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A Mãe

Chapter 49: XII
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

XII

Sofia já estava de volta. Atarefada e mexendo-se muito, recebeu a velha, de cigarro na bocca. Deitou o ferido n’um canapé e ligou-lhe com perícia a cabeça, ao mesmo tempo que ia dando ordens. O fumo do cigarro obrigava-a a piscar os olhos:

—Doutor, ahi os tem. Sente-se fatigada, Pélagué? Teve muito medo, não é assim? Está bem, descanse agora um bocado... Nicolao vae-lhe já buscar o chá e um copo de Porto.

Emocionada por taes acontecimentos, Pélagué respirava com difficuldade e resentia-se de uma dolorosa sensação de picada no seio.

—Não se importem commigo, murmurou.

E toda a sua pessôa, transida de medo, supplicava um affago, um pouco de attenção... Nicolao veio do quarto contiguo. Trazia a mão ligada. Atraz d’elle entrou o médico, com os cabellos desgrenhados, como um ouriço. Correu para Ivan, curvou-se a examinal-o e pediu:

—Agua, muita agua! Pannos de linho limpos! Algodão em rama!

Já Pélagué se dirigia á cosinha, mas Nicolao travou-lhe do braço e disse-lhe affectuosamente, levando-a para a casa de jantar:

—Não é comsigo que elle fala, é com a Sofia. A minha querida amiga passou por bastantes commoções, não é verdade?

Aquelle falar apiedado respondeu ella com um soluço mal contido e exclamou:

—Ah! que horrivel coisa!... A espadeirarem o povo... a espadeirarem!

—Eu tambem lá estava, disse Nicolao, com um aceno confirmativo de cabeça. E encheu um copo de vinho quente. Dos dois lados houve egual exaltação... Mas não tenha receio; a polícia aggrediu só com a parte mais larga das espadas; só uma pessoa ficou ferida gravemente, ao que me parece... e essa vi-a eu caír ao pé de mim... Puxei-a até para fóra da batalha.

A fisionomia e a voz com que Nicolao lhe falava, a claridade e o calor que reinavam no aposento, socegaram os nervos de Pélagué. Dispensou ao seu hospedeiro um olhar de reconhecimento e perguntou-lhe:

—Tambem ficou ferido?

—Sim, e creio que por culpa minha... Sem querer, rocei com a mão não sei por quê e fiquei com a pelle arrancada. Beba o seu vinho... Faz frio e vocemecê tem um fato tão leve!...

Ella estendeu as mãos para o copo e reparou que tinha os dedos cheios de sangue coagulado. Em gesto instinctivo, deixou caír os braços sobre os joelhos. Tinha a saia húmida. Esgazeou os olhos, com as sobrancelhas muito erguidas, examinou furtivamente os dedos. A cabeça andava-lhe á roda, uma idéa martelava-lhe no cérebro:

—Ahi está, ahi está o que espera o Pavel um dia!

Voltou o médico. Vinha em mangas de camisa e estas arregaçadas. A uma interrogação muda de Nicolao, respondeu com a sua vozinha delgada:

—A ferida do rosto é insignificante, mas houve fractura do craneo, que tambem não é muito grave... O rapazola é valente, mas ainda assim perdeu muito sangue. Vamos leval-o para o hospital.

—Para quê? Póde ficar aqui! accudiu Nicolao.

—Hoje e ámanhã talvez, mas depois era preferivel que se tratasse no hospital, não tenho tempo para visitas. Encarregas-te do relatório do que se passou no cemitério?

—Bem entendido! respondeu Nicolao.

Pélagué levantou-se então sem fazer bulha e dirigia-se para a cosinha.

—Onde vae? exclamou Nicolao alvoroçado. Deixe lá a Sofia governar-se sósinha!

Com um olhar e um sorriso involuntário, singular, respondeu a tremer:

—Estou toda suja de sangue... Estou toda suja de sangue!

E ao mudar de roupa, no seu quarto, mais uma vez ficou a meditar na serenidade d’aquella gente, n’aquella faculdade de que dispunham de não demorar muito tempo o pensamento no horror dos acontecimentos. Esta reflexão fêl-a caír em si, vencendo o sentimento de terror de que estava possuida. Quando voltou ao quarto onde jazia o ferido, Sofia, curvada sobre este, dizia-lhe:

—Que tolice, camarada!

—Mas eu vou incommodal-os! observou elle em voz debil.

—Cale-se; é o melhor que tem a fazer.

Pélagué parou por detraz d’ella e pousou-lhe a mão no hombro; fitou depois, sorrindo, o rosto muito branco do ferido e pôz-se a contar o medo que lhe tinha causado o seu accesso de delírio, no trem. Ivan escutava-a com os olhos a arder em febre; fazia estalar os beiços e exclamava de vez em quando, como que envergonhado:

—Oh, que tolo que eu sou!

—Bem, agora vamos deixal-o, declarou Sofia compondo-lhe as roupas que o cobriam. Descanse!

E as duas mulheres passaram para a casa de jantar, onde, com Nicolao e o médico, por muito tempo conversaram baixinho sobre os acontecimentos d’esse dia. Já o drama era tratado como coisa remota, já se falava do futuro com tranquillidade; preparava-se a tarefa de ámanhã. Se os rostos exprimiam a fadiga, os pensamentos latejavam vivos. O doutor mexia-se nervosamente na cadeira, esforçando-se por velar a voz, que tinha aguda e esganiçada:

—Ora, a propaganda!... Não basta; os operários têem razão: é necessario exercer a agitação em terreno mais vasto. Creiam que os operários têem razão!

