resta mais do que deitarmo-nos e esperarmos a morte. Como o povo não quer morrer, poz-se a trabalhar com o cerebro. «Geologia?...» O que é isto?

Pavel explicou.

—Não precisamos d’isso! concluiu Jéfim pondo o livro no seu logar.

Rybine commentou:

—O camponez não tem curiosidade de saber d’onde veio a terra, mas sim como foi distribuida, como os proprietarios a arrancaram de sob o dominio do povo. Que ella se mova ou não, que importa! comtanto que dê de comer!

—«Historia da escravatura!» Isto é com a gente?

—Aqui tem um acerca da servidão.

—É já muito velho.

—Possue algumas terras?

—Somos trez irmãos, e temos quatro hectares... terreno de areia fina. Coisa fresca, para limpar metaes! mas para cultivar o trigo... Eu cá libertei-me da terra. Não sustenta o homem, antes o traz manietado. Ha quatro annos que me alugo como manufactor... Para o outomno vou para a tropa.

O Mikhaíl diz-me que não vá, porque obrigam os soldados a baterem no povo. Mas vou, por força! É tempo de acabar com isto. Que lhe parece?

—É tempo, é... respondeu Pavel, sorrindo. Mas o difficil está em saber falar aos soldados.

—Aprende-se!

—Mas se o apanham em flagrante, podem fuzilal-o.

—Sim... não me perdoarão... respondeu tranquillamente, voltando a vêr os livros.

—Vamos ao chásinho, companheiro, que temos que abalar! disse Rybine.

André entrou muito vermelho, encalorado e taciturno. Apertou a mão de Jéfim, sem falar, assentou-se ao lado de Rybine, e, depois d’olhar para elle, sorriu.

—Pareces triste, homem! Porquê? perguntou aquelle dando-lhe uma palmada no joelho.

—Porque sim!

Jéfim, observava attentamente André, até que disse:

—Os trabalhadores das cidades e villas são magrizellas, teem os ossos a romper a pelle. Nós cá, os do campo, somos mais roliços...

Rybine completou:

—O camponez tem mais firmeza nas pernas. Sente a terra debaixo dos pés, ainda que não lhe pertença. Mas o operario é como um passaro: não tem patria, nem lar; um dia aqui, outro dia ali.

Pélagué entrou. Jéfim tinha-se approximado de Pavel a quem pediu:

—Poderia dar-me um livro?

—Da melhor vontade.

O jubilo brilhou-lhe no olhar.

—Eu restituo depois. Obrigado! Hoje, os livros são tão precisos como á noite uma candeia.

Rybine tinha posto a capa.

—Vamos, que são horas.

—Olha: já tenho que ler! exclamou Jéfim, mostrando-lhe o livro, com um sorriso muito aberto.

Quando elles saíram, Pavel dirigiu-se a André.

—Que me dizes áquelles diabos?

—Parecem nuvens á hora do crepusculo: grossos, sombrios, arrastando-se lentamente...

—Tenho pena de que não chegasses mais cedo. Terias observado um coração, tu, que estás sempre a falar de coração. Rybine disse das suas... Não soube que responder-lhe. A minha mãe tem razão: aquelle homem traz em si uma força terrivel!

—Conheço isso! Essa gente do campo anda envenenada! Quando se revoltarem, derrubarão tudo, sem distincção. Querem a terra absolutamente sua, e arrancarão tudo o que a cobre.

Falava de vagar; percebia-se que pensava n’outra coisa. Pélagué disse-lhe com blandicia:

—Deves espairecer, André!

—Deixe, mãesinha, deixe... Embora eu não quizesse tel-o feito, a acção foi abominavel!

E voltando ao assumpto da conversa:

—O nosso camponez queimará tudo, como se tivesse havido uma peste, para que todos os vestigios das suas humilhações vôem com as cinzas.

—E levantar-se-á depois contra nós... continuou Pavel.

—O nosso dever é não lho consentir, reprimindo-o! Somos nós quem se encontra mais perto d’elle. Acreditar-nos-á... seguir-nos-á!

—Sabes? O Rybine pediu-me que fizessemos um jornal para os camponezes.

—Apoiado! É tratar d’isso.

E depois de commentar as ultimas palavras de Rybine, ergueu-se, dizendo:

—Vou dar um passeio ao campo.

—Depois do banho? Olha que faz muito vento... Vaes arranjar uma irritação na pelle! accudiu Pélagué.

—Deixal-o! Quero saír.

Vestiu-se e foi-se sem dizer palavra.

—Soffre! suspirou a velha.

—Tens um bello coração, mamã!

—Oxalá assim seja! Se ao menos podesse ajudal-os!... se eu soubesse!...

—Não te dê cuidado: has-de saber.

O russo-menor voltou tarde; estava fatigado; deitou-se logo, dizendo:

—Parece-me que andei uns dez kilometros...

—Isso vae melhor?

—Não sei... Não faças barulho... Deixa-me dormir.

Pouco depois, Vessoftchikof appareceu, sujo, esfarrapado e de mao-humor como sempre.

—Não sabes quem matou o Isaías?

—Não! respondeu Pavel.

—Até que houve um homem que não achou antipatico esse feito! E eu que me preparava para torcer-lhe o pescoço!...

—Não digas essas coisas, companheiro!

Pélagué interveio:

—És bom e tens sempre palavras tão crueis!... Para quê?

Era-lhe então agradavel tornar a vêl-o; o seu rosto bexigoso chegava até a parecer-lhe bonito; sentia mais piedade por elle.

—Eu não sirvo para nada, senão para taes emprezas! Pergunto constantemente qual é o meu logar. Não o encontro. Se é preciso falar... não sei... Vejo tudo, sinto todas as humilhações dos homens, e não posso exprimil-as. Tenho uma alma muda. Irmãos, dêem-me um trabalho penoso, seja qual fôr. Não posso viver assim, sem fazer nada em favor da nossa causa.

Pavel pegou-lhe n’uma das mãos.

—Havemos de pensar em ti, descansa.

—André disse lá da cama:

—Ensinar-te-ei a conhecer as letras d’imprensa, e serás um dos nossos compositores; queres?

—Se me ensinares, dar-te-ei de presente uma navalha.

—Vae para o diabo mais a tua navalha!

—Uma navalha bôa! insistia.

André e Pavel riram á larga. Elle parou no meio do quarto, perguntando:

—Estão a rir-se de mim?

—Então de quem?

E o russo-menor saltou da cama.

—Se fossemos dar um passeio pelo campo? A noite está bôa, ha luar. Vamos?

—Pois vamos! apoiou Pavel.

—E eu tambem vou. Gosto de ouvir rir o André!

—E eu gosto que me promettas presentes!