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A Morgadinha dos Cannaviaes / (Chronica da aldeia) cover

A Morgadinha dos Cannaviaes / (Chronica da aldeia)

Chapter 20: XV
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About This Book

A rural chronicle portraying life in a northern province through close scenes of landscape, local customs, and social relations. It follows an urban visitor adjusting to provincial conditions and presents domestic rituals, farm routines, festivals, and everyday talk; episodes combine gentle humor, moral reflection, and sentimental incidents such as courtship and family obligations. The narrative alternates descriptive passages of nature and village topography with anecdotes and conversations that reveal class contrasts and traditional values, producing a textured account of countryside rhythms, communal ties, and the tensions between city habits and provincial ways.

Que quantos até dois annos
Em Belem fôssem nascidos,
E toda a sua comarca
Matassem a ferro frio

Sem excepção a pessoa
Que nos districtos se achasse,
Entendendo d'esta sorte
Que nós lhe não escapassemos.


—Olhem que semsaboria!

Esta divisão administrativa e judicial, em districtos e comarcas, que o auctor fez na Judéa e que tanto parecia revoltar Angelo, era uma d'estas liberdades shakspeareanas, que se devem perdoar aos genios.

—E não foi assim?—perguntou Ermelinda, que não percebia ainda o motivo dos reparos de Angelo.—Pois Herodes mandou matar todas as creanças da Judéa; então não mandou?

—Mandou, mandou; mas a Fama é que devia contar isso melhor.

—Melhor?! Então não é bonito esse verso?

E Ermelinda, tirando o manuscripto das mãos de Angelo, leu a seguinte quadra:


Para livrarem seus filhos
Da morte dos innocentes,
Dos braços faziam cruzes
Aquellas mães impacientes.


Os instinctos populares da filha do Cancella perceberam a belleza, talvez um pouco rude, do tocante quadro, que estes versos exprimem.

Esta pequena contenda litteraria entre duas creanças podia dar margem a profundas reflexões a quem para ellas estivesse disposto.

Angelo estava no principio de uma educação esmerada. Principiára já a desenvolver-se n'elle a intelligencia, e a acordar os instinctos artisticos que estremeciam já sob as primeiras seducções da fórma. N'estas épocas criticas, em que esses segredos se revelam, é tal o encanto em que elles nos trazem que exclusivamente nos votamos ao novo culto, com a fanatica intolerancia. Onde as louçanias do estylo, os primores e a sonora harmonia do metro, e o brilhantismo das imagens nos não afagam os sentidos, recusamos demorar a vista; e escapa-nos assim na sombra muita belleza real, ás vezes occulta sob a grosseira revestidura da poesia ou narrativa popular.

É necessario que passe o enthusiasmo, a violencia da paixão nascente, que venha a frieza de animo necessaria á imparcialidade do juizo, para que nos não cause repulsão a aspereza, e grosseria até, da fórma e consigamos apreciar o bello que por ventura n'ella se envolva.

Dá-se com a belleza da ideia e da fórma de qualquer obra litteraria, o que se dá com a belleza moral e a belleza physica de uma mulher.

Ambas são feitas para nos commoverem e dominarem. Mas, quando o assomar de um sentir novo começa a alvoroçar o sangue do adolescente, quando fórmas vagas e formosissimas principiam a encantar-lhe os sonhos de suas noites febris, a paixão da fórma domina-o; por ella sacrifica tudo; uma modelação perfeita, um delineamento gracioso poderá decidir da sua vida inteira, e na fascinação que o cega, nunca verá a formosura da alma, que se abriga n'uma pouco feliz encarnação. É que para apreciar a belleza moral, para a vêr transparecer, através do involucro exterior é preciso deixar passar a vertigem dos primeiros momentos, ou não a ter ainda experimentado.

Por isso na infancia e nas idades viris é que melhor se apreciam essas fealdades, que escondem um coração angelico. A adolescencia é impiamente cruel para com ellas.

Por uma lei analoga é o povo, o simile da creança, porque não tem os sentidos educados para as mais subtis bellezas da fórma, e é o homem a quem ella já não fascina, embora ainda e sempre o deleite, como poderosissimo elemento de belleza litteraria,—são estes os leitores que mais aptos estão para avaliarem uma ou outra inspiração que, entre muitos desvarios, tem a humilde musa que visita a cabana do lavrador ou a officina do artista.

Apesar da defeza de Ermelinda, Angelo não perdoou ao auto.

—Sabes que mais? Não decores isso—disse-lhe elle resolutamente.

—Meu pae quer.

—O que é que quer teu pae?

—Quer que eu entre no auto.

—E has de entrar. Quem te diz que não?

—E quer que seja a Fama.

—E has de ser a Fama.

—E não hei de falar?

—Has de falar. Tinha que vêr uma Fama que não falasse. Para que lhe serviriam as cem bôcas?

—Então?

—Então; é que não é forçoso que digas o que ahi está.

—E que hei de eu dizer?

—Outra coisa.

Ermelinda olhava Angelo admirada, sem conseguir comprehendel-o.

—Outra coisa! repetiu ella, instinctivamente.

—Olha, proseguiu Angelo.—D'aqui até chegar o dia do auto vae muito tempo. Eu te darei outros versos para estudares, em logar d'esses.

—E onde os tem?

—Eu os procurarei. Não digas tu nada. Basta que no dia recites, em vez d'esses, os que eu te der!...

—Mas que dirá meu pae e o sr. Pertunhas?

—O mestre de latim? Pois que tem elle com o auto?

—É quem ensina como a gente ha de dizer.

—Ah! sim? Pois para que elle nada diga, guarda para a occasião os versos que eu te arranjar. Até ha de ter graça vêr a cara com que elles ficarão todos, quando lhes sair uma coisa bem differente do que esperam.

—Mas... diga: onde é que vae buscar esses versos?

—Não sairei da aldeia para isso. N'uma visita que d'aqui vou fazer, conto obtel-os. Agora falemos de outra coisa. Que é de teu pae?

—Saiu a levar umas encommendas. Minha madrinha, d'alli defronte, está para a igreja e meu padrinho nas hortas. E eu vou tratar do jantar de meu pae.

—Pois vae, que eu faço-te companhia.

E Angelo seguiu-a á cozinha, e ahi, ella sentada na soleira da porta a escolher hortaliça, elle a dar de comer aos coelhos e ás gallinhas, se entretiveram a conversar.

Angelo falou-lhe de Lisboa, dos theatros, contou-lhe enredos de dramas que o tinham commovido; typos e situações de romances, que se lhe haviam gravado na memoria; invenções da arte moderna, versos, anecdotas, contos.

Ermelinda era toda ouvidos a escutal-o.

Passadas horas, Angelo levantou-se e despediu-se, para sair.

—Onde é que vae?

—Vou visitar Augusto, que deve estar agora em casa.

—E ainda o não viu?

—Ainda não. A minha primeira visita foi esta.

—Então vá, que elle deve estar morto por o vêr. Ah!... já sei a pessoa a quem vae pedir os versos!

—Quem te disse que Augusto os fazia?

—Eu vi-o estar a escrever na parede da capella da Senhora da Saude de uma vez que eu ia levar o jantar a meu padrinho, que estava a trabalhar para aquelles sitios.

—E leste-os?

—Não, que não quiz que elle me visse. Mas que havia elle de escrever na capella? Então não adivinhei?

—Não sei. Adeus.

—Diga.

—E chamavas-me curioso!

E Angelo saiu apressadamente.

Momentos depois estava com Augusto.

A conversa entre ambos teve toda a intimidade da de dois affectuosos amigos.

Angelo fez a narração dos episodios da sua vida de collegio; das difficuldades e das bellezas dos seus estudos n'aquelle anno. Augusto, que da aldeia com elle os seguia, passo a passo, interrogava-o sobre algumas dúvidas que tinha, e esclarecia ás vezes tambem, graças á sua poderosa penetração e natural lucidez, as que o ensino do collegio havia deixado no espirito do seu antigo discipulo.

A geographia e a historia, que eram as disciplinas estudadas n'aquelle anno por Angelo, deram assumpto a grande parte d'este dialogo.

Augusto inclinára-se aos estudos historicos, inclinação em que o herbanario o entretinha com frequentes presentes de livros d'aquelle genero.

