SCENA ULTIMA
OS MESMOS E FREDERICO
Frederico (ajoelhando diante da morgadinha)
Sim! sim! recebo de vossas mãos, Senhora, a espada que ha de decepar as infinitas cabeças da hydra financeira! (Espanto geral.)
Macario
Como se entende esta caranguejola, snr. morgado!?{136}
Pantaleão
Snr. Macario... esse homem... vae ser... vae ser... Eu desmaio!
João Lopes
Vae ser o marido da menina... (a Pantaleão) Faça favor de não desmaiar, por quem é!
Frederico (com vehemencia e fogo)
E o marido da morgadinha de Val-d'Amores vae conduzir-vos á victoria, briosos populares! Eu vos ensinarei a calcar tyrannos! Auxiliado por vós, intrepidos filhos do norte, levantaremos o paiz das palhas pôdres em que o prostraram os comilões. Eu fallo assim, porque cada nação, nas horas criticas, tem o seu Vigor Hugo, o seu salvador por meio da rethorica. Vamos a elles, filhos da victoria! As nossas bandeiras desenroladas aos ventos das batalhas, dirão: Riqueza e Moralidade! Em menos de quatro annos de regimen moral, e dieta aos lambões, o paiz não deverá nada, e vós não pagareis um pataco de decima.{137}
Vozes
Apoiado!
Frederico
Cidadãos! Eu tenho estudado profundamente as doenças de Portugal e pude descobrir onde está o cancro que nos róe. Ahi vae o meu programma: O meu systema é dividir o paiz em republicas confederadas, cada republica tem seu presidente de eleição popular, quero dizer, cada conselho governa-se a si, e não quer saber do conselho visinho. Não sei se me percebem...
Macario
Muito bem, entendemos muito bem.
Frederico
Por exemplo: Santo Thyrso fica sendo uma republica, que não tem nada com a republica de Famalicão, nem com a republica de Fafe. Nós cá vivemos com o que é nosso, fazemos as{138} nossas despezas, e não damos nem vintem aos de fóra.
Vozes
Apoiado! apoiado!
Frederico
Aqui está o meu systema que ainda não lembrou a ninguem, e que é o resultado de quinze annos de estudo. Conseguido isto, não temos a sustentar tropas, (Apoiados) nem as estradas por onde andam os outros, (Apoiados) nem theatros onde os outros se divertem, (Apoiados) nem escrivães de fazenda. (Apoiados) E declaro que me dou já por demittido do meu logar, e levanto minha voz auctorisada bradando: Guerra e morte a todos os escrivães de fazenda! (Os populares desembainham as espadas, e bradam: «guerra de morte!») E, portanto, senhores, beijo esta espada, e leio na sua lamina, os novos destinos que vão alvorecer para Portugal! Recebi-a da mão do anjo protector das nossas tremendas batalhas! E concedei, cidadãos, que essa bandeira{139} seja arvorada nas mãos da Judith lusitana! Não mais cahirá aos pés de vencedor algum o estandarte que foi consagrado pela filha d'este honrado fidalgo! (Frederico, tem passado a bandeira á Morgadinha, a qual se colloca de maneira que o pae fica entre ella e Frederico.) Bravos sycambros de Santo Thyrso! agora, á victoria, á victoria que a patria nos chama! Está inaugurada a republica confederada de Santo Thyrso! Toque o hymno! (Os musicos executam. Frederico florea a espada com arrebatada bravura. A morgadinha agita a bandeira. Os commandantes fazem tambem seus ademanes de valentões. João Lopes sentado com os queixos entre as mãos contempla tudo aquillo. Corre o panno.)
FIM.
{141}
ENTRE A FLAUTA E A VIOLA
ENTREMEZ EM UM ACTO
{143}
PERSONAGENS
- ANICETO DA SILVA, pae de
- VICTORINA.
- GUTERRES ARTHUR DE MIRAMAR.
- JOSÉ PIMENTA.
- UM CREADO.
{144} {145}
ACTO UNICO
Salão de estalagem em Barcellos. Quartos numerados desde 1 a 12, occupando os lados, e parte do fundo. Um d'elles o n.º 10 tem sobranceira á porta uma vidraça ou bandeira. Sobre um canapé de palha está uma viola francesa.
