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A menina Lisa

Chapter 10: IX Uma colhér de prata
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About This Book

The narrative follows a young woman whose shifting romantic prospects and social circumstances lead to a sequence of domestic episodes and comic misunderstandings. Told in an episodic manner, scenes portray courtships, family interactions, and minor moral dilemmas, blending light humor with sentimental observation. A cast of secondary figures and recurring situations illuminates contemporary manners and social expectations, while the central figure’s feelings and choices propel gradual personal change and an eventual resolution of her romantic and household affairs.

IX
Uma colhér de prata

Não é sem custo que o joven artista consegue do seu modelo que se deixe pôr em posição, e principalmente que se não mecha depois de adoptada emfim a sua attitude. A final Rouflard aquieta-se; demais, Casimiro permitte-lhe conversar e elle usa da permissão. O antigo seductor tem-se feito muito loquaz com a edade; gosta de falar dos seus triumphos passados e enfeita as suas recordações de reflexões que são ás vezes picantes. Rouflard não é falto de espirito; este homem possuia tudo o que é preciso para fazer caminho no mundo, e foram todas as suas vantagens que o perderam.

Casimiro ouve o seu modelo contar-lhe os seus triumphos com as damas, mas em breve conduz a conversação a um assumpto que o interessa mais. É da menina do quinto andar que elle gosta muito de ouvir falar!

—Mora ha muito tempo n’este predio sr. Rouflard?

—O senhor é muito delicado em dizer morar, meu Raphael; estar empoleirado é que devia dizer. Emfim não importa; ha seis mezes que o occupo, aquelle buraco, e confesso que nunca lá tive vontade de cantar: «Como se está bem n’uma agua-furtada aos vinte annos!...» É verdade que já não tenho vinte annos; mas, ainda que os tivesse, não seria nunca da opinião de Béranger. Mas isto de poetas, em o pensamento sendo original é o sufficiente! Bem se importam elles com a verdade!

—E quando o senhor veiu morar cá para cima, já a menina Lisa aqui habitava com a avó?

—Sim, já cá estava, mas havia pouco tempo, pelo que tenho ouvido dizer.

—O senhor está no caso de saber quando ella recebe as suas visitas.

—Visitas! em casa da Lisa! oh! nunca! que eu saiba, nunca a nossa visinha recebeu ninguem de fóra. Só a sr.ª Proh é que lá subiu uma ou duas vezes com o filho, para levar trabalho. O garoto não cessava de gritar: que feio que é isto aqui! e, como queria ralar a paciencia á pobre da avó, Lisa pôl-o fóra de casa. Emquanto á senhora Pro-tocole, essa não se fartava de dizer á rapariga: «Eu não poso pagar isto por doze soldos, é muito caro, não dou senão dez.» E tantas vezes o repetiu, que Lisa respondeu-lhe: «Dê a senhora o que quizer...» Pobre pequena! regatear por dois soldos, a quem trabalha dia e noite para sustentar a avó! é uma acção digna da sr.ª Pro-fanée!...

—Volte a cabeça um pouco mais para a esquerda. Muito bem, faça por conservar essa posição...

—Está satisfeito commigo?

—Sim, senhor, não se põe mal... isto hade ir...

—O senhor está pintando o meu retrato para o mandar á exposição?

—Talvez, se me sair bom.

—Em todo o caso, ha-de-m’o dizer, não é verdade? porque eu não desgostaria de me ir contemplar.

—Sim, sim, mas ainda lá não chegámos. Sabe o sr. Rouflard quem eu estimaria bastante ter por modelo?

—Ora! aposto que adivinho? é a menina Lisa que o senhor quereria retratar!

—Exactamente, teria grande prazer em reproduzir na tela as bonitas feições d’essa interessante rapariga!

—Pois bem! quem é que lh’o impede!

—Perguntei á nossa visinha se consentiria em me deixar tirar-lhe o retrato, e ella recusou-se!

