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A Morgadinha dos Cannaviaes / (Chronica da aldeia)

Chapter 28: XVIII
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About This Book

A rural chronicle portraying life in a northern province through close scenes of landscape, local customs, and social relations. It follows an urban visitor adjusting to provincial conditions and presents domestic rituals, farm routines, festivals, and everyday talk; episodes combine gentle humor, moral reflection, and sentimental incidents such as courtship and family obligations. The narrative alternates descriptive passages of nature and village topography with anecdotes and conversations that reveal class contrasts and traditional values, producing a textured account of countryside rhythms, communal ties, and the tensions between city habits and provincial ways.


ROMANCE

III

A MORGADINHA DOS CANNAVIAES

Vol. II





CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL
LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28
TELEPHONE 2337





JULIO DINIZ


A MORGADINHA
DOS
CANNAVIAES


(CHRONICA DA ALDEIA)




DECIMA-SETIMA EDIÇÃO




LISBOA
J. RODRIGUES & C.a, EDITORES
186—Rua Aurea—188
1920






A MORGADINHA DOS CANNAVIAES





XVII


Não havia mentido a grande scintillação das estrellas na noite de Natal.

A manhã do dia seguinte correspondeu ao augurio meteorologico, rompendo pura, desennevoada, com um céo azul sem manchas, e um sol de fundir os gêlos dos montes e os gêlos da velhice.

O frio intenso convidava a sair, e desde pela manhã aldeões de ambos os sexos, de camisas lavadas e roupas domingueiras, atravessavam os campos, saltavam sebes e cancellos, desembocavam das azinhagas e quelhas na direcção da igreja matriz, onde se deviam celebrar as festas da Natividade.

Era dia santo entre os que mais o são; e os dias santos na aldeia teem uma feição solemne e festiva, que mal avaliamos nós, os que passamos a vida nos apertados horizontes das cidades, phantasiando o campo por meia duzia de pardaes, que chilram ruidosamente nas cópas das enfezadas arvores das nossas praças e jardins.

Desde que a moda estabeleceu a lei de não solemnisar o domingo nem o dia santo, com um vestuario mais asseiado, com um prato mais exquisito na lista do jantar, com uma diversão excepcional, que todos deram em vestir-se, comer e trabalhar n'esses dias, exactamente como em todos os da semana, perderam nas cidades os dias do Senhor a feição typica e interessante, que por muito tempo tiveram; e quem hoje bem os quizer apreciar tem de ir n'um sabbado pernoitar ao campo, para amanhecer no domingo ao som do sino, que chama para a missa matinal.

Dirá então se não parece que até o sol tem outra luz e que as arvores e as plantas se toucaram de flores novas, que guardam de reserva para os dias de festa.

Este particular aspecto do domingo estava-o logo pela manhã sentindo Henrique de Souzellas, encostado á varanda do quarto em que pernoitára, e emquanto esperava que o chamassem para o almoço.

De vez em quando a recordação das scenas nocturnas da vespera desviava-lhe para outra ordem de reflexões o pensamento; acudiam-lhe todos aquelles incidentes á memoria, mas vagos e confusos, como se tivessem sido sonhados; chegava quasi a duvidar da realidade d'elles.

Agora estava experimentando certa curiosidade e tambem receio de saber como seria recebido pela morgadinha, e que posição deveria tomar na presença d'ella.

Formava a este respeito varias conjecturas, sem se fixar em nenhuma.

D'estas cogitações veio por fim arrancal-o o toque da campainha annunciando o almoço.

—Vamos,—disse Henrique—preparemo-nos para o primeiro embate. Apuremos a vista para n'um relance julgar do estado das coisas, e por elle regular o meu plano de tactica.

E depois de uma rapida consulta ao toucador, desceu para a sala do almoço.

Já alli encontrou reunida toda a familia do Mosteiro, e a morgadinha presidindo á mesa e preparando o chá.

Todos saudaram Henrique, e a um tempo se informaram da maneira por que elle tinha passado a noite.

Henrique respondeu que a tinha dormido deliciosamente; e, falando, desviava o olhar para Magdalena, que o encontrou do modo mais natural, sem timidez nem audacia.

Seguiram-se os cumprimentos em particular, chegando portanto a vez de cumprimentar Magdalena.

—Bons dias, prima Magdalena,—disse Henrique, estendendo a mão e fixando-a com olhar investigador.

Magdalena respondeu-lhe ao cumprimento, com sorriso que nada tinha de affectado nem de constrangido:

—Bons dias, primo Henrique. Devem-lhe parecer horrorosos estes nossos habitos matinaes. Foi uma indiscreção mandar tocar a campainha. Esqueci-me de prevenir que respeitassem a indolencia cidadã.

—Eu é que não consentia:—disse o conselheiro—na aldeia como na aldeia. Em Lisboa tambem as minhas alvoradas são mais tardias.

—Tem razão, sr. conselheiro. Eu proprio não esperei que me acordasse o toque da sineta. Ha muito que eu namorava a manhã da janella do meu quarto.

—Eu não pude dormir toda a santa noite—disse D. Dorothéa.—Estranhei a cama e a casa. Eu cá sou assim, quem me tira do meu ninho!...

—Ó prima, não vá sem resposta—disse D. Victoria—que tambem eu não puz olho, e mais sou de casa. E por signal que sempre hei de querer saber quem foi o criado que lhe deu para andar toda a noite por a quinta. Eram que horas e eu ainda ouvia pés nas escadas de pedra. É verdade; o primo Henrique não ouviu? Era mesmo junto do seu quarto.

—Não, minha senhora; eu não senti rumor.

E dizendo isto, Henrique procurou os olhares da morgadinha, que justamente n'aquella occasião lhe servia uma chavena de chá, e que de novo o fixou sem perturbação nem affectada indifferença.

Henrique sentiu-se embaraçado com isto. Custava um pouco á sua vaidade este nenhum vestigio de resentimento ou de receio, que encontrava em Magdalena.

No entretanto D. Victoria continuava a commentar com D. Dorothéa o facto das passadas que ouvira de noite.

—Deixe-se d'isso, prima. É porque não sabe o que vae. São coisas d'estes criados. Não faz ideia! É uma pouca vergonha! É preciso paciencia de santa para os aturar.

—Angelo,—disse a morgadinha ao irmão—entretido como estás a conversar com as creanças, esqueces-te de servir a Christe, que tambem se esquece de se fazer lembrar. Que distracções por aqui vão!

Angelo reparou para a prima, que em todo aquelle tempo estivera calada e caida em uma d'aquellas abstracções, a que ultimamente era sujeita.

—Eu não sei que tem hoje esta Christe—disse Angelo.—Julgo que lhe fez mal o frio na noite de hontem.

—É verdade, até está falta de côr! Ora queira Deus que não seja coisa de cuidado. Dóe-te alguma coisa, menina?—perguntou D. Victoria, apprehensiva.

—Não, mamã—respondeu Christina.

—Ó meninas, vocês tambem são umas desacauteladas. Eu bem te dizia hontem, Christe, que levasses mais roupa. Tudo é não faz mal, tudo é não tem dúvida, e depois é que vem o queixarem-se.

Isto disse a senhora de Alvapenha e muitas coisas mais n'este sentido. Estas reflexões fizeram Henrique desviar os olhos para a pessoa que era objecto d'ellas.

Christina estava effectivamnte pallida e pensativa; e d'esta côr e d'esta expressão recebia uns ares de poesia melancolica, que a tornava mais graciosa.

Henrique notou pela primeira vez a belleza d'esta creança, em que mal fixára a attenção até alli, e pela primeira vez se demorou a observal-a com alguma insistencia.

—É interessante esta pequenita—pensava elle comsigo.

Christina ia a levantar os olhos para responder a D. Dorothéa, quando encontrou os de Henrique a fital-a. Assomou-lhe então ás faces um mal pronunciado rubor, a palavra resolveu-se n'um sorriso e os olhos baixaram-se de novo.

—Ha de ser adoravel esta mulher—pensou d'esta vez Henrique, vendo-a sob novo aspecto.

O conselheiro disse, sorrindo:

—Ora, que estão a dizer? A Christe até está com umas côres muito bonitas. Triste? Melancolias dos dezoito annos nunca me deram cuidados. Provavelmente está agora n'algum episodio sentimental no romance da sua imaginação. Não sondemos aquelles mysterios, mana. Já não é para nós comprehendel-os, prima Dorothéa.

Todos riam do dito do conselheiro, o que redobrou o enleio de Christina.

A morgadinha, a quem não passára despercebida a impressão, que a prima d'está vez parecia ter causado a Henrique, quiz aproveitar o ensejo que havia tanto procurava, e para isso propoz que se désse uma volta pela aldeia antes da missa do dia. Esperava ella que as attenções de Henrique, durante o passeio, seriam para Christina, se não decorresse o tempo preciso para que se dissipasse no espirito do voluvel rapaz a impressão que o dominava.

A manhã convidava á excursão campestre. A proposta da morgadinha foi acolhida com applauso. O conselheiro prometteu acompanhal-os até á casa do herbanario, a quem tinha de visitar aquella manhã.

Levantaram-se todos da mesa, e á excepção de D. Victoria e D. Dorothéa, todos saíram.

A morgadinha, sob não sei que pretexto, deixou-se ficar um pouco atraz para dar tempo a Henrique de offerecer o braço a Christina, o que effectivamente aconteceu.

—Bem,—disse Magdalena comsigo ao vêl-os—agora que os anjos bons de um e de outro se convençam da obra meritoria que fazem entendendo-se.

E, approximando-se do pae, Magdalena apoiou-se-lhe no braço.

Angelo ia com as creanças adeante.

Approximemo-nos nós de Henrique e de Christina, para vêr se os anjos bons d'elles ambos accederam ao convite de Magdalena.

—Não ha prazer que se compare ao de um passeio assim pelos campos, n'uma manhã como a de hoje, e em companhia tão amavel—dizia Henrique, procurando aquilatar o espirito da sua partner, n'um certame de galanteria, fóra do qual não concebia que se pudesse temperar uma paixão.

Pobre rapariga! Que eloquentes e apaixonadas respostas lhe estava porventura ditando a alma! mas o enleio da timidez fechava-lhe os labios, não lhe deixando formulal-as; apenas pôde responder:

—Está muito agradavel a manhã, está; nem parece de inverno!

—Pelo que vejo, não gosta do inverno? É natural em uma senhora isso. Faltam-lhe as flores e as aves, suas irmãs. Eu prefiro o inverno, porque prepara a vida intima, as scenas ao canto do fogão, as leituras em commum, e traz-me á ideia as imagens de um viver a que a phantasia de todos sorri; de todos os que teem um resto de coração; refiro-me ás imagens de uma familia.

Não ha quem sustente mais tremendas luctas do que os timidos. A alma revolta-se n'elles, com toda a violencia dos seus instinctos, contra não sei que mysterio de temperamento, que lhes reprime as expansões. Na apparencia é fraqueza e serenidade, mas no intimo ha esforços realisados, que os fortes nem concebem sequer.

Christina encobria no seu enleio uma d'estas luctas. Os labios só puderam responder:

—Na cidade o inverno é mais facil de passar, julgo eu; porém na aldeia...

—Na aldeia e em toda a parte se pode gosar a felicidade que eu imagino. Não é fóra das portas de casa que devemos procurar os elementos para instituir a nossa ventura, e por isso... Mas a prima ha de estar admirada de ouvir falar assim um homem que completou os seus vinte e sete annos sem familia. Não é verdade?

Christina só pôde sorrir:

—Mas que quer? Quem muito idealisa arrisca-se a morrer apaixonado do ideal e abraçado á peor das realidades. É a consequencia legitima e triste do aspirar demasiado. Até hoje tenho encontrado na vida mulheres formosas, amaveis, interessantes; porém nenhuma que satisfizesse ás necessidades do meu coração, de quem me affirmasse a consciencia poder esperar a realisação do meu sonho. Perdôe-me falar-lhe n'isto, priminha; é uma ousadia que tomei, porque um instincto me disse que possue no coração bastante bondade para m'a perdoar.

—Está a gracejar?—disse Christina, em quem redobrava a turbação, e que, ao mesmo tempo que estava sendo feliz, desejava vêr interrompida a sua felicidade: contradicções proprias dos timidos.

—A prima é muito moça—continuou Henrique, que não desesperava ainda de animar esta Galatheia—e talvez por isso lhe causará estranheza este meu modo de falar. Um dia virá, porém, em que o comprehenderá melhor. Se então encontrar um desconfortado como eu, peço-lhe que tenha misericordia d'elle e o salve do desalento, em attenção a quem a conheceu n'uma época, em que só podia vêr em si, priminha, a aurora de uma esperança que já não tinha de luzir para elle.

—Mas... salval-o!... como salval-o!...

—Como as mulheres salvam; amando.

—Bem digo eu que está a gracejar—balbuciou Christina, com voz trémula.

—Tem o defeito da innocencia—disse Henrique para si.—Não se lhe tira uma resposta de geito.

N'isto chegaram defronte da porta, por onde Magdalena tinha saído da quinta na noite passada.

—Agora deixo-os por aqui—disse o conselheiro—irei encontral-os á igreja. Vou arrostar com a fera silvestre ao proprio covil.

—Meu pae, lembre-se do que lhe recommendei—disse Magdalena.

—Socega, filha; serei de cera. Até logo.

—Até logo.

E o conselheiro tomou a direcção da casa do herbanario.

—Era tempo!—disse Henrique comsigo.—A minha eloquencia arrefecia na proximidade d'este gêlo.

A morgadinha havia quasi adivinhado tudo; estudando as physionomias de Christina e de Henrique, conheceu que se não haviam entendido.

—Ainda não!—murmurou ella.—Pobre Christe! como se deve estar odiando a si mesma! Como ha de esta creança vencer este obstinado? Mas não perco ainda as esperanças.

Henrique, na presença d'estes sitios, recordou-se da scena da vespera e tentou outra vez experimentar Magdalena.

—Esta porta é da quinta do Mosteiro, não é, prima?

—É—respondeu Magdalena, imperturbavel; e voltando-se para Angelo:—O que te faz lembrar esta porta, Angelo?—perguntou ella.

—Que muitas vezes por aqui saímos, eu e vós ambas já de noite, e sem a tia saber, para irmos ter com o tio Vicente, que voltava da caça das borboletas.

—Fica perto a casa d'elle?—perguntou Henrique.

—É alli, logo ao dobrar d'aquella esquina—respondeu Angelo.

Henrique pensava:

—Seria para provocar uma explicação que ella fez a pergunta? Esta mulher é admiravel! Não lhe sei resistir.

E já lhe não restavam vestigios da impressão causada por Christina.

—Este herbanario—continuou elle em voz alta—deve, pelos seus habitos excentricos e até pelo solitario do sitio em que vive, ter aqui na terra certa famazinha de feiticeiro.

—E tem,—affirmou Magdalena—mas de feiticeiro bem intencionado.

—Devem correr muitas fabulas a respeito d'elle, do seu viver.

—É certo que poucos se atrevem a passar aqui de noite, apesar de todo o bem que elle faz de dia.

—Ah! Então temem-se de passar aqui de noite!... Pobre homem!... O que lhe valerá é algum espirito forte que ainda por ahi haja, na aldeia. Que diz, prima Magdalena? haverá?

Antes que a morgadinha respondesse, Angelo disse:

—Á excepção de Augusto, que ahi vem quasi todas as noites, ninguem mais o visita.

—Ah!... O sr. Augusto vem ahi quasi todas as noites?!

Magdalena luctava para reprimir a impaciencia.

—Lá me parecia que havia de existir algum de coragem. Para tanto não chegava o seu animo não, prima?

—Tanto chega, que já muita vez alli tenho ido só, e a altas horas—respondeu Magdalena com a maior firmeza.

—Sim?! E não tem mêdo?

—De quê? De almas do outro mundo? não tenho crença para tanto. De malfeitores? não os ha aqui. N'esta terra todos me respeitam, nem com uma suspeita me offendem—disse a morgadinha, accentuando com expressão as ultimas palavras.

Henrique acudiu immediatamente:

—Longe de mim duvidal-o.

E calaram-se por muito tempo.

Pela sua parte proseguia o conselheiro no caminho para casa do herbanario. Cruzou-se com varios homens, mulheres e creanças de aspecto doentio e soffredor, que voltavam de consultar o velho a respeito dos seus males; eram mancos, ictericos, escrofulosos, creanças de aspecto rachitico e enfezado, os mais melancolicos exemplares do infortunio humano.

—São os peregrinos que veem de Meca—disse comsigo o conselheiro.—Pelo que vejo a clientela do meu velho amigo herbanario mantem-se fiel, como d'antes. Valha-nos Deus, que o meu severo censor não trata com muito respeito o codigo.

Entrou emfim a porta do quintal.

Poucos passos andados encontrou-se com o Zé P'reira, que vinha virando e revirando nas mãos um papel e monologando, segundo o costume:

—Ora! ora! ora!... Estragar o vinho de nosso Senhor com esta mexerofada! Isso até era um peccado. N'essa não caio eu!

O conselheiro interrogou-o sobre as causas d'aquelle aranzel.

O homem, depois de cortejar, respondeu mostrando uma receita que lhe dera o herbanario no virtuoso intento de lhe fazer aborrecer o vinho, causa dos seus males. A receita era extrahida da Polyantheia, e tinha por ingredientes uma cabeça e sangue de carneiro, cabellos de homem e figado de enguia; mas o doente ia pouco disposto a experimentar-lhe a efficacia.

Depois de se separar do Zé P'reira, o conselheiro seguiu por uma rua de limoeiros, e como homem a quem era familiar a topographia do quintal. Cêdo chegou á vista do herbanario, que dera audiencia sub tegmine fagi.

Estava sentado á borda de um tanque, a que uma d'essas arvores dava sombra.

O conselheiro saiu emfim de traz dos limoeiros e veio ter com elle.

Ao rumor dos passos, Vicente voltou a cabeça, e, depois de reconhecer quem era, retomou a sua primeira posição e ficou silencioso.

—Bons dias, Vicente—disse o conselheiro com familiariedade e parando defronte d'elle.

—Bons dias, Manoel—respondeu o herbanario, deixando-se ficar sentado.

—Saía agora d'aqui um homem, que julgo será rebelde a toda a tua medicina. Padece de mal que se não cura.

—Os vicios são enfermidades mais rebeldes do que os achaques do corpo, são.

—Já que tu não appareces no Mosteiro, como d'antes, para solemnisar comnosco as festas do Natal, vim eu vêr-te.

—Obrigado.

—A tua misanthropia vae-se azedando, Vicente—continuou o conselheiro, sentando-se á beira do tanque.—Cada vez te estás a sequestrar mais dos homens, cada vez mais os aborreces.

—Eu não aborreço os homens, enganas-te. Não os aborrece quem passa a vida a procurar os meios de alliviar os padecimentos dos seus semelhantes. Estou velho, isso sim; e, como velho, encontro já no mundo pouca gente com quem me entenda. As ideias do meu tempo passaram. Por isso deixo-me ficar em casa a pensar n'elle.

—És um homem singular; um verdadeiro philosopho. Ora dize-me: e em que cogitas tu, quando assim passas uma manhã inteira, sentado n'esse banco, com os joelhos ao sol, os braços cruzados, e os olhos no chão?

—No passado. Pois não t'o disse já? O domingo reservo-o eu para me recordar. Ahi está que ha pouco, quando aqui me vim sentar, ao ouvir os repiques na igreja, lembrei-me de que era, dia de Natal, e o meu pensamento voltou quarenta annos atraz a um dia igual ao de hoje. Lembras-te d'elle, Manoel?

—Do dia de Natal de ha quarenta annos? Não.

—Lembro-me eu. Faz hoje mesmo quarenta e dois annos que, mais cêdo do que estas horas, vieste ter commigo aqui a casa. Tinhas pouco mais ou menos a idade que hoje tem teu filho Angelo. Meu pae saíra; julgámos nós ambos boa a occasião de levar a cabo um projecto que havia muito tempo traziamos na cabeça. Crescia a um canto do muro, além, á beira do poço, uma pequena faia que alli não podia durar muito tempo; meu pae todos os dias a ameaçava com a enxada e a custo a tinhamos defendido. Resolvemos transplantal-a. Deitámos mãos á obra essa manhã, e, no fim de alguns segundos, estava a faia mudada. Trouxemol-a para onde a deixassem em paz os hortelões, e para junto da agua que ella já tinha procurado. Conheces a arvore hoje?

—Não—disse o conselheiro, olhando em roda, como á procura de algum pequeno arbusto.

—Olha que ha quarenta annos; a planta é hoje arvore. É esta a que me encosto.

O conselheiro levantou então os olhos para os ramos vigorosos da arvore, como se lhe parecesse impossivel ter sido removida para alli por suas mãos.

—É singular como os annos correm, e as arvores crescem depressa—disse elle, distrahidamente.

—Depois da nossa tarefa, sentámo-nos—proseguiu o herbanario.—Tu ficaste, exactamente como estás agora, á beira d'este tanque. Então, lembra-me bem; olhando para os ramos tenros d'este arbusto, que ainda não sabiamos se viveria, tu disseste: «Fizemos uma obra que durará mais do que nós.» E eu respondi: «Quem sabe? O machado vem, quando menos se espera.»

—Como te lembras bem d'essas coisas!—disse o conselheiro, sorrindo constrangidamente, porque não agourava bem do exordio que abrira a entrevista.

—Ai, eu tenho boa memoria!

Houve um momento de silencio, que Vicente interrompeu subitamente, dizendo:

—Mas a final o que te trouxe hoje aqui?

O conselheiro respondeu com resolução:

—Vêr-te, como disse, e ao mesmo tempo falar-te de um objecto grave.

—Sim? E commigo é que vens tratar os objectos graves?

—Por que não? sempre foste homem de bom conselho.

—Nem sempre, Manoel, ou nem sempre pensaste assim.

—Não poderás dizer que deixasse alguma vez de te respeitar. Os nossos genios differem, os nossos diversos habitos da vida ensinaram-nos a pensar diversamente a respeito de muitas coisas. D'ahi procedem divergencias naturaes, que comtudo nos não obrigam a deixar de nos estimarmos, julgo eu.

—Bem, então dizias tu que vinhas?...

—Trata-se de um negocio de muita importancia, Vicente.

—Dize.

—Responde-me primeiro: tens ainda animo para sacrificios?

—Pouco tenho que sacrificar.

—Tens, e é um sacrificio doloroso.

—Acaba.

—Trata-se de te desapossar d'esta casa e d'este quintal, para abrir por aqui a estrada em projecto.

O herbanario, contra a expectativa do conselheiro, acolheu sem surpreza estas palavras, e respondeu, com certa ironia:

—E para que me vens consultar? Posso eu oppôr-me a isso? Avisas-me para eu me arredar a tempo da sombra d'estas arvores, mais velhas do que eu, a fim de que não me esmaguem ao caírem decepadas? És generoso, Manoel, em teres ainda em conta a vida de um homem inutil.

—Ahi estás já com as tuas recriminações. Acredita que eu...

—Não mintas, Manoel, não mintas. Ias dizer que não tinhas tomado parte n'este projecto. Tem coragem e lealdade, homem, e dize tudo. Entre mortificares o coração de um velho e pobre amigo e offenderes os interesses de algum rico e poderoso influente, tomaste o primeiro partido; e, como os differentes habitos de vida te ensinaram em muitas coisas, como dizes, a pensar differente de mim, não déste a isso o nome de ingratidão.

—Ouve.

—Sê franco, que eu te ouvirei.

—Pois bem, serei franco. Sim, confesso-t'o; era indispensavel que esta estrada se fizesse. Bem o sabes. Estava n'isso empenhada a minha palavra e a minha honra. Ha muito que os meus adversarios me fazem guerra por causa d'ella. Trabalhei e consegui, apesar d'esta situação politica me ser contraria. Tres traçados se offereciam. Um sacrificava uma grande parte dos bens de meus filhos, de Angelo que não é muito rico, que está no principio da existencia e que só Deus sabe se no decurso d'ella não teria occasião de maldizer a imprevidencia de quem devera olhar por os seus interesses. Querias que o sacrificasse? Sabes que os Brejos, vendidos hoje, nada valiam; e que dentro em pouco tempo, convenientemente trabalhados, podem ser de um valor importante. Querias que o fizesse? ou não me desculpas por o não ter feito?

—Fizeste bem—respondeu o herbanario.

—O outro traçado cortava os bens do brazileiro Seabra. Conheces este homem? Um elemento que, nas mãos de quem lhe saiba lisonjear e conduzir a vaidade, pode ser de utilidade para esta terra; mas tambem uma cabeça que, entregue a si, não faz coisa de geito. O homem oppunha-se formalmente a esse traçado; se o não attendesse, declarava-se, por despeito, no campo contrario ao meu. Se vencia (e algumas armas tem para luctar), imagina a calamidade que seria para este circulo o confiar áquellas mãos os seus destinos; vencido, era perder a esperança de tirar dos bem fornecidos cofres, que o homem possue, alguma coisa mais util do que um sino para a igreja ou vestimentas novas para as imagens dos altares. Eu ando a catequisar o homem, para vêr se consigo d'elle uma casa para escolas, melhor do que esse albergue que ahi temos, e um estabecimento sericicola; se o desattendesse, lá iam as esperanças d'estes melhoramentos tão uteis, e que o mais que nos poderão custar é um diploma de visconde ou uma commenda. Sei que te não agradam estes meios, porém olha que em politica são dos mais innocentes que podem empregar-se. Já vês pois que o segundo traçado tinha desvantagens para o circulo, por cujo interesse me empenho devéras; podes crel-o. Resta pois o terceiro traçado que, lealmente o confesso, não era o melhor, nem scientifica nem economicamente considerado; eu sabia de mais o que valia para o teu coração o sacrificio que se te vinha exigir; eu mesmo possuo memorias ligadas a estas arvores, e não ha homem que, aos cincoenta annos, veja sem repugnancia desapparecerem os vestigios dos seus tempos de infancia e de juventude; mas sabia tambem que tu eras uma alma generosa e heroica, e que não duvidarias comprar, á custa das tuas dores e saudades, um melhoramento para esta terra, que tanto amas. Esta estrada, promettida ha tanto, e concedida ainda agora de má vontade, corre risco de se não fazer, se, quanto antes, não principiarem os trabalhos; a menor opposição dos proprietarios, o menor embargo dilatorio, podem ser motivo para o seu adiamento, porventura indefinido. Por isso tambem me animei, porque contava comtigo, Vicente. Enganei-me?

O herbanario estava cada vez mais pensativo.

—Pensaste bem. A velhice é assim; e eu queria dar mais importancia a dois annos de vida que me restam, do que á vida nova que vae haver para esta terra. Fizeste bem.

—Esperava ouvir isso mesmo de ti, Vicente. Além de que, dissipa as apprehensões com que estás; em toda a parte terás arvores...

O herbanario interrompeu-o:

—Se não entendes o amor que eu tenho a estas, não faças por consolar-me, Manoel, porque me affliges mais.

—Porém deixa-me dizer-te, Vicente, que no Mosteiro, ou em qualquer das nossas propriedades, tens sempre um logar vago á tua espera, tanto á mesa, como ao canto do fogão, e amigos que te receberão com prazer.

—Não receio ficar sem abrigo, Manoel. Em cada choupana de pobre teria tecto e pão. Conto com a colheita de algum bem que semeei.

—Eu farei com que o contracto da expropriação seja o mais favoravel possivel. Vejamos, em quanto avalias...

—Não falemos n'isso. A avaliar por o que eu lhe quero, ninguem m'o pagaria; a não attender a isso, tudo será pagal-o bem.

—Mas...

—Não falemos n'isso, homem. Tenho medo de que estas arvores me ouçam propôr o preço por que as vendo. Se alguma coisa posso pedir-te, então...

—Tudo. Dize em que te posso servir.

—Peco-te que decidas a pretenção d'aquelle pobre rapaz, de Augusto; que te lembres um dia de que aqui na aldeia ha um homem, que tem vinte annos, um coração e uma cabeça como tu sabes, e que de ti e dos teus, da gente que dá e vende graças, honras e empregos, só quer um favor... mais uma justiça: lembra-te d'isso.

—Falas do despacho effectivo para professor? É uma coisa facilima; mais que elle queira... E antes elle quizesse mais; esse rapaz perde por modesto. Acredita, ás vezes é mais facil servir os ambiciosos. Nem eu sei o que tem empatado esse negocio. É certo que ha um competidor, por quem alguem trabalha; mas não importa; conta com isso, como negocio concluido.

—Emquanto não vir...

—Hoje mesmo escrevo para Lisboa. É só isso que pedes? Vê lá.

—E que me deixes agora só.

—E não me ficas querendo mal, Vicente?

—Não. Estou a acreditar que tiveste razão, ou pelo menos que suppões que a tens. Basta-me isso para te perdoar.

—Vêr-te-hei no Mosteiro antes de partir? Depois do dia de Reis volto a Lisboa, e só tornarei para a campanha eleitoral.

—Não prometto.

—Adeus.

O conselheiro estendeu a mão ao herbanario, que não retirou a sua, e partiu.

—Está feito!—ia pensando o conselheiro á saída—não foi tão difficil como julgava. Está razoavel o homem. Quem o viu e quem o vê! O que faz a idade! Bem! Agora é apressar os trabalhos para antes das eleições, a vêr se acalmam algum fermentosito de opposicão, que por ahi possa haver, que pequeno será.

N'estas cogitações chegou á igreja. Magdalena esperava-o no adro.

—Então?—perguntou ella, com anciedade.

—Tudo está remediado; entendemo-nos perfeitamente—respondeu o conselheiro, com manifesta satisfação.

—Devéras! Eu logo vi que o pae havia de ceder!—exclamou Magdalena, com alegria.

—Como ceder?—tornou o pae.—Elle é que foi mais condescendente do que eu esperava. Não oppôz a menor resistencia, nem se queixou muito amargamente.

—Pois consentiu?!

—Sem grande custo, ao que parecia.

—Ó meu Deus! meu Deus! agora é que eu temo devéras. Pobre tio Vicente! assusta-me isso que diz, meu pae!

—Ora vamos; a tua imaginação é que te illude. Mas deixa-me aqui falar com o morgado das Perdizes e com o brazileiro, que julgo que teem que me dizer. Vae para a igreja, que eu vou já ter comvosco.

E separando-se da filha, o conselheiro dirigiu-se ao grupo, em que estavam aquellas duas notabilidades.

—Dou-lhes uma boa nova, meus senhores—disse o conselheiro, depois de cumprimental-os—dentro em pouco temos os alviões a trabalhar cá na terra. Estive agora com o Vicente; receei resistencias da parte do homem, que nos obrigassem a expropriações judiciaes, sempre demoradas. Mas não, achei-o nas melhores disposições; e assim, dentro em poucos dias...

—Mas, para deante da casa d'elle, talvez os outros proprietarios não sejam tão doceis—lembrou o brazileiro.

—Bem sabe que são terras insignificantes, cujos possuidores com pouco se contentam.

—Os antigos possuidores talvez se contentassem com pouco—disse o brazileiro, sorrindo velhacamente—mas os modernos...

—Pois mudaram de senhorio?

—Por contracto de venda assignado e legalisado hontem mesmo.

—E quem os comprou?

—Este seu criado.

O conselheiro teve vontade de o esganar; conteve-se, porém, dizendo:

—Tanto melhor; quero-me antes com proprietarios illustrados e independentes, que comprehendam a importancia dos melhoramentos publicos, do que...

—Isso historias, meu caro amigo; em primeiro logar estão os melhoramentos particulares. Eh, eh, eh.

—De certo que não ha de querer pôr estorvos a uma empreza como esta.

—Estorvos, não, mas emfim... Amigos, amigos, negocios á parte.

O conselheiro sorriu, emquanto que interiormente mandava ao diabo o espirito mercantil e interesseiro do seu antigo condiscipulo.

—Pode-me dar duas palavras, sr. conselheiro?—requereu do lado o sr. Joãozinho das Perdizes.

—Mil que pretenda—acudiu o conselheiro; e tomando o braço do morgado afastou-se do grupo.

—Eu tenho a pedir-lhe um favor—principiou o morgado.— Eu, como sabe, interesso-me muito pelo mestre-escola do Chão do Pereiro, que quer vir ensinar para aqui. Este negocio está empatado, como sabe; por isso queria que o senhor escrevesse para Lisboa a este respeito.

—Pois sim, mas...—fez-lhe notar o conselheiro—não sabe que é Augusto o outro concorrente?

—Então que tem isso?

—Não lhe parece que seria uma injustiça? Um rapaz de merecimento, como elle é, aqui da terra, que já exerce o emprego ha tres annos e com tanta intelligencia? e haviamos de...

—É verdade,—atalhou o outro—pois isso é verdade, mas... Emfim, elle que passe para outra parte.

—Mas se o rapaz quer isto?

—Quer! quer!... tambem o outro quer. Ora essa é fresca. E vamos, sr. conselheiro, a gente tambem não ha de estar só a fazer favores, sem os receber quando os pede. Com este já são tres. Pedi-lhe para o meu tio abbade ser conego; foi tanto conego como eu. Pedi umas caudelarias lá para a freguezia... estou á espera d'ellas... Ora isto não se faz. O senhor sabe que eu lhe tenho vencido as eleições com a gente da minha freguezia, que vae para onde eu a levo. Pois agora não sei o que será. A não se decidir este negocio depressa...

—Ora não será isso motivo para tanto.

—Com certeza que é—insistiu o sr. Joãozinho.—Então digo-lhe mais: a mim já me falaram. Ha ahi alguem que não desgostaria dos votos de que eu disponho, e votar pelos que já estão no poleiro não sei se lhe diga que não é peor.

O conselheiro, mortificado como estava, disse, sorrindo:

—Não posso convencer-me de que o meu amigo seja capaz de fazer isso por qualquer causa que possa dar-se. Mas deixe estar que, em relação ao que me diz, eu verei.

—Mau! Não é «eu verei». Então falo-lhe claro. Se d'aqui até ás eleições não estiver feito o despacho, não conte commigo.

—Mas quem lhe diz que não ha de estar?

—Pois lá isso...

—Socegue. Hoje mesmo escrevo para Lisboa.

—Bem.

O sino tocava a chamar para a festa.

Terminou o dialogo.

—O peor—ia pensando o conselheiro—o peor é que prometti ao Vicente que apressaria o despacho de Augusto. Não tem dúvida; é tão magra a posta, que não vale a pena disputal-a. Para Augusto arranjarei alguma coisa melhor. É preciso ter ambição por elle. Se elle quizesse ir para Lisboa?... Mas, pelo que me disse este basbaque, já se maquina no campo contrario! Hei de sondar o Tapadas, a vêr o que sabe.

Estas conferencias com o brazileiro e com o morgado tinham mortificado o pae de Magdalena a ponto de não conter um movimento de impaciencia, assim que viu que o Pertunhas se approximava d'elle, e, á fôrça de cortezias e cumprimentos, lhe pedia um momento de attenção.

Sabidas as contas, tratava-se do tal emprego de recebedor, que o latinista com tanto ardor namorava.

O conselheiro descarregou sobre este pouco influente eleitor o mau humor que os outros lhe causaram, e respondeu desabridamente:

—Ora adeus! O senhor é uma sanguesuga que se não farta de chupar. Contente-se com o que tem; vá conjugando o laudo, laudas, que outros, com mais merecimentos, nem isso conseguem; e deixe-me.

O mestre Pertunhas ouviu com humilde sorriso a admoestação, e curvou-se para deixar passar o conselheiro.

Mas lá comsigo dizia:

—Sim? Elle é isso?! Pois veremos se a sanguesuga te não pica.

E entrou tambem para a igreja, com não muito christãs disposições de espirito.


XVIII


Do dia de Natal ao dia de Reis passou o tempo para o conselheiro em visitas ás freguezias e aos influentes d'aquelle circulo eleitoral, visitas a que o acompanhava Henrique de Souzellas, que tomava parte, com gôsto, n'estas excursões politicas.

Em casa do sr. Joãozinho das Perdizes, na freguezia de Pinchões, passaram elles um dia. Nos solares do morgado tudo era desordem e desmazelo; a cada passo se tropeçava n'um podengo ou se trilhava a cauda a um perdigueiro. Henrique sustentou uma verdadeira lucta com o proprietario, para esquivar-se a engulir todas as enormes dóses de carne de porco e de vinho, com que elle, á viva fôrça, o queria regalar.

No quarto em que os hospedes pernoitaram estavam amontoados no meio do chão uns poucos de alqueires de milho e de castanhas, e aos pés dos leitos dormiram enroscados dois galgos, que elles não conseguiram desalojar, e que toda a noite os incommodaram com latidos ao menor rumor que escutavam fóra.

Henrique lamentou a influencia eleitoral do morgado das Perdizes, que o obrigava a esta noitada.

Outro dia jantaram em casa do brazileiro, que lhes mostrou toda a sua propriedade, tendo Henrique de obrigar a sua eloquencia a esgotar-se em affectadas exclamações, deante dos prodigios de mau gôsto reunidos alli.

As estatuas de louça, os alegretes de azulejo, os arcos feitos de cana, por onde se entrelaçavam magras trepadeiras; um pequeno modelo de fragata brazileira com tripulação de altura dos cestos de gavia, fluctuando n'um tanque circular; uma gruta estucada de azul e com assentos de palhinha, para onde vinha ler as folhas o sr. Seabra, eram as principaes maravilhas do jardim. Nas salas mobilia rica, mas vulgar; lithographias coloridas em custosas molduras douradas; bordados, diplomas de socio de não sei quantas sociedades brazileiras; tudo encaixilhado, e no logar de honra a estampa das capellas do Bom Jesus de Braga. Á impertinencia de admirar estas preciosidades accrescia a de ouvir e de ter de achar graça a um papagaio que cantava o hymno brazileiro.

Henrique saíu de lá exhausto de paciencia.

Com estas visitas politicas, passou, como dissemos, todo o periodo das festas do Natal, sem que entre as personagens da nossa historia occorresse coisa que mereça nota.

Entre Magdalena e Henrique mantinha-se a mesma lucta moral; nem um nem outro recordavam declaradamente a scena nocturna, em que tão acerbas palavras se haviam trocado. Augusto não voltára ao Mosteiro desde então. Era tempo de férias para as creanças, o que fazia natural esta ausencia, contra a qual Angelo em vão protestava. Magdalena nunca porém alludia a ella. Christina passava o tempo, querendo-se mal por a sua timidez, e de quando em quando amuando de ciumes com Magdalena, que ria d'elles e os dissipava com uma palavra.

Chegou emfim o dia de Reis, aquelle em que devia realisar-se no pateo do Mosteiro o auto que, havia muito, mestre Pertunhas andava ensaiando.

Henrique e D. Dorothéa vieram jantar ao Mosteiro, e ficaram para assistir á solemnidade popular.

Já por vezes temos ouvido falar n'este auto, que promettia ser coisa memoranda nos annaes dos festejos publicos da terra. Havia mezes que o sr. Pertunhas esgotava os thesouros da sua sciencia dramatica a ensaial-o, e vimos com antecipação andar Ermelinda decorando a parte da Fama, que lhe competia desempenhar.

Estes autos e entremezes, que nas aldeias se representam, são como os restos grosseiros que da nossa arte primitiva a varredura estrangeira deixou ficar pelo chão.

Não obstante as extravagancias e as modelações toscas e risiveis de muitos, é certo que nos mostram que a Euterpe rustica tem conservado mais fiel a indole peninsular, do que sua irmã, a civilisada musa das cidades, a cujo paladar já sabem mal as popularissimas redondilhas, tão apreciadas ainda na Hespanha.

Em occasiões de festa levanta-se em qualquer terreiro ou pateo de quinta um tablado; veem adornal-o as mais vistosas colchas de chita, das quaes tambem se formam os bastidores; alugam-se nos depositos mais modestos da cidade ou villa proxima vestidos de reis, de principes e de guerreiros, em que se combinam os elementos de épocas e de nacionalidades disparatadas, e perante uma plateia rustica, ao ar livre, como no theatro antigo, desfiam-se em cantada choradeira as sentimentaes peripecias da vida de qualquer santo, ou, entre gargalhadas, os episodios comicos do algum enredo popular.

A circumstancia de ser o auto d'esta vez desempenhado no pateo do Mosteiro, e que fôra em parte por deferencia ao deputado do circulo, em parte por conveniencia dos emprezarios, pela apropriação do terreno a todos os effeitos, e pela ajuda de custo, que sempre em taes casos recebiam de s. ex.a, essa circumstancia, dizemos, augmentava o numero de espectadores.

Das janellas do Mosteiro gosava-se, como de um camarote de frente, do espectaculo popular.

O terreiro era destinado para o povo, em grande parte attrahido tambem pela pipa de vinho, que o conselheiro n'estes dias mandava pôr á disposição dos seus representados.

Desde a vespera havia grande agitação e azafama no pateo do Mosteiro. Os artifices levantavam o tablado scenico; pregavam e despregavam taboas; serravam barrotes; os directores, e á frente d'elles o infatigavel e imaginoso Pertunhas, davam ordens contradictorias; e os curiosos estacionavam em magotes, difficultando tudo, censurando o que viam fazer, e aventando alvitres absurdos.

Herodes, o pae de Ermelinda, andava em brazas. Approximava-se a hora dos seus triumphos. O genio dramatico palpitava n'elle, cheio de, vida e de enthusiasmo.

Ia mais uma vez pousar nos hombros o manto da realeza judaica; brandir a espada infanticida, carregar aquelles sobrecenhos com que fazia chorar as creanças e estremecer as mães; ia resuscitar Herodes, o déspota legendario.

Trabalhando e suando, resmoneava os versos do seu papel de tyranno e insensivelmente fazia gestos e esgares promettedores de effeitos scenicos futuros.

Os seus collegas eram menos ardentes pela arte. O Herodes olhava-os com a sobranceria de um Talma, e muitas vezes lamentava sinceramente a ausencia de vocações dramaticas que auxiliassem a d'elle.

E não sorriam os leitores a esta velleidade artistica do recoveiro; alli havia fundamentos para ella. O Cancella era o minerio de um tragico, deixem-me assim dizer. No meio de uma escoria de rusticidade continha abafado mineral de lei.

Tivessem sido outras as contingencias da sua vida, vêl-o-hiam porventura arrebatar plateias inteiras com as revelações do genio, que ás vezes n'um grito, n'um sorriso, n'um gesto se manifesta; mas ainda assim inculto, não mentia n'elle o verdadeiro enthusiasmo, o sentimento da arte que lhe afogueava as faces e os olhos, e lhe animava o gesto no calor do desempenho; não mentia aquella embriaguez que lhe causavam os applausos da multidão. Não ha verdadeiro genio artistico, que se não namore do publico, embora o saiba caprichoso, inconstante e ingrato. O homem, indifferente aos applausos das turbas, nunca será poeta nem artista de verdadeira inspiração. O amor vivo da gloria adeantou a meio caminho os emprehendedores d'esta nova conquista de vellocino.

Ermelinda, essa tremia com a commoção de artista novel, á lembrança do espectaculo, em que pela primeira vez ia entrar.

As senhoras do Mosteiro, ou antes Magdalena e Christina, tinham querido encarregar-se da toilette da Fama.

Logo de manhã fôra pois a pequena Linda para o Mosteiro, e passava das mãos de Magdalena para as de Christina e das d'esta para as d'aquella, e sempre com recato preciso para que ninguem mais lhe puzesse os olhos, pois que pretendiam reservar para a occasião a surpreza toda. Contra a curiosidade de Angelo é que mais tiveram que luctar.

Logo depois da uma hora da tarde começou a povoar-se o pateo de espectadores e, os actores a reunirem-se na parte do tablado, occulto por as colchas de chita aos olhares da multidão.

Principiava a ensaiar os instrumentos o pessoal da philarmonica, dirigida por mestre Pertunhas, cuja trompa celebre servia tambem de batuta.

Chiava já o clarinete, assobiava o flautim, roncava o figle, uivava a flauta, e todos promettiam aos ouvidos a mais inharmonica das torturas.

Mestre Pertunhas, distribuidas as partituras, e vendo todos a postos, deu o signal de principiar.

Um, dois, tres; um, dois—dizia ou fazia elle com os olhos e com os movimentos da cabeça e pés, porque a bôca, essa já estava applicada á embocadura da trompa. O segundo «tres» era o tempo fatal. Os musicos, porém, ou por distrahidos, ou por a commoção propria dos actos solemnes, não corresponderam ao signal, e a nota furiosa, extrahida da trompa do mestre Pertunhas, achou-se só no espaço, e fugiu envergonhada a esconder-se na concavidade dos montes vizinhos, deixando na passagem os ouvidos quasi em sangue.

Este successo foi saudado com uma gargalhada geral, que redobrou quando as notas dos outros instrumentos, vendo partir desacompanhada a nota chefe e reconhecendo a falta, saíram alvoroçadas atraz d'ella, cada uma por sua vez. Foi uma debandada musical de indescriptivel effeito.

O auditorio, o sempre implacavel auditorio popular, apupava. Henrique e o conselheiro riam, os actores do auto espreitavam detraz da cortina a vêr o que era aquillo. Mestre Pertunhas barafustava por entre os da banda, berrando, ralhando, cheio de cólera e de razão.

Uma symphonia com quatro mezes de ensaios! A falar a verdade!

Ordenadas as coisas, rompeu emfim a symphonia.

Os typos dos artistas, marcialmente uniformisados com fardas que fôram de um corpo de infanteria, eram para tentar o lapis de um Cham ou Gavarni. Alli um gordo e rubicundo merceeiro, que ameaçava estalar todas as costuras da farda, primitivamente feita para um individuo de metade das dimensões d'elle, com as faces insufladas, a testa contrahida e os olhos injectados para extrahir de um obsoleto serpentão, que embocava com arreganho assustador, as mais destemperadas notas; acolá um flautim, de braços compridos e tibias esquinadas, com meio braço fóra das mangas, com meia perna de fóra das calças, figura em que havia não sei o que de onomatopaico, tão bem se casava com os silvos, horripilantemente agudos, que arrancava do exiguo instrumento. O artista pratilheiro era um velho recurvado, de nariz adunco, faces escavadas, olhos de coruja, suissas em tufos no meio das faces, e oculos na ponta do nariz. Um zarolha evacuava os pulmões dentro de um figle; um corcovado e semi-anão repicava os ferrinhos com uma prodigalidade assustadora; as baquetas da caixa estavam confiadas ás mãos callosas de um moço de lavoura, de rêpas hirsutas a cobrir-lhe a testa, olhos esbogalhados e labio pendente. E, no meio d'estas e analogas figuras, a alma de tudo, o sr. Pertunhas, torcendo-se, batendo com o pé, suando, arregalando os olhos, piscando-os, marcando o compasso com a cabeça armada de enorme trompa, que lhe dava então não sei que apparencias de proboscidiano.

Tal era a philarmonica da terra, que Henrique, o conselheiro e toda a familia do Mosteiro escutavam das janellas, e á qual tiveram de dispensar elogios, que o regente acceitou com a modestia de artista que se conhece. Henrique foi quem mais sublimes esforços fez para soffrer com paciencia aquellas torturas acusticas. Elle que nem á orchestra de S. Carlos perdoava uma desafinacão, obrigado a escutar com um sorriso aquella banda pandemonica!

—Coragem! coragem!—murmurava-lhe o conselheiro, impassivel como perfeito politico.—Nas occasiões é que os homens se conhecem! Coragem.

—É em extremo forte a provação!—respondia-lhe, gemendo, Henrique.

—Firmeza; que a pallidez do susto nos não atraiçoe—continuava aquelle.

Isto obrigava Henrique a nova lucta; d'esta vez para manter a seriedade.

A final calou-se a banda, sem que se pudesse dizer o que tinha querido tocar. Succedeu-lhe um intervallo de silencio. Passou pela assembleia o estremecimento que precede as occasiões solemnes. Os olhares de tantos espectadores fixavam-se na coberta de chita que já se via ondular. Ouviu-se um surdo rumor, significativo de anciedade, como se fôra a resultante do palpitar de tantos corações.

Appareceu emfim a primeira personagem do auto. Era o Herodes.

A alta e membruda figura do pae de Ermelinda, com os seus hombros largos, as faces injectadas, o olhar faiscante, os cabellos e barbas negros e espessos, o andar grave e pesado, sob o qual gemiam as juncturas do tablado, o timbre volumoso de voz e certo arreganho selvatico, com que falava e gesticulava, imprimia na multidão um quasi pavor, que nem o conhecimento intimo que tinha do homem conseguia dissipar.

Herodes trazia manto real e turbante musulmano, borzeguins vermelhos, corpete de velludilho azul, calções golpeados. Pendia-lhe á cinta um alfange e uma pistola; ao peito algumas condecorações.

Apparencia geral, a dos prophetas nas procissões.

O auto rompe com um monologo de Herodes.

O tyranno da Judéa, sobresaltado e meditabundo, faz considerações substanciosas sobre a condição dos reis em geral e a sua em particular. Principia elle assim: