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A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a Flauta e a Viola / Theatro Comico de Camillo Castello Branco cover

A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a Flauta e a Viola / Theatro Comico de Camillo Castello Branco

Chapter 39: (VOZ)
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About This Book

This work presents a comedic play set in three acts, focusing on the life and challenges of D. Joanna Cogominho de Encerrabodes, the Morgada of Val-d'Amores. The narrative explores themes of love, social status, and the complexities of relationships within a rural community. It features a cast of characters including a scribe, a deputy, and a pharmacist, each contributing to the unfolding drama. The play incorporates musical elements, although it was originally intended for performance, and reflects on the cultural practices of the time, particularly through popular songs and local traditions.

{v}

ADVERTENCIA

Da parte musical da primeira comedia d'este livro se encarregou o distincto maestro Francisco de Sá Noronha, quando a comedia se escreveu com destino a ser representada em Lisboa. Sendo importantissimo para o bom exito theatral o subsidio da musica n'esta composição, e sobrevindo rasões que desviaram o nosso amigo Noronha de collaborar comnosco em tamanha futilidade, não pôde por isso a comedia ser submettida á opinião das platêas. Quem a lêr agora tem de benevolamente disfarçar o seu fastio de leitura de versos, feitos ou copiados das canções populares, para se cantarem.{vi} Por via de regra, taes trovas são sempre asperas ou dissaboridas na declamação, mórmente as que formam o Auto do nascimento do menino Jesus, consoante elle se figura nas aldêas do Minho ainda hoje.

Com referencia á farça não temos que pedir desculpa. Seria desvanecimento irrisorio recearmos nós que a ponderosa e grave critica se descesse até coisa tão pequena.

 

 

 

 

A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES

COMEDIA EM TRÊS ACTOS

FIGURAS

  • D. JOANNA COGOMINHO DE ENCERRABODES, morgada de Val-d'Amores, filha de
  • PANTALEÃO COGOMINHO DE ENCERRABODES.
  • FREDERICO ARTHUR DA COSTA, Escrivão da Fazenda de Santo Thyrso.
  • COSME JORDÃO, Deputado por Guimarães.
  • MACARIO MENDES, Boticario de Santo Thyrso.
  • JOÃO LOPES, Lacaio e confidente da Morgada.
  • FIGURAS DO AUTO DOS TRES REIS MAGOS.
  • Creados, cantadeiras, camponezes, musicos e outros personagens.
  • Scenas da actualidade.

ACTO PRIMEIRO

Ao fundo, portão de quinta com sua enorme pedra de armas e ameias lateraes. O restante do palco figura uma alameda e estrada.

SCENA I

FREDERICO (só)

(Frederico é um homem entre 28 e 33 annos que traja quinzena e calças pretas apertadissimas em corpo de extrema magreza e aprumo. O chapéo é de fórma ingleza e alto para tornar mais aguçada a figura. A cabelleira bironniana em crespas ondulações. Bigodes encerados e picantes nas guias retezadas. A luneta d'um vidro sem aro obriga-o a caretear, abrindo a bocca de esguêlha quando fixa mais attentamente a morgada. Os seus movimentos, quando lhe fôr necessario fugir, hão de ter tal velocidade que simulem o rapido perpassar d'um duende. A agilidade da rotação do pescoço deve dar-lhe o que quer que seja de authomatico e fantasmagorico.)

A razão diz-me que eu estou em perigo de ser moído por estes selvagens do Minho; mas o coração, este intestino onde o amor e a coragem habitam, diz-me que não vacille. A rasão argumenta-me{12} que eu, escrivão de fazenda no concelho de S. Thyrso, não devo arrojar as minhas desenfreadas ambições até á mão da morgadinha de Val-d'Amores; mas o coração, esta republica intima que me esbraveja no peito, impelle-me para ella, mandando-me lêr n'aquelle brazão (apontando) o epitaphio da fidalguia de raça, e o monumento levantado não ás tradições ineptas, mas á restauração da dignidade humana. Além d'isto, eu, homem de aspirações gigantes, eu, poeta de audaciosos raptos d'alma, eu, que junto á poesia elevada a poesia profunda, preciso de me arranjar. Sou escrivão de fazenda; mas esta posição não quadra aos meus instinctos. Ás vezes como que sinto escaldarem-se-me as arterias com sangue de principe, e me quer parecer que algum de meus avós foi mais ou menos illudido por alguma das minhas avós. Reconheço, como filho d'este seculo, que a democracia matou a nobreza mascarando-se ella de fidalga; assim é; porém, ao mesmo tempo, não sei que filtros me circulam no intimo peito, quando vejo esta morgada e lhe entrevejo na fronte o sangue azul das veias. Sobre tudo, o que mais me incita a querer-lhe com a adoração{13} dos Paulos e dos Romeus é a precisão que tenho de me arranjar.

Eu já manobrei por mares tempestuosos. Um dia consultei a minha vocação; e, como me sentisse um dos muitos desventurados que cáem n'este mundo sem vocação, fiz-me litterato. Os litteratos fazem-se a si proprios, por serem cousa que a Biblia não diz que o Creador fizesse nos sete dias de creação. Um sujeito olha para si como Deus para as trevas, e diz «fiat lux» faça-se o litterato; «et lux facta est», e o litterato fez-se. Eu prometto não dizer mais nada em latim, por que tambem não sei mais do que isto.

Feito litterato, escrevi como toda a gente que quer escrever. Preparava-me para coordenar uma Historia Universal em 25 volumes com 26 de supplemento, quando se me offereceu um logar de noticiarista n'um diario de Lisboa. A minha reputação estava quasi estabelecida, quando a empreza me despediu por semsaborão, como se fosse obrigatorio ser engraçado no paiz mais desgraçado do mundo. Voltei o meu espirito para a historia universal, e cheguei até a procurar n'um Almanak onde era a Torre do Tombo com tenção de lá ir consultar os pergaminhos.{14} N'este proposito estava eu, sentindo já os calores da gloria, quando me encarregaram de traduzir uma comedia franceza para o Gymnasio. Puz de parte a Historia Universal, e traduzi a comedia com um esmero indigno do resultado, porque ella foi pateada visto que tinha, segundo disseram os criticos, uns gallicismos que lhe corrompiam a virgindade elegante do texto. Ora eu então fiz-me critico, animado pela grande copia de sandices que se escreveram contra a minha traducção. N'este modo de vida achei vantagens extraordinarias, sendo a primeira a dispensa de saber alguma coisa. Um critico, no jardim das lettras, representa uma toupeira em jardim de flores; é temivel porque remeche e estraga tudo; levanta impólas de terra, e suja quando não desvasta a mimosa vegetação. Eu fiz destroços grandes e escalavrei muitas reputações litterarias, já por amor da arte, já por amor do estomago, esta coisa onde um homem de genio não póde crear a luz, porque isto aqui (indicando o estomago) é um abysmo que só recebe a luz pela bocca. Mas a final, as obras litterarias que appareciam eram já de natureza que o arpéo da critica não lhes ferrava a{15} unha. Entreguei-me ao genero chamado reclame, e comecei a chamar a attenção do paiz para toda a coisa impressa, poema ou tragedia, romance ou farça. Este officio, posto que o mais aviltante da vida d'um escriptor, é o mais lucrativo no mundo patarata, em que eu me atasquei. A consciencia pezava-me pouco, se o estomago sahia pezado de casa do emprezario do theatro ou do editor do romance. Afoguei muitos escrupulos em sopa de camarão. Mas o sangue de principe, este não sei quê que me faz cócegas nos miolos, mostrou-me a indignidade da minha missão na terra, e desde logo atirei um vôo atrevido ás regiões aquilinas da politica. Estudei trez dias as questões de fazenda em Portugal, e entendi-as tão claramente como se fossem questões da minha fazenda. Percebi que o paiz estava como eu tal e qual: foi-me facil escrever uma serie de artigos nos quaes provava que a maneira de matar o deficit era... sim eu provava que a maneira de matar o deficit, esse cancro roedor das entranhas do meu paiz, era... sim eu provava... não me lembra agora o que provei... o certo é que me despacharam escrivão de fazenda de Santo Thyrso,{16} provavelmente para matar o deficit. Eis que chego, e vejo a Morgadinha... (Ouvem-se os tamborileiros) Não convem que estes barbaros me vejam parado em frente do portão da mulher amada... (Sáe).

SCENA II

PANTALEÃO, DOIS CREADOS, E OS TAMBORILEIROS

Entram ao terreiro e páram tocando em frente da porta trez tamborileiros, um de bombo, e os outros com caixas de rufo. Pouco depois abre-se a porta, e sáe PANTALEÃO, com dois creados de lavoura, um dos quaes distribue canecas de vinho, que despeja d'um pichel vermelho, pelos tamborileiros, que se descobrem.

1.º Tamborileiro (o do Zabumba)

Biba o incelentissimo morgado a mai'la snr.ª morgadinha!

Os trez

Biba por muitos annos, biba!{17}

Pantaleão

Olé! rapazes! Com que vossês já se vão chegando ao arraial?..

1.º Tamborileiro

Ó promeiro, vamos tocar ós mordomos do Snr. San Joon, que tem festa d'arromba este anno; e ós despois la bamos pr'ó arraial com Deus. (Ouve-se ao longe a toada das cantadeiras que cantam o S. João.)

Pantaleão

Bebam; mas não se encarraspanem como no anno passado.

2.º Tamborileiro (rindo alvarmente)

É berdade, fedalgo! Aquillo é que foi perua! Indas m'alembra!{18}

Pantaleão

Pois vê lá se arranjas outra que te faça esquecer a do anno passado.

3.º Tamborileiro (bebendo)

Enton la bai á saude de Vossenhoria, a mais da snr.ª morgadinha.

1.º e 2.º Tamborileiro

A mesma.

Pantaleão

Querem mais? bebam.

1.º Tamborileiro

Non faz minga.

Pantaleão

Então, rapazes, adeus. Lá nos veremos na romaria.{19}

Os tres Tamborileiros

Biba o fedalgo, e mai la obrigaçon. (Sáem rufando estrondosamente: cessa o estrondo pouco depois.)

SCENA III

PANTALEÃO E OS DOIS CREADOS (QUE POUSAM AS VASILHAS)

Pantaleão

Ora venham cá vossês, tomem tino no que eu vou dizer, e abram-me esses olhos. Vossês tem obrigação de zelar a honra d'esta casa, por que nasceram n'ella, cá se crearam, e cá hãode morrer, se me servirem bem. Aquillo que souberem a respeito do que vou perguntar hão de dizer-m'o. Aqui quem governa sou eu, percebem? Vossês tem visto de noite alguma vez por debaixo das janellas d'esta casa o escrivão de fazenda? um homem muito magro que cá vinha d'antes?{20}

1.º Creado

Bem sei quem é o escribon das fazendas de Santo Thyrso... Olhe, fedalgo, eu jurar non juro que era elle; mas aqui atraz ha trez noutes, vinha eu de regar a cortinha das Chans, e ao sahir da carvalheira, rebentando sobre a direita, vi uma coisa a escoar-se por entre os carvalhos que parecia um abentesma...

2.º Creado

Eu tambem já bi esse abentesma, salbo seja, ahi ós pois da mêa noute; mas aquillo, meu amo, non podia ser o escribon das fazendas por que Vossenhoria faça de conta que elle por este caminho alem lebaba-se assim têzo e hirtego que não bolia c'os pezes. Havéra de ser o mesmo que tu enxergaste, Antonho!

Pantaleão

Pois creiam vossês que não era outro senão o escrivão de fazenda. N'estes arredores não ha homem d'aquelle feitio senão elle... Sabem{21} o que eu quero, rapazes? é que lhe dêem uma boa sova de estadulho.

1.º Creado

Só se for a tiro; que non ha home que o pilhe na carreira.

2.º Creado

E p'ra lh'acertar c'uma bala faz minga saber atirar ás lebres. (Ouvem-se risadas de mulheres já perto.)

Pantaleão

Por ora, nada de tiros; o que mando é que lhe arrumem quatro bordoadas, sem lhe dizer isto nem aquillo. Vossês zupem-lhe e escamem-se, que eu com a justiça não quero testilhas; mas não lhe batam, sem o apanharem cá á volta da casa... Vamos conversar aqui p'ra carvalheira que vem ahi as raparigas da freguezia. (Sáem pela esquerda.){22}

SCENA IV

(Rancho de raparigas vestidas de saias de chita com muita roda de saias e saiotes, capotilhas encarnadas, chinela e meia branca, acompanhadas d'um tocador de rebeca e outro de violão, que lhes acompanham as cantigas. Entram pulando alegremente, e pucham por a estridula sineta do portão.)

O rabequista

Biba a snr.ª morgadinha de Val-d'Amores!

Todos

Biba! Biba! (Cantam o S. João.)

            COPLAS

      Son Joon adromeceu
      Nas escadas do collejo;
      Deron nas frêras co'elle,
      Son Joon ten porbolejo.
Que é aquillo, que é aquillo, que é aquillo?
Son Joon a caçar um grilo.{23}

      Ó meu son Joon da Ponte,
      Ó meu bello patusquinho,
      Dá-nos anno de bon pon,
      Dá-nos anno de bom binho.
Non é nada, non é nada, non é nada,
Son Joon a comer pescada.
(Abre-se o portão de par em par. Sáe a Morgadinha, trajada com luxo, mas fóra da moda. Vestido de ancas exaggeradas, cabello á Stuart, e um grosso grilhão ao peito. Segue-a um creado velho, de niza, com uma cadeira de braços á cabeça, e uma pichorra e caneca na mão.)

SCENA V

MORGADINHA, JOÃO LOPES, E AS CANTADEIRAS

Vozes

Biba a snr.ª morgadinha! Biba! Biba!

Morgadinha (sentando-se na cadeira)

Adeus, raparigas. Como estás tu, Maria do Quinchoso! e tu Benta do Cazal? Olha a Marianna{24} da Egreja como está gorda com o cazamento! Ó João Lopes, dá vinho a essa raparigada toda.

Uma das moças

Vossenhoria bai ao arraial?

Morgadinha

Podéra não! Já estou preparada, e vou assim que a tarde refrescar, que quero ver o fogo prezo.

Outra

E mai lo auto do Natal, que vem la os d'Arnôzo co'elle.

Outra

E como a fidalga está pimponaça! Parece mêmo a Madanela da porcisson de Passos!

Outra

Benza a Deus, que palminho de cara assim, não se topa outra no mundo. Faz agora{25} um anno que os cassacas do Porto andabon todos enbeiçados atraz da snr.ª morgadinha no arraial; e enton aquelle goberno que está em S. Thirso esse é que andava memo azoratado!

Morgadinha (rindo)

Qual governo?!

A mesma

Aquelle que lhe chamon o das fazendas, ou non sei que deanho...

Morgadinha

Ah!.. (suspirando) Ja sei...

O do violão

Má rais o parton, que me mandou citar indas hontem!

O rabequista

Eu onde le poder ser bon heide medirle o costado de pá a pá cum fueiro...{26}

Morgadinha

Ora não sejas bruto, José da Eira! Elle faz a sua obrigação; faz tu a tua que é pagar o que deves ao rei.

O mesmo

Ao rei! Bem me fio eu n'isso... Enton a fidalga pensa que o rei aveza uma de X do dinheiro que nós demos!! Pois non avezastes! Os governos de S. Thirso repartem uns c'os outros no fim do anno o dinheiro que don os lavradores.

O outro

É como diz.

Morgadinha

Sois uns selvagens. Deixemo'-nos de tolices. Cantem lá alguma coisa vossês.

Uma das moças

Quer a Marianinha, fedalga?{27}

Morgadinha

Pois sim; cantem lá a Marianinha.

COPLAS
(Tudo mulheres)

(UMA VOZ)

Ja fui canario do rei,
Ja lhe fugi da gaiola.

(CÔRO)

Sim, sim, eu vou lá
  Ó Marianinha,
Sim, sim, eu la vou
  Ó pequerruchinha.

(UMA VOZ)

Agora sou pintassilgo
Destas meninas d'agora.{28}

(CÔRO)

Sim, sim, eu vou la, etc.

(UMA VOZ)

Pintassilgo está no bosque,
A andorinha no telhado.

(CÔRO)

Sim, sim, etc.

(UMA VOZ)

So eu não sei onde estou,
Quando não estou ao teu lado,

(CÔRO)

Sim, sim, etc.

(VOZ)

A andorinha quando chove
Vai metter-se á escuridon{29}

(CÔRO)

Sim, sim, etc.

(VOZ)

E eu quando o norte é rijo
Metto-me ó teu coraçon.

(CÔRO)

Sim, sim, etc.

Todos

Biba a snr.ª Morgadinha! Biba!

Morgadinha

Então vossês vão já para a romaria?

Uma d'ellas

Aindas bamos buscar as cazeiras de Vossenhoria que estão á espera de nós, e ós pois voltemos por qui.{30}

Morgadinha

Pois vão, e voltem. (Sahem cantando o S. João. A morgadinha fica pensativa e melancolica, encostando o rosto á mão, em quanto se ouve e se vai perdendo a toada da cantiga.)

SCENA VI

MORGADINHA E JOÃO LOPES

Morgadinha

Como estes brutos são felizes!.. E eu sempre apoquentada por causa deste coração! Ai! eu antes de saber o que era amor tambem cantava... Lembras-te, ó João Lopes?

João Lopes

Ora se lembro! E cantava que nem uma calhandra a fidalga!{31}

Morgadinha

Olha se te lembras, João! Eu ia ás espadeladas, ás descamizadas, ás malhas, brincava, saltava...

João Lopes

Até dançava a cana verde, e a chula que era um gosto vêl-a!.. E quando a menina quiz que eu lhe ensinasse o jogar o páo...

Morgadinha (com alegria)

É verdade...

João Lopes

E o caso é que vossellencia ahi com duas duzias de lições já me chegava com o páo.

Morgadinha (erguendo-se enthusiasmada)

E d'aquella vez que eu me vesti de rapaz, e puz fóra da eira do Manoel Tamanqueiro, com quatro partidas de páo, mais de seis mascarados que la andavam a beliscar as minhas cazeiras!{32}

João Lopes

Por signal que a menina deu uma tapona no Zé Torto, que ficou torto de todo... Ó fidalga, vossellencia hoje já não era capaz de romper ahi com um marmeleiro p'ra frente d'um homem qualquer!..

Morgadinha

Estás enganado... se me chegassem a mostarda ao nariz... Mas, ai!.. (Torna a sentar-se triste.) A minha alegria foi-se desde que eu soube o que era amor!.. Olha lá, João... não o vis-te hoje? não viste o meu amado Frederico?

João Lopes

Falle baixinho, menina. Olhe que o snr. morgado ainda ha todonada me esteve dizendo que desconfia que elle anda por aqui de noute. A fidalga acautele-o; que não vão os creados chegar-lhe ao forro da camiza...{33}

Morgadinha (erguendo-se colerica)

Façam isso, que os esgano! Que lhe ponham um dedo, e verão quem é a morgada de Val-d'Amores!

João Lopes

Não grite assim, que seu pai, se a ouve, quem as paga sou eu. A fallar a verdade, eu não desgosto do snr. Frederico; mas, em fim, esta aquella de ser escrivão, é ruim modo de vida para poder casar com a snr.ª morgadinha...

Morgadinha

Isso que tem!? Todos somos eguaes; e o coração, quando ama, não quer saber de contos. Uma pessoa não está lá a averiguar se o objecto amado é fidalgo ou plebeu. Tem-se visto rainhas casarem com pastores, e reis casarem com pastoras.

João Lopes

Cá no conselho de Santo Thirso não me consta, hade perdoar.{34}

Morgadinha

Mas lá por esse mundo fóra acontece isso a cada passo. Tu é por que não lês os livros das historias. Eu te lerei casos que aconteceram... E então que tinha que eu casasse com um escrivão?

João Lopes

Em fim, em fim, o paisinho da fidalga foi capitão-mór, seu avô foi desembargador, e seu bisavô foi sargento mór de batalha no Roussilhon...

Morgadinha

Vai dizendo até chegar a Adão e Eva, vai dizendo, e eu depois te direi de quem eu e mais tu somos netos.

João Lopes

Isso assim é, não ha duvida; mas, diz lá o ditado, lé com lé, e cré com cré.{35}

Morgadinha

Não quero saber de ditados! (com força) Este amor só m'o hade arrancar do peito a morte!

João Lopes (apontando para o brazão)

Fidalga, ponha os olhos nas armas reaes dos seus antepassados.

Morgadinha

Ora! não tenho mais que fazer... Cuidas que eu não sei que meu avô casou com uma creada? Mostra-me onde estão alli as armas da creada. Bem se importou elle das armas, nem do brezabu que as leve! É o que faltava... estar-me eu aqui a definhar p'ra'mor da pedra! As armas são de pedra, e eu sou de carne e osso, ouviste?

