WeRead Powered by ReaderPub
A Morgadinha dos Cannaviaes / (Chronica da aldeia) cover

A Morgadinha dos Cannaviaes / (Chronica da aldeia)

Chapter 13: VIII
Open in WeRead

About This Book

A rural chronicle portraying life in a northern province through close scenes of landscape, local customs, and social relations. It follows an urban visitor adjusting to provincial conditions and presents domestic rituals, farm routines, festivals, and everyday talk; episodes combine gentle humor, moral reflection, and sentimental incidents such as courtship and family obligations. The narrative alternates descriptive passages of nature and village topography with anecdotes and conversations that reveal class contrasts and traditional values, producing a textured account of countryside rhythms, communal ties, and the tensions between city habits and provincial ways.

O dinheiro paga tudo,
Não se fica a dever nada;
Toma, toma o limão verde,
Ó da fresca limonada.


E logo em seguida estalaram as taboas do soalho no corredor sob uns passos pesados e ruidosos, e no limiar da porta da cozinha desenhou-se a figura agigantada e herculea do recoveiro Cancella, pae da Ermelinda. Cancella, ou o João Herodes, que assim tambem lhe chamavam por ter creado, nos autos em que era actor applaudido e popular, o typo do sanguinario e infanticida rei da Judéa, fôra pela natureza dotado de uma estatura e robustez, dignas de Adamastor.

Encontrava-se n'elle uma d'essas felicissimas realisações dos temperamentos sanguineos que, sem ameaçarem de insultos apopleticos, dão riqueza ao sangue, vigor aos musculos e á physionomia o aberto e colorido da saude e os reflexos da satisfação interior.

A barba negra e espessa cercava-lhe as faces córadas, e o natural fulgor dos olhos parecia augmentado sob o duplo arco de bastas sobrancelhas, que, quando contrahidas, os rodeavam de sombras ameaçadoras, d'onde fuzilavam relampagos. Era formidavel então!

O riso pairava-lhe porém, nos labios, quando na presença de amigos, descobrindo-lhe duas fileiras de alvissimos e bem dispostos dentes, d'esses que os excessos e absurdos culinarios ainda não deterioraram.

Parando á porta da cozinha, o Herodes (ás vezes lhe chamaremos assim, cedendo ao geral costume na aldeia) procurou com a vista alguem, que mais que tudo trazia na memoria—a filha.—Esta, pela sua parte, mal o reconheceu, correu a lançar-se-lhe nos braços.

O pae pegou n'ella, como se fôsse uma penna, levantou-a á altura dos labios e pousou-lhe nas faces dois sôfregos e ruidosos beijos, ainda palpitantes de todo aquelle intenso amor paternal.

—Ah!—exclamou, pousando-a no chão e respirando como quem acabava de satisfazer uma intensa necessidade do coração.—Isto consola que nem o copo de agua que a gente, em dias de calma, pede á borda da estrada, quando se leva a bôca secca e queimada de poeira! Mais do que isso me sabem estes dois beijos que te dou, pequena. Que querem?... Ó sr. Augusto! tambem por cá?

—Esperava-o, Cancella.

—A mim?—continuou o homem, pousando no chão uma mala que trazia.—Pois aqui me tem. Mas, dizia eu, um homem quando anda lá fóra, e pensa no que lhe irá por casa, sente ás vezes uns sustos, que parece que lhe fazem tudo escuro... As desgraças, para succederem, não põem muito... De um momento para outro... E depois a gente ouve por lá conversas, vê coisas que parece que são agouros... e que nos fazem a noite no coração... Umas vezes é um enterro... outras, um desastre... um fogo... um... E as creanças sós, e os paes fóra de casa!... Ai! Isto é de ralar o coração de uma pessoa... Eu bem sei que em boa companhia me fica a pequena. Aqui o compadre, tirante lá a sua aquella pelo sumo da uva... Quantos foram já hoje, compadre, hein?... mas, tirante isso, é homem de bem: a comadre é uma santa, que só tem o defeito de querer ser santa devéras... mas emfim... tudo isso não obsta; uma coisa é uma pessoa saber o que lhe vae por casa, outra... Tremem-me as pernas sempre que entro na aldeia. A primeira alma de Christo, que encontro, estou sempre a vêr quando me vem dar alguma nova má. Salta-me cá por dentro o coração, que ninguem faz uma ideia; eu bem canto a vêr se disfarço, mas... Ai, filha da minha alma, quando me passa pelo pensamento que te posso um dia vir achar doente!... Assim me succedeu com tua mãe... Deixei-a uma vez tão satisfeita e alegre, e vae, quando voltei, a primeira pessoa que encontro, diz-me á queima-roupa: «Venha, sr. João, venha, que já não vem sem tempo. Corra a casa, se ainda quer vêr sua mulher...» Foi como se recebesse uma descarga em cheio no peito... corri, e...

A commoção impediu-o de continuar; disfarçou como envergonhado d'aquella fraqueza, beijando a filha outra vez.

Ermelinda percebeu a perturbação do pae e disse-lhe carinhosamente:

—Para que está agora a pensar n'essas coisas que o affligem, meu pae?

—Deixa-me cá, rapariga. Isto ás vezes tambem faz bem. Mas, por isso, quando entro em casa e te vejo, pequena, e te vejo com boas côres e alegre... nem eu sei o que tem mão em mim, que não me ponho a dançar. Ah!... ah!... Ninguem tem uma filha como eu! Olhe que não, sr. Augusto; mal fica a mim dizel-o, mas... Lá por Lisboa e por o Porto ha muita menina galante, isso ha; muita inglezinha loura, bonitas como anjos, mas cabellos assim dourados?—e passava com orgulho os dedos pelos bastos cabellos de Ermelinda—mas uma pelle assim delicada,—e afagava-lhe com as mãos a face, quasi a mêdo—mas olhos assim a metterem-se mesmo pelo coração á gente?—e beijava-lh'os com paixão—isso é que eu ainda não vi, nem tenho de vêr. Como o Senhor concedeu um anjo d'estes a um selvagem como eu, é que não sei... É a imagem da mãe!... Ella tambem era poucochinho de si... miudinha e... Mas não pensemos n'estas coisas. Sim, senhores; eis-me aqui outra vez, e por signal com a minha vida por arranjar e eu posto á taramela. Trago-lhe uma encommenda, sr. Augusto, e muitos recados, muitos.

—Já sei; Angelo escreveu-me.

—Escreveu? Ah, sr. Augusto, que rapaz aquelle! Aquillo é uma perola! Com tres milheiros de demonios do inferno! d'alli ha de sair coisa grande. Eu não queria morrer sem vêr o que saía d'alli. Brinca como uma creança, mas, quando quer, põe-se sério, e fala como homem. E nada de soberbas, nem de ares enfastiados, como tomam aquelles senhores da cidade, quando conversam com uma pessoa rustica... Qual historia! Elle tudo quer saber, tudo pergunta... isso é um nunca acabar, quando lá me pilha... Então como vae fulano? e sicrano? e se já se fez aquella casa, e se já acabou aquella obra, e se já casou este, e se inda vive aquelle, e mais para aqui, e mais para acolá, e tudo quer muito explicado... Ah! ah! ah!... tem diabo o pequeno... Pois cá a respeito da rapariga?... Isso é uma comedia!... Não se farta de me ouvir falar d'ella... Ah, sr. Augusto, ás vezes chego a ter pena de que isto nascesse minha filha.

Ermelinda fitou o pae com olhos espantados.

—Sim, filha,—proseguiu elle.—Deus não te devia dar a um homem como eu, que emfim... Com os diabos! lá alma e coração... não quero que haja ahi quem me leve a barra adeante. Eu por um amigo... e com mil demonios, até por um inimigo, se não fôr soberbo, vamos lá, dou a camisa do corpo... Mas o mundo... Bem, bem, eu cá me entendo. Vamos á minha tarefa. Mas que tem você estado para ahi a prégar, compadre, desde que eu entrei? Humh! humh! parece-me que já se cantou a gloria, hoje, visto que já se está ao sermão.

Effectivamente Zé P'reira tinha apenas concedido ao seu compadre um olhar de distracção e um aceno de mão, e voltára de novo ás suas queixas amargas contra a sorte e contra a esposa.

Interrogado pelo Herodes, Zé P'reira reproduziu uma das suas lamentações; o compadre, emquanto desenfardelava a mala, ia cortando com reflexões proprias essa longa jeremiada.

—Então com que a ti' Zefa deixou-o sem caldo, hein? É mal feito, a falar a verdade. Lume apagado em casa de familia é coisa triste... Aqui está um livro para si, sr. Augusto... Mas deixe lá, compadre, que a minha pequena arranja-lhe n'um ai algumas berças... Tambem eu estou em jejum desde as cinco horas da manhã... mas estes missionarios! Ah! com seiscentas mil duzias de demonios, eu ainda queria um dia...

—Deus nosso Senhor seja n'esta casa—disse uma voz gemida á porta da cozinha.

—E o demo na do abbade—resmungou Herodes.

Era a sr.a Catharina do Nascimento de S. João Baptista, typo de beata, que dispensa descripção, que regressava a casa depois de completar o cyclo das suas devoções.

—Viva a comadre!—disse o João Cancella, continuando a mexer na mala.

Ermelinda foi beijar a mão á madrinha.

Augusto saudou-a affavelmente.

O marido obrigou o corpo a uma meia rotação sobre o alqueire, e, voltando-se para a mulher, disse-lhe, agitando os braços e as mãos, espalmadamente abertas:

—Mulher dos meus peccados, mulher de não sei que diga, olha que a paciencia um dia acaba-se, mulher! Isto não pode continuar assim, mulher! Eu não me casei para que tu me andes a ganhar indulgencias na igreja, mulher!... Isto são preparos, mulher?... Um homem chega a casa e acha o caldo por fazer, porque a senhora sua esposa deu em ouvir nove missas por dia e uma duzia de novenas!

—Cala-te, cala-te,—retorquiu azedamente a devota metade do Zé P'reira—cala-te para ahi, desalmado. Excommungado seja o mafarrico, que assim me quer attentar logo que entro em casa! Olha lá que não morresses de fome! Estás mal acostumado. Louvado seja Deus! Já não ha quem queira soffrer n'este mundo mortificações! cuidas que não tens de soffrer as do purgatorio? E Deus nos queira dar só o purgatorio e livrar-nos das penas do inferno. Que muito mal fazemos por lhe merecer misericordia! Ora que não ha de uma pessoa poder ter as suas devoções, que não venha encontrar lamurias em casa! Ó minha rica Mãe do céo, seja para desconto dos meus peccados! Sume-te, inimigo mau! E eu que deixei de rezar oito estações, que prometti á Senhora da Rocha, e vae... Ora digam como ha de esta gente cumprir os jejuns que manda a santa madre igreja, se, por duas horas de espera, já se choram todos! Bemdito e louvado seja o sacratissimo coração de Maria! Ó homem de Deus, e então aquelles santos eremitas, que viviam no deserto de raizes e de agua das fontes...

—Que lhes prestasse. Haviam de andar muito gordos. Eu queria-os vêr com uma enxada a trabalhar todo o dia no campo, e que lhes dessem depois raizes para roer, a vêr se gostavam. Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! Mulher, a religião manda que olhemos pelo nosso cadaver. É má christã a mulher que deixa o seu marido na penuria. Isto é que os padres deviam ensinar. Vae-lhes lá perguntar se, quando chegam a casa, não teem a sôpa e o toucinho á espera d'elles?

—Cala-te, tentador, que me andas a tentar, cala-te, tem vergonha n'essa cara. Olha agora! Eu queria vêr-te com o trabalho do sr. padre Domingos. Coitadinho! desde as cinco horas da manhã até agora a confessar!

—Confessar é parolar; ora adeus!

—Tu estás doido, alma perdida?!

—E cuidas que elle não leva marmelada nos bolsos?

—Ó chagas do seraphico S. Francisco, ainda mais terei de ouvir?!

—Mulher, deixemo-nos de historias; com jejuns ninguem engorda. Só os santos... de pau.

—Vamos, vamos—disse o Herodes, intervindo.—Não vale zangarem-se por causa d'isso. A minha pequena deve ter o caldo quasi feito. Comam-o em santa paz e deixem-se de testilhas, que não é bonito; e muito menos entre marido e mulher. Você, compadre, tambem tem culpas em cartorio; vamos lá. Ha por ahi umas certas capellas, onde passa tambem bastante tempo em devoção; emquanto á comadre, acredite o que lhe digo: a palavra de Deus não é tão difficil, que uma pessoa precise de estar tanto tempo a ouvil-a explicar. Eu cá penso que, fazendo a gente aquillo que lhe diz o coração, e que não sente nenhuma aquella em fazer, vae por caminho direito. E mais vale fazer o que Deus manda, do que levar a vida a pedir perdão por o não ter feito. E tambem não é bonito estarem agora as mulheres, horas e horas, pegadas ao confessionario, como lapas nos rochedos, nem...

—Compadre!—atalhou escandalisada a sr.a Catharina—compadre! É essa a educação que dá á sua filha? São coisas que se digam deante de uma creança de doze annos? Ande lá, ande lá... Ora Deus queira que lhe não encontre ainda o pago. Era bem melhor que lhe ensinasse, ou mandasse ensinar, a doutrina; que é mesmo uma vergonha o pouco que sabe d'ella.

—Bem tenho eu tempo para isso. A minha Ermelinda não deixa passar pobre á porta, a quem não dê esmola; creança que não afague; velho ou velha, que não corteje; reza todas as manhãs a oração, que a mãe lhe ensinou, o Padre-Nosso e a Ave-Maria, onde se diz tudo o que se deve dizer a Deus; de dia trabalha, como filha de pobre que é, e mulher de casa que ha de ser... O Senhor me perdôe, se mais é preciso ainda, que mais não sei eu ensinar-lhe.

—Não tenha soberbas, compadre, não tenha soberbas! E cautela com o mimo que dá á pequena, que é o que perde muitas almas.

—Que mimo, que mimo? Logo eu com este genio de repentes é que hei de dar mimo a esta pobre creança, que nem o da mãe conheceu!

—Ora diga, compadre, acha que é muito bem feito, da sua parte, deixar andar a rapariga com esses cabellos soltos? Não sabe que o demonio... cruzes! arma com elles laços ás almas das creaturas?

—Fracas prisões são as do diabo, se as forja só de cabellos!... Então, por causa das tentações é que a comadre rapou os seus? Ah! ah! Tem coisas! É teima velha! Eu já lhe disse, comadre: Deus, que deu á pequena esses cabellos tão bonitos, é porque lh'os quiz dar. Se quizer, que lh'os tire, eu é que não.

—Deus cerca-nos de tentações, para que nós as vençamos.

—Forte tentação venceu a comadre! aposto que os não cortaria assim, se os tivesse como os da minha Ermelinda, hein! Cortar os cabellos á minha filha, eu?! fazer d'aquella cabeça de cherubim uma d'essas cabeças tosquiadas, que por ahi andam!

—Talvez ainda se arrependa!

—Deixe lá, comadre. O que eu vejo é que, junto de Deus e da Virgem, se pintam anjos, como a minha pequena, e não figuras... respeitaveis, como a da comadre; ora então...

A beata, apesar de trazer sempre na memoria o Vanitas vanitatum do Ecclesiastes, não foi inteiramente insensivel ao remoque do compadre. Azedou-se-lhe o humor, e, voltando-se para Ermelinda, disse-lhe como para descarregar sobre ella a má vontade com que estava ao pae:

—Sae-te p'ra lá. O senhor meu homem tinha muita pressa de jantar! Deixar assim uma creança fazer uma fogueira d'estas! Nem para assar um boi! É preciso não ter consciencia.

E tirou do lume um pequeno cavaco, para justificar o dicto.

Zé P'reira monologava ainda. Augusto continuava examinando o livro recebido.

Ermelinda afastou-se do lar com timidez. No animo d'aquella creança, que era de uma organisação nervosa, excepcional na aldeia, exercia a beata uma especie de fascinação, um mixto de respeito e de terror, capaz de dissipar todos os risos dos seus labios infantis. Era outra na presença da madrinha, fitava-lhe nas faces descarnadas e macilentas os bellos olhos negros; seguia-lhe, quasi assustada, o movimento dos labios austeramente contrahidos; tremia ao escutar-lhe a voz aguda e penetrante, falando nas penas do inferno; chorava á menor reprehensão que d'ella recebia, e comtudo amava-a, amava-a, porque Ermelinda na sua candura de creança, suppunha a madrinha uma santa; avultavam-lhe, como virtudes beatificantes, os defeitos da devota velha; a innocente julgava-se uma grande peccadora quando, depois de ter na mente aquelle perfeito typo, voltava a olhar para si, para o fundo da sua consciencia; e que negros e hediondos peccados lá encontrava! Uma pequena mentira que dissera; um domingo em que faltou á missa; um juramento que, sem o sentir, lhe saira da bôca; um jejum que não guardára, e outros crimes da mesma fôrça. A amedrontada creança chegava a receiar pela salvação da alma.

É sempre funesta a influencia que exercem sobre a infancia os caracteres como os da beata.

O Herodes percebeu a impressão sob a qual estava a filha e acudiu-lhe.

—Toma lá, Ermelinda—disse elle, tirando da mala uma pequena medalha com um retrato.—É um presente do nosso amigo Angelo para nós, ou antes, para ti...

Ermelinda pegou no retrato com não reprimido alvoroço. Era outra vez a creança.

