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A Morgadinha dos Cannaviaes / (Chronica da aldeia) cover

A Morgadinha dos Cannaviaes / (Chronica da aldeia)

Chapter 29: XIX
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About This Book

A rural chronicle portraying life in a northern province through close scenes of landscape, local customs, and social relations. It follows an urban visitor adjusting to provincial conditions and presents domestic rituals, farm routines, festivals, and everyday talk; episodes combine gentle humor, moral reflection, and sentimental incidents such as courtship and family obligations. The narrative alternates descriptive passages of nature and village topography with anecdotes and conversations that reveal class contrasts and traditional values, producing a textured account of countryside rhythms, communal ties, and the tensions between city habits and provincial ways.

Não ha vida mais inquieta,
Nem mais cheia de cuidados,
Do que a de um rei que pretende
Conservar os seus estados.


O Cancella dizia isto em tom pausado, com os braços cruzados, medindo o palco a passos largos.

Continuavam varias proposições de physiologia do throno, e, do caso generico baixando ao particular, da these á hypothese, principia a falar de si. Cancella, conhecedor dos segredos da arte, começava aqui a dar mais vida á recitação, como para mostrar o maior empenho que tomava a alma n'este capitulo da especialidade. Referia-se aos annuncios da vinda do Messias, e inquietava-se; a maré das paixões subia; a voz traduzia-lhe o crescimento. Depois seguia-se um como reflexo de desalento, para com mais violencia se exaltarem os affectos. Nos paroxismos da furia, o Cancella, dando toda a fôrça á sua voz potente, soltava berros, que participavam da natureza dos do tigre.


Começarei desde logo
A publicar leis tyrannas,
Que aterrem os meus montes,
Os palacios e as choupanas.

Será tal o meu furor,
Tal a minha indignação,
Que ninguem se atreverá
A conquistar meu brazão.


O interesse do espectaculo augmentava. Os olhos do publico principiavam a fixar-se. A excitação de animos a que os transportes de Herodes, inquieto pelo seu brazão, levára o publico, foi serenada por um chorado côro de anjos que cantavam atraz da cortina:


Não temas, ó rei cruel,
Que te conquiste o docel.


Herodes pára aterrado, ao escutar estas vozes, apesar de lhe afiançarem a segurança do docel, pela qual elle parecia receioso. Vacilla, entra-lhe o mêdo no coração, mêdo que procura afugentar com bravatas, em que ameaçava pôr tudo por terra. O Cancella exprimia tudo isto com abundancia de gestos e de movimentos.

Aqui é que subia a toda a altura o genio dramatico do Herodes. Para este final do monologo reservava todos os segredos da arte; apoderava-se d'elle a musa do palco; desappareciam-lhe deante dos olhos os espectadores, via o mundo; perdia a consciencia da individualidade propria; suppunha-se Herodes; e até... ó fôrça da arte! offuscavam-se-lhe os bons instinctos da indole generosa e quasi chegava a ter verdadeira ancia de sangue e carnificina. O publico era dominado por o artista, e n'um d'estes silencios que todos prevêem se desencadeiará em brados de enthusiasmo e phrenesi, escutava-lhe as duas quadras finaes:


Porém o furor me incita!


Dava, ao dizer isto, tres passos á frente, desembainhava o alfange e abria os braços. Tinha o que quer que era de Adamastor, visto assim.


O brio dá-me ousadia.


Levantava os braços acima da cabeça, espalmando a mão esquerda.


Para defender o sceptro
A favor da tyrannia!


Aqui agitava os braços como azas de moinhos.


Será cada lança um raio!


E, dizendo isto, tinha nos olhos o fulgurar do relampago.


Cada espada um corisco,


E o braço, armado do alfange, baixava com a rapidez do simile.


Cada soldado um trovão,


E trovejava-lhe a voz.


Cada golpe um basilisco!


E na posição e gesto em que ficava, não era menos terrivel e pavoroso do que a fera da comparação.

Uma tempestade de applausos rompeu de todos os lados; só as mulheres e as creanças ficaram silenciosas e immoveis, porque lhes parecia um peccado applaudirem Herodes. E não sei se, o que fizera menos escrupulosa n'este ponto a parte masculina, fôra o exemplo partido das janellas do Mosteiro; porque é certo que em geral os tyrannos no palco são admirados, mas raras vezes applaudidos.

Herodes, depois de agradecer os applausos publicos, senta-se e segue o auto.

Dariamos de bom grado na integra tão importante peça dramatica ou pelo menos circumstanciada noticia d'ella, se não receiassemos o recheio excessivo para esta ordem de alimentos litterarios, que se querem leves. Não podemos comtudo resignar-nos a passal-a por alto inteiramente.

Além do Herodes, são figuras do auto: o caixeiro do dito—assim se lhe chama pelo menos no folheto, o que dá a entender que Herodes era homem de escripturacão regular,—o capitão das tropas reaes, os tres reis magos, o anjo, a Virgem, S. José e o menino Jesus, a criada de Santa Isabel, dois cidadãos de differentes cidades, o criado de um d'elles, a Fama e duas creanças, chamadas Giraldinho e Amorzinho.

As scenas passam-se successivamente nos paços de Herodes, na lapa de Belem, e em diversas paragens da estrada do Egypto.

A imaginação do espectador era a encarregada da mudança do scenario.

O poeta corre toda a clave das paixões humanas, vibra todas as cordas do coração.

Ao terror despertado por Herodes e suas ameaças, succede a sympathia pelos tres reis, personificados d'aquella vez por tres moços de lavoura, de manto, luvas de algodão e turbante, os quaes, em lamuria nasal e com profusão de xes, cantarolavam as quadras do seu papel, em uma das quaes, patrioticamente anachronica, pediam aquelles bons magos ao Deus nascido a protecção para Portugal.

Excitava a piedade a familia sagrada. O velho S. José, como carpinteiro que era, apparelhava um madeiro a enxó e plaina, emquanto a Virgem dormia. A Virgem era um rosado barbatolas, em quem principiava a despontar o buço da puberdade. O anjo apparecia, como nas procissões, carregado de cordões de ouro.

No transe da fugida para o Egypto ha uma scena da mais que homerica simplicidade. Quando os sagrados esposos estão para partir, chega a elles a criada de Santa Isabel, prima da Senhora, outro mocetão em trajes femininos, e da parte da ama offerece aos foragidos algum dinheiro e refrescos; pedindo desculpa por não poder dar quanto queria, o que tudo a Senhora agradece com as phrases da tarifa, recommendando-se muito a sua prima.

O comico caminha ao lado do pathetico, como no drama moderno. Ha personagens, reflexões e scenas sempre apreciadas e já aguardadas pelo publico, que as saúda com sinceras gargalhadas. D'estas a principal é evidentemente a que se passa entre um cidadão, de quem a sacra familia recebe gasalhado, e o criado do mesmo.

É uma scena de disputa domestica, cheia de allusões satyricas á classe dos criados de servir, a qual era sempre applaudida. O cidadão, depois de mostrar ao criado, de relogio em punho—anachronismo shakspeareano—a demora excessiva que elle tivera fóra de casa, diz para o auditorio:


Não se pode ter criados
Hoje em dia, n'esta vida,
Ou quem houver de os ter
Não lhes deve dar guarida.


N'este ponto do auto houve aquella tarde um pequeno, mas gracioso episodio.

D. Victoria, que achava esta a parte melhor pensada e mais conceituosa de toda a peça, de afinada que estava pelo seu modo de sentir, não pôde conter-se, que não exclamasse:

—Aquillo é que é uma verdade!

A espontaneidade da reflexão fez rir a familia do Mosteiro, riso que teve ecco em baixo, entre o povo, que enchia o pateo.

A scena comica prolonga-se, mandando o patrão distribuir pelo caixeiro o rapé ao auditorio; outra liberdade que produzia sempre o maior effeito.

O criado trazia uma enorme tabaqueira, um verdadeiro bahu, e offerecia pitadas ao publico, dizendo:


O meu amo, com ser rico,
Gosta d'estas patuscadas.
Nunca os senhores tiveram
As pitadas tão baratas.


