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A Mãe

Chapter 42: VI
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

VI

Á noitinha, voltaram os quatro operarios, satisfeitos por verem terminado o seu dia. Ao ruido das vozes, Pélagué, accordou, veio á porta da cabana, risonha, bocejando.

—Vocês a trabalharem e eu a dormir como uma fidalga! disse, fitando-os affectuosamente a todos.

—Não faz mal, nós perdoamos-te, disse Rybine.

Mostrava-se mais socegado do que ao jantar; o cansaço dissipára o seu excesso de agitação.

—Ignaty! ordenou. Arranja a ceia. Cada um trata da casa, por sua vez. Hoje é ao Ignaty que compete dar-nos de comer e de beber... Ora ahi está!

—De bom grado cedia hoje a minha vez a outro qualquer, declarou Ignaty. E, emquanto procurava distinguir a conversa, começou a apanhar aparas, afim de accender o lume.

—As visitas são sempre interessantes para toda a gente! confirmou Jéfim, sentando-se ao lado de Sofia.

—Eu te ajudo, Ignaty! disse Jacob.

Penetrou na choça e de lá trouxe um pão redondo. Partiu-o em fatias.

—Schiu! murmurou Jéfim, oiço tossir...

Rybine apurou o ouvido e disse:

—É elle que chega.

E, voltado para Sofia, explicou:

—Vae ouvir uma testemunha. A minha vontade era poder leval-o a essas cidades, pôl-o em exposição por essas praças, e o povo que fôsse ouvil-o... Diz sempre o mesmo, mas é digno de ser ouvido!...

Silencio e escuridão tornavam-se mais profundos; as vozes ecoavam com mais suavidade. Sofia e Pélagué seguiam com o olhar os camponezes a moverem-se pesadamente, mas de vagar, com singular prudencia.

Do bosque surgiu um homem corcovado, de alta estatura, caminhando apoiado com todo o seu peso a uma bengala. Ouvia-se-lhe o ruido da respiração rouca.

—Ahi vem o Savely! exclamou Jacob.

—Aqui me têm! disse o homem, parando, saccudido por um accesso de tosse.

Vestia um sobretudo usado que lhe cahia até aos pés; de sob o chapeu redondo e muito velho, saíam-lhe em madeixas ténues uns cabellos amarellentos e asperos. Cobria-lhe o rosto ossudo e pallido uma barba loira; a bocca aberta, os olhos com um brilho de febre, nas orbitas profundamente cavadas, como no fundo de sombrias cavernas.

Apresentado a Sofia, perguntou:

—Segundo parece, trouxe livros para o povo lêr?

—Sim, senhor.

—Agradeço-lh’o... pelo povo. O povo não pode ainda compreender o livro da verdade... ainda não póde agradecer-lhe como merece; mas eu que o compreendi já, agradeço-lhe em nome do povo.

Respirava com avidez, absorvendo o ar em pequenas golfadas repetidas. Falava a espaços.

Os dedos descarnados das diafanas mãos, perpassava-os pelo peito, tentando abotoar o sobretudo.

—Póde ser-lhe doentio, para si, este passeio tão tarde, pela floresta... Ha muita humidade e suffoca-se, ali! fez notar Sofia.

—Para mim já nada ha salubre ou doentio! respondeu, offegante. Só a morte será bemvinda.

Era doloroso ouvir falar aquelle homem, tanto mais que toda a sua pessoa provocava dó, uma compaixão infinita mas improficua. Agachou-se sobre uma barrica, dobrando os joelhos com precaução, como se receasse que se quebrassem; depois, enxugou a fronte, coberta de suor. Tinha os cabellos seccos e sem viço.

O lume começava a atear-se. Ao clarão das chammas tudo se deslocou; as sombras, lambidas pelas labaredas, fugiam assustadas pela floresta. Por cima do brazeiro appareceu por instantes a cara redonda d’Ignaty, a soprar. Depois, apagado o lume, ficou persistente o cheiro do fumo, e o silencio e as trevas apoderaram-se de novo da clareira, como se viessem apurar o ouvido para o falar rouco do doente.

