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A Mãe

Chapter 65: XXVIII
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

XXVIII

Minutos depois, aquecia-se Pélagué junto do fogão, no quarto de Lioudmila. Vestida de preto, esta ultima passeava devagar pelo estreito aposento, que enchia com o rugir das suas saias e com a soberania da sua voz autoritária. No fogão, a lenha estralejava e assobiava, aspirando o ar do quarto. Vibrava a voz igual e monótona da dona da casa:

—Os homens são infinitamente mais tôlos do que maus. Não sabem vêr senão o que lhes fica perto, o que teem ao seu alcance immediato!... Ora tudo o que nos fica próximo é mesquinho; só o que se encontra afastado tem valor. Na realidade, seria vantajoso para todos que a vida se tornasse mais facil e as creaturas mais intelligentes... Mas para chegarmos a isso, forçoso é renunciar por emquanto a viver com tranquilidade.

Aqui, estacou de súbito em frente de Pélagué e accrescentou mais baixo, como para desculpar-se:

—Dou-me com tão pouca gente!... Quando alguem vem a minha casa, ponho-me logo a discursar!... É ridículo, não é?

—Ora essa! Porquê?

Diligenciava Pélagué descobrir onde era que Lioudmila imprimia os folhetos, mas não via em torno de si nada extraordinario. No quarto, com trez janellas para a rua, havia um canapé, um armário com livros, uma mesa, cadeiras, uma cama encostada a uma das paredes; n’um dos cantos, o lavatório, n’outro, o fogão; pelas paredes fotografias. Tudo isto com apparencia de novo, sólido e aceado. E n’este conjunto, a figura quasi monástica da dona do aposento era principalmente o que impunha severo aspecto. Presentia-se haver n’aquelle quarto o que quer que fôsse misterioso e occulto.

Olhou depois para as portas: penetrára no quarto por uma d’ellas—a que abria para uma exigua casa de entrada; perto do fogão, havia outra, alta e estreita.

—Vim para tratar de certo negócio... disse ella um tanto confusa, ao ver que Lioudmila a estava observando.

—Já sei. Ninguem vem a minha casa com outro motivo.

Pareceu a Pélagué vibrar na voz da sua interlocutora uma intenção singular; via-lhe um sorrisinho nas delgadas commissuras dos lábios, e as pupilas, baças habitualmente, brilhavam-lhe por detraz dos vidros da luneta. Desviou portanto o olhar e apresentou-lhe o manuscrito com o discurso de Pavel.

—Aqui está. Pedem-lhe que o imprima o mais depressa que possa.

E narrou os preparativos a que Nicolao procedera, prevendo a sua captura.

Sem dizer uma palavra, Lioudmila entalou o papel no cinto e sentou-se n’uma cadeira. Agitavam-se-lhe pelo rosto impassivel os reflexos do lume.

—Quando os polícias vierem a minha casa, faço fogo para cima d’elles! declarou. Tenho o direito de defender-me contra a violencia e o dever de luctar contra ella, visto que instigo tambem os outros a fazel-o!

A vermelhidão das chammas desappareceu-lhe do rosto, o qual voltou a mostrar-se severo e um pouco altivo.

«Deve ser bem trabalhosa a vida que levas»—foi o súbito pensamento que accudiu ao espirito de Pélagué, acompanhado d’um sentimento d’affeição.

Ella pôz-se a lêr o discurso de Pavel, primeiro, sem vontade, depois, curvando-se cada vez mais sobre o papel. Ia atirando rapidamente para o chão as folhas já lidas. Finda a leitura, levantou-se, endireitou o tronco e foi para a outra:

—Está muito bom! Ahi está do que eu gosto! É nitido e claro!

Inclinou a cabeça e reflectiu um instante.

—Não quiz falar-lhe do seu filho: nunca o vi e não me agradam as conversas tristes. Eu sei o que se sente quando vemos um dos nossos ir para o degredo!... Diga-me: é agradavel ter-se um filho como elle?

—Sim, muito agradavel!

—E deve ser coisa terrivel tambem?...

Com um sereno sorriso, Pélagué respondeu:

—Não; agora já não...

Lioudmila alisou com a mão, muito morena, os cabellos penteados em bandós; depois, voltou-se para a janella: palpitava-lhe nas faces uma leve sombra apaixonada.

—Vamos imprimir isso... Quer ajudar-me?

—Certamente!

