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A Morgadinha dos Cannaviaes / (Chronica da aldeia)

Chapter 15: X
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About This Book

A rural chronicle portraying life in a northern province through close scenes of landscape, local customs, and social relations. It follows an urban visitor adjusting to provincial conditions and presents domestic rituals, farm routines, festivals, and everyday talk; episodes combine gentle humor, moral reflection, and sentimental incidents such as courtship and family obligations. The narrative alternates descriptive passages of nature and village topography with anecdotes and conversations that reveal class contrasts and traditional values, producing a textured account of countryside rhythms, communal ties, and the tensions between city habits and provincial ways.


Effectivamente o cume do telhado da ermida e as franças despidas da alameda já se tingiam de luz.

Todas as vistas se voltavam para o oriente. Assignalava-o uma esplendida faixa de purpura, que, em insensivel graduação, desmaiava para as extremidades até se perder de todo no azul-celeste.

Rompia já, do meio d'ella, um pequeno segmento do sol, depois, o astro inteiro apparecia afogueado e vermelho, como um escudo de metal candente, e logo se desprendeu da terra, d'onde parecia surgir, e subiu nos ares, como um brilhante aerostato, ao qual se rompessem as prisões que o retinham.

O monte inundou-se de luz. O valle, em baixo, estava ainda envolto nas meias sombras da madrugada.

Nisto appareceu do outro lado da capella um dos criados de Alvapenha, que veio annunciar que o almoço estava prompto.

—Pois devéras temos um almoço?—exclamou Henrique, sinceramente surprehendido.

—Graças á previdencia de minha tia, previdencia de que eu zombava em casa, mas que sou obrigada a admirar agora. De facto, parece-me que estes ares do monte e frescuras da madrugada lhe devem ter aberto o appetite—respondeu Magdalena. E logo após continuou para Henrique:—Agora é occasião mais accommodada de pôr em prática os recursos do seu galanteio, primo. Quer dar o braço a Christina?

Henrique, em quem a morgadinha suspeitára a intenção de lhe render a ella a fineza, que assim declinou na prima, teve de condescender, limitando-se a exprimir n'um olhar as suas queixas, olhar que Magdalena fingiu não perceber.

E conversando e rindo, dirigiram-se para o logar onde, sobre uma mesa de pedra e lousa e ao ar livre, estava disposto o almoço.

D. Victoria não era senhora, que se saisse mal de emprezas d'estas. A alvura da toalha, a excellencia da louça e o bem disposto e apurado das iguarias convidavam.

Não se concebe appetite refractario a um tal conjuncto de circumstancias. O fastio, n'este caso, seria um fastio mórbido, correspondente a lesão organica e como tal sem poesia.

Henrique e Augusto principalmente fizeram, como era natural, justiça á cozinha do Mosteiro.

Henrique, que parecia haver esquecido as suas mil e uma doenças, conversou animada e espirituosamente.

Contaram-se anecdotas; Augusto applaudiu as de Henrique; este riu com vontade das que ouviu a Augusto.

A morgadinha, por sua propria mão, preparou o chá.

N'estas alturas do almoço encetou novamente Henrique o tiroteio de amabilidades, de que por muito tempo não sabia prescindir.

Dir-se-ia ser este o signal para se perturbar a santa harmonia do congresso. Parecia que todos os outros, mais ou menos, se sentiam contrariados.

Henrique ficára sentado junto da parede da capella. Inclinando-se sobre o espaldar da cadeira a saborear um charuto havano, descobriu umas letras escriptas na parede, exactamente por cima da cabeça.

—Bravo!—exclamou, depois de as ler para si—não imaginava que havia poetas na aldeia! Querem ouvir?

E leu:

Se estás mais perto do céo
N'estas alturas da serra,
Ai, porque tens, peito meu
Inda saudades de terra?

Em vez-de erguer os olhares
Á luz d'este firmamento,
Desço-os á sombra dos lares,
Onde tenho o pensamento.


—É pena que a chuva apagasse o resto. Quem é o bardo, prima?

—Não sei; da aldeia de certo que não é—respondeu Magdalena, com indifferença.

Augusto ergueu-se da mesa e foi passeiar para a alameda.

—Da aldeia, não, diz a prima; e por que não? Com esta natureza é facil crearem-se os poetas. Eu estou vendo n'esta quadra a folha solta de um romance. Aqui a serra de algum Bernardim inedito, tão capaz de escrever saudades, como de as sentir. Os lares, pela sombra dos quaes o olhar do poeta trocava os esplendores do céo... algumas d'essas casas, que ahi se vêem em baixo. Quem sabe se não será até o Mosteiro? Eu, por mim, confesso que se estivesse hoje aqui só, ou em outra companhia—accrescentou, olhando significativamente para a morgadinha-não teria dúvida em subscrever esta quadra, como a exacta expressão do meu sentir, porque...


Em vez de erguer os olhares.
Á luz d'este firmamento


Eu tambem...

Os abaixaria aos lares
Onde tenho o pensamento.


Christina levantou-se tambem da mesa e foi ter com Augusto á alameda.

Magdalena, que a seguiu com a vista, não disfarçou um gesto de despeito ao ficar só com Henrique.

—Prima Magdalena,—disse em tom mais affectuoso Henrique, passado tempo, e depois de mais algumas palavras—deixe-me falar-lhe com franqueza, agora que estamos sós. Conhecemo-nos ha dois dias; eu, porém, sinto-me tão seguro já do que lhe vou dizer, que não hesito. Não pode imaginar a indelevel recordação que me ficará d'esta manhã.

—Perdão,—atalhou Magdalena—diga-me primeiro o que é isso que me vae dizer. Prepara-se para me agradecer o almoço? Eu sou como os reis; gosto de estar prevenida do sentido das felicitações que me dirigem, para ir preparando uma resposta adequada.

-Que prazer tem em ser cruel!

-Deixemo-nos de loucuras—continuou Magdalena, séria já.—Quem ouvisse o sr. Henrique de Souzellas havia de suppôr que se preparava para me fazer uma declaração.

-Uma declaração do mais puro affecto, do mais sincero sentimento, por que não?

-Ah! Pois, se eram essas de facto as suas intenções, peço-lhe desista d'ellas.

—Por quê?

—Porque não posso escutal-o.

—Ou não quer.

—Ou não quero; seja.

—Teria eu a desventura de chegar tarde, prima? Acaso o seu coração já...

—Que impertinente pergunta? Se , não tenho ainda no sr. Henrique a necessaria confiança para o tomar por confidente. Conhecemo-nos apenas de hontem, que é o mesmo que não nos conhecermos.—E accrescentou logo depois:—Christina, anda ser arbitra n'uma disputa entre mim e o primo Henrique.

—Que vae fazer?—perguntou-lhe Henrique, admirado.

Christina approximou-se; Augusto seguiu-a. Henrique não desviava os olhos da morgadinha que, sem lhe dar attenção, proseguiu para Christina:

—O primo Henrique falava com certa exaltação da doçura do teu caracter; o meu amor proprio disse-me que—era pouco delicado estar assim a lisonjear uma mulher na presença de outra—e redargui por isso, pondo em dúvida a asserção e affirmando que havia um fermentozinho de maldade na tua doçura. Elle nega por impossivel, eu insisto e estamos n'isto. Agora dize tu.

Christina córou intensamente e não teve que responder.

Henrique, que nas palavras de Magdalena julgou ouvir algumas que, pelo sentido e inflexão, com que foram dictas, lhe eram dirigidas, acceitou desaffrontadamente a posição, em que Magdalena o collocára, e respondeu:

—Venci eu! O facto de querer a priminha poupar uma réplica amarga á accusação que lhe fazem, é a mais eloquente prova, já não digo só da doçura, mas da natureza angelica do seu caracter. Já vê, prima Magdalena, que «quando uma das mulheres que diz, fôr como a nossa boa Christina, não se podem admittir essas revoltas de amor proprio, a que alludiu.»

A morgadinha percebeu tambem o duplo sentido d'estas ultimas palavras; mas fingiu não comprehender.

Henrique, ao desviar por acaso os olhos, encontrou os de Augusto fixos n'elle, emquanto um sorriso lhe dissipava um pouco dos labios a grave expressão que lhe era habitual, temperando-a com não sei que de ironico, que não escapou tambem a Henrique.

Os olhares d'estes dois homens trocaram-se por momentos, sem que nenhum parecesse disposto a baixar-se deante do outro.

Desviou-os porém uma dupla exclamação de Magdalena e de Christina, dizendo:

—Olhem o tio Vicente por aqui!

Dobrava effectivamente n'aquelle momento a esquina da ermida, e approximava-se da mesa do almoço, o velho herbanario, em que já temos falado no decurso dos passados capitulos.


X


Era uma expressiva figura de ancião o herbanario.

A fronte larga e desaffrontada de cãs, os olhos ainda vivos e penetrantes e, em toda a physionomia, permanentes indicios de habituaes meditações e por ventura de passados infortunios, elevavam aquelle semblante muito acima da vulgaridade. Os annos ou, mais ainda do que os annos, os pezares haviam subjugado n'elle a robustez de outros tempos; os habitos de solidão, que adquirira, a pouco e pouco lhe amoldaram o caracter até fazerem do velho um d'esses typos excepcionaes, que atravessam o mundo entre a estranheza de quantos os rodeiam, a ninguem permittindo sondar os mysterios que guardam comsigo e para si, e creando para uso proprio regras de viver, sem attenção ás convenções sociaes.

Era um enigma vivo.

Nas aldeias acompanhava-o uma fama quasi de nigromante; attribuiam-lhe curas milagrosas, obtidas com os simplices, a cuja cultura e colheita consagrava as maiores attenções e canceiras.

Ninguem lhe queria mal, que a ninguem o fizera nunca. Poucos porém ousariam, depois do esconder do sol, ir procural-o á isolada casa em que vivia, escondida n'um quintal, que era cultivado com todo o amor pelo velho.

Em todos os casos intrincados vinham consultar o herbanario, e elle, como seguro da sua proficiencia, em caso algum recusava o alvitre.

Em resultado de leituras aturadas, mas sem escolha nem methodo, de uns alfarrabios herdados de um tio frade que tivera, adquirira imperfeitas e mal digeridas noções de sciencia, de que se mostrava orgulhoso. Livros de medicina antigos, alguns de jurisprudencia, outros de logica e de astronomia, constituiam a sua mesclada bibliotheca. Entre os livros mais predilectos e consultados contava um exemplar da Polyantheia de Curvo Semedo.

O herbanario principiára em creança uma educação tal ou qual, que revézes de familia haviam interrompido.

Os meios conhecimentos, que das suas habituaes leituras extrahira, e os erros, que de taes livros assimilára, eram os elementos, com que chegou a architectar uma sciencia informe, que na aldeia passava por maravilhosa.

E o caso era que a fama do homem voára de freguezia em freguezia, de concelho em concelho, e de muito longe o vinham ouvir como a oraculo.

Os costumes do velho, que errava por valles e montes á procura dos simplices, cujas occultas virtudes conhecia, as suas maneiras rudes, a austeridade da physionomia, a franqueza, sem contemplações, com que dizia quanto pensava, tinham gravado fundo na imaginação popular aquelle typo, para ella quasi lendario.

Depois de se sentar á mesa, o herbanario estendeu familiarmente a mão a Augusto, que lh'a apertou com affecto.

—Bons dias, rapaz,—disse o velho; e, dirigindo-se a Magdalena e Christina, accrescentou com maneiras paternaes:—Adeus, pequenas; grandes madrugadas hoje!

Voltou-se depois para Henrique, e fitou-o com olhos inquisidores e quasi desconfiados, terminando por lhe dizer simplesmente:

—Guarde-o Deus!

Henrique correspondeu-lhe no mesmo tom.

Sem mais o attender, Vicente voltou-se para Magdalena e perguntou-lhe com voz audivel para Henrique, e referindo-se a elle:

—Quem é?

Henrique respondeu com ligeiro tom de mofa:

—O homem que, melhor que ninguem, está habilitado a responder a essa pergunta.

O velho nem sequer o olhou.

—Este senhor—respondeu Magdalena—é sobrinho de D. Dorothéa; está hospede em Alvapenha. Veio para aqui restabelecer-se da saude.

Vicente tornou a examinar Henrique.

—Então é doente?... Não parece... Olhar vivo... Côres boas... voz sã... Umh!...

Magdalena julgou perceber que as maneiras rudes do velho estavam desagradando a Henrique; por isso apressou-se a intervir, respondendo jovialmente:

—A doença d'este senhor é um pouco de imaginação.

—E grandes effeitos nascem d'ahi—acudiu sentenciosamente o velho.—Lá veem na Polyantheia muitos casos curiosos. Um homem, por ter comido umas amoras, foi atacado de dôres de cabeça, de que morreu. Pois tanto scismou que das amoras lhe viera o mal, que até se lhe formou no craneo uma pedra do feitio de uma amora.

—Com effeito!—disse Henrique, com ironica expressão de pasmo—ahi estava um cerebro de concepções rijas!

—É divertido!—disse Vicente, com ligeiro sarcasmo e olhando para Magdalena.

—Pelo contrario—acudiu a morgadinha—o seu mal é a melancolia. Não é verdade?

—Eu já não sei qual é o meu mal. Estou quasi a dar razão á tia Dorothéa, que lhe chamou mania.

—Mania e melancolia não são a mesma coisa—emendou o velho.—Tambem lá na Polyantheia se diz isso bem claro. A melancolia é sem ira nem furia, porque procede de humor frio, e a mania de sangue quente ou cólera requeimada.

—De cólera requeimada? Deve ser uma coisa terrivel!—continuou Henrique, no mesmo tom.

Magdalena, receiando que a ironia dos commentarios de Henrique acabasse por irritar o velho, perguntou a este:

—Parece-lhe que terá cura a doença?

—Pode ter; mais rebeldes melancolias se curam. Este é divertido a final. Umh!... Mas contra tristezas e manias não ha como as folhas de ouro em caldo de frangão com flores de borragem e de herva cidreira.

—Este é como os calvos, que vendem aos outros pomadas para fazer nascer o cabello; é um argumento vivo contra a efficacia da beberagem que receita para as manias—disse Henrique a meia voz para Augusto, que lhe ficava proximo.

O velho, que não tinha ainda dado mostras de offensa pelas maneiras impertinentes de Henrique, córou d'esta vez e faiscou-lhe nos olhos um relampago de irritação.

Havia-se sentido ferido no ponto mais melindroso da sua dignidade.

—Está bom, menino,—replicou elle amargamente.—Não diga mais, para se não envergonhar depois. Eu calo-me; e desculpe-me se falei. Estou costumado a vêr pobres e ricos virem a minha casa pedir-me o favor de os attender. Ainda assim ahi vae mais um conselho, apesar de m'os não pedir. Seja attencioso com a velhice que não é baixeza nenhuma. Mas que é isto?—exclamou, mudando de tom e olhando para um redemoinho de folhas sêccas que o vento trouxera até perto d'elle.—As folhas veem d'este lado! Então virou o vento? É verdade. Ah! sim?... Percebo.

E, depois de olhar para o ar, continuou:

—Mudanças tão repentinas!... Umh!... Já me não agrada aquelle azul e aquellas nuvens.

E levantou-se.

—Dou-lhes meia hora, e verão tudo isto coberto e quem sabe o mais que virá! Aconselho-os a que vão descendo o monte, que não é seguro descel-o quando as enxurradas engrossam. Eu, por mim, já me não demoro, que não tenho confiança na firmeza das minhas pernas. Oh! n'outros tempos!... Emfim tudo tem de acabar. Adeus!

E, sem mais palavras, sobraçou a caixa de lata, em que archivava as hervas medicinaes e outras substancias, que andava colhendo, e partiu, depois de dizer adeus a Augusto, a Magdalena e a Christina.

Logo que o herbanario desappareceu, Henrique soltou uma risada, em que parecia haver o que quer que era de forçado.

—É realmente curiosa esta antigualha—disse elle, que interiormente sentia já remorsos pela maneira por que tratára o velho.

—Ai, primo Henrique; que ainda está muito pouco preparado para viver na aldeia!—disse a morgadinha.—Tem uns melindres e uma maneira de vêr as coisas! Tudo lhe parecem faltas de attenções, propositos de offender! depois ha um sarcasmo cruel nas suas palavras, a que os espiritos não estão aqui habituados e de que se sentem por isso feridos. Isso não é bom! Se vae assim, ou terá de nos deixar cêdo, ou grandes desavenças suscitará por ahi. Não repara que estes modos são proprios do campo?

—Perdôe-me, prima Magdalena; mas confesso que nunca tive demasiado geito para lidar com doidos. Deve confessar que este homem...

—É um homem de bem—atalhou Augusto com voz firme e com uma severidade de expressão, que até alli não mostrára ainda.

Henrique voltou-se admirado e fitou-o em silencio. Augusto arrostou firmemente aquelle olhar.

—Não o nego—respondeu Henrique, pouco depois—mas infelizmente os homens de bem envelhecem, como os outros, e a extrema velhice traz a imbecilidade.

—Engana-se; esse homem, apesar de algumas phantasias, tem ainda um juizo são e uma razão clara.