João Lopes

A fidalga responde a tudo, e não ha remedio senão callar-se um homem, que a trouxe{36} nos braços desde os trez annos, e sou capaz de me metter no inferno vestido e calçado por causa da minha menina. (Sensibilisa-se.)

Morgadinha

Sei o que tenho em ti, meu João Lopes... Vais tu ahi ao cimo do pinhal a vêr se o vês pela estrada?.. Elle disse-me que havia de passar para a romaria ás seis da tarde. Se o encontrares, diz-lhe que meu pai se está a vestir para ir tambem, e que elle póde demorar-se a conversar comigo um bocadinho.

João Lopes

Vou vêr se o avisto; mas, menina do meu coração, olhe que seu pai anda á espreita e traz espias... Nós temos grande desgraça pela porta...

Morgadinha (energicamente)

Não morro de medo, já te disse. A mulher que ama não tem medo de nada!{37}

João Lopes

Seja assim; mas, se lhe quebram o espinhaço a elle! Coitado do homem, é tão delgadito que, se o apanha o vento d'um páo, elle vai a terra...

Morgadinha

Quem lhe hade bater?! Cuidas que elle não anda armado? Que se attrevam sómente a ameaçal-o!..

João Lopes

Cá vou, cá vou, não se desespere. (Sáe.)

SCENA VII

MORGADINHA

(Senta-se quebrantada e triste)

Ai! quem me dera casar!.. quem me dera casar com Frederico Arthur!.. (Musica de surdina){38} Como eu gosto d'elle! Ha mais de dous annos que este meu coração padece! Não ha noite em que eu não sonhe duas vezes com a sua imagem... Quando acordo, e o não vejo, a minha vontade é chorar, chorar, chorar! Perdi a vontade de comer! Tudo me faz fastio. Os cirurgiões mandam-me tomar aguas ferreas!.. e só eu sei o que tenho! O meu mal é aqui!.. (a mão sobre o coração) Oh céos! quanto eu sou desgraçada sem o meu Frederico! (Ergue-se, e falla com muito sentimento. Musica plangente.) Quando eu o vi, pela primeira vez, foi na hospedaria das Caldas de Vizella, onde meu pai tratava do seu rheumatico. Estávamos a jantar quando elle entrou, e meu pai offereceu-lhe frango com ervilhas. Elle agradeceu, mas não comeu, dizendo que o seu jantar era um ôvo quente. E d'ahi a pouco, trouxeram-lhe um ôvo quente n'uma tigella; e elle comeu o ôvo, bebeu um copo d'água fresca, e disse que tinha jantado! Como eu fiquei triste e pensativa a olhar para elle, e elle para mim! Perguntei-lhe, sem o pai ouvir, se podia viver só com um ôvo, e elle respondeu que a sua alma se sustentava com a esperança de ser amado por mim... e{39} com tres óvos por dia. Oh! que lembranças estas, que lembranças estas! (chora) E vai depois, disse-lhe eu: «O snr. está assim magro porque come muito pouquinho; se gosta d'óvos coma uma duzia d'elles de cada vez»; e elle pregou-me os seus lindos olhos, e respondeu a suspirar: «Que me importa o corpo? a mim o que me importa é o coração que é grande; e, se o corpo é magro, mais depressa me reduzirei a cinzas se V. Ex.ª me desprezar.» Isto fez-me no peito mossa! fiquei presa d'este dito; senti por aqui acima uma fogueira que me pôz a cara em brazas vivas, e não lhe disse coisa de geito porque fiquei um pedaço intallada. Depois, ao despedir-mo'nos, com muita vergonha, sempre pude dizer-lhe: «amo-vos, meu bem!» Ora aqui está como começou isto. Desde então para cá apenas lhe tenho fallado umas trez duzias de vezes da janella para o caminho... Sinto-me muito acabada; e, se isto assim dura, não vou longe. Elle tambem está no osso, o meu pobre Frederico!.. Antes de começar estes amores, eu pezava cinco arrobas e seis arrateis pela medida antiga; pois aqui ha oito dias pezei-me de novo, e tinha mingado duas arrobas. Assim não podemos{40} viver, nem eu nem elle. (Com força, que a musica imita.) É preciso acabar com isto d'uma maneira ou d'outra. Se meu pai quer, quer; senão quer, quero eu. Uma mulher não póde ser escrava da sua fidalguia. Antes quero ser esposa d'um escrivão, e viver contente, que ser a morgadinha de Val-d'Amores, e estar-me aqui a pôr na espinha... (Ouve-se rumor de vozes fóra.) É o meu papá!.. (Senta-se.) Vem-me empatar as vazas...

SCENA VIII

PANTALEÃO, MACARIO, E A MORGADINHA

(Macario é um sujeito de oculos e casaca de briche, já de annos, e ar circumspecto)

Pantaleão (áparte ao boticario)

Veja lá como lhe falla... Olhe que ella é finoria... (á filha) Cá me vou preparar, Joaninha. Aqui te deixo o snr. Macario para não ficares sósinha. (Sáe.){41}

SCENA IX

MACARIO E A MORGADINHA

Macario

Tenha V. Ex.ª muito boas tardes.

Morgadinha (enfastiada)

Viva, snr. Macario, as mesmas.