—Vou compôr o mais depressa possivel. Deite-se; o dia deve-lhe ter sido fatigante. Vê-se que está cansada. Deite-se n’aquella cama, que eu não durmo hoje. Talvez tenha de a accordar de noite, para me auxiliar. Antes de adormecer, apague o candieiro.

Accrescentou duas achas ao lume e saíu pela porta estreita, praticada ao lado do fogão, que tornou a fechar cuidadosamente apóz si.

Pélagué seguira-a com o olhar. E emquanto se despia, pensava maquinalmente na sua hospedeira:

«É um caracter severo... E vê-se que soffre, a pobre senhora!»

O cansaço esvaía-lhe a cabeça; no entretanto, sentia o coração singularmente calmo; no seu espirito, tudo se illuminava com suave e cariciosa luz. Pélagué conhecia já aquella tranquillidade, que segue sempre ás grandes commoções; antigamente, inquietava-a, mas agora, fazia que a sua alma se expandisse, revigorada em forte e puro sentimento. Apagou o candieiro, deitou-se na cama muito fria, encolheu-se, aconchegando a si os cobertores e adormeceu logo em profundo somno.

Quando descerrou os olhos, estava o quarto banhado da claridade gélida e branca d’um desanuviado dia d’inverno. Estendida no canapé, com um livro na mão, Lioudmila fitava-a com uma expressão de ternura que a transfigurava.

—Deus meu! exclamou Pélagué, confundida. Quanto tempo eu dormi! É muito tarde, pois não é?

—Bom dia! respondeu-lhe Lioudmila. Vão dar as dez horas. Levante-se para irmos almoçar.

—Porque não me accordou?

—Tive idéa d’isso; mas a senhora mostrava um sorriso tão bonito, emquanto dormia...

N’um movimento ágil do seu corpo robusto e flexivel, Lioudmila levantou-se, approximou-se do leito, curvou-se sobre o rosto d’ella; e Pélagué poude distinguir nos olhos sem brilho da sua hospedeira alguma coisa familiar, amigavel, compreensivel.

—... que não quiz despertal-a... Era um bello sonho que estava tendo, com certeza...

—Não, senhora; não sonhei com coisa alguma.

—Pois é pena... Mas gostei de vêr aquelle seu sorriso: achei-o tão meigo, tão santo!

E Lioudmila poz-se a rir, um rir aveludado e discreto.

—Entrei a pensar em si, na sua vida... Porque a sua existencia deve ser ardua!

Pélagué contraíu os sobrolhos, pensativa.

—Não sei! respondeu, hesitante. Ha momentos em que me parece que sim... mas não é verdade! Ha tantas coisas... coisas espantosas e graves, que se seguem com tanta rapidez umas ás outras!...

Subia-lhe ao peito a onda de excitação que ella conhecia bem, enchendo-lho d’imagens e de pensamentos. Sentou-se na cama e deu-se pressa em revestir de palavras as suas idéas.

—Tudo o que estamos presenceando caminha para o mesmo fim, como o fogo, quando arde uma casa, tende sempre a subir! Aqui, abre caminho, mais além, brilha intensamente, sempre mais violento, sempre mais luminoso... Ha tanta coisa que custa vêr! Se soubesse!... Essa pobre gente soffre, é incommodada, espiada... Batem-lhes, batem-lhes com crueldade... Elles, então, occultam-se a todas as vistas, passam a viver como frades. Quantas alegrias ha que lhe são defezas!... E é triste assim, a vida!

Lioudmila ergueu com vivacidade a cabeça e fitou Pélagué com profundo olhar.

—Não é de si que está falando! observou em voz baixa.

—De mim!... repetiu ella, emquanto se ia vestindo. E póde alguem collocar-se á parte, quando o nosso coração ama alguma coisa, quando este ou aquelle nos é querido, quando se sente medo e compaixão por todos?... Tudo isto se nos entrechoca na alma, attraída assim para cada um d’esses infelizes... Como podemos collocar-nos á parte? Para nos refugiarmos onde?

Já meio vestida, permaneceu um instante pensativa no meio do quarto. E subitamente, afigurou-se-lhe que já não era ella a mesma creatura que tanto se inquietára e alarmára pela sorte de seu filho; tal personalidade já não existia, tinha-se desapegado e afastado d’ella. Escutou-se então a si própria, no desejo de saber o que se passava no seu íntimo, embora receasse despertar outra vez o seu velho sentimento de anciedade.

—Em que está pensando? perguntou-lhe Lioudmila affectuosamente.

—Nem eu sei!

Calaram-se as duas, olharam uma para a outra e sorriram. Depois, Lioudmila abalou do quarto, murmurando:

—Que estará fazendo o meu samovar?

Pélagué olhou então pela janella. Lá fóra, reinava a frialdade d’um luminoso dia d’inverno. Ella, no âmago do coração, sentia tambem uma claridade igual áquella, mas quente. O seu desejo seria falar de tudo; demorada e jovialmente, n’um vago sentimento de gratidão por tudo o que baixára á sua alma, tornando-lha assim bem formada. Sentiu, o que havia muito não lhe succedia, um desejo de rezar. Veiu-lhe então á lembrança um rosto moço e imberbe; na sua memória ecoou uma voz delgada: «É a mãe do Pavel Vlassof...» Scintillavam os meigos olhos joviaes de Sachenka; desenhava-se o negro perfil de Rybine; sorria o rosto valoroso e bronzeado de Pavel; Nicolao piscava os olhos, acanhado. E de repente, todos aquelles rostos amigos foram eclipsados em meio d’um suspiro ligeiro mas de significação profunda; baralharam-se, confundiram-se em uma nuvem transparente e multicolor, que envolvia o coração em um sentimento de paz.

—O Nicolao tinha razão! disse Lioudmila ao regressar ao quarto. Foi preso, não ha duvida possivel! Conforme me recommendou, mandei um rapazito a casa d’elle. Já voltou. Diz que estão lá agentes de polícia escondidos no páteo; que viu um por detraz da porta da rua. Os espiões vigiam ao de redor da casa; o pequeno conhece-os.

—Ah! limitou-se Pélagué a dizer, com um meneio de cabeça. Pobre Nicolao!

—N’estes ultimos tempos, elle fazia muitas prelecções aos operários da cidade; estava desmascarado; era tempo e mais que tempo que desapparecesse! proseguiu Lioudmila em tom sombrio mas sereno. Os companheiros andavam sempre a dizer-lhe que saísse da cidade; elle não quiz dar-lhes ouvidos!... A minha opinião é que, em taes casos, o que se deve não é aconselhar as pessôas, mas obrigal-as!

Á porta appareceu um rapazito de cabello preto, pelle rosada, nariz aquilino e bonitos olhos azues.

—Quer que traga o samovar? perguntou com voz sonora.

—Traz, sim, Sérgio, se fazes favor. É meu discipulo... Não o conhecia?

—Não.

—Tenho-o mandado algumas vezes a casa do Nicolao.

Pélagué, entretanto, achava Lioudmila muito mudada, parecia-lhe mais singela de maneiras, mais compreensivel. Havia nos movimentos graciosos do seu esbelto corpo, belleza e força, a attenuarem o que no rosto pálido tinha de severidade. Com a noite perdida as olheiras haviam-se-lhe cavado mais. Sentia-se-lhe nos modos um esforço continuado, como se na sua alma vibrasse uma corda em demasiada tensão.

O rapaz trouxe o samovar.

—Sérgio, olha a senhora Pélagué Vlassof, a mãe do operário que foi hontem condenado.

A criança inclinou-se em silencio, apertou a mão de Pélagué, tornou a saír e voltou trazendo pão.

Sentou-se tambem á mesa. Emquanto ia servindo o chá, Lioudmila aconselhou Pélagué a não voltar para casa sem que se soubesse quem era a pessôa alvejada pelas deligencias policiaes.

—Talvez seja a senhora mesma... Hão de querer interrogal-a.

—Que me importa! redarguiu ella. Se for prêsa, a desgraça não será grande! Só o que desejava era que o discurso do Pavel estivesse já distribuido...

—Já está composto. Ámanhã teremos exemplares bastantes para a cidade e para os arrabaldes... e tambem para o resto do districto. Conhece a Natacha?

—Ora se conheço!

—Pois é preciso que lhe leve os folhetos.

A criança estava lendo um jornal. Parecia não ouvir o que diziam, mas de quando em quando, erguia os olhos para Pélagué. Esta, quando lhe surpreendia aquelle olhar tão vivo, sentia-se agradavelmente commovida. A joven senhora falou novamente de Nicolao, sem lamentar sequer a sua captura, o que de toda a maneira pareceu a Pélagué naturalissimo. O tempo dir-se-ia passar mais veloz; era perto do meio dia quando terminaram o almoço.