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A Mãe

Chapter 64: XXVII
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

XXVII

Ao sair do tribunal, ficou Pélagué admiradissima com vêr que já a noite caíra sobre a cidade, os candieiros das ruas accesos; as estrellas scintillando no céu. Nas circumvisinhanças do palácio da justiça, formavam-se pequenos agrupamentos; na gélida atmosfera, ouvia-se o ruído da neve rangendo sob o andar; vozes de gente nova interpellavam-se mutuamente. Approximou-se de Sizof um homem coberto com um capuz cinzento e perguntou em voz rápida:

—Qual foi a sentença?

—O degredo.

—Para todos elles?

—Para todos...

—Obrigado!

O homem afastou-se.

—Bem vês! disse Sizof á mãe de Pavel. Bem vês como isto os interessa.

De súbito, encontraram-se cercados por uma dúzia de rapazes e raparigas. Entraram a chover as exclamações, que attraíam ainda mais gente para o grupo. Sizof e Pélagué tiveram de parar. Todos queriam conhecer a sentença, saber como se tinham comportado os réus, quem tinha pronunciado discursos e sobre que assunto. E em todas estas perguntas vibrava a mesma nota de curiosidade ávida e sincera.

—É a mãe do Pavel Vlassof! gritou uma voz.

Calaram-se todos á uma.

—Permitta que lhe aperte a mão!

E logo uma mão sólida se lhe apoderou da sua, com vigor. A mesma voz continuou, trémula de entusiasmo:

—O seu filho será para nós todos um nobre exemplo!

—Viva o operariado russo! gritou uma voz vibrante.

—Viva a revolução!

—Morra a autocracia!

Multiplicavam-se os brados, cada vez mais violentos; rebentavam pelo ar, cruzando-se; accudia gente de todos os lados e apinhava-se em torno de Sizof e Pélagué. Os apitos dos policias rasgavam o ar, mas sem conseguirem dominar o borborinho. O velho ria. Quanto a Pélagué, parecia-lhe tudo aquillo um bello sonho. Sorria, apertava centenas de mãos, cumprimentava. Comprimiam-lhe a garganta lagrimas de felicidade; vergavam-lhe as pernas de cansadas, mas o seu coração, transbordando de triumfante alegria, reflectia as suas impressões como o claro espelho da água d’um lago.

Perto d’ella, uma voz clara exclamou em tom enervado:

—Companheiros! amigos! O monstro que devora o povo russo, satisfez hoje mais uma vez os seus appetites!...

—Vamo-nos embora! disse Sizof.

N’esse mesmo instante, appareceu Sachenka. Agarrou Pélagué por um braço e puxou-a para o passeio opposto, aconselhando:

—Venha... A policia póde atirar-se para cima de nós e bater-nos... Ou vão prender-nos... E então? Foi o degredo, não foi? Para a Sibéria?

—Sim, é verdade!...

—E elle que fez? Falou? Eu já sei tudo, afinal... É elle o mais valoroso tambem, é certo! É sensivel e terno, mas sempre se acanha quando tem de manifestar os seus sentimentos. É firme e resoluto como a própria verdade!... É um grande homem, e tudo reside n’elle... tudo! Mas a maior parte das vezes, elle próprio se constrange... com o receio de não se entregar todo elle, d’alma e coração, á causa do povo... Eu sei-o bem!

Estas palavras d’amor, segredadas em um desabafo de paixão, acalmaram Pélagué, reanimando-lhe as desfallecidas forças.

—Quando vae encontrar-se com elle? perguntou á rapariga, em voz baixa e affectuosa, puxando-a muito para si.

Sachenka respondeu, com o olhar fito na sua frente, e com tranquilla decisão:

—Tão depressa encontre quem se encarregue do meu trabalho! Porque em breve me tocará a vez de responder em juizo... Hão de mandar-me tambem para a Sibéria. Direi então que desejo ser deportada para o sitio em que elle estiver...