SCENA I
(Ao erguer o panno vem entrando Aniceto e Victorina precedidos de um creado com dois saccos de noute e castiçal.)
ANICETO, VICTORINA, CREADO
Aniceto
Vamos a saber: temos dois quartos limpos e camas asseadas onde se passe a noute?
Creado
Háde haver.{146}
Aniceto
Ha de haver?! Pergunto se ha.
Creado
Faça favor de entrar aqui para o n.º 6; e acolá defronte está o n.º 10 tambem de vago. (Põe a bagagem dentro dos quartos.)
Aniceto
Então os outros estão occupados? Pelo que vejo reuniram-se muitos viajantes em Barcellos. Teem bom gosto! Quem está hospedado cá?
Creado
Nos n.os 1, 3, 5, 7 e 9 estão as snr.as fidalgas de Lanhoso, que são seis velhas.
Aniceto
Que faz por aqui esse mulherío?{147}
Creado
Vão para os banhos da Povoa. V. S.ª faça favor de fazer pouca bulha que ellas recommendaram-me todo o socego, que queriam dormir.
Aniceto
Pois que durmam. Ora que me importa cá a mim as fidalgas de Lanhoso!
Creado
V. S.ª toma alguma cousa?
Aniceto
Queres chá, Victorina?
Victorina
Não quero nada. Quero deitar-me, que estou moída. O meu quarto é aquelle? (Apontando para o 10.){148}
Aniceto (indo examinar o quarto)
Para onde deita aquella janella?
Creado
Para o quintal.
Aniceto (indeciso)
Para o quintal? está bom... Vá... Vae-te deitar, menina. (Ao creado) Vá você buscar outra luz. (O creado sáe.)
SCENA II
ANICETO E VICTORINA
Victorina
Boas noutes, meu pae.
Aniceto
Boas noutes. Se fôr preciso alguma coisa, bate na porta trez palmadas.{149}
Victorina
Ai! (Gemido longo.)
Aniceto
Deixemo-nos de ais, Victorina. Juizo, juizo e juizo! (Victorina recolhe-se. O pae fecha a porta, e tira a chave.)
SCENA III
ANICETO E O CRIADO QUE VEM COM O CASTIÇAL
Aniceto
Diga-me cá vossê...
Creado
Meu amo, que manda?{150}
Aniceto
Por aqui é tudo femeas, ou tambem ha machos?
Creado
Machos?!
Aniceto
Sim, homens! Se estão homens n'estes quartos.
Creado
Já disse que não, meu amo. Não ha homens.
Aniceto
Da banda do Porto não veio passageiro nenhum?
Creado
Não snr.{151}
Aniceto
Está bom; dê cá você a luz e vá-se embora. Ás 7 da manhã, chame-me se eu não estiver a pé, ouviu?
Creado
Sim snr. (Aniceto recolhe-se, e fecha-se por dentro.)
SCENA IV
GUTERRES E O CREADO
Guterres (com um sacco de viagem)
Olá, Gregorio!
Creado
Por cá, snr. Guterres! Como está V. S.ª?{152}
Guterres
Bom. Ha quarto?
Creado
Hade haver. D'onde vem?
Guterres
Da Povoa. Venho no rasto d'uma mulher divina que veio n'um carro. Está cá?
Creado (rindo)
Ora V. S.ª que ha de sempre andar atraz de mulheres! Com esta é a setima vez que o vejo n'aste fadario! E o maganão sabe-as escolher!
Guterres
Então viste-a, viste-a? Boa de lei, eim? Onde está ella?
Creado
Alli no n.º 10.{153}
Guterres
Alli? Oh! que perola se esconde n'aquella feia concha! Quem dirá que o meu ideal sonhado ha trinta e seis annos está na estalagem de Barcellos! Alli! n'aquelle antro!
Creado
Sempre V. S.ª está um poeta d'aquella casta! Lembra-se da filha do regedor de Guilhabreu que cá esteve na festa das Cruzes ha cinco annos?
Guterres
Lembro. Era uma trigueirita d'olhos pretos...
Creado
E os versos que V. S.ª lhe botou? a gente sempre se ria...
