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A Mãe

Chapter 7: III
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

III

Certo domingo, uns quinze dias depois da morte do pae, Pavel entrou em casa embriagado. Parou cambaleando na primeira divisão, e gritou para a mãe, dando um murro na meza, como fazia Mikhaíl:

—A ceia!

Pélagué approximou-se, assentou-se ao seu lado; enlaçando-o com os braços, puxou para o peito a cabeça do filho. Elle repelliu-a, pondo-lhe o braço no hombro, e disse:

—Depressa, mamã!

—Patetinha! respondeu ella com voz triste e carinhosa.

—Tambem quero fumar! Dá-me o cachimbo do pae... rosnou, movendo a custo a lingua rebelde.

Era a primeira vez que se embriagava.

O alcool tinha enfraquecido o seu corpo, mas não lhe extinguira a consciencia; perguntava a si proprio:

—Estou bêbedo?... Estarei bêbedo?

As caricias da mãe vexavam-no; estava commovido pela tristeza do olhar d’ella. Tinha vontade de chorar; e para vencer este desejo fingiu-se ainda mais embriagado.

E a mãe acariciava-lhe os cabellos em desordem e cobertos de suor, dizendo suavemente:

—Não devias ter feito isso...

Pavel começava a sentir nauseas.

A seguir aos vomitos, foi levado para a cama pela mãe, que lhe collocou uma toalha humida na fronte pálida. Repoz-se um pouco; mas tudo lhe andava á roda; as palpebras pezavam-lhe; tinha na bôca um gôsto repugnante e amargo; olhava para o rosto da mãe e tinha pensamentos sem nexo.

—É ainda cedo para mim... Os outros bebem sem ficarem doentes; eu tenho nauseas.

A doce voz da mãe chegava-lhe aos ouvidos como se viesse de muito longe:

—Como poderás sustentar-me, se te entregas á bebida?

Respondeu, fechando os olhos:

—Todos bebem...

Pélagué suspirou profundamente. O filho tinha razão. Ella bem sabia que os homens não encontrariam outro sitio senão a taverna para se divertirem, que não tinham outro prazer senão o alcool. No entretanto, retorquiu:

—Tu não precisas de beber! O teu pae bebeu á farta por ti; e bastante me atormentou... Deves ter piedade da tua mãe.

Ouvindo estas palavras melancólicas e resignadas, Pavel pensou na existencia silenciosa e apagada d’aquella mulher, esperando sempre os espancamentos do marido. Nos ultimos tempos, Pavel pouco se demorava em casa, para não ver o pae; desprezava um tanto a mãe; regressando ao seu estado normal, examinava-a.

Era alta e levemente corcovada; o seu corpo pesado, abatido por incessante trabalho e por maus tratos, movia-se sem ruido, obliquamente, como se ella receasse topar n’alguma cousa. O largo rosto oval, sulcado de rugas e ligeiramente empapuçado, tinha a dar-lhe brilho uns olhos negros, de uma expressão triste e inquieta como o de quasi todas as mulheres do bairro. Na testa uma cicatriz profunda fazia-lhe subir um pouco o sobrolho direito; parecia tambem que a orelha direita estava mais acima do que a outra, o que dava ao rosto um ar receoso. Tinha no cabello espesso e negro madeixas grisalhas semelhantes a nodoas resultantes de violentas pancadas. Toda ella transpirava suavidade, uma resignação dolorosa.

E ao longo das faces corriam-lhe lentamente as lagrimas.

—Olha! não chores! supplicou Pavel em voz baixa. Dá-me de beber!

—Vou buscar agua gelada...

Quando voltou, elle dormia. Ficou immovel por um instante, retendo a respiração; a bilha tremia-lhe nas mãos, os pedaços de gelo tintilavam dentro. Depois de collocal-a na meza, Pélagué ajoelhou diante das imagens santas e orou silenciosamente. Os vidros das janellas tremiam sob as ondas sonoras da vida obscura e alcoolica do exterior. Nas trevas e na humidade d’aquella noite d’outomno, ouviam-se os rangidos de um harmonio; alguem cantava de guella aberta; passavam nas ruas palavras abjectas e obscenas; vozes de mulheres vibravam, assustadiças ou irritadas.


Na pequena habitação de Vlassof, a vida decorria uniforme, mas mais tranquilla e em paz do que outrora, distinguindo-se assim da existencia geral do bairro. A casa era situada na extremidade da rua direita, no cimo d’um pequeno alto, nos baixos do qual havia um pantano.

A cozinha occupava o terço da habitação; um delgado tabique, que não chegava ao tecto, separava-a de um pequeno quarto onde dormia a mãe. O resto formava uma casa quadrada, com duas janellas; a um canto, a cama de Pavel, no outro, dois bancos e uma meza. Algumas cadeiras, uma comoda onde guardavam a roupa, um pequenino espelho, uma mala para o fato, um relogio e duas imagens de santos, era tudo.

Pavel tentava viver como os outros. Fazia quanto era proprio a um rapaz; comprou um harmonio, uma camisa de peitilho engomado, uma gravata vistosa, galochas e capa de borracha, e uma bengala. Na apparencia assemelhava-se a todos os adolescentes da sua idade. Ia ás reuniões, aprendia a dançar a quadrilha e a polka; ao domingo entrava em casa embriagado. Nas manhãs seguintes, doia-lhe a cabeça, a febre consumia-o, o seu rosto estava palido e desfigurado.

Um dia, a mãe perguntou-lhe:

—E então, divertiste-te hontem á noute?

Respondeu com sombria irritação:

—Aborreci-me atrozmente! Os meus companheiros são umas maquinas!... Prefiro ir á pesca ou comprar uma espingarda.

Trabalhava com zelo; nunca era multado, nem gazeteava. Andava taciturno. Os seus olhos azues, grandes como os da mãe, tinham uma expressão de descontentamento. Não comprou a espingarda nem foi á pesca; mas abandonou o caminho que seguiam os companheiros, frequentava cada vez menos as reuniões, e, embora continuasse a sahir ao domingo, voltava para casa em seu juizo. Pélagué observava-o sem dizer palavra e via o rosto moreno de Pavel tornar-se dia a dia mais magro, o olhar sempre mais grave e os labios cerrarem se com aspera severidade. Parecia soffrer de qualquer doença ou de qualquer colera misteriosa. Antigamente, os companheiros visitavam-no, mas como elle deixara de permanecer em casa, não voltavam. A mãe via com prazer que o filho não imitava os rapazes da fabrica; mas quando notou aquella obstinação em afastar-se da torrente obscura da vida monotona, a sua alma foi invadida por vaga inquietação.

Pavel trazia livros para casa; a principio, tentava lel-os a occultas. Por vezes, copiava alguns trechos n’um pedaço de papel.

—Não andas bem, meu filho? perguntou-lhe uma vez Pélagué.

—Vou bem, vou! respondeu.

—Estás tão magro! suspirou ella.

Ficou silencioso.

Falavam pouco, e apenas se viam. Pela manhã, o rapaz tomava em silencio o chá e ia para o trabalho; ao meio-dia vinha jantar; á meza não trocavam mais do que palavras insignificantes; depois desapparecia até á tarde. Findo o dia, lavava-se cuidadosamente, ceava e lia os seus livros. Ao domingo, sahia de manhãsinha e só voltava á noite. A mãe sabia que elle passeava na cidade, que ia ao theatro; mas da cidade ninguem vinha vêl-o. Parecia-lhe que, quantos mais dias passavam, menos o seu filho lhe dirigia a palavra; e ao mesmo tempo notava que dia a dia maior era o numero de termos novos, incomprehensiveis para ella, e que Pavel empregava em substituição das expressões grosseiras, outrora habituaes no seu falar.

Passára a ligar mais cuidado ao asseio do seu corpo e do seu fato; movia-se com mais ligeireza e facilidade; tornou-se mais simples na apparencia, mais docil; preoccupava-se de sua mãe. Tratava-a de uma maneira nova; ás vezes, varria o sobrado do quarto, fazia elle mesmo a sua cama, ao domingo; em geral, sem frases, sem ostentação, diligenciava auxiliar a mãe no trabalho caseiro. Ninguem fazia isto lá no bairro...

Um dia, trouxe comsigo um quadro que pendurou na parede e que representava trez personagens tendo impressas nas feições a resolução, a coragem.

—É o Christo ressuscitado dirigindo-se a Emmaús! explicou.

O quadro agradou a Pélagué; ella pensou porem:

—Respeitas o Christo e não vaes á egreja...

Depois vieram mais quadros adornar as paredes, o numero de livros augmentou na prateleira ali collocada por um marceneiro, companheiro de Pavel. O quarto ia tomando um aspecto agradavel.

O rapaz dizia a miudo «a sr.a» quando se dirigia á mãe, a quem tambem chamava «mamã». Era até mais prodigo em palavras, embora breves.

—Mãe, não fique em cuidado, peço-lhe; esta noite venho tarde.

E ao ouvil-o assim, ella sentia que se passava o que quer que fosse forte e serio, que lhe agradava.

Mas a sua anciedade augmentava dia a dia, e como não entrava em explicações com Pavel, adquiria o presentimento de alguma coisa extraordinaria que lhe apertava o coração. Pensava até:

—Os outros vivem como creaturas humanas, mas elle é como um frade... Tão grave!... Não é proprio da sua idade...

Perguntava a si mesma:

—Terá uma amiga?

Mas para ser amado pelas pequenas, é preciso dinheiro, e elle entregava-lhe quasi toda a feria.

Assim se passaram semanas, mezes, quasi dois annos, n’uma vida extravagante, cheia de pesares, de vagos receios cada vez maiores.