—Acha?—tornou Henrique, já algum tanto azedado.—Ha de dar-me licença de não fazer obra por as suas apreciações... se me é permittido.

—Procede mal—redarguiu Augusto.—Porque eu conheço aquelle homem ha muito e o senhor acaba apenas de o vêr pela primeira vez. Foi o senhor quem primeiro deu ás suas palavras um tom irritante, que desafiou uma digna correcção. Não lhe ficaria mal se tivesse sido mais generoso. A consciencia lh'o está dizendo n'este momento melhor do que eu.

—Lê fundo nas consciencias dos outros!

—Não é difficil. Em todos os homens a consciencia tem uma só maneira de ser. Reprova sempre o mal, aponta sempre a culpa.

—Estou admirando a subita loquacidade que se lhe manifestou! Até aqui suppunha-o taciturno. Vejo que lhe mereço a fineza de abrir uma excepção aos seus habitos de laconismo em meu favor. Muito agradecido. Isso que dizia eram maximas ou pensamentos moraes? Não reparei.

Augusto córou, mas respondeu com firmeza:

—Nem uma nem outra coisa; é um genero muito mais modesto do que qualquer dos dois. Simplesmente um preceito de civilidade.

Henrique ia responder irritado, mas conteve-se e tornou com dobrada ironia:

—É verdade, é verdade... esquecia-me que a civilidade entra no seu programma... de mestre-escola.

—Justamente; tenho alguns discipulos que lisonjeiam o mestre; rapazinhos da aldeia, pobres, rotos e descalços, mas n'esse ponto podem dar lições a elegantes filhos das cidades.

—Pois estimarei, nas minhas longas horas de ocio, aqui na aldeia, dever-lhe algumas lições tambem. Comtudo, como, felizmente, as circumstancias em que estou me permittem prescindir do beneficio do estado, que o subsidia, ha de conceder-me que pague as lições que receber.

—Nunca me envergonhei de acceitar a recompensa do meu trabalho, se o discipulo pode dar-m'a... sem sacrificio.

—E acceita-a em toda a especie de moeda, não é verdade?—perguntou Henrique, cada vez mais petulantemente.

Augusto respondeu com a mesma serenidade:

—Não faço tambem escrupulo n'isso, comtanto que me fique o direito salvo de pagar na mesma especie de trócos, quando julgar que os devo.

O dialogo ia, como vamos vendo, de momento para momento adquirindo mais acerbo caracter.

Christina, que já tremia de assustada, cingiu o braço de Magdalena, como para convidal-a a intervir.

Esta não o tinha ainda feito por uma simples razão. Desconhecia Augusto. A audacia com que o via repellir as ironias do seu adversario, a firmeza inalteravel, com que lhe sustentava o olhar, o sorriso, que, em desdens, rivalisava com o d'elle, eram tão novos para a morgadinha, que a surpreza, que d'ahi lhe vinha, nem a deixava ainda perceber a utilidade de uma intervenção. O aviso de Christina chamou-a, porém, á realidade.

—Tem-me querido parecer, ainda que me custa a acreditar, que isso entre os senhores é uma altercação—disse ella por fim.—Vejam que só teem por testemunhas duas mulheres, que mal lhes podem servir de padrinhos, se a contenda tomar outra feição. Por isso não é muito para louvar a escolha que fizeram da occasião, para uma justa tão pouco... amavel.

—Perdão, prima Magdalena; reconheço a minha culpa, e a grosseria do meu proceder. Mas aqui o sr. Augusto, costumado a impôr aos discipulos o seu pensamento, quiz estender até mim este despotismo de... magister... Ora o meu pensamento pugnou pela sua independencia...

—Desculpe; suppondo-o um homem de brio e de pundonor, julguei que me agradeceria, se conseguisse modificar-lhe uma opinião desfavoravel, que levianamente formou de quem lh'a não merecia. Vejo que prefere ser injusto. Seja-o. Pense o que quizer. Mas o que eu não soffro é que se diga deante de mim uma palavra contra um homem que respeito e de quem sou amigo, sem que erga a voz a defendel-o. Se não costuma fazer o mesmo por os seus, nem sente viva e irresistivel a necessidade de o fazer, lastimo-o; é porque não os tem.

—Com mais paz de espirito se discutirá tudo isso depois—disse Magdalena.—É de crêr que, como sempre, haja de parte a parte razão e aggravos. Agora convido-os, antes de descermos, a visitar a ermida, cuja porta está sempre, dia e noite, aberta aos devotos que a piedade aqui traz. E tal é o prestigio que a defende, que não consta de um só roubo sacrilego, que se fizesse n'ella.

Entraram na ermida. Era um pequeno santuario, todo forrado de azulejo antigo, com ennegrecidas pinturas a fresco nos apainelados do tecto, representando episodios da Paixão; os altares, adornados de columnas e florões de talha dourada, attestavam nos muitos ex-votos que d'elles pendiam e nos quadros, cuja perspectiva deixava a perder de vista a dos desenhos chinezes e que representavam milagres de todo o genero, a fé ardente com que era adorada a imperfeita esculptura da Virgem.

E apesar de tudo tinha este templo um ar de solemnidade manifesto. D'onde lhe vinha elle? Da sua mesma pobreza e nudez, do silencio que reinava em torno, da altura a que se erguia, do isolamento em que estava.

Alli dentro demoraram-se os quatro visitantes, Magdalena e Henrique examinando alguns dos quadros dos milagres; Christina, que prolongára mais do que a prima a oração que fizera, contemplando a imagem da Senhora; Augusto com os olhos fitos nas columnas do altar, porém, não sei se pensando n'ellas.

Esperava-os uma surpreza á saida.

Realisára-se o prognostico do herbanario.

O vento sul que, segundo elle notára, soprava já havia algum tempo, viera condensar os vapores, que arrasta de ordinario na sua corrente, e empanar com elles a limpidez do firmamento. O azul do céo semeiára-se, pouco a pouco, de pequenos flocos brancos, de manchas irregulares e de longos e encurvados veios que lhe davam uma apparencia quasi marmorea. Cêdo estas massas de nuvens cresceram, tocaram-se, confundiram-se, acabando por tingir uniformemente toda a extensão do firmamento. Ao mesmo tempo, outras nuvens, mais pesadas e mais escuras, começaram a erguer-se do sul e caminharam impetuosas no espaço, como montanhas moveis, que viessem em pavorosa carreira, de encontro ás serras, que as aguardavam firmes.

Um denso véo de nevoeiro escondia já a paizagem, quando sairam da ermida.

—Depressa!—exclamou Augusto—já não ha tempo a perder! Desçamos antes que a tormenta nos colha.

—Tem medo?—disse Henrique em tom de mofa.—Um montanhez!

—Talvez tenha; em todo o caso ha de vêr que não é de inimigo pouco digno de o inspirar. Por agora peço-lhe tréguas ás zombarias e, por amor d'estas senhoras, aconselho-o a que trabalhe por apressar a descida. Felizmente que o criado já partiu. É um embaraço de menos. Vamos.—Detendo-se, porém, disse para Magdalena:—Se descessemos por o outro lado, minha senhora?

—Para quê?—respondeu esta.—É um momento, emquanto chegamos abaixo.

A tempestade caracterisava-se cada vez mais; crescia a cerração do ar; os álamos gemiam, vergados pela impetuosidade das lufadas do sul; a chuva principiou por grossas gottas, e cêdo augmentou assustadoramente; havia na atmosphera surdos rumores de tempestades longinquas; algumas nuvens tomavam uma côr terrea, outras um carregado de chumbo, ambas igualmente sinistras.

Christina, pallida de susto, murmurava em voz baixa orações fervorosas; Magdalena sorria para a animar, mas ella propria estava inquieta.

Não era de facto uma empreza de todo facil o descer o monte por um tempo d'aquelles. O caminho, já de si ingreme e precipitoso, era quasi impraticavel quando as correntes se despenhavam por elle, como em catadupas, e os ventos vinham despedaçar-se furiosos de encontro ás arestas salientes da rocha.—Era necessario estar muito amestrado para o descer sem perigo.

Augusto era de todos o que melhor o conseguiria; assim não tivesse de repartir os seus cuidados por tantos. De pequeno se costumára áquellas aventuras; e já então seguia, sem vertigem, a mais estreita borda dos despenhadeiros do monte.

A tudo porém attendia agora, desenvolvendo uma actividade e pericia, que inspirava alento e confiança aos mais. Agil, como um animal montez, girava em volta da pequena caravana, de que tacitamente fôra reconhecido chefe. Ora adeante a dirigir os passos pelos logares de mais facil transito, ora á retaguarda a dar a mão a Magdalena, que vira em embaraço, ou a amparar Christina, a quem muita vez chegou a levantar nos braços, para a fazer franquear um ponto do caminho, em que ella parára, sentindo que lhe resvalavam os pés no declive e na humidade do chão. O proprio Henrique, que não era o menos embaraçado do rancho, e nem isso admira, só a custo podia prescindir, em certos lances, do auxilio de Augusto.

