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A Mãe

Chapter 46: IX
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

IX

Foi recebida por Nicolao com um grito de mal contida inquietação.

—Sabe? O Iégor está muito mal! Levaram-no para o hospital; a Lioudmila veio cá pedir que fôsse ter com ella.

—Ao hospital?

Nicolao, depois de ter ajustado os oculos, em movimento nervoso, ajudou-a a vestir um casaco, apertou-lhe a mão entre as suas, seccas e febris, e, em voz trémula:

—Sim! Leve este embrulho comsigo. O Vessoftchikof ficou em segurança?

—Sim, tudo vae pelo melhor...

—Tambem hei de ir vêr o Iégor...

Pelagué estava tão cansada, que sentia a cabeça a andar-lhe á roda; a inquietação de Nicolao dava-lhe a presentir um drama.

—Vae morrer!... Vae morrer! dizia comsigo; e esta sombria idéa martelava-lhe no cerebro.

Mas quando entrou no quartosinho alegre e muito aceiado do hospital e viu o Iégor a rir de manso, sentado em meio d’um montão de almofadas brancas, socegou de pronto. Parou á porta a sorrir-lhe e ouviu o doente dizer ao medico:

—O remedio, é uma reforma!

—Não diga tolices, Iégor! obtemperou o doutor em tom appreensivo.

—E eu, que sou revolucionario, detesto as reformas!...

Certamente, o medico tomou a mão do doente e collocou-lha sobre o joelho; em seguida, levantou-se, poz-se a puxar pelas barbas, emquanto ia apalpando com um dedo os entumecimentos do rosto de Iégor.

Pélagué conhecia bem o doutor por ser um dos melhores camaradas de Nicolao. Approximou-se de Iégor, que, ao vel-o, lhe deitou a lingua de fóra. O medico voltou-se.

—Ah, é vocemecê?... Viva!... Sente-se. Que traz ahi?

—Livros, parece-me.

—Não póde ler declarou, o medico.

—Quer que eu fique parvo de todo! choramigou Iégor.

—Cala-te! ordenou. E poz-se a escrever qualquer coisa na carteira.

Do peito do doente exalavam-se breves suspiros forçados, de mistura com saliva, n’um estertor, violento; tinha o rosto coberto de camarinhas de suor, que elle enxugava de vez em quando, erguendo muito devagar as pesadas mãos, quasi inconscientes. A singular immobilidade das faces inchadissimas descompunha a expressão de bonhomia da sua ampla cara, onde as feições haviam desapparecido sob uma mascara cadaverica; e só os olhos, profundamente cavados entre os inchaços, conservavam um olhar puro e sorriam com condescendencia.

—An?! Esta sciencia!... Já não posso mais... Deito-me, doutor? perguntou elle.

—Não! respondeu com brevidade o medico.

—Então deito-me quando tu te fôres embora!

—Não lh’o consinta, mulhersinha. Arranje-lhe as almofadas. E tome muito cuidado, não o deixe falar, peço-lhe; faz-lhe muito mal.

Pélagué fez um aceno. O medico saíu em passinhos rapidos. Iégor deitou a cabeça para traz, fechou os olhos e ficou sem movimento; só os dedos se lhe agitavam um pouco. Das paredes brancas da cellasinha exalava-se um frio secco e uma tristeza velada e pálida. Pela alta janella divisavam-se os cumes ondulados das tilias; por entre a folhagem poeirenta e sombría destacavam-se vivamente manchas amarellas: eram as frias primicias do outomno, que chegava...

—Vem para mim a morte, devagar, como que sem vontade! disse Iégor, sem bulir e sem abrir os olhos. Parece que tem pena de mim!... Pois se eu era um bom rapaz, de bom genio!...

—Cala-te, Iégor! supplicou Pélagué, afagando-lhe a mão ternamente.

—Espere um pouco, mãesinha, eu vou-me calar...

E, offegante, continuou com esforço immenso a articular palavras entrecortadas de longas pausas:

—Gosto muito que vocemecê esteja comnosco, mãesinha... É-me muito agradavel ver a sua fisionomia, os seus olhos tão vivos, a sua candura... Quando a vejo, pergunto a mim mesmo: «Como irá ella acabar?» E fico triste, a pensar que a espera a cadeia, ou o degredo, toda a especie d’abominações... como os outros... Não tem medo da prisão?

—Não! respondeu ella com simplicidade.

—Está claro!... E, comtudo, a prisão... é nojenta coisa... foi ella que me matou... Porque, para falar com franqueza, eu não tenho vontade de morrer.