—Mas ainda posso ser util ao povo... Sim, como o testemunho d’um enorme crime! Olhem para mim! Tenho vinte e oito annos e ando a morrer... Ha dez annos, levantava nos hombros, sem me custar, até duzentos kilos... Pensava eu então que com uma saude d’aquellas, havia de levar setenta annos para chegar á cova, direito e sem tropeçar... E afinal vivi dez... e não posso ir mais longe.

—Ahi têm a canção d’este homem! disse Rybine com voz rancorosa.

Reaccendeu-se mais viva a fogueira; de novo as sombras debandaram, para se sumirem nas chammas, agitando-se em torno do brazeiro n’uma dansa silenciosa e hostil. Sob a mordedura do lume, os velhos troncos estralejavam e gemiam. A folhagem susurrava em segredo, agitada por uma corrente d’ar quente. Vivas e folgazãs, as linguas de fogo purpureas e doiradas brincavam, abraçavam-se, erguiam-se, despedindo faíscas. Voou uma folha em braza. No ceu, as estrellas sorriam para as scentelhas, attraíndo-as a si.

—Não é só minha esta canção; ha milhares de creaturas que tambem a cantam, mas só para si! E cantam-na só para si porque não compreendem que as suas miseraveis existencias são uma lição salutar para o povo... Quantos seres minados ou estropiados pelo trabalho e pela cadeia, não morrem para ahi de fome, sem um queixume!... É preciso gritar bem alto, companheiros, é preciso gritar!

E Savely entrou a tossir, todo curvado e tremulo.

Jacob poz na mesa uma caneca de koass[2] e atirou para o lado um molho de cebolas, e disse ao enfermo:

—Anda, Savely, trouxe leite para ti.

O outro abanou negativamente a cabeça; mas Jacob agarrou-o por debaixo dos braços e fêl-o sentar á mesa.

—Oiçam, disse Sofia a Rybine, em voz baixa e em tom de censura, para que o obrigaram a vir? Póde morrer d’um momento para o outro.

—É certo, replicou Rybine. Mas mais vale morrer rodeado de amigos; ser-lhe-á menos doloroso

do que na solidão. Tem soffrido muito na sua vida; pois que soffra ainda mais um pouco para servir de aviso aos homens... Que lhe póde fazer isso? Ali está!

—Chega a parecer que se desinteressa d’elle com horror pelos seus soffrimentos, exclamou Sofia.

Rybine lançou-lhe rapido olhar e respondeu com modos sombrios:

—Só os fidalgos é que se recreiam com o espectaculo do Christo a gemer na sua cruz; mas nós outros, nós queremos estudar os homens ao vivo e gostavamos que a senhora tambem apprendesse a conhecel-os...

O enfermo retomou a palavra:

—Destroe-se um homem com o trabalho, dá-se cabo d’elle com a prisão... e porquê? O nosso patrão—era na fabrica Nefédof que eu trabalhava á doida—o nosso patrão deu a uma cançonetista uma grande bacia de mãos e mais uma bacia de cama tudo de oiro... E foi em tal vaso que ficaram as nossas forças, as nossas vidas... as minhas e as de milhares d’outros. Ahi têem para que ellas serviram!

—O homem foi creado á imagem e semelhança de Deus! disse Jéfim, sorrindo—e ahi está o emprego que lhe dão... não vae mal!

—É necessario gritar isso! exclamou Rybine com violenta palmada na mesa.

—Não devemos supportal-o! accrescentou Jacob mais baixo.

Ignaty limitou-se a sorrir.

Notava a velha que os trez operarios falavam pouco, mas escutavam com uma attenção insaciavel d’almas sequiosas. De cada vez que Rybine abria a bocca, fitavam-no, copiavam-lhe os menores movimentos. As frases de Savely, porém, provocavam-lhes singulares tregeitos de enfado. Dir-se-ia não sentirem dó algum do enfermo.

