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A Mãe

Chapter 58: XXI
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

XXI

N’essa noite, já muito tarde, encontrava-se Ignaty n’um subterraneo, sentado em frente de Vessoftchikof e segredava a este:

—Quatro vezes, na janella do meio...

—Quatro? repetia o bexigoso, com ares de grande concentração.

—Sim; primeiro trez, assim...

E bateu na meza com o dedo dobrado, emquanto contava:

—Uma, duas, trez; e depois, mais uma vez, passado um instantinho...

—Estou percebendo.

—Ha de vir á porta um campónio de cabellos vermelhos, e ha de perguntar-lhe: «Vem por causa da parteira?» E você responde-lhe: «Sim, senhor, venho da parte do senhorio!» E não precisa mais, elle logo percebe do que se trata!

N’este colloquio, approximavam as cabeças; ambos altos e alentados, falavam baixinho, abafando muito a voz. De pé, junto d’uma mesa, com os braços cruzados sobre o peito, Pélagué observava-os. Todos aquelles signaes cabalisticos, aquellas perguntas e respostas convencionadas d’antemão, lhe davam immensa vontade de rir. E pensava:

«Não passam ainda d’umas crianças!»

Um candieiro seguro na parede illuminava as sombrias manchas do bolor e as gravuras recortadas de jornaes. Pelo chão jaziam baldes amolgados, fragmentos de zinco; e divisava-se pela janella, no ceu muito escuro, uma grande estrella scintillante. Reinava em toda a quadra um forte cheiro a ferrugem, tintas d’oleo e humidade.

Ignaty ostentava grosso sobretudo pelludo em que muito se comprazia; Pélagué via-o, volta e meia, acariciar com volupia a manga do espesso casacão e inclinar com custo o largo pescoço, para melhor se admirar. E um pensamento cantava no coração de Pélagué:

«Filhos!... meus queridos filhos!...»

—Ora aqui está! disse Ignaty, levantando-se. Então não se esqueça! Primeiro, ir a casa do Mouratof, perguntar pelo avô...

—Cá estou lembrado! respondia Vessoftchikof.

Mas Ignaty não se dava por crente, repetia-lhe outra vez todos os signaes combinados e todas as palavras de passe. Por fim, estendeu-lhe a mão.

—Agora não falta mais nada! Adeus, camarada! Dê-lhes recommendações minhas! Olhe, diga-lhes assim: «O Ignaty está vivo e passa bem.» É boa gente, verá!...

Mirou-se satisfeito, passou a mão pelo casacão e perguntou a Pélagué:

—Posso ir-me embora?

—E has de atinar com o caminho?

—Está claro que sim!... Até mais vêr, camaradas!

E lá se foi, aprumado, arqueando o peito, de chapeu novo á banda e as mãos enterradas nos bolsos. Na testa e nas fontes, os anneis dos cabellos, loiros e infantis, dansavam-lhe jovialmente.

—Ora até que emfim já tenho tambem trabalho! exclamou Vessoftchikof, approximando-se da velha. Andava aborrecido; perguntava a mim mesmo para que tinha saído da cadeia. Não faço senão andar escondido!... Ao menos, na cadeia, sempre aprendia! O Pavel recheava-nos a cabeça que era um gosto! E o André tambem nos limpava as idéas, sim senhora!... E então, sempre se decidiu a fuga? Arranja-se isso?

—Hei de sabel-o depois d’ámanhã! respondeu. E repetiu, suspirando, mau grado seu.

—Depois d’ámanhã...

O bexigoso approximou-se-lhe, descansou-lhe no hombro a alentada mão e opinou:

—Podes dizer aos chefes que é coisa facil. Elles hão de dar-te ouvidos! Ora vê tu mesma: aqui está a muralha da cadeia, ao pé d’um lampeão. Em frente, ficam umas terras sem cultivo; á esquerda, o cemitério; á direita, uma rua e o resto da cidade. Vem um accendedor de candieiros mesmo de dia, dia claro, para limpar o lampeão; encosta a escada ao muro, sobe, engata ao espigão da muralha os ganchos d’uma escada de corda que ha de ficar para o lado do pateo, e está prompto! Elles, na cadeia, já hão de saber a hora combinada, pedem aos presos de crimes communs que armem qualquer desordem, ou armam-na elles mesmos, e entretanto, os que estiverem na combinação marinham pela escada e está tudo feito! E d’ali vem de passeio até á cidade, emquanto elles lá ficam a procural-os pelo cemitério e nas taes terras de baldio!

