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A menina Lisa

Chapter 11: X Ainda as creadas
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About This Book

The narrative follows a young woman whose shifting romantic prospects and social circumstances lead to a sequence of domestic episodes and comic misunderstandings. Told in an episodic manner, scenes portray courtships, family interactions, and minor moral dilemmas, blending light humor with sentimental observation. A cast of secondary figures and recurring situations illuminates contemporary manners and social expectations, while the central figure’s feelings and choices propel gradual personal change and an eventual resolution of her romantic and household affairs.

X
Ainda as creadas

São decorridos quinze dias. Casimiro trabalha com assiduidade no seu quadrosinho de cavallete e da cabeça de Rouflard; este conserva a posição muito regularmente, sobretudo desde que dá as sessões antes do almoço. Mas não conseguiu ainda vencer a resistencia de Lisa, que não quer deixar tirar o retrato. Isto penaliza o joven pintor, que subiu muitas vezes a casa da sua linda vizinha do quinto andar; mas não se demorou muito lá, porque ella parece sempre temer que a vista do rapaz contraríe sua avó, e é mostrando-se bem discreto que Casimiro espera captar a confiança de Lisa e triumphar da sua recusa.

O joven pintor continúa a dar lições de desenho á menina Proh, que não faz nenhum progresso e passa uma semana com a mesma orelha. Começou tambem o retrato da sr.ª Proh, mas pouco trabalha n’elle, e prefere muito mais a cabeça de Rouflard. Emfim, Casimiro acabou a sua pequena paizagem, e mandou-a para uma loja de quadros, deante da qual param de boamente os amadores, porque se expõem alli a miude bonitas coisas e raras vezes má pintura.

Deve-se bem suppôr que a ciumenta Ambrosina, não acceitou sem desgosto, sem receio, o novo modo de viver que o seu amante acaba de adoptar; mas comprehendeu que era preciso fazer algumas concessões para não perder inteiramente o seu imperio. Vê Casimiro muitas vezes; mas em vez de passar em casa d’ella uma parte das suas manhãs e das suas tardes, a conversar como costumava, o rapaz almoça agora em sua casa, e trabalha algumas vezes até ás cinco horas da tarde; quando se sente perfeitamente bem, quando está contente de si, custa-lhe muito largar os seus pinceis, e fica muito admirado de vêr com que rapidez se passa um dia todo consagrado ao trabalho, elle que outr’ora achava o tempo bem comprido e não sabia como empregal-o para evitar o aborrecimento.

Ambrosina, que quer certificar-se de que Casimiro não a engana, chega muitas vezes a casa d’elle sem o prevenir da sua visita. Acha-o trabalhando com o seu modelo, e não é Rouflard que pode inquietal-a; encontrou lá tambem uma vez a sr.ª Proh, que dava uma sessão ao seu vizinho, mas a esposa do antigo professor não podia despertar-lhe ciume. Não tinha pois nenhum motivo real para se affligir, e todavia não estava socegada; parecia-lhe que o amante não era já o mesmo com ella, que com o amor inteiramente novo que lhe viera pelo estudo, tinha perdido muito d’aquelle que n’outro tempo lhe dedicára. Não sabia bem o que se passava no coração de Casimiro, mas adivinhava que havia agora entre ambos alguma coisa que devia destruir a sua felicidade. As mulheres teem uma segunda vista, que lhes faz presentir tudo o que tem relação com o seu amor.

Isto devia necessariamente produzir um augmento de crises nervosas, e a menina Adriana era muito a miude enviada á pharmacia que já tivemos o prazer de fazer conhecer aos nossos leitores.

Correndo alli um dia (sabemos já como Adriana corre, que pára a conversar com todos os conhecimentos que encontra,) a gorda creada acha-se outra vez cara a cara com a sua amiga, a menina Rosa, aquella que tem um tão bello commodo em casa d’um homem só, que lhe faz presentes, e que tomou um creado para que ella se não cance muito com o trabalho domestico.

—Bons dias, Adriana.

—Ah! és tu, Rosa! onde vaes d’esse modo?

—Vou alli á pastelaria encommendar umas empadas, que as fazem deliciosas!...

—Ah! bem sei, é tambem onde nós compramos, é a melhor do bairro.

—Ainda estás em casa da tal senhora nervosa?

—Oh! não me fales n’isso! desde algum tempo a esta parte, está constantemente de máu humor! anda furiosa! porque os amores já não correm muito bem! Eu bem vejo, o tal sujeito já apparece menos vezes, por mais que a senhora se apure no vestuario, por mais que se faça bonita, estou convencida de que elle tem vontade de a deixar.

—Ora! e ella arranja logo outro!

—Pensas que la em casa se faz isso com essa facilidade! Nós adoramos o nosso pintor, minha rica, seriamos capazes do nos deixarmos depennar por elle!

—Ah! é um pintor, algum pobre pintamonos?...

—Parece que desde certo tempo para cá vae adquiríndo talento, está para fazer o retrato da senhora, é ella que o quer, é preciso ver se elle me faz tambem o meu em quanto está de vez. E tu, Rosa, andas muito chic, pareces a mulher d’um ourives! Continúas em casa do tal homem só?

—Em casa do sr. Loursain, de certo minha rica; sou mais sua dama de companhia que sua creada; não faz nada sem me ouvir, hoje fui eu que appeteci as empadas, disse-me logo: «Vae encommendal-as...»

—Ah! elle tracta-te por tu!...

—Não... enganei-me... elle disse-me: «Vá, Rosa, encommende-as a seu gosto, e traga tambem pasteis de nata.»

—Caspité! és tractada como uma princeza!

