Reading Lessons.
1.
Em um ajuntamento[545] de senhoras e homens suscitou-se[546] a questão[547] de qual era o paiz[548] melhor[549] para se habitar[550]; e dizendo uma que Londres, outra que Pariz, este que o Brazil, aquelle que a Austria ou a Italia, disse uma senhora mui presumida[551]: “Pois[552] eu dou[553] a primazia[554] ao celibato, pois tenho ouvido dizer a meu irmão padre[555], que he de todos os estados o mais perfeito.”
2.
Certo[556] juiz de fóra[557] tendo queixas do povo[558] que os arrematantes da vacca[559] só matavão[560] um boi[561] cada dia d’assouge[562], e que este não chegava[563] para todos, e ao mesmo tempo[564] ouvindo dizer aos ditos arrematantes que dous bois erão de sobejo[565]; mandou[566] por seu respeitando despacho que cada dia d’assougue se matasse boi e meio.
3.
Dizia o P. Antonio Vieira, que toda a fortuna d’um homem de corte[567] consistia em saber adular[568], mentir[569], furtar[570], e repartir[571].
4.
Na desgraçada[572] morte[573] do Principe D. Affonso, disse El-Rei Dom João II. seu pai: “No excessivo sentimento em que vivo da morte de meu filho, só me consola parecer-me que Deos se lembrou[574] d’este reino[575]; porque o Principe não era para Rei dos Portuguezes: os Portuguezes hão de mister Rei de bronze. Era o Principe inclinado a delicias[576].”
5.
Levantando[577] El-Rei D. João I. o sitio[578], que tinha posto a Coria, disse: “Grande falta[579] nos fizerão os cavalheiros da taboa redonda[580]; porque se elles aqui estivérão, não nos levantáramos desta cidade sem a render[581].” Respondeo Mem Rodrigues de Vasconcellos: “Não faltarão por certo, senhor, aqui esses cavalheiros; porque aqui está Martim Vasques da Cunha, que he tão bom, como dizem o foi D. Galaz; Gonçalo Vasques Coutinho, que he tão bom como D. Tristão; João Fernandes Pacheco, que não deve nada a Lancarote; e aqui estou eu, que não mereço[582] menos[583] que qualquer d’elles: O certo he, senhor, que só faltou aqui o bom Rei Artur, que os sabía estimar, e animar com mercês grandes.”
6.
Quando El-Rei D. Sebastião quiz[584] fazer[585] a jornada de Africa, determinou avistar-se em N. Senhora de Guadalupe com El-Rei Philippe seu tio[586]; para se ajustar[587] esta funcção[588] veio[589] de Castella o duque[590] d’Alva, cavalheiro mui soberbo[591], e pouco affeiçoado aos Portuguezes, e de cá foi o conde[592] de Redondo. Entre a pratica[593] que tiverão, lhe perguntou[594] o duque que fidalgos vinhão com El-Rei Dom Sebastião; porque com El-Rei vinha elle, e outros como elle. Respondeo-lhe o conde: “Com El-Rei meu senhor vem o duque de Bragança, o de Aveiro, e o marquez[595] de Villa-Real; e fidalgos razos[596], como eu e vós, vem muitos.”
7.
Pedindo[597] um pobre[598] esmola[599] a Philippe II. lhe dizia que se lembrasse erão irmãos; e perguntando-lhe El-Rei por que quarte, respondeo por Adão. Mandou[600]-lhe El-Rei dar um real. Replicou[601] o pobre que aquella esmola não era d’um irmão Rei. “Se a todos os meus irmãos”, disse Philippe, “eu désse outro tanto[602], já não teria[603] real que dar.”
8.
Christovão Colon foi o primeiro que com audaz[604] fortaleza[605] navegou o oceano, o descobrio[606] as Indias de Castella; pelo que mereceo que os Reis Catholicos o fizessem duque de Beraguas. Estava uma noite[607] ceando[608] com outros cavalheiros seus amigos; e dizendo-lhe um que aquella façanha a poderia obrar qualquer outro, se lhe dessem o socorro[609], que fosse necessario, dissimulou Christovão Colon, e tirando um ovo[610] do prato, perguntou aos demais fidalgos se poderia algum fazer que aquelle ovo estivesse levantado[611], sem que se arrimasse[612] a cousa alguma? Respondêrão todos, que não podia ser[613]. Pegou[614] no ovo Christovão Colon, e dando com elle mansamente[615] na mesa[616], lhe fez uma pequena[617] móssa[618], e o póz muito direito. Rírão-se[619] todos, e disse Colon: “Nenhum[620] de Vossas Mercês[621] ha que não acha facil navegar o oceano, depois que eu de lá vim; porém he certo, que se eu não fôra o primeiro, nenhum seria o segundo.”
9.
Um Mahometano consultando a Aischeh mulher de Mahometo, lhe pedio uma regra[622] para bem viver; e ella lhe respondeo: “Reconhece[623] um só Deos, refrêa[624] a tua lingua, reprime[625] as tuas paixões[626], adquire sciencia, vive constante na tua religião, abstem-te de fazer mal[627], frequenta os bons, encobre[628] os defeitos do teu proximo[629], soccorre[630] os pobres, e espera a eternidade por recompensa.”
10.
Querendo certo homem desquitar-se[631] de sua mulher, com quem tinha pouca paz[632], appareceo[633] para este fim[634] diante[635] do Provisor. Estranhou[636] elle a proposta[637], porque conhecia a mulher, e era de boas qualidades: “Porque quereis deixar[638] vossa mulher?” (lhe perguntou o Provisor): “Não he virtuosa?”—“Sim, senhor”; respondeo o homem.—“Não he rica?”—“Sim, senhor.” Emfim[639] a todas as cousas, sobre que era perguntado, respondia em abono seu. Com que lhe disse o Provisor: “Pois se vossa mulher tem tantas cousas boas, porque quereis desquitar-vos della?” A isto o homem, descalçando[640] um sapato[641], perguntou ao Provisor: “Senhor, este sapato não he novo?”—“Sim”, respondeo o Provisor. Accrescentou[642]: “não está bem feito[643]?”—“Sim, ao que parece”, respondeo o Provisor.—“Não he de bom cordavão, e de boa sola?”—Respondeo do mesmo modo que sim. “Pois vê Vossa Mercê com tudo isso[644]” (disse o descontente marido[645]), “pois eu quero tirar este sapato, e calçar outro, porque eu sei muito bem aonde[646] me aperta[647], e faz mancar[648], e Vossa Mercê não o sabe.”
11.
Botocudos.
Estes Indios dominão[649] na cordilheira[650] habitada[651] por seus maiores[652] os Aimorés, de cuja[653] barbaridade ainda guardão sementes. Quando os Portuguezes começárão[654] a povoar[655] o Brazil tiverão de guerrear com os ferozes[656] Aimorés, a quem dizem[657] que derão[658] o nome de Botocudos, de boto, e codea[659], por isso que os Indios desta nação[660] erão rolhos, e trazião[661] o corpo[662] coberto d’uma codea de gomma[663] copal com que se pintavão[664] para se preservarem das ferretoadas[665] dos mosquitos e outros insectos. Os Botocudos são mais brancos[666] que a maior parte dos demais[667] Indios do Brazil, porém, como seus ascendentes os Aimorés, costumão[668] pintar a cara[669] e mais partes do corpo. Dividem-se em varias tribus ou cabildas[670], cada[671] uma com seu cabo[672], que tem um poder[673] absoluto sobre os seus[674] em os negocios de maior importancia como são a caça[675], a guerra[676] e a escolha[677] de uma nova morada[678]; mas na aldea[679] limita-se toda a sua autoridade a compôr as desavenças que são entre elles mui frequentes. Este lugar não he hereditario, escolhe-se para elle o mais bravo, e por vezes[680] o mais atrevido[681] se proclama por chefe da tribu, sobre tudo se por ventura o que os commandava vem a morrer. Os Botocudos tem as espadoas[682] largas, o pescoço[683] curto, o nariz[684] chato, as maçãas[685] do rosto proeminentes, os pés[686] pequenos, as extremidades inferiores delgadas[687], mas nervosas. Furão as orelhas[688], e o beiço inferior[689], e enfião no buraco[690] uma rodella de páo[691]. São vingativos[692] e traidores[693], posto que tinhão um exterior alegre e um ar[694] de franqueza. Não tem especie alguma de culto; considerão[695] o sol[696] como uma divindade a que chamão[697], e reverenceão ainda mais a lua[698], quando com sua luz os protege em suas excursões nocturnas. Amão e imitão as ceremonias religiosas dos christãos, quanto isto póde compadecer-se com a vida nomada que fazem, assim que são de todos os Indios os que mais custão a civilizar-se.
12.
As grutas[699]
do inferno[700].
Deo-se[701] este nome ás cavernas naturaes que se achão[702] na montanha em que estão assentadas a povoação e fortaleza[703] da Nova-Coimbra, na provincia de Mato-Grosso e sobre a margem direita[704] do Paraguai. No vertente[705] septentrional[706] da montanha existe uma abertura que dá passo[707] a duas especies de antecamaras, 1 de braça[708] e meia de comprido[709], e 1 de largo[710], e outra algum tanto maior. Desce-se para ellas por uma ladeira que tem obra de 20 braças de comprimento[711], guarnecida de estalactitas, que provêm da filtração continua da abobada. No cabo[712] da ladeira entra-se n’uma salla parecida com uma mesquita[713], de cuja abobada pendem estalactitas de differentes fórmas e tamanhos[714], e o mesmo se observa no chão. A’ esquerda[715] a parede se acha revestida d’uma incrustação d’espalto, que com o reflexo da luz arremeda uma soberba cascata. Póde esta salla ter 50 braças de comprido e 1S de largo, e no fundo della existe um espaço de 6 braças pelo menos coberto d’agua limpida porém de máo sabor[716], que dá da parte de fóra[717] origem a um ribeiro[718] represado frequentemente pelas aguas do Paraguai, nas cheias[719] que alagão todos os annos por varias vezes os campos vizinhos. Os naturaes[720] do paiz não se atrevião[721] a entrar n’estas grutas que forão pela primeira vez exploradas pelo engenheiro[722] Ricardo Franco d’Almeida Serra, em 1791, levando em sua companhia o naturalista Alexandre Rodriguez Ferreira que as debuxou[723] e descreveo[724]. Em 1795, varias pessoas[725] curiosas entrárão n’ellas e com fachas virão que no ribeiro que as aguas ali formavão havião jacarés[726], e que um d’elles tinha uma pata de menos.