O amor proprio e orgulho do hospede de Alvapenha iam um tanto mortificados n'esta retirada ingloria. Nenhum dos seus muitos talentos e aptidões, de tanto valor no terreno, tambem escorregadio, das salas de baile, lhe valiam para alli. Era evidente a sua inferioridade n'este momento; ora Henrique não era homem que, tendo consciencia disto, ficasse indifferente; mas que remedio? Procuraria mais tarde uma compensação.

Não descrevemos todos os episodios d'esta laboriosa descida, alguns dos quaes sómente a preoccupação, em que iam os animos, impedia achar risiveis; porém que mais tarde deviam, como é costume, vir a ser alimento de animadas e joviaes recordações.

Assim foi que, a meio da encosta e em sitio em que se lhes cortava ao lado do caminho, que cautelosamente desciam, uma ribanceira quasi a pique e erriçada de fragas salientes e angulos de rocha, em cujas fendas e sinuosidades apenas os tojos e as giestas e algum pinheiro enfezado tinham conseguido vegetar, uma violenta rajada de vento, desprendendo a mantilha de Magdalena, depois de a revolutear no espaço arremeçou-a ao abysmo.

Ficou suspensa nos espinhos das tojeiras, porém em logar, onde seria difficil o accesso, de qualquer lado que se tentasse.

Magdalena, no momento, não pôde reter um grito, que fez parar com terror Henrique e Augusto que caminhavam adeante. Voltaram-se assustados.

A morgadinha, com a cabeça descoberta, tranças ligeiramente desordenadas, as faces um pouco pallidas, sorria já do seu exaggerado susto.

A rir, explicou o succedido, pedindo perdão pelo sobresalto que involuntariamente causára.

—Descança em paz!—disse ella, olhando para a mantilha; e accrescentou:—Sigamos.

—Mas não será possivel tiral-a d'alli?—perguntou Augusto, examinando o sitio.

—Para quê? Não podemos demorar-nos agora com isso—respondeu Magdalena.

—Eu desço a cortar uma canna lá abaixo aos Moinhos e volto n'um momento—insistiu Augusto, dispondo-se a executar o que dizia.

Henrique notou, sorrindo:

—O alvitre é de homem prudente. Cuidei que os montanhezes não eram de tão bom aviso.

E, animado pelo desejo de humilhar Augusto, por quem se sentia humilhado, e ao mesmo tempo cedendo á influencia que sobre elle exercia a fascinadora figura de Magdalena, Henrique arrojou-se a uma desnecessaria imprudencia.

Sem dar tempo a que o impedissem ou lhe fizessem qualquer reflexão, deixou-se escorregar no despenhadeiro, segurando-se com as mãos á borda do caminho; tenteou com os pés as fendas e as anfractuosidades da rocha, até conseguir firmal-os; segurou-se ora a uma raiz saliente, ora a um ramo mais tenaz; á fôrça de vontade dominou a sua impericia em exercicios d'esta ordem, e finalmente conseguiu, estendendo o braço, segurar a mantilha, que o vento arrojára ao precipicio.

Depois, com dobradas difficuldades e por ventura redobrados perigos, pôde, roçando-se como reptil, e ferindo as mãos nas asperezas da rocha e nos espinhos das tojeiras, em que se firmava, pousar outra vez os pés em terra, sem acceitar a mão que Augusto lhe offerecia, e com gesto radiante entregou a mantilha a Magdalena, fixando em Augusto um olhar de triumpho.

Os espectadores d'esta scena haviam-a presenciado sem soltar uma palavra, sem fazer um movimento, quasi gelados de susto e de espanto.

Quando Henrique voltou com a mantilha, Augusto meneou a cabeça murmurando:

—Que imprudencia!

—Na verdade!—disse Magdalena, ainda nervosa com a impressão que este incidente lhe causára—foi uma loucura; uma loucura imperdoavel.

E a perturbação era tal, que nem acertou com uma phrase de agradecimento, com que pagasse a imprudente galanteria, que mais desejava reprehender, do que recompensar.

Esta reserva offendeu Henrique; serviços a seu vêr de menor importancia, tinham merecido a Augusto mais calorosas palavras.

Revoltou-o esta ingratidão.

Mal sabia elle que estava sendo ainda mais ingrato, não concedendo sequer um olhar ás faces desmaiadas pelo terror, aos labios trémulos e aos olhos arrasados de lagrimas, com que o fitava Christina. Ella, que o tinha seguido muda de susto e de anciedade em toda aquella louca aventura, ella que, ao terror do perigo, ajuntava a affligil-o o desespêro de vêr que fôra outra a que inspirava aquellas loucuras!

Aguardavam-os em baixo novos trabalhos a vencer. Com a fôrça das enxurradas, que se precipitavam clamorosas pelas vertentes e algares, era provavel que a levada que corria na raiz do monte tivesse engrossado mais e acabasse de cobrir a ponte rustica, que á vinda já tinham encontrado quasi submersa.

Augusto, prevendo isso, voltou-se para as senhoras, dizendo:

—Eu vou adeante assegurar-me do estado da ponte, para no caso de estar já coberta, como é provavel, vêr se o moleiro nos abre a porta do moinho, a fim de passarmos por lá. Vão descendo devagar, que eu volto.

—Então deixa-nos sós?—exclamou Christina, assustada.

—É um instante.

—Não sei se nos atreveremos a dar um passo sem a sua indicação—disse Magdalena.

—O peor está passado. Além d'aquella pedra já vêem o ribeiro e a ponte; o caminho indica-se por si.

E dizendo isto, desceu agilmente por uma especie de escadaria aberta na rocha, a qual mais depressa o devia conduzir ao logar que demandava.

Henrique ia agora na frente; após, seguia-se Magdalena. Christina fechava o cortejo.

O mau humor de Henrique augmentára de ponto, em consequencia dos receios com que as duas raparigas tinham visto Augusto abandonar, por momentos, a direcção do rancho.

Ficava assim bem evidente a pouca ou nenhuma confiança que lhes estava merecendo o auxilio de Henrique, representando assim elle n'aquella contingencia, em vez do papel de protector, o de protegido, que o humilhava.

Obrigado a digerir, como pudésse, o seu fundo descontentamento, Henrique perdera com isso aquella volubilidade de conversação que mantivera todo o dia.

Nunca, na presença de Magdalena, deixára passar tanto tempo sem formular um d'esses galanteios que a impacientavam e obrigavam a uma resposta, nem sempre demasiado affavel.

Magdalena, por seu lado, não se sentia com disposição para falar. Christina menos.

Este silencio acabou por exasperar Henrique.

Haviam já percorrido grande parte do caminho, que os distanciava do riacho. Avistavam-se as aguas turvas e impetuosas, que, com mais fragor do que nunca, se contorciam n'aquelle apertado leito.

Foi então que Henrique desafogou o seu resentimento.

—Estou devéras arrependido, prima Magdalena,—disse elle com leve ironia—do meu espontaneo movimento de ha pouco. Devia lembrar-me de que ao nosso cavalheiroso guia devem pertencer todos os triumphos e toda a gloria d'esta jornada: mas como d'aquella vez se me figurou que era demasiado cauteloso para heroe...

Uma simultanea exclamação de Magdalena e de Christina não o deixou proseguir.

Voltando-se para saber a causa, que a motivára, viu-as paradas, pallidas, olhando com anciedade para a base do monte.

Seguindo a direcção do olhar d'ellas, Henrique reconheceu a causa d'aquelle duplo grito.

Refiramol-o em poucas palavras.

Quando Augusto chegou ao ribeiro, para averiguar se a ponte estava ou não transitavel, surprehendeu-o um espectaculo inesperado.

O herbanario que, prevendo tempestade e receioso dos perigos de que em taes condições a descida era acompanhada, se apressára a partir, não conseguira chegar ao ribeiro, antes do desencadeamento da borrasca. O andar vagaroso e precavido do velho e as frequentes pausas que fazia, ou para descançar ou para colher a rara planta montezinha, o insecto, o verme, o mollusco ou o mineral de occultas virtudes, elementos da sua pharmacopeia, foram retardando de maneira que a chuva apanhou-o a meio caminho, e mais difficil de descer lhe tornou a metade, que lhe faltava. Assim, não obstante haver partido antes dos outros, não lhes levava muitos passos de avanço.