Guterres
Ah! vocês riam-se dos versos? Tens tu a felicidade{154} bestial de te rires da poesia? O talento póde contar com o couce até em Barcellos... Ora vamos... onde tenho eu quarto?
Creado (indicando-lhe um do fundo)
Está alli o n.º 11.
Guterres
Bem. Podes ir. (Entra na alcova. O creado sáe.)
SCENA V
ANICETO SAINDO COM O CASTIÇAL EM PUNHO
Não posso adormecer com a idêa de que ha uma janella no quarto de Victorina. Aquelle maldito não me deixa socegar em parte nenhuma. Receio que elle me siga por que o lobriguei quando passávamos em Vallongo; e ella tambem o viu. Quem me diz a mim que o tratante{155} nos não persegue, e anda á volta da casa? Cuidar aquelle valdevinos que se pôde com uma flauta arranjar uma rapariga com fortuna! Ha dous annos que minha filha está enfeitiçada por um trocatintas d'um estudante que conseguiu seduzir o coração d'uma menina que regeitou os melhores casamentos de Penafiel e Amarante! Afinal, não hasde vencer, sarrafaçal! Eu tolherei todos os teus calculos. Não me pilharás descuidado um instante! Mas aquella janella assusta-me. Vou fazer mudar Victorina para o meu quarto. (Olhando para o alto da porta) E de mais a mais esta porta tem vidraça em cima. Se elle aqui entrar, ella póde vêl-o d'alli... Que imprudencia eu ia commettendo! (Bate a porta) Victorina, Victorina!
Victorina (dentro)
Quem é?
Aniceto
É teu pae. Já estás na cama?{156}
Victorina
Não, snr.
Aniceto
Que estás a fazer?
Victorina
Nada. (Dando volta á chave.)
Aniceto
Nada? Posso entrar? (Áparte) Lá está ella a descer a vidraça. (Alto) Posso entrar?
Victorina
Póde.
Aniceto
Estavas á janella?{157}
SCENA VI
ANICETO E VICTORINA SAHINDO DA ALCOVA
Victorina
Ai!
Aniceto
Que estavas a fazer na janella?
Victorina
Ora o pae tem manias! Credo! que havia de eu fazer na janella! Estava a tomar a fresca. Não tinha somno, não podia dormir, estava muito afflicta, muito opprimida, muito abafada, abri a janella, ai!
Aniceto
Pois sim, sim, minha menina. Assim será; mas troquemos os quartos. Vae para aquelle,{158} que eu vou para este. Dá cá o teu sacco de noute. Vamos. Leva o castiçal. Dá-me o meu sacco. Muito bem. Agora entra...
Victorina (entrando)
Oh céos!
Aniceto
Sim, sim. (Fechando a porta, e tirando a chave) Agora vou descançado. (Recolhe-se.)
SCENA VII
GUTERRES
(Caminhando contemplativo com o castiçal em punho e os olhos postos no quarto d'onde sahiu Victorina. Pousa o castiçal.)
Ella alli está, a formosa como a rolinha adormecida com o bico debaixo da aza; e eu venho aqui dar pasto ao coração;... mas que{159} pasto tão pouco nutriente! Pobre poeta! todo o teu alimento são esperanças! Em quanto a gente prosaica se embrutece com timbaes de pombos e pasteis de camarão, tu, poeta (batendo no peito) engoles timbaes de esperanças com pasteis de sonetos. Eu já sou do tempo em que um homem de genio amava com o auxilio dos sonetos, e fazia consistir toda a sua gloria de fino amante em gargarejar ternuras para um terceiro andar e recolher-se a casa com o coração a trasbordar de catarro. Hoje não. Os anjos actuaes se apparecem de noite á janella é para namorar a lua, ou vêr a cauda d'algum cometa. Desde que entrou a moda do amor ideal, os olhos d'uma senhora, que conversa com as estrellas, não descem a procurar na rua um d'estes amadores fanhosos, que só se sentem inspirados e eloquentes na occasião em que a patrulha os não deixa fallar. Eram d'uma paciencia adoravel as donzellas de ha vinte annos, quando em meu coração rebentavam as primeiras flôres!.. Que sensaborias a gente lhe disparava lá para cima, e a sancta resignação com que a gente as ouvia a ellas! A virtude d'aquelle tempo só se explica bem pela temperatura de{160} sorvete em que os corações se conservavam de parte a parte. Isto agora é outra coisa. Um homem sente no peito o progresso material. Aqui dentro ha gaz, ha vias-ferreas, ha fio electrico, ha balões, ha petroleo, ha tudo quanto é fogo, energia, rapidez, etc. Eu cá pelo menos sinto isso tudo; conheço que remoço, que amo e que ardo. Tenho phosphoros e ácido prussico aqui dentro. (batendo no peito) E esta mulher! Como eu amo esta mulher desde que a vi hontem na Povoa de Varzim! Eu, na minha qualidade de escrivão do juiz eleito, estava a escrever n'um processo, quando ella passava luminosa e radiante como uma aurora boreal. Larguei o processo como largaria um sceptro, se fosse rei. Segui-a; vi-a jantar á meza redonda do hotel portuense. Comeu apenas uma aza de borracho e meia banana. Que estomago tão fino! É que alli está um coração immenso cheio de ternura e com mais poesia que um livro de versos. Sahiram, e eu segui-os. Vi entrar o pai n'um escriptorio de viação e comprar dous bilhetes. Perguntei para onde iam os passageiros; disseram-me que para Barcellos. Pedi bilhete; mas não havia. Ó desventura! que farei? ficar? não! Ha{161} fatalidades invenciveis, funestissimas! Esta mulher tem o meu destino nas suas mãos; disse eu comigo. Cumpre-me seguil-a. Mas que farei? Não ha bilhete. Embora. Alma de poeta, exclamei eu, não succumbas! Heroicidade na desgraça, homem de coração de bronze! Segue-a! segue-a! Fui alugar um garrano, e segui-os a galope, terra a terra, a rédea solta, receando a cada passo que o coração e o garrano me rebentassem. Aqui estou. Ó mulher, mulher quem és tu? Ave do paraizo, que estás sonhando delicias do teu Éden, lembra-te, ó Eva, que és costella do homem, e que está aqui Adão digno de ti. (Repara na viola.) Uma viola franceza! (Pega d'ella e corre-lhe as cordas.) Está desafinada. Oh! que saudades me tu fazes, instrumento interprete das minhas paixões infantis! Que trovas eu descantava em noites de lua cheia ao arpejar dos teus bordões que gemiam comigo! (Pensativo) Quem sabe? (vai afinando) Quem sabe? Se tu fizesses o milagre, ó lyra das canções apaixonadas! Vamos! é o fado que me impelle; mas não vou tocar o fado. Inspira-me, coração, umas trovas dignas do anjo que alli está dormindo. (Avisinha-se da porta, onde presume que{162} está Victorina, e preludía com tregeitos de vate que invoca a inspiração do céo, e canta):
(MUSICA DA «ALTEA, MIMOSA ALTEA»)
Se tu soubesses, lindinha,
Quanto é grande o meu amor
Não dormiras descançada
Quando eu morro aqui de dôr.
(Allegro)
Acorda menina,
Não durmas agora,
Em quanto se fina
De dôr quem te adora.
Eu na Povoa descuidado
Já não sentia disvelos,
Eis que surges luz brilhante,
E eu te sigo até Barcellos.
Acorda, menina,
Não durmas agora,
Em quanto se fina
De dôr quem te adora.{163}
SCENA VIII
ANICETO E GUTERRES
(Aniceto abre a porta, e sáe de barrete de dormir e rob-de-chambre, com a luz na mão. Guterres recúa espavorido.)
Aniceto
Passasse muito bem.
Guterres
Viva.
Aniceto
Eu já vi o senhor se não me falha a memoria.
Guterres
Sim, senhor, já tive a honra de jantar na meza em que V. S.ª estava na Povoa.{164}
Aniceto
É verdade. Pois snr., V. S.ª canta e toca muito bem; n'outra occasião muito lhe agradecerei o prazer de o ouvir; mas agora pedia-lhe o obsequio de se calar, porque tenho de seguir amanhã viagem e preciso dormir...
Guterres
Pois não, senhor! Eu deponho já o instrumento importuno.
Aniceto
Agradeço muito a sua delicadeza. Se não fosse indiscreto, perguntaria com quem tenho a honra de fallar?
