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A Mãe

Chapter 40: IV
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

IV

Quatro dias depois, apresentavam-se a Nicolao as duas mulheres pobremente vestidas de saias de chita já usadas, de cajados na mão e alforge ao hombro. Este trajo tornava Sofia mais baixa e dava-lhe á fisionomia uma expressão de austeridade.

—Parece que passas a vida a jornadear de convento em convento! disse-lhe o irmão.

E ao despedir-se d’ella, apertou-lhe a mão com energia. Mais uma vez, notou a velha esta simplicidade e esta calma. Decididamente, não eram pródigos de beijos nem de demonstrações de estima, e comtudo, mostravam-se tão sinceros um para o outro, tão sollicitos para com os estranhos! Porque nos meios onde Pélagué vivera, todos se beijavam muito, todos se animavam com bonitas palavras, o que não impedia que se mordessem como cães damnados.

Atravessaram as viandantes a cidade, alcançaram o campo e tomaram a vasta estrada bem calcetada, orlada de velhas bétulas.

—Não estará cansada? inquiriu a mais idosa.

—Julga que não estou costumada a andar? Pois engana-se...

Jovialmente, por entre risadinhas, como se tratasse de travessuras de criança, Sofia entrou de contar os seus feitos de revolucionária. Vivera já com um nome supposto, servindo-se para isso d’um passaporte falsificado; disfarçára-se para fugir aos espiões, transportára para diversas cidades muitos quintaes de brochuras proíbidas. Tinha arranjado a fuga a muitos companheiros exilados, acompanhára-os ao estrangeiro. De uma vez, montára na sua própria casa uma imprensa clandestina; e quando os gendarmes, sob denuncia do delicto, tinham vindo proceder ás buscas, disfarçara-se ella de criada, minutos antes d’elles chegarem e saíra, cruzando-se com os inquisidores já no limiar do predio. Sem uma capa, com uma simples mantilha pela cabeça e de amotolia de petroleo em punho, percorrera de outra vez a cidade de extremo a extremo, sob um frio rigoroso, em pleno inverno. D’outra occasião, porque se tivesse dirigido a casa de uns correligionarios, n’uma cidade distante, ia a subir a escada quando percebeu que havia lá policia, varejando. Era tarde para saír do prédio; bateu portanto com o maior atrevimento, no andar de baixo. Entrou em casa de gente que não conhecia, de mala na mão, e tratou de pôr a claro o acontecido.

—Os senhores podem denunciar-me se quizerem, mas não os julgo capazes d’isso declarára ella convictamente.

Atrapalhadissimos, não fecharam os olhos toda aquella noite, julgando a todo o momento que lhes vinham bater á porta. Comtudo, não a denunciaram e, chegada a manhã, mangaram, como ella, com a polícia. Tambem lhe acontecera vestir-se de irmã da caridade e fazer viagem no mesmo compartimento e no mesmo assento do vagon em que ia um espião encarregado de lhe seguir a pista, o qual, para fazer valer a sua esperteza, se lhe puzera a contar como era que procedia em tal diligencia. Estava certo o homem de que Sofia ia n’aquelle comboio, em segunda classe: e a cada nova paragem, descia e commentava regressando para o pé da pseudo religiosa:

—Não a vejo... Provavelmente vae a dormir. É que essa gente tambem cansa... Levam uma vida tão dura... tal qual a nossa!

A outra ria com estas historias, olhava para Sofia com affecto. Alta e magra, a joven senhora caminhava com passo leve mas firme; tinha os pés fortes e bem feitos. Na maneira de andar, no falar, no proprio timbre da voz, decidida se bem que um pouco baça, em toda a sua figura esbelta, transparecia uma como bôa saude moral, uma audacia alegre, um desejo de ar e de espaço, e os seus olhares para tudo se dirigiam com uma expressão de juvenil contentamento.

—Olhe aquelle pinheiro tão bonito! exclamou, mostrando uma arvore á sua companheira, que parou para vêl-a. Mas o pinheiro, afinal, não era nem maior nem mais folhudo que os outros.

—É verdade, bonita arvore! repetiu, risonha.

—Olhe uma cotovia!

E os olhos pardos de Sofia brilharam de satisfação. Ás vezes, com movimentos flexuosos, baixava-se, apanhava uma flôr e acariciava-lhe amorosamente as petalas tremulas com o ligeiro contacto dos seus dedos afusados e ageis. E trauteava canções meigas.

Pelo caminho, cruzavam-se com peões ou campónios empoleirados nas suas carroçadas, que lhes diziam:

—A paz seja comvosco!

Brilhava um lindo sol primaveril; todo o vasto azul resplandecia; aos dois lados da estrada, estendiam-se densas florestas de madeiras resinosas, herdades de um verde muito vivo; cantavam passaros, o ar tepido e perfumado acariciava brandamente as faces.

Tudo contribuia para approximar Pélagué d’aquella mulher de alma e de olhos tão limpidos; e involuntariamente, chegava-se mais para ella, esforçando-se por igualar a sua andadura pela d’ella. Comtudo, ás vezes, destacava-se das frases de Sofia uma expressão demasiado viva, demasiado sonora, que a Pélagué se afigurava superflua. Então, era tomada de inquietação:

—Estou vendo que não vae agradar ao Rybine...

Mas um instante depois, Sofia voltava a falar com simplicidade, cordialmente, e ella de novo a olhava com ternura.

—Como é nova ainda! suspirou.

—Ora! olhe que já tenho trinta e dois!

A outra riu.

—Não é isso que quero dizer... Á primeira vista parece ter mais idade... mas quando se repara nos seus olhos, quando a ouvimos falar, fica-se muito admirado, parece uma menina... A sua vida é desasocegada, penosa, cheia de perigos... e todavia, tem o coração alegre...

—Não vejo em que a minha vida seja penosa, nem posso imaginar outra mais interessante e melhor do que esta...

—E quem ha de recompensal-a dos seus trabalhos?

—Se já estamos recompensados! respondeu Sofia, em tom que á outra pareceu denunciar fundo orgulho. Arranjámos uma existencia que nos satisfaz; que mais havemos de desejar?

A mãe olhou para ella furtivamente e baixou a cabeça, repetindo a si mesma:

—Não vae gostar nada d’ella, o Rybine...

Aspirando a plenos pulmões o ar tepido, as duas mulheres caminhavam em passo lento mas firme. A Pélagué parecia-lhe que andava em romaria. Lembrava-lhe aquillo a sua meninice e a pura felicidade que a animava quando, nos dias de festa, partia da aldeia em direcção a algum mosteiro, onde houvesse uma imagem milagrosa.

De vez em quando, Sofia entoava com a sua voz novas canções em que se falava de amôr e do Ceu; outras vezes, punha-se de subito a declamar estrofes celebres que celebravam os campos e as florestas, o Volga; e a outra escutava-a, prazenteira, meneando, sem dar por isso, a cabeça ao rythmo do verso, cuja melodia a enfeitiçava.

N’aquelle coração, tudo era paz, carinho e doçura, como n’um velho jardinsinho, n’uma tarde de estio.