Por um homem, em quem predominasse a razão, Christina poderia vir a ser adorada; mas nas imaginações ardentes, nos corações inflammaveis, difficil lhe seria produzir alguma impressão duradoura.
Para bem se comprehender a belleza de Christina, era preciso sondar-lhe primeiro o coração, apreciar todo o thesouro de sentimentos que alli se continha; então descobrir-se-lhe-hia nas feições certa belleza ideal, reflexo de bondade e candura, uma d'essas claridades que as almas puras e generosas vertem nas physionomias. Se não fôsse receiar-me de linguagem que saiba a philosophia, diria que a belleza, que possuem umas mulheres assim, é uma belleza subjectiva.
De tudo isto é natural concluir que Henrique de Souzellas podia sympathisar com a candida figura de Christina, a qual baixava timidamente os olhos deante d'elle, córando cheia de enleio e confusão, mas que qualquer sentimento que ella lhe inspirasse, não conseguiria por muito tempo desviar-lhe o sentido dos encantos mais attrahentes da morgadinha—que a muitos respeitos, menos na bondade de coração, formava contraste completo com sua prima.
Travára-se animada conversação entre as pessoas presentes, e principalmente entre Henrique, D. Victoria e Magdalena.
D. Victoria quiz ser informada da doença de Henrique. Este passou a fazer-lhe uma exposição igual, com pequenas variantes, á que fizera á tia.
Mencionou, como a ella, aquelles vagos symptomas, aquellas tristezas, impaciencias e desalentos, que tão ingenuamente a boa senhora classificára como mania.
Emquanto Henrique falava, Magdalena poz-se a rir.
Henrique tornou para ella os olhos.
—Ó menina, de que ris tu?—perguntou D. Victoria, com certo tom de severidade.
—Rio-me d'aquella doença, tia. Pois já viu alguem padecer d'aquillo? Ora diga?
—Eu?... mas...
—Pode dizer que não. E comtudo o primo Henrique não mente. Ha d'aquellas doenças na cidade, ha; mas na aldeia são tão raras, que eu mesma as estranho já, eu que as vi em outro tempo...
—Então não crê na realidade d'ellas.
—Não lhes estou a dizer que sim? Ouço até que já teem levado ao suicidio. Acredito-o. Os habitos da civilisação affeiçoam a seu modo a natureza humana e criam molestias novas, que nem por isso são menos naturaes. Mas que quer, primo? A minha estranheza, ao vêr um d'esses doentes em plena aldeia, não é modificada por todas essas considerações. É como um homem de casaca e gravata branca; não ha nada mais sério e mais grave n'uma sala de baile, mas colloque-m'o n'um monte, e diga se o pode olhar a sério.
—Quer dizer que não devo queixar-me aqui, sob pena de zombarem de mim.
—Tanto não digo; mas não o entenderão; isso não.
—Porém a minha doença não é só d'essas, que se não dão na aldeia, prima Magdalena; eu creio que verdadeiras desordens organicas...
—Ah! tambem?—Com esse aspecto de robustez?!...
—Se eu sei o que tu estás ahi a dizer Lena!—disse D. Victoria, que não tinha percebido bem o dialogo.
—É que eu, minha tia, teimei em fazer perder ao primo Henrique todos os maus habitos da cidade, com que veio para aqui. Sem isso não pode curar-se.
—Sujeitar-me-hei da melhor vontade a tão agradavel dominio.
—Principia mal, se principia com uma fineza. Já o avisei ha pouco...
—Será necessario tornar-me grosseiro, para me salvar? N'esse caso renuncio á cura.
—Grosseiro, não; basta que seja razoavel e sobretudo...
—Acabe.
—Acabo? eu sei? Eu ás vezes sou sincera de mais.
—Eu adoro as sinceridades.
—Já que o quer... É preciso que seja razoavel e sobretudo... desaffectado.
Henrique de Souzellas mordeu ligeiramente os labios, córando.
—Então acha?...
—Acho que está sempre a imaginar-se n'um salão; faz uns gastos de galanteria, desnecessarios e perdidos.
—Ó meninos, eu não vos entendo—repetia D. Victoria.
Magdalena sorriu.
—Digo eu que...
Um criado entrando com as cartas do correio não a deixou continuar.
—Sempre chegou o correio!—exclamou Magdalena com vivacidade, recebendo as cartas.—Por que veio tão tarde?
—A mulher contou-me lá umas historias de uma quéda, e...
—Coitada! Aconteceu-lhe algum mal?
—Esteja descançada, minha senhora. Ella partiu já e era um gôsto vêl-a a correr.
Magdalena abriu com pressa a carta recebida.
—É de meu pae—disse ella, olhando-lhe para a lettra e, depois de pedir licença, começou a ler para si.
—Pois agora—dizia, n'este meio tempo, D. Victoria a Henrique—o que deve é aproveitar estes bonitos dias para dar alguns passeios. As pequenas acompanham-n'o. Aonde me dizias tu no outro dia que querias ir, Christina?
—Eu! disse Christina, córando.
—Tu, sim, menina. Inda hontem me falaste n'isso. Ora onde era?...
—Á Senhora da Saude, mamã.
—Ai, é verdade, á Senhora da Saude. Ahi está já um passeio bonito. Vê? Saem d'aqui uma manhã cêdo, levam alguma coisa para lá comer, porque o ar do monte abre o appetite, e a cavallo estão lá n'um instante...
—A cavallo, mamã! d'aqui á Senhora da Saude? Ora! Vae-se muito bem a pé—notou Christina do lado.
—Isso é por os açudes.
—Pois por onde haviamos de ir?
—Por a Granja, que é melhor.
—Por a Granja! É uma legua!
—Que tem? mas escusam de trepar como cabras por o lado dos açudes, que é até perigoso; e depois para que hão de ir a pé, se para ahi estão os cavallos sem fazerem nada? É vontade de se cançarem.
—Mas appetece ainda mais n'este tempo. Só se... só se alli o sr. Henrique...—disse Christina, embaraçada ao continuar.
—Eu o quê, minha senhora?
—Perdão—interrompeu D. Victoria.—Por que não has de tu chamar primo ao primo Henrique? pois não chamamos tia á tia Dorothéa?
—Por isso mesmo, mamã,—respondeu Christina—os sobrinhos da tia Dorothéa não são...
—Não averiguemos d'esses parentescos, priminha,—acudiu Henrique—eu acceito a proposta da mamã, peço para ser considerado do numero de seus primos.
Christina baixou os olhos, sorrindo.
Henrique proseguiu:
—Mas parece que receiava por mim, quando falou em ir a pé á Senhora da Saude. Não sei onde é o logar, mas desde já me comprometto a não cançar.
—Não tem que saber—disse D. Victoria, caminhando para uma janella.—Ella lá está. Olhe que inda é necessario saber trepar.
—Tendo duas tão galantes companheiras de viagem—tornou Henrique, depois de reparar no monte escarpado que ficava a alguma distancia d'alli, o mesmo que o almocreve lhe mostrou—parece-me que daria a pé uma volta ao globo e que subiria a correr o Pico de Tenerife.
—O que eu lhe digo, primo—accrescentou D. Victoria—é que se acautele, porque se lhes vae a fazer todas as vontades, tem que vêr.
—Inda que morresse em tão agradavel serviço, teria de agradecer a Deus a morte.
—Cá me chegou aos ouvidos o cumprimento—disse Magdalena, que continuava a ler.—Logo ajustaremos contas.