A madrinha lançou para a medalha um olhar obliquo e reconheceu o retrato.

—Em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo!—rompeu ella, com um espanto exaggerado.—Este homem não tem a cabeça no seu logar, por mais que me digam! Elle quer perder a filha de certo! A fazer a cabeça doida a uma creança!

O Herodes, ouvindo estas palavras, pousou com impeto a mala no chão, e com os olhos chammejantes e as faces injectadas, vociferou, cedendo o campo á cólera, que se lhe accumulou no seio:

—Com seiscentos milhões de diabos! Você que está ahi a dizer, mulher? São os sermões dos missionarios, que lhe teem assim afiado a lingua e deitado peçonha na baba? Com effeito! Saiba que dou mais pela creança, de quem é aquelle retrato, do que por quantos sotainas lhe ouvem os seus peccados todas as semanas e por quantas beatas andam comsigo a dar marradas no lagêdo da igreja. Fazer a cabeça doida á minha filha! Tenha mão na lingua, comadre, que lhe não soffro tanto. Doida lh'a trazem a vossemecê os missionarios e os sermões. Seu marido fôra eu, que a mania lhe tirava.

O Zé P'reira, apesar dos seus desgostos domesticos, zelava a dignidade do casal; e não levava á paciencia que outro, além d'elle, dissesse d'aquellas verdades á mulher; por isso, ouvindo-as, através dos sonidos que lhe chiavam nos ouvidos, levantou-se, e sustentando-se nas pernas vacillantes, e bracejando sempre, bradou:

—Compadre! Eu sei quaes são os meus deveres! Compadre, prudencia!... Compadre, eu não consinto... Ora, senhores, que é forte coisa! Compadre!... veja que eu é que sou aqui o chefe da familia e esta é minha mulher! Pschiu... Basta... Compadre... basta. Então? Ora, senhores.

Mas o Herodes já nada attendia; cada vez mais lhe crescia a vermelhidão nas faces; a irritação rompera os diques da cordura e ameaçava engrossar cada vez mais. Ás exclamações de Zé P'reira respondia já azedamente.

—Ora adeus, temos conversado... Seja homem, que bem precisa... Não basta dar á lingua... Na taberna não é que se governa a casa...

A sr.a Catharina abstinha-se agora prudentemente.

Ermelinda, pallida, a tremer, abraçou o pae, quasi chorando.

Augusto, que fôra alheio ao principio da contenda, conheceu emfim que precisava de intervir. Saiu-lhe difficil a empreza.

Ensurdeciam os ouvidos dos contendores, a um o sangue, a outro o vinho.

Depois de muito custo, conseguiu emfim apazigual-os. Deram-se mutuas satisfações, e separaram-se apertando as mãos.

Augusto retirou-se com João Cancella e Ermelinda.

O par conjugal ficou, renovando-se cêdo entre elles a interminavel contenda em que viviam.


VIII


Saindo de casa do Zé P'reira, Augusto teve de escutar, ainda por muito tempo, as vociferações e pragas, com que o Herodes acoimava a fraqueza do compadre, que assim deixára a mulher tomar sobre si um ascendente offensivo da dignidade varonil. Augusto ouviu tudo com resignado silencio e attenção um pouco distrahida, conseguindo emfim a custo soltar-se das mãos do seu interlocutor, que, no fogo da exposição de tão justos aggravos, lhe segurava os braços com pouco affavel vivacidade; a final, porém pôde deixal-o e voltou a casa.

Entrando no seu quarto, um pequeno e modesto quarto, mobilado com uma banca, poucas cadeiras e uma estante, cheia de livros, Augusto respirou.

Era alli o seu logar de descanço; a escola era em outra casa vizinha. N'esta não havia, a amargurar-lhe as horas do repouso, vestigios que lhe recordassem as do supplicio.

Leitor philantropo, que, abrazado em santo amor da humanidade, só entrevês delicias na tarefa do ensino, e fazes d'este vigiar e encaminhar o espirito infantil, que desabrocha e respira pela primeira vez no fecundo ambiente da sciencia, um seductor quadro de phantasia, perdôa-me a palavra, supplicio, de que me servi, e perdôa ainda mais ao caracter de Augusto o ter saido exacta a expressão, que te feriu os humanitarios instinctos.

Eu bem sei que é uma sublime missão a do mestre: e que é uma graciosa e amoravel idade a da infancia, e poucos melhor do que Augusto possuiam presente o ideal de uma e amenisavam á outra com branduras os amargores do penoso tirocinio;—mas que importa? nem por isso é menos real o supplicio. A cultura dos espiritos é como a cultura das terras. O lavrador exulta, estremece de prazer, vendo pullular do solo, arado e semeado de pouco, os rebentos do grão que o calor fez germinar, e volverem-se as folhas, estenderem-se e enflorarem-se os ramos, penderem os fructos e colorirem-se das tintas da madureza; mas, emquanto vergado, coberto de suor, arquejante, se afadiga a arrotear o terreno duro e quem sabe se ingrato aos seus cuidados, muita vez lhe fallece o alento, e se olha de quando em quando para o céo, não é para lhe agradecer, com risos os gôsos que elle lhe dá; mas para lhe pedir, com lagrimas, a fôrça que lhe mingúa.

De igual modo, se é grato ao cultor das intelligencias o vêl-as desenvolver, florir, fructificar; ardua, improba, desesperadora é muita vez a tarefa da sua primeira educação. É mister possuir um grande thesouro de ideal, para que o suave e risonho typo, que da infancia concebemos, não se transtorne, na phantasia d'estas victimas d'ella, em não sei que figura diabolica e maligna, que lhes envenena todos os momentos de alegria.

Além d'isso, o pobre professor de instrucção primaria, sobre quem pesam os mais fastidiosos encargos da instrucção, não pode ser comparado absolutamente ao agricultor do nosso simile; é antes o jornaleiro contractado por magro salario, para, á fôrça de braço, lavrar o solo, d'onde, mais tarde, romperá a vegetação, que elle não terá de vêr e que a outros concederá os gôsos e o beneficio. Venceu tambem o humilde professor, e por o mesmo preço que o jornaleiro, que não vão mais longe com elle as liberalidades dos nossos governos, venceu as maiores cruezas do magisterio; mas não verá tambem o resultado das suas fadigas. Fogem-lhe as intelligencias, que educou, justamente quando com mais amor as devia contemplar, e, se o destino reserva a qualquer d'essas intelligencias um futuro de glorias, raro é que volvam um olhar agradecido para as humildes mãos, que as sustentaram, quando ainda não tinham azas para voar.

Quasi todos os grandes homens commettem esta ingratidão. Falam nos seus mestres de philosophia, de mathematica, de litteratura, e não salvam do esquecimento, pronunciando-o, o nome do primeiro mestre, do que os ensinou a ler.

Considerações da ordem das que acabamos de fazer, quero acreditar, não são as que mais preoccupam o pensamento da maioria d'esses pobres diabos, que, por noventa mil réis annuaes, se deixaram ligar á atafona do ensino primario da aldeia; porém devem ser, além das miserias de tão mesquinha sorte, causas de grandes torturas moraes para alguma alma de instinctos e aspirações mais elevadas, que o destino amarrasse, como por escarneo, a este poste de expiação. N'esse caso estava por certo a alma de Augusto. No vasto mundo, que os livros abrem ás imaginações, que na vida real não encontram deleite, refugiava-se elle nas horas em que as suas obrigações lhe permittiam respirar.

D'esta vez, porém, por pouco tempo lhe foi dado saborear esse prazer.

Soaram nos vidros da janella pancadas repetidas e chamou-o de fóra uma voz bem conhecida d'elle.

Era a do mestre de latim, o sr. Bento Pertunhas.

—Sr. Augusto, ó meu querido sr. Augusto. Amice! Pode falar a um amigo e colega?—dizia elle.

Augusto foi abrir-lhe a porta, não reprimindo um gesto de enfado.

O latinista entrou esfregando as mãos.

—A ler, hein! sempre a ler! sempre amarrado aos livros!—dizia elle, batendo no hombro a Augusto.—Invejo-lhe mais a pachorra do que o proveito. Olhe que não medra com isso; nem ninguem lhe agradece as canceiras que toma. Meu rico, por dois dias que um homem passa cá n'este mundo, tolo é o que se mata. E então n'este paiz!... Faça como eu.

E, imitando com a bôca os sons da trompa, seu instrumento predilecto, poz-se a examinar os livros que via sobre a mesa.

