—Está zangada commigo; está furiosa! Desde a noite do theatro que não me póde vêr; e parece que preparou-se para o assalto, porque achei as avenidas da praça já tomadas e vigorosamente defendidas. A mucama é uma Gorgona, o porteiro um Cerbero; apenas consegui abrandar o moleque, porque é um idiota!... Nunca vi uma ferocidade igual; creio que a leôa da floresta não defende seu cachorrinho com sanha igual á desta leôa de sala. Parece incrivel; mas eu conheço de quanto é capaz a vaidade da mulher. Todo este furor não é mais do que um assomo de faceirice; percebeu que estou apaixonado pelo pésinho mimoso, e quer-me trazer atado como um captivo á seu carro de triumpho. Realmente uma moça bonita não póde ter maior satisfação; vêr-me a mim, Horacio de Almeida, o primeiro conquistador do Rio de Janeiro, curvar-se humilde, não á seu olhar, á seu sorriso, á belleza de seu rosto, ou á graça de seu talhe, mas á planta de seus pés divinos! Fazer-me tapete de seus passos!... Que póde mais desejar a rainha dos salões fluminenses?
O moço mordeu a ponta do bigode negro, e ficou alguns instantes muito pensativo.
—É preciso mudar o plano de ataque! Comecei á maneira do Cesar, atacando com impetuosidade. Vou contemporisar conforme a escola de Fabio; simúlo uma retirada; o inimigo avança, eu o envolvo; corto-lhe a retirada, e elle rende-se. Arraso o Humaitá daquelle vestido que defende o meu pésinho adorado como uma casamata. A indifferença é a serpente tentadora da mulher.
Em consequencia destas reflexões, Horacio deixou-se ficar onde estava, e não seguiu a moça. Quando suppôz que ella já ia distante, foi procurar algures, em um bilhar o preservativo contra a tentação de cortejal-a, ou antes a seu pésinho.
—Ella hade reparar no meu eclipse! murmurou com certa confiança.
Entretanto, Laura, descendo a rua do Ouvidor, encontrára pouco adiante, na casa do Masset, Amelia em companhia da mãi. As duas amigas não podendo vir juntas tinham ajustado seu encontro para aquelle ponto. O primo despediu-se, e as senhoras continuaram seu itinerario pelas differentes lojas e casas de modas.
Ao cabo de duas ou tres horas, tomaram o carro que estava parado proximo á rua dos Ourives e partiram na direcção do Cattete. A poucos passos d'ali, Amelia perguntou ao lacaio sentado na almofada:
—Trouxe?
—Sim, senhora; está ahi dentro.
—Bem!
O carro aproximava-se do largo da Lapa, quando Amelia disse:
—Podiamos ir agora ao Passeio Publico?
—Tão tarde! replicou Laura.
—Deixa-te disso! observou a mãi da moça.
—Porque, mamãi? Ha tanto tempo que lá não vamos.
—Não ha nada de novo.
—Ora eu queria vêr a garça. Ainda não a vi.
—Viste sim!
—Mas não reparei n'uma cousa!...
—Em que!
—Uma cousa. Depois direi.
Tanto insistiu que a mãi cedeu a seu capricho, e deu ordem ao cocheiro que chegasse até o portão do Passeio Publico. As senhoras desappareceram na curva de uma das alamedas do parque, em direcção ao lago. Amelia queria vêr o andar da garça, que Horacio tinha comparado ao seu.
Nessa occasião passava o tilbure do nosso leão, que vinha do lado da Ajuda. Um atropêllo, produzido por uma gondola mal conduzida, ia atirando o tilbure sobre o carro parado no portão do Passeio Publico. Este incidente chamou a attenção do moço para o cocheiro, que derreado sobre a almofada não se movêra.
A memoria apresenta ás vezes um phenomeno curioso; conserva por muito tempo occulta e sopitada uma impressão de que não temos a menor consciencia. De repente, porém, uma circumstancia qualquer evoca essa reminiscencia apagada; e ella resurge com vigor e fidelidade.
Foi o que succedeu a Horacio. Minutos antes por maiores esforços que fizesse para recordar-se da libré do lacaio, portador da botina perdida, não o conseguiria de certo. Entretanto bastou-lhe vêr a roupa do cocheiro, para acodir-lhe immediatamente ao espirito a imagem desvanecida. Era esse o carro, que vira quinze dias antes na rua da Quitanda; não havia duvida.
O leão mandou parar o tilbure e entrou no Passeio Publico; depois de percorrer inutilmente varias alamedas, afinal descobriu entre as arvores, alem do lago, as ondulações dos vestidos de algumas senhoras acompanhadas por um lacaio, e tomou apressadamente aquella direcção.
O terreno estava humido da chuva da manhã; e por isso o pé dos passeiadores deixava o rasto impresso na branca e fina areia das alamedas. Notando esta circumstancia, Horacio procurou o vestigio de alguma botina irmã da que achara, e guardava como uma reliquia; ficou ebrio de contentamento reconhecendo entre muitas pegadas o leve debuxo que deixara no chão o mimoso pésinho.
Si não fosse o anhelo de alcançar as senhoras e reconhecer a dona incognita do thesouro, Horacio se houvera ajoelhado e beijára o rasto da fada de seus amores. Mas as senhoras caminhavam rapidamente para o portão.
Por mais que se apressasse o leão, chegando á sahida, apenas viu o carro que partia. Felizmente adiantando-se pôde reconhecer Amelia, que lhe sorriu e inclinou-se para acompanhal-o com os olhos.
—É ella! Que pateta sou eu! Devia ter adivinhado. A pouco, vendo-a passar pela rua do Ouvidor, tive um presentimento! Aquelle andar cheio de graça não podia enganar.
No dia seguinte o leão fez-se apresentar ao pai de Amelia, abastado consignatario de café, estabelecido á rua Direita. O encontro deu-se na praça do commercio. Horacio ahi foi á pretexto de comprar apolices; e um amigo, corretor de fundos, prestou-lhe aquelle serviço. O negociante offereceu a casa ao moço que acceitou a fineza com effusão de contentamento.
O Sr. Salles Pereira habitava nas Larangeiras uma bella chacara. Amelia era filha unica, e seu dote, convertido em cem apolices, só esperava o noivo. Quanto á mulher, tinha uma boa pensão instituida no montepio geral. Seguro assim o futuro, vivia o negociante com certa largueza, economisando pouco ou nada de seus lucros annuaes.
Quando Horacio teve conhecimento destas particularidades domesticas, sorriu.
—Bem! O meu pésinho tem um dote para seu calçado. Pode andar com luxo!
A primeira vez que Horacio visitou a familia de Pereira Salles, encontrou Laura na sala; a moça fôra passar a noite com a amiga, e conversava jovialmente. Apenas viu o leão, demudou-se; e instantes depois, inventou um pretexto para retirar-se, apezar das instancias de Amelia.
Horacio pouca ou nenhuma attenção deu á mudança que se tinha operado em Laura, e sua retirada repentina. Desde que a moça não era a dona feliz do mais lindo pé do mundo, tornava-se para elle uma creatura indifferente; tanto mais quanto sua alma estava ali de rojo beijando a fimbria de seda, que lhe occultava o tão anciado thesouro.
Em Amelia, varias impressões produziu a apresentação do moço. No primeiro momento acreditou que o leão viera attrahido por ella; mais tarde, lembrando-se do theatro, suspeitou que fosse apenas um meio de aproximar-se de Laura; finalmente occorreu-lhe que podia não passar de um encontro casual de seu pai, e de uma delicadeza da parte de Horacio.
Suas duvidas porém se dissiparam poucos dias depois.
Uma noite a moça, impellida por um movimento de faceirice, soltou estas palavras, no meio de uma conversa com o leão.
—Laura está uma ingrata! Ha tanto tempo que não vem passar uma noite commigo.
Ao mesmo tempo fitava os olhos no moço, para vêr a expressão de sua physionomia.
—É uma fineza de sua amiga, que eu agradeço de coração, respondeu Horacio.
—Uma fineza?... perguntou Amelia presentindo laivos de ironia.
—Quando sua amiga está aqui, a senhora sem duvida não a deixa?
—É muito natural.
—Já vê pois que eu tenho razão. Si ella viesse...
—Diga.
—Eu teria ciumes, D. Amelia.