Guterres
Sou Guterres Arthur de Miramar, para o servir.{165}
Aniceto
Então é estrangeiro? Esse nome não me parece de cá.
Guterres
Sou portuguez nascido e baptisado na Povoa, onde exerço funcções publicas.
Aniceto
Ah! exerce funcções publicas? Esse emprego deve ser bem bom.
Guterres
Soffrivel; mas vivo mais do espirito que do funccionalismo. Sou homem de bastantes lettras.
Aniceto
Ah! de bastantes lettras? então é capitalista... Eu tambem trago um pouco de dinheiro em descontos... O juro por aqui como regula?{166}
Guterres
O juro? está favoravel. Um amigo meu empenhou o relogio a doze por cento ao mez. V. S.ª é do Porto?
Aniceto
Não senhor, sou de Penafiel, onde sou bem conhecido por Aniceto da Silva.
Guterres
Oh! pois não, snr. Aniceto! E anda pelo Minho a divertir-se com sua ex.ma filha?
Aniceto
A divertir-me não... Isso são contos largos... se V. S.ª por aqui estiver ámanhã, conversaremos. Agora boas noutes, que são horas de dormir.
Guterres
Tem razão, tem razão... Boas noutes. (Aniceto fecha-se.){167}
SCENA IX
GUTERRES
Ora ahi está a deidade, que eu eternizei nos meus versos! As esperanças de muitos poetas, quando se realisam, são pouco mais ou menos como esta. Este Aniceto, offerecendo-se aos meus devaneios d'alma, é uma imagem que eu tambem offereço como lição a todos os poetas. (Vê-se um encapotado ao fundo, com chapéo de aba derrubada).
Mas, a final, onde é que está a filha? Foi o velhaco do creado que me enganou! É o couce da proza que bateu no peito da poesia. Filha de Aniceto, onde quer que estejas, eu te offereço este calix d'amargura, e boas noutes. (Vai a recolher-se ao quarto.){168}
SCENA X
JOSÉ PIMENTA E GUTERRES
Pimenta (rebuçado)
Boas noutes.
Guterres (suspendendo-se)
Boas noutes.
Pimenta
Quem é o senhor?
Guterres
Não respondo a encapotados de melodrama. Destape-se.
Pimenta (deixa cair as bandas do capote)
Eis-me.{169}
Guterres
Eis-me o que? Cada vez o conheço menos.
Pimenta
O senhor fallava agora aqui em filha d'Aniceto. Que ha de commum entre o senhor e a filha de Aniceto?
Guterres
De commum de dois? temos questão grammatical ou phisiologica?
Pimenta
Que tem o senhor que ver com ella?
Guterres
Que tenho que ver com ella? Ha muita cousa que ver: por exemplo, Barcellos, o rei dos tambores, V. S.ª etc. Falta elle que ver...{170}
Pimenta
O senhor sabe que da zombaria ao rewolver não ha mais que um passo?
Guterres (sorrindo)
O senhor figura-se-me um patusco bastante tragico. Um tyranno em Barcellos não póde ser melhor nem peor que a sua pessoa. Como se chama, posso saber?
Pimenta
Sou José Pimenta.
Guterres
Pimenta? por isso o senhor é tão cálido!... Eu sou de apellido Mira-mar. Tenho uma alma larga e fresca como o oceano. Saibamos: o senhor namora a filha d'este Aniceto? Falle franco, que tem em mim um coração de poeta e um respeitador dos direitos adquiridos. Ama a tal pequena?{171}
Pimenta
Amo.
Guterres
Tambem eu.
Pimenta
Tambem o senhor?
Guterres
Tambem eu; mas ha uma differença entre nós, e vem a ser que ella a mim não me conhece, e provavelmente ao senhor ama-o.
Pimenta
Tenho provas d'isso.
Guterres
Tem? (Solemne) O senhor sabe que esmagou{172} n'este momento um dos mais romanticos corações que batem em peito de homem? Sabe que espezinhou as florinhas d'um amor nascente que burbulhavam na charneca d'esta alma? (concentra-se) Coragem! Deixe-me saborear voluptuosamente o meu fel. E então o senhor vem aqui fallar-lhe? Sabe que ella está...