Gesticulava com vivacidade, expondo este plano, aos olhos d’elle simples, claro e de extrema habilidade. Pélagué, que nunca conhecera n’elle mais que um rapagão tosco e desageitado, admirava-se de vêr aquelle rosto bexiguento tão cheio de vivacidade e intelligencia. D’antes, os minguados olhos de Vessoftchikof tudo fitavam com irritação e desconfiança; agora, era para crêr que outros os haviam substituido, rasgados e brilhantes de scintillações uniformes e severas que convenciam e emocionavam Pélagué.

—Pensa bem: de dia é que ha de ser!... Sim, de dia! Quem ha de imaginar que um preso se atreva a fugir de dia, á vista de todo o pessoal da prisão?

—E se os fusilassem? lembrou a mãe, horrorisada.

—Quem? Se não ha soldados, e os carcereiros servem se dos revólvers para pregar pregos!

—Quasi que estou achando tudo isso simples de mais!...

—Pois é como te digo; tu verás! Fala n’isso aos outros. Eu já arranjei tudo: a escada de corda, os ganchos... Já falei cá com o meu hospedeiro; é elle que ha de fazer de limpa-candieiros.

Para além da porta, mexia-se alguem entre accessos de tosse; ouvia-se um ruido de ferros velhos.

—Ahi está elle, o hospedeiro! annunciou o bexigoso.

Pela abertura da porta appareceu uma banheira de zinco, e uma voz encatarroada praguejou:

—Entra, diabo!

Depois, surgiu uma cara redonda e barbuda, de cabellos grisalhos, sem chapeu, d’expressão bonacheirona e grandes olhos esbogalhados.

—Vessoftchikof foi ajudar o homem a fazer passar a banheira pela porta; depois, o recemchegado, grande latagão corcovado, poz-se a tossir com um grande entumecimento nas faces imberbes, escarrou e disse na mesma voz rouca:

—Bôa noite!

—Pois agora, pergunta-lhe! convidou o rapaz.

—O quê? Que querem perguntar-me?

—É a respeito da fuga da cadeia.

—Ah, sim! disse o velho, limpando o bigode com os dedos sujos.

—Quer saber, Jacob? Ella não acredita que seja facil arranjar!

—Ah, não acredita? Pois se não acredita, é porque não quer a coisa. Mas nós dois, que queremos que isso se faça, acreditamos que seja facil! respondeu serenamente o homem.

Foi tomado d’um accesso de tosse que o dobrou em anglo recto, e em seguida esteve muito tempo no meio da quadra a aspirar com força o ar e a esfregar o peito. Fitava Pélagué com olhos de espanto.

—Mas não sou eu quem decide esta questão! observou ella.

—Mas fala lá com os outros; dize-lhes que está tudo arranjado! Ah! se eu pudesse falar com elles, eu os convenceria! exclamou o bexigoso.

Estendeu os braços em largo gesto e depois apertou-os como para abraçar qualquer coisa. Vibrava-lhe na voz um sentimento cuja energia assombrava Pélagué.

—Vejam que mudança fez! pensou ella.

E contestou em voz alta:

—O Pavel e os companheiros é que hão de decidir.

Meditativo, o outro ficou-se de cabeça baixa.

—Quem é esse Pavel? interrogou o velho, tomando logar n’um banco.

—É o meu filho.

—Qual é o nome da familia?

—Vlassof.

Elle abanou a cabeça, puxou pela bolsa do tabaco e, emquanto enchia o cachimbo:

—Tenho ouvido falar. O meu sobrinho conhece-o. O meu sobrinho tambem está na cadeia; chama-se Evetchenko. Conhece? Eu chamo-me Gadoune. D’aqui a pouco, está na cadeia! Então é que a gente ha de viver feliz e socegada, nós, os velhos! Um, da policia, prometteu que me havia de pregar com o sobrinho na Sibéria... E ha de cumprir a promessa, o excommungado!

Entrou de fumar, escarrando para o chão de vez em quando.

—Ah! ella não quer? continuou, virado para o rapaz. Isso é com ella!... O homem é livre! Quem está cansado, que se sente; quem estiver cansado de estar sentado, passeie!... Quem fôr roubado, que se cale; quem fôr tosado, soffra com resignação! E se o matarem, que se deixe caír!... Sempre é certo isto. Mas eu cá hei de fazer saír o meu sobrinho da cadeia. Olá, se hei-de!...

Estas expressões incisivas, parecidas com latidos, tornaram Pélagué perplexa. As ultimas palavras do velho haviam até excitado n’ella uma tal ou qual inveja.

Pela rua fóra, ao vento gélido e á chuva, ia pensando no Vessoftchikof.

—Como elle está mudado!... Vejam aquillo!

E ao lembrar-se de Gadoune, meditou com um sentimento quasi de religiosa piedade:

—Ao que parece, não sou só eu que ando n’esta vida de promissão!

Depois, a imagem de seu filho accudiu-lhe ao espirito:

—Se elle consentisse, ao menos!...