Os risos e as galhofas desordenaram, segundo o costume, por muito tempo a regularidade do espectaculo. Todos tiravam pitadas, todos falavam, riam e guinchavam, todos fingiam espirrar e não se ouvia senão: «Dominus tecum» e «Deus te salve» no meio de toda aquella confusão. Porém a um signal de mestre Pertunhas, que deixou por um pouco folgar o espirito das massas, tudo entrou na ordem.

Preparava-se nova transição dramatica. O criado, que vae a saír, volta, dizendo com gesto espantado e tom exclamatorio:


Jesus, Jesus, que é isto?
Jesus do meu coração!
O signal da cruz me livre
De tão terrivel visão.


Era a Fama que apparecia.

Ermelinda entrava em scena.

No meio d'aquellas figuras rusticas, e mais ou menos grosseiras, que entravam no auto, a figura delicada e angelica de Ermelinda produzia tão completo contraste, que um murmurio significativo de profunda sensação correu o auditorio.

Ermelinda estava surprehendente de formosura. Haviam-se associado ao que era n'ella dotes naturaes os cuidados de Magdalena e de Christina, para lhe darem a apparencia superior.

O proprio Henrique, que até alli estivera commentando maliciosamente o espectaculo, não pôde reter uma exclamação de surpreza, que foi secundada por o conselheiro. É que parecia que um verdadeiro anjo occupava agora a scena.

A simplicidade do vestir concorria para esse effeito.

Ermelinda trazia uma longa tunica alvissima e de amplas mangas, que lhe descia solta dos hombros sem sacrificar a menor belleza dos graciosos contornos e esbeltas proporções d'aquella creança, que promettia ser uma mulher esculptural. Os cabellos, cuja côr loura era de uma pureza rara, caíam-lhe desatados e profusos sobre os hombros, brilhando como fios de ouro, na alvura dos vestidos; a fronte ficava-lhe livre, e o oval das faces sobresaía n'aquella moldura natural. Com os braços descaídos, os dedos encruzados, e a cabeça ligeiramente pendida, em expressão de melancolia, e os olhos elevando-se para procurarem os de Magdalena e de Christina nas janellas do Mosteiro, mas que de longe parecia procurarem o céo, Ermelinda adeantava-se vagarosa, serena, tendo no gesto o encanto da innocencia, tendo nos passos a hesitação da timidez. Havia tanto de sobrenatural no vulto candido, franzino e melancolicamente suave d'aquella creança, que o actor que estava em scena não teve de simular espanto, porque o sentia real, e não podia desviar os olhos d'aquella apparição.

O silencio era profundo; parecia que em todos estava actuando a fôrça de um encantamento.

Como na antiga tragedia, o facto principal da acção, a carnificina dos innocentes, passava-se fóra de scena. Á Fama competia narral-o.

Ermelinda, a meio do palco, parou. Com uma voz argentina e leve tremor de commoção, principiou lentamente e no meio de um religioso silencio a recitar os versos da narração, os quaes, como o leitor já sabe, não eram os do auto, que mestre Pertunhas se estafára a ensaiar.

Os versos que Ermelinda recitou diziam assim:


Desci dos celestes córos,
Por Deus mandada a escutar
Da infancia as queixas e os choros,
Para lh'os ir confiar.

Desci. Na terra, nos mares
Tanta miseria encontrei.
Que os meus magoados olhares
Da terra e mar desviei.

Desci. E tantos gemidos,
Tão dolorosos ouvi!
Que, turbados os sentidos,
Quiz recuar... mas desci.

N'esta colheita de dôres
Pelo mundo todo andei,
No pranto dos peccadores
As minhas vestes molhei.

Vagueando dias e dias,
Chegára á Judéa emfim,
Quando um clamor de agonias
Veio de longe até mim.

O sol, o sol inflammado
D'estas terras orientaes,
Tinha no disco afogueado
Não sei que estranhos signaes.

Soavam menos distantes
Sinistros brados de dôr,
Choros de mães e de infantes,
Cantos de morte e terror.

Vi anjos de azas nevadas
Em bandos subir ao céo,
Quaes pombas amedrontadas
Fugindo á voz de escarcéo.

«Onde ídes? Quem vos persegue?
A que tormentas fugis?»
Um, que triste o bando segue,
Estas palavras me diz:

«Somos as almas de infantes
Mortos em guerra feroz;
Inda das mães delirantes
Nos chama a sentida voz.

«Só a materna saudade
Nossa carreira detem,
Embora no céo, quem ha de
Esquecer, o amor de mãe?»

Disse e o semblante formoso
Com as azas encobriu,
E ao bando silencioso
Silencioso se uniu.

Eu segui. Na impia cidade
Aterrada penetrei...
Ai, da fera humanidade
Os meus olhos desviei!

Que scena! Corre nas praças
Sanguinaria multidão,
Como nuvem de desgraças
Semeando a desolação.

Cáem por terra sem vida
Tenras creanças ás mil,
E uma turba enfurecida
Corre á matança febril,

As mães pallidas, chorosas,
Supplicam, pedem em vão!
N'essas feras sanguinosas
Não palpita um coração.

Outras tentam em delirio,
Os seus filhos disputar,
E com elles no martyrio
Gostosas se vão juntar.

Sobre a terra ensanguentada
Eu soluçando, ajoelhei,
E de intensa dôr magoada,
A Deus piedade implorei.

Findava a prece, e uma estrella
No horisonte despontou,
Pura, scintillante, bella
O caminho me traçou.

Á humilde e escondida estancia
Da venturosa Belem
Cheguei; vi um Deus na infancia
Nos ternos braços da mãe.

Minha colheita de dôres
N'aquelle berço depuz,
Da humanidade aos rigores
Pedi remedio a Jesus.

No olhar do divino infante
Raiou a luz e fulgor,
Foi a aurora radiante
Que annuncia um redemptor.


Não se descreve a impressão causada por estes versos, que assim transformavam a Fama do auto no Anjo da guarda da infancia. Muitas causas concorriam para produzir este effeito: a figura, a voz e o gesto de Ermelinda, que lhe davam uma apparencia verdadeiramente angelica, e depois aquellas palavras inesperadas, aquella exposição desconhecida e em versos a que a melancolia da toada, em que eram recitados, parecia augmentar a cadencia metrica. Emquanto debaixo da impressão d'aquella voz sonora e infantil, ninguem procurava explicar o mysterio. Milagre lhes parecia e quasi como milagre o acceitavam, e de ouvidos attentos, collos estendidos e bôcas semi-abertas parecia recolherem, uma a uma, aquellas palavras, como se de um verdadeiro emissario celeste as escutassem. O tablado enchera-se pouco a pouco de gente, e ninguem dera por isso. Os actores que estavam atraz da cortina tinham sido feridos pelos primeiros versos, differentes dos que elles esperavam; isto obrigou-os a espreitar. Depois, como arrastados pela magia d'aquella voz e d'aquelle gesto, vieram adeantando-se, adeantando-se, e cêdo formaram circulo á volta de Ermelinda. O primeiro da frente era o Herodes. O espanto, os affectos, o orgulho de pae, a exaltação de artista combinavam-se para dar-lhe ao rosto uma expressão quasi de extase. Olhava para a filha como se a visse animada de inspiração divina.

Pertunhas, o ensaiador do auto, que franzira o sobr'olho, prevendo trapalhada aos primeiros versos recitados por Ermelinda, agora, de bôca aberta, era de todos o mais espantado. No Mosteiro só Angelo sorria, elle só interpretava o milagre. Todos os mais escutavam silenciosamente aquella voz de creança, que, em campo descoberto e no meio de tantos espectadores, soava distincta e vibrante como se effectivamente tivesse alguma coisa de sobrehumana.

Depois que ella terminou, persistiu por algum tempo o silencio, sem que os espectadores pudessem voltar logo a si, nem os actores se lembrassem de continuar o auto. Henrique foi quem primeiro rompeu este quasi encantamento. Profundamente impressionado tambem por aquella scena, exprimiu n'um «bravo» todo o enthusiasmo que sentia. Foi o signal.

O silencio degenerou na mais altisona ovação.