—É implacavel esta nossa prima, não acha?—perguntou Henrique, sorrindo, a Christina, que por unica resposta só soube sorrir tambem.
—Pois então, é arranjarem, é arranjarem isso e quanto antes, que não ha que fiar no tempo. Eu se pudesse tambem ia, mas já não são passeios para mim, e depois estes criados...
Henrique de Souzellas receiou nova divagação sobre o assumpto predilecto de D. Victoria; mas felizmente acudiu-lhe a morgadinha, que disse, terminando a leitura da carta:
—Escreve-me o pae que tenciona vir passar comnosco as ferias do Natal e trazer Angelo comsigo. Promette demorar-se até o dia dos Reis.
As creanças saudaram a nova com gritos de alegria, e saltos de causarem inveja a um clown de circo.
D. Victoria zangou-se.
—Então que pouca vergonha é essa? Parecem-me um bando de patetas! Ora vamos! Já quietos. A culpa tem a Ermelinda, que já vos devia ter levado para a quinta. Ó Senhor, esta praga de criados, que nunca ha de fazer a sua obrigação!
As creanças reprimiram um pouco mais as expansões de seus jubilos, mas ainda ficaram cantando a meia voz, em musica de composição d'ellas, o seguinte:
—Vem o primo Angelo! Vem o primo Angelo! Ora viva, viva! Ora viva, olé!
—Pschiu! Calae-vos!—bradou ainda D. Victoria; e voltando-se para Magdalena:—Mas então como se entende isso, Lena? Então o pae diz que vem...
—Nas vesperas do Natal.
—Sim, nas vesperas do Natal, e vae...
—Depois dos Reis.
—Sim; está bem; e... sim... e então o Angelo?...
—O Angelo vem com elle. Quer vêr a carta?
—Não, menina. Mas é preciso não fazer confusão... Então...
—Não ha nada menos confuso... É só isto.
—Sim; pois agora, sim; agora está bem claro. Calae-vos, diabretes! Ó meu Deus, que consumição! Mas então por que não entregou o criado ha mais tempo essa carta? Eh! não que vocês dizem que elles...
—Ó tia, pois não ouviu que foi a mulher das cartas que se demorou, porque...
—Historias! Não me venham para cá com esses contos. Vocês estão sempre promptos para desculpal-os. São elles...
—Ó Lena, Lena—diziam as creanças—o primo Angelo não torna para Lisboa?
—Ha de tornar.
—Ora!
—Olha lá, ó Lena—disse D. Victoria—sabes tu o que me lembra?... Mas eu nem sei... com estes criados que tenho... Mas a mim lembra-me... uma vez que teu pae vem com o pequeno... e... está agora cá o primo Henrique... lembra-me a mim... mas, já digo, era se eu pudesse contar com os criados que temos... lembra-me, juntarmo-nos todos para consoar... A prima Dorothéa tambem, e aqui o primo; mas era se...
Uma perfeita ovação acolheu o projecto; as creanças levaram as suas demonstrações de enthusiasmo até o delirio, penduraram-se ao pescoço, á cinta, ao avental da mãe, gritando todas a um tempo:
—Ai, sim, mamã, sim; mande convidar a tia Dorothéa, mande! E ha de ficar em casa, sim? Olhe e... e arma-se o presepe... e... e... e havemos de cantar as janeiras... Mande, mande, mamã, por as alminhas; ora mande.
D. Victoria fingia arrenegar-se com aquella pequenada, e erguia o braço, como para a fustigar asperamente, mas, contra a sua vontade, rompia-lhe o riso dos labios.
—Saiam d'aqui!—exclamava ella, quando conseguiu estar séria.—Saiam!... Não ouvem?... Espera que eu vos falo... Ai, não fazem caso? Ora esperem... Marianna, já devias ter mais juizo... Então, Eduardo! Tu tambem? Não tem vergonha! Um homem quasi! Saiam d'aqui, estafermos!
A ideia das consoadas em familia fôra uma ideia que a ninguem deixára impassivel. Christina, a timida Christina, não disfarçou um movimento de jubilo; as mãos ajuntaram-se-lhe instinctivamente, e raiou-lhe no olhar suave um fulgor pouco costumado.
A propria Magdalena não se mostrou superior áquella tocante puerilidade.
Approximou-se com viveza da tia, e beijando-a nas faces, disse-lhe affectuosamente:
—Ora ahi está o que é muito bem pensado.
—Pois sim, sim, mas o peor é... os criados—disse D. Victoria.
—Quem fala n'isso? Na noite de Natal quem mais trabalha somos nós. Demais, teremos, para dirigir as tarefas, a Maria de Jesus, a criada da tia Dorothéa.
—Isso é que é a perola das criadas! Oh! aquella prima Dorothéa, aquella sua tia, primo Henrique, é que teve felicidade! Mas dizes tu... Bem se importam os de cá com a Maria.
—Não tem dúvida. N'aquella noite quanto mais barulho e desordem, melhor—aventurou-se a dizer Christina, com impeto revolucionario.
—Ahi temos outra! Não, filha; isso é que não. Para barulhos é que eu já não estou. Então, não.
—Está resolvido—disse a morgadinha, para cortar pelas divagações da tia.—Aqui o sr. de Souzellas—accrescentou, com maliciosa inflexão—fica desde já encarregado de transmittir á tia Dorothéa o nosso plano e, ao mesmo tempo, officialmente convidado.
—Acceito da melhor vontade.
—Não sei se o deverá dizer. É preciso que o avise de que n'aquella noite todos teem de trabalhar na cozinha; a ninguem se dispensa, um minuto, pelo menos, de collaboração nos guisados. Por isso veja lá....
—Ó menina, tens coisas!—disse D. Victoria.—Deixe-a falar, primo.
—Não é deixe-a falar. Eu não dispenso ninguem.
—E eu prometto não me recusar. Promptifico-me a tornar detestaveis os pratos em que puzer a mão. Que mais querem?
Foi alegremente acolhida a promessa.
As creanças, familiarisadas já com Henrique, em quem tinham adivinhado um humor jovial, o que é sempre para ellas um motivo de attracção, trepavam-lhe já aos joelhos e dirigiam-lhe perguntas sobre perguntas, difficultando-lhe as respostas.
—Havemos de jogar o rapa, não havemos?
—Havemos de jogar, havemos—respondeu Henrique.
—E o par ou pernão?
—Tambem; tambem havemos de jogar o par ou pernão.
—E?...
—Tudo, tudo; havemos de jogar tudo.
—Olhe: e sabe contar historias?
—Sei tambem contar historias.
—Então ha de contar-nos, que nós tambem lhe contamos a da Gata borralheira, a da Maria de pau e a da Menina com as tres estrellinhas na testa.
—Ora, o sr. Henrique já as sabe—disse, fazendo-se sisuda, Marianna.
—Pois não sei, não, senhora; quem lhe disse que eu as sabia? hei de querer ouvir isso tudo.
—Ó meninos!—exclamou D. Victoria, que até alli estivera distrahida a discutir com Magdalena.—Então isso que é? Já para baixo. Ai, se lhes dá confiança, está arranjado, primo.
—Deixe-os estar, minha senhora, este contacto de alegrias é salutar; pegam-se.
—E não o diga a brincar—disse Magdalena—que tambem confio n'essas creanças para o curarem dos seus males.
—Então devéras emprehendeu curar-me?
—Com toda a certeza.
—N'esse caso havemos de discutir devagar esse ponto de pathologia.