—Ah! recusou! Aposto que foi para não deixar a avó sósinha tanto tempo?

—Mas, como eu tinha comprehendido isso, propuz-lhe ir eu a sua casa com os pinceis e a palheta, de modo que poderia ella servir-me de modelo sem se afastar um momento da sua pobre doente...

—Oh! isso era bonito da sua parte! E ella ainda recusou?

—Sim, recusou sempre. Tenho dobrada pena com essa recusa, porque a menina Lisa trabalha muito e ganha pouco...

—Acredito! sobre tudo se trabalha para a sr. Proh...!

—Emquanto que consentindo em me servir de modelo teria ganho muito mais, e mesmo sem que isso lhe fizesse largar o seu trabalho habitual. Ter-lhe-ia proporcionado alguns regalos, poderia comprar para a sua doente coisas que ella por falta de dinheiro não lhe pode agora offerecer. Pois eu não tinha razão, Rouflard?

—Tinha cem vezes, mil vezes razão! e não sei por que ella recusou!

—É que tem medo de se comprometter; tem ouvido dizer que as mulheres que servem de modelo aos pintores não gozam de boa reputação.

—De ordinario não são nenhumas vestaes! mas quem necessita de trabalhar para viver, não se deve prender com isso! A susceptibilidade de Lisa é exagerada! Esteja descançado, meu pintor, o senhor só tem boas intenções, só quer fazer bem á pequena, fazendo ao mesmo tempo um bonito estudo; indo pintar em casa d’ella deante da avó, tira todo o pretexto á maledicencia. Farei comprehender isso á minha boa vizinha, estou convencido de que a hei-de resolver a deixar-se retratar!

—Devéras! acha que vencerá a sua resistencia?

—Com toda a certeza! tenho vencido outras mais fortes. Triumphar das mulheres era a minha profissão! É verdade que empregava para isso meios de que não usarei com a menina Lisa; resta-me, porém, a minha eloquencia, e o desejo que tambem tenho de ser util áquella que nunca me recusou um boccado de pão. Será talvez a primeira vez que prestarei serviço a uma mulher, isso ha de fazer-me mudar.

Para primeira sessão, Casimiro não quer fatigar muito o seu modelo, e ao cabo de duas horas, conhecendo que Rouflard começa a sentir formigueiros nas pernas, diz-lhe:

—Basta por hoje.

—Devéras! põe-me em liberdade! Pois bem! gosto d’isso, porque principiava a sentir uma especie de caimbras nas pernas, falta de habito, já se vê mas hei-de-me costumar. Será preciso vir ámanhã outra vez?

—De certo; assusta-o isso, por ventura?

—Nada, pelo contrario, creio até que tomarei gosto pela coisa. Ganhar dinheiro assim não custa nada. Oh! é preciso que a nossa vizinha se preste tambem a isto, tanto mais que poderia assim dar grande prazer á avó, estou mesmo espantado de que ella não tenha pensado em tal.

—Como é isso? explique-se melhor, Rouflard; em que é que a menina Lisa daria grande prazer á sua pobre paralytica?

—Vae immediatamente perceber. Conversando algumas vezes commigo, porque eu gosto muito de conversar, sobretudo com as raparigas bonitas, é um resto da minha juventude... desinit in piscem... oh! eu tambem sabia latim! mas, com as mulheres, esquecia-me d’elle, ellas não gostam de linguas mortas!

—Voltemos a Lisa.

—Tem razão, eu poderia ter sido um bello advogado, porque trato os pormenores com muito cuidado. Ora, ia eu dizendo: conversando, a minha vizinha tem-me dito algumas vezes: «Ah! se eu podesse ajuntar algumas economias. Ha uma coisa que daria grande prazer a minha avó, e que eu estimaria muito poder-lhe offerecer, mas não o posso conseguir!» «O que é então, lhe disse eu, que a sua avó deseja tanto?» «É, me respondeu ella, uma colhér de prata; porque ella teve uma muito bonita n’outro tempo, em vida da minha ama, porém depois da sua morte, quando estive muito tempo sem achar trabalho, foi-nos preciso pouco a pouco vender o que possuiamos, e a colhér de prata levou esse destino. Hoje conseguimos viver, mas não posso ajuntar dinheiro para comprar outra; e ainda menos agora, que o medico receita algumas vezes remedios que são muito caros! Mas a saude está primeiro que tudo, vale mais que uma colhér de prata!...»