Nicolao acrescentou com ar desconsolado:

—Por toda a parte se queixam da insufficiencia dos livros e ainda não conseguimos montar uma bôa imprensa... A Lioudmila está esgotada de forças, vae nos caír doente, se não lhe arranjarmos collaboradores.

—E o Vessoftchikof? perguntou Sofia.

—Esse não póde residir na cidade. Ha de entrar para o serviço da nova imprensa... mas falta-nos ainda alguem...

—E se eu pudesse servir? propôz a velha com brandura.

Os trez fitaram-na um momento.

—É uma bôa idéa! exclamou Sofia de repente.

—Não; é muito difficil para você, creia, Pélagué, contestou Nicolao com secura. Era preciso que fôsse viver para fóra da cidade, que não pensasse mais em ver o Pavel, e em geral...

Ella replicou, suspirando:

—Olhe que não faria grande falta ao Pavel... e pela minha parte, tambem essas visitas me partem o coração. É proibido falar seja do que fôr! Até pareço uma idiota aos olhos do meu filho! Estão ali mesmo, sempre a espiar-nos!

Os recentes acontecimentos haviam-na fatigado, e agora, quando se lhe apresentava ensejo de afastar a idéa dos dramas da cidade, era quando se agarrava a esse assunto com todas as forças.

Mas Nicolao mudou o curso da conversa.

—Em que pensas? perguntou elle ao doutor.

Este, mal humorado, respondeu:

—Somos poucos! Aqui tens em que penso... É absolutamente necessario trabalhar com mais energia. É necessario decidir o André e o Pavel a evadirem-se; são dois trabalhadores preciosos de mais para estarem na inacção.

Nicolao franziu o sobrolho, meneou a cabeça em ar de dúvida e lançou um rápido olhar para a mãe de Pavel. Percebeu que se constrangiam em falar do filho diante d’ella e foi para o seu quarto, levemente irritada contra quem tão pouco se preoccupava com os seus desejos.

Deitou-se e, de olhos abertos, embalada pelo ciciar das vozes, sentiu-se tomada de inquietação. Parecia-lhe incompreensivel o dia que acabava de decorrer, cheio de allusões ameaçadoras; mas porque este genero de reflexão lhe fôsse penoso, afastou-as do cérebro e entrou de pensar no seu filho. Queria vel-o em liberdade e, ao mesmo tempo, tal idéa assustava-a; sentia que tudo se lhe agitava em torno; a situação tornava-se cada vez mais tensa, andavam imminentes violentas collisões. A paciencia do povo dera logar a enervada espectativa; crescia visivelmente a irritação publica, ouviam-se com frequencia frases rancorosas, de toda a parte soprava um hálito novo, um vento d’excitação. As proclamações eram discutidas animadamente no mercado, nas lojas, entre a criadagem e os artifices; cada prisão que na cidade se effectuasse despertava ecos tímidos, mas inconscientemente simpaticos e as suas causas eram commentadas. Pélagué ouvia agora com mais frequencia a gente do povo pronunciar as palavras que outrora a amedrontavam tanto: «socialistas, política, revolta». Taes palavras eram repetidas com ironia, mas esta ironia não chegava a disfarçar o fim principal, que era o de se informarem das opiniões; com colera, mas sob esta colera transparecia o medo, e todos andavam pensativos, entre alternativas de esperança e de ameaça... Em vastos circulos, lentamente, ia-se propagando a agitação na vida sombria e estagnada do povo; despertava o pensamento adormecido; os acontecimentos diarios já não eram tratados com o socego habitual e a antiga placidez dos fortes. Pélagué notava tudo isto mais distinctamente do que os seus companheiros, pois que melhor do que elles conhecia o aspecto desconsolador da vida, d’ella vivia mais proxima e n’ella divisava simtomas de reflexão e de irritação, uma sêde vaga de alguma coisa nova, o que a regosijava e assustava-a um tempo. Regosijava-se porque tudo considerava obra de seu filho; assustava-se porque sabia que elle, mal saísse da cadeia, logo iria collocar-se no posto mais perigoso, á frente dos companheiros... e que ali havia de morrer.

Sentia muitas vezes Pélagué agitarem-lhe o espirito os grandes ideaes indispensaveis á humanidade e experimentava o desejo de falar da verdade, mas quasi nunca conseguia realisar o seu desejo. N’esta mudez forçada, os seus secretos pensamentos acabrunhavam-na. Por vezes, a imagem do filho tomava a seus olhos as proporções giganteas d’um heroe de lenda; n’elle resumia todas as maximas fortes e leaes que ouvira, todos os seus affectos, todas as coisas grandes e luminosas que o seu espirito abraçava. Contemplava-o então com mudo entusiasmo; ufana, enternecida, nadando em esperança, dizia comsigo:

—Tudo ha de ir bem!... tudo!

O seu amor materno exaltava-se, comprimia-lhe o coração até fazel-o sangrar, mas impedia que n’elle o amor pela humanidade se desenvolvesse, chegando a destruil-o de todo; e no logar d’este grande sentimento só ficava uma minúscula idéa fixa a palpitar timidamente nas cinzas frias da inquietação:

—Vae morrer... Vae morrer!...

Adormeceu tardíssimo em profundo somno, mas accordou logo muito cedo, com o corpo dorido e a cabeça pesada.