Por detraz das duas mulheres ouviu-se então a voz de Sizof:

—Faça-lhe os meus cumprimentos!... Chamo-me Sizof. Elle conhece-me: sou tio do Fédia Mazine.

Sachenka parou para se voltar e estender-lhe a mão:

—Eu conheço o Fédia. O meu nome é Sachenka.

—E o seu nome de familia?

Ella lançou-lhe um breve olhar, e respondeu:

—Não tenho familia. Já não tenho pae.

—Morreu?

—Não, está vivo! declarou já excitada.

E alguma coisa obstinada, teimosa, lhe vibrou na voz e transpareceu nas feições. É um proprietario rural, e é chefe do districto. Agora, rouba a gente do campo... e maltrata-a!

—Ah! proferiu Sizof arrastadamente.

E apóz silencio, ajuntou, ao mesmo tempo que examinava a rapariga de soslaio:

—Bem, então, adeus, tiasinha! Eu vou por aqui!... Apparece para tomar chá e cavaquear um pedaço... quando quizeres!... Até mais vêr, minha menina!... A menina é muito severa para com o seu pae!... Está claro que isso é lá comsigo!...

—Se seu filho fôsse um homem inutil, prejudicial aos outros, o senhor dizia-o? exclamou Sachenka, com paixão.

—Dizia, sim, senhora! respondeu o velho, depois de hesitar um momento.

—Por consequencia, a verdade merecer-lhe-ia mais apreço do que o seu filho. Pois a mim merece-me mais apreço do que o meu pae...

O outro abanou a cabeça, e em seguida, suspirando:

—Ah! é astucioso, sim, senhora! Se tem assim resposta para tudo, os velhos não pódem resistir-lhe! Sabe atacar pela certa! Até mais vêr! Desejo-lhe todas as felicidades possiveis... Mas seja mais condescendente com as pessôas sim? Que Deus vá comsigo! Adeus, Pélagué! Se falares com o Pavel, diz-lhe que ouvi o seu discurso... Não percebi tudo... Até me metteu medo em certas occasiões, mas o que elle disse é a verdade!

Ergueu o bonné e desappareceu, sem se apressar, na volta da esquina.

—Deve ser um bom homem! observou Sachenka, seguindo-o com olhar risonho.

Parecia a Pélagué vêr no rosto da sua companheira expressão mais meiga e melhor do que de costume...

Chegadas a casa, sentaram-se no canapé, muito uma á outra. Pélagué referiu-se de novo aos planos de Sachenka. Com as espessas sobrancelhas muito erguidas, pensativa, a outra olhava para distante com os seus grandes olhos de sonho. Lia-se-lhe no pálido rosto uma pacífica concentração d’espírito.

—Mais tarde, quando tiverem filhos, tambem eu para lá irei, para tratar d’elles. E não havemos de viver peor lá do que vivemos aqui... O Pavel ha de encontrar trabalho; é muito habilidoso.

Sachenka olhava agora para ella, perscrutando-lhe os pensamentos. Interrogou:

—Não deseja então ir juntar-se a elle desde já?

Respondeu, com um suspiro:

—Para quê? Nada mais iria fazer-lhe do que causar-lhe incómmodo, caso elle quizesse fugir. E depois, elle não mo consentia...

Murmurou Sachenka:

—Não, com effeito...

—Além d’isso eu tenho que fazer aqui, accrescentou a mãe de Pavel com um tanto de ufania.

—Sim, é verdade! secundou, pensativa, a outra. E sabe trabalhar muito bem...

Mas de repente estremeceu, como se acabasse de libertar-se de um peso qualquer, e logo annunciou com simplicidade, a meia voz:

—Decididamente, elle não se demora na Sibéria... Ha de fugir... É certo!

—Mas, então, que ha de ser feito de si? E a creança, se a tiverem?

