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A Mãe

Chapter 32: XXVII
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

XXVII

...Os dias decorriam com tal rapidez que não deixavam que Pélagué pensasse no primeiro de maio. Só á noite quando se deitava, fatigada dos trabalhos e preoccupações, é que o seu coração se confrangia, e o seu cerebro a fazia monologar:

—Se ao menos já tivesse passado!...

Todas as noites as folhas impressas convidando os operarios a festejarem o primeiro de maio eram colladas até á porta das estações policiaes; todas as manhãs appareciam tambem na fabrica. Os policias percorriam o bairro logo de manhãsinha e arrancavam das paredes os pequenos cartazes côr de violeta; mas pelo meio dia elles tornavam a apparecer espalhados pelo chão. Da cidade vieram policias da secreta que ás esquinas espiavam os menores movimentos dos operarios que iam e vinham, animados, alegres, pelas ruas.

Era um prazer disfructar a impotencia da policia; até a gente de idade dizia, sorrindo:

—Tem graça isto!

Pavel e André quasi não dormiam. Regressavam a casa, palidos, fatigados, pouco antes do apito da fabrica soltar a sua estridula chamada. Pélagué sabia que elles organisavam reuniões na floresta, no pantano; não ignorava que a policia trabalhava para abafar o movimento, chegando até a prender alguns operarios; compreendia que todas as noites o filho e André se arriscavam a serem presos, e chegava a pensar que talvez isto fosse melhor.

Em volta do assassinio de Isaías tinha-se feito um silencio extraordinario. A policia interrogou a principio umas dez pessoas; depois desinteressou-se do assunto.

Um dia, Maria Korsounova, que vivia em paz com a policia como com toda a gente, dizia:

—É lá possivel encontrar o criminoso!... N’aquella manhã mais de cem pessoas viram o Isaías, e pelo menos noventa tel-o-iam esganado de bôa vontade.

...André transformava-se a olhos visto. As faces tinham-se-lhe encovado; as palpebras descaíam-lhe cerrando-lhe os olhos; sorria menos; das narinas descia-lhe uma ruga até ao canto dos labios. Todavia entusiasmava-se mais, falando do futuro, da festa luminosa e deslumbrante do triunfo da liberdade e da razão.

Falando de Isaías, declarou:

—Quanto mais penso n’elle, mais dó me causa. Não queria que o matassem, não! não queria!

—Acaba com isso! disse Pavel.

Pélagué acrescentou:

—Houve quem topasse n’um tronco pôdre, que se desfez em pó.

...Chegou emfim o dia tão impacientemente desejado: o primeiro de maio.

Como de costume, o apito da fabrica fez-se ouvir auctoritario, implacavel. Pélagué levantou-se d’um salto e foi accender o samovar, que ficára preparado de vespera.

—Ouves, Pavel? Chamam por nós... disse André.

—E nós levantamo-nos! respondeu Pavel alegremente.

—Já faz sol... e as nuvens vão-se embora. Seriam de mais, hoje!

Ao vêl-o perto de si, a velha supplicou-lhe:

—Meu André, não te afastes d’elle!

—Está dito! Andaremos sempre juntos. Descanse.

—Que estão a dizer? perguntou Pavel.

—Nada. É a mãe que quer que eu me lave mais que de costume, porque as raparigas hoje vão olhar muito para mim!

Pélagué pensava: «Elles agora estão de brincadeira; mas o que acontecerá ao meio dia?»

Á meza, tomando o chá, André contou:

—Quando eu era um garoto de dez annos, tive um dia a ambição de apanhar um raio de sol com o meu copo. Parti o copo, cortei a mão, e levei pancada. Saí depois para o pateo, e como o sol se reflectisse n’uma poça d’agua, saltei n’ella aos pulos. Levei mais pancada porque fiquei coberto de lama. Berrei para o sol: «Isto não faz mal! seu diabo ruivo! isto não faz mal!» E deitei-lhe a lingua de fóra, por vingança.

—Porque lhe chamavas diabo ruivo?

—Defronte de nós morava um ferreiro de cara vermelhaça e barba ruiva; era um rapagão sempre alegre; e eu achava que o sol se parecia com elle.

Pélagué exclamou:

—Ora esta! Pois não seria melhor que falassem do que vão fazer?

—Está tudo organisado! replicou o filho.

—No caso de sermos presos, mãesinha, o Nicolao Ivanovitch virá dizer-lhe o que tem a fazer, auxiliando-a em tudo.

O apito da fabrica tinha tocado de novo, mas dir-se-ia já menos firme, como receoso.

Pavel aventou:

—Se fossemos para a rua?...

—Não. Deixa-te estar em casa até á hora... aconselhou André. Para que has de atrahír a attenção da policia, que te conhece perfeitamente?

...Fédia Mazine entrou radiante.

—O povo já se mexe... Pelas ruas, as caras andam severas como machados. Vessoftchikof, Vassili Goussef e Samoílof estão á porta da fabrica e falam aos operarios... Muitos já voltam para casa. Vamos! são dez horas.

—Vamos! disse Pavel, resoluto.

Pélagué exclamou:

—Arde de impaciencia, como uma vela ao vento!

Levantou-se e passou logo á cosinha para vestir-se.

—Que vae fazer, mãe?

—Arranjar-me para ir tambem!

André lançou um olhar a Pavel, puxando pelo bigode. Rapidamente, elle foi ter com a mãe.

—Não falarei comtigo, nem tu comigo. Está combinado?

—Está combinado! Deus os acompanhe!