Ao chegar á levada, encontrou já as pedras do tosco passadiço, a que se dava o nome de ponte, cobertas pela agua. O velho deu-se pressa em descer para a passar ainda a pé enxuto; mas a levada, agora torrente caudalosa, ganhava corpo de momento para momento; cêdo já não se viam signaes de ponte. O herbanario parou, embaraçado. Acima ficavam-lhe os açudes, transformados em impetuosas cataractas; abaixo, o moinho, em cujas enormes rodas espumava a corrente com espantoso fragor.

O velho Vicente hesitou. Era para causar vertigens o que via. As aguas, sem transparencia, occultavam de todo a vista das pedras.

Tenteou com o bordão o sitio, em que as suppôz. Encontrou a primeira, pousou um pé n'esse ponto; firmou-se como pôde, para resistir á fôrça da corrente; tenteou outra vez, reconhecendo outra pedra, deu mais um passo, e outro, e mais outro, até que de repente, ou por esvaímento de sentidos ou por se firmar em falso, vacillou e, perdendo o equilibrio, caiu na levada para o lado dos moinhos.

Foi n'este momento que Augusto chegou; viu-o pois cair, viu-o estrebuchar, luctando com a impetuosidade das aguas; reconheceu a urgente necessidade, para evitar uma horrivel desgraça, de acudir, sem perda de tempo, ao pobre velho, que a torrente arrastava para os lados do moinho.

Cedendo a este pensamento, Augusto franqueou, quasi de um salto, o espaço, que o separava ainda do ribeiro, e lançou-se á agua.

Era a vez de Augusto revelar coragem. Henrique tambem a possuia, mas abusava d'ella ou, por vaidade malbarateava-a em ninharias. Ainda n'isto se revelava o seu amor de ostentação. Imaginava-se sempre n'um palco, deante de espectadores que o viam e applaudiriam, se desempenhasse bem o papel de homem perfeito. Fraco perante doenças imaginarias, arriscaria, para evitar o ridiculo, a propria vida, assim como suffocaria, por ventura, um impulso generoso, que não pudésse harmonisar-se com a convenção, que se chama elegancia.

Eram estes os defeitos que Magdalena adivinhára n'elle.

Augusto era differente.

As suas grandes qualidades guardava-as com modestia dos olhos estranhos, para sómente as revelar, quando pudéssem ser uteis.

Ao vêr cahir a mantilha de Magdalena, não arriscou temerariamente a vida para a buscar. Procurava com placidez os meios de o fazer, com mais segurança, embora com menos romanticismo; mas, para salvar uma vida, para obedecer a um instincto, verdadeiramente nobre e generoso, nada o fazia recuar.

Logo que Augusto voltou a terra e auxiliou o herbanario a subir para a margem, Magdalena, respirando emfim com desafogo, respondeu ás anteriores palavras de Henrique, dizendo em suave tom de censura:

—Bem vê que nem sempre é cauteloso o nosso guia, primo Henrique. Sabe tambem arriscar a vida, quando uma razão de humanidade lh'o pede. A sua imprudencia de ha pouco... agradeço-lh'a, mas... não posso approval-a. Confesse que não foi tão justificada como esta.

Henrique tinha a razão clara bastante e a consciencia justa para vêr que, apesar da sua façanha cavalheiresca, ficára, d'esta vez ainda, inferior ao seu companheiro.

Qualquer que fôsse o desgosto, que a descoberta lhe produzisse, é certo que teve sobre a rebellião dos maus instinctos poder sufficiente para se obrigar a ir apertar a mão a Augusto.

O velho Vicente estava pallido e extenuado pelo esforço da lucta com a corrente; ainda assim abraçou tambem Augusto, dizendo:

—Agradeço a Deus o haver-me dado esta occasião de te dever a vida, rapaz. Era um prazer que desejava levar da terra, quando a deixasse.

Magdalena e Christina rodeavam o velho de cuidados.

Appareceram, emfim, do outro lado do ribeiro, os criados enviados por D. Victoria com guarda-chuvas e roupas de agasalho. Com elles vinha tambem o moleiro, a quem mandaram chamar para dar passagem pelo moinho, visto estar obstruida a ponte, e ao mesmo tempo para que as senhoras pudéssem ahi dentro mudar de fato.

Augusto seguiu o herbanario a casa.

Passada meia hora saíam tambem do moinho os outros todos, depois de haverem renovado a roupa, que a chuva repassára.

No Mosteiro, D. Victoria recebeu a filha e a sobrinha com muitas exclamações e ralhos por não terem ido prevenidas com guarda-chuvas, como ella lhes recommendára; estas iras cêdo se derivaram sobre os criados, a quem, entre outros delictos, attribuia o de a não haverem avisado de que na vespera passára por alli o caldeireiro ambulante, repenicando nos seus arames, o que, sendo prognostico infallivel de chuva, faria com que ella, sabendo-o, se oppuzesse a tal passeio.

Em Alvapenha, D. Dorothéa e Maria de Jesus não levantaram menor celeuma, ao vêrem chegar Henrique. Fizeram-o metter na cama, cobriram-o de cobertores, emborcaram-o de punch e taes mêdos lhe insinuaram, que as apprehensões pathologicas de Henrique agitaram-se e tentaram reapossar-se da sua antiga victima.



XI


Censuravel descuido tem sido o nosso em não conduzir o leitor a um dos logares mais importantes da aldeia, onde se passam os singelos episodios d'esta narração.

Que se diria de um cicerone que, por esquecimento ou proposito, deixasse de apresentar um viajante, recem-chegado a uma cidade, na assembleia, club, gremio, ou o que quer que seja, onde se reunem as principaes personagens d'ella, onde se compendiam as grandes questões e interesses locaes, as pequenas vaidades e intrigas, as modas ephemeras, os voluveis caprichos que agitam os espiritos, onde se commenta o boato de hontem, se dão ao de hoje mil versões diversas e se adivinha já o de ámanhã?

Pois no mesmo delicto incorremos nós, chegando a este undecimo capitulo, sem ter guiado os leitores á venda de Damião Canada, a qual podia dizer-se o verdadeiro coração d'aquelle organismo social.

Tudo quanto na terra havia de certa representação alli ia falar da coisa publica e tambem da particular;—da particular dos outros mais do que da propria, entenda-se.

Aproveitemos um resto da tarde, em que a natureza após horas continuadas de chuva e de temporal, como que procurou respirar e permittiu que o sol, já no occaso, levantasse uma ponta do manto de nuvens que o envolvia, e mandasse os raios amortecidos ás cristas das serras fronteiras; aproveitemos este intervallo de socego para entrarmos na taberna.

Tinham passado dois dias depois do passeio ao monte, que descrevemos.

Henrique de Souzellas teve de condescender com uma leve angina, que lhe legaram os rigores d'aquella excursão, e ficou em Alvapenha, entretendo-se a escrever cartas aos amigos e a scismar n'uma imminente desorganisação da larynge, a que imaginava conduzirem-o os seus incómmodos actuaes.

No Mosteiro nada tambem occorreu, que mereça narrar-se ao leitor.

Deixemos, pois, por momentos, os nossos conhecidos, e vejamos o que dizem os frequentadores do estabelecimento de Damião Canada.

Brilhante é a assembleia alli reunida. Além do proprietario, barriguda e rubicunda figura, que, assim posta ao pé das pipas, podia servir de typo para a representação de um Sileno, havia varias individualidades de peso nos destinos de toda a comarca.

Dê-se primeiro menção ao nosso já conhecido Bento Pertunhas, a quem as humanidades não faziam soberbo a ponto de recusar-se a entrar em communicação social com os seus conterraneos.

Observada esta deferencia, mencionemos os mais.

Um era nem mais nem menos do que o sr. Joãozinho das Perdizes, em quem já temos ouvido falar por mais do que uma vez.

Era o dicto sr. Joãozinho morgado e proprietario em uma das freguezias proximas, chamada de Pinchões; mas propriedades e morgadia andavam-lhe tão embaraçadas em redes de demandas e de hypothecas, que Deus nos acuda.

Os autos, que diziam respeito á casa das Perdizes, enchiam um cartorio. Graças, porém, ao seu genio despreoccupado e folgazão, o sr. Joãozinho deixava aos procuradores os cuidados judiciaes; os cuidados agricolas aos rendeiros e feitores; os do futuro, a Deus ou ao diabo; e para si não reservava nenhuns.