Macario

Tem-lhe passado o fastio? Aquelle emplasto confortativo que eu lhe mandei fez-lhe bem?

Morgadinha

Não o puz: cheirava a pez.

Macario

De pez de vergonha era; fui eu mesmo que{42} o manipulei... Então, a snr.ª morgadinha vae ao arraial?

Morgadinha

Vou.

Macario

Faz muito bem; que lá hade encontrar pessoa que muito interessa a V. Ex.ª... enganei-me... pessoa que muito se interessa em vêr V. Ex.ª queria eu dizer.

Morgadinha

Como é isso? não percebi.

Macario

Eu me vou explicar. Eu cheguei hontem de Guimarães, onde estive com o snr. deputado Cosme Jordão, um sabio que tem votado grandes fallas no parlamento... Ha de ter ouvido fallar V. Ex.ª...

Morgadinha

Não sei nada de parlamentos, não leio periodicos.{43}

Macario

Pois, minha snr.ª, o doutor Cosme Jordão é um sujeito conhecido em todo o mundo, e lá na côrte até vae ao palacio do rei e come lá...

Morgadinha

Deixal-o comer, que tenho eu com isso?

Macario (áparte)

Não faço nada! está hoje levadinha dos diabos.

Morgadinha

Vamos, diga lá, snr. Macario.

Macario

Pois este deputado vae hoje á romaria do S. João.

Morgadinha

Deixal-o ir; que se divirta. Então é esse o homem que me quer vêr?{44}

Macario

Eu me explico. O snr. deputado Cosme diz que vira V. Ex.ª...

Morgadinha

Ainda bem; é signal que não é cego. E que mais?

Macario

E que ficou muito agradado de V. Ex.ª...

Morgadinha

Pois tem máo gosto e perde o tempo. Que mais?

Macario

V. Ex.ª, se o vir, não hade fallar assim. É ainda homem de boa edade, cheio de corpo, com uns oculos que lhe dão muito respeito á cara.{45}

Morgadinha

Ora! oculos de respeito! que me importa cá a mim os oculos do homem? sabe que mais, snr. Macario? (Põem-se a bamboar uma perna sobre a outra, e a trautear o «Pretinho que vem d'Angola».)

Macario

Finalmente, snr.ª morgadinha, como V. Ex.ª quizer; mas lembre-se de que seu pae deve á fazenda nacional uns seis contos de réis, e que o snr. doutor Cosme, casando n'esta casa, hade fazer com que seu pae não pague nada, e mesmo no futuro lhe não lancem impostos.

Morgadinha

Não me seque, snr. Macario. Vocemecê queria que meu pae pagasse commigo ao tal Cosme o que deve á fazenda? Pois que pague com o que é d'elle, e que me deixe com menos dote. Tenho dito, e deixemo'-nos de lerias. Metta-se lá na sua botica e não se faça casamenteiro. Vá fazer charopes.{46}

Macario (áparte retirando-se)

Apre com a cabra!

Morgadinha

Que tal está o sacripanta!

SCENA X

JOÃO LOPES, ESPREITANDO A MORGADINHA, E DEPOIS FREDERICO

João Lopes

Psiu, psiu.

Morgadinha (sobresaltada)

Viste-o?

João Lopes

Elle ahi vem... Eu vou espreitar, e assim que eu tossir que fuja para a carvalheira.{47}

Frederico

Anjo! milagre de bellesa, Joanna querida, não sentes n'estas mãos o vibrar da alma?

Morgadinha (muito terna)

Como estás tu? passaste bem desd'hontem?

Frederico

Pergunta ao lirio do valle o que lhe pende a fronte quando o orvalho do céo lhe não esfria os queimores do sol estivo.

Morgadinha

Olha lá, Frederico, tenho a avisar-te, antes de mais nada, que é preciso andares prevenido...

Frederico

Temos sicarios? Ha aqui vampiros? A vindicta paterna tem sêde do meu sangue? Eis aqui o peito. Que m'o farpem, que m'o fendam, que{48} m'o alanceem, que m'o lancetem. Tudo por ti, tudo por ti, ó estrella, ó loira visão dos meus sonhos! (Rumor fóra.)

Morgadinha

Foge... esconde-te entre as arvores... (Frederico sóme-se.)

SCENA XI

MORGADINHA, OS DOIS CAMPONIOS QUE VÃO PASSANDO, E DEPOIS FREDERICO

(Um camponio tange flautim e outro viola. Duas moças á frente batendo palmas ao compasso do canto, e saltando)

Um camponio (cantando)

Muito bem seja apparecido
     Seja apparecido
     N'esta funcção. (Batendo palmas){49}

(CÔRO)

Bate as palmas c'o seu pexinho
     Co' seu pexinho
Co' seu pexão. (Repete)
(Assim que elles passam, a Morgadinha sáe do portão, e logo Frederico do escondrijo)

Frederico

Mas dizias tu, pomba?

Morgadinha

Que te acautelasses dos meus creados quando vens de noute. Deves vir bem armado.

Frederico

Armado! para quê? Tu não sabes que o teu amor é talisman que prostra gigantes! As minhas armas são os raios de fogo que bebo de teus olhos; tenho vesuvios na alma capazes de abrazar cidades!{50}

Morgadinha

Isto não é chalaça, meu amado Frederico! Peço-te que tenhas cuidado, muito cuidado. Se eu podesse estar sempre ao teu lado, não temeria ninguem... Tu verias o que é a morgada de Val-d'Amores... Mas eu não sei como isto hade ser... Bem sabes que meu pae tem a mania de fidalgo...