—Então que estava lendo? que estava lendo?... Poh! poh! poh!... Versos... Ora que nunca pude gostar de versos!... Poh! poh!... E não é agora porque se diga que não tinha quéda; não, senhores; em tempos fiz até algumas quadras... Poh! poh!... já se sabe, até certa idade, mas nunca fui muito para ahi... Poh!... A minha vocação é para a musica... Poh! poh!... Lá para a musica, sim... Poh! poh! poh!... Herman e Dorothéa—continuava elle, examinando os livros.—Novellas... Poh!... E isto que é? Confessions de Rousseau—n'este nome deixou aos diphtongos o valor portuguez—Poh! poh! As Metamorphoses... Latim! Oh que massada! Poh! poh! poh! poh!...—E o Ovidio, que lhe chegára ás mãos, foi arremessado como se estivesse em braza.

Augusto não pôde conservar-se sério, ante o instinctivo movimento de repulsão do mestre.

—Então que boa fortuna o traz por aqui, sr. Pertunhas?—perguntou elle.

—Ai, é verdade; eu lhe digo ao que venho. É para lhe pedir um favor, meu caro sr. Augusto. Eu bem sei que é abusar da sua bondade... Quousque tandem, Catilina... Mas, é por esta vez...

—Já sei; quer que lhe vá dar lição aos rapazes.

—Ah! grande maganão, que adivinhou—exclamou o mestre, abraçando Augusto com effusão.—É isso mesmo, se lhe não custasse...

—Irei.

—É que... eu lhe digo, eu tinha hoje de ir ao ensaio da philarmonica... Percebe o senhor? Os Reis estão ahi á porta e as outras festas do Natal, e não ha tempo a perder... Percebe? E eu tenho ainda umas peças do Trovador para ensinar á minha gente. São muito bonitas... Poh! poh! poh! E então este anno, que pelos modos temos cá o conselheiro e mais o pequeno... Não contando com esse sujeito que ahi chegou a Alvapenha. Chama-se Henrique de Souzellas, é sobrinho da velha, da D. Dorothéa, e julgo que ainda aparentado no Mosteiro. Lá chamam-lhe primo. Esteve lá esta manhã um par de horas, logo que saiu da minha repartição. Dizem-me que é filhote de Lisboa, solteiro, rico e sem modo de vida. Rico e sem modo de vida! Que lhe parece, hein? Olhe que sempre ha gente muito feliz! Aqui para nós, sabe ao que me cheira a visita d'este senhor? Aquillo é mosca que vem ao cheiro do mel. Que diz, hein? Ninguem me tira d'isto. Pois não lhe parece, hein?

—Não sei bem o que quer dizer com a imagem—respondeu Augusto, levemente enfadado.—Além de que não posso adivinhar as intenções de um homem que pela primeira vez encontrei esta manhã.

—Pois está claro que não; nem eu; mas emfim uma pessoa logo tira pelo que vê... Ora pois diga, um rapaz de Lisboa, afeito a divertimentos, a boa musica, et coetera, andar leguas e leguas para se metter n'este desterro... Porque isto é um desterro. Sim, deve concordar que não é natural. Mas se a gente se lembrar de que a morgadinha, et coetera... O senhor bem me percebe... Todos, hoje em dia, sabem o preço ao dinheiro, meu amigo.

A verbosidade do mestre Pertunhas estava evidentemente incommodando Augusto, que não redarguia.

—Nada, nada; alli anda plano, com certeza. Pelos modos, já depois de ámanhã vae o rapaz acompanhar as pequenas á ermida da Saude. Ah!... mas agora me lembro! o senhor é tambem da sucia.

—Eu?!

—Com certeza. Disse-m'o o Damião, que tem ordem das pequenas para o convidar. Se ainda não recebeu o recado, ha de recebel-o. Em todo o caso, observe-o e verá se eu tenho razão.

—Vou jantar, sr. Pertunhas, que já ha muito para isso me chamou a criada—disse Augusto, erguendo-se como para fugir áquella conversa.—Em seguida irei aos seus rapazes.

—Então vá, vá. Deus lhe pague o favor que me faz e permitta que eu lhe não peça muitos d'estes. E eu tenho esperanças... Sabe que ando com ideias de arranjar o lugar de recebedor, que está, como diz o outro, a encher dias? Já falei ao conselheiro; mas o conselheiro promette muito e falta melhor, sobretudo a um homem que não tenha influencia em eleições. O sr. Joãozinho das Perdizes interessa-se por mim, é verdade; mas, por outro lado, o Seabra brazileiro faz-me guerra. Eu ando a vêr se consigo pôr o Seabra a meu favor, porque emfim... Mas vá, vá jantar, que eu espero.

—Se quizer fazer-me companhia...

—Muito obrigado. Eu já jantei. O meio dia é a minha hora. Jante á sua vontade.

Augusto saiu da sala. Mestre Bento Pertunhas, ficando só, deu algumas voltas cantarolando, sentou-se depois, e pegando na pasta de Augusto, poz-se a examinar os papeis que ella continha.

Ao mesmo tempo simulava umas variações de trompa, á fôrça de contracções e esgares dos labios.

A pasta, victima da indiscreção do mestre, era a mesma que Augusto trazia, quando o vimos no Mosteiro.

Entre os documentos contidos n'ella algum achou o mestre Pertunhas mais curioso do que as escriptas e themas dos discipulos, pois, ao lêl-o, desenhou-se-lhe no semblante a mais intensa curiosidade e cessou de todo a exhibição acustica, que com tanto ardor encetára.

Leu-o até o fim com crescente avidez; e depois, olhando em volta de si, para verificar que não era observado, dobrou-o e sorrateiramente o escondeu no bolso. Fechou outra vez a pasta, pousou-a no sitio d'onde a tirára, continuou a ler ou a fingir que lia com toda a attenção um livro e encetou novas variações de trompa.

—Então já! Apre! Isso é jantar a vapor—disse o latinista, pondo-se a pé, logo que Augusto voltou.

E momentos depois sairam juntos.

Querendo poupar os leitores á semsaboria de assistir a uma lição de latim e a um ensaio da philarmonica, deixal-os-hemos ambos, para voltarmos ao Mosteiro.

Ao fim da tarde, depois do jantar, estavam as duas primas sentadas ao parapeito do muro da quinta, d'onde, por sobre almargens e pomares vizinhos, a vista se espraiava em amplissimo horizonte até umas nuvens, que pareciam limital-o.

D. Victoria saboreava, no seu quarto, as delicias da sesta habitual. As creanças brincavam a alguma distancia, e os risos e os clamores d'ellas vinham como um chilrear de passaros aos ouvidos das duas raparigas, que, a cada momento, se surprehendiam em meditativo silencio.

A natureza estava serenissima. No occidente desenhavam-se estreitos e longos traços nebulosos, a que o sol dava um colorido tão ardente, que se o pintor paizagista o produzisse na palheta, hesitaria, ao passal-o á tela, com receio de que o acoimassem de exaggerado. O verde dos campos apresentava a gradação vigorosa, que a luz de um formoso dia de inverno costuma dar-lhe.

Christina interrompeu o silencio por fim.

—O que eu não sei—principiou ella—é como o primo Henrique de Souzellas...

—Onze!—atalhou a morgadinha, sem desviar os olhos do ponto da perspectiva, que fitava.

—Onze quê?—perguntou Christina, erguendo os d'ella.

—Com esta são onze as vezes que, esta tarde, depois de um longo silencio, abres a bôca para me falares no primo Henrique de Souzellas, uma vez que está decidido que seja primo.

Christina fez um gesto de despeito e córou levemente.

—E então que queres dizer com isso?

—Eu? Nada. Digo só que são onze vezes com esta.

—Não sabia que era prohibido falar-te no primo Henrique. Bem, n'esse caso falaremos em outra coisa. Está um tempo muito bonito: nem parece dezembro.

—Não; vae magnifico para os nabaes—replicou Magdalena zombeteiramente.

—Se não mudar com a nova lua—continuou Christina, ainda formalisada.

—É excellente para seccar os milhos, que bem precisavam ainda d'isso, principalmente os das terras baixas.

E, acabando de dizer estas palavras, a morgadinha desatou a rir.

—Não sei de que te ris!—acudiu Christina, cada vez mais séria.—Pois não é esta a conversa de que tu gostas?

—Ai, muito. Eu sou doida por estas coisas de lavoura; bem sabes.—E, mudando repentinamente de tom, accrescentou:—Ora vamos, Christe; não te zangues commigo.

—Não, mas é que ás vezes não te entendo, a falar verdade. Vens com umas coisas que mettem raiva—respondeu-lhe Christina, sempre agastada.

—Já estou arrependida; peço perdão. Fala lá á tua vontade no primo Henrique, fala; que eu não contarei as vezes que o fizeres.

Christina reproduziu o gesto de impaciencia.

—Agradeço a tua generosidade, mas já não tenho mais que dizer d'elle agora; por isso...

—Pelo menos completa a duzia.

—Lena! Então! Olha que se continuas com isso, fazes-me sair d'aqui.

—Sempre queria que te vissem agora, Christe, esses que andam por ahi a gabar a docilidade do teu genio, as branduras da tua indole; queria que te vissem essa cara arrenegada, para saberem que tambem ha um acidozinho na tal doçura... Mas fazes-me a graça de só para mim teres d'essas franquezas.

Christina sorriu, ainda que não de todo aplacada, ao ouvir esta reflexão da prima.

—E não sabes a razão d'isso?—respondeu-lhe ella—a razão é o genio que tens, Lena. O teu gôsto é mortificares uma pessoa. Não ha santo que não perdesse a paciencia comtigo.

—Que injustiça! que ingratidão! Eu, que sou a victima das tempestades que o teu genio pouco expansivo te junta no coração a todo o instante! Se alguma coisa te faz chorar, guardas as lagrimas para o meu quarto; se te irritam, vens desafogar as tuas cólerazinhas sobre a minha cabeça. E pagas-me assim!

—És muito infeliz commigo. Pobre Lena!

—Vamos, vamos, Christe! esquece o que eu disse ha pouco. Não te posso vêr assim.—E tomando um tom natural, mas sob o qual transparecia ainda certa malicia, Magdalena continuou:—Pois é verdade, dizias tu que não sabias por que o primo Henrique de Souzellas...

Christina fez um movimento impaciente, como para levantar-se.

—Então que é isso? Não me acceitas a expiação?—perguntou Magdalena, sorrindo.

—Não; não quero que se fale mais no sr. Henrique de Souzellas. Vejo que te não é agradavel que as outras se occupem d'elle. Sejam quaes forem as razões que tens para isso...

—Bravo! Foi admiravel de maldade o entono com que disseste esse: «Sejam quaes forem as razões.» E venham-me falar na candura d'esta creança!

—Eu não quero dizer...

—O que queres dizer, não sei; mas vejo que não és senhora tua quando se fala n'este assumpto.

—Que lembrança!—tornou Christina, cada vez mais embaraçada—pois imaginas devéras que eu?...

—E por que não?

—Lena!

—Não ha nada mais natural.

—Se queres, juro-te...

—Ah! atalhou a morgadinha, pondo-lhe a mão nos labios.—Isso não, que é mais sério. Jurar não te deixo eu. Conheço os escrupulos da tua consciencia, e não quero obrigar-te a remorsos. «Juro!» E com que ousadia ias pronunciar um juramento falso!

—Falso!

—Falso, sim; falso como os que o são. Olha, minha pobre Christe, queres então que te fale com toda a franqueza? Esta conversa trouxe-a eu de proposito para confirmar umas suspeitas, que se me formaram e que vejo agora que eram fundadas.

—Suspeitas! que suspeitas?...

—O primo Henrique de Souzellas deixou em ti uma tal ou qual impressão.

—Lena!

—Conheci isso ainda quando elle cá estava; verifiquei-o depois e agora. Então! tem juizo. Commigo sê sempre o que tens sido. Eu góso ha muito do privilegio de conversar á vontade comtigo e de te vêr sem aquella timidez que tens deante dos outros. Com o teu genio, precisas de uma pessoa, como eu, com quem não tenhas acanhamento e em quem possas até descarregar algumas maldadezitas; e acredita que me lisonjeio com me dares a preferencia.

—Mas como imaginaste?...

—Continuas? Não tens de que te envergonhar pelo interesse que por ventura te inspirou esse rapaz. Henrique de Souzellas é elegante, é espirituoso, affavel, possue uma intelligencia cultivada e muito trato do mundo...

—Mas...

—Faça favor de me ouvir—atalhou Magdalena, pondo um dedo nos labios. Reconhecendo todas essas qualidades n'aquelle nosso primo, não quero por isso concluir que seja natural e prudente denunciares-te já. E nem receio que isso aconteça, para te falar sinceramente, porque te conheço o genio timido e porque... porque te conheço o genio timido e mais nada.

Havia mais alguma coisa, havia, mas não era coisa que se dissesse. Magdalena sabia demais que Henrique não saíra d'aquella primeira visita demasiado impressionado por a imagem de Christina; sabia talvez, suspeitava de certo, não me atrevo a dizer que lisonjeada algum tanto, que no coração do hospede de Alvapenha reinava outra imagem mais persistente. Mas vejam as leitoras se, sendo este o seu pensamento, ella o poderia formular? O remedio pois era completar a phrase como a completou.

Christina já não tinha ousadia para negar, nem ainda coragem para confessar. Encostando a face á mão, calou-se e deixou falar Magdalena.

A morgadinha proseguiu:

—É preciso que saibas, Christe, que é mais facil conhecer os defeitos de uma pessoa, do que as suas boas qualidades. Os defeitos são imprudentes e linguareiros, denunciam-se, dão signal de si, basta meia hora para se descobrirem em qualquer logar que habitem. As boas qualidades, não; essas são modestas, humildes, discretas; sabem esconder-se. São precisos annos para as descobrir todas. Mas com que olhos de espanto me estás fitando! Parece que te causa estranheza o meu sermão? Eu te digo a que elle vem. Logo que falei com este nosso primo... e quem sabe se o futuro virá confirmar, em relação a mim, esse titulo, que por phantasia lhe dou? escusas de corar por eu dizer isto, Christe...; mas, dizia eu, logo que falei com elle, saltaram-me aos olhos muitos dos seus defeitos.

—Quaes são?—perguntou Christina com viveza.

—Socega; são ligeiros felizmente, e parece-me que os poderá ainda perder; sobretudo se continuar a viver aqui. Quiz-me tambem logo parecer que no fundo havia uma mina de bons sentimentos por explorar. Nasceu logo em mim a vontade de o sondar, a vêr se conseguia purifical-o do que n'elle houvesse de menos heroico. Então que queres? para a aldeia era um passatempo como outro qualquer. Mas redobrou-se em mim este desejo e revestiu em mim mais sério caracter, desde que vi a impressão que este sobrinho da tia Dorothéa te causára.

—Lena! Como te deu para suppôr que eu me apaixonei assim em poucas horas? Julgo que me imaginas apaixonada?

—Não, ainda não; inclinada, agradada, attrahida... ou outro qualquer termo d'esta fôrça, que deixarei á tua escolha, isso sim. Para isso não é preciso muito tempo. As razões, pelas quaes julguei isto, dispensa-me de t'as dizer, que pouco valem. Suppõe que foi por um tacto especial, por uma qualidade occulta, como a do tino que dizem que teem certos medicos para reconhecerem o mal sem estudarem muito o doente.

—Pois o tino enganou-te.

—Enganaria; mas deixa-me continuar. Se este senhor primo intruso fôr realmente o que eu imagino que é, resta-me preparal-o para o tornar mais digno do amor d'esta boa Christe, que em tal caso favorecerei; se não fôr, declaro-lhe já guerra e guerra de morte. A ti competia fazer isso tudo, como a mais interessada, mas desconfiei da tua credulidade e boa fé e da tua experiencia. Olha, estou certa que o que mais te attrahiu em Henrique foi exactamente o que n'elle ha de peor. Certo verniz mentiroso, certo colorido, que é preciso ter visto muita vez, e em muitos individuos differentes, para se ter na conta devida. Illude, agrada a quem não está costumado, e pode causar graves enganos e desenganos mais graves ainda. Por emquanto o que elle nos mostra é mais da sociedade em que vive, do que d'elle proprio. É necessario deixar cair a primeira capa, para que o natural appareça.

—Não sabia que era assim facil enganar-se uma pessoa a respeito de outra—notou Christina, sorrindo.

—Se é! Lembras-te do que tantas vezes conta tua mãe? Que, quando ha annos foi a Lisboa, comprou lá por bom preço um cofrezinho que ella suppunha preciosissimo, e que chora hoje a sua tentação, desde que o verniz brilhante, que elle tinha, caiu e ficou á vista a realidade? pois o mesmo acontece muitas vezes em contractos de outra ordem e bem mais sérios do que este. Ha vernizes maravilhosos, que illudem os inexperientes.

Houve um instante de silencio, no fim do qual Christina perguntou, olhando pela primeira vez fita para Magdalena:

—Ora dize-me, Lena, qual será a razão pela qual eu não devo acreditar que esses pensamentos te occorreram, porque era o teu destino, e não o meu, que vias dependente do estudo que fazias?

A morgadinha fixou na prima um olhar triste e cheio de amargas recriminações.

—Por uma razão muito poderosa, Christe, porque ias abrir o coração a um sentimento mau, que macularia o teu caracter generoso e candido—a desconfiança. Porque me offenderias, duvidando da lealdade, com que te falo, quando te falo séria; e porque me farias mal sem necessidade e immerecidamente, pois que a consciencia me diz que t'o não merecia. Satisfaz-te esta razão?

A voz de Magdalena perdera o tom de ironia, que ás vezes tinha, e tomára quasi o da commoção.

Christina arrependeu-se logo do que dissera, e, tambem commovida, apertou as mãos da amiga.

—Não faças caso do que eu disse, Lena; perdôa-me. Quando eu duvidar de ti, pedirei a Deus que me tire a vida, porque terei já, para tudo e para sempre, envenenado o coração.

A morgadinha readquiriu outra vez o seu bom humor.

—Estamos quasi a cair no sentimentalismo. Cautela! Saldemos antes as nossas contas, como mulheres de juizo. Em compensação da pequena offensa que me fizeste, vaes-me fazer uma confissão formal, a qual até agora tens evitado. Ora confessa, adivinhei o estado do teu coração? Dize.

Christina hesitou.

—Vamos,—insistiu a morgadinha—acredita que preciso de uma declaração para me guiar... E crê que é para bem teu.

—Que queres que te diga? Eu não me sinto apaixonada.

—Mas já te disse que me bastava um termo menos violento... um «agradada», por exemplo.

—Confesso que...

—Olha, se queres, podes até parar ahi. Esse «confesso que...» já diz muito. Agora deixa-te guiar por mim. Eu vigiarei. Afianço-te que não corro o perigo de me apaixonar por elle; creio que ha alli um excellente coração, mas que queres? Não é o typo que me agrada... o meu ideal como se costuma dizer.

—E então qual é o teu ideal?

—Ai, eu sou muito exigente. Desespero de o encontrar. Quero-o assim uma especie de archanjo S. Miguel, animo de guerreiro em figura de cherubim; e não sei onde o procure.

N'este sentido se prolongou o dialogo entre as duas primas, até que D. Victoria, findando a sua sesta, veio ter com ellas á quinta. Segundo o costume, ralhava contra os criados, a quem, não sei por que processo, attribuia umas dôres de cabeça com que acordára.

No dia seguinte, Henrique voltou de manhã ao Mosteiro; redobrou de galanteio com Magdalena, a qual redobrou de ironia. Christina já mal podia disfarçar a pena que lhe causava o pouco que era attendida, mas a sua timidez não a deixava luctar.

De tarde, Henrique teve de condescender com o padre, procurador de Alvapenha, que se promptificou a mostrar-lhe as raridades e monumentos da terra. Assim, com grande pesar seu, foi obrigado a renunciar á nova visita ás senhoras do Mosteiro, para gastar as expressões da sua admiração deante das alfaias da sacristia parochial; da tosca esculptura de não sei que imagem de santo, a qual passava por um primor; de uma sala nua, com uma mesa ao centro, forrada de baeta verde e cadeiras á volta, que era a sala das sessões do corpo municipal; e de umas pyramides de ripa, que tinham servido, havia oito annos, em festejos officiaes.

Como é de suppôr, Henrique passou uma tarde deliciosa.



IX


Dois dias depois da chegada de Henrique, e n'aquelle que se destinára para o passeio á ermida, Christina foi mais madrugadora do que as aves. Á hora, a que estas ainda se não ouvem chilrear, já a prima de Magdalena abandonava o leito, receiosa de se fazer esperar pelos companheiros da projectada excursão matinal. Quasi não dormira toda a noite aquella rapariga, com tal preoccupação.

As estrellas viram-a erguer, e tiveram muito tempo de se despedirem d'ella, antes de se esconderem discretas ante o apparecimento do dia.

Christina vestiu-se á pressa e dirigiu-se ao quarto de Magdalena. Esta dormia ainda. O projecto de passeio á ermida não a alvoroçára tanto. Christina foi acordal-a ao leito.

A morgadinha abriu os olhos e fitou-os admirada na prima.

—Que queres tu, Christina? Que lembrança foi essa hoje de andares estremunhando a casa esta noite?

—Levanta-te, preguiçosa, levanta-te. Não o dizia eu hontem? Então são estas as madrugadas em que falavas?

—De certo que não são madrugadas; isto é noite é o que é.

—Dentro em pouco é dia. Queres vêr?

E, dizendo isto, Christina abriu para traz as portas das janellas e correu as cortinas.

A estrella da manhã, Venus, aquella brilhante e ao mesmo tempo suave estrella, que umas vezes assiste no crepusculo ás melancolias da natureza, outras vezes na aurora ao renascimento dos seus jubilos, scintillava mesmo defronte do leito de Magdalena.

—Vês?—disse Christina.

—Muito pouco. É esse o teu sol? Como vae alto! É pena que não alumie melhor do que esta lamparina.

Christina sentia redobrar com estas delongas a sua impaciencia, quasi de creança.

—Anda, Lena, anda. Assim não chegamos a vêr do alto da ermida o romper do sol.

—Pois queres vêr isso de lá?! Que crueldade! Em uma manhã de dezembro!

—Está tão bonita, que parece de primavera.

—Triste lembrança a nossa hontem de combinarmos este passeio. Isto é lá coisa que se faça? Vale por uma viagem aos pólos.

Christina não fazia senão ir do leito de Magdalena para a janella e voltar da janella para o leito, em virtude d'aquella irresistivel necessidade de movimento, embora sem ordem nem fim, que experimentamos quando nos deixamos apossar da impaciencia.

—Não fazes ideia como está bonito cá fóra; n'alguns pontos ainda se vê neve.

—Oh, que agradavel e tentadora belleza! Ainda se vê neve!... Parece-me que já estou gelada... Com essa palavra tiraste-me o alento que ia ganhando. Vês?

—Mas não está frio; até parece que aqueceu o tempo. Então, Lena!... Elles... não tardam por ahi. Cuidas que te vae custar muito, e é um engano; aqui estou eu, que não sinto frio nenhum.

—Ora, mas tu estás em condições muito particulares. Quem tem uma fogueira no coração, não precisa...

—Ahi principias com as tuas coisas!

—Eu não sei; o que é certo é que esse teu enthusiasmo pelos passeios matutinos não é natural. Quantas vezes recusaste acompanhar-me quando eu t'os propunha? Ora, se me dás licença, eu explico isso.

—Não quero saber de explicações; veste-te, anda.

—Seja! Infeliz lembrança a d'este passeio. E foi d'aquella tia Victoria, que nem por isso nos quiz acompanhar. Não, que já tem juizo; dorme a estas horas o somno da madrugada, que é uma consolação. Que sorte de invejar!

E a morgadinha, continuando assim a exaggerar o sacrificio d'aquella madrugada e a alludir aos motivos secretos a que attribuia o ardor e heroicidade da prima ante os rigores de dezembro, tudo isto de proposito para a vêr impaciente, principiou a vestir-se.

Christina ficára á janella, espiando os progressos do amanhecer e transmittindo á prima as observações que fazia.

—Olha, eu que digo?... já o Manoel vae abrir o portão... Não ouves os pardaes?... É dia claro já... Havemos de chegar com sol á ermida, o que não tem graça nenhuma... Avia-te, Lena... Has de ser a ultima a estar prompta... Ahi vae já o Luiz com o almoço. É que não chegamos lá senão ao meio dia. Elle ahi vem! Eu bem digo.

—Elle! Quem é esse elle que vem ahi?

—Pois quem ha de ser? Então não é o primo Henrique que nos acompanha?

—É o primo Henrique, é o sr. Augusto e é o Luiz, que tua mãe teimou em mandar com o almoço. Não sabia qual dos tres te merecia as honras de um «elle».

—Eu dizia o primo Henrique, que já ahi está no pateo—disse Christina, que n'esta occasião correspondia ao cumprimento, que o recem-chegado lhe fazia de baixo.

—Então, com effeito já chegou?—perguntou a morgadinha, admirada.—Bravo! Nunca o esperei. Ai, Christe, que me parece que elle tambem tem alguma coisa no coração!

—Tambem o julgo—respondeu Christina, despeitada;—é vêr como hontem te falou.

—Socega. Quando o coração tem alguma coisa, não se fala assim com a pessoa que causou esse mal.

—Não sei o que elle me está a dizer—disse Christina, olhando para o pateo.—Posso abrir a janella, Lena?

—Eu já estou preparada para soffrer todas as crueldades esta manhã. Abre lá a janella, abre. Fala-lhe.

Christina correu a vidraça.

A voz de Henrique chegou distinctamente aos ouvidos de Magdalena.

—Então aquella grande madrugadora da nossa prima, onde está?—perguntou elle a Christina.

Christina respondeu, sorrindo:

—Está a fazer a diligencia que pode para ficar prompta antes do meio dia.

—Oh, que vingança a minha! Ella que tanto falou da minha indolencia!—disse Henrique jovialmente, e continuou falando sempre de Magdalena, e elevando a voz ás vezes para se dirigir directamente a ella, mas sempre sem receber resposta.

Esta insistencia impacientou Christina, para quem elle nem um galanteio tivera ainda.

—De maneira que nós, priminha—continuou Henrique—damos uma lição de mestre áquella arrogante de hontem. Estou ancioso por que ella nos appareça; quero vêr a coragem, com que ousa apresentar-se.

—Eu vou chamal-a—disse sêccamente Christina, e veio dizer a Magdalena, com certo modo, que não podia escapar a esta:—Olha se appareces alli ao sr. Henrique de Souzellas, que não descança emquanto te não vê.

A morgadinha, que acabava de ajustar ao espelho as tranças, dando ao penteado a mais singela e graciosa disposição, voltou-se para a priminha e disse-lhe sorrindo:

—Isso são já ciumes? Mal sabes quanto gósto de te vêr assim! Ao menos ha já vida n'esse teu coração, minha pobre pequena. O que te peço é que não me odeies, só porque esse rapaz se lembrou de perguntar por quem não via.

—Estás a imaginar ciumes, como hontem imanavas...

—Amores? justo; e com a mesma felicidade em acertar; podes ir accrescentando. Mas, parece-me que ahi está mais alguem no pateo. Ouço falar. Vae vêr. Será Augusto? N'esse caso, espera-se só por mim para completar a caravana. E eu estou prompta. Marchemos.

Augusto havia effectivamente chegado ao pateo.

Henrique trocára com elle alguns cumprimentos, e principiaram depois ambos a passeiar, um ao lado do outro, á espera das que deviam ser-lhes companheiras na romagem.

A conversa manteve-se pouco animada. Augusto não era expansivo com as pessoas, a quem o não prendiam habitos de longa intimidade; Henrique, talvez por não conhecer a extensão e natureza dos conhecimentos de Augusto, abstinha-se de falar dos assumptos, em que entraria de mais vontade. Falaram pois de coisas indifferentes a ambos, e quasi frivolas; no frio, na chuva, no inverno e no verão, nos prós e contras da vida do campo e de varios outros assumptos sêccos de si e já além d'isso muito esgotados, e tudo cortado por aquellas pausas e silencios constrangidos e insupportaveis, que o leitor ha de conhecer por experiencia.

Digamos nós a verdade; estes dois homens não sentiam um pelo outro aquella subita e inexplicavel sympathia, que abre os corações e dá margens a confidencias.

Nos dois curtos encontros que tinham tido, manifestára-se entre elles certa frieza mais que ceremoniatica, uma quasi desconfiança instinctiva.

Chegaram as senhoras. Foram acolhidas com prazer por ambos. Ainda quando não fôssem senhoras o seriam; a chegada de um terceiro, quando dois indifferentes estão na presença um do outro, em entrevista forçada e fatigadora, é sempre saudada interiormente como uma redempção.

Magdalena e Christina vinham ambas formosas, com a especie de mantilhas ou capuzes de que usavam, adequados aos rigores de uma manhã de dezembro.

Appareceram ambas a rir. Foi o caso que, passando proximo do quarto de D. Victoria, pé ante pé, para não a acordarem, esta presentiu-as, e mesmo do leito perguntou-lhes:

—Então já vão, meninas?

—Vamos, tia; vamos, mamã—responderam as duas a um tempo.

—O Luiz já partiu com o almoço?

—Já partiu, já, minha senhora.

—E ides agasalhadas?

—Como se fôssemos para a Siberia—respondeu Magdalena.

—Olhae, sempre levem os guarda-chuvas por cautela. E ide com Nossa Senhora.

—Cá os levamos. Adeus, tia; adeus, mamã.

—Adeus, filhas; até logo, se Deus quizer. Olhae lá, não vos estafeis.

Ora os taes guarda-chuvas é que não iam. Para quê? Com uma manhã d'aquellas, que nem de inverno parecia, pois que até o frio abrandára com o vento! Por isso é que vinham ainda a rir.

Chegando ao pateo, cumprimentaram os seus dois companheiros. Henrique, depois de formular um galanteio a Magdalena, offereceu-lhe attenciosamente o braço, que Magdalena recusou com alguma impaciencia, porque se lembrou de Christina.

—Muito obrigada, primo,—disse ella com vivacidade.—Mas é preciso que o advirta de que não vamos passeiar pelas avenidas de um parque. Vamos trepar montes, atravessar ribeiras, costear precipicios, e para tudo isso é necessaria a completa liberdade de movimentos. Ha occasiões, em que melhor nos servem os nossos dois braços, do que o braço de outro, embora seja o de um heroe.

—Mas de certo que não é á borda dos precipicios que esse auxilio se escusa—replicou Henrique.

—É, muitas vezes é. Ha bordas tão estreitas, que mal cabe n'ellas uma pessoa só; felizmente que a natureza nos dá um braço então... um braço de giestas, por exemplo.

—Vê lá, Lena,—disse Christina ao ouvido da prima.—Talvez seja melhor que acceites. Resta-me, a mim, o braço de Augusto.

—Se continuas com essas loucuras, Christina, obrigas-me a odiar-te. Sr. Augusto—continuou voltando-se para este—espero que tome a direcção do nosso passeio; ninguem melhor conhece os mais bellos pontos de vista; leve-nos por lá, embora tenhamos de comprar as bellezas á custa de perigos e de fadigas. Partamos!

O monte onde se erigira a capella da Senhora da Saude, afamada por seus milagres e pela sua romaria n'um circulo de muitas leguas de raio, era uma elevada rocha vulcanica, que dominava as freguezias ruraes de mais de dois concelhos. Estendiam-se-lhe aos pés as alcatifas da mais rica vegetação; banhava-lh'os a agua dos ribeiros, das levadas e torrentes, arterias fertilisadoras de extensas veigas e pomares; mas elle, o gigante orgulhoso e selvagem, recebia aquelles preitos, olhava sobranceiro aquella opulencia, e, como se fizesse gala da sua rudeza, em vez de cobrir os hombros com o manto real, que lhe estendiam aos pés, permanecia aspero, severo e nú, como nas épocas primitivas, em que uma convulsão tremenda o evocára do seio da terra, para o consolidar em colosso.

Apenas, como symbolo de realeza, coroava-lhe a fronte alta a alameda, que, havia perto de um seculo, a piedade christã plantára em volta da ermida, para refrigerio e conforto dos devotos christãos que alli iam. Era custosa a ascenção por o lado, por onde os nossos romeiros, contra os conselhos de D. Victoria, a emprehendiam. Quando, ao sair de uma longa rua, apertada entre muros de quintas, Henrique achou de subito deante de si a mole immensa e talhada quasi a pique, que lhe disseram tinha de subir; elle, que raro em Lisboa estendia além do Rocio os seus passeios, com medo das ingremes calçadas da cidade alta, julgou ouvir um absurdo.

Parou a contemplar o monte, como hesitando em atravessar o riacho, que d'elle o separava.

O riacho, engrossado pelas aguas da chuva dos dias anteriores, levantava um bramido atordoador ao cair em toalha dos açudes e ao escoar rapido pela cal da azenha, que lhe obstruia o leito e cuja enorme roda movia.

Áquella hora, ainda pouco clara da madrugada, este sitio da raiz do monte tinha não sei que aspecto selvagem e melancolico, que quasi infundia pavor. Os altos choupos, em que se enroscavam, como serpentes negras, os troncos flexuosos e despidos das vides; mais longe, o cannavial, ondulando ligeiramente ao perpassar através d'elle a briza da madrugada, e, aqui e além, um d'esses degenerados aloes dos nossos climas, debeis e enfezados, como se os devorasse a nostalgia da sua verdadeira patria, eram accessorios que concorriam para o effeito geral do quadro.

A morgadinha, percebendo a hesitação de Henrique, deu-lhe alento com lançar-lhe em rosto a sua pusillanimidade. Henrique encheu-se de brios e atravessou, com não menor denodo do que os outros, o riacho, por o passadiço de altas pedras, collocadas a pequena distancia umas das outras, e que as aguas a cada momento ameaçavam cobrir.

Atravessada a corrente, seguia-se escalar o monte; para isso tornava-se indispensavel caminhar em continuados zigue-zagues, aproveitando os córtes que a fouce do tempo conseguira abrir n'aquella massa granitica e os toscos degraus, com que uma arte rudimentar procurára facilitar, por aquelle lado, o accesso da ermida á piedade dos devotos.

As difficuldades para Henrique eram continuas.

A cada momento os embaraços d'este forneciam motivo para risos da parte de Magdalena. Christina não lhe podia levar a bem que se risse d'aquillo.

Para compensar as fadigas de tão trabalhosa ascensão, havia porém, a paizagem, que, a cada passo andado, a cada angulo que se dobrava, apparecia mais surprehendente e maravilhosa.

Poucos peitos teriam fôrça para reprimir um brado de admiração.

As nevoas d'aquella manhã de dezembro não eram bastantes para velarem a belleza do quadro.

Á medida que os nossos quatro peregrinos iam subindo, ampliava-se-lhes mais e mais o horizonte; avelludava-se a relva da planicie, parecia aplanarem-se os outeiros vizinhos, e os campos tomavam a apparencia dos canteiros de um jardim.

Henrique não retinha o enthusiasmo, que aquelle espectaculo lhe causava.

—É magnifico! é admiravel! é soberbo!—dizia elle, a cada momento e quando não era inquietadoramente preoccupado com os perigos do caminho.

O enthusiasmo de Augusto não era menos vivo! Dir-se-ia que eram os montes a sua patria, e que a melancolia nostalgica, que o opprimia na planicie, se ia dissipando á medida que subia a encosta.

Magdalena e Christina tambem não estavam menos impressionadas por o que viam. Esta, porém, tinha uma causa secreta a aguarentar-lhe o prazer, que as bellezas naturaes lhe pudessem occasionar.

Era esta causa a mesma dos seus leves despeitos de pela manhã.

Henrique continuava a ser todo attenções e galanteios com Magdalena; parava a cada momento n'aquelles pontos do caminho, que lhe pareciam mais difficeis de vencer, para lhe offerecer a mão a ella, sempre a ella, a quem dirigia tambem todas as reflexões que o aspecto da paizagem lhe suscitava e nunca á esquecida Christina que, n'esses momentos, quasi achava a manhã desagradavel e o sitio feio e sombrio.

A morgadinha respondia sempre em curtas phrases a Henrique e recusava insistentemente o auxilio, que elle lhe offerecia.

—Estou a suspeitar que esses offerecimentos do primo são mais devidos á necessidade, que sente, de quem o auxilie, do que ao empenho de nos auxiliar—disse ella sorrindo.—A falar verdade, para quem tem passado a vida a trilhar os passeios do Chiado, que admira? Eu fui creada n'isto. Tenho um pouco de alpestre. Adeante.

E de uma occasião, em que estava perto d'elle, disse-lhe a meia voz:

—Pode ser que Christina careça mais do seu braço, primo. Ainda não teve a lembrança de lh'o offerecer.

Henrique só então deu por esse esquecimento; apressou-se a remedial-o, offerecendo a Christina tambem o braço, que esta recusou, córando.

—Então por que recusas?—perguntou-lhe a morgadinha, em voz baixa.

—Porque não quero abusar da delicadeza d'elle, nem da tua.

A morgadinha abanou a cabeça em ar de reprehensão, fitando-a, mas não lhe disse nada.

Pouco a pouco ia sendo mais completo o silencio em torno d'elles. Já tinham passado acima dos rumores do valle, que não subiam a mais de meia encosta. Chegaram emfim ao cimo do monte; tudo annunciava o proximo apparecimento do sol.

—Chegamos a tempo!—exclamou Magdalena que, deitando a correr, fôra a primeira que attingira a planura. Sua Magestade ainda se não levantou.

Os outros estavam, dentro em pouco tempo, ao pé d'ella.

Houve um longo espaço de silencio, concedido espontaneamente á contemplação d'aquella perspectiva solemne.

As primeiras palavras, que se disseram, foram ditas em voz baixa, n'aquelle tom, que insensivelmente lhes damos, quando na presença de um espectaculo grandioso e bello. Fala-se baixo e pouco: não se formulam longos periodos de aprimorado estylo, nivela-se a eloquencia de todos em simples phrases, como estas:

—É bello!

—É magnifico!

—É sublime!

E nada mais. Pouco mais disseram os quatro na occasião de que falamos. E eu, por analogas razões, os imitarei, desistindo de descrever o que só bem se aprecia, quando pela vista se abrange o conjuncto de todo o panorama. O leitor, que nunca visse alguma scena similhante, não a imaginaria pela descripção, forçosamente pallida, que ahi lhe deixasse d'ella; e para o que a viu, a memoria lhe preencherá bem a lacuna.

Desvanecida a primeira impressão, que não deixa ao espirito a serenidade precisa para os processos da analyse, principiaram, como é costume, a fazerem notar uns aos outros os sitios mais conhecidos.

Isto manteve por momentos uma perfeita e desenleada familiaridade entre os quatro.

Christina descuidou-se da sua timidez e despeitos; Magdalena dos seus projectos e desconfianças; Henrique e Augusto deixaram tambem a sua mutua frieza.

—Lá está o Mosteiro—disse Magdalena, apontando para o logar indicado.—Como parece pequeno, visto d'aqui!

—É verdade—respondia Christina—e olha, Lena, como se vêem bem as janellas do teu quarto.

—Lá está aquella que tu abriste esta manhã para cumprimentares...

Sentindo a mão de Christina comprimir-lhe o braço, concluiu:

—Para cumprimentares a estrella d'alva.

—As janellas do quarto da mamã julgo que ainda estão fechadas.

—Tanto não posso eu distinguir; comtudo afianço-te que sim. A tia Victoria não é muito matinal.

—Aquella casa acolá não é a de Alvapenha?—perguntou Henrique, apontando n'outra direcção.

—É—respondeu Augusto—e, mais adeante, alli tem a deveza, em que passou ante-hontem. Não é verdade?

—É justamente. Com effeito! Foi um soberbo passeio, o que eu dei! D'aqui é que se vê. Lá vejo umas prêsas, por onde me lembro de ter passado tambem.

—Vê, acolá, aquella casa que tem uma capella ao lado?—perguntou Magdalena, apontando para um ponto distante.

—Perfeitamente.

—É a minha quinta dos Cannaviaes.

—Ah! É verdade, lá estão uns cannaviaes, se me não engana a vista.

—Justamente. Não sei se sabe que ha n'aquella capella uma imagem de Nossa Senhora, muito milagrosa.

—Sim? hei de visital-a.

—Coisa que se lhe peça, fazendo-se o voto da meia noite, é concedido—disse Christina, fitando d'esta vez Henrique, com a expressão da mais insinuante sinceridade.

—Que quer dizer o voto da meia noite?

—Tem uma pessoa de rezar á meia noite, e sósinha, sete estações no altar da Senhora—continuou Christina.

—Só isso? Boa é de cumprir a promessa. Já vejo que não ha aqui na terra desejo que se não satisfaça.

—Mais devagar,—acudiu Magdalena, sorrindo—pouca gente se atreve até a ir lá á meia noite, porque a alma de minha madrinha passeia a horas mortas por a sua antiga casa, dizem.

—Cada vez sinto mais desejos de lá ir—accrescentou Henrique, depois de ouvil-a.

—Além, entre aquellas arvores, sr.a D. Magdalena, vive um philosopho—disse Augusto, indicando outro ponto de perspectiva.

—É verdade; o bom do tio Vicente.

—Tio Vicente? Quem é o tio Vicente? Temos mais algum tio, com que eu possa augmentar o meu parentesco na aldeia?

—O tio Vicente é um santo velho, que se occupa a colher hervas pelos montes e valles para fazer remedios, que dizem milagrosos. Ainda é nosso parente, mas em grau muito arredado; comtudo chamamos-lhe tio, assim como quasi toda a gente por aqui.

—Que sombras negras são aquellas que se vêem no adro da igreja?—perguntou Christina.

—Na igreja? Ah! acolá? É verdade, parece um cordão de formigas—disse Henrique de Souzellas.

—São as mulheres que vão ouvir o missionario—respondeu a morgadinha.—Escutem, lá está a tocar o sino.

Effectivamente chegavam ao alto do monte as debeis mas sonoras badaladas do campanario da aldeia.

—A estas horas principiam as lamentações d'aquelle pobre Zé P'reira, que tão mal olhado anda por a mulher, desde que ella deu n'essas devoções—notou Augusto, sorrindo, ao lembrar-se da scena domestica a que na vespera assistira.

—Degenerou aquella mulher!—disse Magdalena—e, se quer que lhe fale a verdade, sr. Augusto, custa-me vêr o Cancella deixar a Lindita entregue assim a essa gente quando sáe da terra. A pequena é tão apprehensiva!

—Visto isso, já chegou aqui á aldeia a influencia dos missionarios?—perguntou Henrique.

—E não tem lavrado pouco!—tornou Magdalena.

Christina, que era um poucochinho devota, censurou timidamente as palavras da morgadinha.

—Primo Henrique—disse ella—julgo que ainda será preciso o seu auxilio para livrar do contagio esta innocente Christina.

—Prompto, prima Magdalena; para as boas causas tenho sempre armada a minha vontade.

—Olha, Lena, não vês?—exclamou Christina—são os pequenos que nos estão a dizer adeus das janellas do mirante.

De facto nas mais altas janellas do Mosteiro agitavam-se uns lenços brancos.

Marianna e Eduardo haviam-se erguido para saudarem, de longe, a irmã e a prima. Estas tiraram tambem os lenços e corresponderam-lhes aos signaes.

Interrompeu-as a voz de Henrique, dizendo:

—Annuncio a v. ex.as, que chega o rei da creação.