A moça corou.
—Pois amanhã Laura ha de passar a noite commigo.
Estas palavras foram ditas com o estouvamento da menina, que procura disfarçar um prazer, sob a mascara da contrariedade. Mas a mascara é tão risonha, que não illude.
—Quer-me tanto mal assim? perguntou Horacio. Não admira; uma paixão ardente e impetuosa como eu sinto pela senhora, não devia ter outra sorte. O verdadeiro amor foi e será sempre infeliz; não ha mulher que o comprehenda.
Amelia com as faces á arder não sabia que fizesse; sua mão tremula brincava com as flôres de um vaso, que vacillou sobre o consolo e cahiu no chão. O fracasso da porcelana, despedaçando-se, chamou a attenção das pessoas que estavam na salla; assim rompeu-se o enleio de Amelia.
A moça retirou-se confusa para o interior da casa. Momentos depois entrou de novo na sala, já serena e prazenteira. Seus olhos procuráram Horacio, para offerecer-lhe o meigo sorriso que trazia nos labios.
Esse sorriso dizia em sua eloquencia muda o seguinte:
—Si nunca a mulher soube comprehender o verdadeira paixão, serei eu a primeira.
Foi esta pelo menos a traducção de Horacio, perfeito philologo do amor, e habituado a decifrar esses hyeroglyphos dos labios da mulher.
VIII
Não abandonemos o pobre Leopoldo á sua amarga decepção.
O moço chegára á casa mergulhado na tristeza profunda, que sobre elle derramaram os acontecimentos da manhã. Talvez a morte de Amelia não lhe causasse tamanho pezar, como o daquella cruel decepção que estava presentemente curtindo.
O aleijão excita geralmente uma invencivel repugnancia, repassada de terror. A aberração da fórma humana abate o orgulho do bipede implume, fazendo-o descer á baixo do ourangotango. Ao mesmo tempo, é ameaça viva á uma das mais caras aspirações do homem; a esperança de renascer em outra creatura, gerada de seu ser. Si a fatalidade pezar sobre a prole querida?
Imagine-se que dôr era a do mancebo, quando via a deformidade surgir de repente para esmagar em seu coração a imagem da mulher amada, da virgem de seus castos sonhos?
O contraste sobretudo era terrivel. Si Amelia fosse feia, o senão do pé não passára de um defeito; não quebraria a harmonia do todo. Mas Amelia era linda, e não sómente linda; tinha a belleza regular, suave e pura que se póde chamar a melodia da fórma. A desproporção grosseira de um membro tornava-se, pois, nessa estatua perfeita, uma verdadeira monstruosidade. Era um bérro no meio de uma symphonia; era um disparate da natureza; uma superfetação do horrivel no bello. Fazia lembrar os idolos e fetiches do Oriente, onde a imaginação doentia do povo reune em uma só imagem o symbolo dos maiores contrastres.
Nessa angustia passou Leopoldo o resto daquelle dia e os que se lhe seguiram.
—Não amo a sua belleza material, oh, não! pensava o mancebo. O que eu adoro nella é a belleza moral, a alma nobre e pura, a creatura celeste, a luz, o anjo. Qualquer que fosse o envolucro de seu espirito immaculado, creio que havia de adora-la tanto, como a adorei desde o momento em que primeiro a vi.
«Fosse ella feia para os outros, que chamam formosura o que lhes encanta os sentidos; para mim seria sempre bella, porque meus olhos haviam de vê-la através de seu esplendido sorriso. O que é o corpo humano no fim de contas? O que é o contorno suave de um talhe elegante, e a cutis assetinada de um rosto ou de um collo mimoso? Um pouco de materia á que a luz transmitte a côr, o espirito, e a vida. Tirem-lhe esses dois alentos; e verão que lôdo impuro e nauseante ficam sendo aquellas fórmas seductoras.
«Pois luz e espirito não eram a essencia da alma de Amelia? Quando essa alma a vestia com uma tunica resplandecente, que mulher se lhe podia comparar em lindeza? Então não era sómente formosa, fluctuava em um ether de belleza deslumbrante.
«Mas ella não é feia, é aleijada!...»
Um soluço afogou as tristes locubrações do mancebo. Elle repassou outra vez na mente as circumstancias de sua triste descoberta; quiz duvidar, combateu pertinazmente sua propria razão que lhe apresentava a realidade, e afinal succumbiu, curvando-se á implacavel certeza. Tinha visto uma vez, e como essa não bastasse, o acaso lhe offerecera occasião de apalpar a verdade, e saciar-se della.
—Não se admira a Venus de Milo, uma estatua mutilada? dizia o mancebo reluctando contra sua viva repugnancia. Não se admira o primor da arte grega, apezar de não restar della mais do que uma cabeça e um torso de mulher? Essa bellesa truncada não vale a belleza aleijada? A mutilação não repugna tanto ou mais do que a deformidade?
A razão de Leopoldo não o deixava embalar-se muito tempo nesse pensamento consolador. Replicava logo, refutando vigorosamente as argucias do coração:
—A estatua mutilada, que excita a admiração do mundo, não é a copia integral da belleza que lhe servia de typo; mas um fragmento apenas dessa copia. A alma, que se extasia na contemplação desse fragmento, recompõe o ideal do artista. Admira-se a Venus de Milo, como se admira um esboço não acabado de Raphael; como se admira a petala de uma rosa, arrancada da corolla. Mas, fosse embora aquelle primor da estatuaria a reproducção exacta de uma mulher. A mutilação respeita a bellesa; o aleijão a deturpa. Si a mulher que se ama perdesse um pé seria desgraçada; com um pé monstruoso, é mais do que desgraçada, é repulsiva.
Leopoldo deixava-se convencer por estas sugestões:
—Infelizmente assim é. Mas por que ha de ser assim? A mutilação é um facto humano; o aleijão é um facto natural. Essa aberração do principio creador, esse desvio da fórma primitiva, indicam sem duvida um vicio na essencia do organismo. Não se tem verificado que nos corpos mal conformados de nascença habita sempre uma alma enferma? Nos corcundas sobretudo, porque a espinha dorsal é o tronco da intelligencia. A deformidade de um membro, de um ramo apenas, não denota eiva tão profunda do espirito, é certo, mas revela que a alma não é nobre e superior. Não se concebe o anjo dentro de um aleijão.
O resultado destas cogitações era a gotta de fel esprimido, que ia filtrando á pouco e pouco no coração e acabaria por saturar todas as doces reminiscências dos ultimos dias. Leopoldo convenceu-se que não devia amar a desconhecida; mas, ao contrario, arrancar de sua alma os germens da paixão nascente.
Tomando esta resolução, o moço, que vivia muito retirado depois de suas desgraças de familia, esteve a lembrar-se de algumas antigas relações. Veio-lhe o desejo de cultival-as de novo. Um instincto lhe dizia que para gastar as primicias de um coração virgem, não ha como o attrito do mundo.
Entre as casas que outr'ora frequentava escolheu para a primeira noite a de D. Clementina, amiga intima de sua irmã. Era uma senhora já no declinio da idade e da formosura; gostava muito de dansar, e por isso reunia constantemente em sua sala as moças de sua amizade. Logo que se achavam presentes quatro pares, a dona da casa dava o signal, o marido arredava a mesa do centro, o filho, menino de quinze annos, sentava-se ao piano; e...
—Chassé-croisé! gritava D. Clementina.
Nesta casa Leopoldo tinha certeza, não só de ser bem recebido, como de encontrar bastante arruido para aturdir-se, e abafar uns gemidos que sentia ás vezes repercutirem no coração. Tinham decorrido cinco dias depois da decepção: ás oito horas da noite entrou o moço na sala de D. Clementina, que o recebeu com sorpreza cheia de amabilidades.
Além de estimado, acontecia que elle era justamente o quarto par. Tirado o dono da casa, o Sr. Campos, o filho Alfredo, e tres velhas, invalidas da dansa, havia na sala cinco senhoras para dois cavalheiros: servindo uma senhora de cavalheiro, ainda faltava metade de um par.
Quando a campainha annunciou mais uma visita, D. Clementina de olhos fitos na porta da sala, dispoz-se a receber o recem-chegado com o seu mais affavel sorriso. Vendo Leopoldo, correu a elle, e desfolhando-lhe um ramalhete de amabilidades, trançou-lhe o braço; antes que o moço tomasse pé na sala, era arrebatado pela quadrilha, a compasso de galope.
Realmente elle não podia escolher melhor. A agitação daquella dansa rapida, sem pausa; a confusão que os pares creavam de proposito para augmentar a animação; os risos e gracejos que provocavam os menores incidentes da quadrilha; todo esse rumor e atropello tinham por tal fórma sacudido o espirito de Leopoldo, que as idéas e recordações tristes lhe cahiram, como as folhas seccas de uma arvore, abalada pelo vento rijo do outono.
Sentiu o coração vazio, porém tranquillo; o prazer vivo e scintillante daquella reunião, apenas roçava-lhe pela superficie; não penetrava, mas tambem ja não transudavam-lhe do intimo as amarguras de que nos ultimos dias se tinha saturado.
De repente operou-se na perspectiva da sala, uma transformação inesperada. Amelia entrára; e sua graça diffundiu-se como um influxo celeste, no meneio de seu talhe elegante, na suavidade de sua voz, na irradiação de seus olhares.
Leopoldo embebeu-se naquella suave apparição, como da primeira vez que a vira; mas para percorrer em um apice, as phases de seu amor, e cahir de novo na esmagadora decepção.
De repente aquella estatua luminosa escureceu á seus olhos deixando apenas um residuo negro; esqueleto calcinado que arrastava uma deformidade. Debalde Amelia se ostentava no fulgor de sua belleza, toucada pelos primeiros arrebóes do amor; debalde as ondulações de seu corpo debuxavam fórmas encantadoras, e o sorriso de seus labios destillava uma fragancia mystica de beijos puros; os olhos de Leopoldo não viam nenhum desses encantos. Através dos folhos do vestido roçagante, sua vista fitava-se implacavel no pé monstruoso que lhe esmagava o coração como a pata grosseira de um animal.
Todos os encantos dessa creatura, elle os despia de seu manto seductor, e dissecava-os com fria rancor. A inflexão voluptuosa do talhe provinha da resistencia que oppunha ao andar o enorme pé; o passo ligeiro era um esforço supremo para disfarçar o aleijão; o sorriso gracioso um enleio para prender os olhos estranhos, não permittindo que elles se abaixassem até á fimbria do vestido.
E por isso mesmo o olhar de Leopoldo, olhar frio, cruel, inexorável, se tinha cravado na orla da saia elegante, d'onde não havia forças para arrancal-o.
Amelia sentiu esse olhar cruciante, e estremeceu, tomada de um vago terror. Immediatamente sentou-se, e arranjando as dobras do vestido, procurou disfarçar. Mas em vão; o olhar do moço continuava fito no mesmo ponto, e produzia nella uma sensação incommoda.
—É D. Amelia, filha de um negociante chamado Salles. Não conhece?
Estas palavras foram dirigidas a Leopoldo por D. Clementina, que sentando-se a seu lado, acompanhou-lhe o olhar fito.
—Não, minha senhora.
—Então vou apresental-o.
—Obrigado, D. Clementina; depois.
—Não acha muito galante?
Leopoldo hesitou:
—Oh! muito!...
Viera-lhe nessa occasião o mesmo impeto que sentem de ordinario os amantes em igual situação: o de criticar e desmerecer nas prendas da mulher que os faz soffrer. É uma reacção natural do coração. Leopoldo, porém, julgou indigno de si tal procedimento; tinha o direito de afastar-se, de fugir com horror dessa mulher, mas não o de offendel-a. A culpa de amal-a era sua; e não della.
Aproveitou um momento de distracção da dona da casa, para tomar o chapéo, e esquivar-se, sem que o percebessem.
Amelia, porém, o viu; seus olhos ficaram por algum tempo presos na porta por onde acabava o moço de sahir. Quando, passado um instante, cahiu em si, ficou sorprendida. Que tinha ella com aquelle desconhecido?
Ao chegar, vendo o rosto pallido e os olhos profundos, que tão desagradavel impressão haviam deixado em seu espirito, a moça havia sentido um máo estar intimo. Vinha com a alma cheia das primeiras delicias de um amor nascente; com as doces emoções da declaração de Horacio. A presença de Leopoldo foi um travo.
Mas tambem para que viera? Por que não ficara em sua casa esperando Horacio?
Vão lá sondar o coração feminino. Agora que sabia-se amada, a moça queria gozar de seu triumpho, e vêr humilde e abatido a seus pés o rei da moda, o soberbo leão. O meio era fazer-se ardentemente desejada, tornar-se difficil e esquiva, embora lhe custasse o sacrificio dos momentos agradaveis que podia passar junto de Horacio.
A presença de Leopoldo em casa de D. Clementina a incommodára, e entretanto seu olhar parecia agora sentir a ausencia do mancebo.
A principio havia ali uma pessoa de mais; agora faltava alguma cousa. Si não era um homem; era uma curiosidade, uma emoção.
—Amelia!
A moça voltou-se para ouvir D. Clementina que a chamava.
—Quero apresentar-lhe um moço, que a acha muito bonita.
Dizendo estas palavras, a dona da casa corria os olhos pela salla á busca de alguem.
—Não o vejo agora.
—Quem é?
—O Castro... Conhece?...
—Não, senhora.
—Querem vêr que já se retirou.
Amelia pôde reter o monosyllabo que ia cahir-lhe do labio, confirmando a supposição da dona da casa. Tinha adivinhado que se tratava do seu desconhecido.
—Então elle me acha bonita?
—O Castro?... Muito. Creio que ficou apaixonado! Se visse os olhos que lhe deitava quando a senhora chegou!
—Então foi de paixão que elle fugiu?
—Quem sabe? A paixão é como o vinho que em uns dá para rir, e em outros para chorar. Ha namorados que perseguem, e outros que fogem!
Amelia julgou prudente desviar a conversa daquelle assumpto escabroso, no qual D. Clementina se comprazia, porque lhe recordava sua mocidade já desvanecida.
IX
Depois d'aquella noite Leopoldo viu Amelia duas ou tres vezes: e de todas sentiu a mesma impressão que lhe causara a presença da moça em casa de D. Clementina.
Era o mesmo desencanto; a mesma insistencia de seu espirito para enxergar a formosura da donzella através de um prisma deforme e caricato. N'essas occasiões elle soffria diante da moça a fascinação do horrivel, como o poeta soffre muitas vezes a fascinação do bello em face de um objecto desgracioso. Era então um poeta pelo avesso; um vate do monstruoso. Tinha na imaginação um gnomo de Victor Hugo: creava Quasimodos e Gwynplaines do sexo feminino com uma fecundidade espantosa.
Quando porém a moça desapparecia de seus olhos, operava-se em seu espirito completa mutação. Esquecia completamente o aleijão, para só lembrar a linda e graciosa figura, que poucos momentos antes sua vista repellia. Amelia ausente vingava Amelia presente. O coração do mancebo detestava tanto esta, quanto adorava ainda a outra.
—Este amor é um inferno; pensava elle; tem um vicio organico. Ha de viver de dôres e lagrimas; ha de alimentar-se de minhas tristezas. E assim irá definhando até morrer de consumpção, depois que me tiver devorado todo o coração. Que importa? Servirei de pasto á este abutre. O que somos nós afinal de contas? Uma presa; emquanto vivos, a presa das molestias e das paixões proprias ou alheias; depois de mortos, a presa dos vermes ou das chammas.
Com tal disposição de espirito voltou elle dias depois á casa de D. Clementina. Nesta noite havia uma pequena partida; Leopoldo contava, pois, encontrar Amelia.
Ali estava com effeito, vestida de escarlate e branco; e adornada com a sua graça arrebatadora. Quando o moço entrou, ella dansava com as costas voltadas para a porta e não o viu; porém, momentos depois virou o rosto como si obedecesse a um impulso extranho, e encontrou o olhar ardente de Leopoldo.
A moça fez insensivelmente um movimento para afastar-se, que entretanto a aproximou da porta. Aquelle olhar que a attrahia ao mesmo tempo que a repellia, causou-lhe um desvanecimento misturado de terror. Felizmente a terceira figura da marca da contradansa começava, e a distrahiu de sua emoção.
Estava ella outra vez parada conversando com o par, quando sentiu um calafrio; sem vêr, conheceu que o mancebo se aproximava, que seus labios se abriam para dirigir-lhe a palavra:
—Minha senhora, terei a honra de dansar com V. Ex. a seguinte quadrilha...
Continham uma pergunta ou uma asseveração estas palavras? Fôra impossivel dizel-o. O tom parecia mais affirmativo do que interrogativo, porem o olhar do mancebo esperava, sinão exigia resposta.
A confusão da dansa permittiu á Amelia esquivar-se, sem responder. Quando, terminada a quadrilha, voltou a seu logar, ficou perplexa. Tinha ella se compromettido ou não a dansar a seguinte quadrilha com Leopoldo? Não respondera, é certo; mas recordava-se vagamente de ter feito uma leve inclinação com a cabeça. Sem duvida o moço vira esse movimento e o tomára por um signal de assentimento.
Quando um de seus innumeros admiradores vinha pedir-lhe a proxima quadrilha, ella respondia hesitando que já tinha par; apenas o cavalheiro se afastava arrependia-se de não o ter acceitado, rompendo assim o compromisso tacito; e ficava anciosa por outro convite. Entretanto novo par se apresentava, que recebia a mesma recusa.
N'esse jôgo, muitas vezes repetido, passou o intervallo. O piano deu o signal da quadrilha; Leopoldo aproximou-se de Amelia, e se inclinando sentiu no seu estremecer o braço tepido de Amelia. A moça não teve consciencia do que se passou até o momento em que o moço a conduziu a seu logar. Recordava-se apenas de que seu par lhe fallara por muito tempo, com a voz baixa, porem palpitante de emoção.
Assim fôra. Passada a primeira confusão da quadrilha, Leopoldo, fitando o olhar no semblante da moça, deu expansão aos sentimentos que lhe tumultuavam dentro d'alma. Com a fronte baixa e as faces cheias de rubôres, Amelia parecia absorvida e reconcentrada emquanto o moço fallava. Dir-se-hia que ella não o ouvia.
—A senhora acredita, D. Amelia, na attracção irresistivel, que impelle duas almas entre si, e as chama fatalmente á se unirem e absorverem uma na outra?... Eu acreditava nessa força mysteriosa, mas ainda não tinha chegado o momento de experimental-a em mim; de sentir em meu ser este elo divino que prende as almas, através do tempo e da materia. Senti-o ha vinte dias, quando a vi pela primeira vez, quando a senhora se revelou ao meu coração.
Leopoldo referiu as emoções que sentira, na occasião de seu primeiro encontro com Amelia; a impressão que ella deixára em seu espirito; e os sonhos em que se embalára sua imaginação nos dias seguintes.
—Tive então, continuou o mancebo com accento profundo e commovido, tive então, e depois, a prova de que esse enlevo de meu ser, essa abstracção de minha existencia para absorver-se n'outra, era a attracção moral e nada mais. Via, admirava, adorava na senhora uma cousa sómente; sua alma. Não sabia, ainda hoje não sei, si a mulher que eu amo é bonita para os outros; sei que para mim é de uma belleza divina. Perdesse ella a graça e a formosura que aos outros seduz; para mim seria a mesma; eu havia de adoral-a com o mesmo ardor. Sua alma é filha de Deus, e como elle de uma magnificencia immortal. É uma estrella que não tem eclipse.
Leopoldo inclinou a fronte para fallar quasi ao ouvido da moça:
—Outr'ora julgava impossivel que se amasse o horrivel. Agora reconheço que tudo é possivel ao amor verdadeiro, ao amor puro e immaterial. Não só reconheço, mas sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões martyres! Oh! sinto-me capaz de amar o anjo ainda mesmo encarnado em um aleijão!...
Leopoldo fallou ainda por muito tempo de seu amor a Amelia, sem que ella se animasse a interrompel-o. Aquella palavra ardente, impetuosa, embora vendada por certo pudor d'alma, a subjugava: ella não tinha coragem, nem mesmo vontade de subtrahir-se á sua influencia.
Quando Amelia, conduzida por Leopoldo, se dirigia á uma cadeira, D. Clementina aproximou-se:
—Ah! Eu queria apresental-o, disse a Leopoldo; mas não teve paciencia para esperar.
Depois reclinando ao ouvido de Amelia, perguntou-lhe:
—Então? Não lhe disse que a achava muito bonita?
—Ao contrario, D. Clementina; deu-me a entender que me acha horrivel.
—Ande lá.
—Deveras!
—É impossivel.
Amelia, sentando-se, evocou a lembrança de Horacio, para fazer no seu espirito o parallelo entre o elegante leão e o estranho mancebo com quem acabava de dansar. Um tinha todas as prendas que seduzem a imaginação; era formoso, trajava com esmero, conversava com muita graça. O outro não possuia nenhum desses attractivos; seu exterior alheiava as sympathias; quando fallava diffundia a tristesa no espirito dos que o escutavam.
A moça não concebia que se preferisse Leopoldo á Horacio; e comtudo não podia esquivar-se completamente á influencia daquella imagem pallida, que lhe apparecia no meio dos sonhos mais brilhantes.
Muitas vezes, depois de algumas horas agradaveis passadas junto do leão, quando a moça, recolhida á sua alcova, repassava na memoria os doces protestos de amor que ainda lhe resoavam ao ouvido, de repente surgia a lembrança de Leopoldo. Parecia-lhe então que da fronte do mancebo se desprendia uma sombra para annuviar seus pensamentos risonhos.
Horacio, sabendo onde Amelia passava as noites em que elle não a via, mostrara desejos de frequentar a casa de D. Clementina; a moça porém oppôz-se. Duas razões actuaram era seu espirito.
Aquella casa servia-lhe de abrigo contra a seducção que exercia em seu espirito a elegancia de Horacio. Quando sentia-se vencida, fugia para ali, onde recobrava forças para resistir, e domar completamente o leão, soberbo de suas conquistas passadas.
Era essa uma das razões; a outra era o receio de achar-se em face dos dois moços, repartida entre a seducção de um e a fascinação do outro. Presentia que desse conflicto, resultaria alguma cousa, que ella não podia definir, mas que a enchia de sustos e inquietações.
Por isso exigiu de Horacio que não fosse á casa de D. Clementina:
—Costumam lá ir algumas dessas pessoas que se occupam em inventar novidades. Sua apresentação, Sr. Horacio, daria pretexto á algum romance.
—Mas, por que ainda frequenta semelhante casa?
—Pedidos... bem sabe; nem sempre uma pessoa se póde recusar. Mas si o senhor apparecer lá, eu deixarei de ir.
—Esteja tranquilla.
Amelia continuou a passar de vez em quando uma noite em casa de D. Clementina. A principio não tinha dia certo, e succedeu por isso que Leopoldo desencontrou-se della duas vezes. Uma noite porém o moço perguntou-lhe:
—Vem sabbado?
—Talvez.
Desde então o dia escolhido era o sabbado, a menos que não precedesse aviso especial da dona da casa, para alguma partida. Nunca mais houve desencontro; Amelia achava sempre o mancebo no seu posto, defronte da porta para vêl-a entrar.
Em uma dessas noites deu-se um incidente, que é preciso referir.
Fallava-se á respeito de uma senhora casada, a quem o marido causava serios desgostos. Pessoa que sabia das particularidades dessa familia, explicava o facto á sua maneira.
—Ella era muito linda, o marido a adorava; casou-se por paixão. Poucos dias depois de casada, teve ella uma grave molestia que a reduziu aquelle estado. Não ha paixão que resista.
—Com effeito sabe ser feia!
—Ninguem acreditará que foi bonita.
—Pois foi uma belleza.
Leopoldo, que ouvia calado, interveio:
—O marido nunca a amou!
—Asseguro-lhe que teve uma paixão louca.
—E eu affirmo-lhe que não; que elle nunca teve paixão pela mulher. O que elle adorava era unicamente a sua belleza, a fórma; isto é, um accidente. O homem que ama a mulher destinada a ser a companheira de sua existencia, o complemento de seu ser imperfeito, não despreza essa mulher, porque a desgraça a feriu no envolucro material de sua alma. Elle póde soffrer com aquella desgraça; mas deve redobrar de amor e adoração, para que nem seus olhos vejam o defeito, nem ella, a mulher amada, se lembre nunca de que o tem para elle, embora o tenha bem claro para os indifferentes.
—É bonito de dizer! acodiu um apreciador das mulheres formosas.
—Todos dizem o mesmo, mas fogem das feias, observou uma senhora idosa, talvez por experiencia propria.
—O que eu digo, minha senhora, já o experimentei em mim mesmo; replicou Leopoldo.
—Ah!
O mancebo cravou em Amelia um olhar eloquente, e disse com a palavra lenta e calma:
—É verdade; já o experimentei em mim. Por que hei de occultal-o? Minha alma já passou por esta dura prova, e sahiu triumphante. Hoje sei que tenho forças para amar até os defeitos da mulher que Deus me destinou.
Amelia perturbou-se com aquellas palavras, e o olhar ardente que parecia graval-as em sua alma. Nessa noite retirou-se pensativa; e por muito tempo a figura pallida de Leopoldo, esvoaçou na penumbra de seu leito de virgem.
X
Pela manhã se dissiparam essas nevoas que no espirito de Amelia deixara a noite antecedente.
Era domingo. A moça, envolta em seu roupão alvo, com os cabellos soltos pelas espaduas, encostou o rosto á vidraça da janella. Afastando a cortina de cassa branca, podia enxergar perfeitamente a rua, sem que de fóra vissem o seu gracioso desalinho.
Não tardou que se ouvisse um tropel de cavallo. Era o leão que ia dar seu passeio matutino. Vendo agitar-se a cortina, e desenhar-se no vidro a ponta de uns dedos côr de rosa, Horacio cortejou, enviando um sorriso á janella.
Á noite o moço dirigiu-se á casa do Salles. Amelia o esperava. A sala estava cheia de visitas. Entrando, o olhar de Horacio encontrou um olhar terno que o saudava de longe.
Mas o sorriso se desfez com a perturbação que de repente sentiu a moça. A vista do leão tinha descido até o tapete, e se fixara com uma insistencia visivel na fimbria do vestido, ligeiramente arregaçada. Horacio julgou que pudesse lobrigar a ponta do pesinho que idolatrava.
A moça concertou as dobras da saia de modo a interceptar o olhar curioso; e disfarçou conversando com uma amiga.
Desde principio notara Amelia aquelle sestro de Horacio. Quando ella o suppunha mais embebido em seus encantos, mais rendido á sua belleza, sorprendia o olhar do moço a rastejar pelo chão, procurando insinuar-se por baixo da orla de seu vestido.
Muitas vezes ella perdia os seus mais ternos sorrisos, porque o moço, em vez de procurar lhe no rosto a esperança de ser amado, esquecia-se, a catar sobre o tapete alguma idéa que não se animava a revelar. Já tinha succedido, durante que ella tocava, distrahir-se o leão, e com a attenção presa no pedal, nem ouvir a peça de musica.
Horacio a amava sem duvida; já lhe tinha dado provas de que sentia por ella uma paixão vehemente. Elle, o rei da moda, o festejado conquistador, para quem todas as portas e todos os corações abriam-se como a gruta encantada de Aladino, a uma só palavra; elle ali estava captivo da vontade della, e atado a seu carro triumphal. Que prova mais eloquente de profundo amor, do que essa submissão espontanea do altivo leão?
A força nunca se revela tanto como na posse de si mesma, no vigor com que se domina. Hercules, fiando aos pés de Omphale, é o ultimo canto, o epilogo sublime da epopéa da força humana. Exterminando a féra, a natureza e até os deuses, Hercules foi grande; abatendo a si mesmo, foi maior, porque venceu o vencedor.
Amelia comprehendia que homenagem eloquente á sua belleza havia naquella adoração do elegante cavalheiro; sentia-se orgulhosa com esse amor, que tantas mulheres lhe invejavam; considerava-se rainha, desde que via a seus pés subjugado e humilde o rei da moda.
Mas lá no intimo alguma cousa lhe remordia, quando notava a pertinacia com que o olhar de Horacio, procurava a fimbria de seu vestido. Nesses momentos sentia n'alma um alvoroço; chegava a suspeitar que Horacio não lhe tinha amor, e estava escarnecendo della com uma paixão fingida.
A verdade, porém, é a que sabemos. Horacio tinha paixão louca pelo pésinho de que só conhecia a botina e o rasto; fazendo a côrte a Amelia, elle prestava culto ao deus ignoto, que adorava sob aquella fórma encantadora. Pelo cuidado que tinha a moça em não desconcertar os babados de seu vestido comprido de mais, conheceu elle o zelo com que a dona recatava o thesouro. Comtudo não desesperou; o cuidado da moça havia de adormecer um momento; podia mesmo sobrevir um accidente inesperado que realizasse a sua mais cara esperança.
Até aquella noite todos os esforços se tinham frustrado: á sua insistencia a moça tinha opposto a pertinacia do capricho feminino. Quanto mais attento elle estava para aproveitar qualquer descuido, mais alerta ella ficava para não commetter a minima falta.
Horacio porem resolveu dar o golpe; e com essa intenção, fora á casa de Salles, no domingo em que estamos.
Quando se offereceu occasião, travou com Amelia, recostada á janella, o seguinte dialogo:
—Como é bonita! disse elle contemplando a moça com enlevo.
—Ainda não tinha percebido? perguntou ella com ironica faceirice.
—Não, D. Amelia, não; porque de cada vez a acho mais bonita: todos os dias a senhora muda a meus olhos; torna-se outra, mais linda, mais formosa, do que era aquella que eu conhecia anteriormente. Como hoje, acredite, nunca a vi.
—Que tenho eu de mais?
—Não sei; tem uma aureola da belleza! Seus olhos desferem raios de luz tão pura; sua boca sorri como a flôr em botão, que abriu com a frescura da noite. Os anneis de seus cabellos castanhos parecem impregnados de um fluido mysterioso, que se derrama em torno. Mas, de toda a sua formosura ha uma cousa sobretudo que eu admiro, que eu adoro. Não é, nem seus olhos brilhantes, nem seus labios mimosos, nem seu talhe elegante, nem suas tranças tão opulentas; não é nada disto!
—O que é então?
—Para que dizel-o? Para que revelar a minha paixão, a quem della escarnece? Si eu o confessasse, cessariam o supplicio que tenho soffrido, as ancias que estou curtindo? Não; haviam de augmentar si isso fosse possivel. A senhora teria prazer em torturar-me ainda mais.
—Explique-se: confesso que não o entendo. Que supplicio tem o senhor soffrido?
—A mulher é caprichosa, muitas vezes faz padecer aquelle que a ama sinceramente, e só por espirito de contradicção. Uma cousa innocente, um favor pequenino... permitte aos estranhos e indifferentes, e entretanto recusa ao homem que morre de paixão por ella. Não é uma crueldade? A senhora pergunta, D. Amelia, que supplicio tenho eu soffrido. Este, de ser consumido á fogo lento por um desejo, que um gesto seu podia tornar em gozo infinito!
A moça com as faces incendidas em rubôr, luctava no alvoroço e confusão, que iam-se apoderando de toda sua pessoa.
—Entende agora, D. Amelia?
—Não! murmurou tremula.
—Pois não percebeu ainda, que ha uma cousa que eu sobretudo amo na senhora? Tanto percebeu, que fez o proposito de escondel-a a meus olhos, cançados de a procurarem a cada instante. Não está contente ainda de vêr-me arrastando assim a alma pelo pó, no vão intento de entrevêr de longe o objecto de minhas adorações?
O leão fitou um olhar fascinador no semblante da moça.
—Para que negar, D. Amelia? A senhora o sabe, e finge ignorar para mais torturar-me.
—Eu não!
—A senhora sabe por quem deliro de paixão, por quem darei a minha vida sem hesitar. Si não soubesse, já eu teria visto e admirado esse pésinho mimoso, que me mata com seu rigor.
Uma visita que entrava na sala, deu a Amelia um pretesto para fugir, disfarçando seu rubôr e perturbação, no afan da recepção das senhoras que chegavam.
Ao retirar-se, Horacio achou ensejo de trocar uma palavra coma moça, emquanto lhe apertava a mão.
—Não seja cruel!
—Oh, cruel não sou eu; replicou a moça com expressão de ressentimento.
Mais tarde em sua alcova, emquanto desfazia o penteado, soltando os lindos anneis do cabello castanho, Amelia recordou-se das palavras apaixonadas que ouvira de Leopoldo na vespera, e comparou-as com as queixas de Horacio. A linguagem do primeiro tinha a eloquencia da paixão; parecia vir do intimo, do mais profundo do coração. A linguagem do segundo, tinha a graça da seducção; era a vibração passageira das cordas d'alma.
Mas a palavra do leão, vinha envolta em um sorriso gracioso, sombreado por um bigode fino e elegante!
Durante uma semana, Amelia não viu Horacio; por uma razão muito simples. O moço de arrufado, não appareceu durante dois dias; quando se resolveu a apparecer, a moça despeitada inventou um incommodo, e não desceu á sala de visita, pelo dobro do tempo. Si Horacio sustentasse a lucta, podia haver serio rompimento.
O leão, porém, estava domado; tinha achado a sua Diana. No quinto dia foi humildemente render preito e homenagem á suzerana de seu coração. Amelia o recebeu, como rainha magnanima; e tratou-o nesse dia com amabilidade extrema. Pela primeira vez, Horacio pôde beijar-lhe a ponta dos dedos.
Animado com esse acolhimento, o leão arriscou de novo a grande questão. Fitando o olhar no rosto da moça, e abaixando-o á orla do vestido, disse em tom supplicante:
—Me deixa vêr?
—Não; respondeu a moça com vivacidade, e demudando-se.
—Quando cessará este capricho?
—Nunca.
Horacio teve um assomo de impaciencia.
—Bem. Não me quer mostrar a mim, Horacio de Almeida, pois ha de mostral-o a uma pessoa.
—A quem? perguntou a moça irritada.
—A seu marido.
Amelia tornou-se pallida, e sentiu passar-lhe nos olhos uma vertigem; mas recobrou-se logo á idéa, de que as palavras de Horacio não passavam de um galanteio.
—Si algum dia me casar, replicou ella sorrindo, ha de ser com a condição de não mostrar.
—Havemos de discutir essa condição.
—Vamos mudar de conversa?
—Como quizer; temos muito tempo para continual-a.
Emquanto Amelia o olhava sorpresa, Horacio voltando-se para o grupo das senhoras, tomou parte na conversação geral.
—Já sabem a novidade, minhas senhoras?
—Qual dellas? Ha tantas.
—A novidade nova, a ultimamente inventada, que eu acabo de receber em primeira mão, de caminho para aqui.
—Algum casamento, aposto.
—E eu sei de quem.
—Não adivinhou. Talvez que a novidade de amanhã seja algum casamento; quem sabe? respondeu Horacio, relanceando um olhar para Amelia. Mas a novidade de hoje, é apenas um baile, um baile de estrondo.
—Aonde?
—No Cassino?
—No Club?
—Em casa do Azevedo.
—É verdade! Eu já tinha ouvido dizer!
—Quer a senhora fazer de velha a minha novidade. O que se dizia era que o Azevedo tinha tenção de dar um baile, mas disso á realisação vai uma grande distancia. Eu desejo muita cousa que não alcanço, e nem ao menos posso vêr. Foi hoje e ao jantar que resolveu-se a grande questão, por occasião de uma saude. Um amigo que vinha de lá, encontrando-me a dois passos daqui, me deu a noticia do grande acontecimento. Portanto, minhas senhoras, preparem-se!
—Quando é o dia?
—No primeiro do mez proximo. Ponham desde já em contribuição as lojas e modistas; eu o que posso é offerecer-me com muito gosto para admiral-as a todas, e achar a cada uma de per si, mais elegante do que as outras juntas. Si Páris me tivesse ouvido, não haveria guerra de Troia.
—Nem Homero por conseguinte: replicou um litterato.
—Homeros sempre os ha. Quando não encontram os heroes já feitos, inventam-n'os, e com tal habilidade, que esses grandes homens postiços, parecem verdadeiros, como os dentes de osana, e os coques das moças. O mesmo succede com os Anacreontes, cuja raça é muito maior; quando não acham nymphas para cantar, qualquer bruxa lhes serve de pretexto ou de cabide para pendurarem a lyra.
Amelia ficara triste e preocupada; escutava a palavra voluvel do moço, com um sentimento indefinivel de angustia; parecia-lhe que era seu amor por ella, que Horacio rasgava aos pedacinhos, como uma pagina querida, abandonando-os ao sopro do vento, ao capricho daquella conversa.
Uma amiga reparando na tristeza da filha de Salles, e no olhar que em certa occasião lhe deitara Horacio; disse ao ouvido da moça sentada á seu lado:
—Amelia ficou lograda!
—Como?
—Creio que Horacio está justo com outra.
—Quem lhe disse?
—A tristeza de Amelia, e o olhar que o sujeito lhe deitou, quando fallava de um casamento que se ha de saber-amanhã.
—É verdade. Com quem será?
—Naturalmente com alguma fazendeira de mil contos. Depois que sahirem da igreja, o marido leva-a para o collegio do Hitchings; e deixa-a lá como pensionista, emquanto elle vai a Pariz aperfeiçoar-se na escola dos maridos.
Esta senhora é uma satira viva; sua conversa parece um fogo de artificio; dir-se-hia que o seu gracioso trajo é todo composto de alfinetes, que ella vai deixando em sua passagem envoltos em sorrisos assucarados, como confeitos do carnaval.
Occulto seu nome porque é muito conhecida na boa sociedade do Rio de Janeiro, e não quero compromettel-a com os noivos presentes e futuros das fazendeiras ricas.
Depois de ter durante alguns instantes ainda polvilhado a conversa com sua palavra elegante e chistosa, Horacio tomou o chapéo e retirou-se. Não eram nove horas; esta circumstancia mais entristeceu Amelia, e mais excitou a attenção da moça maliciosa.
Á porta da casa de Salles, encontrou Horacio seu tilbure. Mandou o cocheiro esperal-o no largo do Machado, e elle, tendo acendido o charuto e vestido o sobretudo, seguiu a pé. Queria pensar.
Horacio pertencia á escola daquelles que entendem, que nunca é tarde para arrepender-se o homem de um compromisso. Elle comprehendia o jacta est alea por esta fórma prudente e rasoavel. Cezar, tendo lançado a ponte sobre a Rubicon, via de longe em Roma a dictadura, e mais tarde a purpura imperial; portanto fez elle muito bem em passar, sobretudo desde que o rio já não oppunha obstaculo. Mas se em vez do poder, Cesar encontrasse no caminho a derrota; a ponte lançada lhe serviria para voltar ás Gallias, e elle teria o cuidado de queimal-a depois que tornasse a passar.
Como Cesar, elle tinha lançado a ponte com aquella palavra dita a Amelia, em um momento de despeito. Devia porém passar o Rubicon do casamento?
Era sobre tão importante questão que o leão queria reflectir, fazendo a pé o trajecto entre Larangeiras e largo do Machado.
—O casamento é o supplicio de Prometheu, pensava elle; um homem atado ao rochedo da familia, com o coração devorado pelo tedio; uma creatura dividida em duas metades, que se contrariam á cada instante, porque estão ligadas. Em vez do romance, do idilio, do drama, a prosa monotona de uma historia que se lê todos os dias. Esse prazer incomparavel de sentir-se todo dentro de si, de resumir-se no seu unico eu, de dispôr livremente de sua pessoa e vida, não o tem o marido a menos que seja um biltre. O casamento dilata a superficie da alma; em vez de soffrer-se no seu coração apenas, soffre-se na mulher, no filho, e em cada um dos fios dessa grande teia humana que se chama familia.
Horacio recordou-se de alguns de seus amigos que haviam casado, e achou nessas reminiscencias a prova de sua opinião.
—O casamento é tudo isso, mas que importa, desde que não ha outro meio de realisar o meu desejo e satisfazer esta paixão ardente e impetuosa? Daria a vida inteira, e sem hesitar pela felicidade que eu sonho. Pois si eu a daria de uma vez, por que não a emprestarei sob hypotheca?
Tendo chegado ao largo do Machado, o moço, entrou no tilbure, que o conduziu á casa.
Ahi, contemplando a mimosa botina, guardada como uma reliquia, encheu-se cada vez mais da resolução que havia tomado.
XI
Eram onze horas da manhã.
Amelia estudava ao piano os exercicios de Hertz. As janellas cerradas deixavam entrar frouxa claridade, coada pela cassa transparente das cortinas.
Nesse crepusculo artificial, a belleza da moça tomava uns tons suaves e meigos, que mais seduziam.
Os lindos cabellos ainda humidos do banho, cobriam-lhe as espaduas de uma tunica de veludo castanho. O bajó de cassa que trazia no seu desalinho matutino, conchegado á cutis, coloria-se com os reflexos rosados do collo mimoso.
Tanta graça e formosura, realçadas pela singelleza do trajo e pela naturalidade da posição, ficavam ali occultas na doce penumbra da sala, recatadas á admiração. As duas horas Amelia costumava subir á sua alcova para se pentear; e o gracioso desalinho despparecia, substituido por um trajo mais apurado e elegante. Era a flôr singella que o vento desfolha na mata, e passa ephemera e desconhecida.
Tantas moças despendem um avultado cabedal de sorrisos, de olhares e gestos, e põem em contribuição a sêda, a renda e a moda para realçarem sua formosura! Mal sabem, entretanto, que nunca são ellas tão bonitas e feiticeiras como em certo momento de seductora negligencia, quando parece que a belleza desabrocha de seu gracioso botão.
A porta da sala abriu-se, e deu entrada ao Sr. Salles Pereira.
O aspecto do negociante era grave; mas da gravidade serena que annuncia uma preocupação agradavel. Trazia na mão uma carta aberta.
Amelia assustou-se vendo entrar na sala o pai, que ella suppunha na cidade. Como todos os negociantes, o Sr. Salles Pereira passava a manhã em seu escriptorio; partia logo depois do almoço e só voltava á hora do jantar. A sorpreza da moça era pois natural.
—Ah! papai! exclamara ella, voltando-se ao rumor da porta. Já veiu do escriptorio?
—Ainda não fui; respondeu Salles Pereira sorrindo. Recebi uma carta, que me obrigou a demorar-me até agora para conversar com tua mãi e... comtigo, a quem o objecto mais interessa.
—A mim? O que será, papai? Algum convite de baile?
—Lê; disse o negociante apresentando-lhe a carta.
Amelia correu os olhos pelo papel, e seu rosto cobriu-se de vivos rubôres. O coração palpitava-lhe com tanta força que debuchava no linho o contorno dos lindos seios.
A carta era de Horacio, que pedia ao negociante a mão da filha.
Acabando de a lêr, a moça de olhos baixos e corpo tremulo, parecia vendar-se com sua innocencia para subtrahir-se ao olhar terno e curioso de seu pai. Nesse momento ella desejava, si possivel fosse, esconder-se dentro de si mesma.
—Que devo eu responder, Amelia? perguntou o negociante.
—O que papai quizer! balbuciou a menina.
—Estás bem certa de que meu desejo é o teu? Si eu não acceitar a honra que nos quer fazer o Sr. Horacio de Almeida?
As palpebras da moça ergueram-se, desvendando seus olhos limpidos.
—Papai não acha bom?
—Si elle te for indifferente, eu por mim não tenho grande empenho. É um excellente moço; tem alguma cousa de seu; mas anda em certa roda que não me agrada.
—Que roda papai?
—De moços da moda.
—Porque é solteiro.
—Então o que decides?
—Desde que papai e mamãi desejam, eu....
—Nós não desejamos cousa alguma; queremos saber tua vontade.
Amelia emmudeceu.
—Bem, já vejo que não é de teu gôsto. Vou responder ao homem com um não.
Salles Pereira encaminhou-se para a porta:
—Mas, papai!.... murmurou a moça.
—Que temos?... Falla, que já me demorei muito. Quasi meio dia!
—Vai responder já?
—Já.
—Deixe para amanhã.
—Nada; são cousas que se decidem logo.
—O que vai responder então?
—Que não.
—Mas eu não disse isto!
—Tu nada disseste.
—Pois si eu não gostasse diria logo.
—Ah! neste caso gostou?
Amelia sorrindo acenou com a cabeça.
—Não entendo esta linguagem. Vamos a saber. Amas á Horacio?
A moça fez um supremo esforço:
—Amo! disse ella escondendo o rosto no seio do pai.
O negociante beijou-a na fronte com ternura e carinho.
—Ah! minha sonsa, não queria confessar o que tinha aqui dentro deste coraçãozinho! E eu que pensava que elle só queria bem a mim?
—Oh! papai!
—Bem, bem, não tenho ciumes! Vai consolar tua mãi, que eu vou responder ao homem mais feliz deste Rio de Janeiro.
O negociante voltou ao gabinete; e Amelia dirigiu-se ao interior. Sua mãi estava no quarto, com os olhos ainda humidos de lagrimas. Quem não conhece essas lagrimas abençoadas, que a mãi derrama pelos filhos; e que são balsamos para as afflicções, e orvalhos para as flôres da ventura?
D. Leonor beijou a filha e estreitou-a ao seio como receiosa de que lh'a arrancassem dos braços. Seu coração ora alegrava-se com a felicidade proxima da moça, ora se entristecia com a lembrança da separação.
De repente Amelia sobresaltou-se com uma idéa que lhe acudiu; e deixando a mãi, correu ao gabinete do negociante. Achou-o sentado á escrevaninha, passando por cima da carta que terminara um rolete de mata-borrão.
O pai sorriu vendo entrar a filha.
—Curiosa!
—Já acabou? disse a moça recostando-se com gentileza á poltrona.
—Vê si está de teu gosto; disse o Salles cingindo-lhe a cintura com o braço.
Amelia leu a carta rapidamente; ella já sabia de antemão que faltava alguma cousa.
—Então, que tal? perguntou o negociante com certo desvanecimento.
—Está muito boa papai. Só acho uma cousa?
—O que?
O negociante soffreu uma decepção. Pensava ter feito uma obra prima com aquella carta, escripta em seu mais bello estylo commercial, mas recheada de alguns rasgos sentimentaes.
—Não acha, papai, que elle ficará todo cheio de si, obtendo logo, assim com tanta facilidade, o que deseja? A carta é de hoje; responder no mesmo dia.... mostra muita vontade de mais.
—Que mal ha nisso? Para que deixal-o na duvida, quando pódes tornal-o feliz desde já.
—Papai pensa que elle duvida?
—Ah! Já sabe então! Muito bem!
—Eu não lhe disse nada, papai.
—Então como sabe elle? Adivinhou?
—Não adivinhou nada. Papai bem sabe como são esses senhores da moda; cuidam que todas as moças andam morrendo por elles, e que a dificuldade está sómente em escolher. Como eu não quero que o Sr. Horacio me julgue uma de suas conquistas, estou resolvida, papai, á pensar bem durante quinze dias, antes de dar a resposta.
—Portanto esta carta não serve; disse o Salles com um suspiro.
—Ha de servir, mas daqui a quinze dias. Agora papai deve dizer unicamente, que, tendo me consultado, eu pedi algum tempo para dar a resposta.
O negociante escreveu, e Amelia esperou até que partiu a carta, confiada a um creado.
Momentos depois, Salles sahia para a cidade; e Amelia entrava em sua alcova, descantando trechos de arias e romances. Não se podia dizer que estivesse alegre, apezar do tom garrido com que modulava, e do fresco riso que trinava em seus labios.
O que ella sentia era um alvoroço intimo, uma soffrega agitação, estado indefinivel d'alma prurida por mil desejos, e contida por mil receios.
Vejamos si é possivel descobrir o que passava ali, dentro daquelle seio mimoso.
Desvanecida a primeira commoção, produzida pela carta de Horacio, Amelia recordara-se do que tinha occorrido na vespera, e sobretudo das palavras proferidas pelo moço. Sua vaidade revoltou-se como era natural.
—Hei de mostrar-lhe que não basta querer, para ser meu marido; e que não basta ser meu marido para vêr...
Foi então que se dirigiu ao gabinete do pai, e adiou a resposta definitiva. Voltando, sentiu lá n'um cantinho do coração uns receios que estavam nascendo. Não fosse Horacio zangar-se com a demora, e retirar o pedido? Quinze dias talvez fossem de mais.
Eis qual era o estado do animo de Amelia. Orgulho de vêr subjugado á seus pés o rei da moda; prazer de o ter captivo de uma palavra sua durante muitos dias; arrependimento do que fizera; susto do que podia acontecer; goso da ventura que sorria; taes foram os sentimentos desencontrados que vibraram na alma da moça.
Nessa tarde Amelia preparou-se com maior esmero do que si fosse a um baile. Seu adorno simples, um modesto vestido branco com fitas azues, tomou-lhe mais tempo, do que não levaria a compôr um trajo sumptuoso.
Ella esperava Horacio.
Toda a noite passou indo do sofá á janella, e da janella ao consólo, onde estava a pendula de alabastro.
As horas se escoaram, sem que o tilbure do moço parasse á porta do negociante.
No dia seguinte, Amelia perguntou ao criado, si a carta fôra entregue a Horacio:
—Entreguei em mão, quando entrava no tilbure.
—E que disse elle?
—Nada; leu e riu-se.
—Ah! elle riu-se; murmurou Amelia comsigo. Pois eu lhe mostrarei.
Desde então, empenhada sua vaidade, os sustos se desvanecêram. Estava decidida a não ceder. Horacio depois de vencido tentava ainda resistir-lhe? Pois havia de subjugal-o completamente.
Á noite foi á casa de D. Clementina, onde estava reunida a roda do costume. Leopoldo ali se achava tambem, e comprimentou-a com um modo triste e resignado.
Deve existir uma corrente magnetica entre os homens, um fluido que serve de vehiculo ao pensamento recondito e ainda não divulgado. Não se explicam de outro modo certas revelações de um facto sómente conhecido de poucas pessoas e por estas recatado. A emoção, que desperta esse facto n'alma de alguns, repercute n'alma de outros, e produz uma especie de intuição.
Na casa de D. Clementina, sabia-se já que Amelia fôra pedida em casamento; embora se ignorasse o nome do pretendente, talvez por não ser conhecido das pessoas presentes. Salles Pereira, a mulher e a filha não tinham dito a menor palavra sobre o objecto da carta de Horacio; mas a impressão produzida por essa carta, a precocupação que deixára nas pessoas da familia, as conversas intimas e recatadas, não escapáram aos escravos.
D'ahi gerou-se o boato, que já tinha passado á casa de D. Clementina.
—Ah! chegou a Amelia Salles. Sabia que vai casar-se? Já foi pedida; disse uma senhora a Leopoldo.
—Não, senhora, não sabia; respondeu o moço com magoa, mas sem perturbar-se.
—Com quem? perguntou outra moça.
—Com um moço bonito e rico. Disseram-me o nome, mas já não me lembro.
Nisso Amelia entrou na sala, onde foi muito festejada pelas amigas e conhecidas.
As allusões e gracejos a respeito do segredo incommodaram a moça, embora por outro lado lhe causassem certo desvanecimento.
Pelo meio da noite, Leopoldo aproximou-se de Amelia para lhe pedir uma contradança. Tinham dansado a primeira marca sem trocar palavra: afinal o mancebo rompeu o silencio:
—É verdade que foi pedida em casamento?
Amelia empallideceu; quiz disfarçar illudindo a pergunta, mas encontrou o olhar de Leopoldo, olhar tão doce e sincero, que não se animou a enganal-o.
—É verdade; murmurou em voz quasi imperceptivel. Mas ainda não respondi.
—Estimo que seja muito feliz.
—Obrigada.
Amelia ficou sorpresa; ella suppunha que Leopoldo tinha-lhe ardente paixão; e que portanto sentiria profundo pezar, sinão desespero, com a noticia de seu casamento. Em vez disso, o mancebo mostrava uma resignação serena.
—Quando comecei a amal-a, D. Amelia, disse Leopoldo depois de alguns instantes, acreditei na felicidade, e esperei alcançal-a neste mundo. Minha alma pressentiu a aproximação da irmã que Deus lhe destinara, e cuidou attrahil-a e embebel-a em seu seio. Mas essa illusão se desvaneceu logo. Soube qual era sua posição, e comprehendi que a senhora não me podia pertencer. Resignei-me, pois, a amar unicamente sua alma; essa ninguem me póde roubar, nem mesmo a senhora, porque Deus a fez para mim. Eu estava desde muito preparado para a noticia de seu casamento; ella não me sorprendeu, embora me entristecesse. Até agora adorei sua alma, como se adora a imagem da Virgem no templo; de agora em diante terei de adorar essa alma querida, como se adora uma santa no sepulchro.
Leopoldo fallou por algum tempo ainda, e a moça, que a principio se acanhara com a expansão viva desse amor tão puro, bebia as palavras ardentes do mancebo, como fluido que derramava em sua alma suave calor.
Nessa noite, ao recolher-se, ia absorvida neste pensamento:
—Por que julgou elle impossivel que eu o amasse? sem duvida não o amo; mas talvez... Si eu não conhecesse Horacio... Quem sabe?
Nisto lembrou-se que já se tinham passado dois dias depois do pedido, e portanto faltavam treze para a decisão.
—Si elle não vier antes disso?... Si não vier... respondo que não. Está decidido.
XII
Corrêram os dias sem que Horacio apparecesse em casa do Salles Pereira. Amelia, apezar de seu esforço, não podia conter a impaciencia. Ella adivinhava que o leão estava despeitado com a resposta, e queria obriga-la á conceder-lhe immediatamente o que pedira; a sua mão, e com a mão o pesinho que elle adorava.
Por vezes a moça foi até á porta do gabinete do pai, na intenção de diser-lhe que escrevesse á Horacio enviando-lhe o consentimento. Mas voltava envergonhada de sua fraqueza: enxugava algumas lagrimas que lhe saltavam dos olhos; e fazia novos protestos de não ceder.
Nestas occaziões ella contemplava a imagem de Horacio com alguma severidade. Lembrava-se da volubilidade com que elle fallava-lhe de seu amor; do sorriso sempre faceiro que tinha nos labios e servia para vestir a palavra alegre ou triste, zombeteira ou commovida; e finalmente da insistencia que mostrava em vêr-lhe o pé.
Então acodia a Amelia uma circumstancia que á principio lhe escapára; fôra sua recusa á impertinencia do leão, que o obrigára á pedi-la em casamento no dia seguinte.
—Será apenas um capricho? Não me terá elle verdadeiro amor?... Si não me engano, o que elle ama em mim, não sou eu, mas uma mulher que imaginou; sirvo-lhe apenas de pretexto, como tantas outras antes de mim.
O resultado destas observações era protestar a moça que daria um não ao pedido de Horacio. Mas quando seu pai lhe perguntava sorrindo:
—Ainda não?
Ella corava, abanava a cabeça, e fugia, disendo comsigo que ainda faltavam alguns dias para o prazo marcado.
Para occupar as noites e distrahir o espirito dessa constante preoccupação amiudou as visitas á casa de D. Clementina. Ali com a influição do olhar profundo e da palavra eloquente de Leopoldo, esquecia as contrariedades e inquietações. Na volta trazia algumas dôces reminiscencias, e sobretudo um certo arroubo do coração, que durava algum tempo, e a preservava de suas anteriores preoccupações.
Ja haviam passado doze dias depois da carta, e Amelia estava mais que nunca resolvida á romper com Horacio, quando se deu entre ambos um encontro.
Foi no theatro.
Amelia que á principio evitou as occasiões de encontrar-se com Horacio, lembrou-se que sua presença podia provocal-o; e obteve do pai que a levasse ao espectaculo. Subindo a escada do Theatro Lyrico, avistou Horacio que vinha do lado opposto.
Apezar de estar prevenida a moça teve um sobresalto; mas pôde recobrar-se antes que o leão se apercebesse de sua presença. Foi com fria altivez e indifferença que ella correspondeu ao comprimento de Horacio, sem demorar o passo em quanto elle trocava um aperto de mão com o Salles Pereira.
Esta indifferença porém, e sobre tudo o gesto que Amelia fez para arregaçar o vestido, quando subia o segundo lanço de escadas, ataram de novo o leão ao jugo.
—Desta vez, pensou elle, si eu estivesse adiante via ao menos a ponta do meu pésinho!
Teria Amelia simulado aquelle gesto de proposito? É natural; ella queria subjugar outra vez o captivo que lhe escapara; usava de todos os seus recursos.