Pimenta (apontando para o quarto de Aniceto)
Sei que está alli no N.º 10, que m'o disse o creado da hospedaria.
Guterres (apontando)
Alli?
Pimenta
Alli sim. O senhor tambem o deve saber. Espere... (reparando na vidraça sobranceira á porta.) Vejo um vulto de cara por detraz d'aquelles vidros.. O senhor não vê?{173}
Guterres
Sim, eu vejo lá o que quer que seja.
Pimenta
É ella que me conheceu a voz. Quer outra prova?
Guterres
Não senhor, estou satisfeito. Aquella mulher é sua. Sou magnanimo até aqui!
Pimenta
Se me fosse possivel subir á altura da vidraça! Alli está uma mêza. O senhor guarda segredo? Não revella este arrojo d'um amante apaixonado?
Guterres
O senhor chama a isso arrojo? Arrojo seria o snr. Pimenta quebrar os caixilhos das vidraças{174} e passar-se lá p'ra dentro. Póde fazêl-o que eu não digo nada.
Pimenta (attento nos vidros)
É ella. É o anjo! Lá está o rosto amado!
Guterres
Vá, não perca tempo. Dê-lhe um beijo envidraçado. (Pimenta aproxima uma banca da porta; sobe, e, ao chegar a cara aos vidros, Aniceto parte a vidraça com um murro, e põe fóra a cabeça.)
Aniceto
Ah cão!
Pimenta (saltando)
Traição! traição! (Ouve-se o rodar da chave. Pimenta foge.){175}
SCENA XII
ANICETO E GUTERRES
(O palco escuro)
Aniceto (correndo para Guterres)
Ainda aqui estás, ladrão!
Guterres (accendendo um phosphoro)
Olhe que está enganado, snr. Aniceto. Suspenda-se. Veja que eu sou o funccionario da Povoa, Guterres Arthur. (Continúa a accender phosphoros.)
Aniceto
Mas eu vi a cara do meu algoz atraz d'aquella vidraça. Onde está o scelerado, o canalha do flautista?
Guterres
Elle toca flauta? São fataes os flautistas...{176}
Aniceto
Transtornou a cabeça de minha filha o infame... Onde está elle?
Guterres
Safou-se. Os phosphoros acabam-se. Eu vou buscar uma vela ao meu quarto. (Engana-se, e vae querer abrir o quarto de uma das fidalgas, que exclama de dentro.)
Voz de velha
Quem está ahi?
Guterres
Enganei-me.
Voz
Um homem! que desafôro! um homem!{177}
Guterres
Perdão, minha senhora; não grite tanto. V. Ex.ª parece-me bastante velha pelo metal de voz, e não deve recear-se de homens.
Voz
Que escandalo! um homem! a empurrar a porta do quarto de uma senhora...
Guterres
Não se assuste. V. Ex.ª em guerra de paixões é paiz neutro. Esteja socegada. Durma. (Engana-se novamente com a porta d'outra fidalga.)
Voz
Quem bate? quem anda aqui, mana?
Guterres
Cá está outra inviolavel. Não é nada, minha senhora. A mana não teve perigo.{178}
Aniceto (sahindo com uma luz do seu quarto)
Aqui está luz. Venha cá, snr. Miramolim.
Guterres
Miramar, se faz favor.
Aniceto
Que me diz á perseguição d'este facinora? O senhor não lhe disse que eu estava n'este quarto?
Guterres
Nada, eu não lhe disse coisa nenhuma. Eu bem vi que o senhor estava a espreitar pelos vidros; mas como elle disse «lá está o rosto amado» cuidei realmente que o rosto amado era o da sua pessoa. Não se afflija. O caso tem remedio. Trate a doença de sua filha pelo systema homoeopathico. Similia similibus. Sabe latim? (Signal negativo) Quer dizer: cura-se a molestia com a mesma droga que a faz, percebe? quer dizer: a doença de sua filha é causada pelo tal{179} sujeito, não é? (Signal affirmativo) Pois similia similibus arranje-lhe outro similhante.
Aniceto
Dois? tomára eu desfazer-me d'este.
Guterres
Outro marido, percebeu?
Aniceto
Percebi, sim, senhor; mas eu não acho que a minha filha tenha necessidade de casar com este nem com o outro.