O Herodes esqueceu o papel que desempenhava, o caracter que tinha a sustentar, a logica da situação, e tomando nos braços musculosos o corpo debil e franzino da filha, levou-a em triumpho para a beira do palco; os outros actores disputavam-lh'a; do pateo estendiam-se centenas de braços para a receberem; das janellas do Mosteiro acenavam-lhe, victoriando-a, os lenços das senhoras; os homens applaudiam-a com palmas. Herodes parecia devorar a filha com beijos, afagal-a com lagrimas de enthusiasmo e de paixão; e Ermelinda foi de braços em braços, entre beijos e afagos, transportada do tablado para a sala do Mosteiro, onde não foi menos calorosa a recepção.

Do auto ninguem mais se lembrou, e, apesar dos esforços do mestre Pertunhas, todos o deram por terminado alli e prescindiram de vêr as restantes scenas, com grande desgosto dos actores que entravam n'ellas.

O Herodes, ainda vestido de rei, andava como doido pelas salas do Mosteiro. Seria para rir aquelle enthusiasmo, se não fôsse bastante pathetico para commover.

—Mas como foi isto, meu Deus? Como foi isto? Que milagre foi este? Ai que versos, Maria Santissima! Que versos! E como ella os dizia!—exclamava elle, quasi convencido da milagrosa natureza da scena que vira.

Magdalena, chamando Angelo de lado, perguntou-lhe:

—Foi Augusto que fez aquelles versos?

Angelo sorriu.

—Por que me perguntas isso a mim?

—Porque o deves saber.

—Então não crês no milagre?

—Responde.

Angelo ia a responder, quando Henrique disse em voz alta para o conselheiro:

—Se eu digo a v. ex.a que o Bernardim existe.

—Mas quem é?—perguntou o conselheiro.

—Não sei; porém posso afiançar a v. ex.a que não são estes os primeiros vestigios que encontro d'elle. As paredes das capellas dos montes são as suas confidentes. Não está certa, prima Magdalena, de umas quadras sentimentaes, que lemos na ermida da Senhora da Saude?

—Sim; recordo-me.

—Não acha entre essas e as do auto analogia de estylo, que a levem a attribuil-as á mesma pessoa?

—Estou pouco habituada a analysar estylos, primo.

—Mas talvez este lhe seja habitual.

Magdalena fitou Henrique com um olhar de altivez, que o obrigou a accrescentar:

—Por muito o vêr por ahi desperdiçado por paredes de capellas e ruinas, e nos troncos das arvores.

Ermelinda foi de uma discreção impenetravel. Quando lhe perguntavam quem lhe ensinára os versos, sorria, respondendo que não sabia, ou que não podia dizel-o.

—Apostemos que n'isto entra Angelo?—disse o conselheiro.

O Herodes cada vez parecia mais convencido de que fôra pura inspiração.

Henrique, aproveitando uma occasião em que estava proximo da morgadinha, disse-lhe ao ouvido:

—Parece-me que ia pôr o dedo no rouxinol silvestre, que tão bem canta sem se mostrar.

—Sim?

—Não ha muitas noites que eu o vi vaguear n'estas immediações. Estas aves melancolicas amam as inspirações nocturnas.

—Pois as noites nem sempre são boas conselheiras, primo. É a hora favoravel á espionagem e ás... calumnias... Mas se sabe quem é, diga-o. Aqui em minha casa e no seio de minha familia, é sempre bem recebida a verdade. Não ha quem se tema d'ella.

E a morgadinha, dizendo isto, deixou-o desdenhosamente.

—D'esta vez foi de uma severidade!!—pensou Henrique.—Cada vez me convenço mais de que o idyllio existe e que vae já muito adeantado. Mas agora me lembro; e o meu duello com o Romeu, que nunca mais vi? Não foi má tolice aquella minha! Preciso de procurar o homem para lhe dizer que o caso não vale a pena.

O despeito de Magdalena pelas palavras de Henrique fôra d'esta vez mais intenso; quasi chegou a fazel-a desesperar da tenção que alimentava ainda, pois disse a Christina:

—Ai, filha, que não sei se deva curar-te antes a ti do que a elle.

—Que dizes?!

—Nada. Ha doenças que fazem desesperar os medicos.

Era já noite. Os grupos, que ainda depois do auto se conservaram no pateo do Mosteiro, a brindarem a hospitalidade dos proprietarios, fôram dispersando pouco a pouco.

A banda de mestre Pertunhas saiu tambem com o fim de se preparar para as serenatas a casa do brazileiro e de varias personagens da terra, a quem era devido o cantar os Reis.

Angelo saíra da sala. Fôra para o fim da rua de sobreiros, anterior ao pateo da quinta, esperar por Ermelinda para lhe dizer adeus.

Á medida que a noite se cerrava, parecia que se estendiam as sombras á fronte e ao coração do pobre rapaz.

Era a noite de Reis, a ultima dos dias de férias; na manhã seguinte devia partir com o pae para Lisboa.

Que amarguras as d'estas ultimas horas! que intensas saudades não se amontoam no coração das creanças ao expirar o termo d'esse feliz espaço de tempo, que viveram para os carinhos da familia e para os folguedos despreoccupados!

Percebe-se em nós mesmos aquella imminencia de lagrimas, que á menor palavra rebentam.

Quem não terá recordações de infancia a falar-lhe d'isto?

O pateo despovoára-se de gente; através das vidraças da casa viam-se já brilhar as luzes interiores. Com o olhar fito no chão, a cabeça inclinada, Angelo permanecia immovel. Cortejavam-o, ao passar, homens e mulheres, sem que elle désse por isso.

De repente voltou-se, porque ouviu atraz de si uns passos conhecidos. Era Ermelinda, que voltava para casa. O pae ficára atraz a pôr em ordem as roupas e mais objectos que serviram no auto.

—Esperava por ti, Ermelinda, para te dizer adeus—disse Angelo.

—Então vae-se embora?

—Vou ámanhã—respondeu Angelo, com a voz presa de commoção.

—Muito cêdo?

—De madrugada.

Os dois calaram-se por algum tempo, olhando para o lado.

—E agora quando volta?

—Eu sei lá? agora... só para agosto.

Novo silencio.

—Então... adeus...

—Adeus, Ermelinda.

E com a voz quasi sumida e os olhos ennevoados de lagrimas, Angelo estreitou contra o peito aquella que de pequena tratára como irmã, e que chorava ainda mais do que elle.

Que melancolico fim de dia tão alegre!

A este tempo uma sombra escura passou por elles e estacou.

—Ermelinda—disse logo a voz esganiçada e colerica, que saiu d'aquelle vulto.

Ermelinda estremeceu ao ouvil-a.

Era a mulher do Zé P'reira que voltava das suas devoções e ficára surprehendida com o espectaculo que vira. A assustadiça castidade d'aquella matrona toda se alvoroçou com a tocante despedida das duas creanças.

Ermelinda approximou-se, a tremer, da madrinha, que rudemente a agarrou pelo braço e a levou comsigo.

Angelo esteve quasi resolvido a ir tirar das mãos d'aquella harpia a innocente victima; mas a chegada de Herodes estorvou-o.

A sr.a Catharina do Nascimento de S. João Baptista ia dizendo, ao levar comsigo a afilhada:

—Que terão ainda de vêr meus olhos, meu Divino Pae do Céo? Que mundo este de abominação, meu doce Jesus! Ó Virgem das Dores, isto é para se vêr e não se crer! Uma creanca, uma creanca de dois dias, se pode dizer, e já assim com a alma perdida! Ó meu Jesus crucificado!...

—Minha madrinha—dizia Ermelinda, chorando.

—Anda, anda, anda, minha amiga, que já os demonios saltam e riem de contentes. Teu pae é que tem a culpa. Isto são lá modos? trazer-te por entremezes, que são artes do demonio, e arredar-te da igreja, que é a casa do Senhor! É a missa dos domingos, e acabou-se. Os resultados são estes!... Ai, filha, que muita penitencia te é já precisa para salvares a alma!

—Minha madrinha, minha madrinha, por as almas não me diga isso—exclamava Ermelinda, aterrada.

—Os tres inimigos da alma te farão guerra, creatura, assanhados como cães raivosos... Eu previa isto... É o lucro de andar por essas casas de Satanaz, onde não ha religião nem temor de Deus... Ó meu divino Jesus, e para isto tanto padeceste por nós! E nós tão pouco caso fazemos dos vossos preceitos, meu doce Jesus, filho de Maria Virgem... Depois queixamo-nos da vossa justiça, quando já ardemos nos fogos do inferno...!