Em exame de livros novos, referencias a outros lidos, e leituras de alguns mais apreciados, passaram os dois grande parte da manhã, até que por fim Angelo disse a Augusto:

—Ah! é verdade! Tenho um favor a pedir-lhe.

—Qual é?

—Sabe que está para breve o dia dos Reis?

—Sim.

—E portanto o auto com que o povo d'aqui o festeja; aquelle auto em que o Herodes faz tremer meio mundo?

—Bem sei—respondeu Augusto, sorrindo.

—Este anno teremos a Linda a fazer de Fama. Fama bonita, por certo; mas se soubesse os versos que lhe deram para recitar!

E Angelo reproduziu, como pôde, as quadras do monologo da Fama no auto dos Reis.

De quando em quando passava um sorriso pelos labios de Augusto.

—Eu já conhecia isso. É o costume—disse elle no fim.

—Mas não lhe parece que de uma Fama como aquella, se devia esperar melhor do que isto?

—E então que quer que eu lhe faça?

—Outros versos para o logar d'estes.

—Outros!... Eu?...—perguntou Augusto.

—Por que não?

—Que lembrança!

—Não me venha negar que os faz.

—Versos?

—Sim.

—Quer dizer que os leio.

—E que os escreve. Vamos. Mas se insiste em recusar, diga-me então quem é que os escreveu na parede da capella da Senhora da Saude, para eu me dirigir a elle.

—Então houve quem escrevesse versos na parede da capella?—perguntou Augusto, sorrindo.

—Não que eu visse; mas já duas pessoas m'o affirmaram, e as suspeitas de ambas recaíram no mesmo homem.

—Quem foram essas pessoas?

—De uma o ouvi agora mesmo. Foi Ermelinda.

—Ah!

—A outra foi Lena.

—Le... A sr.a D. Magdalena?

—É verdade, minha irmã. E estranhou, com razão, que eu o não soubesse.

—E como o soube ella?

—Leu-os, e pela leitura conjecturou o auctor.

Augusto calou-se como absorvido por um pensamento, que todo o preoccupava.

Angelo continuou falando, sem que fôsse escutado; a final concluiu, dizendo:

—Então quer falar ao poeta da Ermida para que me dê o que lhe peço?

—Poesia não lhe pode elle dar, agora se... alguns versos o satisfazem...

—Sim, sim, venham os versos; que a poesia eu a procurarei n'elles, até a achar. Desde já lh'os agradeço.

—A elle?

—A ambos—respondeu Angelo, rindo.—E agora diga-me, Augusto: Ainda está resolvido a viver aqui sempre enterrado? Não pensa em mudar de vida?

—Nenhuma outra me namora mais; o destino que a bondade da morgada me offerecia... não tenho coragem para acceital-o. Assusta-me o peso do crepe.

—Nem eu lhe digo que deva acceitar esse. Mas o Augusto não terá amigos que ajudem a seguir outros destinos menos obscuros do que este e menos pesados do que o que o legado lhe impunha? Meu pae já ...

—Que quer? Não me posso vencer até pedir ou acceitar de outrem auxilios, quando Deus m'os não tem recusado ainda; nem sei até se esses destinos, que diz menos obscuros, me fariam mais venturoso. Ha indoles que nasceram affeiçoadas para a obscuridade. Incommoda-as a demasiada luz. Umas plantas querem ar, e sol e luz; outras vivem ahi em qualquer canto escuso e obscuro, e lá mesmo dão flôr. Porque é isto não sei, mas...

—Sei eu—disse uma voz da parte de fóra da janella, junto da qual se passára o dialogo...

Voltaram-se os dois ao ouvil-a. A figura do herbanario desenhava-se no vão da janella, como um retrato de velho n'um caixilho de galeria.

—Ah! o tio Vicente!—exclamou Angelo, correndo-lhe ao encontro.

O herbanario encostou-se, ainda de fóra, ao peitoril da janella, ficando assim com meio corpo para dentro da sala.

—Viva o nosso doutor—disse elle, sorrindo, a Angelo.—Por emquanto ainda esse coraçãozito está como era. Não esqueceu os seus amigos da aldeia.

—Está como sempre estará—respondeu Angelo.

—Sempre!—repetiu o velho.—Sempre e nunca são duas palavras de terrivel significação... Mas emfim... de bom metal é o coração, assim o não enferrugem os ares da cidade, como ao de... como ao de tantos...

E mudando subitamente de tom, disse para Augusto:

—Com que dizias tu que não sabes porque algumas plantas vivem de pouca luz e de pouco ar, ahi em qualquer buraco do muro? É porque vivem muito pelas raizes essas. As plantas vivem do ar pelas folhas e vivem da terra pelas raizes. Lá diz aquelle livro da Historia Natural que eu tenho. Umas prendem-se pouco ao chão; precisam, pois, de se abrirem muito ao ar para poderem viver; outras porém, profundam tanto a terra, com tantas raizes se seguram, que d'ellas lhe vem todo o sustento e não desdobram muitas folhas, nem crescem em grandes ramos para o ar. Como umas e como outras ha homens no mundo. Tu és dos que deixam ganhar raizes ao coração e d'ellas vivem. Que te importa o mais? essas grandezas que os outros procuram? Mas é preciso cautela, rapaz! Ha corações como a hera, que onde quer que se encosta, prende-se com raizes. Quem é assim deve dirigir com prudencia as suas inclinações. Se para mau lado dobra, se se encosta a arvore de preço... mal d'elle! que o separarão com fôrça, fazendo-lhe estalar todas as raizes, que o prendiam.

As palavras de uma obscuridade sibyllina, ditas pelo herbanario, parecia terem um sentido para Augusto, que visivelmente se perturbou ao ouvil-as.

—Que está ahi a dizer, tio Vicente!—disse Augusto, sem ousar fitar o velho.

—Nada. Tonterias de velhice. A prudencia, que os annos dão, vê longe e fundo, rapaz... É verdade que... ás vezes... o arrojo dos mocos é tambem guia feliz... Anda lá com a tua estrella, anda. Ao que já vejo, não sei se te possa chamar louco... como ao principio não duvidei fazel-o. É certo que é pouco seguro o terreno, em que sustentas os teus castellos.

—Os meus castellos! Que castellos faço eu?

—Não hei de ser eu que t'os mostre... Só te quero avisar que não ponhas grande fé em sonhos... Lembras-te do que se passou no monte da ermida?

—No monte da ermida?

—Não viste por lá no outro dia uns signaes de trovoada? A inconstancia é sempre de receiar. O que n'aquella manhã se passou, o que então vi...

—Que viu?... Que se passou?

O herbanario demorou por algum tempo o olhar em Augusto e com tal expressão, que o obrigou a desviar o seu; depois accrescentou:

—Nada; o que todos os dias acontece. O céo azul fez-se pardo, a luz clara cobriu-se de sombras, os raios do sol tornaram-se torrentes de chuva. Pois não te lembras?... E tudo devido a uma mudança... de vento... a uns ares que vinham do sul...

Augusto não entendia ou fingia não entender estes mysteriosos dizeres do herbanario. Angelo estava distrahido devéras.

O velho voltou-se, de subito, para este, perguntando-lhe:

—Tem ido ao mosteiro o hospede de Alvapenha?

—Esteve lá hontem.

—É amigo das creanças?

—Parece-o.

—Conta muitas historias ás senhoras?

—Entretem-as bastante.

—E ao... e a teu pae? Ouve-o com attenção?

—Conversaram muito toda a noite.

O herbanario parecia ligar grande valor a estas perguntas, porque a cada resposta obtida, abanava pausadamente a cabeça com certo ar meditativo.

Augusto relanceava tambem para a fronte, meio contrahida, do velho um olhar entre curioso e timido.

O herbanario proseguiu:

—Emfim... A desconfiança é um achaque de velhice e nem sempre os mais felizes são os mais acautelados. Deus que vele, se os bons lhe merecem ainda a graça da sua protecção.

—O tio Vicente desconfia do primo Henrique? perguntou Angelo, rindo.

—Primo?!—repetiu o velho, admirado.

—Primo lhe chamamos nós, porque a tia Victoria teima que, sendo elle sobrinho da tia Dorothéa, é nosso primo tambem.