Ella sentiu desejo de responder: «Talvez não morras ainda,» mas calou-se e ficou a olhar para elle.

—Podia ainda fazer alguma coisa pelo bem do povo... Mas quando a gente já não póde trabalhar, é impossivel viver, é uma estupidez!

Á memoria da velha accudiram então estas palavras de André: «Isso é verdade, mas não é consolador!» Suspirou. Sentia-se fatigadissima e com fome. O murmurar monotono e rouco do doente resoava triste pelo quarto, como que rastejando, impotente, por sobre a lisura das paredes. A folhagem das tilias fazia pensar em nuvens que tivessem descido á terra, e impressionava pelo seus tons carregados e melancolicos. Tudo, em volta, se congelava singularmente em tristonha immobilidade, n’aquella desconfortante espectativa da morte.

—Como me sinto mal! disse Iégor. E calou-se, fechando os olhos.

—Dorme! aconselhou ella. Talvez te faça bem.

Apurou por alguns instantes o ouvido para a respiração do doente e relanceou o olhar em torno de si. Invadida por glacial tristeza, entrou a dormitar.

...Despertou-a um ruido de vestidos roçagantes. Estremeceu ao ver Iégor accordado, com os olhos muito abertos.

—Deixei-me dormir... desculpa! disse em voz baixa.

—E tu, tambem, perdôa-me! replicou elle igualmente n’um murmurio.

Pela janella, entrava o crepusculo; um frio nevoento opprimia a vista; tudo se fundia em singular opacidade; o rosto do doente tomava tons mais sombrios.

De novo se ouviu um roçagar de saias e logo depois a voz de Lioudmila, dizendo:

—Então, aqui ás escuras, a tagarelar?... Onde fica o botão da luz?

E de subito, uma claridade branca e desagradavel innundou o quarto. Lioudmila estava de pé, alta, toda vestida de negro.

Iégor teve um grande estremecimento por todo o corpo e levou a mão ao peito.

—O que é? exclamou Lioudmila, correndo para elle.

Fixou na velha um olhar demorado; parecia ter os olhos enormes, com um brilho estranho.

—Espera... balbuciou o enfermo.

Abriu muito a bocca, ergueu a cabeça e estendeu o braço para diante. Pélagué tomou-lhe a mão com cuidado extremo e fitou-o, contendo a propria respiração. Em movimento convulso e vigoroso, elle projectou a cabeça para traz e disse em alta voz:

—Deixei de existir... está acabado...

Percorreu-lhe o corpo ligeira contracção, a cabeça rolou-lhe lentamente no hombro, e, nos seus olhos esgazeados, a luz da lampada collocada por sobre o leito, espelhou-se com um reflexo frio...

—Meu amigo!... murmurou Pélagué.

Lentamente, Lioudmila afastou-se do leito; parou junto da janella a olhar para fóra e disse n’uma voz singular e sonora, que Pélagué nunca lhe tinha ouvido:

—Morreu...

Ella inclinou-se, apoiou-se á mesinha de cabeceira e entrou de balbuciar com a voz a tremer:

—Morreu... socegadamente... corajosamente... sem um queixume...

E de repente, como se lhe tivessem dado uma pancada na cabeça, deixou-se caír de joelhos, sem forças tapou o rosto com as mãos, e desatou em soluços abafados.

Depois de ter cruzado os braços pesados do morto, sobre o peito e de lhe ageitar nas almofadas a cabeça, extraordinariamente quente, Pélagué avisinhou-se de Lioudmila, curvou-se para ella e afagou-lhe docemente os espessos cabellos, ao mesmo tempo que enxugava as proprias lagrimas. Esta ultima voltou com lentidão para ella os olhos dilatados, febris e balbuciou por entre os labios trémulos:

—Havia muito que o conhecia... Estivemos juntos no degredo, estivemos nas mesmas prisões... Ás vezes, aquella tortura era insupportavel, horrorosa; muitos d’entre nós perdiam o animo e alguns endoideciam...

Comprimiu-lhe a garganta um espasmo violento; dominou-se com esforço, e em seguida, avisinhando do rosto da velha o seu rosto, a que uma nevoa de ternura dolorida dava desconhecida suavidade que o rejuvenescia, proseguiu em rapido murmúrio, com um soluçar sem lagrimas:

—E elle, elle sempre, sempre, andava alegre; nunca se cansava de gracejar, de rir, occultando corajosamente o seu soffrer, esforçando-se por reanimar os fracos... era tão bom, tão sensivel, tão meigo!... Na Siberia, a inacção em que se vive, deprava o espirito e faz nascer maus instinctos. Como elle os sabia combater!... Que companheiro aquelle era; se soubesse! a sua vida particular foi árdua, dolorosa... mas—sei-o bem—nunca ninguem o ouviu queixar... ninguem, nunca! Assim, eu, que era sua intima amiga, devo muito ao seu coração e recebi do seu espirito tudo o que podia dar-me; vivia triste, solitário e, no emtanto, nunca elle me pediu nada em paga, nem carinhos, nem disvelos...