—Tem razão, Rouflard, essa menina, servindo-me de modelo, teria ganho em breve com que comprar o que deseja offerecer á avó.

—A não ser que o medico receite ainda algum remedio ruinoso; então, lá se ia embora todo o dinheiro! porque Lisa não regateia quando se tracta de dar allivio á pobre enferma. Mas é o mesmo, eu lhe falarei. A sessão ámanhã é á mesma hora?

—Mais cedo, ás dez horas em ponto.

—Á hora que quizer; eu sou livre como o besouro! Ah! permitte-me que veja o que o senhor fez?

—Sim, pode vêr.

—Espere, isto já não está mau, eu não sei pintar, mas tive a reputação de entender de quadros e, no tempo das minhas fortunas, comprei por vezes alguns quadrosinhos de genero... e ganhei sempre n’elles.

—Pois então, olhe para essa vistasinha de Bougival, que ainda não acabei...

—Vejamos; oh! é bonita, é aprazivel, tem vida! O senhor é colorista, o que nem todos os pintores são, mesmo alguns que teem entretanto muito talento. Isto que lhe digo, não é para lhe fazer um elogio banal, o senhor tem o sentimente da côr... tracte bem este quadrosinho. Olhe, eu n’outro tempo teria pago isto por trezentos francos, e ainda havia de ganhar...

—Bom, visto que esta paizagem não lhe parece de todo má, vou acabal-a. Eu faria talvez melhor o quadro de genero que o retrato, não importa, tentarei as duas coisas. Até ámanhã, Rouflard.

—Sim, senhor, e não almoçarei senão depois da sessão, para me collocar em posição com mais dignidade.

Assim que o modelo se retira, Casimiro deixa a cabeça de Rouflard e deita-se á paizagem; trabalha com um ardor de que elle proprio se espanta, mas toma gosto pela sua obra, procura-lhe cuidadosamente os defeitos, aperfeiçôa-lhe muitas partes, e o tempo passa depressa quando a gente se entrega a um trabalho que agrada. Casimiro ouve dar quatro horas, e diz comsigo:

—Não é possivel que já seja tão tarde. Ah! Santo Deus! e eu que devia ir buscar Ambrosina ás tres horas, para ir passear com ella ao bosque! mais uma scena que terei de aturar! Porque deixei eu esta mulher dispôr assim do meu tempo? porque? Porque sou um preguiçoso, um cobarde, porque a menor occupação me mettia medo, e hoje tenho infinitamente mais prazer em trabalhar n’este quadro do que em ir passear ao bosque. Ah! é que penso n’essa menina Lisa que não procura nenhuma distracção, que trabalha constantemente n’um quarto onde não tem por companhia senão uma velha paralytica, e isto de ter assim vivido na inacção envergonha-me. Tenho ainda deante dos olhos a situação de Rouflard. Este homem, que foi tão festejado, tão amimado pelas mulheres, viveu á custa d’ellas e eu vejo onde isso conduz, o seu exemplo não será perdido para mim. A sr.ª Montémolly pode zangar-se quando quizer, mas de hoje em deante hei-de trabalhar; estou resolvido a isso, no entanto, como é preciso ser sempre delicado com as senhoras, vamos ter com ella, senão seria capaz de vir aqui para saber o que estou fazendo.

Casimiro dirige-se portanto a casa da formosa Ambrosina. Esta dama está de muito máu humor; acha-se vestida e prompta ha mais de uma hora, e não vê apparecer o amante. Passeava com impaciencia pela sala, olhava a cada instante para o relogio, chamava a creada e dizia-lhe que fosse perguntar que horas eram a qualquer parte, exclamando:

—Estou certa de que este relogio anda adeantado, deve regular mal; Adriana, vá saber que horas deram com exactidão.