A pequena Ermelinda tremia cada vez mais.

A velha proseguiu, em todo o caminho, n'estas exclamações, bramando contra o peccado, contra a familia do Mosteiro, que acoimava de herejes, contra o pae de Ermelinda e contra esta, e, no seu fervor religioso, desenvolvia sobre o thema do peccado dissertações não em demasia apropriadas aos ouvidos de uma creança.

O resultado foi apoderar-se da pequena Linda um excessivo terror. Das palavras da madrinha, que nem bem entendia, ficára-lhe uma horrivel convicção de que tinha a alma perdida, e com lagrimas ardentes pagava a pobre creança bem caro as alegrias d'aquella tarde, de que já tinha remorsos. Este desalento e pavor quasi a fizeram doente.

Quando o pae voltou, estranhou-a. Elle, que vinha orgulhoso com os triumphos proprios e com os da filha, sobresaltou-se ao abraçal-a, Interrogou-a; pediu, ordenou; nada pôde saber que explicasse os vestigios de lagrimas que descobria n'ella; se instava, provocava-lhe o pranto; desistiu pois.

Pobre pae! não pôde dormir aquella noite! Logo de madrugada teve de levantar-se, porque tinha de partir para o Porto em recovagem.

Deixou Ermelinda a dormir; não a quiz acordar; beijou-a na fronte desmaiada, abençoou-a e saiu.

—Comadre,—disse ao passar por casa do Zé P'reira—ahi lhe deixo a pequena. Olhe-me por ella, que não está lá muito boa.

—Vá com Deus—disse uma voz de dentro.

Era a sr.a Catharina.

O recoveiro partiu, silencioso e triste.


XIX


No dia seguinte ao dos Reis partiram para Lisboa, como estava determinado, o conselheiro e Angelo, o que deu logar no Mosteiro a muitas saudades. O conselheiro devia voltar sómente por occasião das eleições geraes que estavam proximas.

Alguns dias depois, n'um domingo em que se festejava na aldeia o padroeiro Santo Amaro, de quem reza a Igreja a quinze de janeiro, estava Henrique de Souzellas na sala de jantar de Alvapenha, escutando sua tia e Maria de Jesus, que ambas o entretinham com longas conferencias de coisas de pouco interesse e ás quaes elle ligava a minima attenção.

Tinham acabado de jantar havia pouco tempo. A mesa conservava-se ainda posta; Henrique fumava um charuto, recostando-se para o espaldar da cadeira; D. Dorothéa, de mãos cruzadas deante da cinta, falava; Maria de Jesus que, depois de pôr em arranjo a cozinha, viera, segundo o costume patriarchal, tomar parte na sala na conversa do pospasto, auxiliava a memoria da ama sempre que esta emperrava, corrigia-lhe as involuntarias e frequentes inexactidões em que a via cair.

Henrique habituára-se já a estes placidissimos habitos; e apesar de não ligar attenção á conversa, ou por isso mesmo que lh'a não ligava, achava-lhe certas virtudes estomacaes, que lh'a tornavam agradavel.

Depois de muitas voltas a conversa caíu sobre as occorrencias do auto dos Reis.

—Eu ainda estou para saber como aquillo foi!—dizia D. Dorothéa.—Quando me lembro! Como aquella rapariga falava!

—Ó senhora; olhe que já me disseram que a pequena tinha espirito—disse Maria de Jesus, com ar de mysterio.

—Olhem o milagre!—respondeu D. Dorothéa.—Por essa estou eu.

—Diz que desde aquelle dia anda amarella e triste, que nem parece a mesma.

—Então é mais do que certo.

—Ai, a tia Dorothéa tambem com crendices!—disse Henrique, rindo.—Então parece-lhe que traz espirito aquella creança?

—Pois, menino, aquillo a falar a verdade!

—E não é mais natural suppôr que alguem lhe ensinou os taes versos?

—Mas quem? se o Pertunhas diz que os versos eram outros e até que aquelles não calhavam bem nas lôas?

—O Pertunhas é um parvo. Houve alguem que ensinou aquillo á pequena e até suspeito com que fim.

—Não, sr. Henriquinho, olhe que alli anda coisa ruim. Tambem o filho do Ceboleiro, quando trazia o espirito, dizia coisas tão bonitas, que nem um livro. A senhora não se lembra?

—Ora se lembra!

—Digam-me—insistiu Henrique.—Quem ha aqui na aldeia que faça versos?

—Versos!—repetiu a D. Dorothéa, admirada.—Ninguem, que eu saiba.

—Ó senhora! Então o João do Trolha? Não deita tão bonitos versos nos desafios?

—Sem ser o João do Trolha—tornou Henrique, sorrindo.

—Ai, não se ria, sr. Henriquinho; olha que os deita muito bem! Ainda no outro dia, na noite de Janeiras, não se lembra, senhora, dos versos que elle botou?


Viva a senhora D. Dorothéa,
Raminho de bem-me-queres,
Quando põe a sua touca
É a rainha das mulheres.


—E depois a mim:


Viva a senhora Maria,
A perola das criadas,
Quando se chega á janella
Ficam as estrellas pasmadas.


—Ora com o que você vem, mulher! Não tinham as estrellas mais que fazer do que pasmarem—disse D. Dorothéa.

—Isso é por dizer, senhora; já se sabe que... sim... como o outro que diz...

—E além do João do Trolha, quem ha mais que faça versos?—perguntou Henrique.

—Que eu saiba...—disseram as duas.

—E aquelle Augusto?

—O Augustito do doutor? O filho! Coitado do pobre rapaz. Elle sim! Credo! Não, aquillo é um rapaz de muito juizo.

—Isso não tira. Então a tia julga que só os tolos fazem versos?

—Tolos não digo, mas...

—Mas um pouco feridos na aza, não é verdade?

—Ora pois então dize-me tu, menino, se um homem sério... sim... um homem de respeito, faz versos?

—Por que não?

—Versos?!

—Versos, sim, senhora.

D. Dorothéa fez um gesto de incredulidade.

Henrique ia redarguir, quando ouviram passos no patamar de pedra da entrada e após algumas pancadas á porta da sala.

—Abra, tia Dorothéa—disseram de fóra as vozes de Magdalena e de Christina, que fôram logo reconhecidas.

E cêdo depois entravam alegremente na sala, em companhia de D. Victoria, que vinha mais retardada.

D. Dorothéa levantou-se para recebel-as.

—Bons dias ou boas tardes, tia Dorothéa, porque me parece que já jantaram. Vimos aqui para confiar aos seus cuidados a tia Victoria, que não nos quer acompanhar a ouvir a palavra eloquente do missionario—disse a morgadinha.

—Eu não; para apertos e barafundas é que não estou.

—E tu vaes, Lena? perguntou D. Dorothéa.

—Então? Não quero passar por impenitente. Ainda o não ouvi. Pode crer? Além de que percebi na Christe um fervor, com o qual quiz condescender.

—Dizem que préga tão bem—atalhou Christina.

—Pois prégará, mas eu é que já não estou para sermões—ponderou D. Victoria.

—Vou eu tambem ouvir o missionario—disse Henrique, levantando-se.—Já m'o mostraram ha dias. Se os dotes oratorios do homem corresponderem á figura...

—Então?—interrogou D. Dorothéa.

—É um homem gordo e vermelho, de pulso grosso e, em geral, typo da grossura do pulso.

—Pois bom é que vás, menino—disse D. Dorothéa—para acompanhares as pequenas.

—Como quizer, primo,—acudiu Magdalena—mas não se constranja. O Torquato tambem vae.

—Que quer dizer? Que me dispensa?

—Não; mas que se é só por condescendencia que...

—É por prazer. É por devoção.

—N'esse caso...

E Henrique foi procurar o chapéo para acompanhar as duas primas á igreja.

O Santo Amaro fôra festejado com espavento na freguezia da sua invocação. Vesperas, missa cantada, duplo sermão, e procissão á volta da igreja, nada faltára para solemnisar a festa.

O sermão da manhã fôra prégado por o abbade; o da tarde havia sido concedido ao missionario, que o aproveitára para uma das suas catechéses.

A procissão já tinha recolhido, quando chegaram á igreja a morgadinha e Christina, na companhia de Henrique e de Torquato. Havia no adro muita gente, e algumas barracas de doce e de café, como n'um arraial.

