Os influentes politicos teem sempre no proprio partido, a que pertencem, invejosos que só almejam o primeiro pretexto para os derrubarem, embora caia com elles o partido a que se filiam.
Aquella carta foi, durante algum tempo, uma arma poderosa nas mãos dos taes; originou discussões e ataques violentos; e o conselheiro correu risco de se malquistar por causa d'ella com gregos e troyanos.
Tudo isto se revelava ao espirito de Magdalena e tudo isto a consternava. O seu muito amor filial fazia-lhe achar no facto uma significação dolorosa e triste que só desillusões, como as de Henrique de Souzellas, velhas desillusões de sceptico impenitente, poderiam attenuar. O conselheiro expiava cruelmente o seu delicto.
A leviandade e doblez do homem politico pagava-a caro o homem de familia.
É que a moral é uma. O homem não pode dividir-se; os peccados sociaes de quem é virtuoso nos lares domesticos, pagam-se, expiam-se n'esses mesmos lares. Os filhos que creou e educou segundo os preceitos da honra e da virtude, serão mais tarde os seus proprios juizes, e que cruel julgamento para o coração de um pae! É justo que a patria peça contas dos crimes de familia e desconfie dos tribunos que não sabem ser paes, filhos, irmãos e esposos; é justo que a familia exija que se seja fiel á prática e ás crenças que se professam, e castigue, pelo menos com lagrimas, como as de Magdalena, as culpas do homem que julgou poder ter duas consciencias: uma para responder por os actos civicos, outra para os actos domesticos.
Henrique procurou minorar o effeito que esta leitura tinha produzido no animo da morgadinha por meio de algumas consolações, que uma indulgente moral, muito do uso da sociedade, lhe inspirava.
Percebeu porém, que, embora as manifestações do sentimento tivessem cessado já em Magdalena, não se lhe tinha ainda dissipado a profunda e penosa impressão que lhe ficára da leitura.
Como para fazer cessar aquelle genero de consolações, a que Henrique se julgava obrigado, e que a ella eram custosas de ouvir, Magdalena disse, em tom já apparentemente sereno:
—Bem; visto que é necessario precavermo-nos, vejamos de quem e quaes as cautelas que temos a adoptar. Meu pae parece suspeitar de alguem, mas não se pronuncia claramente.
N'isto entrou na sala D. Victoria, carregada de roupa como para uma viagem aos pólos, e queixando-se do frio, cuja intensidade attribuia em grande parte aos criados, por se terem descuidado de accender logo de manhã os fogões da casa.
Quando D. Victoria foi informada do conteúdo da carta do seu cunhado, levantou um alarido desolador. Por sua vontade ordenava logo alli um interrogatorio e uma devassa geral a todos os criados da casa, aos quaes, segundo o costume, attribuia a culpa toda. Magdalena e Henrique tiveram muito que fazer para a convencerem da inutilidade e inconveniencia d'esse alvitre e para lhe mostrarem a necessidade de usar de toda a prudencia e dissimulação n'esta pesquisa.
—Aqui entre nós—dizia Henrique—vejamos em quem se pode, com plausibilidade, fazer recahir as suspeitas. O sr. conselheiro diz bem; um criado boçal pode roubar uma joia, subtrahir qualquer objecto de valor intrinseco; porém os ladrões de cartas como estas, são de outra especie e de intelligencia mais apurada. Ora entre a gente que frequenta o Mosteiro...
E parando subitamente, Henrique disse para D. Victoria, que olhava para elle com um gesto espantado:
—Porém, minha senhora, eu mesmo não me devo excluir da lista dos indiciados, e n'esse caso deixo v. ex.as livres para me instaurarem processo.
—Ora essa, primo Henrique!—exclamou D. Victoria.—Era o que faltava! Nada, nada; não se cance; não tem que vêr. Aquillo foram os criados.
Magdalena estava tão abatida de animo, que nem deu attenção a este episodio.
Henrique proseguiu:
—Nada de magnanimidades, minha senhora; quem quer ser juiz a ninguem deve excluir da possibilidade de ser réo. O sr. conselheiro, porém, alguns indicios nos aponta. Fala, por exemplo, vagamente, de alguem que n'estes ultimos tempos se pudesse considerar offendido por elle, e que por vingança... Ora actos capazes de trazer estas animadversões a seu pae, prima Magdalena, só a questão do cemiterio, mas essa não importa a ninguem que tenha entrada aqui... Ha tambem as das expropriações, porém...
Henrique parou, como se lhe tivesse acudido uma ideia, que examinava, antes de enuncial-a.
—Tive agora um pensamento diabolico; nem quero attendel-o.
—Diga, primo, diga—acudiu logo D. Victoria.
—A expropriação da casa do herbanario... O muito amor que o velho tinha áquella vivenda... A repugnancia com que viu cortar aquellas arvores velhas...
—Então julga que foi o Vicente?—perguntou D. Victoria.—Mas elle não vem ao Mosteiro ha muitos annos, primo.
—Não digo que fôsse elle, minha senhora—disse Henrique, cujo embaraço augmentava, sentindo que a morgadinha o fitava com um olhar penetrante, como se lhe estivesse lendo o pensamento.
—Então?—insistia D. Victoria.
—Mas—proseguiu Henrique—o velho exerce certa fascinação na gente da terra; um verdadeiro prestigio; e certas intimidades entre elle e... e alguem que tem aqui entrada a todo o momento... Emfim... eu não quero seguir mais adeante este antipathico pensamento, que talvez fôsse rejeitado com indignação por quem me escuta e attribuido a mesquinhos resentimentos da minha parte.
—Faz bem em o abandonar, primo Henrique—disse Magdalena, com severidade.—Entre ser victima de uma traição e culpada de uma suspeita injusta, cruel e maligna, prefiro arriscar-me á primeira sorte. Se um passado inteiro de honra e de probidade, se um caracter provado nas mais tentadoras situações da vida, se um nome ennobrecido pelo infortunio, não são garantias bastantes para proteger um homem contra os ataques da suspeita, não quero entrar n'essa pesquisa inquisitorial que nada respeita, que é capaz de lançar sacrilegamente a dúvida entre paes e filhos, entre irmãs e irmãos. Innocente, prefiro aguardar a calumnia; culpada, o castigo, a sentar-me como juiz n'esse tribunal impio que quer arvorar.
—Previ essas palavras, prima Magdalena; por isso hesitei. Lamento sinceramente ter já perdido no uso do mundo uma tão sympathica e adoravel boa fé nos outros, que é a maior prova de candura que se pode dar do proprio caracter.
D. Victoria não percebeu nada d'este rapido dialogo; por isso exclamou:
—Mas que estão vossês ahi a dizer? De quem falam? Eu se vos entendo! Quanto a mim, foram os criados, e d'isto é que ninguem me tira.
Abriu-se n'este momento a porta da sala e appareceu Augusto. Era a hora das lições dos pequenos.
Comquanto, desde o termo das férias, Augusto viesse todos os dias ao Mosteiro, era aquella a primeira vez que se encontrava com Magdalena e com Henrique, depois da scena que entre elles se passára na noite de Natal.
A morgadinha fitou por momentos n'elle os olhos; pareceu-lhe mais pallido e triste do que de costume. Desviou-os, porém, como se até sentisse remorsos de ter escutado as allusões de Henrique sobre o caracter de um homem que ella se costumára a respeitar. Porque o leitor, cuja intelligencia é, sem lhe fazer favor, mais perspicaz do que a de D. Victoria, percebeu de certo que era a Augusto que se referiam os vagos termos trocados entre Henrique e Magdalena.
—Muito bons dias, sr. Augusto,—disse D. Victoria affavelmente—então são horas de me vir aturar a pequenada? Não lhe invejo a vida. Sabe? De manhã até á noite a aturar creanças! Deus me livre!
—Agora já não succede assim, minha senhora. Estou dispensado de parte das minhas obrigações—disse Augusto, depois de cortejar as senhoras e Henrique.
—Como?
—Pois v. ex.a não sabe que já foi nomeado outro professor para o meu logar?
—Que me diz?
Em todas as pessoas presentes produziu sensação esta noticia.
