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A Mãe

Chapter 61: XXIV
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

XXIV

Este terror de Pélagué não fez senão augmentar durante os trez dias que a separavam da audiencia e, quando esta chegou finalmente, levava ella sobre si, para o tribunal, um fardo que toda a avergava.

Cá fora, reconheceu varios dos seus antigos visinhos do arrabalde, inclinou-se em silencio para corresponder aos seus cumprimentos e abriu á pressa caminho por entre a multidão tristonha. Nos corredores e depois, na sala, topou com as familias dos seus. Falava-se abafando a voz; trocavam-se frases que ella não compreendia. D’aquella turba brotava pungente sentimento que se communicava a Pélagué e a opprimia ainda mais.

—Senta-te! convidou Sizof, arranjando-lhe logar no banco, a seu lado.

Obedeceu, compôz as dobras do vestido e olhou em torno. Divisava vagamente umas faxas verdes e encarnadas, umas manchas, uns fios amarellos e delgados, que brilhavam.

—Foi o teu filho que levou o meu á perdição! murmurou uma mulher que lhe ficava perto.

—Cala-te d’ahi, Nathalia! interrompeu Sizof com o semblante carregado.

Pélagué ergueu a vista para aquella mulher: era a mãe de Samoílof. Um pouco mais adiante, estava o pae, calvo, de bello rosto ornado de espessa barba ruiva talhada em leque. Semi-cerrava as palpebras e olhava direito para diante de si, com um estremecimento involuntario de vez em quando.

Pelas altas janellas entrava uma claridade uniforme e turva; escorregavam flocos de neve pelas vidraças. Entre as janellas, havia um immenso retrato do czar em grossa moldura doirada, e com reflexos oleosos na pintura; e a um e outro lado do quadro, occultavam a parede as pregas hirtas dos pesadissimos reposteiros que revestiam as janellas. Frente ao retrato, uma meza coberta de panno verde, occupava quasi toda a largura da sala; á direita, por detraz d’uma especie de gelosia gradeada, dois bancos de pau; á esquerda, duas filas de poltronas forradas de vermelho. Os officiaes de diligencias, de golas verdes e botões doirados iam e vinham pela sala, nos bicos dos pés.

Na atmosfera, de equivoca pureza, perpassavam ruidos de vozes, cochichando baixinho; pairava, vindo ninguem saberia d’onde, um vago cheiro de farmácia. Todas aquellas côres vivas e aquellas scintillações offuscavam a vista; penetravam no peito os odôres do ambiente d’envolta com a respiração; o espirito sentia-se submerso n’uma especie de temor inexprimivel.

De súbito, alguem começou a falar em voz alta. Toda a assistencia se pôz de pé. Pélagué teve um sobresalto e ergueu-se tambem, agarrada ao braço de Sizof.

No canto esquerdo da sala, tinha-se aberto uma porta alta, dando passagem a um velhinho de oculos, muito alcachinado e de andar incerto. Umas escassas suissas tremiam-lhe dos lados da carinha de côr terrosa, o lábio superior, barbeado, quasi se lhe sumia na cavidade da bôca. As maçãs do rosto e o queixo comprimiam-se-lhe sobre a altissima gola da farda, dando a julgar que por baixo nada existia de pescoço. O velho caminhava sustido por um rapaz alto, de cara de porcelana, muito redonda e rosada. Atraz d’elles, vinham trez personagens revestidos de uniformes recamados de bordados e mais trez sujeitos á paisana.

Por muito tempo, estiveram a deliberar entre si, em volta da mesa; depois, sentaram-se. Logo que todos tomaram os seus logares, um d’elles, rosto imberbe e com a farda desabotoada, entrou a falar ao velho, com uns modos de indifferente indolencia e movendo com custo os beiços entumecidos. O velho ia-o escutando. Conservava-se hirto e immovel, e Pélagué distinguia-lhe duas manchasinhas esbranquiçadas por detraz dos vidros dos oculos.

Junto de estreita secretária, na extremidade da mesa, um homem alto e calvo folheava papeis, com uma tossinha sêcca.

O velho fez um movimento para diante e começou a falar. A primeira palavra pronunciou-a elle distinctamente, mas as outras parecia que se sumiam ao sahir-lhe dos lábios delgados e sem côr.

—Declaro...

—Olha! segredou Sizof á sua visinha com uma leve cotovellada. E pôz-se de pé.

Por detraz do gradeamento abrira-se uma porta que dera passagem a um soldado de espada desembainhada, ao hombro, e logo depois a Pavel, André, Fédia Mazine, os irmãos Goussef, Boukine, Samoílof e mais cinco rapazes desconhecidos de Pélagué. Pavel vinha a sorrir; André cumprimentou Pélagué com um aceno de cabeça.

Aquelles rostos, aquelles sorrisos e gestos de animação fizeram parecer menos frio o silencio e tornaram a sala mais luminosa; suavisaram-se os reflexos opulentos de oiro dos uniformes; um alento de confiança, uma aragem de força viril penetraram o coração da mãe de Pavel, arrancando-a ao seu torpor. Por detraz d’ella, pelas bancadas onde até ali a turba se conservava acabrunhada, á espera, murmurios surdos e reprimidos iam respondendo ás saúdações dos reus.

—E é que não teem medo! ouviu ella Sizof segredar-lhe, ao passo que á sua direita a mãe de Samoílof se desatava em soluços.

—Silencio! gritou uma voz severa.

—Tenho a prevenil-os... disse o velho.

Pavel e André tinham ficado lado a lado; a seguir, estavam Mazine, Samoílof e os irmãos Goussef, todos na primeira bancada. André cortára a barba; mas o bigode crescera-lhe tanto, que as guias pendiam e reuniam-se, assemelhando-lhe a redonda cabeça á d’um gato. Trazia impressa na fisionomia uma expressão nova: nos vincos aos cantos da bôca, havia alguma coisa penetrante, irónica, e o olhar tornára-se-lhe sombrio. Mazine tinha agora o lábio superior sombreado por dois traços escuros, e o seu rosto engordára; o Samoílof tinha os mesmos cabellos, tão encaracolados como d’antes.

O Ivan Goussef continuava a mostrar o mesmo amplo sorriso.

—Fédia! Fédia! suspirou Sizof, baixando a cabeça.

Pélagué respirava agora melhor. Apurava como podia, o ouvido ás perguntas indistinctas do velho, o qual interrogava os reus sem olhar para elles, com a cabeça entalada entre a gola da farda. Escutava as respostas breves e calmas que seu filho ia dando. Queria-lhe parecer que aquelle presidente e aquelles juizes não podiam ser más e crueis pessoas. Examinava-lhes pormenorisadamente as fisionomias, tentando perscrutar-lhes os sentimentos, e assomava-lhe ao coração uma nova alvorada de esperança.

Indifferente, o homem da cara de porcelana estava lendo um documento; a sua voz circumspecta enchia a sala d’um tedio que causava somnolencias no publico. Em voz baixa e animadamente, quatro advogados conversavam com os réus; tinham todos uma gesticulação saccudida e veemente e faziam pensar em grandes passarolos negros.

Á direita do velho, um juiz ventrudo, de olhinhos sumidos entre as papadas da gordura, enchia completamente toda a capacidade da poltrona; á esquerda, estava um homem alquebrado, de bigode vermelho, de rosto esmaecido. Reclinava com lassidão a cabeça no espaldar, de palpebras semi-cerradas, meditando. O procurador tambem apparentava cansaço, enfado e indifferença. Por detraz dos juizes, occupavam poltronas varios individuos: um robusto e esbelto homem estava acariciando uma das faces, com ares de grande concentração; o marechal da nobreza, já grisalho, de rosto rubicundo e comprida barba, divagava o olhar dos seus grandes olhos simplorios; o syndico do bailiado, a quem o enorme abdomen visivelmente incommodava, diligenciava disfarçal-o sob uma aba da blusa, que escorregava de contínuo.

—Aqui não ha criminosos nem juizes! proclamou Pavel com voz firme. Aqui só ha captivos e vencedores!

Fez-se silencio. Durante alguns segundos, o ouvido de Pélagué nada distinguiu além do ranger precipitado e estridente das pennas sobre o papel e das palpitações do seu proprio coração.