Guterres (com enfaze e rapidez)
Snr. Aniceto, a natureza tem direitos inauferiveis. Ha periodos fataes no fluido nervoso que repellem toda a violencia, e a não soffrem sem que a especie seja deteriorada por transtornos contrapostos ás evoluções palyngenesicas da reproducção genesiaca, resultando d'ahi que{180} as evoluções abafadas disparam em atrophia do sensorio e outras aberrações de graves consequencias: o senhor percebe, eim?
Aniceto
As aberrações curam-se com uma boa bengala, snr. Miramolim.
Guterres
Miramar, se faz favor. Vejo que V. S.ª não entendeu. Sua filha ha de dar-lhe grandes penas e trabalhos, se não tiver em quem empregar a actividade do seu coração: percebeu agora?
Aniceto
Muito bem. Aconselha-me então o senhor que lhe procure marido.
Guterres
E quanto antes.{181}
Aniceto
O senhor é solteiro?
Guterres
Sou, sim senhor, porque?
Aniceto
Quer casar com minha filha?
Guterres (com gravidade)
A sua filha, snr. Aniceto, é uma imagem que me sorria nos meus sonhos antes de a conhecer. Eu amo-a com este coração de anjo que tenho; e, se eu já não fosse poeta, os olhos d'ella fariam de mim um Camões d'occasião. Mas a sua pergunta á queima-roupa é um choque tal de felicidade que me burrifica. Deixe-me tomar ar. Ha commoções de alegria que achatam os bofes e sacodem todas as visceras d'um homem.{182}
Aniceto
Não ha tempo a perder. Quero livrar-me da perseguição d'este bandido da flauta. Se V. S.ª annue, vamos sahir immediatamente de Barcellos, e onde podermos parar em paz e socego trataremos do seu casamento com a minha Victorina. Eu vou chamar minha filha. Quero que ella o veja e ouça fallar.
Guterres
Não, senhor. Isto de casamento é um acto sério e solemne. Corações apanhados de surpreza não me servem. A mulher, que houver de ser minha, hei de conquistal-a palmo a palmo com as armas do sentimentalismo poetico. Logo que eu conhecer que consegui apaixonar sua filha, então a contemplarei como objecto matrimonial. Eu sobretudo, snr. Aniceto, sou poeta.
Aniceto
Então que é preciso?{183}
Guterres
É preciso que ella me ame espiritualmente. Eu vou principiar os meus primeiros ensaios no coração de sua filha empregando os expedientes sentimentaes.
Aniceto
Que vae o senhor fazer n'esse caso?
Guterres
V. S.ª não me disse que sua filha se apaixonara pelo tal Pimenta em consequencia de elle tocar flauta?
Aniceto
Foi isso.
Guterres
Pois eu vou empregar tambem a musica. Póde ser que esta menina tenha a alma lyrica e{184} philarmonica e que o seu coração só possa ser abalado instrumentalmente. Faz-me o snr. Aniceto o favor de recolher-se ao seu quarto, e esperar lá os phenomenos que se forem operando na sensibilidade de sua filha?
Aniceto
Sim senhor, eu cá vou esperar os phenomenos. (Recolhe-se.)
SCENA XIII
GUTERRES (só)
(Guterres pega da viola, preludía, aproxima-se do quarto de Victorina e canta em postura de inspirado)
Eu na Povoa descuidado
Já não sentia disvelos;
Eis que surges, luz brilhante,
E eu te sigo até Barcellos.
{185} Acorda, menina,
Não durmas agora,
Em quanto se fina
De dôr quem te adora.
Victorina, escuta os hymnos,
Que te canta o meu amor;
Escuta os versos divinos,
De Guterres, trovador!
Acorda menina,
Não durmas agora,
Em quanto se fina
De dôr quem te adora.