Pela porta principal da igreja engolfava-se a multidão, como em bôca de sorvedouro, subitamente aberto no leito de um rio, se precipitam as aguas impetuosas.

A fama, que pelas aldeias circumvizinhas apregoava o nome do missionario, attrahira immensa gente a escutar o sermão.

As senhoras do Mosteiro romperam a custo por entre a compacta massa popular, que se amontoava á porta da igreja, e conseguiram, por deferencia excepcional dos mesarios, entrar pela sacristia para a capella-mór.

Tinha um aspecto melancolico o interior da igreja n'aquella occasião. Pobre de si e pouco alumiada, mais escura e lugubre parecia com a extraordinaria quantidade de gente que a enchia, na maior parte mulheres de roupas escuras e em que só alvejava o lenço branco que usavam á cabeça.

Apesar da quadra ir fria, como de janeiro que era, respirava-se alli dentro uma atmosphera quente, abafadiça e pouco salutar.

Um surdo murmurio formado por centenares de vozes rezando, a meio tom, orações e ladainhas, contrastava com as altas vozes de festa, que se escutavam lá fóra, e requintava a triste impressão que se recebia ao entrar. Alli um grupo de mulheres, de joelhos, escutavam a leitura de pias orações, que uma fazia em tom lutuoso, e respondiam em côro com Padre-Nossos e Ave-Marias; além viam-se outras com as faces rojadas no chão, batendo no peito e desentranhando exclamações, para commoverem a Divindade; outras em extase, como Santas Therezas, de braços abertos deante da imagem da Virgem; outras amortalhadas, em cumprimento de promessa feita a algum santo. Cavados na espessura das paredes havia uns pequenos cubiculos, que serviam de confessionarios. Ás portas d'estes nichos, munidas de um crivo de folha, adheriam, como as lapas nos rochedos, os vultos escuros das penitentes, fazendo para dentro a circumstanciada exposição dos peccados da semana, e recebendo de lá regras de bem viver, preceitos de devoção, ás vezes exaggerada e inspirada de certa moral de convenção, com que a ignorancia ou a má fé porfiam em falsificar os simples e luminosos dictames da moral, que a consciencia reconhece e que o Evangelho apregôa.

Ás vezes despegava d'aquelle crivo de peccados uma das confessadas; e exhausta de fôrças, abatida de animo, descrendo da misericordia divina, ia cair com desalento nos degraus do altar de Deus, que o fanatismo cego, senão hypocrita, lhe pintára inexoravel verdugo. Quando outra se não succedia a esta, via-se rodar nos gonzos a pequena porta d'estes cubiculos, e sair de lá um padre de batina, sócos e capote de cabeção, satisfeito de si, e revendo-se n'aquelles corpos prostrados, n'aquelles gemidos surdos, n'aquellas lagrimas humedecendo o pavimento do templo, tristes indicios de desalento moral, com que conseguira quebrantar os ingenuos espiritos que dirigia pela intimidação cruel.

De tudo isto vinha o aspecto sombrio e lugubre á igreja, que nem as luzes dos altares, nem as sanefas e cortinas de damasco, que com tanta arte dispuzera mestre Pertunhas, conseguiam dissipar.

Henrique estava sendo desagradavelmente impressionado por o que via.

Olhava com desgosto para aquelles signaes de um terror supersticioso, e sentia exacerbarem-se-lhe as prevenções que nutria contra o clero, cuja influencia moral, aliás justa e vantajosa, é cada vez mais diminuida por aquelles dos seus membros que pretendiam augmental-a por meios improprios da sublimidade da sua missão e até dos preceitos da religião, de que se dizem ministros.

Henrique fez algumas reflexões n'este mesmo sentido a Magdalena, que não pôde deixar de apoial-as, tanto mais que sabia o animo de Christina, que os escutava, não de todo superior a este apparato terrorifico.

A hora marcada para o sermão approximava-se; haviam-se já evacuado os differentes confessionarios, e o povo cada vez se apertava mais em todos os pontos da igreja e trasbordava para fóra das portas do templo. Quem de dentro olhasse para a porta principal veria que a grande distancia, na rua, se prolongava a multidão.

Apenas um confessionario permanecia ainda occupado. Havia mais de uma hora, que alli estacionava de joelhos uma penitente com a cabeça coberta por a capa de panno, com que rodeava o crivo do confessionario.

Nem o menor movimento revelava animação n'aquelle vulto.

Henrique notára essa immobilidade, que ao principio o fez sorrir; depois causou-lhe espanto e acabou, emfim, por o indignar. Qual, porém, não foi a sua surpreza e a de Magdalena, quando, ao terminar a confissão, reconheceram as feições da penitente por as de Ermelinda, a filha do Herodes, a formosa e amoravel creança, que, dias antes, tanto enthusiasmo causára, agora pallida, abatida, sem aquelles sorrisos nos labios, que tanta graça lhe davam!

E era esta creança que tão longos peccados tinha a narrar, para assim ficar tanto tempo aos pés do confessor?

Ermelinda, vagarosa, trémula, tendo claros os vestigios de lagrimas, e, como que enleiada de vergonha, caminhou por entre os grupos de mulheres ajoelhadas na igreja e veio cair de joelhos ao lado da madrinha e cêdo rojava com ella a fronte no chão, que regava de lagrimas ferventes.

Pobre creança! Que negros crimes lavariam aquellas lagrimas? Que culpas teria a expiar aquella inconsolavel dor?

O confessionario d'onde ella se afastára, abriu-se, emfim, e ás vistas, que para alli se voltaram, mostrou um padre gordo, córado, de olhos e fronte pequenos, cabellos grisalhos, rompendo-lhe a um dedo das sobrancelhas. O homem parou algum tempo a fitar o auditorio.

Espalhou-se no templo um sussurro particular; um movimento commum animou aquellas cabeças todas, quando este homem appareceu.

Era o missionario.

A sua passagem para a sacristia foi uma passagem verdadeiramente triumphal. Curvaram-se até ao chão as beatas, beijando-lhe a mão ou as borlas da batina, e pedindo-lhe a benção, que elle distribuia com profusão.

Mas a meio caminho da sacristia, para onde se dirigia, surgiu-lhe quasi do chão um estorvo.

Zé P'reira, o desconfortado marido, estava deante d'elle, gesticulando e realisando um triplice e admiravel esforço para firmar as pernas, para abrir os olhos, e para desembaraçar a lingua.

Dizia o homem:

—Ó sr. aquelle... ó sr. padre, ou missionario, ou lá o que é... eu quero-lhe perguntar uma coisa. Deus disse... sim, Deus disse... A religião manda... Quando um homem se casa...

O missionario não esperou pelo fim da inesperada interpellação; com modos rudes e pulso vigoroso arredou de si o atrevido, e bradou, fulo de cólera:

—Então que desafôro é este? Deixam um homem n'este estado vir ter commigo?!

E com maneiras e palavras igualmente asperas impoz silencio ao povo, que rira do desengano do Zé P'reira. Os mordomos acudiram logo para afastarem o Zé P'reira d'alli para fóra. Elle deixou-se ir, limitando-se a dizer mansamente:

—Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! Então uma pessoa não pode dizer o que sente?

Ia elle já fóra da igreja e ainda se lhe ouvia a voz repetir:

—Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!

Quando depois d'esta scena, o missionario passou por Henrique, murmurou este em voz perceptivel, ao ouvido da morgadinha:

—Diga se este todo e este modo de tratar ovelhas não é mais de magarefe do que de pastor?

O missionario ouviu estas palavras, pois que se voltou como se uma vibora o picasse, e faiscou-lhe no olhar o fulgor de um odio pharisaico. Henrique arrostou-o com audacia provocadora.

O padre entrou para a sacristia.

No entretanto o auditorio dispunha-se para escutar o sermão, o mais commodamente que era possivel n'aquelle pequeno recinto.

No fim de alguns minutos apparecia no pulpito a figura bem nutrida e pouco attrahente do famigerado educador dos povos.

Fitou com sobranceria os ouvintes e com particular insistencia fixou em Henrique, que lhe ficava fronteiro, um olhar, que elle sustentou com firmeza.