O presidente do tribunal parecia que estava escutando ou esperando alguma coisa. Os juizes seus collegas agitaram-se nas poltronas. Elle então disse:

—Sim!... André Nakhodka!... Reconhece...

Ouviram-se vozes segredar:

—Levanta-te!... Levante-se!

André poz-se de pé com lentidão e ficou a olhar para o velho, de soslaio, emquanto frisava e desfrisava o bigode.

—De que posso eu reconhecer-me culpado? disse, com um encolher de hombros, o russo-menor, na sua voz cantante e arrastada. Eu não matei, nem roubei: simplesmente protesto contra esta organisação da sociedade, que obriga os homens a explorarem-se e a assassinarem-se uns aos outros.

—Limite-se a responder sim ou não! disse o velho com esforço mas perceptivelmente.

Pélagué sentia que por detraz d’ella susurrava certa agitação; todos falavam baixinho e mexiam-se muito nas bancadas, como para desannuviarem os espiritos da teia d’aranha tecida pelo discurso enfadonho do homem de porcelana.

—Vês como elles respondem? segredou Sizof para a mãe de Pavel.

—Sim!

—Fédia Mazine, responda!

—Não quero! declarou Fédia peremptoriamente, pondo-se de pé.

Estava muito córado pela commoção e com os olhos brilhantes. Sizof soltou um «Ah!» de mal contido espanto.

—Não quiz defensor, portanto nada direi. Considero o julgamento d’este tribunal como illegitimo!... Quem são os senhores? Foi o povo quem lhes deu o direito de julgar-nos? Não, não foi o povo! Logo, não os conheço!

Tornou a sentar-se e occultou o rosto rubro, por detraz do hombro de André.

O juiz gordo curvou-se para o presidente, cochichando. O juiz de rosto esmaecido lançou uma olhadela obliqua para os réus e, com o lapis, passou um traço por cima do que quer que fôsse, escripto no papel que tinha em frente. O syndico do bailiado abanou a cabeça e removeu os pés do sitio em que os tinha, com precaução. O marechal da nobreza conversava com o procurador; o administrador da communa prestava attento ouvido ao que diziam e sorria, esfregando sempre uma das faces.

De novo se ouviu a voz triste e sumida do presidente.

Os quatro advogados escutavam attentos; os réus conversavam em segredo uns com os outros; Fédia continuava a occultar-se ás vistas, sorrindo, muito compromettido.

—Então, não viste aquillo?... Falou melhor que todos os outros! murmurou Sizof ao ouvido da sua visinha. Ah, aquelle brejeiro!

Pélagué sorriu sem o compreender. Tudo o que se estava passando não era para ella mais do que o prologo inutil e forçado d’alguma coisa terrivel, que, ao surgir, havia de esmagar todo o auditório sob gélido terror. Comtudo, as calmas respostas de Pavel e André manifestavam tanta firmeza e decisão, como se as tivessem pronunciado na modesta casinha do arrabalde e não perante juizes. A réplica enthusiasta e juvenil de Fédia tinha-a divertido immenso. Pairava na sala uma atmosfera de audácia e de mocidade, e, pela agitação de todo o auditório, Pélagué sentia que não era ella só que lhe sentia os effluvios.

—A sua opinião? perguntou o velho.

O procurador calvo ergueu-se com a mão apoiada na carteira e discursou com verbosidade, citando numeros. Nada havia n’aquella voz que infundisse terror. No emtanto, ao ouvil-o, Pélagué sentiu logo como uma punhalada no coração: era um vago presentimento de alguma coisa hostil e que se lhe afigurava ir desenvolvendo-se lentamente em uma fórma indefinivel. Examinava tambem os juizes, mas não os compreendia: ao contrario do que ella esperava, não os via zangar-se com Pavel e Fédia, nem proferir palavras injuriosas contra os réus; queria-lhe parecer que todas as perguntas que faziam não tinham para elles importancia alguma; dir-se-ia que era de má vontade que as formulavam e que lhes custava esperar as respostas; nada os interessava tudo sabiam já d’antemão.

Agora estava um policia postado na frente d’elles e falava com uma voz de baixo profundo.

—Toda a gente apontava Pavel Vlassof como o principal cabeça de motim.

—E André Nakhodka? perguntou com indolencia o jury gordo.

—Esse tambem.

Levantou se um dos advogados e disse:

—Dá-me licença?...

O velho perguntou a alguem:

—Não tem objecção a apresentar?

Pélagué chegava a julgar que os juizes se achavam todos doentes. Traduzia-se um cansaço mórbido na menor das suas attitudes, nas vozes e nas fisionomias. Via-se que tudo os enjoava: os uniformes, a sala, os policias, os advogados, a obrigação de estarem ali sentados n’aquellas poltronas, de interrogarem e de ouvirem. Raras vezes Pélagué se encontrára na presença de gente de posição elevada e havia alguns annos que nem sequer a tinha visto, e assim, as feições dos juizes eram para ella como uma coisa inteiramente desconhecida, incompreensivel, mas mais compassiva do que severa.

Estava agora a falar o official de cara amarellada que ella conhecia bem; referia-se a André e a Pavel, arrastando muito as palavras, emfaticamente. E emquanto o ouvia, Pélagué commentava comsigo mesma:

—Não sabes nada d’isto, meu pateta!

Deixára de sentir compaixão ou receio pelos que se sentavam por detraz do gradeamento; não temia pela sua sorte, e achava que lhes era inutil a sua piedade, mas todos elles lhe inspiravam admiração e um sentimento de amor que lhe acalentava docemente o coração.

Jovens e robustos como eram, estavam sentados á parte, junto da parede e quasi nem intervinham na conversação monotona entre testemunhas e juizes, nas discussões dos advogados e do procurador. De vez em quando, um d’elles tinha um sorriso de desprezo e dizia baixo algumas palavras aos seus companheiros. André e Pavel, esses, falavam quasi continuadamente com um dos defensores, a quem Pélagué conhecia de o ter visto na vespera em casa de Nicolao e que por este era tratado de «camarada». Mazine, mais animado e irrequieto que os outros, prestava attento ouvido a esta conversa. De vez em quando, Samoílof segredava meia duzia de palavras ao ouvido de Ivan Gousef. E Pélagué, olhando para tudo, comparava, reflectia, sem que pudesse compreender aquella sensação de hostilidade que a invadia, nem achar termos para exprimil-a.

Sizof chamou-lhe a attenção com ligeira cotovellada; virou-se para elle: estava com uns ares ao mesmo tempo satisfeitos e um tanto preoccupados. Segredava:

—Olha para a presença de espirito com que elles estão, aquelles garotos, an? Parecem verdadeiros fidalgos, não é verdade? E no entretanto estão a ser julgados... para os ensinar a não se metterem no que não é da sua conta.

Ella repetiu involuntariamente a si mesma:

—Estão sendo julgados...

Na sala, depunham testemunhas, com vozes incaracteristicas e atabalhoadas; os juizes iam sempre interrogando, indifferentes e mal humorados. O juiz gordo bocejava, dissimulando a bôca sob a mão inchada de cieiro; o seu collega dos bigodes ruivos tornára-se ainda mais lívido; por vezes, erguia o braço, premia fortemente uma das fontes com um dedo, e ficava-se a fitar o tecto com o olhar morto.

De vez em quando, escrevia o procurador algumas linhas a lapis e depois recomeçava a cochichar com o marechal da nobreza. O administrador cruzára as pernas e tamborilava n’uma dellas, com o olhar fixado com gravidade no movimento dos dedos.

Com o ventre descansando-lhe nos joelhos e sustentando-o prudentemente entre as duas mãos, o syndico do bailiado quedára-se de cabeça pendida; parecia ser elle o unico a escutar o murmurio monotono das vozes, além do velho, enterrado na poltrona e immovel como um catavento quando não sopra a brisa. Durou isto muito tempo e de novo o aborrecimento se apoderava do auditório.