—O senhor não faz nada sem me consultar. Quando os seus amigos me fazem zangar, digo-lhe a elle: «O seu amigo fulano deu-me hontem um beliscão em certo sitio...» Oh! o tal amigo fica pronto, é recebido de tal maneira que nunca mais volta.

—Oh! isso é bem armado, é um meio para te veres livre das pessoas que te aborrecem.

—É uma astucia velha que nunca erra o seu effeito. Mas imagina que me tinha vindo á idéa aquillo que me disseste o outro dia; uma d’estas tardes, depois de jantar, á sobremesa, digo ao patrão, que estava mais terno que de costume: «Senhor, se tem vontade de casar commigo, não se constranja, eu não desejo outra coisa.» A isto o patrão desata a rir, como um perdido! Fez-me zanga vel-o rir assim, e digo-lhe: «Então que motivo ha para rir do que lhe proponho?» Elle ri ainda mais, e depois responde-me: «Que diabo de idéa se te meteu na cabeça! e que tolice ires pensar no casamento.» «Mas, senhor, tornei eu, não acho que o casamento seja uma tolice.» «Pois olha que é, e bem grande; não, minha rica, não casarei comtigo, não farei similhante disparate! mas ainda mesmo que tivesse vontade de o fazer, não me seria isso possivel, pois que já sou casado.»

«Bem deves fazer idéa que fiquei embaçada ao ouvir isto «Como! pois o senhor é casado?» exclamei eu «e sua mulher está viva?» «Sim Rosa, minha mulher está viva, bem viva, e não creio que tenha vontade de morrer, porque é muito mais moça do que eu.» «E então porque não está o senhor com ella? para que vive sem mais nem mais como se fosse solteiro? É enganar a gente; isso dá ás raparigas solteiras certas idéas a seu respeito: póde a gente illudir-se com o senhor, pensando que é para bom fim, e depois era uma vez!... Isso é desagradavel...» O patrão fez então uma cara de mau humor, e respondeu-me:

«—Não tenho que lhe dar satisfações; se me separei de minha mulher, é porque provavelmente isso me conveiu, não é negocio da sua conta. De hoje para o futuro, ha de fazer favor de me não tornar mais a falar a tal respeito, porque isto desagrada-me.»

«Ora, bem deves suppôr que não foi preciso dizer-m’o duas vezes; vi que tinha ido longe de mais, e desde então não tenho falado mais em tal. Mas é o mesmo, desejava bem conhecer a mulher do sr. Loursain, e saber o motivo por que elle a deixou.

—Ora! tem muito que saber! é que lhe fez falcatrua, e esse senhor não gostou; ha homens tão ridiculos. Valha-me Deus! e eu sem ir buscar o remedio á botica! Adeus, Rosa, até mais ver.

—E o teu moço de quem gostavas tanto?

—Ah! isso já acabou! agora é outro! eu nunca me prendo, gosto da variedade.

Quando a menina Adriana volta á presença de sua ama, esta ralha muito com ella por se ter demorado tanto tempo fóra; a creadinha porém não falta a responder-lhe:

—Não foi por minha culpa, minha senhora, é que encontrei uma amiga, uma patricia, que não via ha muito tempo, então estivemos a conversar, perguntei-lhe pela familia...

—Sempre desejava saber que interesse podia ter n’isso...

—É que a Rosa tem um irmão que esteve quasi á morte por minha causa.

—Por amor?

—Não, minha senhora; mas querendo levar-me muito longe nos braços, á força de pulso, ficou corcovado.

—E o que faz a sua amiga?

—Oh! tem um bello commodo, em casa d’um homem só, onde ella faz tudo quanto quer; manda fazer empadas quando lhe dá na vontade... e pasteis de nata, emfim, grandes banquetes.

—É então rico, esse senhor?

—Sim, minha senhora. Oh! parece que o sr. Loursain é riquissimo!

Ao nome de Loursain, Ambrosina sente uma viva commoção; apressa-se porém a dominal-a replicando:

—Como se chama esse senhor em casa de quem está a sua amiga?

—Loursain. A senhora conhece-o?

—Não, parecia-me ter ouvido outro nome. E esse sujeito é... viuvo?

—Quer dizer, vive como se o fosse; mas na realidade não o é. Tem ainda a mulher viva. Eu soube tudo isto pela Rosa, de quem elle está loucamente namorado, e com quem estimaria muito casar; mas elle disse-lhe em confidencia: «Eu não posso casar comtigo, Rosa, e tenho muita pena d’isso, porque sou casado e minha mulher ainda é viva, infelizmente; mas, se ella morrer, podes estar descançada, tens a certeza de occupar o seu logar... o teu futuro está seguro.» O que é pena, é que parece que a tal senhora é muito mais moça que o marido; mas, emfim, em todas as edades se morre, não é verdade, minha senhora?

—Certamente. E o amo da sua amiga mora perto d’aqui?

—Sim, minha senhora, na rua Béranger, aquella que faz continuação á nossa. Parece que aquelle senhor tem uma bella casa, n’um segundo andar, do lado da rua, e mobilada no grande chic. O quarto da Rosa é no mesmo pavimento, o que é muito commodo, porque... a senhora bem entende... a Rosa não m’o quiz confessar, mas é como se m’o tivesse dito, demais, ella descuidou-se commigo... o amo trata-a por tu, e...

—Basta, basta, não quero saber dos negocios da menina Rosa; mas, para a outra vez, tracte de conversar menos tempo quando eu a mandar a algum recado.

Deixada só, Ambrosina fica por largo espaço engolphada nas suas reflexões, das quaes sae por fim, dizendo de si para si:

—Loursain mora perto de mim, e eu não desejo encontral-o, é preciso mudar-me.