D. Victoria e a morgadinha fixaram em Augusto um olhar interrogador. O gesto de Henrique tinha uma expressão particular.
—Recebi ha dias a participação official—continuou placidamente Augusto.
—Mas—proseguiu D. Victoria—o mano tinha aqui dito que o seu despacho estava seguro, que, além de ser de toda a justiça, elle o tomaria a seu cuidado. E então agora... Olhem, sabem que mais? eu cada vez me entendo menos com esta gente. Isto de politicos...
Magdalena inclinou a cabeça, suspirando.
—Bem vê v. ex.a—disse Augusto, com leve tom de amargura—que ás vezes ha grandes interesses sociaes dependentes do despacho de um modesto professor de instrucção primaria da aldeia, e portanto não se deve extranhar que um homem politico attendesse a elles antes de tudo.
Magdalena que, ao ouvir estas palavras, levantára os olhos, encontrou os de Henrique, que parecia procurarem os d'ella com intenção.
A morgadinha desviou os seus com impaciencia e desgôsto, que se lhe manifestou na contracção da fronte.
—V. ex.a dá-me licença que principie os meus trabalhos?—disse Augusto.
—Ai, quando quizer—respondeu D. Victoria.—Os pequenos estão na sala verde.
Augusto saiu.
D. Victoria entrou no panegyrico do mestre de seus filhos, e não se fartou de exaltar-lhe os talentos e as virtudes, apregoando o muito que aproveitavam os pequenos sob tão intelligente direcção.
—Olhe que o Eduardito já escreve e já lê manuscripto como um homem—dizia ella.—Quer vêr? O sr. Augusto deixou aqui ficar a pasta; ha de ter alguma escripta do pequeno. Ora tambem vou vêr.
E D. Victoria, cedendo aos impulsos do seu enthusiasmo de mãe, foi buscar a pasta de Augusto e pôz-se a procurar n'ella a escripta do filho.
—Não vejo ...—disse ella, remexendo os papeis.—Isto que é?... Ai, isto é uma escripta de Marianna... Ora veja.
Henrique fingiu examinar com attenção a escripta.
—Aqui estão os themas francezes d'elle. Quer vêr? Eu d'isso não entendo, mas hão de estar bons.
E passava tambem os themas para Henrique, que os examinava com a mesma attenção.
—Ora onde estará a escripta de Eduardo? Eu sempre queria que a visse. Isto... isto é... Ha de ser alguma carta, que elle anda a ler. Ora veja, primo; olhe que a lettra ainda não é das mais faceis... Eu por mim não a leio... Quer vêr?
Henrique recebeu, com a maior condescendencia, o novo documento que lhe ministrava D. Victoria, no sympathico intento de provar a habilidade dos filhos.
Voltou distrahidamente a primeira folha da carta e pôz-se a lêl-a no fim; cêdo, porém, começou a examinal-a com grande curiosidade; leu uma e outras das faces escriptas, e, ao acabar a leitura, estava-lhe nos labios um sorriso entre de ironia e de triumpho.
Offerecendo á morgadinha a carta que lêra, disse-lhe, com um modo que a impressionou:
—Veja se comprehende a significação d'esta carta, que estava na pasta do sr. Augusto, do amigo de seu irmão. A mim parece-me que as creanças não a comprehenderiam bem.
Magdalena olhou para Henrique e depois para a carta, que principiou a ler.
Succedeu-lhe como a Henrique; cêdo a dominava uma anciosa curiosidade, que a obrigou a ler com rapidez até o fim.
Ao acabar, amorfanhou-a com raiva, arrojando-a ao chão; escondeu o rosto entre as mãos e não pôde reter o pranto que lhe rebentava dos olhos.
D. Victoria parou a olhal-a, estupefacta.
—Que é isso, Lena? Santo nome de Deus! tu que tens, menina?
—É que ha momentos, minha tia,—respondeu Magdalena, fitando-a com os olhos arrazados de lagrimas—em que eu não sei como se resiste á loucura; em que, para não duvidarmos de nós mesmos, é necessario duvidar da Providencia, que dizem que protege os bons.
E levantando-se n'esta agitação nervosa, saiu da sala, suffocada pelos soluços.
D. Victoria interrogou Henrique a respeito da causa d'este episodio, que ella não podia comprehender.
Henrique respondeu simplesmente:
—Succedeu, minha senhora, que a carta encontrada na pasta do sr. Augusto parece-se muito com aquella de cujo extravio o sr. conselheiro se queixa e que foi publicada nos periodicos de Lisboa.
D. Victoria esteve algum tempo a pensar na verdadeira significação da resposta.
—Mas... n'esse caso... visto isso...
—Visto isso, só o sr. Augusto pode explicar o mysterio que inda ha pouco nos preoccupava a todos. Os meus presentimentos malignos tinham infelizmente um fundo de verdade.
D. Victoria, tendo a final comprehendido, exclamou:
—Pois seria elle! Era d'elle que o primo ha pouco falava? Por esta não esperava eu! Ora fie-se uma pessoa n'estes santos! Uma coisa assim! Ora deixa estar que eu vou... Ahi está o pago que se tira de bem fazer! Ahi está! Veremos a cara com que elle me responde. Ora deixa...
—Eu retiro-me—disse Henrique, pegando no chapéo para sair.
—Fique, primo, fique... Até é bom que ouça...
—Perdão, minha senhora. É melhor que eu não fique. Ha razões para isso... Tudo deve passar-se entre v. ex.a e elle, e, se me é licito um conselho, bom será que não seja demasiado violenta.
Apesar dos pedidos de D. Victoria, Henrique retirou-se.
Não ia satisfeito comsigo o hospede de Alvapenha. E por quê? Não tinha feito o seu dever? Por acaso não era flagrante o delicto de Augusto e irrecusaveis as provas que o acaso contra elle ministrára?
Mas em nós todos se deve ter já passado um phenomeno moral, comparavel ao que se estava dando com Henrique. Occasiões ha em que, apesar de todos os argumentos da razão, apesar da conspiração de todas as provas a justificar-nos, persiste em nós uma voz instinctiva a avisar-nos de que commettemos um mal, formulando uma accusação.
Isto sómente não succede a quem tenha adormecidos os mais generosos escrupulos da consciencia; e este caso não se dava com Henrique.
D. Victoria ficou só na sala, meditando na maneira de confundir e castigar o criminoso. Passeiava agitada, elaborando comsigo o dialogo que se ia seguir, encarregando-se ella propria de responder por Augusto.
Não se passou muito tempo que Augusto não viesse procurar a pasta que lhe esquecêra na sala.
—Que procura?—disse D. Victoria, que, ao vêl-o, parou junto da mesa.
—Uma pasta que deixei aqui!
—Será esta?—disse D. Victoria, mostrando-a.
—É essa mesma—respondeu Augusto, indo para buscal-a.
—Como vão na leitura do manuscripto os meus pequenos, sr. Augusto?—perguntou D. Victoria, retendo a pasta.
—Muito bem, minha senhora.
—Já entenderam esta carta?
Augusto pegou na carta, que examinou, superficialmente.
—É provavel que já, minha senhora; ainda que não me lembro de haver escolhido esta entre as que v. ex.a me deu.
—Pois escolheu por certo, visto que a tinha na pasta; mas como lhe pareceu difficil de mais para os pequenos, teve o cuidado de mandal-a imprimir para elles lerem melhor. Não posso consentir que entre n'esses gastos por causa de meus filhos; por isso queira dizer a despeza que fez, para se mandar pagar.
D. Victoria tirava da raiva, que se apossára d'ella, uma ironia superior aos seus habituaes expedientes de espirito.
Augusto ergueu para ella os olhos, admirado, porque não podia comprehender aquellas singulares palavras.
—Diz v. ex.a que...
Em vez de lhe responder logo, D. Victoria pegou no periodico que Henrique deixára sobre a mesa, e mais exaltada já, accrescentou:
—Veja se saiu exacta. Compare. Talvez precise de fazer alguma emenda.
Augusto olhou para o periodico e para a carta, sem bem saber o que fazia nem o que queria dizer tudo aquillo.
—Mas, por amor de Deus, minha senhora,—disse elle, já sobresaltado—que quer dizer tudo isto?
—Quer dizer, sr. Augusto, que, quando para outra vez se lembrar de atraiçoar mais alguem que o tenha favorecido, seja mais cuidadoso em esconder as provas da sua villeza.
—Minha senhora!—exclamou Augusto, fazendo-se pallido.
—Fez mal em não nos ter prevenido antes do que tinha descoberto; nós ainda tinhamos bastante dinheiro para cobrir o lanço e ficarmos com a carta.
—Oh, meu Deus! pois suspeita-se...
E Augusto, quasi como louco, arrancou das mãos de D. Victoria a folha, e começava a lel-a; mas as nuvens que lhe passavam pelos olhos, a vertigem que lhe turbava a cabeça não o deixavam comprehender o que lia.
Emquanto Augusto assim luctava comsigo mesmo, D. Victoria dizia:
—Agora é que eu entendo o que queria dizer o primo Henrique. Sempre é um homem que sabe o que é o mundo...
Ao ouvir estas palavras, Augusto arrojou de si o periodico, e scintillou-lhe o olhar de cólera:
—Ah! Foi elle? Sim... Havia de ser. Devia suspeital-o. Era de esperar que o fizesse. É o pretexto. Minha senhora, ha aqui uma traição infame, uma traição que eu não ousaria suspeitar de ninguem! Mas juro-lhe que...
—Ha de dar-me licença de ir accommodar meus filhos—disse D. Victoria, interrompendo-o friamente. E encaminhou-se para a porta.
Augusto viu-a afastar-se, e disse-lhe em tom sereno, mas commovido:
—Vá, minha senhora, vá; mas se tem a essas creanças amor de mãe, não lhes ensine por ora a suspeitar de um homem que ellas se tinham habituado a amar e a venerar. Peço-lhe por ellas, mais do que por mim. É uma triste e prematura experiencia que lhes vae dar; vae-lhes envenenar para toda a vida o coração e talvez que contra si mesma veja voltar-se a desconfiança que lhes semeia tão cêdo.
D. Victoria saiu da sala sem lhe responder; é certo, porém, que não ousou dizer aos filhos coisa alguma em desfavor do mestre. Sob as singularidades do genio d'aquella senhora havia um fundo de bom senso, onde perfeitamente calaram as reflexões de Augusto.
É singular; ao entrar na sala immediata, ia a limpar os olhos, commovida.
Augusto permaneceu abatido e desalentado, como se n'aquelle momento tivesse visto dissiparem-se todas as esperanças da sua vida. Lagrimas inflammadas e amargas assomaram-lhe aos olhos ao vêr-se humilhado no seio de uma familia que elle respeitava, da familia d'aquella a cujos olhos mais desejaria nobilitar-se, engrandecer-se, revestir-se de todos os prestigios.
Era uma dor para enlouquecer, a sua! Ao desalento succedeu, porém, a reacção; n'aquelle caracter havia latente uma energia de homem.
—Agora, mais do que nunca, preciso de alento para não succumbir;—exclamou elle, erguendo a cabeça e vindo-lhe ás faces o rubor da exaltação—obriga-me a isso o nome honrado de meu pae, a santa memoria de minha mãe. A consciencia me dará forças para luctar com a intriga e com a calumnia, onde quer que ella esteja. Ir-lhe-hei ao encontro, a descoberto, sem disfarce, nem artificios, como luctador leal. E se ha justiça no Céo, hei de vencer! Não voltarei mais a esta casa, sem ser com a cabeça erguida; não pensarei mais em ti, Magdalena, unica, suave imagem que ainda me offerecia vida, emquanto não saiba que no teu pensamento o meu nome não é o de um infame.
Ao voltar-se para sair descobriu Magdalena, que o observava da porta.
Augusto estremeceu, mas, fazendo por dominar a turbação, curvou-se respeitosamente perante a morgadinha, e ia a retirar-se.
—Espere,—disse-lhe ella, estendendo-lhe a mão, e com profunda melancolia—não saia sem se despedir de uma amiga que, apesar de tudo, o reputou sempre innocente.
Augusto parou, como se aquellas palavras o ferissem no coração.
Magdalena, com as faces pallidas e as lagrimas nos olhos, continuava a estender-lhe a mão.
Augusto apoderou-se d'ella e cobriu-a de beijos e de lagrimas.
—Oh! obrigado, minha senhora, obrigado!—exclamou elle—precisava d'essas palavras para não enlouquecer.
—Vá, Augusto, vá. Dentro em pouco tempo todos lhe pedirão perdão. Creio-o firmemente.
—E eu não procurarei tornar a vêl-a, senão quando pudér justificar essa generosa confiança. Juro-lh'o.
As lagrimas de Magdalena não podiam mais tempo conter-se-lhe nos olhos; iam soltar-se e já ella, para as occultar, desviava o rosto, quando Christina entrou na sala.
Christina, a quem a mãe acabára de contar o acontecido, parou a ver a scena e a commoção dos dois.
Augusto não se demorou, saiu sem pronunciar uma palavra.
Magdalena deu largas á tristeza, que lhe pesava no coração, deixando correr livremente o pranto.
Christina correu a abraçal-a.
—Meu Deus! meu Deus! Lena, isto que quer dizer?—exclamou Christina.
E, approximando os labios do ouvido da prima, murmurou, com adoravel ingenuidade:
—Pois tu... amaval-o?
Por unica resposta Magdalena apertou-a apaixonadamente ao seio.
E ambas por algum tempo confundiram as suas lagrimas.
XXIII
Dominado por os mais energicos e encontrados sentimentos Augusto saiu do Mosteiro, ainda sem plano formado, sem tenção definida, mas comprehendendo vagamente a necessidade de abraçar uma resolução qualquer.
As palavras que D. Victoria inconsideradamente soltára, tinham-lhe feito conceber a suspeita de que Henrique não fôra alheio á calumnia que pesava sobre elle. D'ahi a attribuir-lhe todo o plano da intriga não ia longe, e justo é confessar que não era destituida de plausibilidade a ideia.
A especie de aversão reciproca que, desde o primeiro encontro, os dividira, a maior vehemencia da entrevista na noite de Natal, em que ficára pendente entre elles uma provocação, só á espera de pretexto, concorriam para dar vigor a esta supposição.
Por isso, depois de por muito tempo percorrer á tôa os caminhos dos campos, sem consciencia nem destino, Augusto encaminhou-se resolutamente para Alvapenha.
Estava ainda pouco senhor de si para meditar nas circumstancias que occasionaram a sua accusação. Mal poderia até dizer de que era accusado. Percebeu que se tratava de um abuso de confiança, de uma infamia, mas a impressão recebida fôra tal que não o deixára investigar os pormenores do facto. Previa em tudo isto uma traição, e, para a esclarecer, dirigiu-se á unica pessoa de quem lhe parecia provavel que ella partisse.
Quando chegou a Alvapenha já tinha alli passado a hora de jantar.
Henrique retirára-se para o quarto, D. Dorothéa e Maria de Jesus, aquella dobando, esta fiando, aproveitavam o tempo a rezar parte das suas longas orações quotidianas.
Quando Augusto bateu á porta, estavam ellas de volta com a ladainha, que D. Dorothéa dizia em latim, a seu modo, e a que Maria de Jesus respondia no mesmo idioma.
—Turris e burris, fedilisarca, espeque da justiça, Joannes asellis—dizia D. Dorothéa.
—Orá pér nós—respondia invariavelmente a criada.
A reza interrompeu-se ao entrar Augusto na sala.
Poucas situações se podem conceber mais exasperadoras de animo do que a de Augusto n'aquelle momento.
Vir com o espirito dominado por as mais violentas paixões, trazer no coração uma verdadeira tempestade affectiva, e de subito achar-se na presença de duas indoles essencialmente pacificas, de dois corações a que a paixão nunca alterou o rithmo, de duas consciencias de que nunca a dúvida, o remorso, ou o odio turbaram a celeste serenidade, é um martyrio cruel.
Augusto teve desejos de recuar, porque previu a tortura que o esperava.
—Ditosos olhos que o vêem!—disse D. Dorothéa, arredando deante de si a dobadoura, para mais á vontade contemplar o recem-chegado.—Não sei, que mal lhe fizeram n'esta casa!
—As minhas occupações...—balbuciou Augusto, sem saber o que dizia.
Maria de Jesus veio de reforço á ama.
—Isso! fale-nos nas suas occupações, nem que se não soubesse cá que todos os dias dá o seu passeio ao fim da tarde; sem falar nas quintas-feiras e domingos...
Augusto não respondeu.
—Pois olhe que todos aqui lhe querem bem—disse D. Dorothéa.
—Assim o creio, minha senhora.
—Eu fui muito amiga de sua mãe, que era uma santa creatura. Inda me parece que a estou a vêr ahi sentada, com aquella capa rôxa que trazia. A alegria d'ella, quando o Augustito veio de Lisboa! Vi-a chorar e agradecer a Deus o filho que lhe tinha dado... Todo o seu desejo era não morrer antes de o vêr padre; queria pelo menos uma vez commungar das suas mãos... Coitada!... Não lhe concedeu isso o Senhor, que bem cêdo a chamou a si.
E continuou para Augusto:
—Quando morreu a morgada, a madrinha da Lenita, e que me contaram aqui do legado que ella deixára, eu disse logo: «Ora a alma tem ella no Céo por isto, quando por mais não seja». Porque, emfim... só quem não conheceu sua mãe é que não diria outro tanto. Verdade é que elle não chegou a aproveitar... mas... Emfim cada um sabe o que lhe convem e o que lhe não convem. E eu digo, a vida de sacerdote é muito bonita, isso é, mas... não havendo inclinação...
Augusto estava impaciente com a loquacidade da senhora de Alvapenha.
—O sr. Henrique de Souzellas está em casa?—perguntou elle, logo que pôde.—Desejava muito falar-lhe.
—Ai, sim? quer falar com elle? Eu acho que... Parece-me... Sim, elle deve estar no quarto... Ha de estar a ler. Não tem outra vida aquelle rapaz! Uma coisa assim! Por mais que eu lhe diga: «Henriquinho, olha que isso faz-te mal...» É o mesmo que nada. Só ler, ler, ler, que é uma coisa por maior. Ao principio ainda por ahi dava alguns passeios... Agora, tirando lá as suas visitas ao Mosteiro, elle para ahi fica. Lá ao Mosteiro sim, para ahi ainda elle vae.
—É que os ares são por alli muito saudaveis—disse maliciosamênte Maria de Jesus.
—Adeus! ahi vem vossê com as suas coisas. E então que tem? Pois está claro que um rapaz, como elle, dá-se com a gente nova.
—Pois sim, senhora, eu não digo...
—E as raparigas de lá já não estão bem sem elle... Ora eu confesso, quando elle está de maré, é um gôsto ouvil-o. Sempre ás vezes tem coisas que fazem rir as pedras.
—E pondo-se a contar historias? Ih! isso então é que é! Eu não sei onde elle as vae buscar!—accrescentou a criada.
—Com esta—continuou D. Dorothéa, apontando para Maria de Jesus—é ás vezes um passo. Eu ainda queria que o Augustito os ouvisse a ambos. É perdido em pouca gente. Elle põe-se lá a inventar patranhas, e ella a tôla, que sabe já como elle é, ouve tudo muito séria e fiada, e no fim então é que são os escarcéos. Emfim, uma coisa é dizer, outra é vêr!
E D. Dorothéa ria, com aquelle rir meio tossido de velha, em que ha não sei que indicios de uma existencia placida, que consola ouvir.
Augusto forçava-se a sorrir áquellas narrações das duas velhas, a que elle mal attendia.
—Eu digo—continuou D. Dorothéa—que já nos havia de fazer falta se saisse d'aqui; quando cá não está parece-me a casa morta.
—Deixe lá, senhora, que este já d'aqui não sae.
—Ora bem sabe vossê d'isso.
—Pois a senhora verá. Ora! Os passeios ao Mosteiro são muito bonitos.
Augusto ergueu-se, devéras resolvido a cortar a conversa por uma vez.
—Se me dá licença, eu vou procural-o ao quarto. Desejava falar-lhe, quanto antes, para um negocio de urgencia.
Depois de mais algumas reflexões, resignaram-se a deixal-o partir.
Augusto transpoz rapidamente os corredores, que o separavam do quarto de Henrique, e bateu á porta d'este.
—Entre quem é—disse de dentro Henrique.
Augusto entrou.
O sobrinho de D. Dorothéa estava sentado junto da janella, lendo uma folha e fumando.
Ao vêr Augusto levantou-se.
A lembrança das scenas d'aquella manhã no Mosteiro, e a expressão de physionomia de Augusto, fizeram-lhe prevêr a indole da entrevista que se ia seguir.
Evitando porém o menor indicio, que pudesse revelar a prevenção em que estava, disse naturalmente, estendendo a mão a Augusto:
—Oh! por aqui! A que devo o prazer d'esta visita?
Em vez de lhe corresponder ao cumprimento, Augusto disse-lhe friamente:
—Assim estende a mão a um miseravel? Ou é tibieza de pundonor, ou excesso de magnanimidade!
Henrique retirou logo a mão e respondeu com orgulhoso desdem:
—Nem uma coisa, nem outra; simplesmente o juizo bastante para não me arvorar em superintendente de negocios que me não dizem respeito; é um sentido especial, que se chama delicadeza.
—É um pouco sujeito a adormecer em si esse precioso sentido—replicou Augusto no mesmo tom.—Nem sempre são tão observadas pelo senhor, essas delicadas abstenções, como agora. Sei-o por experiencia.
—Não o são desde que os interessados me ordenam que intervenha, e desde que a minha intervenção pode ser util a amigos.
—Pois bem; como, por qualquer d'essas causas, se deu o facto em relação ao objecto que me traz aqui, espero que me explique a natureza da sua intervenção.
—Mas com que direito me vem o senhor pedir aqui explicações?
—Com o direito que me dá a consciencia, senhor!—respondeu energicamente Augusto, despojando-se de toda a apparencia de ironia.—Com o direito que tem todo o homem, calumniado cobarde e infamemente, como eu fui, de provocar uma accusação aberta e leal. Direito? É mais ainda do que direito, é dever. É um dever para com a moral, é um dever para com a consciencia, é um dever para com a memoria d'aquelles que nos transmittiram um nome honrado.
—Muito bem; mas, admittindo que seja esse direito ou esse dever, e não lh'o contestarei, por que singularidade acontece que seja eu a pessoa que tem de responder por tudo isso? Por acaso será este o pretexto, para depois do qual tinhamos adiado uma entrevista que suppuzemos necesssaria?
—Se houve pretexto para ella, foi da sua parte, e escolheu-o bem infame e vil. Não lh'o invejo. Da minha não é pretexto; é uma interrogação bem positiva e terminante. Todos os motivos anteriores, que podiam auctorisar-me a procural-o, cessaram ante a impreterivel exigencia d'este. Preciso de justificar-me, e por isso preciso de conhecer e de ouvir os meus accusadores.
—E imagina que sou eu quem deve auxilial'o na tarefa? Pelo menos devia escolher uma hora mais cómmoda. Sabe que na Alvapenha se janta patriarchalmente ao meio dia.
—Não julgue que com essas ironias de mau gôsto, se esquivará a responder-me. Juro-lhe que hei de obrigal-o a falar com seriedade.
—E tem meios para isso?
—Faço-lhe a justiça de acreditar que sim; creio que ainda não estará tão envilecido que receba com um sorriso cynico o insulto que lhe infligir...
—É provavel que não risse, no caso que diz; mas tambem não falava, acredite. Ha, para interrogações d'essas, respostas mais adequadas e discretas. Não tente; aconselho-o... Mas, valha-me Deus, quem lhe disse que eu não queria dar-lhe todas as explicações que souber? Sente-se, conversemos placidamente, que é a melhor maneira de vêr claro nas coisas. Não fuma?
Augusto, indignado com este frio sarcasmo, respondeu com vehemencia:
—Está-me causando tedio e compaixão ao mesmo tempo, senhor. Deve ter já uma alma bem corrompida para me receber assim. Ainda quando eu fôsse um criminoso, se no seu caracter houvesse brio, dignidade e sentimento moral, devia a minha presença ser-lhe um espectaculo demasiado abjecto, para o não deixar sorrir, ainda que de sarcasmo; mas na incerteza em que está, em que deve estar por fôrça, a só ideia de que pode calumniar um homem innocente, devia bastar para lhe fazer sentir toda a gravidade d'esta entrevista e obrigal-o a attender-me como eu exijo ser attendido. Para não comprehender isto, para não respeitar esse sagrado direito, que tem todo o accusado de se defender, é necessario estar corrompido até o fundo da alma. O scepticismo e a irreverencia para com os outros, só se dá em quem duvída de si proprio, e a si proprio se não respeita, porque se conhece. O senhor soube insinuar a calumnia no seio de uma familia, cujos amigos generosos não a receberam sem dor; e quando o calumniado lhe vem pedir explicações, porque se trata da sua unica riqueza, porque, sem familia e pobre, e ámanhã talvez na miseria, precisa de defender o unico bem que lhe resta, o senhor recebe-o com um sorriso ultrajante, para occultar talvez a cobardia, que não ousa repetir na face do accusado as insinuações que contra elle fez na ausencia. Se a consciencia lhe não exprobra esta infamia, teve razão ao dizer-me que me enganei procurando-o. A caracteres d'esses não se pede a explicação da calumnia; é a sua manifestação natural.
E terminando estas palavras, que a mais violenta paixão lhe dictára, Augusto caminhou para a porta do quarto.
Henrique deteve-o.
No espirito do leviano hospede de Alvapenha passára-se n'este curto intervallo de tempo uma profunda revolução moral.
Na voz, no gesto e na indignação de Augusto pareceu-lhe perceber vestigios de sinceridade, em que até alli não acreditára, e desde esse momento, além dos remorsos pelos desdens com que o recebêra, sentia viva a necessidade de uma reparação.
Magdalena tinha razão.
No meio de todos os seus defeitos, havia n'este rapaz um não exgotado fundo de pundonor e de moralidade.
—Não saia—disse elle para Augusto, já sem a menor sombra de ironia.—Se para isso fôr necessario pedir-lhe perdão, pedir-lh'o-hei. Que mais quer?... Reconheço-lhe o direito que tem de ser escutado. Fique. E creia que, apesar das apparencias lhe serem desfavoraveis, eu, que em bem pouco concorri para ellas, sinto-me já movido a não lhes dar fé. É já um convencimento tão intimo como o que até agora tinha da sua culpa, confesso-o. Se na minha mão estiver esclarecer o mysterio, conte commigo. Fale.
Augusto fitava-o ainda com desconfiança.
Henrique percebeu-o e continuou:
—É justa a dúvida que lhe leio no olhar, mas, como sómente o meu procedimento futuro a pode desvanecer, peço-lhe que não deixe por isso de falar.
—Antes de mais nada: de que me accusam?—perguntou Augusto.
—Pois não sabe?!—exclamou Henrique, admirado.
—Vagamente apenas. Sei que ha uma carta extraviada, mas a conclusão em que fiquei, mal me deixou comprehender...
Henrique contou então tudo o que se passára no Mosteiro, e terminou dizendo:
—Já vê que eu não fiz mais do que faria outro qualquer em meu logar. Pesava sobre todos quantos frequentavam aquella casa uma desconfiança odiosa: esclarecer o mysterio, dissipar as suspeitas, lançar aos hombros do culpado toda a responsabilidade da traição, era o natural empenho de todos. A descoberta da carta na sua pasta accusava-o. Essa descoberta foi occasionalmente feita por D. Victoria. Eu não o conhecia bastante para que o seu passado me obrigasse a recusar o testemunho das apparencias. Os motivos de despeito, que as suas mesmas palavras por aquella occasião confirmaram, explicavam muito bem certas tentações de vingança... Nada mais natural do que suppôr...
Augusto cobriu o rosto com as mãos, murmurando:
—Accusado!... accusado de uma infamia, e deante de...
Aqui reteve-se, como se a tempo comprehendesse a indiscreção da sua dor.
Henrique cada vez se sentia mais modificado nas suas disposições para com Augusto; por isso, quando este cortou assim em meio a expressão do pensamento, elle, que lh'o percebeu, disse-lhe, sorrindo:
—D'ella? Socegue. Tem junto d'esse tribunal, de que se receia tanto, advogados eloquentes.
Augusto levantou para Henrique um olhar interrogador.
—Diz que...
—Que não deve temer da impressão produzida, por todas as provas d'este mundo, no animo de quem, através de tudo, acreditará sempre na sua innocencia.
—Refere-se a...
—Ao seu segredo, que ha muito o não é para mim. Veja como eu estou virado! Acho-me quasi disposto a sympathisar com elle, quando ha pouco tempo ainda, sinceramente o confesso, era esta a causa occulta de tal ou qual antipathia, que sentia pelo senhor... que sentiamos um pelo outro, digamos assim.
—Mas...
—Vamos, vamos... eu sei que é discreto; nem esta era occasião para entrar em confidencias. Tratemos do que mais importa... Não sei como é que iria jurar agora a sua innocencia em toda esta desastrada intriga, e com o tempo... porque francamente lhe declaro que me é necessario algum tempo para desvanecer em mim todos os restos de despeito e de... paixão... porém, com o tempo, talvez venha a ser seu verdadeiro amigo... sem a menor prevenção.
E depois de um momento de silencio, proseguiu, mudando de tom:
—Mas, com os diabos, sendo o senhor innocente, deve ter grandes inimigos aqui na terra para o enredarem assim! É preciso esclarecer isto.
—Inimigos?!... Não os conheço, nem vejo motivos...—disse Augusto, pensativo. Mas de repente, como se lhe acudisse um pensamento luminoso, fez um gesto que Henrique percebeu.
—Que é?—perguntou este logo.—Descobriu?... Diga... Uma suspeita é já um rasto precioso... guia os primeiros passos... Diga... E eu o ajudarei a seguil-o.
—Lembro-me agora de uma notavel visita, que ha dias recebi. É isso...
E Augusto contou toda a entrevista que tivera com o brazileiro.
—E ainda agora se lembra d'elle?—exclamou Henrique, ao ouvil-o—e inda hesita?! O senhor é de uma boa fé!... Temos o fio!
—Mas como pôde elle...?
—Isso depois; o mais virá a seu tempo. Agora trata-se de vigiar esse senhor... E agora me lembra; elle é um dos oradores do club do Canada... Sondarei esse antro tenebroso... Eu já devia suppor que andava aqui miseria politica... Estou a achar razão áquella adoravel Magdalena... Perdão... inda não perdi o habito de a adorar... Tambem, desde que o consiga, serei seu amigo sem restricções. Até lá, porém, não será isso motivo para de corpo e alma me não dedicar á sua causa... Eu posso ter todos os defeitos, menos o de collaborar de boamente n'uma velhacaria; e, fôsse o meu maior inimigo que eu visse victima d'ella, creia que procuraria desfazel-a.
—Agradeço-lhe essas palavras, que acredito são sinceras; não posso, porém, acceitar a intervenção que me offerece. Eu sou que devo justificar-me. Está empenhada n'isso a minha dignidade.
—Como queira. Em todo o caso espero que uma má prevenção o não constranja a não recorrer lealmente a mim, se o meu auxilio lhe puder servir. Agora peço-lhe perdão, se alguma vez o offendi de mais; mas vamos lá, o senhor tambem não está de todo isento de culpa... E quanto ao pretexto... adiado mais uma vez, não lhe parece?
Augusto não podia fechar-se áquelle caracter, que se lhe estava mostrando agora sob uma face nova e sympathica; por isso respondeu, sorrindo:
—Adiado para sempre.
E estenderam as mãos um ao outro, apertando-as já sem o menor resentimento.
Eram duas almas generosas, que acabavam de se comprehender.
—É notavel;—pensava comsigo Henrique—estou sympathisando á ultima hora com este rapaz! Mas como se combina isto com a minha paixão por Magdalena, a quem elle ama igualmente? Dar-se-ha que ella acertasse, e que não fôsse paixão o que eu senti! Isto de mulheres teem uma vista tão apurada para estas discriminações!