Frederico (interrompendo-a com exaltação)

Fidalgo! que é fidalgo?! palavra obsoleta em 1871! Que é fidalgo? a sola velha e inutil d'um borzeguim do seculo XV! Oh! então é certo que teu pae ignora, que o baptismo de sangue da revolução franceza lavou todas as manchas da desigualdade entre homem e homem! Oh! a revolução! o segundo christianismo! Que é fidalgo? teu pae não sabe que aquelle brasão d'armas (apontando) está alli como a pedra sepulcral das cinzas feudaes! Teu pae está debaixo do sol e não sente o calor da fermentação social! Ouve o estrondear da democracia reinante, e volta a face para os phantasmas{51} dos avoengos que se somem lá em baixo no abysmo da historia!

Morgadinha

Não sei lá d'essas historias; o que te peço é que não te exponhas a levar alguma paulada á falsa fé. Olha que os meus creados são uns patifes, e meu pae não é boa rez, quando se arrenega. Pensa no que se hade fazer, porque elle não nos dá consentimento para nos casarmos.

Frederico

Heide movêl-o com a eloquencia d'um homem aquecido no sol moderno. Heide convencêl-o, enchendo-lhe o espirito de luz e o coração de ideias novas.

Morgadinha

Não te mettas n'essa asneira, que não fazes nada. (Tem-se já ouvido toada de musica da chula, e depois a tosse rija de João Lopes. Frederico some-se sem ser preciso mandal-o. A morgadinha fica.){52}

SCENA XII

MORGADINHA

(Chega uma chulata que vae de passagem para a Romaria. Bando de raparigas que precedem, bailando; tocadores de rebeca, viola, clarinete, ferrinhos e requinta. A esturdia pára defronte da morgadinha, e continúa dançando cada rapariga com o seu parceiro.)

COPLAS DE DESAFIO

(Em quanto o cantador deita a cantiga, tange sómente a viola. Entre os dois primeiros versos e os dois ultimos de cada quadra ha um espaço que dá logar a que toquem por alguns segundos todos os instrumentos.)

Cantador

Agora que eu vou passando,
Faço aqui minha parada;
Para saber da saude
Da incelentissima morgada.

Cantadeira

Da incelentissima morgada
Tambem eu quero saber,{53}
Que mais linda creatura
Não na póde o mundo ter.

Cantador

Não na póde o mundo ter
Nem terá até ao fim;
Os seus olhos são d'amóras,
Os seus dentes de marfim.

Cantadeira

Se tem dentes de marfim,
O seu rosto é uma roza;
E viva sua incelencia
Que não na ha mais fermosa.

Cantador

Quero dar a despedida
Á senhora Morgadinha;
Que não ha por estas terras
Mais bonita fidalguinha.{54}

Cantadeira

Eu tamem vou espedir-me,
Despedida quero dar;
Adeus, senhora morgada,
Sirva-se de perdoar.
(A morgadinha agradece-lhes com um aceno de lenço. O bando sáe tocando e dançando. Assim que o descante se ouve froixamente, volta Frederico.)

SCENA XIII

MORGADINHA E FREDERICO

Frederico

Tenho odio a estes selvagens que me roubaram horas de vida! Quando sahirão os lôrpas da face da terra?

Morgadinha

É verdade, Frederico! Trouxeste-me os figurinos?{55}

Frederico

Eil-os chegados hoje de Lisboa.

Morgadinha (examinando-os)

Ai! que demonio de mulheres! Pois ellas trazem estes vestidos assim incozipados nas pernas!?

Frederico

Oh! isto é a elegancia circassiana! é a fórma na sua diafeneidade sublime; ha aqui a poesia do fino, a mulher parece toda nervosa, é o lyrismo da plastica...

Morgadinha (rindo)

Se eu te percebo, cebo! Boa cataplasma me parece este molho de clinas e sacarrolhas que ellas tem na cabeça.{56}

Frederico

Nâo blasfemes! Ó Joanninha, veste-te assim; realça, sobredoura a tua bellesa com estes adornos que angelisam a mulher de compleição robusta, e transformam a mimosa em cousa ideal vestida de vapores. A mulher assim involta em roupagens etherias é um madrigal de setim que cahiu das lyras dos anjos.

Morgadinha

Pois sim, faço-te a vontade. Vou mandar comprar no Porto esta trapalhice toda...

SCENA XIV

OS MESMOS E PANTALEÃO

(Abre-se o portão repentinamente e apparece subito Pantaleão. Frederico ainda faz um impeto de fuga, mas contem-se, e corteja mui urbanamente o fidalgo.)

Frederico

Passava para a romaria, e, como visse S. Ex.ª (indicando a morgadinha) vim depor a seus{57} pés os meus respeitosos cumprimentos, e informar-me da saude de V. Ex.ª

Pantaleão

Estou bom, muito obrigado. Onde está o João Lopes?

Morgadinha

Foi aparelhar a burra.

Pantaleão

Vae tu preparar-te que são horas.

Morgadinha

Quer vêr como agora são as modas, papá? olhe. O snr. Frederico vae levar estes figurinos ás nossas primas de Ruivães.