—Não sei; veremos. O que eu não quero é que elle viva em cuidados por minha causa. Dou-lhe plena liberdade para fazer o que quizer, em qualquer occasião que seja. Não sou mais do que uma simples correligionaria. Bem sei que me ha de ser terrivelmente custoso deixal-o... mas hei de saber conformar-me... Não quero importunal-o em coisa alguma, isso não!

Sentia Pélagué que Sachenka era capaz de executar o que dizia. Cheia de commiseração por ella, tomou-a nos braços:

—Minha querida... Muito tem que soffrer!...

Sachenka sorriu com meiguice; comprimiu-se toda contra o corpo de Pélagué; subiu-lhe o rubor ás faces.

—Isso ainda vem longe... Mas não julgue que seja um sacrificio penoso para mim. Sei o que faço, sei com o que posso contar, serei feliz se elle se considerar feliz comigo... O meu desejo, o meu dever, é aumentar a sua energia, dar-lhe toda a felicidade que esteja em meu poder, muita felicidade! Amo-o muito... e elle ama-me, que sei eu! Retribuir-nos-emos dos nossos sentimentos, enriquecer-nos-emos mutuamente, tanto quanto pudermos; e, se assim fôr necessario, separar-nos-emos como bons amigos...

Por entre um sorriso de felicidade, a mãe disse lentamente:

—Eu irei juntar-me a vocês ambos... Talvez eu tambem seja exilada...

E por muito tempo as duas mulheres permaneceram estreitamente abraçadas, sem uma palavra, pensando n’aquelle que amavam. O silencio, a tristeza, uma tépida suavidade, as envolviam.

Nicolao chegou n’este comenos, fatigadissimo. Rapidamente, emquanto se despia, foi dizendo:

—Sachenka, vá-se depressa, se não depois talvez já não tenha tempo! Desde esta manhã andam dois espiões a seguir-me tão ás claras que me cheira a mandado de prisão... Tenho um presentimento... Deve-nos ter acontecido alguma infelicidade, onde, ainda não sei... A propósito: ahi tem o discurso do Pavel; foi decidido imprimil-o. Leve-o á Lioudmila, supplique-lhe que o componham o mais breve possivel. O seu Pavel falou muito bem, Pélagué!... Sachenka, tome cuidado com os espiões! Espere, leve tambem estes papeis; dê-os ao doutor, por exemplo.

E ao dizer isto, esfregava vigorosamente uma contra a outra as mãos, que trazia regeladas. Em seguida, foi á mesa, abriu as gavetas, d’onde extraíu varios documentos. Preoccupadissimo e com os cabellos em desalinho, entrou a folheal-os á pressa, rasgou uns, emmaçou outros.

—Olhem que não ha ainda muito tempo que eu puz tudo isto em ordem, e vejam que montão enorme cá tenho outra vez! Demónio!... Talvez fôsse melhor não dormir cá esta noite, Pélagué! Que lhe parece? Não é das melhores coisas ter de assistir a essa comédia, os guardas são capazes de a levar tambem... e é absolutamente necessário que vá por esses campos distribuir o discurso do Pavel...

—Ora adeus! porque é que me haviam de prender? contestou ella. E d’ahi, talvez se engane, talvez não venha ninguem...

Nicolao redargiu em tom de confiança e agitando a mão:

—O meu faro nunca me enganou!... Alem d’isso, vocemecê podia auxiliar a Lioudmila! Vá-se emquanto é tempo ainda...

Na satisfação de ir cooperar na impressão do discurso de seu filho, ella respondeu:

—Pois se assim é, cá me vou. Mas olhe que não é porque tenha medo...

E com admiração de si própria, proferiu estas palavras em voz baixa mas decidida:

—Agora, já não tenho medo de nada!... Deus louvado! já sei tudo o que queria...

—Ás mil maravilhas! exclamou Nicolao, sem a fitar. Ah! diga-me onde está a minha roupa branca e a minha mala. A senhora de tudo tem cuidado com tal carinho, que me vejo de todo incapaz de descobrir o que é minha propriedade pessoal! Eu vou preparar-me. Os polícias é que vão ter uma desagradavel surpresa!