Esta tacita provocação durou alguns minutos, no fim dos quaes poderia talvez, quem estivesse prevenido, distinguir nos labios do padre um sorriso rancoroso e perceber-lhe um movimento de cabeça quasi ameaçador:

Emfim soltou o texto latino do sermão.

Seguiu-se nova pausa, e principiou.

Apesar do exemplo de Sterne, que não duvidou entresachar nas paginas humoristicas da Vida e opiniões de Tristam Shandy, um sermão sobre a consciencia, eu não ouso transcrever para aqui o modelo de eloquencia sacra, recitado pelo missionario n'aquelle dia.

Ainda se eu pudésse transmittir aos leitores o tom rouco de voz, a extravagancia de gestos, o decomposto dos movimentos com que o orador acompanhava a recitação dos descosidos periodos d'aquella indigesta prática, talvez me animasse á empreza, para lhes dar um exemplo da vigorosa eloquencia, com que se anda atrazando a civilisação do povo e prejudicando a verdadeira religião, a despeito dos bons sacerdotes, cuja voz é abafada por aquella gritaria.

As mais tetricas e pavorosas imagens adornavam o discurso.

Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as fornalhas ardentes, innumeras torturas, a que o menor delicto, tal como um jejum mal guardado, uma confissão mal feita, uma involuntaria falta á missa, uma penitencia esquecida, uma oração supprimida, arriscava as almas por toda a eternidade. Para cada peccado venial uma perspectiva de tormentos sem fim. O tribunal de Deus foi arvorado em tribunal de Santo Officio, onde os autos de fé, os pôtros, e cavalletes aguardavam os delinquentes arrastados até alli; eis o resumo da oração. A fatal e desesperadora sentença, que o poeta florentino esculpiu no portico do inferno, traçava-a este sobre os umbraes do tribunal do Eterno.

Na esculptura de Christo, obra rude do buril popular, mostrava o vulto de um accusador, surgindo alli a pedir vingança, e não o do Redemptor sublime a implorar e prometter perdão. E tudo isto de mistura com imprecações contra as modernas instituições sociaes, contra a obra do seculo, contra os descobrimentos, contra a sciencia, contra tudo em que se descobrisse o cunho da época e que tendesse a modificar os costumes e as ideias em sentido menos favoravel á propaganda reaccionaria.

Á medida que a oração progredia, animava-se a voz do orador; augmentava a desordem dos gestos e refinava a selvageria das imagens.

Ao mesmo tempo os gemidos, os soluços e os ais do auditorio, e principalmente da parte feminina d'elle iam crescendo em choro manifesto, em gritos e alaridos. Cêdo era já um angustioso clamor em toda a igreja. Magdalena, que se sentia, ella propria, um pouco impressionada por este espectaculo de desolação, voltou os olhos para Christina. Viu-a trémula, pallida, com as faces banhadas em lagrimas, tendo no gesto todos os signaes de um intenso pavor.

Assustada com o estado da prima, a morgadinha fez notal-o a Henrique, e tacitamente lhe communicou as apprehensões que sentia.

Henrique comprehendeu a necessidade de dissipar a funesta influencia que se estava exercendo no animo timido de Christina.

Sentou-se por isso junto das duas raparigas e principiou a distrahil-as com commentarios satyricos ás palavras do sermão e á figura do orador, que ambas offereciam farto alimento para elles.

D'ahi a pouco Magdalena instava já com Henrique para que se calasse.

Previa o perigo que poderiam correr, persistindo n'aquelles commentarios improprios do logar.

Effectivamente não tinham passado despercebidos, do padre os commentarios de Henrique, nem os sorrisos mal disfarçados de Magdalena; e a raiva despertada pela descoberta cada vez inflammava mais o orador, exacerbando-lhe a virulencia da phrase.

Já não podia tirar os olhos d'aquelle grupo, e por vezes a cólera, estrangulando-lhe quasi a larynge, interrompera-lhe o discurso.

Alguns ouvintes, seguindo a direcção d'aquelles olhares faiscantes, haviam attingido já a causa d'elles.

D'ahi algumas murmurações que principiaram a sussurrar pela igreja.

No grupo das beatas, em que estava Ermelinda, fôram ellas mais acerbas do que nenhumas. A sr.a Catharina e as suas companheiras fartaram-se de anathematisar a impiedade e a heresia da gente do Mosteiro, e no coração da filha do Cancella, dominado pelo terror que o sermão levára ao cumulo, calavam aquelles dizeres, que a faziam quasi olhar, como se fôssem já prezas do inferno, para Magdalena e Christina, a irmã e a prima de Angelo, do seu amigo de infancia, em quem já não se atrevia a pensar.

N'uma occasião em que o missionario fulminava com mais vehemencia os progressos da industria moderna e chamava redes do demonio e caminhos do inferno aos telegraphos electricos e ás vias-ferreas, Henrique approximando-se dos ouvidos das duas primas, fez não sei que reflexão tanto a proposito, que a morgadinha não conteve o riso; a propria Christina sorriu tambem.

Era de mais! O padre pulou no pulpito. Com os olhos em chammas, as faces apopleticas, os labios espumantes, os punhos cerrados e os braços hirtos e estendidos na direcção de Henrique, rompeu n'estes violentos termos:

—Fóra do templo, pedreiros livres, que vindes aqui escarnecer da palavra do Senhor! Fóra do templo, impios libertinos, que não respeitaes os ministros de Deus, nem o seu altar! Andam lobos no povoado e vieram esconder-se entre as ovelhas na casa do Senhor! Escorraçae-os, irmãos, se não quereis que se vos pegue a lepra do peccado e que Deus arraze esta aldeia, como arrazou Gomorrha e Sodoma. São esses os que trazem das cidades a peste para as aldeias; são estas as pragas que nos veem com as estradas e com a civilisação. Fugi d'elles, que trazem o demonio na alma! Homens sem religião, mulheres sem temor de Deus, mações, pedreiros livres, vindes para aqui tentar as almas? Eu vos esconjuro! eu vos requeiro! Vade retró, Satanaz, vade retró! vade retró!...

E de cada vez que repetia a fórmula exorcista, o missionario estendia o braço na direcção de Henrique.

Este, desde que viu que a imprecação lhe era dirigida, levantou-se e fitou o padre com ousadia imprudente. Preparava-se para lhe responder alli mesmo.

Quando o missionario concluiu, o sussurro da igreja degenerou em desordem. Das beatas transmittiu-se a revolta aos homens do campo, cuja má vontade, para com a gente das cidades, cresce sempre que se suspeitam alvo dos desdens ou zombarias d'esta. As ameaças soavam já distinctas, os varapaus mexiam-se pouco pacificamente, o escandalo tomára proporções assustadoras.

Christina quasi desfallecia; Magdalena, pallida, mas sem perder a presença de espirito, que nunca a abandonava, segurou o braço de Henrique e queria obrigal-o a retirar-se da igreja.

Henrique resistia e procurava falar.

O velho Torquato, trémulo e enfiado, puxava tambem por elle como podia.

O alarido, a confusão, a desordem recrudesciam. O padre tinha perdido a cabeça, e do pulpito animava a anarchia, berrando e bracejando.

Alguns homens prudentes, e entre elles o santo homem de um cura que havia na freguezia, obrigaram, quasi á fôrça, Henrique a sair da igreja por a porta da sacristia.

Ao vêl-o retirar, acompanhado das senhoras, o povo precipitou-se em confusão para a porta principal, para os vir esperar á saída da sacristia, e correu clamando atordoadoramente.

E de feito, quando alli chegaram, viram-se em frente de uma impenetravel parede humana, de centenares de rostos que os fitavam furiosos, de braços que os ameaçavam, e de bôcas d'onde partiam gritos de «morte aos pedreiros livres, aos libertinos e aos herejes.»

Magdalena recuou; Christina encostou-se-lhe ao hombro, quasi desmaiada.

Henrique parou á porta, pallido, mas sem recuar deante d'aquella gente furiosa e ameaçadora.

—Que querem de mim e d'estas senhoras?—perguntou elle, com voz firme.

Em vez de responder-lhe, berraram com mais violencia:

—Morra o pedreiro livre!

—Ensinem esses senhores da cidade!

—Pouca vergonha!

—Isto não fica assim! Isto é de mais!

—Mação!