Pélagué sentia que a justiça, a justiça implacavel que põe friamente as almas a descoberto, que as examina, que tudo vê e tudo aprecia com os olhos incurruptiveis e tudo pesa com mão leal, não tinha ainda dado entrada n’aquella sala. Nada via por emquanto que a amedrontasse com uma manifestação de força ou de majestade. Rostos descoloridos, olhos sem brilho, vozes fatigadas, o indifferentismo tristonho d’uma tarde de outono, eis tudo o que presenceava.

—Declaro... disse o velho com clareza; e em seguida, depois de ter abafado o resto da frase entre os delgados labios, ergueu-se.

Logo a sala se encheu de rumores, suspiros, exclamações suffocadas, accessos de tosse e arrastar de pés. Os réus foram conduzidos para fóra do pretorio; ao saírem, faziam signaes com a cabeça e sorriam-se para parentes e amigos. Ivan Goussef chegou mesmo a gritar com affabilidade para quem quer que fôsse:

—Não te deixes intimidar, camarada!

Pélagué e Sizof saíram para o corredor.

—Queres vir ao bufete, tomar chá? perguntou sollícito o velho operário. Temos hora e meia para esperar.

—Não, obrigada.

—Bem, então tambem eu não vou. Viste os rapazes, an? Falam como se elles fôssem os verdadeiros homens e os outros coisa nenhuma! Ouviste o Fédia, an?

De bonné na mão, vinha chegando n’este momento o pae de Samoílof. Com um sorriso triste, perguntou:

—Que dizem do meu filho? Não quiz advogado e recusa-se a responder... Foi elle que teve a idéa.

O teu filho era pelos advogados, Pélagué; o meu disse que não os queria. E houve quatro que lhe seguiram o exemplo.

A mulher esteve ao lado d’elle. Piscava de contínuo os olhos e limpava o nariz com a ponta do lenço. Samoílof reuniu na mão toda a barba, n’um punhado, e continuou:

—Outra coisa que me dá que pensar: quando a gente olha para aquelles demónios, parece que elles fizeram tudo aquillo inutilmente, que comprometteram a sua vida sem necessidade e, de repente, fica-se a scismar se elles não terão razão...

E é bom não esquecer que lá na fabrica, o partido d’elles aumenta continuadamente. De vez em quando, prendem-nos; mas nunca os apanham a todos, assim como nunca se apanham os peixes todos d’um rio! E a gente fica sempre a perguntar com os seus botões: «Quem sabe se elles dizem a verdade!»

—Para nós, é difficil compreender esta questão! declarou Sizof.

—Sim, é certo! acquiesceu o outro.

A mulher interveio então, depois de ter respirado com ruido:

—Parece que estão todos de perfeita saúde, estes malditos juizes!...

E continuou, com um sorriso no seu rosto emmurchecido:

—Não estejas zangada, Pélagué, por eu te dizer ha bocado que o Pavel era o culpado de tudo!... Para falar com franqueza, nem a gente sabe qual é o mais culpado! Ouviste o que os espiões e os policias contaram do nosso filho?...

Claramente se via que tinha orgulho d’aquelle filho, embora ella própria talvez nem désse por isso; mas Pélagué, que avaliava bem tal sentimento, abriu-se em bondoso sorriso.

—Os corações moços andam sempre mais próximos da verdade do que os velhos! disse ella em voz baixa.

Passeava-se pelo corredor; formavam-se grupos em que se discutia concentradamente, todos pensativos e animados. Ninguem se conservava afastado, toda a gente sentia a necessidade de falar, de interrogar e de escutar o que se dizia. No estreito recinto da passagem, entre as duas paredes brancas, os grupos iam e vinham, como se, impellidos por violenta rajada, procurassem apoio n’alguma coisa firme e segura.

O irmão mais velho de Boukine, um grande latagão de cara envelhecida prematuramente, gesticulava, virando-se com vivacidade para todos os lados. Protestava elle:

—O syndico do bailiado nada tem a ver para o caso; não está aqui no seu logar!

—Cala-te, Constantino! exortava o pae, um velhinho, sempre a olhar em volta, assustado.

—Não, senhor, eu quero falar! Dizem que o anno passado matou um empregado... por causa da mulher d’este! Ora que espécie de juiz vem a ser aquillo, fazem favor de me dizer? A viuva do empregado vive agora com elle!... Que havemos de concluir?... Além d’isso, toda a gente sabe que é ladrão...