XXIV
O processo instaurado contra o Cancella seguiu os seus tramites normaes; porém, graças ao empenho do conselheiro, a quem a morgadinha escrevêra a favor do prêso, e apesar da perseguição que lhe moviam os padres, contava-se que elle fôsse sôlto, e era esperado na aldeia dentro em poucos dias.
Magdalena não se descuidára de mandar todos os dias ao pobre homem noticias da filha, a qual, depois de ter por algum tempo inspirado sérios cuidados á medicina da terra, parecia haver entrado n'um periodo de convalescença.
Magdalena assim o participou ao Cancella para o animar, mas, sem saber por quê, ella propria não sentia as esperanças que dava.
Ha espiritos tão instinctivamente sensiveis e perspicazes, que, á maneira dos medicos experientes, presentem a gravidade ou a approximação do mal, ainda quando os symptomas tenham perdido toda a feição assustadora.
Já os sorrisos fluctuam nos labios do doente e um desmaiado rubor de saude principia a tingir as faces, até então pallidas, e elles sentem-se ainda estremecer de secretas apprehensões.
Assim acontecia a Magdalena ao contemplar as feições da pequena Ermelinda.
A frequencia e intensidade dos accessos diminuira; certo colorido de vida principiára já a animar-lhe o rosto infantil, havia pouco gelado de terror e pela doença; ás vezes até um sorriso, ainda que melancolico, distendia-lhe os labios desmaiados, e só de quando em quando raras nuvens de tristeza, evocadas por uma recordação penosa, parecia assombrarem-lhe o olhar limpido e meigo; os somnos eram tranquillos, as vigilias serenas, e apesar de tudo a morgadinha entristecia ao reparar n'ella.
O facultativo da localidade, apalpando com os dedos robustos o delicado pulso da creança, assegurára que ella estava já livre da febre; e apesar d'isso, Magdalena quasi sentia remorsos, quando escrevia ao Herodes a dar-lhe a boa nova.
E é certo que mais do que justificadas tinham de ser estas apprehensões da morgadinha.
Na tarde d'aquelle mesmo dia, em que Ermelinda acordára mais tranquilla e animada, renovaram-se subitamente, e assustadores como nunca, os indicios do mal profundo.
Um delirio violento, caracterisado por vagos e mal definidos terrores, gritos angustiosissimos, contracções espasmodicas, que parecia despedaçarem aquelle corpo fragil e delicado, surgiram de novo, e, ao dissiparem-se, deixaram, como rastos, uma prostração extrema, uma quasi completa insensibilidade de funesta significação.
Magdalena, assustada, tomou nos braços a debil e emmagrecida creança, e trouxe-a para junto de uma janella, d'onde ainda se avistava o sol, já quasi a esconder-se por detraz de uma collina distante.
Dir-se-ia querer pedir, aos frouxos raios de um quasi crepusculo de inverno, um pouco de calor para fundir os gêlos da morte, que principiavam a invadir os membros delicados d'aquella formosa creança; ao clarão levemente afogueado do horisonte, um pouco das suas tintas para aquellas faces morbidamente pallidas; á amenidade da paizagem, um reflexo de sorriso para aquelles labios, onde elle se apagára.
Os olhos de Ermelinda fitaram-se tristemente no sol já vacillante, com a expressão, cheia de saudade e de poesia, de uma alma joven que se despede da vida, e, quando o sol desappareceu, desviaram-se lentamente para o rosto de Magdalena, que a observava com anciedade.
Ermelinda sorriu; um sorriso mais triste do que as mais tristes lagrimas.
A morgadinha apertou-a ao seio, commovida.
—Que tens tu, minha filha?—disse-lhe com meiguice, afagando-a.
Ermelinda não respondeu, mas continuou a fitar Magdalena com a mesma expressão de affecto e de tristeza.
A morgadinha approximou os labios dos d'ella para beijal-a.
A pequena doente correspondeu-lhe ainda ao beijo e continuou a fital-a como d'antes. E durou, e durou este olhar até que pareceu a Magdalena haver n'elle não sei que estranha fixidez, que a inquietou.
Palpou as mãos da creança; estavam frias; o coração, parado; chamou-a pelo nome... a mesma fixidez no olhar, a mesma immobilidade nas feições... estava morta.
Foi assim que se despediu da vida aquelle candido espirito. Foi como o adormecer de uma alma, que algum anjo invisivel, namorado d'ella, arrebatasse nas azas para o throno de Deus.
A morte de uma creança como Ermelinda é um facto de ordinario indifferente na vida social; alguns sorrisos de menos no mundo; uma voz que emmudece nos festivos córos da infancia; algumas sentidas lagrimas de mãe sobre um berço vazio; algumas flores sobre um tumulo; e á superficie das ondas sociaes nem sequer a leve vibração que a rosa desfolhada imprime á agua tranquilla do lago... eis tudo.
A multidão segue no delirio das festas, na lucta das paixões, na febre da ambição e das glorias, e o perfume da flor pendida não lhe affecta os sentidos embriagados.
Ás vezes, porém, não succede assim, e assim não devia succeder com Ermelinda.
As paixões humanas, que ante o cadaver de uma creança, coroada de flores candidas e cingida da alva tunica da pureza, deviam abrandar-se, como deante de uma visão do Céo, tomam-n'o ás vezes por estimulo para mais furiosas se desencadearem, e proclamarem a lucta, a sedição e a vingança.
Desde que fôra publicada a portaria, prohibindo expressamente os enterramentos na igreja, medida tão adversa ao espirito do povo, não tinha havido na terra uma morte que obrigasse a pôr a medida em execução.
A ira popular, exacerbada de contínuo pelas secretas instigações de alguns padres fanaticos ou hypocritas, e dos adversarios politicos do conselheiro, rugia, havia muito, surdamente, mas não rompêra em explosão por falta de pretexto.
Notava-se apenas uma maior affluencia de gente na taberna do Canada, um maior calor nos discursos dos tribunos, e a tendencia á formação de magotes nas encruzilhadas e nos largos.
Quando porém se espalhou a noticia da morte de Ermelinda, augmentou a effervescencia dos animos. Era chegado o momento.
A morgadinha, que chorou com lagrimas sinceras a filha do Cancella, quiz que ella fôsse sepultada no mausoléo da casa do Mosteiro. Cumprindo assim a lei, prestava-se tambem culto á affeição que todos sentiam pela creança, companheira de brinquedos de Angelo, que lhe queria como irmã.
Sabendo-se d'esta resolução, rebentou a indignação popular.
No dia seguinte ao da morte de Ermelinda, e n'aquelle, no fim da tarde do qual devia realisar-se o enterro, havia na taberna do Canada extraordinario ajuntamento.
O brazileiro, o sr. Joãozinho das Perdizes, o latinista Pertunhas, alguns padres e lavradores, caseiros e camaradas do sr. Joãozinho, falavam, berravam e gesticulavam a um tempo.
O morgado das Perdizes, cujo animo fluctuava indeciso entre favorecer e guerrear o conselheiro, mas que, depois do despacho do professor que pedira e conseguira, como que sentia remorsos de o atraiçoar, achava-se agora muito abalado, porque na questão dos cemiterios era intolerante, não podendo levar á paciencia que quizessem enterrar um homem, como elle, n'um logar onde chovia e fazia sol, como n'um campo de centeio.
O brazileiro, conscio do valor do voto eleitoral do sr. Joãozinho, não se cançava de o catechisar, usando para isso de todas as armas e atacando-o por todos os pontos vulneraveis que lhe conhecia.
Era assim, por exemplo, que sabendo da sympathia e gratidão do morgado para com o herbanario, insistia muito sobre a dureza do coração do conselheiro, que privára cruelmente o pobre velho da sua propriedade, golpe fatal, que dentro em pouco o levaria ao tumulo; e a proposito contava como o herbanario pedira de joelhos ao conselheiro para lhe poupar a casa, e como este se rira das lagrimas do velho, porque tinha interesse em que não fôsse adoptado o outro plano, que lhe cortava uma grande porção dos proprios bens.
Ouvindo estas coisas, o sr. Joãozinho, que tinha mais de grosseiro e bestial do que de perverso, dava punhadas sobre a mesa, despejava copos de quartilho e dizia pragas sacrilegamente eloquentes.
Outras vezes era no tópico do cemiterio que ardilosamente o espirito tentador do brazileiro insistia. Fazia avivar a ideia ao morgado de que elle proprio tinha de ser alli enterrado, porque na freguezia de Pinchões iam tambem ser prohibidos os enterros na igreja, o que este negava, berrando; e todos affirmavam o mesmo que o brazileiro dizia, o que dava logar a novas punhadas, novas irritações e a novas pragas do sr. Joãozinho.
No dia que dissemos, multiplicára o morgado, mais que de costume, as suas libações de vinho; e com as faces injectadas, os olhos meio fechados, ouvia com irritação os commentarios dos circumstantes e distribuia com profusão pragas e murros.
—Com os diabos!—berrava elle, acabando de despejar um copo de quartilho.—Se me chega a mostarda ao nariz... sou homem para ir á igreja e obrigal-os a enterrar lá a pequena.
—Isso não se faz assim com essa facilidade e arreganhos—disse velhacamente o brazileiro, de proposito para o irritar ainda mais.
—Eu lhe diria se se fazia ou não, se se tratasse de coisa que me dissesse respeito!... Mas, lá com a filha do Cancella... não tenho eu nada... lá se avenham.
—A questão não é ser filha do Cancella ou deixar de ser;—tornava o brazileiro—a questão é do exemplo; enterrado o primeiro, enterram-se os outros.
—Menos eu—exclamou o morgado.
—Se Deus quizer tambem vmc. se ha de lá enterrar.
—Diabos me levem se...
—Pelos modos—disse um padre do lado—elles enterram a rapariga no tumulo da familia do conselheiro.
—Pois vêdes; se elles são todos da mesma confraria!—ponderou o Pertunhas.
—E se não, é vêr no outro dia o que o Herodes fez ao missionario! Então julgam que aquillo não foi combinação?—disse o padre.
—Dizem que o Herodes ganhou vinte soberanos para lhe bater—accrescentou um lavrador.
—A mim me disseram que trinta.
—Sempre uma pouca vergonha como aquella!
—E verão que não lhe succede mal.
—Pois não, não; elle está alli, está na rua.
—Diz-se que o soltam á fiança.
—Não pode ser; aquelle crime não tem fiança—ponderou um fazendeiro, que se tinha por muito visto em demandas e coisas de justiça.
—Ora adeus! com o que vossê vem! Querendo elles...
—Aquillo parece uma seita.
—E ainda ahi está? Pois já se sabe que elles são pedreiros-livres.
—E o tal lisboeta?
—Esse, então, é que é d'aquelles!
O sr. Joãozinho pestanejou, ouvindo falar de Henrique.
—Ah! é do tal petimetre que falam? No tal que foi para a igreja caçoar com o missionario? Sempre vossês são uns homens de lama, tambem! Ó Cosme—continuou, voltando-se para um alentado camarada que estava ao lado d'elle—olha aquillo comnosco, hein? Onde estaria o amigo?
O valentão sorriu modestamente, encolhendo os hombros.
—Pois, senhores—proseguiu o brazileiro, que não queria deixar arrefecer o enthusiasmo e a irritação do publico—hoje decide-se a coisa... D'aqui a uma hora está enterrada a pequena e depois... o uso faz lei.
—Isso é que é verdade—secundou o Pertunhas.
—Faz lei emquanto eu me não lembrar de ir desenterral-a—respondeu, cada vez mais azedado, o sr. Joãozinho
—Não; isso lá mais devagar—acudiu o brazileiro—vossemecê bem sabe que, estando ella no mausoléo do conselheiro...
—Importa-me cá o mausoléo? O senhor está a ler. Eu com um empurrão arrumo aquella platafórma a terra. Ó Cosme, olha nós, hein?
O Cosme tornou a fazer o mesmo gesto expressivo.
—Ahi está quando era preciso que houvesse n'esta terra um homem de vontade, que não deixasse fazer o enterro—disse o padre.
—Era bem feito, para elles saberem tambem que se não brinca assim com o povo.
—Lá isso era!—repetiram algumas vozes.
—Eu por mim... se alguem fôr...—aventurou um.
—E eu, eu—ouviu-se dizer de alguns pontos da sala.
—Deixem-se de contos,—continuou o padre—elles fazem o que querem, porque sabem que não ha um homem de coragem, que se ponha á frente do povo...
—Lá isso é que é verdade.
—Já não ha homens para as occasiões.
O morgado das Perdizes, que tinha presumpções de valente, e se gabava de ter varrido feiras a varapau, espinhou-se com estas palavras, e protestou dizendo:
—Então julgam vossês que eu, se me der para ahi, não vou ao cemiterio, eu só, e ponho tudo aquillo em cacos? hein?
—Isso não se faz com essa facilidade—disse o brazileiro impertinentemente.
—A quanto aposta vossê?—bradou, cada vez mais afogueado, o sr. Joãozinho.
—Ora vamos—continuava o brazileiro com os mesmos modos—não que a auctoridade...
—A auctoridade! Para mim é que elles veem! Olha o regedor! O regedor commigo! E os cabos? Ó Cosme, hein? Que te parece? Os cabos comnosco?
O Cosme sorriu e resmungou por entre dentes:
—Se queres tentar...
—Com mil demonios!—disse o morgado, exgotando mais um copo—vamos a isto! anda d'ahi, ó Cosme!
O Cosme levantou-se.
—Nada de imprudencias—aconselhou o brazileiro, de um modo que tinha a significação contraria ao pensamento que exprimia.
—Quem tiver mêdo, que fique em casa. Ora quero mostrar a esta gente se ha ou não ha um homem para as occasiões.
E estavam no meio da sala o sr. Joãozinho e os seus arrojados camaradas, e o brazileiro já conferenciava com o padre, que lhe respondia com signaes de intelligencia, como quem tinha projectos filiados n'aquelle movimento, quando entrou na taberna uma nova personagem que, por não habitual alli, e por outras circumstancias faceis de conjecturar, causou geral extranheza.
Era Henrique de Souzellas.
Tendo sabido da morte de Ermelinda, e encontrando no Mosteiro todos occupados com os aprestes do funeral da pequena, Henrique montou a cavallo e deu um longo passeio pelos arredores.
Na volta achou-se defronte da taberna do Canada.
Chegou-lhe aos ouvidos o rumor das altercações e das pragas que iam lá dentro, e isto resolveu-o a entrar, cumprindo assim a promessa que fizera a si mesmo de estudar aquelle terreno, a vêr se encontrava vestigios que o levassem a provar a innocencia de Augusto.
Apeou-se, prendeu o cavallo ao peão da porta e entrou.
Ao entrar, percebeu que havia causado sensação a sua presença, e até, pela expressão com que o fitavam, suspeitou que talvez não fôsse demasiado prudente o passo que dera.
Era tarde, porém, para recuar, e o orgulho impedia-lhe a menor manifestação de receio.
Sentou-se tranquillamente n'uma banca vazia.
O Canada, como taberneiro attencioso, veio informar-se pressurosamente do que desejava o recem-chegado.
Henrique pediu vinho, para pedir alguma coisa, e não obstante estar firmemente resolvido a não lhe tocar.
O Canada trouxe-lhe um copo largo para deante d'elle, e de motu-proprio associou-lhe algumas azeitonas, que recommendou como excitadoras da sêde.
Henrique pediu lume para accender um charuto, e pondo-se a fumar correu a vista pelos grupos que enchiam a sala. A effervescencia dos animos havia abatido com o chegar de Henrique, como a da agua em que se lançasse uma pedra de gêlo.
Reinava, porém, um rumor surdo, um cochichar pouco tranquillisador, e que ameaçava degenerar em maior tormenta.
O brazileiro escondia-se por detraz de uns homens do povo, para não ser visto; o sr. Joãozinho olhou para Henrique, como se o não conhecesse, e conversava em voz baixa com o seu camarada Cosme, o qual fitava no recem-chegado olhares sombrios e ameaçadores.