Proseguia n'aquella vida airada, que já lhe era necessidade. Frequentava as feiras, onde ia para jogar e fazer trocas de cavallos com os ciganos, e ás vezes para dar e levar sovas monumentaes.—Nos mezes de caça, a vida do morgado era perfeitamente nómada: estendia por leguas e leguas as suas excursões venatorias, contentando-se com qualquer cama e comida, de que, de ordinario, participavam os cães, que o acompanhavam; distrahia-se tambem a conquistar os corações femininos da freguezia, calando com dinheiro algumas queixas mais acerbas e insoffridas de um ou outro pae, marido ou irmão. Em todas as tabernas das freguezias vizinhas tinha contas em aberto, o que não obstava a que entrasse em todas com ares de conquistador e expendesse alli as suas opiniões absolutas, com grande exhibição de berros e de punhadas.

Com todas estas qualidades, era o sr. Joãozinho das Perdizes um homem verdadeiramente popular entre os da sua freguezia; movia-os no sentido que quizesse.

Tudo por lá era o sr. Joãozinho; não havia funcção, rixa, solemnidade official, para que elle não fôsse consultado. É que a superioridade do morgado das Perdizes não era d'aquellas que intimidam e acanham o povo; ninguem hesitava em falar-lhe e em procural-o em casa, porque, falando e vivendo com elles, o sr. Joãozinho não constrangia ninguem. Os seus defeitos, a sua vida de feiras e de tabernas eram outras tantas causas a popularisal-o; justo é porém que se diga que algumas boas qualidades tambem para isso concorriam. O sr. Joãozinho não era avarento, nem soberbo. Sentado a beber, e com dinheiro no bolso, não consentia que pessoa alguma, desde o mais rico proprietario até o jornaleiro mais miseravel, recusasse tomar assento a seu lado. Não eram poucos os filhos-familias que resgatára de soldado, sem a menor caução ou interesse, chegando a ficar empenhado para os livrar; e se algum desgraçado se via perseguido pela justiça, encontrava, fôsse qual fôsse a enormidade do crime, asylo seguro na herdade das Perdizes, que em certas épocas era um perfeito valhacouto de malfeitores.

Graças, pois, a estas e analogas qualidades, era o sr. Joãozinho uma verdadeira potencia eleitoral.

Eis ahi o homem moralmente.

Pelo lado physico, supponham um sujeito de trinta e cinco annos, gordo, vermelho, de longas e encaracoladas melenas em desordem, bigode aparado e a barba quasi sempre mal feita ou por fazer. Na maneira de vestir inculcava os habitos da vida e um certo desleixo com sua pessoa, que lhe era peculiar. Trazia o collete quasi sempre desapertado e com alguns botões de menos de modo que os peitos da camisa formavam hernia pela abertura; entre as calças descaídas e o collete avistava-se o cóz das ceroulas, no qual era geito muito seu o enfiar a mão; ao pescoço trazia um lenço de seda escarlate, negligentemente atado e com longas pontas fluctuantes; uma jaqueta de pelles com alamares, calças de fazenda chamada pelle do diabo, botas de montar e esporas constituiam o resto do vestuario. O cigarro, que quasi sempre fumava até ás ultimas, crestára-lhe profundamente as pontas dos dedos e o canto dos labios. O palito andava-lhe sempre atraz da orelha; a navalha de ponta na algibeira, e, para qualquer parte que ia, acompanhava-o uma tumultuosa matilha de galgos, podengos e perdigueiros.

Segunda e não menos importante personalidade era a do sr. Eusebio Seabra, chamado por antonomasia—o Brazileiro.

Era um homem de cincoenta annos; bem figurado e sisudo, de falar compassado e com seus quês de oraculo, phrases sentenciosas e ares de protecção a todo o mundo.

Saira creança da aldeia e fôra tentar fortuna ao Brazil. Por lá esteve quarenta annos, e voltou o homem grave que vemos e rico. Como enriqueceu não sei, e ninguem na terra o sabia. Veio edificar uma casa no sitio em que nascera, uma casa grande de cantaria e azulejo, com tres andares e varandas, jardim com estatuas de louça e alegretes pintados de verde e amarello, o qual jardim tinha mais fama n'aquellas aldeias vizinhas do que os jardins suspensos da Babylonia. Trouxera um papagaio e uma arara, igualmente famosos, e uma botica homoepatica, que elle proprio manipulava.

As ambições de Eusebio Seabra limitavam-se a vir a ser a primeira personagem de influencia na aldeia. Para isso principiou por fazer alguns reparos na igreja parochial, presenteou com vestidos novos todos os santos dos altares, e mandou renovar um sino, que havia doze annos tocava a rachado. Fez á sua custa a festa do orago, chegando a mandar vir fogo preso da cidade e um aerostato, que ardeu a pouca altura do chão. Apesar, porém, de todos estes beneficios á localidade, o conselheiro Manoel Bernardo, pae da morgadinha, comquanto vivesse quasi sempre em Lisboa, continuava a fazer-lhe sombra e a contestar-lhe as ambiciosas vistas. Por isso, apesar da apparente amizade com que Seabra o acolhia e lisonjeava até, conservava por elle no fundo uma má vontade, um ciume, de que eram de receiar, tarde ou cêdo, explosões.

Seabra era tão asseiado, quanto o sr. Joãozinho das Perdizes descurado no seu vestir. Usava sempre de suissa irreprehensivelmente talhada em volta do queixo; camisa muito lavada; peito aberto e tres grandes botões de brilhantes; no trajo combinavam-se as variegadas côres de uma ave da America; e o ouro, distribuido com profusão por todos os accessorios da sua pessoa, attestava os bons resultados dos seus quarenta annos do Brazil. Passeiava pela aldeia de chinelos de marroquim verde ou sapato de tapete, e era tal n'elle a delicadeza do andar, que voltava a casa sem que uma mancha ennodoasse a alvura das suas meias de algodão fino. Aos domingos e dias de festa indignava a relva dos caminhos, calcando-a com bota de polimento.

Além d'estes dois e do nosso conhecido Zé P'reira, que bebia, em silencio, ao pé do taberneiro, havia um padre, coadjuctor da freguezia, dois lavradores abastados e já de avançada idade, e outros que deixaremos confundidos na massa indistincta dos comparsas.

No momento, em que entramos, usava da palavra o brazileiro, que estava sentado á porta da taberna, na mais limpa cadeira do estabelecimento.

—Pois é verdade—disse elle—fômos todos da mesma creação. O conselheiro Manoel Bernardo saiu d'aqui para Lisboa um anno depois de eu ir para o Brazil. Andámos ambos na mesma escola, que era a do padre Joaquim, alli pelo sitio da Corredoura. Vossemecê ha de estar lembrado, sr. Luiz—accrescentou, dirigindo-se com a affabilidade protectora, que o caracterisava, a um dos lavradores.

—Ora se estou! muito bem. Era na casa em que hoje mora o Chico da Luciana.

—É verdade que sim. Pois alli andei eu e o conselheiro e aquelle ratão do Vicente, herbanario, que era já rapaz taludo. Lembra-me, como se fôsse hoje, de quando jogavamos todos tres a pedra no terreiro da Corredoura.

—Olha lá, hein!—diziam dois lavradores com um sorriso cortezão nos labios—então com que o sr. Seabra tambem jogava a pedra! Eh! eh! eh!...

—Ora, como um homem. Eu fui levadinho da bréca. Boa sóva levei de minha mãe, por causa de umas calças novas que rompi.

—Ora vêdes?—diziam os outros.

—Ai tempos, tempos!—disse, suspirando, o brazileiro.

—Quem havia de dizer então ao que v. s.a e o conselheiro tinham de chegar!—notou lisonjeiramente o sr. Bento Pertunhas.

—Eu sim—respondeu com toda a sua modestia o brazileiro.—A que cheguei eu? Comi candeias accêsas pelo Brazil, para arranjar um boccado de pão para o resto da vida; com isso me contento. O mais, sou um pobre diabo que ninguem conhece, um homem ignorante, sem principios. Elle é outra coisa.

—Não é tanto assim—insistiu Pertunhas—todos sabem que v. s.a se quizesse...

—Olhe, meu caro amigo, eu conheço-me; se tivesseo juizo de muitos, que por ahi vejo figurando, então havia de me vêr na brecha; porque, não é por me gabar, mas não me tenho por menos do que muitos d'elles.

—Ora pois, não, não—disseram os lavradores, Pertunhas e o padre.

—Alguns que até ministros teem sido...

—Por essa estou eu...

—O conselheiro mesmo...—resmungou o padre, fungando uma pitada jesuitica—sim, aqui para nós...

—Tanto não digo—continuou o brazileiro, mais jesuiticamente ainda.—O conselheiro... vamos... Faça-se-lhe justiça. Eu não quero dizer que elle seja uma coisa por ahi além... sim... Que diabo tem elle feito a final?... Mas... Não é dos peores, não é dos peores. Faça-se-lhe justiça. Não é homem de grandes talentos... isso não; nem mesmo de grande fundo. Sim... Devemos confessar que esta é a verdade... Mas... emfim, vamos andando...Cada um faz o que pode—concluiu o brazileiro, depois de ter feito justiça ao conselheiro.

—No que elle tem andado mal é em prometter mais do que pode fazer. Ha quantos annos nos anda a falar na estrada, e até hoje ainda nem palmo d'ella?—opinou Pertunhas.

—Meu amigo, engana meninos e chupa-lhe o pão: diz o dictado—ponderou o brazileiro.

—A falar verdade!...—disse um dos lavradores—com a influencia que elle tem, podia...

—Ora adeus! palanfrorio—atalhou o padre—bem me fio eu na influencia do conselheiro.

—Eh! eh! eh!—respondeu o brazileiro, agradado do scepticismo do padre, e accrescentou com um sorriso velhaco:—Não, elle diz que fala com os ministros, que tal, que sim senhores, que domina o partido. Emfim... Elle lá o sabe.

—Para mim é que elle vem de carrinho...

—Eu não sei—concluiu com requinte de velhaquez o brazileiro.

—Pois eu cá—disse o sr. Joãozinho, que estivera bebendo em silencio, e descarregou um murro na banca, que fez tilintar os copos.—Eu cá já disse; se os taes homens das bandeirolas me tornam a passar por as terras, sempre lhes meço as costas com um marmeleiro, que lá tenho, e que já me serviu para varrer a feira de Santo Estevão. Uns mariolas!...

E como para desafogar o pêso da sua amabilidade, despediu um pontapé a um podengo, que lhe viera roçar por as pernas, e fel-o sair ganindo.

—Dizem que vão principiar outra vez com os trabalhos das estradas—informou o taberneiro, enchendo de novo o copo ao sr. Joãozinho.

—Pois que vejam no que se mettem. Cautelinha commigo!—resmungou este.—Faço como d'aquella vez em que eu e a minha gente queimámos toda a papelada da camara e do escrivão da fazenda.

—Agora no inverno é que elles hão de principiar com os trabalhos. Sempre se fia em boa!—disse, encolhendo os hombros, mestre Pertunhas.

—Vossemecê é que está a ler—veio-lhe á mão obrazileiro.—Então não sabe que as eleições são em fevereiro?

—Ai, é verdade! não me tinha lembrado d'isso!—exclamou o padre.

—Tambem não sei como será d'esta vez essa historia das eleições—acudiu o sr. Joãozinho.—Cáeu e a minha gente ainda estamos a vêr no que param as coisas. Eu já não estou para ser logrado. Até agora tenho dado ao conselheiro a freguezia em pêso, sem pedir nada, ou se pedi foi o mesmo que não pedisse. Vou curar-me de tolo; agora sempre havemos de entrar n'uns ajustes. Se o homem não estiver cá por umas contas, não anda o filho de meu pae.

—Ora adeus!—disse o padre cura.—O conselheiro tem artes para o levar.

—A mim? Está enganado. Não querendo eu?Então você não me conhece. Em euembirrando, sou como um borrego teimoso.

—Quando se fala em estradas, já estou a tremer—disseum dos lavradores.—O que elles veem cá fazer é cortar-nos os campos, e a final não sei para que servem.

—Isso não é assim—atalhou o brazileiro, tomando uns ares cathedraticos, cheios de gravidade.—Vossemecê é ignorante e por isso é que fala d'esse modo.

—Eu digo...—tartamudeou, intimidado, o lavrador.

—Pois sim: mas não deve metter-se a falar em coisas que não entende. As estradas não servem para nada! As estradas são meios de communicação e... facilitam o... o... o trafego commercial e augmentam por conseguinte a riqueza das nações... Porque o trabalho representa um capital..., sim, senhores, mas... mas um capital...sim... um capital morto... quero dizer um capital que não vive... Quero dizer... sim... supponhamos: o credito por exemplo... O credito..., sim... ahi está o credito... Pois que é o credito?... O credito é... é o credito... depende de muitas coisas... Por outra, supponhamos... se nós não tivessemos estradas... Uma supposição... Partamos de um principio. A producção excede o consumo... Quero mesmo que o consumo exceda a producção... Sim, quero mesmo isso... Muito bem... D'ahi que resulta? Está claro que um desequilibrio. E depois?... Depois, boas noites... Não havendo estradas... Ahi está que se diz por ahi que a livre exportação, que tal, que sim senhores... mais isto, mais aquillo... Pois não é assim. É preciso que se attenda tambem ás condições economicas dos povos. Sim... eu digo: O commercio deve ser livre... Muito bem... Em termos já se sabe...Mas... o commercio livre... a livre troca... entendamo-nos... É preciso clareza de ideias... Quando eu digo que... Ora supponhamos... supponhamos que não havia estradas... Os transportes eram mais difficeis e portanto mais caros... E se além d'isso os generos fôssem escassos e... Diz vossemecê, para que servem as estradas? Ora diga-me uma coisa, sr. Manoel, supponhamos que... os impostos indirectos... não precisamos de ir mais longe... os impostos indirectos... Sempre queria que me dissesse o que havia de fazer.

—Impostos, Deus me livre d'elles!—murmurouo lavrador, cujos instinctos trepidaram á palavra «impostos».

—Isso tambem não é assim... Deus me livre! Não se diz Deus me livre, porque a riqueza... a riqueza... sim, a riqueza não está na terra... isto é, a riqueza está na terra... mas é preciso o capital para a exploração... Percebe?... Ou... supponhamos... por exemplo... Não... vamos cá por outro lado... Ha um deficit n'um orçamento... desce o preço das inscripções... Ora bem... Mas... supponhamos que ha boas estradas, etcoetera... A riqueza tende a augmentar... e... e... Emfim lá que as estradas são uteis, isso é que não tem questão.

Toda esta lenga-lenga economica foi escutada pelo auditorio com profunda attenção.

O brazileiro, assignante e leitor infallivel de varios periodicos politicos, conseguira, á fôrça de leitura, fixar na memoria certas phrases de artigo defundo, e acabára por convencer-se de que possuia grandes noções de sciencia politica. Em occasiões como esta dava uma sacudidela ao intellecto, e aquellas phrases como os variados objectos do interior de um kaleidoscopo, tomavam uma disposição tal ou qual, mais ou menos regular, e assim lhe saia uma dissertação, como essa que viram. Em permanente indigestão economica vivia este portento. A doença não é das mais raras entre politicos.

O sr. Joãozinho das Perdizes abriu desmesurada e ruidosamente a bôca, depois do discurso do brazileiro, e disse:

—Eu cá por mim não sei d'essas coisas. Não se me dava das estradas para poder ir á feira de Penafiel com menos trabalho, mas, já disse, que me não venham mexer na quinta; porque então teem que vêr.

—Pois está arriscado a isso—disse o brazileiro.

—Veremos, depois não se queixem. Temos a historia da papelada outra vez.

—Houve a ideia de levar a estrada pela Corredoura fóra, depois de tomar á esquerda pelo Castro e vir direito á Palhoça. Não tinha cruzes nem cunhos. Ia-me parte da propriedade.

—Ah! ah! ah! Tambem não gosta? Diga-me d'isso!—berrou o sr. Joãozinho.

—Não é não gostar, é que o traçado era pessimo.

—Não sei por quê.

—Só a expropriação da minha quinta por que preço não lhes ficava?

—Elles, para esses casos, lá teem umas leis a seu modo—notou o padre cura.

—E por onde ha de ir então a estrada?

—O outro traçado, que eu aconselhei ao engenheiro, parte da herdade do capitão-mór, faz um viaducto nos lameiros, atravessa o pinhal do Conego, passa o rio n'uma ponte e...

—Oh com os diabos; o que ahi vae!

—Não é tanto como parece; sendo as obras bem dirigidas... Até aos lameiros só tem a deita rabaixoa casa e o quintal do herbanario.

—Deitar abaixo a casa do herbanario! O pobre diabo rebenta de paixão, se tal fazem—disse, com certa commiseração, o sr. Joãozinhodas Perdizes, que tinha por o herbanario uma sincera affeição e respeito, n'elle excepcional, desde que lhe attribuia a cura de um typho que o tivera ás portas da morte, e de que o velho, dizia elle, o salvára, com uns cozimentos sómente d'elle sabidos.

—Ora adeus! Antes d'isso morre o homem de doidice. Está maluco de todo—redarguiu o brazileiro.

—Tambem está um bom magico, está—notou o padre.

—Quer não, que sabe mais do que todos os medicos—acudiu o sr. Joãozinho das Perdizes; a mim me livrou de uma maligna. Oh que excommungada!

E principiou a fazer a historia da sua doença.

Os lavradores concordaram em que o homem era sabedor; mas attribuiam-lhe mais mysteriosa sciencia, do que a da medicina.

—Pois a final por onde devia ir a estrada—continuou o brazileiro;—tinham ainda o campo dos Brejos do conselheiro, mas n'isso não se fala, já se sabe.

—Ora! pois está de vêr—concordou o padre.

—E o conselheiro não se ha de oppôr á expropriação da casa do herbanario, porque pelos modos elles não andam muito correntes—lembrou um lavrador.

—É verdade; por que seria aquillo?—perguntou outro.

—Elles em tempo eram muito um do outro; e são até aparentados;—explicou o brazileiro—e o velho ainda hoje é tratado com familiaridade pela gente do Mosteiro; mas julgo que o homem com aquelle genio exquisito que tem, disse algumas verdades ao conselheiro, por occasião de umas eleições, quando elle pôz as auctoridades a trabalhar por si, e o velho entendia que as coisas não iam bem assim.

—Pois, com os diabos, o Vicente herbanario vale mais do que vinte conselheiros e toda a familia,—exclamou o sr. Joãozinho, batendo outra punhada—e queira elle, que o tal senhor não põe mais o pé nas camaras, mandado cá pela terra.

—Eu gósto de os ouvir,—disse o padre—falam assim, mas em chegando a occasião, vão todos votar n'elle como carneiros.

O brazileiro encolheu os hombros e sorriu, como confirmando o dicto.

—Pois havemos de vêr o que será!—berrou o sr. Joãozinho.—Isso é consoante cá umas coisas.

—A falar a verdade—disse o Pertunhas—não tem pago muito bem ao circulo o nomeal-o ha tantos annos seu deputado; só essa teima agora em querer obrigar o povo a enterrar-se no cemiterio!

—Essa a falar a verdade!—disse um lavrador.

—Quero vêr se me hão de enterrar a mim!—disse ameaçadoramente o sr. Joãosinho, como se esperasse ainda depois da morte, impôr as suas vontades á fôrça de murros e de pragas.

—Deram-lhe para lhe dizer que fazia mal enterrar nas igrejas. É moda e acabou-se. D'antes enterrava-se lá toda a gente e não havia mais doenças do que agora—isto dizia o padre.

—Os romanos tinham as suas catacumbas—ponderou o mestre de latinidade, forçando as suas reminiscencias romanas.

—Vamos—ponderou o brazileiro, como quem vira pretexto de fazer novo discurso e como homem que punha acima dos despeitos a verdade scientifica.—O enterrar nas igrejas é anti-hygienico; porque os chimicos sabem que... o ar que não é puro... é mau para a saude publica. Ora os cadaveres... em putrefacção produzem uns vapores que corrompem o ar... Ha uns insectozinhos invisiveis que a gente respira... e vão para a massa do sangue e corrompem-a... e o resultado é a febre... porque a febre são os humores a ferver... como o vinho no lagar... e se sáem, muito que bem; e se não sáem, ficam retidos e azedam o corpo todo.

A theoria physiologica pathologica foi recebida com attenção igual á que merecera a economica.

—Tudo isso será assim,—disse o padre—mas o conselheiro faz aquillo por instigações das lojas maçonicas e dos pedreiros livres.

—Pois elle será tambem?...—disse um dos lavradores, arregalando os olhos assustados.

—Ora que dúvida! Pois aquella gentinha é toda da sucia.

—Corja!—resmungou o sr. Joãozinho.

O brazileiro, que se filiára no Brazil na maçonaria, fez um discurso sobre os fins da sociedade, que ninguem entendeu; vendo, porém, que não calavam nos animos aquellas doutrinas, mudou repentinamente de rumo.

—Elle não será mação—disse d'ahi a momentoso padre—mas é vêr o que elle tem defendido nas camaras; queria roubar ás irmandades e ás freiras os bens que ellas possuem; appeteceu-lhe o exemplo do cunhado, que se encheu com a compra do Mosteiro; queria acabar com o santo sacramento do matrimonio; queria que cada qual seguisse a religião que muito bem lhe parecesse. Vejam que christão aquelle!

Estas novidades abalaram os lavradores, que formularam algumas palavras de censura.

—E tambem falou para acabar com os morgados e com os vinculos.

—A falar a verdade, os vinculos...—murmurou o sr. Joãozinho, que por vezes tropeçára nas disposições da antiga lei vincular, ao caminhar na estrada da dissipação; porém, recordando-se de um irmão que tinha, casado e pae de muitos filhos, que mal conseguia sustentar á custa de muito trabalho, a ideia da abolição dos morgados não lhe sorriu e exclamou com nova punhada:—Acabem lá com os morgados quando quizerem, que o que eu lhes digo é, que tem de se haver commigo quem quizer tirar-me um palmo de terra!

O padre cura continuou a tratar pouco christãmente o conselheiro.

O pae de Magdalena militára sempre, como já dissémos, nas fileiras do partido mais liberal, e por isso era-lhe em geral pouco affeiçoada a maioria do clero, que, entre nós, não espósa ardentemente aquellas ideias.

No principio da sua carreira parlamentar, cedendoao impulso do enthusiasmo juvenil, o conselheiro desenrolára desassombradamente a bandeira do partido progressista e pronunciára os mais absolutos artigos d'aquelle credo politico; liberdade era então o seu mote favorito; a liberdade do commercio, do ensino, da imprensa e dos cultos; as reformas consequentes nos codigos, a desamortisação e desvinculação da propriedade, tudo advogára com enthusiasmo, no tempo em que estas palavras soavam ainda como heresias aos ouvidos habituados á lettra de outro catecismo.

Com o tempo arrefeceu, porém, esse enthusiasmo; dissipou-se-lhe com o fogo da mocidade. Com quanto liberal ainda de convicção, ensinou-lhe a politica pratica a rebuçar em formulas mais ordeiras os seus principios doutrinarios, a contemporisar, e até quando as conveniencias, infelizmente, nem sempre as publicas, o pediam, a dar alguns passos de retrocesso e a transigir com o partido opposto.

Se o fizessem ministro não se arrojaria a transformarem projecto de lei nenhuma d'aquellas medidas por que pugnára nos seus primeiros discursos, e que tantas malquerenças lhe acarretaram então.

Já atraz dissémos, que o conselheiro era actualmente um espirito pouco apaixonado do ideal, respirava a atmosphera de desillusão e de scepticismo, em que nas grandes cidades se vive. Era um perfeito homem de côrte; tratava cordialmente os seus adversarios politicos, pedindo d'elles mercês e empregos para afilhados; fulminava-os ás vezes da tribuna e depois apertava-lhes a mão nos corredores das camaras e nas praças. Se o julgava vantajoso, pronunciava ainda uma d'aquellas phrases sonoras, uma d'aquellas sympathicas divisas de politica avançada, que no principio da sua carreira adoptára comsinceridade; mas não tinha já aos principios o amor preciso para cair, abraçado n'elles, dos degraus do poder, se algum dia os chegasse a subir.

Por isso os soldados rasos do seu partido, os politico sem abstracto, unicos para quem a politica é sempre ideal e logica, o taxavam de frouxo e tibio; e de gazeta na mão havia muito que lhe dictavam, do obscuro canto do paiz em que viviam, a estrada direita, de que elle, porém, a cada passo se desviava.

Apesar d'isso, o partido conservador e o reaccionario, julgando-o por os seus primeiros discursos, continuavam, de boa ou de má fé, a acoimal-o de impio, de republicano e de pedreiro livre.

O brazileiro entrou em dissertação a respeito de todas as medidas politicas a que alludira.

Segundo o costume, ninguem o entendeu.

Ia elle no mais enredado da sua meada oratoria, quando o som de um tropear de cavallos o interrompeu. Mestre Bento, que fôra espreitar á porta, voltou-se, exclamando:

—Elle ahi vem! ahi vem o conselheiro!

Todos se levantaram pressurosos para correrem á porta. O que mais de má vontade o fez foi ainda assim o brazileiro.

Dentro em pouco todos se descobriam. Parava á porta o conselheiro, que montava um soberbo cavallo branco, e ao lado d'elle Angelo, n'um pequeno baio de fórmas elegantes e olhar vivo.

O conselheiro cortejou com affabilidade palaciana os seus amigos e patricios, dizendo a cada um uma phrase lisonjeira, que dissipou quasi todo o effeito da conversa que descrevemos.

Depois, fazendo signal ao filho de que podia seguir para casa, dispoz-se para entrar na venda.



XII


O conselheiro levou a sua attrahente amabilidade até se sentar nos bancos de pinho do estabelecimento de Damião Canada, envernizados já pelo uso de muitos annos.

Entre os circumstantes era qual mais o cumprimentava e opprimia com attenções e o flagellava com obsequios.