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A Mãe

Chapter 9: V
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

V

A vida recomeçou para elles; novamente se encontravam proximos e afastados.

Uma vez, n’um dia santo, no meio da semana, Pavel disse á mãe, quando ia sahir:

—No sabbado ha de vir gente cá a casa.

—Que gente?

—Gente d’aqui... e gente da cidade.

—Da cidade...? repetiu a mãe, meneando a cabeça. E desatou a chorar.

—Porque choras, mamã?! exclamou Pavel contrariado. Porquê?

Respondeu com froixa voz, limpando as lagrimas:

—Não sei... Porque sim.

Elle deu alguns passos pelo quarto, e parando deante d’ella:

—Tens medo?

—Tenho! confessou. Essa gente da cidade... sabe-se lá quem é!

Inclinou-se para ella e disse com a voz irritada, como o pae:

—É por causa d’esse medo que todos nós morremos! E os que mandam em nós aproveitam-se d’esse medo e ainda mais nos amedrontam. Comprehenda de uma vez para sempre: emquanto houver medo, apodreceremos como as bétulas nos pantanos.

Afastou-se, exclamando:

—Deixal-o! Nós nos reuniremos cá em casa...

A mãe atalhou, chorando:

—Não me queiras mal! Como não hei de eu ter medo? Passei entre sustos toda a minha vida... tenho a alma cheia d’elles.

Pavel retorquiu a meia voz, mas brandamente:

—Desculpe. Não tenho outro meio ao meu alcance. E sahiu.

Durante trez dias, Pélagué tremia: o coração parecia-lhe parar quando pensava em que gente extranha entraria em sua casa. Não podia fantasial-os, mas afiguravam se-lhe terriveis. Eram elles quem apontaram ao seu filho o caminho que elle seguia agora...

No sabbado á tarde, Pavel voltou da fabrica, lavou-se, mudou de fato e saíu, dizendo sem olhar para a mãe:

—Se alguem vier, dize que não me demoro, que me esperem. E não tenhas medo, se fazes favor... São pessoas como as outras.

Ella deixou-se cahir sobre o banco. O filho contemplou-a franzindo o sobrolho, e propoz—Talvez seja melhor saíres; an?

Ella offendeu-se. Disse que não com a cabeça, murmurando:

—Seria o mesmo. Para que sairia eu?

Estava-se no fim de novembro. Durante o dia tinha caído na terra gelada um nevão fino e secco, que Pavel triturava sob seus passos. Ás vidraças apegavam-se espessas trevas. A mãe, desalentada, ia esperando, com os olhos fixos na porta.

Parecia-lhe que, na obscuridade, creaturas silenciosas, de trajos não vulgares, se dirigiam para a casa, vindos de pontos varios, que se adiantavam occultando-se, corcovados, e olhando para um e outro lado. Junto da porta, encostado á parede, havia já alguem.

Ouviu-se um assobio que vibrou no silencio como um fio, melodioso e triste; errava no deserto da noite, approximava-se... De subito, calou-se mesmo junto á janella, como se tivesse penetrado atravez da parede.

Soou o ruido de passos; Pélagué ergueu-se trémula, com os olhos dilatados.

Abriu-se a porta. Appareceu primeiro uma cabeçôrra com um boné de pelles, depois um corpo acurvado que se esgueirou lentamente, que se endireitou, que levantou o braço direito vagarosamente, arrancando do peito em suspiro ruidoso:

—Boa noite.

Pélagué cumprimentou em silencio.

—O Pavel ainda não veio?

O homem tirou com vagar um casaco de pelles, levantou um pé, saccudiu com o boné a neve que lhe cobria as botas, atirou depois com o boné para um canto e entrou no quarto bamboleando-se nas suas altas pernas. Approximou-se d’uma cadeira, examinou-a como, para certificar-se de que era sólida, assentou-se por fim e pôz-se a bocejar, tapando a bôca com a mão. Tinha a cabeça redonda e o cabello cortado á escovinha, a barba feita, e grosso bigode de guias compridas e pendentes. Depois de ter examinado o quarto com os grandes olhos bojudos e acinzentados, cruzou as pernas e perguntou balouçando-se na cadeira:

—O casebre pertence-lhes ou é alugado?

Pélagué, sentada em frente delle, respondeu:

—Alugamol-o.

—Não é grande coisa! observou o homem.

—O Pavel não se demora; queira esperar, disse froixamente.

—É o que estou fazendo! replicou tranquillamente.

A sua tranquillidade, a sua voz suave, a simpleza da sua fisionomia deram coragem a Pélagué. Elle contemplava-a com olhar franco, com um ar bondoso; no fundo dos seus olhos transparentes luzia um brilho alegre, e havia um tanto de divertido e de simpatico n’aquella creatura angulosa e acurvada como n’um poleiro feito das proprias pernas. Trazia vestidas calças pretas, cujas extremidades estavam mettidas quasi dentro das botas; em vez de casaco, bluza azul. Pélagué tinha vontade de perguntar-lhe quem elle era, d’onde vinha, se conhecia o seu filho de ha muito tempo, quando, de chofre, elle moveu-se e perguntou:

—Ó tiasinha, quem foi que lhe abriu essa brécha na testa?

Falava meigamente e sorria com o olhar. Mas a pergunta irritou-a. Mordeu os labios, e apóz curto silencio, perguntou com fria delicadeza:

—E o que tem o tiosinho com isso?

Elle voltou-se de todo.

—Ah! não se zangue. Se lhe fiz esta pergunta, foi porque a minha mãe adoptiva tinha tambem uma brécha na testa, exactamente como a sr.a. Uma sova que lhe deu o marido, com uma fôrma de botas. Era sapateiro. Ella era lavadeira. Tinha-me adoptado já, quando, por sua desgraça, encontrou aquelle bêbedo não sei onde. O patife batia-lhe; digo-lhe só isto! Eu tinha tanto medo d’elle, que a pelle estalava-me.

Pélagué sentiu-se desarmada perante aquella franqueza, e pensou de si para si que talvez Pavel não ficasse contente, se ella fosse menos delicada para com aquelle original. Por isso disse com um sorriso envergonhado:

—Eu não me zango... O sr. é que me deixou surpreza com a pergunta. Foi um presente do meu marido, que Deus tenha! O sr. não é tartaro?

O homem mexeu as pernas, e teve um sorriso tão aberto, que até as orelhas pareciam chegar-lhe á nuca. Depois disse gravemente:

—Ainda não... ainda não sou tartaro.

—É que não fala exactamente como um russo! explicou ella sorrindo, porque lhe compreendera o gracejo.

—A minha lingua vale mais do que o russo! exclamou com um meneio importante. Sou russo-menor, da cidade de Kanief.

—E ha muito tempo que está por cá?

—Vivi na cidade, perto de um anno, e ha um mez que vim aqui para a fabrica. Travei conhecimento com excellentes pessôas... o seu filho... e mais alguns... não muitos. Quero fixar-me por cá, accrescentou, torcendo o bigode.

Estava agradando a Pélagué que, para agradecer o elogio feito ao filho, lhe perguntou:

—Quer chá?

—O quê? sósinho? observou, encolhendo os hombros. Faça o offerecimento quando estivermos todos juntos.

Ouviram-se passos outra vez, a porta abriu-se de chofre; Pélagué levantou-se. Com grande espanto seu, quem entrou na cosinha foi uma rapariga, de vestido leve e pobre, baixa, com cara de camponeza. A recemchegada, cujos cabellos eram loiros e espessos, perguntou:

—Ainda venho a tempo?

—Ah! vem! respondeu o russo-menor, que permanecia no quarto. Veio a pé?

—Podera! A sr.a é a mãe do Pavel Mikhaílovitch? Bôa noite! Eu chamo-me Natacha.

—E o seu pae? perguntou Pélagué.

—Vassilievna. E a sr.a?

—Pélagué Milovna.

—Bello! Estamos apresentados!

—Sim, estamos... concordou Pélagué, com um ligeiro suspiro.

E sorrindo observou a rapariga.

O russo-menor perguntou:

—Faz frio?

—Se faz! e muito, lá pelos campos; uma ventania!...

Tinha a voz pastosa, clara; a bôca era pequena e redonda; e toda ella era gorducha e cheia de frescura. Depois de tirar a capa, esfregou energicamente as faces coradas com as mãosinhas avermelhadas pelo frio; e, passeando pelo quarto com passos rapidos, batia no sobrado com os tacões.

—Não tem galochas de borracha! pensou Pélagué.

—Que frio! E arrastando muito as palavras: Estou entorpecida! gelada!

—Vou já, já, preparar o samovar! disse rapidamente a dona da casa.

E saíu para a cozinha.

Dir-se-ia que conhecia aquella rapariga de ha muito tempo e que a estimava como sua filha. Estava satisfeita por vêl-a; vindo-lhe á ideia os olhos pardos e piscos do russo-menor, sorriu satisfeita tambem; prestou attenção á conversa.

—Porque está triste, André? perguntou a rapariga.

—Porque sim! A viuva tem um olhar bondoso e lembra-me que talvez seja como o da minha mãe... Penso muito na minha mãe, sabe? Parece-me sempre que ella vive.

—Ouvi-lhe dizer que ella tinha morrido...

—Não! Falava da minha mãe adoptiva, e agora falo da minha verdadeira mãe. Imagino que ella pede esmola, algures, em Kief e que bebe aguardente...

—Porquê?

—Sei lá! E que quando está embriagada, os policias a esbofeteiam.

—Pobre homem! pensou Pélagué, suspirando.

Natacha passou a falar rapidamente, a meia-voz. Depois, tornou a ouvir-se a voz sonora do russo-menor:

—É ainda nova! não tem experiencia! Todos teem mãe, e apesar d’isso quantas creaturas más!... É difficil dar á luz, mas é muito mais difficil ensinar o bem ao homem.

—Isso! isso! exclamou lá de dentro Pélagué.

Desejava poder responder que ella, por exemplo, se consideraria feliz ensinando o bem a seu filho, mas que não sabia d’essas coisas; a porta porem abriu-se vagarosamente dando entrada a Vessoftchikof, filho do velho ladrão Danilo, o misantropo celebre em todo o bairro. Mantinha-se sempre afastado dos outros, que por este facto chasqueavam d’elle. Pélagué perguntou admirada:

—O que é que tu queres?

Fitou n’ella os olhos pardos, limpou com a palma da mão a cara bexigosa e de maçãs salientes, e, sem responder ao cumprimento de Pélagué, perguntou em tom cavo.

—O Pavel está em casa?

—Não.

Relanceou a vista pelo quarto e entrou, dizendo:

—Boa noite, companheiros.

—Tambem este!... Será possivel? pensou ella hostilmente.

E mais se admirou vendo Natacha estender a mão ao recemchegado com modo alegre e amigavel.

Vieram em seguida dois rapazes, duas creanças quasi. A dona da casa conhecia um d’elles: era o sobrinho de Fédor Sizof, velho operario da fabrica; tinha feições d’arguto, fronte elevada e cabellos encaracolados. O outro, de cabello corredio, era-lhe desconhecido, mas não a assustava, parecia modesto.

Afinal Pavel chegou, acompanhado de dois amigos, que ella reconheceu logo: eram dois operarios tambem da fabrica.

Amavelmente, o filho disse-lhe:

—Preparaste o chá? obrigado!

—Queres que vá comprar aguardente? perguntou, não sabendo como exprimir-lhe o seu reconhecimento pelo que quer que fosse que ella ainda não compreendia.

—Não. Não é preciso! respondeu, tirando a capa, e sorrindo bondosamente para a mãe.

De subito, veio-lhe á idéa de que o filho tinha exagerado propositadamente o perigo da reunião para brincar com ella.

—É então esta a tal gente perigosa?

—Esta mesma! disse Pavel entrando no quarto.

—Ah! e seguiu-o com o olhar caricioso.

Mas, no seu intimo:

—E elle é a mesma creança!...