Foi até junto do morto, curvou-se e beijou-lhe a mão.

—Companheiro, meu querido e amado companheiro, disse ella n’uma voz sumida e cheia de desconsolo, agradeço-te de toda a minha alma... Adeus! Trabalharei, como tu fizeste... sem me cansar... sem duvidar... toda a minha vida... pelos que soffrem... Adeus!

Todo o corpo lhe foi saccudido por violentos soluços e, offegante, a cabeça descaíu-lhe sobre o leito, aos pés de Iégor.

Derramava Pélagué bastas lagrimas que lhe queimavam as faces. Procurava retel-as, pois o seu desejo era consolar Lioudmila com um affago especial e animador, falar-lhe do morto com boas palavras repassadas de amor e de tristeza. Por entre o pranto, distinguia o rosto entumecido do defuncto, os olhos fechados, os labios negros, confrangidos em leve sorrisos... Reinava um silencio profundo em meio d’aquella claridade que opprimia.

O medico entrou em passinhos apressados, como sempre; parou bruscamente a meio do quarto, enterrou em rapido gesto as mãos pelas algibeiras e perguntou com voz nervosa e sonora:

—Ha muito tempo?

Ninguem lhe respondeu. Bamboleou-se nas pernas e approximou-se de Iégor, enxugando o suor da testa; apertou a mão do morto e afastou-se novamente.

—Não é para admirar... em vista do estado do coração... Isto já devia ter acontecido ha seis mezes... pelo menos... Sim, com certeza!...

Mas aquelle tom agudo da voz em que a placidez era forçada e a sonoridade fóra de proposito, logo se lhe velou. Encostou-se á parede e poz-se a passar os dedos rapidamente pela barba, olhando alternadamente para as duas mulheres e para o morto, com os olhinhos piscos.

—Mais um!... concluiu brandamente.

Lioudmila ergueu-se e foi abrir a janella. Pélagué como que accordou áquelle ruido e olhou em torno, com um gemido. E um instante depois, o doutor, ella e Lioudmila encontravam-se reunidos no vão da janella, apertados uns contra os outros, a contemplarem o aspecto sombrio d’aquella noite de outono. Por cima do arvoredo, scintillavam as estrellas e pareciam recuar, perdendo-se no negro infinito dos ceus. Lioudmila envolveu o braço de Pélagué com o seu e descansou-lhe a cabeça no hombro, sem uma palavra. O medico limpava a luneta com o lenço. Fóra, os ruidos nouturnos da cidade morriam, abafados, o fresco da noite regelava as faces e agitava os cabellos. Lioudmila sentia arrepios; e as lagrimas escorriam-lhe pelo rosto. Nos corredores do hospital, vagueavam ruidos amortecidos, assustados, passadas pressurosas, gemidos, murmurios desconsolados. Immoveis, á janella, os trez sondavam as trevas, em silencio.

Pélagué sentiu que era ali de mais e, depois de soltar com brandura o braço do da joven senhora, dirigiu-se para a porta, não sem que se inclinasse, ao passar, perante o morto.

—Vae-se embora? perguntou baixo o medico, sem se voltar.

—Vou.

Pela rua fóra, ia pensando em Lioudmila. «Nem ao menos sabe chorar!» dizia ella comsigo, recordando-se da parcimonia das suas lagrimas.

E as ultimas palavras de Iégor voltavam-lhe á memoria; faziam-na suspirar. Caminhando a passo vagaroso, revia em mente os olhos vivos de Iégor, os seus gracejos, as suas opiniões sobre a vida.

—Para a gente proba, a existencia é penosa e a morte leve... Como morrerei eu?

Em seguida, o pensamento representou-lhe Lioudmila e o doutor de pé, junto da janella, n’aquelle quarto muito branco e cruamente illuminado, os olhos embaciados de Iégor; e, invadida por um sentimento oppressor, de compaixão, suspirou profundamente e entrou a caminhar mais depressa, impellida por vago presentimento...

«É preciso marchar para a frente!» pensou sob o impulso de coragem valorosa e contristada, que lhe subia do coração.