Sachenka ia queimando no fogão os papeis rasgados. Quando os viu de todo consumidos, teve o cuidado de misturar as cinzas com as do combustivel.

—Vá, Sachenka, vá! disse-lhe Nicolao com um aperto de mão. Até á vista! Não se esqueça de me mandar livros, se fôr publicada qualquer coisa de novidade e intensa. Até á vista, cara correligionaria! E trate sobretudo de ter prudencia...

—Julga estar muito tempo na prisão? perguntou Sachenka.

—O demónio que o julgue! Bastante tempo, com certeza... Teem diversos pecadinhos a censurar-me... Pélagué, saia ao mesmo tempo com Sachenka. É mais difficil seguir duas pessôas.

—Bem! concordou ella. Eu já me visto.

Observára Nicolao attentamente, e nada anormal descobrira n’elle, a não ser a preoccupação que lhe velava o olhar bondoso e complacente. Não lhe vira apparentar emoção alguma.

Igualmente attencioso para com todos, affectuoso e metódico, sempre socegado e solitário, levava a mesma existencia, misteriosa no seu fôro íntimo e como que antepondo-se a todas as deligencias alheias. Pélagué estimava-o tal qual elle era, com um amor prudente, que parecia duvidar de si mesmo. E agora experimentava por Nicolao uma compaixão indizivel; mas dominava-a porque sabia que se elle lh’a notasse, havia de commover-se e tornar-se um pouco ridículo, como habitualmente. Não era sob este aspecto que Pélagué o queria vêr.

Já vestida, voltou ao gabinete. Nicolao estava apertando a mão de Sachenka. Dizia-lhe:

—Optimamente! Estou certo de que ha de ser bom para elle, como para si... Um poucochinho de felicidade pessoal nunca causa damno... Mas olhe que não é bom que seja demasiada, para não perder o valor. Está pronta, mãesinha!

Acercou-se d’ella, compondo os óculos.

—Bem! Então, até á vista!... d’aqui a trez, quatro ou seis mezes. É muito tempo!... Que de coisas se podem fazer em seis mezes! Poupe-se, sim? Peço-lh’o. Vá lá! Venha um abraço!

Passou os robustos braços em torno do pescoço de Pélagué e fitando-lhe muito os olhos, disse com um riso muito franco:

—Parece-me que estou apaixonado por si... Não faço senão abraçal-a!

Sem lhe responder, ella beijou-o na testa e nas faces. As mãos tremiam-lhe: deixou-as pender para que elle não o notasse.

—Então, vae partir?... Ás mil maravilhas!... Mas tome cautella, seja prudente! Olhe: mande um rapazito aqui ámanhã pela manhã; a Lioudmila tem um lá em casa. Por elle ficará sabendo o que se tiver passado. Bem, até mais vêr, camaradas! Tudo vae bem!... Que tudo continue bem, é o que se quer!

Pela rua, commentava Sachenka em voz baixa:

—Com aquella mesma simplicidade é capaz de ir para a morte, se fôr preciso... Só com um pouco de pressa, como ainda agora. Quando lhe chegasse a sua hora final, ajustava os óculos, dizia assim: «Ás mil maravilhas!» e morria!

—Amo-o devéras! segredou Pélagué.

—Pois a mim, causa-me espanto! Quanto a amal-o, não! Estimo-o, simplesmente. Acho-o muito sêco, ainda que lhe encontre certa bondade e ás vezes até alguma ternura. Mas não possue em si bastante humanidade... Parece-me que vamos sendo seguidas. Separemo-nos. Não vá a casa da Lioudmila, se desconfiar que a vigiam...

—Bem sei! respondeu ella.

Mas Sachenka insistiu ainda:

—Não vá para casa d’ella... Se tal succeder, venha antes para a minha. Até mais vêr!

Virou-se rápida e voltou pelo mesmo caminho.

A outra gritou-lhe:

—Até á vista!