—Não havemos, não, senhor. É mau medico o que soffre que o doente o interrogue sobre a molestia e o tratamento. O medico deve ser obedecido com fé, e cega.
Christina que, havia muito, defronte de Magdalena, fazia esforços por lhe chamar a attenção, resolveu-se a falar-lhe.
—Lena—disse ella—que te parece a lembrança que teve ha pouco a mamã?
—A das consoadas? Excellente.
—Não, menina, a do passeio á ermida.
—Ah! Excellente tambem. Marquemos já o dia.
—Quando queres?
—Depois de ámanhã, que é quinta feira.
—Seja.
—Que diz, primo Henrique?
—Quando quizerem, primas; agora mesmo...
—Mas, veja lá, atreve-se a fazer uma madrugada?
—Pois não viu hoje?
—Ai, pois não! Na aldeia não se chama isso uma madrugada. É preciso que se levante ás horas, a que se deitava na cidade.
—Que estás a dizer, Lena?—acudiu Christina.—Deixa-a falar. Basta que saiamos d'aqui ás cinco horas.
—Esta innocente Christina! Pois não é o mesmo que eu digo? Pergunta ao primo Henrique se tinha costume de se deitar mais cêdo em Lisboa.
—Engana-se, prima Magdalena; lembre-se de que, ha perto de um anno, sou valetudinario.
—Ai, é verdade, que me tinha esquecido. O que vejo é que ha por aqui muita indolencia.
—Quem a ouvir falar, ha de julgar que será ella a mais madrugadora; ora havemos de vêr—disse Christina.
Magdalena poz-se a rir.
E o passeio ficou ajustado. A morgadinha lembrou que se convidasse Augusto, por ser conhecedor do sitio e poder mostrar os mais bellos pontos de vista.
Henrique saiu finalmente da quinta do Mosteiro, já retardado uma boa hora ao que promettera á tia Dorothéa.
Um criado serviu-lhe de guia até Alvapenha.
Henrique de Souzellas, ao findar aquella manhã, era inteiramente outro, do que viera para a aldeia. Todas aquellas horas se haviam passado, sem que o affligissem os males habituaes, sem que nem sequer pensasse n'elles. O viver intimo a que assistira, a troca reciproca de affectos entre os membros de tão numerosa familia, a franqueza cordial com que fôra recebido, produziram n'elle uma impressão profunda.
Costumado ao viver desconsolador e de gêlo de rapaz solteiro e só; não passando, nas casas que visitava, além da sala de visitas, esse palco artificioso e reservado, onde as familias ante as familias representavam a comedia social, Henrique estranhára, mas agradavelmente, o espectaculo, quasi novo, d'aquelle interior, d'aquelles modestos costumes, d'aquellas alegrias, que não se envergonham de apparecer sem reservas nem disfarces. Foi uma revelação que recebeu. Sorriu-lhe a ideia de ter um dia uma familia assim; de viver entre creanças que lhe trepassem aos joelhos, na companhia de affectos, que alli via manifestarem-se, e até com alguem que ralhasse com os criados, á maneira de D. Victoria.
Escusado é dizer que a imagem da morgadinha apparecia sempre n'estes quadros que lhe traçava a phantasia: assim como, nos quadros dos grandes mestres, apparecem quasi sempre reproduzidas as feições queridas da mulher que elles traziam no pensamento e a quem deram assim a immortalidade.
De manhã parecera-lhe a aldeia um paraiso terreal; completára-o a figura de uma mulher; sem o sorriso d'ella nem o primeiro homem seria feliz no eden, onde a mão de Deus o collocára.
—Anda, vagaroso, anda—disse D. Dorothéa a Henrique, assim que o viu chegar.—Se o jantar tiver esturro, a culpa é tua.
—Perdôe-me, tia. Demorei-me no Mosteiro...
—Ah! foste lá? E então gostaste d'aquella gente?
—É uma familia para o coração. Passa-se o tempo alli tão depressa! A morgadinha, sobretudo, é adoravel!
—Ai, ai; como elle nos vem! Olha lá no que te mettes, menino! A mina boa é, mas... filho, anda alli encanto, que ainda ninguem descobriu.
Henrique fitou os olhos na tia Dorothéa, que dissera isto com certa malicia.
—Que quer dizer, tia?
—Tu bem me percebes. Anda lá, anda. Se fizesses tu o milagre, se quebrasses o encanto, grande coisa seria; mas sempre te digo que não tomes a coisa a peito, que podes aggravar o teu mal.
Henrique levou o caso a rir, mas é certo que esteve um pouco mais preoccupado e distrahido no resto da tarde.
VI
O leitor, se alguma vez realisou uma viagem na companhia de qualquer amigo, ha de ter observado que, durante os primeiros tempos que passam juntos n'uma terra para ambos desconhecida, tão alheios ás coisas como ás pessoas, no meio das quaes se vêem, nem por momentos se soffrem separados; um segue sempre o outro em todos os passos que dá, precisa d'elle para communicar-lhe as primeiras impressões recebidas, e pedir-lhe em troca as suas; á medida porém que, pouco a pouco, se vão familiarisando mais com os logares e com as personagens d'aquelle mundo novo, afrouxa a constricção d'esses laços, e cada um principia a readquirir a independencia individual, que de motuproprio havia abdicado.
Um facto similhante nos succede com Henrique de Souzellas. Encontrámol-o na estrada; na companhia d'elle entrámos em uma terra, onde tudo nos era estranho; nada mais natural do que dar o braço um ao outro, passar juntos a manhã, e fazer, em commum, as nossas visitas. Agora, porém, que temos já algum conhecimento da terra e da gente, é tempo de nos declararmos independentes, e sacudirmos o jugo de uma companhia forçada, a qual, embora seja de um amigo estimavel, se é forçada, é sempre jugo, em certas occasiões.
Os proprios Castor e Pollux, ou Pylades e Orestes, penso eu, haviam de ter momentos em que se desejassem sós; se é que não deviam aos deuses a felicidade de possuirem curtos espiritos, o que não creio.
Deixemos, pois, Henrique de Souzellas entretendo com a tia Dorothéa a mais pacifica das conversas que podem auxiliar a digestão de um jantar; deixemol-o no tranquillo recinto de Alvapenha, e vamos associar-nos a um dos nossos recentes conhecimentos, que é Augusto, o mestre de Marianna e de Eduardo, aquelle pallido rapaz que entrevimos na sala da casa do Mosteiro.
Ao sair d'alli, Augusto seguiu através de campos e á beira de vallados, com aquelle ar pensativo que lhe era peculiar.
O pouco que da historia d'elle soubemos, pelas palavras da morgadinha, é já bastante para que nos não admire a quasi incessante melancolia de Augusto.
Aos vinte annos e sem familia! com intelligencia e mal podendo, á custa de sacrificios, cultival-a, e eleval-a á altura das suas aspirações! Alma generosa e compassiva, tendo muita vez de limitar-se a chorar os infortunios que via, porque a pobreza lhe negava meios de remedial-os!.. não serão estas ainda nuvens bastantes para toldarem a luz de uma existencia, embora a juventude as illumine?
Havia alguns annos que esta disposição para a tristeza se exacerbára em Augusto. Coincidiu o facto com algumas circumstancias, que convém referir.
A morgada dos Cannaviaes, madrinha de Magdalena e de quem viera a esta o nome de morgadinha, pelo qual mais conhecida era na aldeia, havia ao morrer instituido um legado a favor de Augusto, então creança, com a condição d'elle abraçar a vida ecclesiastica. O conselheiro, pae de Magdalena, devia administrar este legado, educando o rapaz nas escolas de Lisboa ou Porto, desde o dia do seu primeiro exame até o da primeira missa, porque n'esse lhe entregaria o capital por inteiro.
Isto succedeu no tempo em que a mãe de Augusto, que havia dois annos viuvára, luctava com a miseria, e o rapaz, pela sua penetração e pelo enthusiasmo com que aprendia, causava o espanto do velho mestre regio da localidade.
Foi por todos abençoada a memoria da morgada, por tão bem cabido legado, que era ao mesmo tempo que remedio ás privações de uma familia, premio e estimulo á intelligencia e á applicação de uma creança, que promettia vir a ser... Deus sabe o quê.
Ninguem se lembrou de perguntar a si proprio se a clausula, posta pela legataria como condição á concessão do beneficio, não podia ser uma crueldade que o annullasse; se comprar um futuro por dinheiro, sem querer saber a quantidade de aspirações, de esperanças, de phantasias que sejam, a que se tem de renunciar pelo contracto, não é uma iniquidade; se não era uma quasi simonia ir a casa do pobre, e fazendo luzir os reflexos do ouro nas sombras da miseria, propôr-lhe trocar por estes thesouros, que o fascinam, os valiosos thesouros da alma. Eu por mim abomino estes legados condicionaes, que um espirito malevolo, egoista e desejoso de dominar ainda depois da morte, tantas vezes dicta; essas meigas generosidades são ás vezes a causa do infortunio de uma vida inteira; acceites ou recusadas, é raro que depois, a cada provação que nos experimenta, uma voz interior nos não exprobre o partido que abraçamos.—«Louco! para que hesitaste em trocar meia duzia de phantasmas por um bem real? Quem te mandou sacrificar a vaporosos idolos de poetas o beneficio que te offereciam?»—dirá ella aos que rejeitaram o pacto.—«Ambicioso!—clamará aos outros—ahi tens a felicidade que julgaste comprar á custa do que ha de mais nobre na alma humana; embriaga-te agora no incenso, em que envolveste o altar do bezerro de ouro, consumindo ahi as tuas mais santas e generosas aspirações.» Augusto não adivinhou porém logo a crueldade da disposição testamentaria. Era muito creança ainda; e depois uma ideia nobre o preoccupou; comprehendeu que ia ser o amparo d'aquella pobre mãe, que só podia abrigal-o com os extremos do seu muito amor. Seu pae, morrendo, apenas conseguira deixar uma herança; foi á viuva o dever de velar pelo filho. Augusto exultou vendo que podia inverter aquelle legado, velando elle pela fraca mulher, que, para bem o cumprir, esgotaria de certo a vida.
Redobrou por isso a solicitude no aprender; desenvolveu-se mais e mais a intelligencia, quasi espontaneamente, pois justo é confessar que bem rudes eram os cuidados de cultura que o velho magister lhe sabia dar. Mas quem ignora os surprehendentes effeitos que da intelligencia e do estudo, da aptidão e da vontade, podem resultar? Dotem um homem d'essas duas faculdades poderosas e neguem-lhe embora os meios de progresso, elle caminhará, inventando-os primeiro, se tanto lhe fôr preciso.
E depois, é um grande alento aos espiritos superiores a consciencia de uma nobre missão a cumprir. Não ha fadigas que tal estimulo não vença; abnegação, que não inspire.
A Augusto era-lhe incitamento a ideia de que sua mãe precisava d'elle.
Quando ainda aos seus treze annos fôsse já bem conhecida a grandeza dos sacrificios que lhe exigiam, não hesitaria talvez, instigado por aquella aspiração; quanto mais que ainda mais lhe tinham animado os sonhos, as doces imagens, tão gratas ao coração do adolescente, e a que teria de renunciar.
Suspirava por o dia do seu primeiro exame, o qual, graças aos esforços empregados, não se fez esperar muito.
Quando se approximava a occasião, o pae de Magdalena mandou vir Augusto para Lisboa e hospedou-o em sua casa até que chegou o dia.
Não confiando demasiadamente no ensino publico da aldeia, o conselheiro quiz que o seu pequeno hospede recebesse algumas lições de um professor da cidade, e d'este obteve as melhores informações da intelligencia do rapaz, que só por milagre d'ella conseguira sair muito pouco eivado dos vicios do ensino de campo.
Augusto demorou-se algumas semanas em casa do conselheiro. A final fez o exame, no qual foi felicissimo, obtendo n'elle as mais distinctas qualificações.
Imagine-se o effeito que a noticia produziu na aldeia. Exaggerando-se, dizia-se por lá que em toda Lisboa corria a fama do rapaz, e houve até quem não hesitasse em affirmar que a creança confundira os mestres, que fôra uma maravilha.
O mestre-escola reclamou para si a gloria do acontecimento, fundando-se em que, através do discipulo, resplandecia a sciencia do mestre.
Os invejosos disputavam-lhe porém tão inquestionavel gloria e riam-se d'elle.
A pobre mãe, essa, levou todo o dia a chorar de prazer e a render graças á Virgem, a quem tanto encommendára o filho.
Voltou Augusto á terra.
Era o rapaz o assumpto de todas as conversas: olhavam-o como um prodigio. Todos o queriam vêr, como se até alli o não tivessem visto bem, e de feito todos o foram vêr; nem o abbade, nem o administrador, nem o presidente da camara faltaram. Foi tudo. Pois bem, de tantos que o viram, não houve um só que não notasse que o pequeno vinha triste.
Ninguem contestava o facto: que elle como que saltava aos olhos; as interpretações é que variavam.
—Aquillo é dos ares de Lisboa; a quem não está costumado... dizia um.
—São canceiras de estudos—aventava outro.—Ha lá coisa que puxe mais por uma pessoa do que o estudo!
—Não que vocês cuidam! Um exame sempre abala a gente cá por dentro—dizia um doutor, que levára dez annos a vencer um curso de cinco.
Fôsse pelo que fôsse, Augusto trouxera de Lisboa uma melancolia, que os ares da sua terra não dissiparam e que augmentava sempre que lhe falavam no futuro e no legado da morgada.
Quem mais a estudou, e sentiu aquella subita melancolia, foi, como era de suppôr, a receiosa mãe. Deus sabe que noites mal dormidas, que sustos e que intimos terrores ella lhe causou! Perguntas, supplicas, arguições, lagrimas, promessas, nada tiravam de Augusto, que teimava em responder que nada tinha que o affligisse, que era a illusão de quem o via a tristeza que lhe suppunham, e, para confirmar o que dizia ria; mas era mais triste aquelle riso, do que o pranto, em que se desafogasse.
Para breve estava a entrada de Augusto no collegio de Lisboa, onde, á custa do legado da defuncta proprietaria dos Cannaviaes, devia continuar nos seus estudos, quando o rapaz pediu para ficar algum tempo na aldeia. Não se pôde atinar com os motivos d'este pedido. Indolencia não era; pois no entretanto começou a estudar os rudimentos do latim com o illustre professor, que o leitor conhece já, mestre Bento Pertunhas.
A saude vacillante da mãe de Augusto declinou n'esse inverno; o que veio dar outro motivo á demora do filho.
Dias e dias passou o pobre rapaz sentado á cabeceira do leito dividindo os seus cuidados entre o estudo e os carinhos pela estremecida enferma. Dois annos se passaram d'esta vida, e quando, ao fim d'elles, Augusto abandonou aquelle leito, foi depondo um beijo nas faces geladas de um cadaver.
Era orphão.
A vaga sombra de melancolia, que já lhe toldava o rosto, condensou-se-lhe mais então. Era quasi um negrume de tristeza.
Por esse tempo, veio o conselheiro trazer Magdalena para a aldeia, pois receiava pela saude d'ella se persistisse em Lisboa.
O conselheiro propunha-se levar comsigo Augusto, quando voltasse a Lisboa. Uma manhã, porém, este, de pouco mais de quinze annos, procurou-o e disse-lhe com uma gravidade, que revelava uma tenção meditada e irrevogavel:
—Venho prevenir v. ex.a de que desisto do legado da sr.a morgada. Não quero ordenar-me.
O conselheiro fitou-o, estupefacto.
—Não queres ordenar-te! Por quê?...
—Já não tenho mãe a quem amparar. Por ella forçaria a minha vocação sem remorsos; por interesse proprio não o posso fazer; parece-me um sacrilegio.
O conselheiro era um homem muito do seculo. O seu trato social, a frequencia dos circulos politicos e elegantes, haviam-lhe dado todas as boas e más qualidades, que caracterisam aquella classe de homens, e sabe-se que a candura de sentimentos não entra no numero das mais habituaes d'essas qualidades. Tinha uma razão clara, mas fria; se abraçava uma boa causa, não o fazia cedendo ao enthusiasmo, mas sómente depois de ponderar fleugmaticamente os fundamentos em que ella se baseava; assim era que, em politica, se costumára a contemporisar, espaçando a adopção de qualquer medida, inquestionavelmente boa, para tempos em que fôsse mais conveniente; não se apaixonava por utopias, desconfiava d'ellas; havia muito tempo que desviára dos olhos o prisma encantado, através do qual olham o mundo os poetas e todos os mais sonhadores; costumára-se a marcar por modelo nas differentes carreiras da vida, não um typo ideal dotado de todas as virtudes, limpo de todos os defeitos e vicios; assentára a menor altura o alvo: parecia-lhe que bom fito eram já os individuos que tinham conseguido maior consideração na sua classe; as maculas que elles tivessem, eram, por esse facto, maculas auctorisadas. O pensar de outro modo era pensar de romance; agradavel para entreter, porém mau nas applicações ás coisas da vida. N'uma palavra, o conselheiro era um homem de bem, mas na esphera mundana; não um d'aquelles typos de pureza crystallina, através da qual parece passarem sem desvio os raios da luz celeste, mas já um tanto embaciado do bafo social, que não o fazia ainda totalmente opaco.
Por isso sorriu á declaração de Augusto. A carreira ecclesiastica não lhe parecia tão escabrosa como o futuro sacerdote a fazia; nem tão dura a lei, como em theoria se mostrava. O conselheiro não pensava necessario tomar ao pé da lettra certos deveres impostos; o mundo seria, como elle, tolerante em naturaes infracções; por tudo isso se riu. Fez a Augusto uma longa dissertação sobre as vantagens da vida ecclesiastica, sobre os muitos interesses que lhe promettia, e a leviandade com que elle queria renunciar a uma carreira segura movido pelas instigações de um espirito timorato ou de uma visão phantastica.
Augusto insistiu. Sem córar perante o sorriso sceptico do conselheiro, declarou que não abraçaria a vida ecclesiastica sem que se sentisse com a coragem precisa para cumprir todos os deveres que ella lhe impunha; que era precisa uma grande abnegação, e que elle, depois da morte de sua mãe, não tinha a certeza de a conseguir. Nos interesses não pensava, e se pensasse, seria isso a primeira prova de não estar preparado para a missão de que se queria encarregar.
Quando alguem abraça com lealdade e franqueza uma boa causa, difficilmente é vencido. O conselheiro, costumado a não recuar nas mais acerbas luctas do parlamento, calou-se dentro em pouco ás objecções d'aquella creança. Como que teve remorsos de tentar sequer desvanecer as illusões a que o via abraçado,—illusões pelo menos as suppunha elle; parecia-lhe uma obra satanica envenenar com um sorriso aquelle ideal, em que vivia.—Respeitou-o e calou-se.
—Alguma creancice amorosa dos quinze annos—pensou para si. Deixemos ao tempo convencel-o. Não me encarregarei eu d'esse papel, que é pouco sympathico. Quem me restituira aquellas canduras! Teria alcançado menos no mundo, mas talvez tivesse gosado mais... ou melhor...
O conselheiro cedeu apparentemente, esperando que a reflexão modificaria, mais tarde, as ideias do rapaz.
Exigiu d'elle que a ninguem annunciasse as tenções, em que estava de não se ordenar, pelo menos emquanto não passasse mais tempo sobre aquella resolução.
E uma vez que ficava na terra, pediu-lhe o conselheiro que se encarregasse da primeira educação de Angelo, então de nove annos; pois mais confiava para isso em Augusto, do que no professor official.
Augusto acceitou com prazer a incumbencia, que, sobre adequada aos seus gôstos, lhe abria uma carreira, que elle já imaginára adoptar.
De então nasceu uma intima amizade entre Angelo e Augusto. Foram rapidos os progressos do discipulo, e não menos reaes as vantagens que ao mestre resultaram do ensino, que lhe desenvolvia cada vez mais a intelligencia.—O conselheiro tinha motivos para estar satisfeito da escolha.
Ao fim de um anno as repugnancias de Augusto em acceitar o legado eram as mesmas; o egoismo paternal do conselheiro não o deixou ser muito ardente a combatel-as.—Espaçou-se mais uma vez a decisão.
Outras lições appareceram a Augusto, as quaes elle acolheu com gôsto; o mestre-escola reclamava tambem muitas vezes o seu auxilio; compadecido da sua velhice, Augusto nunca lh'o recusou.
O velho acabou por declinar n'elle o serviço todo, sem que Augusto consentisse em receber por isso o menor estipendio.
O publico não se cançava de perguntar quando seria que o rapaz principiaria os seus estudos em Lisboa e por que o não fazia já. Como não obtivesse resposta, commentava o facto, como costuma commentar todos os que não entende.
No entretanto a educação de Augusto não ficára estacionaria. Com grandes sacrificios a continuára elle; e n'um êrmo, como era aquella aldeia, tinha muito de milagre o que fazia.
O latim de mestre Bento já mal satisfazia ás impaciencias do espirito d'este discipulo enthusiasta; e não era raro que a intelligencia de Augusto visse mais fundo nos textos, do que a experiencia do mestre.
O acaso favoreceu os desejos do estudante.
N'uma freguezia proxima estava, como abbade, um doutor em theologia, homem de solido saber e de reputação extensa.
Um dia em que, por convite do seu collega, viera assistir e prégar na festa do orago da aldeia, o padre encontrou-se com Augusto na sacristia e, conversando-o, admirou-lhe a penetração, captivou-se da sua modestia e lamentou não estar mais perto d'elle, porque o auxiliaria, como pudésse, nos estudos.
Augusto perguntou-lhe se era sincera aquella vontade; affirmando-lhe o padre que sim, respondeu que não seria então estorvo a distancia, porque elle a venceria.
E d'ahi em deante, duas vezes por semana, ás quintas feiras e domingos, franqueava legua e meia dos mais escabrosos caminhos, para ir ouvir as lições do erudito abbade. Assim se aperfeiçoou na latinidade, cultivou a philosophia e adquiriu o gôsto pelos nossos velhos prosadores e poetas. Vinha de lá carregado de livros para ler durante a semana. Toda a bibliotheca do padre lhe passou pelas mãos.
Era porém o theologo classico exclusivo e nada visto em linguas e litteraturas modernas.
A sorte não recusou ainda a Augusto um novo mestre.
Entre os muitos estudos de estradas, de que os governos em Portugal fazem preceder, vinte annos antes, a construcção definitiva de uma só, que de ordinario sae sempre como se não fôsse tão estudada, um houve que levou á aldeia, em que eu e o leitor nos achamos, um engenheiro que ahi fez quartel e centro de operações, durante tres mezes inteiros.
A casa em que elle se alojou ficava proxima da de Augusto. Cêdo travaram conhecimento os dois. O engenheiro o menos que possuia eram livros de mathematica; mas, emquanto a litteratura moderna, trazia nas malas e bahús uma excellente provisão.
Não tendo que fazer ás noites, entreteve-se a ensinar o francez a Augusto e a ler-lhe os livros da sua bibliotheca portatil. Voavam as horas a Augusto n'aquelles serões; n'elles aprendeu todos os nomes da nossa litteratura moderna, bem como os principaes da de França e de Inglaterra.
Quando o engenheiro partiu da aldeia já Augusto sabia o francez bastante para se aperfeiçoar por si; este amigo deixou-lhe em lembrança grande parte dos seus livros, que Augusto releu muitas vezes.
Attingiu finalmente Angelo a idade de precisar do collegio. O conselheiro, ao leval-o comsigo, insistiu mais uma vez com Augusto para que viesse tambem e acceitasse o legado da morgada. Foi em vão, encontrou-o ainda inabalavel.
E d'esta vez fez publica a sua desistencia, e o ambicionado patrimonio foi concedido a outro.
Mezes depois morria o velho mestre-escola da aldeia.
Augusto escreveu ao conselheiro, declarando-lhe que pretendia aquelle logar, que já havia muito tempo servia, e pedindo-lhe para que se interessasse por que elle o obtivesse. O conselheiro quiz tirar-lhe da ideia tal projecto; escreveu-lhe que, na idade em que estava Augusto, o não ter ambições era indicio de uma profunda doença moral; que a posição a que elle aspirava, equivalia a uma sepultura estreita a que se acolhesse vivo. Augusto persistiu porém no intento; o conselheiro empenhou-se por elle em Lisboa. Conseguiu que uma portaria, meio pelo qual se faz em Portugal tudo que é contra lei expressa, o dispensasse da idade que ainda não tinha, pois mal completára dezenove annos, e Augusto foi por conseguinte admittido a concurso para tão pouco disputado logar e provido n'elle por tres annos. O conselheiro, a quem não fôra impossivel obter-lhe despacho vitalicio, quiz vêr assim se, no fim de tres annos, o obrigava a abandonar tão laboriosa e mal recompensada carreira, e de proposito o fez despachar temporariamente. Comquanto o legado da morgada tivesse tido já outra applicação, o conselheiro não hesitaria em proteger, em qualquer carreira, o mestre de seu filho.
Mas ao fim de tres annos, Augusto, apesar de por experiencia conhecer já os espinhos da profissão, apresentou-se novamente ao concurso para obter novo despacho. Na época em que abrimos esta narração, voltára Augusto de pouco de ultimar a nova prova; e estava pendente ainda a decisão do ministerio competente. D'esta vez tivera um competidor, homem muito protegido por influencias da localidade, as quaes ainda não tinham podido vencer a do conselheiro, que pugnava por Augusto.
Desde que fôra para Lisboa, Angelo não se esquecera de escrever amiudadas vezes a Augusto, contando-lhe dos seus estudos, e descrevendo-lhe a sua vida na capital; e quando vinha a férias, procurava transmittir ao que fôra seu mestre a sciencia que durante o anno adquiríra.
Foi assim que Augusto principiou a estudar a lingua ingleza, a geographia e a historia.
Recebido o primeiro impulso, a sua intelligencia e applicação faziam o resto.
Um homem que havia na aldeia e com quem cêdo teremos de travar conhecimento, um velho herbanario, para alguns um sabio, para outros um louco, para todos um homem honrado, concorreu tambem, com o seu contingente, para a educação de Augusto.
De tempos a tempos, este velho mysterioso apresentava-se em casa d'elle com um pacote de livros debaixo do braço e, sorrindo, pousava-lh'os em cima da mesa.
Eram quasi sempre aquelles, que Augusto mostrava ou sentia mais desejos de possuir. Da primeira vez, Augusto fitou o herbanario com espanto. Ninguem o suppunha rico; como podia elle pois obter aquelles livros, alguns dos quaes eram de preço? O velho porém disse-lhe, ao perceber-lhe a surpreza:
—Não queiras saber da minha vida, rapaz. Suppõe que eu tenho a servir-me uma vara de condão ou uma fada qualquer, e deixa correr.
Augusto acabou por persuadir-se de que o herbanario tinha accumulado riquezas, á fôrça de economias: porque de economias vivera sempre.
De pequeno merecera áquelle velho uma singular sympathia, e com affecto de pae fôra sempre tratado por elle.
Resignou-se a acceitar sem reflexões; até porque sabia ser facil o escandalisar o velho com ellas. O que fazia era evitar, na presença d'elle, qualquer palavra que pudésse denunciar desejos de possuir um livro qualquer. Mas o velho, como se tivesse de facto algum poder occulto a informal-o, ás vezes parecia adivinhar; e trazia-lhe livros que Augusto devéras desejava, mas a respeito dos quaes tinha a certeza de lhe não ter falado, nem eram d'aquelles que o velho conhecia.
A seu pesar via-se quasi inclinado a adoptar a crença supersticiosa do povo a respeito d'aquelle seu velho amigo.
Pensando melhor, pareceu-lhe procederem de Angelo as informações, pelas quaes o velho se guiava na escolha. Não lhe attribuia porém o presente, porque as economias de Angelo não chegavam para tanto.
Depois de tudo quanto temos dito de Augusto, poderá ainda o leitor estranhar os ares pensativos com que o vemos?
Poucos passos andados, depois que saiu do Mosteiro, encontrou Augusto a distribuidora das cartas, que lhe entregou uma sobrescriptada para elle. Era de Angelo.
Augusto abriu-a immediatamente e leu-a ainda pelo caminho.
Era uma extensa carta, em que se succediam os periodos em um d'esses longos, incoherentes e diffusos arrazoados, que constituem a essencia de uma carta de amigo para amigo.
Angelo falava dos seus estudos, de saudades da terra, de esperanças e de projectos, projectos que, n'aquellas idades, nascem e morrem a todo o instante. Terminava esta carta, em que lhe participava a sua vinda á aldeia pelo Natal, com o seguinte periodo:
«Peço-lhe que diga á Lindita que se não esqueça de mim. Dentro de poucos dias conto ir vêr os coelhos do quintal d'ella, e ajudal-a a tirar a agua do poço. O pae d'ella chega ahi ao mesmo tempo que esta carta; leva um livro para si.»
Augusto sorriu, ao ler o post-scriptum.
—Pobre Angelo!—murmurou elle,—Deus não permitta que sobreviva á tua ultima creancice essa sympathia por Ermelinda. Estas generosas affeições de creança muitas vezes, ao crescer, envenenam o coração.
Havia tanta amargura n'estas reflexões de Augusto!
E, como absorvido n'ellas, caminhou para casa do recoveiro Cancella, que era o pae da pequena, a quem na carta se alludia.
VII
A casa do recoveiro Cancella ficava n'uma das mais estreitas ruas da aldeia e ao lado de um pequeno quintal, objecto dos cuidados e das diversões do proprietario, que alli gastava algumas horas disponiveis da sua occupada e laboriosa vida.
Cancella era um verdadeiro Judeu errante da aldeia. A maior parte do tempo ia-se-lhe nas estradas; pernoitava hoje n'uma estalagem; viam-o ámanhã já a mais de seis leguas de distancia; acotovelava um dia a multidão nas ruas e feiras da cidade; no outro entretinha os curiosos da sua terra, deixando-lhes entrever os thesouros da experiencia adquirida á custa de muitos annos de fadigas.
As estradas em Portugal e os novos meios de transporte, que conjunctamente vieram, não destruiram totalmente esse typo dos antigos tempos, anterior a ellas. Além da época, que parecia dever marcar-lhes limite á existencia, passaram, sustentados pela fôrça dos habitos e justificados pelas irregularidades do serviço das postas; e Deus sabe quando de vez acabarão. Mas Cancella era além d'isso um recoveiro de uma especie rara e superior. Em todas as profissões ha sempre, no meio do vulgo, que as exerce sem enthusiasmo nem consciencia dos gôsos, superiores aos interesses, que ellas podem offerecer, certo grupo de escolhidos, que as idealisam, e enxergam um raio de poesia através das sombras, uma flor entre os espinhos. Cancella era d'estes; era o poeta da sua profissão. Tinha em si o que quer que era de um touriste, e assim aproveitava todos os ensejos que se lhe offerecessem de explorar algum ponto do paiz, ainda por elle desconhecido.
Este instincto levava-o frequentemente a Lisboa. As muitas relações do conselheiro, pae de Magdalena, com as familias da aldeia, e a barateza relativa das recovagens operadas por este meio primitivo, proporcionavam-lhe algumas occasiões d'isso, as quaes o Cancella de boamente aproveitava. Era de uma d'essas expedições que elle devia voltar aquella manhã, como o dava a entender a carta de Angelo.
Quando porém Augusto lhe bateu á porta, achou-a ainda fechada; escutou á fechadura, mas não pôde verificar o menor signal de que alguem estivesse dentro.
—É cêdo ainda—pensou comsigo.—Vejamos se estará em casa do compadre.
Seguiu mais para deante pela rua por onde viera.—A poucos passos mais, e do lado opposto, deparou-se-lhe outra casa de aspecto não menos rustico do que a primeira, uma pequena casa terrea, de uma só porta e uma só janella, e com o respectivo quintal ao fundo.
Do interior vinha um sussurro de vozes, como de conversa animada; julgando que seria o Cancella, de quem o proprietario era, além de vizinho, confidente e compadre, Augusto empurrou a porta, que estava apenas cerrada e entrou.
A primeira sala achou-a deserta. Era um aposento quadrado, todo adornado á volta de cruzes de pau, para as devoções da via sacra, e de imagens de santos e santas em caixilhos de todos os tamanhos. Mais do que os outros enramalhetado e enfeitado, via-se alli o bento registo de uma confraria, havia pouco tempo instituida na terra pelos missionarios, o qual occupava o logar de honra n'aquella devota exposição.
Era recente na aldeia o estabelecimento d'esta confraria, sociedade um tanto mysteriosa, por meio da qual seus interessados instituidores só visavam a dar o reino do céo aos filiados, contentando-se apenas, em paga, com o do mundo, do qual, lembrados de antigos tempos, teem saudades já. Os missionarios, certos evangelisadores em terras onde a palavra do Evangelho não é chave que abra a porta, pela qual entraram os martyres no céo, lá andavam por aquelle tempo, na aldeia onde se passa a acção d'esta historia, plantando a vinha, que elles chamavam do Senhor; as mulheres, abandonando os lares, seguiam-os como rebanhos; o culto catholico era por elles cada vez mais arrebicado com orações absurdas e ceremonias ridiculas, e o eterno anathema da ignorancia contra o progresso da sociedade servia de thema predilecto aos seus barbaros discursos.
Ardente proselyta d'estes apostolos de fé duvidosa, a sr.a Catharina do Nascimento de S. João Baptista, a metade feminina do casal em questão, tomára por modo de vida as devoções da igreja, onde ia chorar as desgraças da humanidade, que tão fóra via andar da estrada direita.
Augusto pouco se demorou n'esta sala; respeitando a alcova conjugal, que era vedada aos olhares profanos por uma colcha de chita de largas e folhudas ramagens, tomou pelo corredor, que conduzia á cozinha d'onde lhe continuava a chegar aos ouvidos o som de vozes, que primeiro o attrahira.
Ao contrario do que esperava, porém, só uma pessoa encontrou na cozinha, comquanto falasse com a vivacidade que em poucos dialogos se mantem.
Esta pessoa era o dono da casa, o sr. José do Enxerto, ou vulgarmente chamado ti' Zé P'reira—nome que lhe vinha do popular e ruidoso instrumento, o classico zabumba, que nas nossas aldeias tem ainda hoje aquelle nome.—Era muito para vêr e admirar a mestria, com que o nosso homem o sabia tocar nas festas e arraiaes, á frente das procissões e cêrcos, e finalmente em todas as solemnidades publicas.
O ti' Zé P'reira era homem dos seus quarenta e tantos annos; tinha no rosto, principalmente no nariz, vestigios evidentes das suas sympathias pela divindade celebrada nos antigos dithyrambos. Esposo da sr.a Catharina do Nascimento de S. João Baptista, vivia em perenne sabatina com a sua cara metade, sujeitando-lhe todas as suas acções, mas salvando sempre o direito de protestar pela palavra. Ganhava a vida no officio de hortelão e, aos domingos e dias de festa, á fôrça de rufos e pancadaria na retesada pelle do seu companheiro inseparavel—o zabumba. Era aos cuidados e vigilancia d'este par conjugal que o recoveiro Cancella confiava o seu mais precioso thesouro, a pequena Ermelinda, uma mimosa creança, que lhe ficára á sua viuvez tão cheia de saudades, e a quem elle mais queria do que á menina dos olhos.
Ermelinda era afilhada da familia Zé P'reira, e a mesma a quem ouvimos referir-se Angelo no fim da carta.
Zé P'reira estava, como dissémos, só na cozinha, quando Augusto alli chegou: sentado, no meio da sala, sobre um alqueire voltado com o fundo para o ar, viradas as costas para a porta e a face para o lar apagado e vazio, falava, gesticulava e mudava de tom desde a nota mais grave e rouca da sua escala de barytono, até o mais agudo e desafinado falsete. A lingua pegava-se-lhe ao céo da bôca, difficultando-lhe suspeitosamente a articulação de algumas syllabas; era evidente que se apossára do hortelão o espirito familiar, o qual n'este caso, era um verdadeiro espirito, na accepção chimica do termo.
Ze P'reira era um homem baixo, já grisalho, sufficientemente nutrido, de olhos vesgos e que mais vesgos se faziam quando o enthusiasmo, o rapto artistico se apoderava d'elle; usava de umas suissas que pareciam tentar sumir-se-lhe pela bôca dentro; tinha longos braços, accommodados ás difficuldades e evoluções da sua arte, e pernas que, do joelho para baixo, lhe divergiam em angulo de mais de trinta graus.
Quando Augusto deu com elle, o homem monologava, gesticulando:
—Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!... É forte desgraça!... Aqui estou eu!... Um homem casado... casado á face da igreja... que me casou em dia de S. Thiago o abbade que foi... e que Deus tenha em descanço. Não faltou nada... correram-se banhos deante de quem os quiz ouvir, e não houve quem puzesse impedimento... porque eu não devia nada a ninguem... sempre fui liso de contas... Sou casado com a Catharina do Nascimento de S. João Baptista, filha do Antonio Canhestro, do logar dos Fójos... E casado para quê? Faz favor de me dizer? Para que casei eu?... Forte desgraça a minha! Casei-me para isso!... Para vir para casa e achal-a vazia, o lume apagado e o caldo na horta... e a mulher a papar missas e novenas lá por essas igrejas... Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! É forte desgraça!... Bem morria eu de frio e de fraqueza, se não fôsse aquelle quartilhito... o ultimo, que sempre me deu sua aquella... sim... sempre me conchegou o estomago. Não que dizem que o vinho que faz, que o vinho que acontece... Pois casem-se com uma mulher que vá de madrugada para a igreja e venha de lá quando muito bem lhe pareça, e verão depois se o vinho não serve de cobrir muita lazeira que se soffre... verão depois... Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!... Diz que Deus que disse, que a mulher que era a carne da nossa carne e o osso do nosso osso... Deus devia de vez em quando tornar a dizer estas coisas... para não esquecerem... como se faz na escola com a taboada. A minha Cath'rina já o não sabe, aposto... e pelos modos os padres não lhe dizem isto na igreja... pois deviam dizer!... A carne da minha carne e o osso do meu osso!... mas é carne e osso que me não fazem caldo... Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!... Como ha de um homem, se isto assim continua, pegar na enxada para dar uma cavadela, ou fazer qualquer sachada?... E tambem quero vêr como hei de no arraial e procissão de Santo Amaro, que não tarda ahi, dar sequer um rufo assim mais tal... assim mais scientifico? Eu se fôsse bispo...
A caudalosa corrente d'este soliloquio foi interrompida pela apparição de nova personagem á porta do quintal.
—Deixe estar, meu padrinho, deixe estar; tenha um bocadinho de paciencia. É um instante emquanto accendo o lume e lhe faço o caldo. Verá.
A pessoa, que assim falava ao entrar para a cozinha, era uma rapariga de doze annos, alva e franzina, como a mais delicada creança da cidade, com os olhos negros e expressivos de intelligencia e de doçura, e com os mais formosos cabellos louros que ainda enfeitaram uma cabeça infantil. Não havia n'elles sombra, que desvanecesse aquella côr deslumbrante; reflectia-se-lhes a luz nas ondas, naturalmente lustrosas, como em tenuissimos fios de metal; usava-os soltos e caidos, sem vislumbre de artificio, de um e de outro lado do collo.
Condizia com a expressão angelica do semblante o suave e affectuoso timbre de voz com que falára.
O leitor prevê de certo que é Ermelinda, a filha do Cancella, ou Lindita, como geralmente na aldeia lhe chamavam, a creança que tem na sua presença.
Ermelinda sobraçava um mólho de hortaliça, que fôra colher ao quintal, e dirigia-se com ella para o lar, que o descuido e a indifferença conjugal deixavam ainda apagado áquella hora do dia.
Dando, porém, com os olhos em Augusto, parou, sorrindo-lhe.
—Ai, pois estava ahi, sr. Augusto?! E o meu padrinho talvez sem reparar.
A estas palavras o desditoso marido voltou a cabeça e fitou em Augusto um dos seus desemparelhados olhos.
—Olá, sr. Augusto! Viva! Passe muito bem! Entre; esta casa é sua... De jantar não lhe offereço... porque... porque... Forte desgraça a minha... Olhe! repare para este desaforo!... Venho para casa, morto de trabalho... e vejo o lar apagado! A minha mulher está a ouvir missa, a confessar-se, a commungar... a tomar todos os sacramentos... acho que os está a tomar todos... Louvado seja Deus! Vem ahi tão limpa de consciencia, como eu estou do estomago... Ora, senhores...
—Deixe estar, padrinho... Verá como isto se arranja depressa... Olhe; o lume já está accêso—dizia Ermelinda, accendendo effectivamente o lume no lar.
—Já o devias ter feito antes, Lindita,—disse Augusto, sentando-se junto d'ella.
—Mas se inda agora vim das prêsas, onde fui lavar a roupa?
—Pobre pequena—disse o Zé P'reira—tambem não te ha de faltar lazeira, tambem!
—A mim? Agora. Não que eu não saí de casa com as algibeiras vazias.
—Pois sim... mas é sempre preciso coisa que conforte... Inda se tu bebesses... já não digo um quartilho...
—Credo, meu padrinho! Que está a dizer?
—Que espanto!... Ora, senhores, que parece que o vinho é bebida amaldiçoada, que todos lhe teem mêdo! É vêr se o padre na missa...
—Padrinho! padrinho! que vae dizer?—interrompeu Ermelinda, quasi aterrada.
—Eu digo o que é verdade, rapariga!... Tenho minha presumpção de nunca dizer senão a verdade... Lá o pespeguei na cara do sr. juiz de direito e mais do sr. doutor delegado e mais doutores, quando fui a um juramento, por causa d'aquellas pancadas no recebedor... É que nenhum d'esses santalhões, d'esses missionarios me teem que ensinar n'esse ponto... Os missionarios!... Eu, um dia, tiro-me dos meus cuidados e dou-me ao trabalho de lhes ir perguntar, quando elles estiverem no pulpito, se Deus lhes manda que tirem as mulheres de casa, para que os maridos não tenham que comer, quando voltarem do trabalho... Um dia inda lhes vou perguntar... isso vou...
—Olhe; a agua não tarda a ferver; verá que dentro em pouco...—continuou Ermelinda.
—Bem, Lindita, bem—disse Augusto—em paga da boa vontade, com que trabalhas, vou dar-te uma alegre nova.
—A mim? Diga.
—Trago-te visitas de alguem, que em poucos dias te dará em vez de visitas, um abraço.
—De quem? Ah!... Angelo escreveu-lhe?
—Como adivinhaste depressa!
—Pois de quem mais havia de ser? Mas diz que... em poucos dias... Então?
—Tel-o-hemos cá pelo Natal.
—Fala verdade?
—Assim m'o diz n'esta carta. Queres ler?
—Para quê?—respondeu a rapariga, fitando porém o papel com os olhos cheios de curiosidade.
—Ora lê, lê... Até para vêr se ainda te recordas das lições, que eu te dei.
—Ai, lá isso... mas, o caldo do meu padrinho...
—Deixa que o lume é que o ha de aquecer e não a tua presença.
Ermelinda approximou-se; tomando a carta das mãos de Augusto, começou a lêl-a com intensa curiosidade.
Zé P'reira proseguiu no seu monologo:
—A religião, senhores—dissertava elle—não manda tal... Isso é que não manda... A religião é a palavra de Deus... e Deus disse... sim... Deus disse... Deus disse muita coisa... Disse que por este deixarás pae e mãe. Ora a santa madre igreja é mãe, é, sim, senhores; que tem lá isso? mas não é mais mãe do que a outra mãe... e então... senhores, uma mulher não deve deixar por ella o seu marido; porque o marido, senhores, é o tudo de uma casa, e o ganhapão da familia. Ora, senhores, que é forte desgraça.
O monologo do desconsolado conjuge e a leitura de Ermelinda foram interrompidos por uma voz potente, que cantava na rua.