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A Mãe

Chapter 34: XXIX
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

XXIX

Pélagué distinguiu á entrada da rua um como pequeno muro, cinzento baixo, composto de seres humanos sem fisionomia e que tapavam a saída da praça.

Era este muro que infundia o receio em toda aquella gente.

—Companheiros! continuava Pavel. A vida inteira está na nossa frente! Não temos outro caminho! Cantemos! P’rá frente!

Respondeu-lhe um silencio esmagador. A bandeira ergueu-se, balouçou, e agitando-se por sobre as cabeças, apontou para o muro cinzento dos soldados. Pélagué estremeceu, fechou os olhos e suspirou: apenas quatro pessôas se tinham destacado da multidão e avançavam: Pavel, André, Samoílof e Mazine.

Ouviu-se a voz trémula de Fédia, cantando:

—«Sois as victimas prostradas!...»

Na grande lucta fatal! continuaram duas vozes como dois suspiros abafados.

E uma voz de commando chegou aos ouvidos de alguns:

—Cruzar baionetas!

O muro cinzento agitou-se, as baionetas fuzilaram no ar, na direcção da bandeira.

—Marche!

—Ahi veem elles! exclamou um vesgo que estivera proximo de Pélagué; e mettendo as mãos nas algibeiras, afastou-se com grandes pernadas.

Os soldados avançavam em fila, de baioneta calada. Pélagué approximou-se do filho, com as mãos no peito e viu André collocar-se na frente d’elle, como para protegel-o.

—Ao meu lado, companheiro! ordenou Pavel.

Com as mãos nas costas, André cantava, de cabeça erguida, avançando sempre. Pavel deu-lhe um encontrão com o hombro, exclamando:

—Aqui! ao meu lado! Não tens o direito de ir á minha frente! O primeiro deve ser o porta-bandeira!

—Dis... per... sae!... gritava um officialsito com voz aguda, de sabre no ar, marchando sem dobrar os joelhos e batendo com os tacões, raivoso.

A seu lado, um pouco atraz, marchava pesadamente um homem muito alto de farto bigode branco, com uma grande capa cinzenta, debruada de vermelho, e as amplas calças listradas de amarello. Como o russo-menor, caminhava com as mãos nas costas. Tinha os olhos cravados em Pavel.

Os da bandeira e os soldados iam-se approximando; estes, no seu caminho, iam fazendo dispersar a multidão sem lhe tocar.

—Salve-se quem puder!

—Vem, Vlassof!

—Para traz, Pavel!

—Dá cá a bandeira, Pavel! dizia Vessoftchikof. Eu a escondo.

E deitou-lhe a mão.

—Deixa! berrou Pavel.

O bexigoso retirou logo a mão, como se se tivesse queimado. O hymno cessára de todo. Os rapazes pararam, envolvendo Pavel n’um circulo, que elle acabou por transpor.

Sob a bandeira haveria, quando muito, uns vinte homens; mas firmes.

—Tenente, prenda aquelle! ordenou o velho alto apontando para Pavel.

O officialsito accorreu logo, e agarrou no pao da bandeira.

—Dá cá isso!

—Não! Abaixo os oppressores do povo!

A bandeira tremia; inclinava-se ora para a direita, ora para a esquerda, ficando depois erecta. Vessoftchikof passou pela frente de Pélagué, com o braço erguido, de punho cerrado, e com uma rapidez que ella não lhe conheceu.

—Agarrem todos! berrou o velho, batendo com o pé.

Alguns soldados avançaram, um d’elles com a coronha no ar; a bandeira estremeceu, baixou e desappareceu no grupo cinzento.

Pélagué soltou um grito, um rugido que não tinha nada de humano. Aos ouvidos chegou-lhe a voz do filho:

—Até á vista, mãe! até á vista!

«Está vivo! não se esqueceu de mim!» taes foram os seus dois rapidos pensamentos.

Poz-se nos bicos dos pés e conseguiu ver a cara de André.

—Meus filhos, meus queridos filhos! André! Pavel!

E elles iam dizendo:

—Até á vista, companheiros!

Algumas vozes lhes responderam, mas não em unisono; vinham das janellas, dos telhados, não se sabia d’onde.