Pantaleão

Pois faz-me o snr. muito favor se me cá não trouxer bonecos a casa. Nós cá não somos de modas.{58}

Frederico

Direi a V. Ex.ª, snr. morgado, que as modas tem certa relação com o espirito das gerações e das épocas. Agora que o entendimento humano se adelgaça, o involucro material tambem se subtiliza nas raças finas...

Pantaleão (medindo-o d'alto a baixo com ironia)

Bem se vê que o snr. escrivão é d'uma raça muito fina... pelo muito adelgaçado que está...

Frederico

Não me jacto de prosapia heraldica; mas, na jerarchia dos espiritos, preso-me de pertencer ao bando mais illuminado. Respeito muito o brasão; mas curvo-me diante da aristocracia do genio e do talento.

Pantaleão

Sim, o snr. tem muito talento, bem sei... Já te disse, Joanna, que te vás arranjar.{59}

Morgadinha

Adeus, snr. Frederico, muito obrigada. (Sáe.)

SCENA XV

PANTALEÃO E FREDERICO

Frederico

Creado de V. Ex.ª (Váe a sahir; mas Pantaleão detem-o.)

Pantaleão

Faça favôr.

Frederico

Escuto as suas ordens.

Pantaleão

O snr. anda muito mal encaminhado. Minha filha é a morgada de Val-d'Amores; o snr.{60} é o escrivão de fazenda de Santo Thirso. Estão um do outro tão longe como aquella pedra d'armas do rebôlo d'um sapateiro, entendeu?

Frederico

Entendi, que V. Exc.ª tem um estylo bastante chato. Entendi, posto que V. Exc.ª falle uma lingoagem assás gothica em pleno seculo XIX.

Pantaleão

Pois se entendeu, tire o seu atrevido pensamento de minha filha, e procure a fórma do seu pé. Não me obrigue a usar dos usos e costumes dos meus avós. Quer que lh'os diga?

Frederico

Heroismos dos seus ascendentes? Essas Odissêas da aldêa são hoje impraticaveis. Eu sei em que tempos vivemos, snr. morgado.{61}

Pantaleão

Sabe? pois olhe que não sabe em que terra vive. O snr. veio lá de Lisboa onde qualquer bigorrilhas, que põe gravata, entende que é egual a todo o homem que põe gravata; o que o bigorrilhas não quer é sêr egual a todo o homem que não tem gravata.

Frederico

Ahi ha certa sublimidade de idêa, de que lhe dou os parabéns. V. Exc.ª ia quasi escrevendo d'um traço a historia philosophica da democracia moderna.

Pantaleão

Eu não escrevo historia nenhuma; o que eu lhe digo é que isto cá nas montanhas é outra cousa. Os morgados são morgados; os escrivães são escrivães; e os sapateiros são sapateiros. Ora, quando acontece alguem querer sahir da sua classe, primeiro avisa-se; depois quebram-se-lhe as costellas. O snr. sabia isto?{62}

Frederico

Eu não sabia que estava na Cafrária. Cuidei que este concelho era um retalho do Portugal civilisado; cuidei que a luz do grande fóco radiara uma flecha de luz até ao coração de V. Ex.ª que me parece ser uma pessoa de bons costumes, e não um esquimó. Cuidei finalmente que o Evangelho e a Carta constitucional livellavam a dignidade humana... (Ouve-se o cantar das raparigas que se avisinha.)

Pantaleão

Enganou-se comigo. Eu sou Pantaleão Cogominho de Encerrabódes, décimo oitavo senhor do morgadio de Val-d'Amores. Quem houver de casar com minha filha hade poder deixar apellidos nobres ao vigessimo senhor d'esta casa. Tenho dito, e acabou-se o cavaco. Saude e juizo. (Volta-lhe as costas. Frederico bambôa a cabeça altivamente e retira-se.){63}

SCENA XVI

MORGADINHA, PANTALEÃO, E O BANDO DAS MOÇAS E TOCADORES QUE APARECERAM NA TERCEIRA SCENA

(A Morgadinha sáe sentada sobre a jumenta. Vem vestida de Amazôna. João Lopes de farda azul com vivos vermelhos, bota de orelha e prateleira, colete encarnado, e chapéo embreado, tudo á antiga e grutesco, vem trazendo a burra pela rédea. As raparigas estão cantando as seguintes):

COPLAS

(UMA VOZ)

Dondes vens ó velha?
Eu venho da feira.

(CÔRO)

Que trazes na cesta?
      Crá, crá, crá,
Sardinha vareira,
      Cri, cri, cri,
Por a retangueira;
      Cró, cró, cró,
Se o galo cantou.{64}

(UMA VOZ)

Se o galo cantou
Deixal-o cantar.

(CÔRO)

Minha rica prenda
      Crá, crá, crá,
Lá da beira mar
      Cri, cri, cri,
Pela retangueira,
      Cró, cró, cró,
Se o galo cantou.

(UMA VOZ)

D'onde vens ó velha?
Eu venho d'alli.

(CÔRO)

Que trazes na cesta?
      Crá, crá, crá,{65}
Que te importa a ti,
      Cri, cri, cri,
Pela retangueira,
      Cró, cró, cró,
Se o galo cantou.
(Continúa o canto ao descer do panno.)

{67}

FIM DO PRIMEIRO ACTO.