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A Pata da Gazella: romance brasileiro. cover

A Pata da Gazella: romance brasileiro.

Chapter 24: XIX
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About This Book

Retrato da vida social no Rio de Janeiro, a narrativa acompanha encontros e desencontros amorosos entre jovens de alta sociedade, como Amelia, Laura e Horacio, exibindo flertes, ciúmes e vaidades em passeios de carruagem, lojas e salões. A obra combina cenas de cotidiano urbano e observação satírica das convenções sociais para explorar como a aparência, a fofoca e as pequenas intrigas moldam relações sentimentais, alternando humor e introspecção.

Em todo o caso elle acreditou que mais ou menos tinha parte naquella parada do carro, e não se enganava.

—Para que mandaste parar? perguntou D. Leonor.

—Quero comprar luvas no Masset; respondeu a filha.

—Ficou atraz.

—Podemos ir a pé.

Quando o leão chegou a dez braças do carro, a portinhola abriu-se e Amelia, em companhia de sua mãi, saltou na calçada. A moça tinha um roupão côr de café, de extrema simplicidade, porém muito elegante; as luvas eram da mesma côr de cinza das fitas do chapéo de palha.

As duas senhoras dirigiram-se para a casa do Masset. Horacio procurou cortejal-as na passagem, mas ellas não lhe deram occasião. Comtudo o leão reparou que a moça desfarçadamente voltou o rosto para olhal-o.

Emquanto as senhoras compravam luvas, Horacio as esperava em frente da casa do Valais, á alguns passos do carro. Pouco tardaram. Amelia vinha só na frente. Felizmente o transito pela calçada diminuiu naquelle instante, de modo que o conquistador poude vêr a gôsto a moça aproximar-se delle. Levados por um impulso irresistivel os olhares do mancebo abaixavam-se para os volantes do vestido, e rastejaram no chão que a moça pisava.

Amelia percebeu a insistencia do olhar, e um ligeiro sorriso fugiu-lhe dos labios. Imaginando que na calçada havia lama, colheu com ambas as mãos a frente da saia, e com tanto estouvamento que descobriu os pés até o colo da perna.

Horacio ficou fulminado.

Vira pousados na calçada dois pésinhos mimosos que palpitavam dentro de botinas de merinó côr de cinza. Pareciam um par de rolinhas, arrulhando na praia, e beijando-se com o biquinho rosado. Durante o rapido instante, que seus olhos poderam admirar esses primores de graça e gentileza, não escaparam a Horacio as ondulações voluptuosas e os contornos suaves dos dois silphos. Nunca elle observara no talhe elegante da mais formosa mulher, requebros tão avelludados como tinha aquelle dorso arqueado, e aquella palmilha subtil.

Tamanho foi o pasmo de Horacio, que só deu por si quando a moça, passando por elle, entrou na carruagem. Voltou-se então precipitadamente, sem consciencia do que ia fazer; mas a parelha já tinha partido a trote largo.

Momentos depois o leão descia a rua do Ouvidor completamente absorto. Seu labio distrahido ia debulhando, sem o sentir, alguns trechos dos lindos versos do conselheiro José Bonifácio:

«Padres, não me negueis, se estáes em calma, Um coração no pé, na perna um'alma!»




XVIII

Laura e Amelia eram primas e amigas de infancia; havia entre ellas apenas a differença de dezoito mezes.

Desde a idade de tres ou quatro annos, isto é, desde que deixou as faxas, Laura usou sempre de roupas compridas. Isso causava reparo a todos que viam a menina trajada como uma senhora. Muitos achavam extravagante e ridiculo o capricho e censuravam a mãi.

Esta ouvia as censuras de suas amigas, assim como os motejos estranhos, e calava-se; mas não alterava o vestuario da menina. A ternura e piedade materna lhe davam a paciencia necessaria para arrostar com as zombarias do mundo.

Laura tinha um aleijão; nascêra com os pés disformes. Para mais aggravar o desgôsto dos pais, essa monstruosidade vinha ligada á uma belleza angelica. A senhora avaliou do infortunio de sua filha; e preparou-se para todos os sacrificios. Consultas foram dirigidas aos melhores medicos da Europa; chegou a emprehender uma viagem para tentar os recursos da sciencia; foram todos ineficazes.

Desenganada afinal, dedicou-se a esconder a desgraça de sua filha, afim de que ella não fosse obrigada á envergonhar-se na sociedade. Durante muito tempo Laura não teve outra criada, alem de sua mãi. A custa de esforços constantes, de uma vigilancia incessante de cada dia e cada hora, conseguiu a senhora manter esse segredo de familia, do qual dependia a felicidade da filha.

Attingindo a idade de oito annos, a menina com o instincto da mulher, comprehendêra seu infortunio; e desde então descansou a mãi daquelle cuidado incessante. Ficando moça casou-se, e seu marido que a amava extremecidamente, morreu ignorando o segredo.

Com bastante magoa sua, Amelia sorprendeu o segredo da prima e amiga.

A filha de Salles tinha dois pésinhos de fada, breves, arqueados, com uns dedos que pareciam botões de rosa. O desgosto e vexame que isso causava á moça, ninguem o imagina. Ella suppunha-se aleijada; apezar de seus 18 annos, seus pés eram de menina.

Assim o mesmo cuidado com que Laura escondia a sua monstruosidade, punha ella em occultar essa graça e prenda da natureza. Naquelle tempo não se tinha introduzido ainda a moda dos vestidos curtos; bem ao contrario o tom era arrastar desdenhosamente pelo chão a longa fimbria do vestido.

Um dia que Laura passou em sua casa, Amelia teve curiosidade de comparar seu pésinho com o da prima, para saber si a differença era excessiva. Em quanto a outra endireitava o penteado no toucador, realisou ella seu intento.

Avalie-se da vergonha e afflição de Laura; o desespero de Amelia foi maior ainda. Não perdoava a si mesma o ter causado tão grande pezar á prima, á quem ella queria muito bem. Para mitigar essa dôr profunda, Laura esqueceu a sua.

Desde então as duas amigas se consolavam mutuamente. Laura admirava o pésinho de Amelia; esta, ou sinceramente, ou para attenuar a magoa da prima, chegava a invejar o seu infortunio.

Aborrecida de não encontrar nas lojas calçado que lhe servisse, Amelia tinha descoberto por acaso o sapateiro da rua Sete de Setembro. Conhecendo a habilidade do Mattos, pensou que elle podesse disfarçar o defeito da prima. Não se enganou; o artista realisara a obra-prima de paciencia, que Leopoldo tivera occasião de apreciar por um acaso.

Amelia fez á Laura o sacrificio de expôr-se para não comprometter o segredo da amiga. O sapateiro não a conhecia, nunca a tinha visto, recebia as encommendas por intermedio de um criado que pagava á vista. Facil foi portanto illudil-o.

Na occasião em que as duas primas esperavam de carro na rua da Quitanda, o lacaio vinha da casa do sapateiro, o qual vexado com a pressa, esquecêra as recommendações de fechar bem o embrulho.

As pretenções de Horacio vieram pouco depois arrefecer a amizade das duas primas; já não se viam tão a miude; mas não obstante Amelia continuou a prestar a Laura o mesmo serviço, e essa, coagida pela necessidade, foi obrigada a acceital-o.

Iam as cousas por esse theor, quando teve logar o baile do Azevedo.

Depois da primeira quadrilha, Amelia foi ao toucador. Era este em uma sala que dava para o jardim. Aproximando-se de uma janella entreaberta, obscurecida pela sombra do cortinado da cama, viu a moça os dois amigos no momento em que elles vieram sentar-se no banco, justamente collocado por baixo da janella.

A casa era abarracada. Amelia encostada no portal da janella, descobria os dois cavalheiros por entre a folhagem, e ouvia distinctamente suas palavras.

Ahi, immovel, mas agitada por commoções diversas, escutou ella a historia do pé, e a historia do sorriso. Já os dois amigos se tinham afastado, e a moça permanecia no mesmo logar, como extatica.

A narração de Horacio, e as observações que fizera Leopoldo a esse respeito, revelaram á moça uma cousa que já anteriormente se havia apresentado, embora indistincta, vaga e confusa á seu espirito.

O que Horacio amava nella, não era mais do que uma fórma, um capricho, um sonho de sua imaginação enferma. Ella comprehendeu essa aberração dos sentidos em um homem gasto para o amor e saciado de prazeres. A mulher era para o leão uma cousa commum e vulgar, incapaz de produzir-lhe emoções fortes. Tinha-as admirado, de todos os typos e de todos os caracteres. Seu coração exhausto precisava de alguma cousa nova, original e extravagante.

Amelia comprehendeu isto, não por uma analyse, que seu espirito casto não poderia fazer; mas por uma intuição d'alma.

Quando de novo encontrou Horacio no baile, suas maneiras não podiam que se não resentissem do estado de seu coração. Tratou o leão seccamente; mas logo tornou-se amavel; occorreu-lhe uma idéa; quiz pôr á prova o amor do noivo, antes de confiar-lhe seu destino.

Foi na sua alcova, durante a insomnia, que ella recordou-se da historia de Leopoldo, e comparou seu amor ao de Horacio. Repassando na mente as palavras commovidas do primeiro, pensando naquelle affecto tão desprendido das miserias humanas, tão d'alma, Amelia sentia-se como purificada dos desejos do seductor.

Esse amor puro e immaterial era um baptismo para seu coração virgem.

A moça conheceu que o engano de Leopoldo, provinha de uma illusão da vista, no momento de entrar no carro com Laura; illusão confirmada pela presença do lacaio na loja do sapateiro. Chegou á estimar esse incidente que pôz em relevo a alma nobre e generosa do mancebo.

Acodiu-lhe á lembrança, sua primeira conversa em casa de D. Clementina. As palavras que então lhe pareceram inintelligiveis, tinham agora um sentido. Comprehendia toda a sublimidade do coração que dizia com uma profunda convicção:—«Sinto-me capaz de amar o horrivel, sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões martyres, de amar o anjo ainda mesmo encarnado no aleijão.»

—Esse me ama realmente, a mim, e não a sua fantazia! murmurou a moça com tristeza.

No dia seguinte, depois de uma noite de insomnia, preparou-se para receber Horacio, e submettel-o á prova. O Mattos conservava um par das antigas botinas de Laura, o qual lhe fôra para modelo. Mandou Amelia buscal-o; e encheu-o de algodão para acommodar nessa enormidade o seu mimoso pésinho.

O bordado do bastidor, foi expressamente inventado. Procurando uma lettra para indicar a pessoa a quem destinava o pretendido presente, insensivelmente traçou um L. Era a inicial de Laura, que lhe acudira a mente, ou era a lembrança de Leopoldo, que lhe esvoaçava ainda na imaginação? Foi uma e outra cousa. Serviu-se do pretexto da amiga, para evocar o nome do homem, que tão profundamente a amava.

Depois da scena que teve logar na tarde do jantar, Amelia arrependeu-se. Receiava ter-se excedido; bastava-lhe matar a illusão do mancebo, não devia ter excitado o horror. Mas o affecto de Leopoldo a tornara exigente, ella queria ser amada por Horacio da mesma fórma, com aquella sublime abnegação.

Durante alguns dias, alimentou a esperança de conservar a affeição do noivo, e regosijava-se com a idéa da sorpresa que lhe guardava.

A ausencia do leão a foi desenganando de dia em dia. Travou-se então uma luta em seu espirito. Devia esquecer o homem que não amava nella sinão uma fantazia?

O tom de Horacio na ultima noite a irritou. Seu amor proprio indignou-se com o menoscabo do moço e subita revelação de sua alma lhe advertiu,

No dia seguinte ao do rompimento, Amelia foi como havia dito na vespera á casa de D. Clementina. Era a primeira vez que tornava a vêr Leopoldo depois do baile.

Estiveram juntos alguns momentos. Como de costume Leopoldo fallou, e a moça embebeu-se daquellas palavras apaixonadas como de um effluvio suave.

Em um momento de pausa, disse Amelia.

—O senhor, passou por nossa casa na terça-feira?

—É verdade. Porque pergunta?

—Eu estava no jardim. Vi-o quando passava; cuidei que ia entrar.

—Não me animava.

—Porque?... Mamãi já lhe offereceu nossa casa.

—Tenho receio de ser importuno.

—Pouco sahimos agora; á excepção das noites que passamos aqui, estamos sempre sós; mamãi lendo, e eu tocando ou fazendo algum trabalho de lã.

—E ninguem mais? perguntou Leopoldo, fitando na moça um olhar interrogador.

—Ninguem! respondeu Amelia em tom grave.

Leopoldo ficou suspenso, buscando comprehender o pensamento da moça. Era magoa do bem perdido, ou temor do mal frustrado, que assim lhe annuviara a phisionomia?

Mas o sorriso prasenteiro illuminou o semblante da moça:

—Sabe? Naquella noite do baile, me contaram uma historia muito interessante? disse ella.

—Não se póde saber?

—O senhor, póde. Foi a historia de um sorriso, disse Amelia sublinhando a palavra com um gesto faceiro.

—Quem lhe contou? Foi elle...

—Foi o senhor.

—Eu?

—O senhor mesmo. Já não se lembra?

—Quer gracejar?

—O senhor estava no jardim conversando com seu amigo, e eu na janella do toucador.

Leopoldo adivinhou.

—Então ouviu tudo?

—Tudo!...

—E... perdoou-me?

—Não; não tinha de que, mas...

E seus bellos olhos limpidos repousaram no semblante do moço.

—Mas comprehendi!

Nesse momento D. Leonor chamou Amelia.




XIX

Quando recobrou-se da sorpreza era que tinha ficado, Horacio não achou em si mais do que o desejo vehemente e irresistivel de possuir o idolo por tanto tempo sonhado.

—Serão meus! murmurou comsigo. Serão meus á todo preço. Si fôr necessario um escandalo, não hesitarei. Mas Amelia não deve ter-se esquecido de mim já tão depressa; ella me tinha affeição. Vou pedir-lhe perdão de meu engano. Sujeitar-me-hei á todas as condições. Que sacrificios são bastantes para pagar a felicidade de beijar aquelles dous mimos da natureza!

Instinctivamente Horacio seguiu na direcção da casa do Salles, com intenção de restabelecer as relações interrompidas. Não sabia elle de que modo se houvesse em tal empenho; fiava da inspiração do momento.

Já não estava o negociante no escriptorio, nesse dia se retirára mais cedo.

Mallograda sua esperança, o leão foi caminhando pela rua Direita sem direcção, como quem não sabe o que fazer. O instincto que no deserto guia o rei dos animaes á cebe odorifera onde retoução as gazellas, o conduzia naturalmente para a rua do Ouvidor.

Tinha chegado á esquina, quando passou defronte um moço, que seguiu pela calçada Carceller. Horacio acompanhou-o com a vista, querendo nelle reconhecer seu amigo Leopoldo que havia cerca de um mez não vira.

Si com effeito o moço era Leopoldo, tinha elle soffrido grande transformação. Em vez do rapaz descuidado no seu trajo, brusco em suas maneiras, sempre de cabellos arripiados e barba revolta; apparecia um cavalheiro de bôa presença, com a sobria elegancia que tão bem assenta nos homens sisudos. Essa especie de elegancia é apenas um ligeiro perfume, e não uma incrustação como a que usam os moços á moda.

Com seu fino tacto e longa experiencia, Horacio, reconhecendo o amigo, adivinhou o segredo daquella subita methamorphose. Elle sabia que só ha um condão capaz de produzir taes encantos; é o olhar da mulher amada e amante.

Ame alguém e não saiba si é retribuido. Toda sua existencia se projecta nesse impulso d'alma, que se arroja para outro ser, e ancêa por nelle infundir-se. Vive-se fóra de si mesmo, alheio á seu proprio eu; como o peregrino perdido longe da patria, o homem exilado de sua pessoa erra no espaço, em demanda de um abrigo.

Desde, porém, que o homem tem certeza de ser amado, em vez de espandir-se recolhe e concentra para saturar-se de felicidade. Já não se alheia e esquece de si; ao contrario sente-se elevado acima do que era; respeita em sua pessoa o homem amado.

Nessa occasião é natural á cada um observar-se constantemente, e julgar de si com extrema severidade. Surgem aspirações extranhas; o fraco lembra-se de ser um heróe; o philosopho inveja a belleza do casquilho; o espirito positivo habituado a voar terra a terra bate o coto das azas para remontar-se ao ideal da poesia.

Não é só no homem que se opera essa methamorphose: mas em toda a natureza. Quando se arreiam os passaros de sua mais bella plumagem, quando gorgeiam as melodias mais brilhantes, si não é na quadra dos amores?

Vendo Leopoldo parado na calçada Carceller, Horacio dirigiu-se com disfarce para aquella parte, com intenção de travar conversa e esclarecer de todo em todo o mysterio. Foi trabalho perdido; o moço acabava de saltar em um tilbure, que rodava já pela praça de Pedro II.

Desapontado, voltou Horacio sobre os passos.

—Amelia o ama!... Ou pelo menos elle o acredita!...

Sorriu-se o leão.

—Que phenomeno curioso produz o despeito na mulher! É uma semelhança da luz reflexa. Irritado pela decepção, humilhado em sua vaidade, o amor da mulher desdenhada refrange como o raio do sol repellido por corpo brilhante e vai impregnar-se em outro homem. Ella cuida sentir por esse plastão uma paixão ardente, que nada mais é do que o impeto de seu despeito. Seria capaz de conceder á esse comparsa, o que recusaria á affeição mais terna e extremosa. O assomo do ciume, suppõe ella ser vehemencia da affeicção; e confunde com os extremos de amor o delirio da vingança. Amelia está passando por esta crise naturalmente. Leopoldo foi o plastão; ella o ama com todo o furor do odio que me tem.

Outro sorriso frisou o labio do leão.

—Ella me odeia! Ora!... O odio o que é senão a effervescencia do amor? O affecto suave e terno é como o muscatel de Setubal ou o vinho de Constança. O amor fero e irado é como o champanhe que ferve e espuma.

Chegando a casa, Horacio escreveu a Amelia uma carta, que apenas continha estas palavras:

«Deve estar satisfeita, pois me tem de novo á seus pés, e desta vez humilde e supplicante. A melhor corôa do triumpho é o perdão.»

Sahindo o leão á espairecer, dirigiu os passos para a casa do Salles; esperava encontrar algum criado que se incumbisse de entregar a carta. Quem sabe? Talvez nessa mesma occasião se decidisse de sua sorte. A moça lhe permittiria fallar-lhe.

Era noite fechada; o céu, carregado de nuvens, annunciava proxima borrasca. A frente da casa do negociante estava ás escuras; comtudo quem observasse bem, perceberia a coar-se pelos intersticios das janellas um tenue reflexo de luz interior. No portão da chacara á meio cerrado, ninguem apparecia.

O leão penetrou no jardim. Nesse momento um carro parou á porta da casa: tres pessoas sahiram delle. Em um Horacio viu estremecendo roupas de sacerdote. Só então reflectiu o moço no aspecto soturno do edificio. Inquieto, sobresaltado, adiantou-se pelo jardim na esperança de encontrar pessoa a quem interrogasse.

As janellas lateraes estavam esclarecidas; e pelo jogo das sombras no quadro illuminado, conheceu o moço que reinava no interior alguma agitação.

Que fazer? Apresentar-se na casa, depois do que passára, e antes de qualquer explicação não era rasoavel.

A dois passos ficava uma frondosa mangueira, em cujos galhos tinham fabricado uma especie de belveder ou caramanchão. Conduzia ao alto, uma escadinha de caracol cingindo o tronco da arvore.

Por acaso avistou o leão a mangueira, e subindo sem hesitar achou-se justamente fronteiro ás janellas illuminadas. Em principio a claridade subita offuscou-lhe a vista, e não pôde elle distinguir o que passava no interior.

Mas afinal o deslumbramento dos olhos cedeu ao deslumbramento d'alma.

Elle via, e duvidava.

Um altar erguido, cirios acesos, o sacerdote officiando, Amelia e Leopoldo de joelhos, ao lado Salles, D. Leonor, e dois amigos que serviam de testemunhas: eis o quadro que se offereceu aos olhos de Horacio. Tinha visto na comedia da vida muitos lances dramaticos, mas nenhum tão imprevisto e curioso.

A sorpresa do leão provinha de um engano seu. Elle acreditava que Amelia o tinha amado, quando a moça não sentira por elle mais do que o desvanecimento de vêr captivo de seus encantos o rei da moda, o feliz conquistador dos salões.

Quem Amelia amou desde o principio, foi Leopoldo. A vaidade, o galanteio que se nutre de brilhantes futilidades, a seduziam por momentos, e rendiam ao capricho de Horacio. Mas passado esse enlevo, sua alma sentia a attracção irresistivel que a impellia para o seu pólo.

Disso que durante dois mezes passava na vida intima da moça, ella propria não se apercebia; foi depois da scena do baile, que ella entrou em si, e comprehendeu as sublevações reconditas de sua alma, e o drama que ahi se agitava desde muito.

Leopoldo começara a frequentar a casa de Salles, poucos dias depois da partida de D. Clementina. As duas almas por tanto tempo separadas, só esperavam o momento de se unirem ou antes de se entranharem uma na outra. As tardes, no jardim, entre cortinas de flôres, ellas celebravam esse mystico hymeneu do amor, unico eterno e indissoluvel, porque se faz no seio do Creador.

Pelo voto de todos se apressou o dia do casamento, que os noivos exigiram se fizesse inteiramente á capucha, e sem prévia participação. A razão desse empenho, só Amelia a sabia e nunca a disse. Era um escrupulo de seu pudor: depois de que tinha acontecido, não queria que lhe dessem outra vez o titulo de noiva.

Terminada a ceremonia, e feitas as felicitações do costume, correram os minutos em agradavel conversação.

Eram 11 horas, quando Leopoldo entrou no toucador em que sua noiva o esperava. Sentado em uma conversadeira, Amelia sorriu para seu marido; porém através das largas dobras do roupão de cambraia, percebia-se o tremor involuntario que agitava seu lindo talhe.

—É meu presente! disse ella com timidez.

E apresentou ao noivo um objecto envolto em papel de seda, atado com fita azul.

Abrindo, achou Leopoldo dois mimosos pantufos de setim branco, os mesmos que Amelia começara a bordar no dia seguinte ao baile.

O moço enleiado, não comprehendia. Insensivelmente seu olhar desceu á fimbria do roupão. Sobre a almofada de velludo e entre os folhos da cambraia, appareciam as unhas rosadas de dois pésinhos divinos.

Uma onda de rubor derramou-se pelo semblante da moça, cujos labios balbuciaram uma palavra.

—Calce!

Leopoldo ajoelhou aos pés da noiva.

O temporal, desabando nesse momento, bateu com violencia nos vidros da janella, que fechou-se.

Horacio desceu do seu observatorio, e escalando a grade de ferro do jardim, ganhou a casa, onde chegou todo alagado. Emquanto philosophicamente esperava que seu criado lhe preparasse uma chicara de café, abriu um livro, que acertou ser La Fontaine.

Leu ao acaso; era a fabula do leão amoroso.

—É verdade! murmurou soltando uma fumaça de charuto. O leão deixou que lhe cerceassem as garras; foi esmagado pela pata da gazella.




FIM.




N. B.—Escrevo tilbure, champanhe, etc., porque entendo que devemos imprimir certo cunho portuguez nas palavras estrangeiras adoptadas pelo uso. Assim fizeram nossos antepassados, escrevendo trumo, trenó, bufete e tantas outras palavras de origem franceza.