—Ah? Já ahi vamos? E Lena?...

—Lena, Christe, todos lhe chamam por lá assim.

O herbanario poz-se a murmurar algumas palavras inintelligiveis, terminando por estas:

—E, como no Egypto, é o vento sul que traz a praga dos gafanhotos. Mas Deus que vele, Deus que vele. E eu não me demoro mais, que vou ainda d'aqui aos pardieiros de Cernuche.

—Á caça dos sapos, tio Vicente?—perguntou Angelo, gracejando.

—Não, que não é agora o tempo—respondeu, sisudo, o velho.

—Dos sapos! Galante caça, na verdade!—continuou Angelo no mesmo tom.

—Galante não será ella, pequeno,—respondeu o velho;—mas abençoada a chamarias se te torcesses no leito com as dores do carbunculo, que não ha remedio mais efficaz para o curar, do que a pelle d'estes animaes sêcca ao ar livre.

—E a das toupeiras? O tio Vicente tambem caça toupeiras?

—Em seu tempo. Oh! a toupeira é animal de abençoadas virtudes! Basta que um dente que se lhe arranque, estando ella viva, trazido ao pescoço, cura a mais desesperada dor de dentes.

—Não deve ser facil operação a de tirar os dentes ás toupeiras—tornou Angelo.

O herbanario continuou:

—A quinta essencia das toupeiras é milagrosa contra cancros e herpes.

—A quinta essencia das toupeiras!—repetiu Angelo, rindo.

—Não rias, creança—acudiu severamente o herbanario.—Que não é bonito rir do que os homens doutos asseguram. Eu já o experimentei, logo que o li n'aquelle grande livro da Polyantheia, livro como se não faz hoje outro.

—E como é que se tira a quinta essencia a uma toupeira, tio Vicente?

—Tomam-se as toupeiras e queimam-se até as fazer em cinzas. Mistura-se a estas cinzas o sumo de celidonia maior, até haver quatro dedos de sumo acima das cinzas. Mette-se tudo n'um vidro bem fechado, que se enterra por dez dias e... e... Bem, bem. Elle ri!... Tolo sou eu em gastar tempo e paciencia com creanças.

—Espere, espere, tio Vicente... Não vá embora... Então depois de enterrar tudo isso, que se faz?

—Até logo... Pede a Deus que nunca te seja preciso fazer a pergunta com menos vontade de rir.

—E assim vae sem me dar um remedio! Olhe, tio Vicente, eu padeço ás vezes de um somno tão pesado que me não deixa estudar.

O herbanario voltou-se e, com toda a seriedade, respondeu:

—E julgas que não sei de remedio para isso? Experimenta e verás. Mette um ou dois morcegos debaixo dos travesseiros e eu te affirmo que... Mas adeus, que se me faz tarde e d'aqui a Cernuche é uma legua.

E o herbanario retirou-se, meio agastado com o scepticismo de Angelo e sobraçando a caixa de lata e o sacco dos seus thesouros medicinaes.

Angelo e Augusto ficaram rindo da sciencia e das singularidades do velho, riso em que não entrava, porém, o menor laivo de malignidade; porque ambos tinham pelo velho uma verdadeira estima, que elle bem lhes merecia, pois sempre do coração o achavam votado a seu favor.

O dialogo de Angelo e de Augusto prolongou-se ainda, até ás horas do jantar.


XIV


Eu não sei se esta historia terá leitor tão mal aventurado, que não possua recordações e saudades associadas á noite de Natal, áquella festiva e abençoada noite, em que as ruas e os logares publicos se despovoam, e nos lares domesticos parece crepitar e scintillar o fogo mais acalentador do que nunca. Se algum desherdado da fortuna ha ahi que não saiba o que é a festa das consoadas em familia, esse que não leia este capitulo, que n'elle não encontrará prazer. Se alguns as gosaram já n'outros tempos, porém hoje erram a essas horas pelas ruas solitarias, olhando com inveja para cada raio de luz que rompe das frestas de tantas janellas discretamente fechadas, ouvindo commovidos o ruido das alegrias que vão no seio das familias, e pela phant Eu não sei se esta historia terá leitor tão mal aventurado, que não possua recordações e saudades associadas á noite de Natal, áquella festiva e abençoada noite, em que as ruas e os logares publicos se despovoam, e nos lares domesticos parece crepitar e scintillar o fogo mais acalentador do que nunca. Se algum desherdado da fortuna ha ahi que não saiba o que é a festa das consoadas em familia, esse que não leia este capitulo, que n'elle não encontrará prazer. Se alguns as gosaram já n'outros tempos, porém hoje erram a essas horas pelas ruas solitarias, olhando com inveja para cada raio de luz que rompe das frestas de tantas janellas discretamente fechadas, ouvindo commovidos o ruido das alegrias que vão no seio das familias, e pela phantasia creando em cada morada um mundo intimo de affectos e de venturas, como o de que a sorte os privou, que esses me perdoem as amargas saudades, que por ventura lhes avive assim.

É certo que não ha noite mais alegre; alegre d'esta alegria que vae direita ao coração, sem perturbar os sentidos com fumos de embriaguez; alegre d'esta alegria candida a que o homem é sujeito do berço á velhice, a qual respeitam os estos das paixões, na idade d'ellas, e o gêlo do egoismo, no declinar da vida.

Bem escura, bem ventosa, bem fria e humida surjas tu sempre, noite de vinte e quatro de dezembro, que melhor então se avaliará pelo contraste a luz, o calor, o conchêgo dos lares, e mais intimos se estreitarão os circulos da familia em roda da ceia patriarchal.

E vós todos, a quem uma moda tôla não constrangeu ainda a abandonar os habitos que de pequenos contrahistes, e festejaes ainda o Natal de Christo, segundo o estylo velho, continuae a manter genuinos esses costumes nacionaes, que não resultará d'ahi desdouro para o vosso nome ou brazão. A roda da civilisação, a que applicaes hombros com tanto denodo, não se cravará por isso.—Podeis, elegantes meninas, cantar lôas sem escrupulo deante do presepe armado na sala mais intima da casa, que nem por isso cantareis peor na das visitas as arias italianas, que aprendestes no collegio; não córeis de collaborar, por excepção, esta noite nos mesteres da cozinha, que sobra de agua de colonia e perfumes tendes no toucador para as abluções purificatorias. Homens graves, a republica perdoar-vos-ha uma pequena infidelidade, a politica do paiz e da Europa não periclitará desnorteada se, por um pouco, lhe negardes a vossa attenção; humanisae-vos pois uma vez por anno, e baixae ao seio da familia os olhares, que ponderosos empenhos vos trazem sublimados.—Entrae com as creanças em jogos pueris e faceis, que não destemperareis a intelligencia para as philosophicas cogitações do boston e do whist.

A familia do Mosteiro era fiel ás classicas usanças d'esta noite tradicional. E n'aquelle anno sobretudo as festas das consoadas deviam ser coisa falada, graças ao plano de D. Victoria de reunir no Mosteiro a resumida familia de Alvapenha; plano que vimos approvado por acclamação por toda a assembleia presente.

D. Dorothéa veio effectivamente na companhia de Henrique de Souzellas e de Maria de Jesus.

Foram recebidos no Mosteiro por uma completa ovação das creanças.

D. Dorothéa viu-se litteralmente enlaçada em braços infantis, que lhe tolhiam os movimentos e que, dizia ella, quasi ameaçavam asphyxial-a.

Tudo isto dava motivo a exclamações e risos, que inauguraram um estado de coisas, o qual nunca mais devia cessar aquella noite.

A balburdia, a azafama festiva que ia no Mosteiro é indescriptivel. Na cozinha, nas salas, nos corredores tudo era movimento e ruido.

Aqui eram as creanças jogando, a pinhões, o «par ou pernão» e o «rapa», jogos popularissimos e de occasião, que, de tão conhecidos, dispensam o trabalho de descrevel-os. Estes jogos, como é de prever, não se executavam sem um concurso de vozearia e de algazarra, que desafiava a impaciencia de D. Victoria, a qual, segundo o costume, ia, pelo que se passava na sala, ralhar com os criados á cozinha.