—Ai, meu Deus!... Constantino!...

—Tens razão, sim senhor! apoiou Samoílof. Tens razão! Não é um juiz sério!...

Boukine, que tudo ouvira, approximou-se rápido, levando atraz de si numeroso grupo. Muito vermelho, de excitado, entrou de falar, com grandes gestos:

—Quando se trata de assassinatos ou de roubos, são os jurados que julgam, quer dizer: a gente habitual, trabalhadores, burguezes... Agora, quando se trata dos que são contra o governo, quem os julga é o próprio governo!... Isto póde ser?...

—Constantino!

—Mas escuta, estão elles realmente contra o governo? Vê lá, que dizes?

Não, espera! O Fédia Mazine tem razão. Se tu me offenderes e eu te der uma bofetada e se tu tiveres de me julgar, com certeza é a mim que chamarás culpado; e comtudo, quem insultou? Tu! Tu!

Um guarda já idoso, de nariz adunco e peito ornado de medalhas, atravessou por entre o ajuntamento e foi dizer a Boukine, ameaçando-o com o dedo:

—Olá! não grites! Onde imaginas que estás? É alguma taberna, aqui?

—Queira perdoar, cavalheiro... Eu percebo bem. Ora escutem: se eu bater em alguem e esse alguem me retribuir as pancadas e se eu tiver de julgal-o depois, como é que podem imaginar...

—Olha que te faço saír! disse o guarda severamente.

—Saír? para onde? Porquê?

—Para a rua! Que é para não berrares!

Boukine circumvagou o olhar pelo auditório e commentou a meia voz:

—Para elles, o essencial é que estejamos calados.

—Ainda não o sabias? replicou o velho com rudeza.

O outro baixou a voz.

—E depois, porque é que o publico não póde assistir ás audiencias, mas tão somente os parentes?

—Se ha justiça nos julgamentos, é para serem presenceados por todos! De que teem medo?

E Samoílof apoiou, mas com mais vehemencia:

—Isso é verdade! Estes tribunaes não satisfazem a consciencia pública.

Pélagué desejava tambem repetir o que Nicolao lhe dissera ácerca da illegalidade do julgamento; mas não o havia compreendido bem e esquecera em parte as expressões empregadas por Nicolao. Para tentar rememoral-as, afastou-se da multidão e viu um rapaz de bigode loiro a observal-a. Trazia a mão direita mettida na algibeira das calças, o que fazia com que parecesse ter o hombro esquerdo mais baixo do que outro. Esta particularidade lembrou-se Pélagué que já era sua conhecida.

Mas o homem virou-lhe as costas e, cançada do seu esforço de memoria, Pélagué logo se esqueceu d’elle.

Instantes depois, distinguia um fragmento de conversa em segredo:

—Aquella? Á esquerda?

E alguem respondeu mais alto, com expansão:

—Essa mesma.

Olhou. O homem dos hombros de desigual altura estava ao lado d’ella e conversava com o seu visinho, um homem corpulento de barba preta, com umas enormes botas e casaco curto.

Estremeceu. Ao mesmo tempo, sentia o desejo de falar nas crenças de seu filho, para ouvir as objecções que lhe pudessem apresentar e calcular a decisão do tribunal pelas opiniões dos que a rodeavam.

—É isto por ventura fórma de julgar? começou ella a meia voz, prudentemente, dirigindo-se a Sizof. Não compreendo isto. Os juizes só tratam de averiguar o que fez cada um d’elles, mas não perguntam porque o fez. Será isto justo? diga lá! E são todos elles velhos! Para julgar gente nova são precisos homens novos!

—Sim! disse Sizof. Torna-se-nos difficil compreender todo este negocio... muito difficil!

E abanava a cabeça, pensativo.

N’isto, o guarda abriu a porta da sala e gritou:

—Entrem os parentes! Mostrem os seus bilhetes.

Uma voz de mau humor commentou:

—Os bilhetes... como no circo!...

Sentia-se agora uma irritação geral e mal contida, uma colera vaga. Os curiosos manifestavam maior semceremonia do que pouco antes, faziam barulho, discutiam com os guardas.