Henrique, ainda que interiormente não tranquillo, sustentava-os sem desviar os seus, e continuava fumando quasi provocadoramente. Pouco a pouco subiu de tom a conversa dos dois, assim como a dos outros grupos.
—É preciso ensinar estes espiões—dizia uma voz audivelmente.
—Que quererá d'aqui este figurão?—perguntava outro.
—Era bem feito que lhe ensinassem a não se metter com a nossa vida...
O morgado, cada vez mais excitado pelo vinho, cruzou os braços sobre a mesa, e com o corpo inclinado para deante e os olhos abertos para Henrique, principiou a dizer, retardando-se-lhe já algum tanto a voz nas fauces:
—Eu se sei que ha alguem que me anda a seguir os passos e a espiar, sempre lhe dou uma lição, que lhe ha de lembrar toda a vida! Não, que isto aqui não é Lisboa! Eu não admitto que se olhe para mim com falta de respeito... Já disse! Eu não gosto de repetir as coisas... Tenho dicto! O senhor não ouve?
Henrique continuou a fumar, sem desviar os olhos do morgado.
—Ó senhor lá... Faz favor de não olhar para mim d'essa maneira?
Henrique exhalou uma baforada de fumo e sorriu.
—Vossê ri-se!... Elle riu-se, ó Cosme? Pois elle riu-se de mim? Espera!
E o sr. Joãozinho executou um movimento para levantar-se.
O Cosme imitou-o, e os camaradas puzeram-se a postos.
Susteve-os o brazileiro e outros igualmente pacificos.
—Então! então! isso o que é?
—Quero perguntar áquelle senhor de que é que se ri—bradava o morgado, furioso.
—Para isso não se incommode—respondeu Henrique—eu mesmo d'aqui lhe respondo. Rio-me da ridicula figura que está fazendo.
—Ah!... ouvem-n'o? Larguem-me, deixem-me, deixem-me... Ó Cosme!...
E o morgado barafustava entre os braços debeis que o retinham. No povo principiou a subir a maré das murmurações contra Henrique.
—O senhor vem para aqui armar desordens?
—É para espiar?
—Depois queixe-se...
—Não se metta com a gente.
O morgado bracejando, espumando, e largando por pouco a jaqueta nas mãos que o retinham, conseguiu, graças aos seus musculos robustos, sacudir de si todos os obstaculos, e correu para Henrique, que por prevenção se collocou a pé.
O sr. Joãozinho, cego de embriaguez e de raiva, berrava, voltado para elle:
—O senhor conhece-me?... O senhor sabe com quem fala? Olhe bem para mim... Quero vêr agora se ainda se ri.
—Por que não? Se cada vez está mais ridiculo!
O morgado deu um urro selvagem e fez um movimento como para se atirar a Henrique.
Este recuou um passo, e pegando no copo que ainda tinha intacto deante de si, despejou-o todo sobre aquella figura já avinhada, dizendo motejadoramente:
—Ahi tem; é isso provavelmente que vem buscar.
O rosto, as mãos e a camisa do sr. Joãozinho ficaram litteralmente tingidas. Soltando um rugido de fera, levou a mão á faxa da cinta, como a procurar uma arma. Henrique, percebendo-lhe o movimento, antecipou-se a segural-o pela garganta, para o reter e afastar de si.
O morgado torcia-se e espumava sob a constricção de Henrique, e já congestionado e rouco bradou:
—Ó Cosme!... Ó Cosme!... Mata esse maldito!...
A phalange do sr. Joãozinho correu em soccorro do chefe. O varapau do Cosme girou no ar, produzindo um zunido como o de um enorme zangão.
O braço diligente do Canada, movido pelo empenho de salvar o crédito do estabelecimento, afastou a tempo Henrique do terrivel embate, que infallivelmente lhe seria fatal.
A pancada caiu sobre a mesa, que lascou ao comprido.
Henrique estava incólume, e o morgado sôlto.
Mas o perigo não passara para Henrique. O morgado preparava-se com os seus para nova investida, quando se ouviu a voz do brazileiro e do padre bradarem:
—Já está a tocar o sino! Ao cemiterio emquanto é tempo!
E no entanto o brazileiro, chamando de lado o Cosme, convencia-o, por varios generos de argumentos, da conveniencia d'este partido, e tão convencido o deixou, que elle berrou d'ahi a pouco:
—Deixa o homem para outra vez, João, deixa-o e vamos a elles ao cemiterio!
—Ao cemiterio, ao cemiterio! repetiram algumas vozes.
—E queime-se a papelada da camara!
—E mate-se o escrivão de fazenda!
—E quebrem-se os vidros do Mosteiro!
—E pegue-se fogo á casa!
Eram de bastante fôrça estes argumentos para convencer o sr. Joãozinho.
—Pois vá lá, rapazes! Com este faremos contas depois. Ao cemiterio! Atiremos a terra com o tal mausoléo!
E prepararam-se para sair tumultuariamente. Henrique, ouvindo isto, percebeu do que se tratava, e prevendo sérios riscos para as senhoras do Mosteiro, desembaraçou-se dos braços do Canada, que teimava em segural-o e em dar-lhe conselhos de prudencia, e correu a montar a cavallo para se anticipar aos desordeiros. Effectivamente assim o fez; mas, ao passar por entre o grupo d'elles, o varapau do Cosme, floreteando outra vez no ar, caiu sobre a cabeça do cavallo. O animal, atordoado por a pancada, partiu em galope desenfreado, e apesar de toda a arte de Henrique, acabou por o arrojar a terra com tal violencia, que o deixou como morto.
Os desordeiros seguiram, capitaneados pelo morgado, o caminho do cemiterio. O brazileiro, o padre e o Pertunhas, acolheram-se pacificamente aos lares.
O sino da igreja continuava a repicar.
XXV
Era uma perspectiva profundamente melancolica a do cemiterio da aldeia por aquella tarde de inverno!
Imagine-se um campo plano e raso, onde vegetavam algumas roseiras de toda a estação, e a murta e a alfazema, vivendo a custo n'aquelle solo ingrato, que havia pouco alimentava apenas urzes, tojeiras e pinheiraes. No centro d'este espaço elevava-se, singello, mas elegante, o tumulo da familia do Mosteiro, sobre o marmore do qual pousavam tristemente os ramos flexiveis de um salgueiro chorão, e nos cantos principiavam a erguer-se, como obeliscos funerarios, quatro jovens cyprestes ponteagudos. Para além do muro, que circumdava este terreno, estendia-se um vasto pinheiral, através de cujos troncos, confusamente cruzados, se podia ainda divisar ao longe uma ou outra casa da aldeia, e o verdor dos campos e pomares. A igreja parochial erguia, a pequena distancia d'alli, a grimpa do campanario, e o sussurrar dos desfolhados álamos do adro, agitados pelo vento, ainda chegava áquella estancia mortuaria.
A tarde tinha um d'estes aspectos ameaçadores, que deixam presentir a tempestade; d'estas serenidades insidiosas, interrompidas, de quando em quando, por uma subita viração, que faz revolutear na estrada as folhas sêccas como em espiraes phantasticas. O céo pintára-se do colorido melancolico e triste, que em alguns quadros de Annunciação tão fielmente se vê reproduzido. Estava quasi todo coberto; só muito para o occidente uma estreita zona se conservava limpa de nuvens, mas n'ella mesmo o azul recebia, do contraste das côres vizinhas, um cambiante quasi esverdeado. As nuvens inferiores, acima das quaes passavam os raios do sol, tinham o aspecto rôxo-livido, que o avizinhar da noite ia tornando mais carregado; no mais alto da abobada, as superiores, illuminadas ainda, apresentavam reflexos amarellados que cada vez se afogueavam mais.
Para o oriente haviam-se fundido os nimbos em uma massa unica, uniforme, cerrada, como uma abobada metallica, cujo livor imitava. De quando em quando cruzava os ares uma ave de vôo rapido, soltando pios angustiosos.
Era a esta hora que devia effectuar-se o enterro de Ermelinda.
Estava já aberto o jazigo da familia do conselheiro, aguardando a infeliz creança.