No aposento immediato ao quarto de D. Victoria, armára-se o presepe, deante do qual ardiam seis vélas de cêra em castiçaes de prata maciça.

As duas velhas senhoras, D. Dorothéa e D. Victoria, encetaram logo no principio da noite uma longa e devota reza, meio recitada, meio cantada, a qual se continuava com uma interminavel enfiada de Padre-Nossos e Avé-Marias, a que respondia, em côro, a parte feminina, da familia, as creanças e as criadas.

Corypheu era a senhora de Alvapenha, que em voz trémula e quebrada pela idade, entoava em singela cantilena coplas como esta:


Ó infante suavissimo,
Vinde, vinde já ao mundo
Livrar-nos do captiveiro
D'este jazigo profundo.


E seguia-se um Padre-Nosso e uma Avé-Maria.

Angelo havia ao principio, com as suas travessuras, desordenado um pouco o andamento regular das rezas, mas D. Victoria tomou o heroico expediente de o expulsar do congresso, e tudo serenou.

Á sala, onde Henrique de Souzellas conversava com o conselheiro em assumptos, todos d'esta vez longe da politica, chegaram as surdas harmonias d'aquellas cantigas e rezas. Henrique mostrou curiosidade de saber o que era aquillo. O conselheiro, sorrindo, convidou-o a seguil-o para por si proprio se poder informar.

E, tomando por aposentos interiores, conseguiram ambos introducção na sala da novena justamente ao lado de D. Victoria e de D. Dorothéa, que, de embebidas que estavam nas suas orações, nem por elles deram.

O conselheiro e Henrique ajoelharam sisudamente ao lado d'aquellas boas senhoras, e quando após um dos Padre-Nossos, ditos por D. Dorothéa, se devia seguir a resposta do côro feminino, este emmudecido, com a chegada dos dois, a qual desafiára risos a custo suffocados, foi substituido por um dueto de vozes masculinas, que sobresaltaram primeiro, e escandalisaram depois ambas as sisudas senhoras.

O tumulto que o episodio produziu fez attrahir as creanças; D. Victoria teve muito que fazer, muito que reprehender o cunhado, muito que ralhar com os filhos e com o sobrinho, muito que carpir-se com D. Dorothéa, muito que recriminar os criados, rindo-se, bem a seu pesar, no meio de todas estas tarefas.

Terminou confusamente a novena com tal occorrencia. Os desordeiros sómente capitularam, consentindo em retirar-se, quando lhes prometteram que se encurtaria a lista dos Padre-Nossos. Henrique voltou com o conselheiro a admirar o primor que a paciencia de um artista imaginoso realisára na confecção do presepe, onde estavam representados todos os episodios da natividade de Jesus, e muitos outros.

Era effectivamente uma complicada machina aquelle presepe, e seria prova de profunda indifferença artistica passar por elle sem um exame, embora fugaz.

Este traste antiquissimo na familia gosava de nomeada n'um circulo de leguas em redor. Havia empenhos para o vêr no tempo do Natal, e se algum viajante estacionava dois dias na aldeia, encontrava sempre quem lhe recommendasse o visitar o presepe, como coisa digna de vêr-se.

Consistia elle n'uma espécie de santuario de pau preto, no meio do qual havia uma pequena gruta toda cravejada de caramujos, e rosas de papel, com estames de fio de prata. Dentro d'essa gruta estava deitado o menino Deus, não sobre umas palhas, como a tradição refere, mas graças aos impulsos do compadecido coração de D. Victoria, que, ainda que tarde, parecia tentear um lenitivo aos antigos rigores da humanidade, em uma bonita cama de lençoes de renda com cercadura dourada; colcha de setim bordado, e colchão e travesseiro da mais macia penugem de aves americanas. Ao lado, Nossa Senhora e S. José, de proporções quasi iguaes ás do menino; mais longe a vacca e a mula tradicionaes. Os episodios porém eram inquestionavelmente o mais interessante da obra. Varios grupos de pastores, soldados e fidalgos de todos os tamanhos, feitios e vestuarios, ornavam a scena. Alli um cego tocador de sanfona; um grupo de gallegos dançando, ao som da gaita de folle; uma pastora com ovos mais adeante; ao lado, um grupo celebrando um pic-nic, perfeita actualidade, tudo em mangas de camisa, com gravata, e botas de cano;—outros fumando e bebendo cerveja. Uma amazona ingleza, com o seu Jockey, galopava pelas cercanias de Bethlem; um vareiro e uma vareira caminhavam a par com offertas para o menino. Ao longe, nos visos da serra, appareciam os tres Reis Magos, que deviam levar dez dias a chegar abaixo.

Não esqueceu ao inspirado auctor d'aquelle monumento esculptural os muros de Jerusalem. Elles lá estavam coroados de ameias e de milicianos fardados á ingleza e armados de lanças e arcabuz. Eram gigantes aquelles guerreiros, pois, não obstante estar a muralha no plano do fundo do quadro, qualquer d'elles era duas vezes maior do que as figuras do plano da frente. No alto da muralha arvorava-se a bandeira portugueza. Havia varios santos espalhados pelas agruras d'aquellas montanhas, e, entre os additamentos feitos pela devoção de D. Victoria ao presepe, contava-se o de um Santo Antonio de Lisboa, que, apesar de thaumaturgo, parecia muito admirado de se vêr n'aquelle tempo e logar. Um gallo colossal soltava do telhado do presepe o grito annunciador, anjos e cherubins espreitavam do céo por entre nuvens de algodão e estrellas de ouropel. Era um prodigio!

Descrevendo rapidamente esta maravilhosa fabrica, sentia eu vivo orgulho de ter revelado ao mundo uma preciosidade sem igual, e a que a unanime admiração faria cêdo ou tarde justiça; tive porém de abandonar esta lisonjeira idéa, ao achar-me precedido por um dos romancistas mais justificadamente populares da nação vizinha. Das paginas de um delicioso quadro de costumes de Fernan Caballero, a eminente escriptora de que a Andaluzia se ufana, conheci eu serem não sómente nacionaes, mas peninsulares pelo menos, estes modelos de presepes, com os seus ingenuos anachronismos, cunho irrecusavel que o povo imprime a todas as suas obras de arte. Onde falta o anachronismo, falta a assignatura do povo.

Em todo o caso era digno da menção que d'elle fizemos o presepe do Mosteiro.

Emquanto Henrique e o conselheiro o estudavam por miudo, D. Victoria fizera desfilar o cortejo das criadas para a cozinha, onde urgia o serviço, e seguindo-as ia-lhes demonstrando que eram as peores criadas do mundo, por isso que, tendo tanto que fazer, perdiam tempo a cantar lôas deante do presepe. D. Dorothéa cêdo tomou com Magdalena e Christina o mesmo caminho.

O conselheiro e Henrique ficaram nas salas com os pequenos, e com elles entraram em jogos, como se fôssem creanças tambem.

O aspirante a ministro, o deputado, o orador, o homem grave e sério das salas de Lisboa perdera todo o ar diplomatico: agora era sómente o homem da familia; pueril, travesso, alegre, folgazão.

—Meu caro,—dissera elle a Henrique no principio da noite—vou fazer-lhe um pedido. Hoje deve ser banido o menor assumpto politico, a menor discussão séria. Deixe-se correr frivola a conversa da noite, o contrario seria uma profanação, que attrahiria sobre nossas cabeças as justas iras dos anjos domesticos que n'estas noites andam invisiveis misturados com a familia.

—Apoiado,—respondeu Henrique;—acceito e comprometto-me a cumprir a proposta.

Henrique possuia em alto grau o talento de se tornar agradavel. Comprehendendo que eram sinceros os desejos do conselheiro, tão frio e pueril conseguiu mostrar-se, que todos o tratavam como membro da familia, e ao proprio conselheiro parecia já impossivel que ainda fôssem tão recentes as suas relações mais intimas com aquelle rapaz.

—Animo, sr. conselheiro,—dizia-lhe Henrique, no momento em que elles ambos estavam empenhados a jogar a cabra cega com os pequenos.—Coragem, que temos gloriosos exemplos a animar-nos; até, entre outros, o do meu homonymo Henrique IV. É sabido o episodio recordado por uma gravura celebre.

O conselheiro secundava-o, rindo: graças a estes jogos, a sala estava dentro em pouco em desordem; os moveis fóra da sua posição, o chão alastrado de cascas de pinhões, que estalavam sob os passos, os tapetes desviados, as cortinas soltas.

Já por noite avançada, disse o conselheiro para Henrique:

—Falta-nos ainda um artigo importante do ritual d'estas festas, o principal. É dirigir uma visita á cozinha. Porque a obra principal d'esta noite é fazer uma ceia e não comel-a. Por isso convido-o a acompanhar-me lá.

—Com tanto mais vontade, que estou ha muitos dias compromettido a isso com as senhoras.

—N'esse caso é tempo.

E ambos tomaram pelo corredor, que conduzia á cozinha.

Escusado parece dizer que turba infantil os seguiu tumultuariamente, annunciando-os ao longe com risadas e gritos de alegria.

A cozinha do Mosteiro era uma digna cozinha de frades. Occupava um vasto recinto rectangular, rasgado em amplas janellas e fornecido de bancas monumentaes, condizendo com a estupenda chaminé, que parecia ainda saudosa dos odoriferos vapores que outr'ora espalhavam os tachos e as grelhas monasticas.

Ia indizivel animação na cozinha, quando Henrique ahi entrou com o pae de Magdalena. Era um barafustar de criadas, um chiar de certãs, um borbulhar de caçarolas e tachos, um tinir de pratos, um tilintar de crystaes no meio de uma babel de ordens, de perguntas, de reclamações, de conselhos, todos attinentes a negocios culinarios. E D. Victoria ralhava, e a sr.a de Alvapenha promulgava preceitos, e Maria de Jesus desdenhava do serviço das collegas, e Magdalena e Christina riam de todos e de tudo, e Angelo a todos impacientava.

Não se imagina!

A chegada do conselheiro e do seu hospede veio exacerbar a desordem. Ergueram-se risos e exclamações, as quaes ainda assim eram subjugadas pelos reparos e censuras de D. Victoria, a qual dizia para o conselheiro:

—Sempre o mano tem coisas! Olhem agora para o que lhe havia de dar! Vão lá para dentro, vão. Não venham atrapalhar-nos mais ainda do que estamos. E o primo Henrique tambem! Ora esta!...

—Não se afflija, mana. Nós não podiamos resignar-nos a ficar alheios á tarefa principal do dia. E até porque é necessario dar andamento a isto para chegarmos a tempo da missa do gallo.

—Pois querem ir á missa do gallo?

—Está de vêr que sim.

—Eu tambem vou—disse Christina.

—E eu—acudiu Magdalena.

—Mais um, que irá tambem—disse Henrique.

—E eu, e eu—accrescentaram differentes vozes.

—Ai, minhas encommendas!—suspirou D. Victoria.—Então por que não disseram isso logo? Agora como ha de ser?

E saiu em direcção á sala da ceia a dispôr as coisas.

É preciso que se diga que D. Victoria vivia na candida illusão de que era ella quem fazia tudo em casa, emquanto que manda a verdade declarar que nunca mais regularmente corriam as coisas domesticas do que quanto dormia esta aliás excellente senhora.

—Mãos á obra, sr. Henrique!—bradou o conselheiro, insistindo na resolução com que viera.

—Prompto—respondeu Henrique.

—Então? então?... Que vão fazer?—perguntava D. Victoria, afflicta, voltando á cozinha.

—Querem vêr que preparos?!—dizia D. Dorothéa, sorrindo e olhando com curiosidade para o que faziam os dois.

—Cumpro uma promessa que fiz a estas senhoras, minha tia—dizia Henrique, approximando-se da banca, perto da qual trabalhavam Magdalena e Christina.

—É verdade que sim,—acudiu Magdalena—e eu exijo o cumprimento da promessa.

—Vamos lá, sr. Henrique,—tornou o conselheiro—acceite-me alguns preceitos da pratica. A regra é fazer tudo o mais indigesto possivel; porque essa qualidade é o caracteristico dos manjares d'esta noite.

—N'esse caso, vejo que nasci para cozinhar a ceia do Natal, pois desafio o melhor estomago do mundo a que subjugue os meus guisados com os seus succos digestivos.

—Eu já escolhi tarefa—disse o conselheiro, tirando das mãos de Christina a colhér com que ella mexia o vaso onde se preparava o vinho quente, esse punch nacional, que n'esta noite seria uma falta imperdoavel se esquecesse no programma d'aquelle banquete.

Christina quiz resistir; mas o conselheiro venceu, e cêdo principiou a desempenhar-se d'este trabalho, no meio de hilaridade geral.

Angelo dispensou a tia Dorothéa do trabalho da preparação dos mexidos.

Henrique, seguindo o exemplo do conselheiro, e no seguimento do seu constante proposito, approximou-se da morgadinha, que n'aquelle momento se occupava a regar de calda de mel umas recentes rabanadas.

—Peço trabalho, prima Magdalena.

—Não ha falta de braços n'esta repartição, primo Henrique. Vá a outra porta.

—Agrada-me mais esta tarefa, acho-a ao alcance das minhas fôrças.

—Esta? Como se engana! Não sabe que as rabanadas são a essencia da ceia de Natal? E logo havia de confiar-lh'as?

—Ah! não ligava tanta importancia a estas representantes da pastelaria primitiva, notaveis porque recordam a infancia da arte! Emquanto a mim, já no tempo da peregrinação dos hebreus, Moysés lhes ensinava a cozinhar d'isto.

Magdalena abanou a cabeça em signal de reprehensão.

—Perdôe ás pobres rabanadas o pouco ar de moda que teem. A sua elegancia é implacavel, primo Henrique. Um indigesto manjar francez seria de melhor tom, bem sei. Até n'isso!

—Para provar que estou arrependido da minha irreverencia, consinta-me que a coadjuve, prima.

—Não pode ser; pesa sobre mim uma tremenda responsabilidade.

—Isso equivale a recusar-me o fôro de familia, que tão humildemente reclamo.

—Justamente—respondeu Magdalena.—Eu sou muito escrupulosa n'isso. Faz mal em não reclamar esse fôro de Christina, que talvez encontrasse mais disposta a conceder-lh'o.

—Mas, se me não engano, foi a prima Magdalena que primeiro me conferiu o apreciavel titulo de parentesco com que nos tratamos.

—O de primos? Esse sim; mas não tem os privilegios, que lhe quer dar.

—Que privilegios são?

—Ah!... o de collaborar n'uma ceia de consoadas, por exemplo.

—Parece-lhe, priminha, que será muito exigir o que eu peço?—perguntou Henrique a Christina, que principiára a escutal-os.

—Não ouvi—respondeu esta, córando e sorrindo, como sempre que lhe falava Henrique.

—Escusado é consultar Christina—acudiu a morgadinha—porque em muitas coisas pensa ella em opposição commigo. E n'isto...

—E n'isto...

—N'isto de attender a requerimentos, é talvez mais condescendente.

—Ao que estou vendo—disse o conselheiro jovialmente—grandes coisas se tinham passado aqui, antes da minha chegada. Vejo lavrar uma hostilidade entre Lena e o sr. de Souzellas, que me dá sérias inquietações.

—E eu julgo que não. Ao que ouvi ao Henriquinho, a primeira vez que viu a nossa Lena no Mosteiro!...—disse D. Dorothéa, com toda a indiscreção da sua ingenuidade.

Magdalena procurou acudir a tempo á corrente das revelações, a que viu disposta a boa senhora.

Veio opportunamente em seu auxilio Angelo, que tendo feito uma digressão pela sala do refeitorio, voltou com a alegre nova de que a ceia estava na mesa.

O annuncio foi recebido com apparente enthusiasmo. Suspenderam-se trabalhos, quasi completos, ultimaram-se á pressa outros, e a companhia dirigiu-se para o corredor.

Pouco depois de Angelo, chegou D. Victoria, desmentindo-o e pretendendo suster a corrente, que ameaçava invadir a sala, que ella ainda não dera por prompta. Já não era tempo. O conselheiro, tomando duas creanças ao collo, rompia a marcha, e atraz d'elle até a pacifica D. Dorothéa clamava insubordinada que não recuaria um passo.

E falando e rindo assim entraram na sala.

Estava offuscante de luzes, esplendida de louças e baixellas, enfeitada de flores e de crystaes e ennevoada dos vapores das iguarias.

Houve um grande rumor de cadeiras arrastadas, uma confusão e incoherencia de ordens de D. Victoria para marcar logares, infracções d'estas ordens, que a impacientavam, como se com isso pudésse perigar a ordem natural e social do mundo, e, como justa consequencia, caía sôbre a cabeça dos criados uma enfiada de recriminações, que elles por habito já soffriam com exemplar paciencia.

Restabelecida emfim a ordem, procedeu-se á ceia.

Ceia de Natal! abençoado banquete, ao qual todos se devem sentar nas mesmas disposições de animo em que ordenava Christo estivessem os que fôssem orar ao templo; ceia com tanto afan cozinhada, e com tão pouca vontade comida, falem embora contra ti os medicos e os gastronomos eméritos, condemnando uns a indigestibilidade dos teus cozinhados, outros o pouco delicado d'elles; reage contra as ideias novas, que veem da França e da Allemanha; cerra as fornalhas ás iguarias exoticas e furta-te ás mãos da extranha geração de Vateis, que aspiram a dominar pelos paladares o espirito nacional.

Modifiquem embora o caracter vernaculo de todas as outras refeições, mas respeitem esta, consagrada pelas memorias da familia, justificada pelo facto de que quasi não é feita para ser comida.

Assim succedia com a do Mosteiro. Apesar das instigações do conselheiro, das instancias de D. Victoria, das garantias de D. Dorothéa sobre a innocuidade dos guisados, os pratos corriam á roda da mesa quasi intactos e intactos voltavam á cozinha d'onde sairam.

Mas se se comia pouco—e de facto, á excepção de Henrique, do conselheiro e das creanças, quasi ninguem parecia haver-se sentado alli para ceiar—mas, diziamos nós, se se comia pouco, em compensação falava-se muito.

O conselheiro a todos dirigia a palavra, demonstrando uma iniciativa efficaz para baralhar e generalisar as conversas e assim conservar constante a animação. Tudo desafiava risos, o dito de uma creança, a anecdota contada por Henrique, as distracções de D. Victoria, as canduras de D. Dorothéa, os paradoxos sustentados pelo conselheiro, as allusões da morgadinha a Christina, a confusão d'esta, as maliciosas insinuações de Angelo.

Assim procedeu o repasto nocturno até á altura das saudações e dos toasts. N'esta parte, justo é confessar que Henrique e o conselheiro fôram menos abstinentes. Era difficil resistir á preciosidade dos vinhos.

Passados os reciprocos brindes entre os parentes, o conselheiro, voltando-se para Angelo, auctorisou-o a propôr tambem um brinde.

Angelo levantou-se então para brindar Augusto.

O conselheiro secundou-o, levando o copo aos labios.

—Ah! o sr. Augusto—disse Henrique, antes de beber e com certo tom de ironia.—Conheço; é uma ave rara d'estas immediações, que tem brios de cavalleiro errante sob umas apparencias de philosopho.

—Brios de cavalleiro?—disse Angelo, com vivacidade.—Inda isso não é tudo, sr. Henrique; pode accrescentar, e alma de heroe tambem.

—Pois dê-se-lhe tambem alma de heroe, e se fôr preciso até consciencia de santo. Vá á saude da phenix!

E bebeu.

Depois de pousar o copo, proseguiu com o mesmo tom anterior:

—O que vejo é que é perigoso falar com a mais ligeira irreverencia d'esta personagem; corre-se o risco de vêr voltar contra o impio, que tanto ousa, os poderes conspirados do céo e da terra. Bem; prometto acatar essa preciosidade.

—E creia—disse-lhe o conselheiro—que lhe é merecedor de toda a consideração. Augusto é um d'estes caracteres excepcionaes que vivem á sombra de uma modestia impenetravel e á sombra d'ella muitas vezes morrem. É necessario ter a vista muita exercitada n'estas explorações de almas modestas, para descobrir uma assim.

—Felizmente para os myopes como eu—proseguiu Henrique—ellas fazem ás vezes a fineza de se despojarem da sua timidez e de se mostrarem á luz. Não é verdade, prima Magdalena?

—Que admira;—respondeu Magdalena—bem occulto está o fogo na pederneira, primo Henrique, mas, percutindo-a, salta a faisca.

—Pobre rapaz;—notou a sr.a de Alvapenha—aquillo nem parece d'este tempo. O que eu não sei, primo Manuel, é porque elle se não resolveu a tomar ordens. Recusar o legado da D. Rosa!

—Não seja isso a dúvida. Elle sabe que, adoptando essa ou outra qualquer carreira, não lhe faltarão recursos para seguil-a até o fim. Devo-lhe esse auxilio, assim elle o acceitasse; mas tem um genio singular aquelle rapaz!

—É uma phenix—insistiu Henrique, ironicamente.—Vejo que não é susceptivel de discussão, impõe-se á gente como um axioma. Eu tenho habitos de livre pensador, mas... forçar-me-hei a incluir no meu credo esse dogma.

—Perdão—replicou Angelo.—Um axioma não se demonstra, e a boa alma de Augusto está todos os dias a demonstrar-se por acções generosas.

—Por favor!! Dêem como não ditas as minhas palavras! Arrependo-me da minha irreverencia, e se elle aqui estivesse, principiaria a penitenciar-me na sua presença.

—E é certo que nos falta aqui Augusto. Como te não lembraste d'elle, Angelo?

—Não viria. N'esta noite não deixaria o tio Vicente.

—Ah, sim. Esquecia-me d'aquelle pobre Vicente.

—É do herbanario que falam?—perguntou Henrique.

—Justamente.

—Outra phenix; e quer-me parecer que tambem pertence ao numero dos inviolaveis; não é verdade, prima?

—Pertence ao numero dos infelizes, primo, o que é justo considerar-se uma especie de inviolabilidade.

A resposta collocou Henrique em mau terreno, e por isso apressou-se a desviar do ponto principal da questão, dizendo:

—Infeliz? Por que lhe chama infeliz? Os visionarios como elle teem em si os elementos da propria felicidade, e ninguem possue poder de perturbar-lh'a. Além de que o herbanario gosa aqui na terra de uma certa soberania, que deve lisonjeal-o.

—E olha que nem em Lisboa ha talvez quem saiba tanto como elle em coisas de doenças e de remedios, menino,—disse D. Dorothéa, que era uma das fervorosas apologistas da sciencia do herbanario.

—É na verdade um homem singular!—disse o conselheiro.—D'antes, na noite de Natal, e em todas as solemnidades de familia, tinhamol-o tambem por commensal, que ainda é parente arredado da casa. Ha annos porém deu em tomar a peito o meu procedimento politico e em prégar-me sermões e dirigir-me censuras, que eu fazia por escutar com a possivel resignação. Mas um dia foi mais amargo nas suas recriminações e eu achava-me com maior susceptibilidade; julgo que lhe respondi com bastante acrimonia, e o homem saiu de minha casa offendido e protestando não voltar mais a ella. Procurei-o, escrevi-lhe, tentei demovel-o do seu proposito. Não houve de quê. Havia-o ferido no seu orgulho, e é intolerante n'estas condições.

—Sei-o já por experiencia;—disse Henrique—que n'uma unica entrevista que tive com elle, e que durou minutos, deu-me occasião de lhe conhecer a irritabilidade.

—Vamos, primo Henrique; talvez possa haver quem supponha que n'essa entrevista não demonstrou o primo peor do que elle possuir as qualidades de que o accusa.

—Agora—continuou o conselheiro—vão consideravelmente exacerbar-se os despeites do herbanario contra mim.

—Porquê?—perguntou Magdalena.

—Porquê?... por causa do traçado que se adoptou para a estrada.

—Então?—disseram simultaneamente Angelo e Magdalena.

—A casa e o quintal do herbanario são os primeiros cortados.

—Não pode ser!—exclamou Magdalena, com evidente expressão de susto.

Angelo dirigiu ao pae um olhar tambem inquieto.

Christina não exprimiu menos apprehensiva tristeza.

—É inevitavel. Os dois primeiros traçados tinham certas durezas. O primeiro era uma luva lançada a uma influencia eleitoral, poderosissima; o brazileiro Seabra.

—Ah!—disse Magdalena, com certa amargura na expressão e no olhar.

O conselheiro reparou n'ella e em Angelo, em cuja physionomia se não lia menos intenso desgosto.

—Estou adivinhando que meus filhos votariam por que antes se arrostasse com os despeites d'esse influente. A logica do sentimentalismo tem d'essas exigencias absolutas.

Magdalena respondeu:

—Julguei que era a da consciencia, meu pae.

—A consciencia diz-me que ha interesses superiores ás contemplações com as singularidades de um velho honrado, mas... meio tonto. Na carreira politica ceder ao coração é morrer ou ser vencido. O sentimentalismo exaggerado, Lena, tem o inconveniente de dar tanto vulto ás vezes a um sacrificio individual, que, para o evitar, não duvida prejudicar maiores e mais geraes interesses e operar sacrificios mais custosos. É muito tocante na verdade o amor de um velho pelas suas arvores e pela sua casa; porém, mais respeitavel é o bem-estar e a conveniencia de uma localidade.

—E é tão necessario para a felicidade d'esta terra o sacrificio a que se quer obrigar o herbanario?—perguntou Angelo, e Magdalena secundou com o olhar a pergunta do irmão.

—Eu te digo, Angelo—respondeu o conselheiro, levemente despeitado.—Eu tinha a vaidade de me suppôr ainda prestavel para esta gente, que me tem elegido tantas vezes. Dos nossos patricios, deixem-me dizel-o aqui em familia, não vejo ainda quem dê garantias de desempenhar o mandato, muito melhor do que eu. Chamasse eu contra mim a animadversão d'este povo, e elles, á falta de outros, acceitariam ámanhã qualquer nome inscripto na carteira do ministro; um homem que nunca tivessem visto, e que nem soubesse em que ponto da carta estava o circulo de que se propunha ser representante. Mas perdôa-me, Lena, talvez isto te esteja parecendo um censuravel excesso de vaidade.

—Não, meu pae, ninguem acredita mais do que eu no muito valor da sua influencia, mas... Ó meu Deus!... isso vae ser a morte do pobre tio Vicente! Imagine bem o que é n'aquellas idades e com aquelle genio, a grandeza do sacrificio que vão exigir d'elle?

—Custa-me ser obrigado a isso; porém...

—Valia mais esperar algum tempo. A vida d'elle não pode ser muito longa. Deixem-o morrer em paz, á sombra d'aquellas arvores a que elle quer tanto. Que importa passar mais alguns annos sem uma estrada?

—Poesia!—disse o conselheiro, sorrindo para Henrique, que lhe correspondeu.

—Perdão!—acudiu Magdalena, córando—é caridade.

—Ora vamos, Lena. Sê razoavel. Todos soffrem no mundo sacrificios maiores do que esse; eu mesmo, que me não tenho ainda assim por victima da sorte...

—E não haveria outro meio?—perguntou Angelo.—Acaso ha só esses dois logares para dirigir a estrada?

—Que antes nunca se fizesse!—exclamou Magdalena, apaixonadamente.

—Ahi temos como o sentimento me torna retrograda a minha Lena. Já clama contra as estradas como qualquer reaccionario convicto. Havia um outro traçado, mas esse ia destruir completamente os campos do Brejo.

—Ah! então esse, esse! São bens nossos!—exclamou Magdalena com vivacidade.

—São bens de Angelo, filha, e por ventura aquelles que um dia mais valiosos se tornarão para teu irmão.

—Os charcos?—disse Angelo, encolhendo os hombros—ora! Só para viveiro de rãs.

—Hoje pouco mais são do que isso, e como tal nol-os pagariam agora. Dentro, porém, de alguns annos, operados alli os trabalhos de esgoto, que eu projecto, verão em que se transforma aquillo. É exigir a um homem muita abnegação pretender d'elle que sacrifique assim os elementos da riqueza futura de seus filhos; quanto mais que as vantagens não seriam taes que...

—Não pediriamos esmola, meu pae—notou timidamente Angelo.

—Nem o Vicente a pedirá. Visto que estaes tão desprendidos de interesse, que não hesitaes em fazer-lhe sacrificio dos vossos bens, podeis ceder-lhe o sufficiente para o compensar da perda.

—Mas quem o compensará dos golpes nos seus affectos?—perguntou Magdalena.

—Tambem tu! São segredos do coração feminino essas compensações. Deixo-as á tua disposição.

—Meu pae! meu pae! se é ainda possivel atalhar-se!

—É impossivel.

—Meu tio!—secundou Christina.

—Mano! Primo!—disseram a um tempo as senhoras mais idosas.

—O que posso fazer é ir eu proprio falar com o Vicente, para o mover a consentir na expropriação amigavel, que farei que lhe seja o mais vantajosa possivel.

—E tem coração para lhe ir propôr isso?

—Dize antes se tenho coragem para arrostar com as iras do velho, e com as maldições que já sei vae sacudir sobre mim.

Lena calou-se, suspirando.

—Mas vejam a inevitavel fatalidade que me persegue!—continuou o conselheiro.—Eu, que tinha feito voto de não me entreter de negocios publicos esta noite! Ai, Lena, Lena, a culpada és tu!

—Eu?! Eu, que abomino a politica! que só ella podia fazer entrar uma crueldade no coração de meu pae!

—Ó tio, veja se faz com que a estrada vá por outro sitio!—implorou meigamente Christina.

—Tambem tu, Christe! tambem tu!

—Pudera, mano! Não, que uma coisa assim! Isso é até uma ingratidão para com um homem a quem esta aldeia tanto deve—disse D. Victoria.

—Pois não é! E logo um quintal onde cresciam tantas plantas de virtudes!—accrescentou D. Dorothéa.

—Vá vendo, sr. Henrique, como se conspiram todos contra mim. Veja como um sentimento insignificante organisa uma opposição.

—É uma lição que estou recebendo, sr. conselheiro.

—Meu pae,—insistiu Magdalena—eu espero ainda que, ouvindo o tio Vicente, se commoverá e trabalhará por alterar esse fatal plano que principia por arrancar arvores, mas que, pode estar certo, com ellas arrancará uma vida.

—Romances! Lena, romances! Os romances, lidos em plena aldeia, são perigosos. Falta aqui nos ares um certo scepticismo que, não sendo em dóses exaggeradas, tem a vantagem de não deixar vêr as coisas da vida através do prisma dos livros de imaginação. Mas basta de falar em politica. Ámanhã procurarei o herbanario. Espero uma recepção de gêlo, e vou preparado para uma ladainha de recriminações, mas irei. Nada esperes, porém, da entrevista, Lena; nem o mal, se mal é, se poderia já atalhar; nem o orgulho de Vicente lhe permittiria expansões á sensibilidade, que cheguem a commover-me. Conheço-o.

Magdalena não instou. Ficou, porém, pensativa e sem o menor vestigio da alegria, com que principiara o serão.

N'isto ouviu-se um toque de sino longinquo.

—Já toca para a missa do gallo! Ouvem?—disse D. Victoria.

—Vamos! Não ha tempo para demoras—exclamou o conselheiro, levantando-se.

Todos o imitaram, menos Magdalena.

—Não vens, Lena?—perguntou Christina.

—Não.

—São amúos, filha!—disse-lhe o conselheiro, indo por traz d'ella; e, tomando-lhe a cabeça entre as mãos, beijou-a na fronte.

—Não, meu pae, é uma dôr de cabeça tão violenta!

—A maldita politica é o que faz! Pois fica; fica, porque está fria a noite.

—Far-te-hei companhia, Lena, disse Christina.

—Não, não. Se insistes, obrigas-me a sair.

—Aviem-se!—dizia D. Dorothéa.—Henriquinho, vens?

Henrique, cujo ardor em ouvir a missa da meia noite esfriou desde que viu Magdalena ficar, respondeu:

—Ó tia... a falar verdade!... se me dispensassem!...

—Vem d'ahi, preguiçoso! anda!

—É que... para um homem doente...

—Ai, não; se te ha de ás vezes fazer mal, então não—apressou-se a dizer a precavida senhora.

E foi deferido por unanimidade o requerimento de Henrique, a quem cêdo depois Torquato foi ensinar. o caminho para o quarto onde devia pernoitar.

O conselheiro, D. Dorothéa, Christina e Angelo fôram para a missa do gallo.

D. Victoria, Magdalena e Henrique ficaram no Mosteiro.


XV


Fechando-se no quarto, que lhe deram para pernoitar, Henrique de Souzellas sentiu poucas disposições de dormir. Uma profunda excitação impedia-lhe o repouso; em parte era devida ás occorrencias d'aquella noite, tão fóra dos seus habitos de vida; em parte, digamol-o em verdade, á influencia dos vinhos, com que secundára os brindes do conselheiro, e com que elle proprio iniciára outros.

A imaginação, excitada como estava, cada vez, entre outras imagens, lhe representava mais bella a de Magdalena. A especie de hostilidade permanente, com que a morgadinha o tratava, ainda mais parecia seduzil-o.

Nos poucos dias que passára na aldeia, havia Henrique, com novos habitos, adquirido uma maneira de vêr e de julgar as coisas e as pessoas, differente da que lhe era habitual na cidade, no circulo de amigos, com quem convivia; assim foi que abjurou tacitamente, e sem dar por isso, certo scepticismo convencional, que uma antipathica escola conseguiu pôr muito na moda.

Graças a estas melhoras moraes, tão verdadeiras n'elle como as physicas, as quaes até o constante pensamento das doenças lhe haviam dissipado, pudéra elle considerar Magdalena como uma mulher superior ao typo, pelo qual a mencionada escola costuma modelar o sexo: e acceitou sem má prevenção a aberta sinceridade d'aquelle caracter sympathico, que descrevia com enthusiasmo nas suas cartas a um dos seus mais intimos amigos de Lisboa.

Taes estados de convalescença são porém sujeitos a recaídas.

N'este dia, vespera de Natal, recebera elle a resposta áquellas cartas, e sob as impressões com que ficou da leitura, tinha vindo para o Mosteiro.

O amigo ria-se, com todo o elegante scepticismo de um homem da moda, da candura e da ingenuidade de Henrique. Dizia-se sinceramente penalisado á vista dos profundos estragos que alguns dias de provincia tinham operado n'elle. Via-o disposto a idealisar a mulher, a mais perigosa e mofina monomania que, dizia o tal, pode transtornar o cerebro de qualquer homem.

Com aquella ausencia de escrupulos, com que todos os dias caracteres, aliás não pervertidos, levianamente calumniam ou ferem de suspeitas reputações de todo o genero, elle fazia irreverentes allusões á morgadinha e zombava de Henrique, que ainda tomava a sério as isenções de uma rapariga de vinte e tres annos. Acabava por o aconselhar a que indagasse de algum primo timido e modesto, ainda que menos ingenuo de certo do que elle Henrique se estava mostrando.

Esta carta fez mal a Henrique. Exacerbou-lhe a doença, que estava em via de cura. Um espirito mephistophelico parecia havel-a dictado. Henrique transportou-se pela imaginação, depois de lel-a, a um dos circulos que habitualmente frequentava em Lisboa; suppoz-se a fazer alli a narração da sua vida na aldeia, e parecia-lhe estar vendo os sorrisos com que o escutariam, e elle proprio construia os epigrammas, com que lhe seria por certo commentada a narração. E então uma vergonha de má indole, vergonha do homem que põe um preceito de elegancia acima de um dictame de moral, fazia-o córar, apesar de a sós comsigo mesmo. Voltava a ler a carta, que lhe parecia dictada pela experiencia e pelo bom senso, emquanto que a ingenuidade das suas crenças se lhe figurava ridicula e desarrazoada.

Quem ha que não tenha tido momentos d'estes? Quem se pode gabar de não ter perguntado um dia aos seus escrupulos mais nobres se não são meros preconceitos, que ficaram de uma educação acanhada? Quem não poz um momento em dúvida as sublimes verdades que a mãe lhe ensinou em creança? Henrique estava passando por um d'esses accessos de scepticismo. Magdalena era já para elle uma astuciosa, que muito se deveria ter rido da sua simplicidade; e tanto o incommodava esta ideia, que promettia a si proprio ser d'ahi por deante mais arrojado. Esta ordem de reflexões estavam acudindo outra vez a Henrique e recebiam da excitação, que se apoderára d'elle aquella noite, uma tenacidade maior. Sentindo a cabeça em fogo, Henrique levantou-se, apagou a luz, e abrindo a janella do quarto, saiu á varanda que deitava para a quinta, a respirar o ar livre.

A noite era sem luar e sem nevoas. Descobriam-se muitas estrellas no céo, que com forte scintillação parecia illuminarem a terra de um tenue crepusculo, que mal deixava distinguir os objectos.

O ar frio da noite estava produzindo em Henrique um prazer, que elle procurava prolongar.

Não havia passado muito tempo, depois que assim se encostára á varanda do quarto, quando lhe attrahiu a attenção certo vulto alvacento, que furtivamente se movia n'uma das ruas da quinta.

Pareceu-lhe uma figura de mulher.

Justamente n'aquella occasião tinha Henrique na memoria o periodo final da carta do seu amigo.

Por isso occorreu-lhe uma ideia satanica.

—Ah!... Querem vêr que... A dôr de cabeça subita... A insistencia em ficar só... Percebo... Um primo timido e modesto...

E murmurando estas palavras, um sorriso maligno encrespava os labios de Henrique.

—Se eu pudésse averiguar isto... Mas ella corre com uma ligeireza que, antes que eu ache meio de sair para a quinta... já a levará bem longe.

O meio porém não era difficil de encontrar. Da varanda em que estava Henrique passava-se com grande facilidade para outra immediata, na qual havia uma escada de communicação para a quinta.

Reconhecendo esta disposição do terreno, Henrique operou n'um momento a descida, e pouco depois procurava através da quinta os vestigios da mulher que tinha perdido de vista.

N'esta operação esforçava-se por combinar com a maxima ligeireza a possivel precaução, para não ser por causa alguma frustrada a sua pesquiza.

A quinta do Mosteiro era extensa e cerrada toda em volta por um solido muro de alvenaria. Aqui e alli abriam-se n'elle differentes portas que deitavam para os diversos logares da aldeia. N'este vasto recinto havia pomares, lameiros, vinhedos e hortas, por onde Henrique errava á tôa, já desanimado de ser bem succedido no empenho.

De repente julgou ouvir, a pouca distancia, o rodar de uma chave na fechadura. Parou por precaução e ficou-se a escutar. Logo depois ouviu o bater de uma porta e mais nada.

Então adeantou-se rapidamente; n'um momento deu com a porta, que ainda se conservava aberta.

Saiu por ella para a rua, mas achou-a deserta.

Dirigiu-se á esquina que d'alli avistava; dobrou-a, mas nada viu; as ruas eram solitarias, e uma só casa terrea que havia ao lado de um quintal estava discretamente fechada e silenciosa.

Desistindo de proseguir na infructuosa pesquiza, Henrique voltou para a porta.

—Esperemos aqui por esta donzella destemida que assim anda de noite a correr aventuras. Ha de ser curioso observar como ella fica, quando me encontrar por guarda portão. Veremos se ainda depois d'isto durarão aquelles ares de soberania, com que me trata. Um primo timido e modesto!...

E, sorrindo á lembrança da scena que se preparava, Henrique fechou a porta por dentro, e accendendo um charuto, poz-se a passeiar, aguardando o regresso da morgadinha.

Para não perdermos muito tempo á espera tambem, aproveital-o-hemos a inquirir de coisas e de pessoas, cujo conhecimento é util á continuação da nossa historia.

A pouca distancia do extremo da quinta do Mosteiro e n'um sitio a que a abundancia de vegetação e a suavidade de perspectiva davam o mais pittoresco aspecto, estava a casa e o quintal do herbanario, casa e quintal já condemnados pelos lapis e tira-linhas dos engenheiros e offerecidos em sacrificio aos melhoramentos municipaes e concelhios.

Acharia justificado o quasi terror, com que Magdalena e Angelo escutaram a nova d'esta expropriação, quem conhecesse a vivenda rustica do herbanario e soubesse do amor que elle votava a cada objecto d'ella, assim como da vida que, havia tantos annos, alli vivia escondido e obscuro.