Adriana vae informar-se ao quarto do porteiro, e volta dizendo:

—Minha senhora, o seu relogio não está adeantado, pelo contrario, anda atrazado seis minutos.

—Você é uma tola! exclama Ambrosina, rasgando as luvas com colera, de certo viu mal...

—Não, minha senhora, eu...

—Basta! não quero que sejam perto de cinco horas, é impossivel!...

—Ah! se a senhora quer que não seja mais de meio dia, isso para mim é o mesmo.

—Cale o bico! parece-me que tem a confiança de gracejar commigo! se diz mais uma palavra, ponho-a na rua!...

Adriana retira-se, dizendo comsigo:

—É que o gajo ferrou-lhe alguma peça! Ainda agora a procissão vae na praça, minha rica!

Chega finalmente Casimiro. Esperando uma scena de ralhos, vem revestido de toda a sua paciencia; demais, está decidido a persistir na resolução que tomou de mudar de vida.

—Ah! chegou emfim, diz Ambrosina mordendo os labios com despeito. Sabe que horas são?

—Cinco horas menos vinte minutos.

—E a que horas devia o senhor vir buscar-me?...

—Um pouco mais cedo, é verdade; mas puz-me a pintar e o tempo passou mais depressa do que eu imaginava.

—De certo que não presume que eu me satisfaço com similhantes razões; deveria, pelo menos, ter inventado outras, dizer-me ainda que estava á espera do seu amigo Miflaud, que foi elle que o demorou...

—Disse-lhe a verdade, minha senhora, não tem razão em não me acreditar. Estive trabalhando.

—Esteve trabalhando! e desde quando, se me faz favor, desde quando lhe veio esse bello amor pelo trabalho, que eu lhe não conhecia?

—Estou admirado de que a senhora me diga isso, porque, desde algum tempo a esta parte, temos tido bastantes conversações a tal respeito. Sim, minha senhora, puz-me ao trabalho, e d’aqui em deante conto empregar assim uma parte do meu tempo, a minha resolução está tomada e é inquebrantavel, agora não mudarei. Estou envergonhado da vida que tenho levado até hoje, e é preciso que isto acabe. Bastantes vezes lhe tenho manifestado o desejo que sentia de achar um emprego. Em vez de me confirmar n’este designio, a senhora tem sempre procurado fazer-me esquecer do que a minha posição tinha de censuravel. Não lhe faço uma arguição. Deus me livre de tal! cada um ama a seu modo: uns sómente pelo prazer de amar; outros pela felicidade que experimentam em ouvir fazer o elogio do objecto da sua escolha. Eu possuo só um recurso, a pintura. Posso, á força de estudo, de trabalho, adquirir algum talento. É o que vou tractar de fazer; não ve o em que isso me poderia malquistar com a senhora, porque lhe asseguro que os prazeres parecem mais doces, quando vêm depois das horas de trabalho.

Casimiro disse tudo isto com um ar tão decidido, n’um tom tão firme, tão convencido, que a sr.ª Montémolly comprehende que d’esta vez não triumphará da nova resolução do seu amante. A colera desappareceu então como por encanto. É que ella conhece Casimiro sufficientemente para perceber que perderia muito no conceito d’elle, procurando ainda estorvar-lhe os projectos. Em vez d’isso, faz esforços para retomar o seu ar gracioso, e toma-lhe o braço, dizendo-lhe:

—Perdôe-me, meu amigo, eu não tinha razão; não o censurarei mais por trabalhar. Mas isso ha-de impedir-nos por ventura de irmos ainda passear algumas vezes?

—Ah! estou ás suas ordens e encantado de a achar tão razoavel...

—Pois bem! então, vamos dar um passeio até ao bosque, e á volta jantaremos no Ledoyen...