—Hereje!

—Quero passar!—repetiu Henrique, no mesmo tom imperioso.

—Havemos de ensinar estes fidalgos.

—Excommungados!

—Havemos de lhes dar os risinhos na egreja.

Henrique não podia já reprimir a impetuosidade do genio; deu um passo para elles, levantando o chicote que trazia na mão.

Era uma imprudencia perigosa. N'um momento uma verdadeira nuvem de varapaus cruzou-se sobre a cabeça d'elle.

E os gritos de «morra! mata! abaixo os pedreiros livres e herejes!» levantaram-se mais ameaçadores do que antes. Magdalena susteve, a tremer, o braço de Henrique.

E o tumulto crescia cada vez mais e cada vez mais augmentava o perigo.

Uma grande pedra, impellida de longe, veio bater na verga da porta da sacristia, e na quéda ameaçava ferir a cabeça de uma creança que, entremettendo-se no grupo dos amotinadores, conseguira collocar-se junto de Magdalena, e de olhos espantados assistia áquillo tudo com infantil curiosidade, emquanto a mãe afflicta a chamava em altos gritos, procurando-a no adro. A morgadinha, estendendo as mãos para proteger a cabeça da creança, foi ferida nos dedos pela pedra. Com gesto sereno, e em tom desaffectadamente reprehensivo e ao mesmo tempo placido, disse para toda aquella gente:

—Não vêem que iam matando esta creança?

Esta simples acção, e estas palavras da morgadinha, produziram mais effeito do que todos os arrazoados e todas as resistencias. Havia n'ellas claros indicios de uma indole generosa, e a generosidade foi e será sempre um dos mais poderosos elementos para dominar e commover as massas. Sabem-o os especuladores politicos, que tanto se esforçam por simulal-a, quando precisam do povo.

—Quem foi que atirou a pedra?—perguntou um.

—Temos tolice!

—Nada de pedra, olá!

—Então isto é coisa de garotos!

Estava a quebrar-se a furia da onda popular. Os que antes gritavam «morra» achavam já reprehensivel a primeira tentativa de lapidação. E comtudo era a pedra a arma mais prompta para executar a sentença. Era evidente que o maior perigo passára e que um pouco de prudencia resolveria a crise.

O peor era que Henrique possuia em pequeno grau essa qualidade, e, irritado pelo insulto, ia commetter talvez algum acto irreflectido, apesar dos esforços de Christina e de Torquato para o reprimirem.

Uma circumstancia, porém, veio inesperadamente em auxilio d'elles, e concorreu para dissipar a tempestade.

Foi o caso que, depois de ser posto fóra da igreja o Zé-P'reira, que, pelas razões que o leitor já sabe, e inda mais depois do mallogro da interpellação ao missionario, não olhava com bons olhos para este, veio desconsoladamente sentar-se no adro, sobre os degraus de um cruzeiro, tendo ao seu lado o popular tambor, instrumento das suas glorias, e que ainda n'aquelle dia servira á frente da procissão.

Ahi se conservou em quanto durou o sermão. Junto do artista deitára-se a dormir o seu satellite, o rapaz do bombo, o que, a passadas compassadas e valentes, secundava os rufos rapidos e febris que o outro executava na caixa—pancadas que eram, por assim dizer, as virgulas d'aquelles floridissimos periodos acusticos.

Em posição de cansaço e desalento o Zé P'reira monologava, como era habito seu, sempre que tinha o cerebro repassado do espirito familiar.

Lamentava comsigo, o bom do homem, o desmazêlo domestico da sua cara metade; a influencia funesta dos missionarios na paz das familias, e sobre tudo a indifferença que principiava a perceber nas massas para as maravilhas do predilecto instrumento, que elle conhecia a preceito.

Era de facto esta uma das causas dos pesares secretos do hortelão.

Desde que, por influencia do mestre Pertunhas, se instituira a philarmonica na aldeia, Zé P'reira andava triste e desassocegado.

N'aquillo viu elle a morte da sua arte. Um ceci tuera cela, como o que preoccupava e entristecia o arcediago de Notre-Dame de Paris, analogamente inquietava o nosso homem. O espirito e gôsto publico entravam em nova phase, preparava-se uma revolução na arte. O reformador era o mestre Pertunhas; instituindo a banda marcial, verdadeira extravagancia romantica comparada á simplicidade e nobreza classica dos portentosos rufos do Zé P'reira, o mestre de latim realisou um commetimento digno de menção na historia da arte.

Pobre Zé P'reira!

Estas reflexões estavam-lhe acudindo todas, e mantinham-o, havia perto de uma hora, em uma posição contemplativa deante do tombado instrumento de seus ruidosissimos triumphos. Lia-se n'aquelles olhares fixos uma melancolia quasi poetica.

N'esta contemplação o surprehendeu a tumultuosa e subita saída do povo pela porta da igreja, e as scenas de motim que se lhe seguiram. A intelligencia pêrra de Zé P'reira não achou logo a explicação do que via. Pouco a pouco porém os varapaus no ar, os gritos, a confusão, principiaram a dar-lhe uma vaga consciencia da desordem popular.

Os instinctos ordeiros e pacificos de Zé P'reira acordaram, e o homem ergueu-se.

Olhou algum tempo para o logar do maior tumulto, e em seguida passou ao tiracollo a alça do tambor.

Olhou outra vez, e com um pontapé acordou o seu satellite, que, estremunhado, tomou automaticamente para si o bombo do acompanhamento.

Olhou outra vez, e viu nos ares a pedra que feriu Magdalena. Então o Zé P'reira não esperou mais nada, tomou uma resolução, fez um signal ao rapaz, e...

Pom—fez a baqueta d'este, caindo com toda a fôrça sobre a retesada superficie do bombo.

Taplão, taplão, rataplão, rataplão...—responderam as baquetas movidas pelas amestradas mãos do Zé P'reira.

Muitas cabeças de amotinados voltaram-se na direcção do som.

O Zé P'reira proseguiu; adquiria cada vez mais velocidade o jogo das baquetas; começava a ganhal-o o vapor do enthusiasmo.

Principiou a acudir o povo para junto do artista.

Este tomára-se já do raptus, do phrenesi musical. Já não eram só as mãos, eram os cotovelos, eram os joelhos, era a cabeça que rufavam. De olhos fechados, dentes ferrados nos labios, ventas offegantes, contrahidos quasi tetanicamente os musculos do pescoço, a vergal-o para traz, Zé P'reira parecia endemoninhado. Não via, não ouvia, não sentia, não tinha consciencia de si, nem dos seus actos; todo elle era fogo, delirio, convulsão, febre, loucura. Parecia que poderosas correntes electricas se transmittiam do tambor ao cerebro, e do cerebro ao tambor, desafiando aquelles movimentos choreicos, aquelles grunhidos surdos, aquellas visagens extravagantes, aquellas contracções geraes, que o torciam, desconjunctavam e desfiguravam.

Vencera-o completamente a febre; sangue, nervos, musculos, cerebro, tudo era dominio seu; congestionado, allucinado, louco, rufou, rufou, rufou com desespero, rufou até as baquetas se não avistarem, de rapidas que se moviam; rufou até o ouvido quasi não perceber a descontinuidade dos sons; rufou finalmente até cair por terra exhausto, no collapso que succede ás convulsões do espasmo. Se tinha de ser aquelle o declinar de uma gloria, todos os astros lhe invejariam tão esplendido crepusculo.

O povo inteiro applaudiu o artista.

E quando voltaram a si do extase em que elle os tivera, acharam já fechadas as portas da sacristia e nem vestigios da familia do Mosteiro. O povo dispersou pacificamente.


XX


Passados dias voltava o Herodes do Porto, quando nas proximidades da aldeia encontrou alguns homens a cavallo, que lhe eram desconhecidos.

O leitor que tenha sempre vivido n'uma cidade populosa, onde lhe é impossivel conhecer todos os que com elle habitam na mesma terra, mal pode fazer ideia da sensação que produz no habitante de uma aldeia, villa ou cidade pequena, a presença de uma cara estranha.

Formam-se-lhe logo no espirito mil conjecturas, e a mais inquieta curiosidade instiga-o a decifrar a significação d'aquelle apparecimento.

Isto aconteceu com o Cancella.