E Pélagué inclinando-se ao ouvido de Sofia, perguntou baixinho:

—É certo o que elle conta?

Sofia respondeu em voz muito alta:

—É certo, sim senhora! Os jornaes falaram do caso; foi em Moscou que isso se deu.

—E esse homem não foi castigado! disse Rybine com ódio. Devia ter sido punido; precisava que o levassem a uma praça publica e ali cortal-o aos bocados, atirando aos caes essa carne immunda! Grandes castigos se hão de vêr, quando o povo se levantar!

—Que frio que faz! disse o tisico.

Ajudou-o Jacob a levantar e a chegar-se para o lume.

A fogueira ardia em clarão uniforme e vivo. Sombras imprecisas erravam em torno, contemplando surprezas o brinquedo das labaredas. Savely, sentou-se n’um cepo e offereceu ao calor as mãos seccas e transparentes. Rybine designou-o com um gesto do mento, e disse para Sofia:

—Sabe mais do que um livro! Eu é que o conheço... Quando uma máquina arranca um braço ou mata um homem, compreende-se; é sempre do homem a culpa. Mas sugar o sangue d’um homem e atira-lo depois á margem como uma coisa pôdre, isso é que não se explica.

—Sim... pronunciou com lentidão Ignaty, não se explica... Um chefe de districto conheci eu, que obrigava a gente do campo a cumprimentar-lhe o cavallo, quando o levavam a passeio pela aldeia, e que punha a ferros quem desobedecesse. Para que lhe servia aquillo?... É o que tambem não se explica!

Depois de comerem, fizeram roda junto á fogueira. Diante d’elles o lume ardia, devorando rapidamente a lenha; por detraz, ceu e floresta envolviam-se na treva. O estropiado fixava no lume os olhos esgazeados, tossia sem descanso, com grandes arrepios. Parecia que do peito lhe saíam pedaços da propria vida, solertes em abandonar aquelle corpo esqualido. Dansavam-lhe no rosto reflexos do fogo sem que lhe colorissem a pelle fenecida. Só os olhos scintillavam n’uma coruscação azulada, bruxuleante.

—Talvez preferisses abrigar-te na cabana, an, Savely? lembrou Jacob, inclinando-se-lhe no hombro.

—Para quê? respondeu esforçadamente. Quero ficar aqui. Já não tenho muito tempo a viver entre os homens... Não, não tenho para muito tempo.

Vagueiou o olhar em volta, ficou um bocado calado e proseguiu, com um sorriso palido:

—Sinto-me bem entre vocês. Estou-os vendo e estou a pensar que talvez sejam vocês que hão de vingar todos os que foram maltratados... o povo inteiro!

Ninguem lhe respondeu. E d’ahi a pouco, a cabeça pendia-lhe para o peito e entrou a dormitar. Rybine considerou-o demoradamente e disse meio em segredo:

—É sempre assim quando vem visitar-nos; senta-se para ahi e conta sempre a mesma coisa.

—Aborrece ouvil-o repetir-se! murmurou Ignaty. Bastava ouvir uma vez essa historia para não a esquecer e elle sempre a moêl-a!

—É que para elle, n’essa historia, tudo se resume, a sua vida inteira, compreende-o bem! justificou Rybine, soturno. E da mesma sorte a vida de toda uma legião de seres. Ouvi-lhe essa historia dezenas de vezes já, e, ainda assim, acontece-me ter certas dúvidas. Ha horas de bondade em que a gente se recusa a crêr na vilania do homem, ou na sua loucura, e em que se sente compaixão por todos, ricos e pobres... porque o rico tambem é um transviado do bom caminho. A um cega-o a fome, ao outro, o dinheiro... E então, a gente pensa:

«Homens, meus irmãos! Desentorpeçam esses raciocinios, reflictam com lealdade, reflictam bem».

O doente oscilou estremunhado, abriu os olhos e deitou-se sobre a terra. Sem ruido, Jacob levantou-se, foi á cabana buscar um pequeno agasalho de pelles, e estendeu-lho por cima. Depois, retomou o seu logar ao lado de Sofia.

Ás vozes dos homens misturavam-se o surdo crepitar da lenha e o murmurio das labaredas; e aquelle lume, qual rosto rubicundo, parecia sorrir-se com malicia para os sombrios vultos que lhe faziam circulo.

Falou então Sofia da lucta dos povos em prol do direito á vida e á liberdade, dos remotos combates dos rusticos da Allemanha, dos infortunios dos irlandezes, dos feitos do operariado francez.

Sob a floresta, revestida de veludos, na pequena rotunda limitada pelos majestaticos arvoredos, sob a abobada do negro firmamento, perante a risonha lareira, em meio d’aquelle grupo de sombras hostis e assombradas, ressuscitavam os acontecimentos que haviam revolucionado o mundo dos saciados, dos entes tresloucados pela cubiça; desfilavam uns após outros, os povos da terra, sangrentos, esgottados em mil combates; celebravam-se os nomes dos heroes da liberdade e da justiça...

Aquella debil voz de mulher ecoava mansamente, como se viesse do passado; instigava esperanças, inspirava confianças. O auditorio escutava religiosamente aquella melopeia, a vasta historia dos seus irmãos espirituaes. Todos fitavam o rosto pálido e magro da narradora, correspondiam com sorrisos ao sorrir dos olhos cinzentos. E com mais viva luz brilhava para elles a sagrada causa da humanidade; nos seus peitos medrava mais e mais o sentimento do parentesco moral com os seus irmãos do mundo inteiro; um novo coração nascia para elles na propria terra e ardiam no desejo de tudo compreenderem, de tudo resumirem n’elle.

—Ha de chegar o dia em que os povos todos levantarão cabeça, bradando: «Basta! não queremos continuar n’esta vida!» proclamou Sofia com voz sonora, e então ha de desabar o ficticio poder d’aquelles que só na avidez encontram a sua força, a terra fugir-lhes-á debaixo dos pés e ficarão sem saber em que apoiar-se.

—É o que ha de acontecer! affirmou Rybine, de cabeça baixa. Que ninguem poupe as suas forças e tudo vae de vencida!

Pélagué escutava, arregalando muito as sobrancelhas e com um sorriso de surpreza nervosa. Estava a ver que tudo o que nas maneiras de Sofia lhe parecia insolito, a sua audacia, a sua extrema vivacidade, tudo desapparecera, como submerso no fluxo regular e entusiástico das suas palavras. A noite silenciosa, o revolutear do lume, a fisionomia da joven oradora, interessavam-na; mas o que a deleitava principalmente era a absorta attenção dos campónios. Permaneciam immoveis, esforçando-se por não perturbarem fôsse com o que fôsse o desenvolvimento sereno do discurso; dir-se-ia n’elles um receio de quebrarem o fio luminoso que os ligava ao mundo. De tempos a tempos, um d’elles collocava com precaução uma nova acha no lume; e dispersava com a mão as faúlhas e o fumo, para que não incommodassem Sofia.

Ao romper da aurora, Sofia calou-se, fatigada, e attentou, sorrindo, nos rostos pensativos e tranquilisados que a cercavam.

—É tempo de partirmos, disse a velha.

—Vamos! respondeu Sofia com expressão de cansaço.

Um dos operarios suspirou ruidosamente.

—É pena que se vão! declarou Rybine com desacostumada meiguice. A senhora fala tão bem! Grande coisa é ligar as creaturas pela sorte commum! Quando a gente pensa que ha milhões de sêres a quererem o mesmo que nós queremos, o coração torna-se bom... E ha tanta força na bondade!

—E quando se procede com bondade, pagam-nos com a violencia! protestou Jéfim n’uma risadinha e pondo-se de pé com presteza. É bom que ellas se vão, tio Mikhaíl, antes que sejam vistas... Quando os livros estiverem distribuidos pelo povo, as autoridades hão de indagar d’onde vieram... E póde alguem lembrar-se das peregrinas e denunciál-as...

—Obrigado pelo incommodo, mãe! disse Rybine interrompendo Jéfim. Sempre que olho para ti me lembro do Pavel... Fizeste bem em seguir-lhe o exemplo...

Inteiramente apaziguado agora, esboçava franco e amigavel sorriso. Fazia fresco; no emtanto, conservava-se de blusa, o cós entreaberto, o peito á mostra. Pélagué attentou-lhe no robusto corpo e aconselhou, sollicita:

—Devias agasalhar-te, faz frio.

—Se eu estou tão quente cá por dentro! objectou.

De pé, junto do fogo, os trez rapazes conversavam baixo; aos pés d’elles, dormia o doente, embrulhado nas pelles. Branqueava-se o ceu, fundiam-se as sombras. Tremula, a folhagem aguardava o sol.

—Está bem, adeus! disse Rybine, apertando a mão de Sofia. Como hei de perguntar por si, na cidade?

—Basta que me procures, responde Pélagué.

Lentamente, em um só grupo, vieram os operarios apertar a mão de Sofia com expressões desastradas, de affecto. Em cada um d’elles transparecia secreta gratidão e amisade, e tal sentimento, novo como era para elles, desconcertava-os. Com os olhos prazenteiros e amortecidos pela insomnia, consideravam Sofia, firmando-se ora n’um pé, ora no outro.

—Querem beber uma gota de leite antes de partirem? offereceu Jacob.

—Ainda ficou algum? interrogou Jéfim.

—Um pouco.

Mas Ignaty, confuso, declarou, coçando a cabeça:

—Não ha; eu entornei-o.

E todos os trez se puzeram a rir.

Falavam no leite, mas Pélagué percebia que pensavam em coisa bem diversa; que ambicionavam para Sofia e para si propria todas as felicidades possiveis, mas sem poderem expressar-se. Sofia estava visivelmente commovida, e a sua perturbação era tal, que apenas conseguiu dizer em tom de voz humilde:

—Obrigada, companheiros!

Entreolharam-se, como se este tratamento os tivesse feito cambalear de prazer.

Ouviu-se um accesso de voz rouca do enfermo. No lume extinguiam-se os brazidos.

Até mais vêr! disseram os campónios a meia voz; e os adeuses melancolicos de todos acompanharam por muito tempo as duas mulheres.

Vagarosamente estas embrenharam-se por um atalho da floresta, á claridade da aurora.

Entraram a falar de Rybine, do doente, dos operarios, que sabiam conservar tão attencioso silencio e que haviam exprimido sentimentos de reconhecida amisade por fórma desgeitosa mas eloquente, dispensando ás duas mulheres mil cuidados. Entraram no campo. O sol vinha-lhes ao encontro. Invisivel ainda, o astro abrira no céu um leque diáfano de purpureos raios; pela herva scintillavam gotas de rócio em multicolores lumes de alegria viva e primaveril. Despertavam os passaros e animavam a aurora com gritos joviaes.

Com o seu grasnar pressuroso, corpulentos corvos voavam para longe, agitando pesadamente as azas; pelos campos semeados já desde o outono, outros corvos de lustrosa plumagem, saltitavam, tagarelando em vozes ritmadas; perto, andava um verdelhão a assobiar, inquieto. Desanuviavam-se os longes e acolhiam o sol, apagando as sombras nouturnas das cumieiras.

NOTAS DE RODAPÉ:

[2] Bebida em uso entre o povo da Russia, obtida pela fermentação de um cosimento de farinha de cevada.—N. do T.