Ella não se bole. Parece-me que a ouço resonar. É a belleza que ronca nos seus sonhos innocentes. (Reparando em José Pimenta que vem entrando) Temos chinfrim.{186}(Escutando declama:)
SCENA XIV
JOSÉ PIMENTA, GUTERRES, VICTORINA, NO QUARTO E DEPOIS NA SCENA, ANICETO MAIS TARDE, E O CREADO
(José Pimenta entra embuçado, medindo os passos á tragica. Chega ao meio da scena, arroja o chapéo, deixa cahir a capa, cruza os braços, relançando um olhar sinistro. Depois tira da algibeira interior d'uma jaqueta de pelle os canudos d'uma flauta, liga-os, dá dois passos á frente, e com a maior solemnidade toca a aria da Sombra de Nino, da Semiramis. Guterres tem passado com a viola para o outro lado, e faz menção de se defender com uma cadeira, em quanto o outro não toca. Victorina, assim que José Pimenta tem tocado a primeira parte da aria, começa aos empurrões á porta.)
Victorina (dentro)
Josésinho, Josésinho, eu estou aqui. Acode-me, salva-me! Arromba esta porta! (Aniceto rompe do quarto com os braços no ar, a tempo que Victorina faz saltar a fechadura e corre aos braços de José Pimenta, exclamando:) José, José, quero morrer nos teus braços. Ai! (Desmaia nos braços d'elle.){187}
Aniceto (ao creado que tem entrado com a luz)
Você faz favor de me ir chamar o regedor? chame-me as auctoridades todas. Ah grande facinora, cuidavas tu que em Barcellos não ha justiça que vingue um pae?
Guterres
Snr. Aniceto, não mande chamar as auctoridades. Nada de escandalos inuteis. Agora conheço que a chaga da sua filha só póde ser curada com o pêllo do mesmo... do mesmo José Pimenta. Não ha duvida que o coração d'esta menina está magnetisado pela musica; mas o que é certo é que a propensão d'ella não é a viola. A alma d'esta senhora inclina-se para instrumento de sopro. Não é assim, snr.ª D. Victorina? Faça favor de voltar a si para responder, e desmaie depois se quizer. (Ella abre os olhos) É verdade ou não?
Victorina
Ai! (Aniceto cáe prostrado n'uma cadeira á boca da scena.){188}
Guterres (a Pimenta)
O senhor não tem habilidade senão para a flauta. Aproveite a occasião e vá com a pequena ajoelhar-se aos pés do velho. Andem para diante. (Empurrando-os) Parece que nunca estiveram no theatro!
Pimenta e Victorina (ajoelhando)
Meu pae! piedade!
Aniceto (erguendo-se de impeto)
Oh! (Grito rouco e prolongado; com os braços affasta tragicamente da vista o espectaculo dos dois que se ajoelharam.)
Guterres
Snr. Aniceto, deixemo-nos de attitudes. Abençôe a união d'essas creaturas. Deixe-os casar; alegre-se com a esperança de que ha de ainda vêr meia duzia de netos a tocarem flauta; e meia duzia de netas, com o genio de sua mãe, amando uma orchestra de sujeitos distinctos desde a{189} trompa até á corneta de chaves. Vamos, volte o seu semblante misericordioso para os propagadores da sua individualidade tipica.
Aniceto
Levantem-se d'ahi! (Erguem-se submissos.)
Guterres
Bem; estão os senhores absolvidos. Parabens. Ó snr. Pimenta, eu creio que algum serviço lhe fiz, provocando com esta viola o poder fascinador da sua flauta. Em recompensa, faça-me o senhor o favor de dizer se foi realmente com a aria da Sombra de Nino que enfeitiçou esta sympathica joven?
Pimenta
Esta aria era a senha com que os nossos corações se entendiam.
Guterres
Ah! sim? Eu quero tocar isso no violão; vou{190} experimentar o effeito d'essa aria no coração de certas pessoas que costumam arrebatar-se fascinadas pela minha voz de tenor. (Tange na viola o acompanhamento da Sombra de Nino, e canta:)
(No intervalo de uma quadra á outra. A José Pimenta)Pobre poeta, ninguem te preza,
Pobre poeta, ninguem te quer;
Nem co'a viola tu conseguiste
Mover o peito d'uma mulher.
Isto vae bem? (Faz na viola escalas sobre os bordões.)
Mas não importa; vença a flauta
A sympathia das fracas almas;
Que eu antes quero, meus bons amigos,
O vosso affecto e as vossas palmas.
FIM.
Os direitos de representação das duas comedias que formam este volume pertencem ao auctor.
Porto, 3 de Fevereiro de 1871.
CAMILLO CASTELLO BRANCO.