Ei-la que chega a amante Primavera!
Logo ao romper do dia susurrando
Vós, Favonios azues, a annunciaveis.
Chega ... chegou! as aves a festejão
Desatinadas, doidas; ja com verdes
Braços lhe acena o bosque; estão-se os rios
A retrata-la; as fontes a murmurão;
Traz gala o monte; os valles se alcatifão;
Ri-lhe o ceo todo, a Natureza he d’ella!
Mais cedo ao leito do marido annoso
Hoje a Aurora fugio; tomou regaço
De orientaes aljofares mais rico,
Mais cópia em seio e mãos de ethéreas flores.
Aos umbraes inda escuros do horisonte
Quem a aguardava, quem? os meus Amores
Que encontro! que abraçar-se!... O Zefirinho
Que ja por entre nós passou trez vezes,
Trez vezes ao passar mo ha segredado:
Vio tudo, tudo ouvio, que era elle proprio
Um dos que pelo ar vinhão soprando
O matizado pavilhão de nuvens,
Em que ás terras baixava o Par celeste.
Rosto a rosto inclinado; as mãos unidas;
Mago riso um só riso em bocas duas;
Absortos em luz mutua os mutuos olhos;
Duas Gémeas do ceo, duas Virtudes
N’uma Virtude só, se afiguravão.
—“Ó minha Irmã (dizia a Primavera)
“Quem nos ha de estremar? tu es do dia
“A Primavera, eu sou do anno Aurora”—
—“Filha como eu do Sol (acode rindo
“A Aurora), ó doce Irmã, vérte-te o Fado,
“Não q eu to inveje, os bens de urna mais ampla:
“Deu-te folgar sem mim, deu-te a alegria
“Dos dias que eu só abro, e os tão gabados
“Prazeres que eu não vi, não verei nunca,
“Prazeres do sol pôsto, e de alvas noites.
“A mim lida perenne, a mim rigores
“De oppostas estações, reinar de instantes,
“Contínua fuga, e os odios dos ditosos,
“E as maldições de Amor comtigo affavel.
“Eis porque a meu pezar, já por costume,
“De olhos que espargem luz se orvalhão choros.
“Perdôa-mos teu jubilo mos sécca.
“Desce, eu parto, urge o Tempo, e ja me acena
“Co’a mão rugosa para novos climas.
“Fica-te em nossa amada Lusitania,
“Inda pouco ha tão triste. Observa os cumes
“Contra o nosso nascente; ahi vês á espera
“A turba toda dos campestres Deozes,
“Flora, Cibele, Dríades, Napéas,
“Hamadríades, Náiades, Silvano,
“A caçadora Cinthia, Amores, Graças,
“Os ledos Risos, a amorosa Venus;
“E Pan ha muito tempo em nova flauta,
“No verde cume do apartado monte,
“Lá onde canas trémulas susurrão,
“Para a tua chegada estuda um hino,
“A cujo estrondo os Sátiros voltêem.”—
Diz: olha para traz, vê o Sol, desmaia,
Beija a Amiga, e fugindo a entrega ao dia.
Desfez-se a névoa eis Sol! Joelho em terra,
Amigos meus; he o Sol da Primavera!
“Ó Sol das flores, Salve! Ó Sol de amantes,
“Salve! E trez vezes Salve! ó Sol dos vates!”
Vêde-o doirando do arvoredo os cumes;
Vêde nas aguas límpidas fervendo
De reflexos de luz áureo cardume.
Corramos n’um momento os campos todos!
Como esta luz do Ceo, que a toda a parte
Desce, rompe, insinua-se, alvoroça;
Como esta luz do Ceo, vates mancebos,
Devassemos a terra: uma só gruta
Não fique, um arvoredo, ou valle, ou fonte,
Por onde não mergulhe a vista, o estro.
Esta, que ora seguimos, tortuosa
Concava senda, ha pouco estreito rio
Co’as grossas chuvas da vizinha serra,
Parece de um jardim curiosa rua!
De um lado e d’outro os còmaros pendentes
Ja não são montes de crueis espinhos,
Montes são de verdura, e roxas flores,
Onde n’outra estação viráõ c’os cestos
Colher nevadas mãos negras amoras:
Recende o legacão, e a madresilva.
De madresilva ornemo-nos as frontes ...
Mas não: fique-se em paz a flor nevada;
Quer-se antes a violeta, eu sei outeiro
Onde ella mora, he flor da Primavera;
D’esta eu fiz elleição não quero d’outra,
Vós, se outra preferís, apanhai d’essa.
Por aqui vai a encosta desfarçada:
Como que ja de cór meus pés a sabem.
Ja vós de cá vereis, la quasi ao cimo,
Um ramalhete espesso de aveleiras,
E de dentro luzindo uma apparencia
De alvo lirio entre verde, um cazalinho;
Pois essa he a casa de Egle. E mais avante,
No alto; não voltêão solitarias
As pandas velas de veloz moinho?
Tambem ja la pouzei n’uma afrontada
Tarde do estio, e lhe dormi á sombra.
Tudo isto me conhece! Esta ladeira
De rusticos degráos, que ahi desce á dextra,
De perenne verdor acobertada,
Cáe na fonte da aldea. (Ahi vão por agua
Com seus vermelhos cantaros as moças.
Outras cá vem, com passo mais tardio,
Sobindo ja, com os potes á cabeça
Lustrosos, vacillando e sempre firmes)
Não presumis quanto he social a boa
Da fontinha aldeã! não ha formosa
Que ali se não detenha e não se enfeite;
Não ha pastor cortez, que ao fim da tarde,
Ja recolhido o gado, ali não desça
Para ajudar a encher; inda não houve
Na vizinhança amor, cantiga nova,
Ou fallado successo, que cem vezes
Do fundo de seu antro os não ouvisse
A Náiade anciã; nem bôda alguma,
Sem se enramar o portico musgoso.
Á esquerda, pela varzea anda rebanho;
Que ouvi balar, e ainda ouço a cantilena
De pegureira voz. Dizei-me á pressa,
Que scena off’rece a varzea? a relva molle
De alvas boninas trémulas brincada,
Onde o calor nascente o orvalho enxuga,
O sombrear das arvores dispersas,
Bellos não são de ver? he vasto o bando
Das ovelhas pacíficas? he linda
A guardadora sua? está sozinha
Em pé volvendo o fuso e olhando o pasto,
Ou com algum pastor sentada em ocio?
Traz disperso o cabello ou prezo em rosas?
Que donoso cantar! que peregrina
Poesia que esperdiça aquella moça
Com broncas solidões e ovelhas rudes!
Couza que assim namore a fantasia
Não quero que haja, não: virgem formosa
Sozinha sob o ceo; velando em brutos
A que era de velar como um thesouro;
A graça envolta em lãs, contente e rica;
E annos verdes, sem pena aqui florindo,
Longe de olhos e amor, jogos e esp’ranças!
Detende-vos: o aroma he de violetas.
Ei-las! irei tecendo a c’roa minha
Com estas, que escondidas, pudibundas,
Como a pastora, em paz desabrocharão,
O ar, como a pastora, em roda encantão.
Ja percebo o rugir das aveleiras;
Não vejo inda o cazal estancia d’Egle,
Mas perto, oh perto vem: todo esse rôlo
De espesso fumo que serpêa aos ares,
He da interna fogueira que amanhece,
Cuidadosa do almoço, aos moradores.
Entremos no pomar. Ja Primavera
Copiosa o bafejou, de agradecida
Ás pomareiras mãos que lho aprestárão.
Inda folhas não ha, mas tudo he flores!
Vede como ante o sol tremúla e brilha
O pecegueiro co’o vermelho ornato:
Vede alem da pereira a branca véste,
Da cerejeira, do abrunheiro a cópa:
Vede como uma vide em cada tronco
Tenaz se enlêa em tortuoso abraço;
Ja seus pequenos pampanos rebentão,
Verdejantes festões ja vão formando:
Do cheiroso morango a planta humilde
Aqui e ali no verde chão rasteja.
Arvores, plantas d’Egle, a nomeada
Em todo este arredor pelas delicias
Dos ricos frutos seus, não se numérão,
Nem sei louvor que lhes não ceda, e muito.
O porque sejão taes, fique em segredo
Quando vo-lo eu disser. — Aqui Vertumno
Veio uma tarde do passado outono,
Mudado em rouxinol, cantar nos ramos,
D’onde, mais bella que a gentil Pomona,
Egle andava colhendo a rica fruta.
Julgou ver sua Deoza o terno amante,
E tão doce cantou por entre os frutos,
Tão queixoso gemeo, gemeo tão meigo
Cercou-a tanto com chorosos pios,
Tantas vezes pouzou na mão de neve,
Na trança negra, no virgineo seio,
Que Egle o metteo no candido regaço,
O levou toda ufana ao lar paterno,
E em pintada gaiola inda hoje o guarda,
Que o Deos não quer fugir do cativeiro.
Quando a sente acordar pela alta noite,
Acalenta-a com languidos requebros:
Ao romper da manhã, quando no bosque
Ouve perto cantando as outras aves,
Logo a acorda com vividos gorgeios:
Mas quando a vê surgir, qual Venus da agua,
Sem mais vestido que a esparsida coma ...
Ahi he o pipillar, o esvoaçar-se,
O encrespar de plumage, o dar sem tino
Contra os duros varões co’ o peito brando:
Ahi o abrir do bico a pedir beijos,
E o revelar calado o amor e o nume.
Por isso he que ao pomar onde foi prezo
Fadou, quanta vos prende, infinda graça.
Como he puro este ceo do campo d’Egle!
Como he doce este Zéfiro que folga
Entre as arvores d’Egle! este he ditoso!
Ei-la que sáe de seu campestre alvergue.
Calados se podeis, entre estes verdes
Porque vos não descubra, olhai-a um pouco.
Quereis ver como a ponto lhe adivinho
Os passos, e o que faz, e os pensamentos?
Sim, Egle he sempre aquella, he sempre a mesma;
Arvore sem enxerto he sua vida,
Dá sempre a flor igual, iguaes os frutos.
Mas silencio, Vertumnos insoffridos,
Ja vo-la pinto, e me direis se eu érro.
Do braço nu e candido lhe pende
De louro milho o próvido cestinho.
Chama as pombas, lá vão pouzar no alpendre;
Á eira arroja os grãos, lá são na eira,
Arrulhão, comem sofregas, refogem;
Ahi vai novo punhado, ahi vem de novo.
Uma d’ellas, mais alva do que o leite,
Vai pouzar no cestinho ao lado d’Egle,
E mansa come na formosa dextra;
Furtão côres com o sol o collo, as azas.
Egle lhe chama filha; affirmarieis
Que o brutinho a entendeo, salta-lhe ao seio,
Espaneja-se: agora lhe promette
O pombo mais fiel para consorte,
E um ninho todo fôfo, e muito afago
Aos pequeninos seus; mas quer em paga
Um beijo, e um beijo pede: a face inclina,
O bico a vem libar; alonga os labios
Unidos em botão, corre o biquinho,
E ao centro do botão lhe leva o beijo.
Agora vem ao tanque, aos rubros peixes
Trazer segundo almoço: oh!—providencia
Não ha mais desvelada, ou mais formosa!
Mal que o choveo nas aguas transparentes,
Por entre os crebros circulos assoma
De vivos olhos purpurina turba,
Tragão-no, e fogem requebrando as caudas:
Ermo o lago outra vez ficou dormindo.
Que dizeis? volve a casa? em manhã d’estas
Egle volve ao cazal! tornará logo.
Mas vós não ficareis, que o não consinto;
Hoje he só Divindade a Primavera.
Emquanto a hora da Festa inda vem longe,
Irmos correndo á sôlta, irmos folgando
He o nosso dever, foi jura nossa.
¿Mas que risadas d’esta parte sôão
Entre os salgueiros, do regato á borda?
Rasgado o cinto, desgrenhada a trança,
Uma Ninfa gentil é quem sozinha,
Se ouve rir no pacífico arvoredo!
La vai na vêa d’agua bracejando,
E a soltar de afflição piedosos gritos
Um Sátiro infeliz! ja muito longe
A corrente lhe leva o odre e a flauta.
Agora á flôr das agoas apparece,
Some-se agora no lodoso fundo.
Em vez de o soccorrer, o apupão rindo
Da opposta varzea os rusticos pastores.
—“Dize, bom guardador das vaccas nedeas
“Que successo foi este?”—“Eu vo-lo conto.
“A Ninfa hia correndo, antes voando,
“Ao longo d’esta margem que verdeja,
“Quando eu dei fé; suava-lhe no alcance
“O mofino do Sátiro ... (Que vejo!
“Inda poude aferrar ... Más horas leve
“A agua que o não tragou! Pois ja não larga
“Os vimes que aferrou co’a mão pelluda.
“La trepa ... Vê-lo em cima! Oh como o bruto
“Se estira ao sol e arqueja!) Hia no alcance
“Da pobre Ninfa o Sátiro; umas silvas
“A prendêrão, travando-lhe do cinto.
“Carpia-se a coitada entre alaridos,
“Como passaro prezo; esta novilha
“Não muge com mais ancia em vendo os lobos.
“Bate as palmas o fero, e mais ligeiro
“Atropella a carreira, e vai clamando
—“Venci-te—Avida mão ja lhe lançava,
“Senão quando (tomado está dos vinhos)
“O pé caprino na orvalhada relva
“Resvala: vê-lo vai de tombo em tombo
“Medindo a ribanceira, e dá no rio!
“Logo ao caír, fugíra-lhe dos hombros
“O odre do vinho, e a flauta d’entre os dedos.
“Mal poude resfolgar—Ó flauta! ó odre!—
“Disse trez vezes, e esqueceo-lhe a Ninfa”—
—“Bem hajas, guardador das nedeas vaccas:
“Mais feliz sejas tu com teus amores,
“E menos apressada a que seguires.”
Socios, que mais ha ahi? Que vos demora
Em de redor de um choupo? Letras, versos
Entalhados no tronco! uma grinalda
A abraça-lo, outras mil por toda a cópa,
Que parece um rosal! na terra mirtos!
Lede-me esse letreiro: algum queixume
De infeliz namorado. Oh! ceos, he crivel?
LEI DE AMOR tem por titulo? se fosse
Da propria mão do Nume aqui gravada!
Amar, amar! viver d’amores!
Que o tempo off’rece e nunca espera;
Aos corações bem como ás flores
Não se renova a Primavera.
Oh Lei, porta de Elisio antes da morte!
Sim, sim, de Amor tu es; vós sois das Graças
Coroas que a ufanaes, a encheis de aroma.
Socios, ministros das Piérias Deozas,
Erguei mão não profana ás flores sacras,
Privilegio he do estro, ouzai colhê-las:
Levará cadaqual no peito a sua
Bem sobre o coração, tão perto d’elle
Que ouvindo-o palpitar lhe falle amores.
Pois he lei quero amar: sim. Porém onde
Onde estará da Primavera a Deoza?
Por toda a parte os seus vestigios nóto,
Mas não a posso achar. Ah! vós que rides,
A insólita paixão julgaes chimera.
Existe, existe a Virgem graciosa,
Dos Ceos a Filha occulta anda na terra:
Não são sem divindade estes prodigios.
Quem faz tão branda murmurar a fonte?
Quem abre a rosa na materna planta?
Quem dá cheiro á violeta, e côr ao lirio,
Ao ar fresco o regalo e verde aos campos?
Quem poesia de amor ensina ás aves?
Quem é que influe no coração dos homens
Tanto amor, tanta paz, doçura tanta?
Existe, existe a Virgem graciosa,
A minha doce Amante, a minha Amada,
Dos Ceos a Filha occulta anda na terra.
Sinaes de sua mão, pizadas suas,
Fragrancias que espirou, por toda a parte
Me envolvem, me arrebatão, me endoidecem;
Mas busco-a e não se mostra; exclamo, he surda!
O dia he fallador, he distraído,
Deidade virginal recêa o dia,
Casta, só quer talvez ás castas sombras
Revelar seu misterio, abrir seu peito.
Oh quem me dera que baixasse a noite!
Da noite no pacífico silencio
Côa pelo ar vazio o som mais leve:
Por isso a Filomela a quiz por sua,
E o mocho lhe confia as longas queixas:
Quem me ja déra que baixasse a noite!
Irei clamar do cume dos outeiros
“Ó Primavera, ó minha Primavera!”
E depois que trez vezes repetirem,
Ao longe os echos meu tristonho grito,
Attento escutarei se me responde.
Se nada ouvir, prostrando-me, e cobrindo
De igneos beijos a terra (os igneos beijos
Tem valor de conjurio entre amadores)
Com maior devoção, dobrada fôrça,
Clamarei “Primavera, ó Primavera!”
E os campos todos correrei bradando.
Na solitaria gruta alguma Ninfa
Ha de acordar, e á parte do oriente
Lançar a vista, procurando a aurora:
A aurora não virá, e eu longo tempo
Andarei pelas trevas suspirando.
Se trez vezes o sol descer ás ondas,
Sem que possa encontrar a minha Amada,
E sem que algum mortal dê novas d’ella,
Apagarei no peito o incendio inutil,
Pensando que era ingrata, ou que por sonhos
Somente a víra em extases do estro.
Mas viver sem amar, sem ser amado?
Vida entre gelos equivale á morte,
No pasto ao coração mantem-se a vida;
Sois brandas affeições, a essencia d’ella.
Confessar-me da Lei que abrange a todos,
O primeiro infrátor? Ó Chlóe, ó bella,
Serás tu d’entre mil, o preferido
Emprego aos versos meus e aos meus excessos.
Ja tens da Primavera o genio, as graças,
Sua fama terás, terás seus hinos.
Quando com teu rebanho para o rio
O bosque ao fim da tarde atravessares,
De longe me verás na flórea margem
Sobre um penedo a celebrar teu nome.
Quando o quente redil ao gado abrires
No frescor da manhã, dir-te-ha meu rosto
Que entre as da tua porta arvores caras
Não fui amanhecer, mas toda a noite
De amor andei cercando o teu descanço,
Sentindo-te o respiro, ou crendo ouvi-lo.
Quando na sésta, á sombra da oliveira
Tiveres descuidosa adormecido,
Em sons de flauta escutarás por sonhos
O cantar novo que te mais recreie.
Mas vede como leve escapa o tempo!
Ja alto e rijo o sol encurta as sombras.
Largo se ha divagado! Hora purpúrea,
A mais social, mais folgazã das horas,
Chamando está por nós co’a mesa agreste.
Onde a iremos tomar? n’algum tugurio
De solitaria Baucis? nem de feno
Pobres tétos consente o sacro Dia.
Ali temos o outeiro alcatifado,
Rico montáõ de flores! Que mui frescos
Pela assomada os louros se entrelação!
Mas sobre tudo que aprazivel gruta!
Por fóra he de hera um tufo luzidio,
Dentro um fôrro de musgo. Alvitre novo
Ó Socios escutai. Esta collina
Desde hoje para nós fique Parnaso.
Eis a gruta de Cirrha, onde costuma
Febo sonhar magníficas imagens!
Esses louros são delle! Aquella fonte
(Ceos nada falta!) he fonte de Castalia!
No remanso diáfano boiando
Niveos ganços as azas empavezão;
Fingi-lhes doce a voz, chamai-lhes cisnes:
Lindas pastoras nossas Musas sejão.
Respiremos o estro! Ó lá de Cirrha
Virações, acudi-nos contra a calma:
E vós louros selvaticos, ó louros,
Velai com vossa abobada frondente
Os vates e o banquete, o rir e os versos.
A primeira saude a Bacho e Ceres,
A Palles e Pomona, ora presentes
Do banquete á rural simplicidade.
Para dias iguaes, plantar-lhes voto
Cá bem no viso do sagrado outeiro,
Densa cabana de perpetua folha:
Para aqui, de canceiras feriados,
Viremos amiude abrir os peitos
Ao bachico folguedo, a Amor e aos cantos,
Co’a alegria assombrar, e co’a amizade
Do loureiral as Dríades vizinhas.
Na venturosa paz d’este retiro,
Não virá perturbar nossa humildade
Com seus trovões, com seus coriscos horridos
Turba sublime de soturnos vates.
Alçando o collo, enfaticos praguejem
Contra os tirannos, contra os monstros barbaros;
Pintem de rôjo os prepotentes déspotas,
Fulminem os perversos aristócratas,
E fujão por estudo á natureza.
Não lhes invejo, não, a bronsea tuba,
Que despede trovões e rasga ouvidos.
De nosso humilde genio estou contente:
Nada mais temos que uma agreste flauta;
Com ella muda, ás vezes longas horas,
Da natureza os quadros estudâmos.
Socios dos rouxinoes, só diffundimos
Depois de meditar, nossos gorgeios;
Em quanto o mocho a luz aborrecendo,
Nos amenos vergeis nunca discorre;
Dorme o formoso dia em cava furna,
E sólta pela noite horrendos guinchos,
Pouzado junto ao ceo, mas entre horrores.
Elmiro, ó tu que, tanto como odêo,
Odêas as sonoras bagatelas,
E ris, como eu, dos estrondosos nadas;
Nunca te afastes da florída róta,
Por onde a Natureza o Genio chama.
Da madrugada nos mimosos sonhos,
Costumas ver de murtas coroada,
A amavel Sombra do risonho Géssner.
Oh! quando aos campos teus um dia voltes,
Á sombra do teu cedro será doce
Ouvir-te prantear perdida amante!
Entre as folhas cheirosas susurrando,
Qual favonio indeciso, os Manes d’ella,
Mansa tristeza ao coração te enviem.
Emquanto no escarceo da grão Cidade
Eu misero, eu saudoso andar lutando,
La no fertil torrão verás contente
Por ceos de teu jardim nascer a aurora:
Regarás pela fresca as flores tuas
Junto da terna Mãi, que este só gôsto
Na morte conservou do esposo amado;
Triste e formosa qual viuva rôla.
Outras vezes as pombas que sustentas,
Terno irás vizitar co’as Irmãs bellas,
Qual entre as Graças passeára Adonis
Nos arvoredos da ociosa Chipre.
Elmiro, ¿e alguma vez tambem meus versos
Serão do teu retiro um passatempo?
Quando eu tos enviar, vós reunidos
Junto do fogo nos serões do inverno,
Contentes os lereis; e tu, girando
Co’a vaga idea nos passados tempos,
Dirás a suspirar “He meu amigo”.
FIM DO CANTO PRIMEIRO.