Desde que avistou os desconhecidos, que dissemos, não tirou mais os olhos d'elles. Eram tres em numero, traziam grandes botas, e largos chapéos, mantas ao hombro, usavam bigodes e lunetas escuras.

—Passaros de arribação...—pensava o Herodes comsigo—que vento traria isto para aqui?

E, chegando-se mais de perto, saudou-os cortezmente.

Um d'elles dirigiu-lhe a palavra:

—Olá, ó amigo, onde ha por aqui uma casa habitavel, em que nos alojemos?

—Por pouco ou por muito tempo, meu amo?

—Por o tempo que levar a construir uns quinze kilometros de estrada.

—Ah! então v. sr.as são engenheiros?

—Julgo que sim.

—Então, visto isso, as estradas sempre vão principiar?

—Antes de arranjarmos casa em que fiquemos, de certo que não.

—Ai, sim, querem uma casa... Eu lhes digo, não tem nada que saber; os meus amos vão por ahi sempre a direito, e lá adeante, chegando ao pé de uma oliveira, tomam á sua mão esquerda por um caminho estreito, que tem uma cancella no fim; depois, logo que virem uma nora, carregam á direita, seguem sempre ao lado de um muro branco, até chegarem á eira; ahi tomam por um outro atalho, que está ao lado e vão dar a um larguinho... Depois não tem que saber, deitam pela rua em frente e perguntando alli pela estalagem da Mouca, logo lhe dizem.

Os tres cavalleiros olharam uns para os outros, consternados com a explicação.

Iam a dirigir mais algumas perguntas, quando passou por alli uma rapariguita, guardando porcos, que parou pasmada a olhar para os engenheiros.

—Se v. s.as querem, esta pequena vae ensinar-lhes o caminho.

Acceitaram contentes, e cêdo partiam, precedidos por a pequena cicerone.

—Grande novidade!—ficou dizendo o Cancella comsigo—sim, senhor; com que vão principiar as estradas! Pois nunca cuidei que fôsse nos meus dias. Então... querem vêr que sempre sae certo o que eu ouvi dizer, que vae abaixo a casa e o quintal do tio Vicente?... Pois se querem vêr... O pobre homem estala de paixão, se isso assim é; isso é com certeza... Pois, senhores... isto de estradas... é bom, é; pois não é? Sempre é outro arranjo para quem tem de ir á cidade...

Nova surpreza esperava o Herodes n'este regresso aos lares. De longe ainda, divisou affixado á porta da igreja um edital. Outra circumstancia que nas cidades nem nos obriga a desviar a cabeça, porém que nas aldeias toma as proporções de um grande successo.

—Ui! Temos novidade—disse o Herodes ao vêl-o.—Edital á porta da igreja!—e approximou-se para ler.

Proclamava o chefe do concelho aos seus administrados que, por ordens terminantes do governo, eram, desde aquella data, expressamente prohibidos, sob as mais severas penas, os enterramentos no interior da igreja, e que todos se fariam no cemiterio, para esse fim já construido. Havia no logar um grupo de populares commentando a ordem e murmurando contra o governo e contra o conselheiro, e falando de opposição e motim.

—Bom, mais outra!—dizia o Herodes, ao apartar-se do logar.—Grandes coisas se passaram cá na terra, emquanto eu andei por fóra! O peor é que não sei se a coisa irá assim ás mãos lavadas; ao que já ouço por ahi rosnar!... É o diabo!... Eu digo, não sei se é do costume em que uma pessoa se põe... mas... lembrar-se, a gente de que fica assim á chuva e ao sol... Mas é do costume, é... Bem sente lá uma pessoa o frio depois de morta.

E fazendo estas reflexões proseguiu no seu caminho.

Passou por uma pequena capella, erecta á borda de um pinheiral, sob a invocação da Virgem da Esperança, e reteve-se a fazer oração. Áquella imagem costumava encommendar a filha, sempre que saía da aldeia, e no regresso pagava-lhe em fervorosas orações a protecção obtida, e separava-se d'alli mais consolado e tranquillo. D'esta vez, porém, ficou triste e sobresaltado. Porquê?

É que se lembrára de que tinha, ao partir, deixado Ermelinda doente, e estremecia agora na incerteza de como a iria achar.

Esta ideia fel-o apressar o passo, como se quizesse, quanto antes, tirar-se d'aquella incerteza; mas desde que avistou os telhados e muros da casa parou irresoluto.

Parece que os objectos inanimados nem sempre teem para nós um mesmo aspecto. Ha occasiões em que as casas, as arvores, os muros, as portas, se nos mostram com certos ares melancolicos, e quasi direi pensativos, que nos enchem de sombras o coração; outras em que umas apparencias de sorrisos lhes dão uns ares de festa que alegram e convidam.

Ao Herodes apparecia-lhe triste d'esta vez a casa, que de ordinario, ao avistal-a, lhe enviava um sorriso a dar-lhe as boas vindas.

Seria o effeito das tintas desmaiadas, que dá aos objectos o sol crepuscular? Seria o reflexo dos presentimentos proprios, que lhe estavam confrangendo o coração? Mas como lhe acudiram tão de subito esses presentimentos, a elle, ainda pouco tempo havia tão despreoccupado! Como lhe occorrera de repente a memoria d'aquelle dia em que, voltando tambem de fóra, viera encontrar quasi morta a mulher, que chorava ainda, a mãe de Ermelinda? Phenomenos que se perdem na parte obscura da vida moral, da qual ainda a analyse não conseguiu devassar as sombras.

Crescia o sobresalto do pobre homem ao pousar os pés nos primeiros degraus da escada de pedra. Ao passar pela porta do compadre, não tivera coragem de perguntar; receiou sair da incerteza.

Foi quasi a tremer que empurrou deante de si a porta da casa, que encontrou aberta.

Logo ao entrar, recuou espantado e não reprimiu uma exclamação de surpreza.

Fôra a causa o achar novidades na primeira sala.

Deu com os olhos n'uma fileira de pequenas cruzes de pau preto que cercavam as paredes, e em alguns caixilhos com imagens de santos, que não deixára alli ao partir. E ninguem a recebel-o.

—Crédo!—disse o Cancella, desgostoso.—Para longe o agouro! Cruzes negras á chegada! São coisas da comadre. Maldita velha! Jurou metter-me scisma em casa e na cabeça da rapariga, e se não lhe acudo...—Ermelinda!—exclamou, chamando por a filha.

Como não recebesse resposta, passou para os aposentos interiores.

Á entrada do corredor descobriu uma pequena pia de louça cheia de agua benta, em que mergulhava um ramo de alecrim.

—Mau!—disse o Herodes, cada vez mais descontente.—Vou vendo que a minha comadre fez por aqui das suas. Ora queira Deus... queira Deus... Ermelinda!

E correu toda a casa, que não tinha muito que correr, e explorou o quintal, e sem achar a filha; já inquieto, chegou a um quarto mais retirado, o unico que ainda não revistára. A porta estava fechada por dentro, porém a péquena cravelha fraca resistencia oppoz á pressão que na porta exerceu o Herodes.

Franqueando assim a passagem, parou no limiar.

Moveu-se, ao ruido que elle fez, um vulto que parecia ajoelhado n'um canto escuro do quarto.

—És tu, Linda? Estás ahi?—perguntou o Cancella, affirmando-se n'aquelle vulto, sem ainda o reconhecer,

—Meu pae... respondeu com voz fraca.

—Que fazes tu aqui mettida e fechada n'este quarto, filha? no quarto mais escuro e mais abafado de toda a casa? Chega-te cá, rapariga, quero-te abraçar e beijar... Então que é isso?... Tens hoje tão pouca pressa de abraçar teu pae?... D'antes, até ao caminho me vinhas esperar... Vem cá, minha filha, vem cá... Se soubesses como me consola...

E estendia os braços para a filha, que lhe viera emfim ao encontro. Quando, porém, a viu mais perto da luz, calou-se subitamente e principiou a examinal-a com inquieta anciedade. Depois, como se lhe não bastasse a luz d'aquelle recinto para desvanecer não sei que suspeitas assustadoras que o devoravam, trouxe, silencioso ainda, a filha para o corredor, e continuou ahi a fital-a com os olhos eloquentes de paixão e de espanto, bradando emfim, com voz consternada: