Ja dos louros as grimpas se embalanção:
Surgir, surgir da relva sonolenta!
Ja fresca viração consola os ares:
Que zoada que vai por toda a selva!
Estrépito de rio impetuoso
Na calada da noite a crê mil vezes
O viandante perdido. Hora da Festa,
Bem te ouvimos anciosa estar chamando.
¡Da Primavera á Festa, á gruta, ó Socios,
De Amarilis e Umbrano á vasta gruta!
Ja agora o bom de Anfrizo ha de ter pronto
De sua déstra mão o altar gramíneo,
Arqueado em docel do cedro a cópa,
E do cedro no pé com flórea tarja
Da nossa Primavera aberto o nome,
Se he que amor lhe não fez gravar Dorinda;
Dorinda, cujos magicos encantos
Na lira do amador gerão milagres;
Cujos olhos, tão negros como a noite,
São como a noite ao Deos de amor tão caros.
Sim, vamos — Vedes vós o pequenino
Que la vem amontado em verde cana?
Quão guapo agita as redeas côr de rosa,
E açouta co’a varinha a brava fera!
Ouvis-lhe a doce voz que por mim chama?
—“Salve, menino! e adeos, que hoje não posso.
“Outro dia virei, toda uma tarde,
“Trabalhar nas flautinhas, que arremedem
“Cantar de rouxinol soprando-as n’agua.
“Amanhã me procura aqui no outeiro,
“Verás, verás que historias te não conto.”—
Partio: como galopa afervorado!
Ja vai conta-lo á mãi. Este menino
He da aldea a doudice, e os meus amores.
He dote de seus annos a innocencia,
Como do botãozinho he dote a graça:
Mas aqui ha melhor, he botãozinho
Ja fragrante, he virtude antes do sizo.
N’aquella sésta do abafado agosto,
Quando fostes nadar, eu passeava
Sozinho a espairecer pela frescura;
Eis para mim correndo este menino,
Vergonhoso me diz:—“Queres atar-me
“Este cordel nas pontas do meu arco,
“Bem seguro, bem forte, que não quebre?”—
—“Sim, amavel menino (eu lhe respondo)
“Sim quero atar-to bem seguro e forte”—
E emquanto lho fazia, assim lhe disse:
—“Vais caçar borboletas? ou mordeo-te
“Alguma abelha, e queres castiga-la?”—
—“Não, não: vou dar em minha mãi um tiro”—
—“Um tiro em tua mãi!”—“Sim n’outro dia
“Deo-me tanto nas mãos, que me ficarão
“A doer, tão vermelhas como as rosas”—
—“E porque assim te deo, que te ficassem
“As mãozinhas vermelhas como as rosas?”—
—“Eu tinha (acudio elle) um melro novo:
“Era meu, apanhou-o a minha rede.
“Sempre estava a cantar; era tão lindo!
“E quando assobiava? os outros melros
“Punhão-se la do bosque a responder-lhe,
“Queria tanto á nossa Mirtilinha!
“(A nossa Mirtilinha he a mais pequena
“Das minhas trez irmãs): e ella tratava-o,
“Quando eu hia á seara ás cegarregas.
“No outro dia esqueceo nos a gaiola
“Ao sol toda a manhã: quando fui vê-lo,
“Não se podia ter, abria o bico
“E não tomava nada. Um pequenito
“Me disse que era calma: agarro n’elle,
“Vou-me ao tanque, e mergulho-o cinco vezes.
“Ficou muito peór: punha-o direito,
“E elle sempre a caír, fechava os olhos,
“E estremecia todo. Aquietou-se:
“Cuidei eu que dormia e disse, Dorme,
“Veio um velho, abanou-o, e disse, He morto.
“Fui com elle na mão chorando, e em gritos, ta,
“Procurar minha mãi. Ficou pasmada
“Quando o vio, e eu lhe disse—Ahi está, não can-
“Nem ja faz festa á nossa Mirtilinha—
“Poz-se a ralhar por isto, e castigou me”—
“Cruel menino (lhe volvi severo),
“Cruel menino, e em tua mãi pretendes
“Ir com setas vingar-te?”—“Oh! não (me torna),
“Não lhe hei de fazer mal. Se tu soubesses
“O que uma seta faz!...”—“Não te percebo,
“E pois que faz? explica-te, saibamos”—
—“Na cabana de Silvio (me responde)
“Ha um cópo de páo todo pintado,
“Que elle ja prometteo que me daria
“Se eu lhe levasse a fita, com que ás vezes
“A minha irmã Glicera ata os cabellos.
“Por fóra do tal cópo está com um arco,
“Para atirar a uma pastora linda,
“Um menino como eu, com os olhos negros
“Voltados para mim, e sempre a rir-se.
“Anda nuzinho ao frio, e tem nos hombros
“Azas, que lhe não ganha a borboleta.
“Silvio disse-me o nome que lhe davão,
“Porem ... ja me esqueceo: tambem me disse
“Que elle costuma á gente descuidada
“Atirar muita vez d’aquellas setas.
“Eu cuidava que as setas matarião,
“Tinhão-mo dito um dia os caçadores,
“Mas Silvio me jurou que não matavão,
“E contou-mo sem rir; Silvio não mente.
“Aquellas setas vem, entrão no peito
“Sem ferida nem sangue, e até sem dores.
“Se obrigão a chorar e a ficar triste,
“Como ás vezes succede ao meu bom Silvio,
“Em toda esta tristeza ha tanto gôsto,
“Que he mais doce gemer, que estar alegre.
“Eu d’isto nada entendo, porem Silvio
“Me disse que algum tempo o entenderia.
“Lembra-me agora! o tal menino d’azas (certo
“Chama-se Amor; não he verdade?”—“He
(Lhe respondo, apertando-o nos meus braços),
“Chama-se Amor, e he como tu formoso.”—
—“E seus tiros não fazem que fiquemos
“Tão amigos de alguem, como o cordeiro
“Que anda a brincar com seu irmão no prado?”—
—“Sim he verdade”—“Então venha o meu arco,
“Ja tenho em casa muitas setas prontas,
“Vou ferir minha mãi.”—“Louco! o teu arco
“Como o d’elle não he (lhe brado rindo):
“Lança-te ao collo seu, perdão lhe pede,
“Beija-a, conta-lhe tudo, e eu te prometto
“Por cada beijo teu, mil beijos d’ella”—
Não me ouvio mais, correo: e de caminho
Colheo para offertar-lhe algumas flores.
Mas eis-no; ja no suspirado sitio!
Essa a gruta: este o cedro annoso e immenso,
Condigno pavilhão do altar votivo.
Inda as c’roas vos faltão, ela ó Socios,
Rompei demoras, ide ás flores, ide,
E volvei logo a dar princípio á Festa.
Só fiquei: se eu podesse aqui no prado
Por meus olhos tambem colher algumas!
(Que as violetas que hei posto andão ja murchas.)
—“Ó pastorinha de formoso gado,
“Se podes, nem te peza alguns momentos
“Perder comigo, apanha-me violetas,
“Ensinar-te-hei por prémio outros cantares.
“Teu rafeiro no emtanto o gado vele.”
Partio, deixando ao lado meu, na relva
O cordeiro que tinha em seu regaço,
Tão alvo, tão pequeno como um lirio.
Pobre innocente! nos meus dedos busca
Da mãi, que ao longe bala, a doce têta!
Se comer ja soubesse, eu lhe daria
D’estas papoulas, d’esta fina grama.
Que silencio! mal ouço uma fontinha;
Serena viração de quando em quando;
O crepitar miudo dos raminhos,
Que a leve cabra arranca do espinheiro;
A voz d’um lavrador aos bois tardios;
E o cançado gemer de um carro ao longe.
Cá volve a minha Flora! estou c’roado:
“Graças ó doce e rustica Belleza!
Sempre emtorno de ti rebentem flores
Que o teu rebanho cobiçoso pasça;
Nunca te falte pelo estio a sombra:
E amor te volte em fruto as esperanças,
Se esperanças de amor no peito nutres.
Vês tu aquelle altar? foi obra nossa,
Foi por nós consagrado á Primavera,
E vamos festeja-la. Altar sem Nume
Faz menos devoção; se tu quizesses,
Bem o podias ser. Anda, mimosa
E amavel pastorinha; enflora á pressa
A trança, o collo, o seio, e no regaço
Lança flores quaesquer, qualquer verdura:
Oh! da-me este prazer. Do cedro ao tronco
Vai-te encostar do modo que te digo,
Co’a mão na face, e com o sorrir nos labios[8].
Direi aos socios meus, quando voltarem:
“Invoquei tanto e tanto os meus Amores
(Nome he que á Deoza dou, não tenhas susto
“Nem me furtos a mão) e he tão benigna,
“Tão docil, tão cortez a Primavera,
“Que saío do seu bosque, e apraz-lhe ouvir-nos.”
Folgaremos de os ver caír no engano,
Ajoelhar-se á fingida Primavera,
E mais de coração cantar-lhe os hinos.
De que te ris, singela rapariga?
Porque foges de mim? Se não consentes,
Cedo iremos buscar-te nos teus montes,
Chamar-te Deoza, em dôbro envergonhar-te.”
Que he isto! ja volveis? mostrai-me as c’roas.
Como escolheste bem, terno Josino,
Meigo no coração, na voz mavioso!
Goivos com mirtos para ti cazaste,
Com o suave condiz a suavidade.
Se nos campos do ceo, reino do Genio,
Eu podesse colher miudos astros,
Dos versos onde alçaste ao ceo meu nome
C’roa de ethérea luz seria prémio.
Dou-te o que posso, gravarei teu nome
Em bosque, onde Hamadríades o leão:
Decoraráõ com o verso os teus louvores,
E alguma em si dirá: “Quem me ora désse
Em minhas solidões este Josino,
Por ver se he no cantar, qual dizem, meigo.”
Vejamos meu Irmão[9] a tua escolha.
Eis-te como eu cingido de violetas;
Ah quanto são iguaes os gostos nossos!
Abraça-me cantor da natureza,
Um a outro, um pelo outro aqui juremos
Juntar sempre em busca-la a industria nossa.
Abraça-me outra vez: nossa amizade,
Nossa terna amizade, e nosso estudo
Aperte mais e mais do sangue os laços.
Se jamais fado atroz nos separasse ...
Longe do pensamento esse impossivel!
Duas vidas irmãs que medrão juntas
Tem uma só raiz; dão flor, dão fruto
Nas mesmas estações, e ás horas mesmas.
Quer benção mande o ceo, quer sôpro de ira,
Um só bem, um só mal abrange as duas,
Emquanto uma existir persiste a sócia.
Vai para o nosso altar, um só momento
Me prende, o meu lugar tu la conserva
Entre ti e o das Musas ja mimoso
Nosso irmão, que no berço achou a flauta:
Menino, a quem cingistes de alvas rosas,
Como elle emblemas da innocencia breve.
Elmiro, o teu diadema he bello e simples;
Mirto e teixo pregões de amor e mágoa.
Não são menos de ver, nem menos proprias
As vossas, bom Franzino, alegre Albano.
Do amor perfeito as flores melindrosas
Tecem, Franzino, a tua, e tem por joia
Uma saudade a tremular na fronte.
De teus suspiros o ditoso emprego
Longe está, bem o sei, mas não suspires:
Tua amada fiel na ausencia chora,
Sua imaginação durante o dia
Voa a buscar-te aos campos do Mondego;
Dos campos do Mondego aos braços d’ella
Sua imaginação te leva em sonhos.
Albano, a ti o amor foi mais propício:
Vês amiude os olhos que te inflammão
E o sorrir facil que te muda em louco.
Não muito abertas, incendidas rosas
Cercando as tuas fontes, me afigurão
A imagem ver de envergonhados beijos.
Vem meu Anfrizo: a tua d’entre todas
He por certo a mais funebre grinalda;
Um ramo de cipreste e alguns suspiros.
Ah tua mãi tão cedo abandonar-te!
Orfão triste, perdoa ao vate amigo,
Que em chaga inda tão fresca a mão te ha pôsto.
Se para ella ha balsamo no mundo,
Só Amor sabe d’elle, e mãos de neve
Tem para to applicar virtude innata.
Sim, Dorinda gentil como que busca
Esse ermo de tua alma encher de affetos,
E no vão do teu peito insinuar-se.
Mas a saudade maternal he muito;
Todo o mundo, a amizade, e até Dorinda
Só poderáõ na angustia confortar-te.
Teu mal sustido chôro eis recomeça!
Só a dor te contenta, á dor sirvamos:
Narrar-te quero a historia do cipreste,
Que dos ramos feraes partio comtigo.
Prêzo das graças da opulenta Silvia
Titiro guardador de pobre armento,
Com seus ais estes montes abalava.
A bella desdenhosa, muitas vezes
Quando o sentia a modular ternura
Ao som da flauta n’um sombrio valle,
Torcia, por não ve-lo, o seu caminho.
Ah se o visse, estendido entre o rebanho,
O pranto a borbulhar nos fitos olhos,
E ao som da flauta, em baixa voz unidos
De quando em quando um ai, e o nome d’ella!
Rigores virginaes, desdens de rica
A amor, á compaixão talvez cedessem,
E ficasse mais bella, a ser piedosa.
Por só consolação de seus desgostos,
Co’a pèga que ja foi da ingrata Silvia
Folgava repetir de Silvia o nome.
Nunca a avezinha ao misero deixava,
Que assim a havião prêza os novos mimos.
Só ás vezes aos lares revoando
Da formosa cruel, de la trazia
Furtada alguma prenda ao pobre dono;
Sem querer lhe atiçava o fogo inutil.
Era triste, mas doce, ouvir de noite
Pelos bosques bradar “Ó Silvia, ó Silvia”
O terno amante; e acompanha-lo a pêga,
Ja pouzada em seu hombro, ou ja gritando
La de cima de um tronco “Ó Silvia, ó Silvia!”
Longos tempos assim pelas florestas
Vagar se ouvirão solitarios ambos;
Té que o loquaz brutinho de cançado
Veio um dia caír entre as mãos d’elle,
Bateo as azas, terminou seus dias.
Á fiel companheira ultimas honras
Deo como poude Titiro: sagrou-lhe
Um pequenino tumulo de barro,
E um ciprestinho de anno, que por novo
Inda estudava o geito de ser triste.
Aos Numes implorou que o não crescessem:
Mas pouco e pouco o tronco foi subindo,
E com elle de Titiro a saudade.
Bem póde ser que o tumulo não visses,
Que ervas espessas de redor o afogão
Ah desde que o pastor tambem jaz morto,
Morto ás mãos da saudade, e em terra alhêa!
Tempo he da Festa. Á Festa!—Ahi estão as flautas
Ja silvando rebate ás alegrias!
Travai dança, alta dança ruidosa,
Quaes em seu monte os Sátiros a saltão!
Venhão de apoz os hinos: logo Bacho
Nos acuda co’as taças, menineiro
No aspéto e no palrar, no resto annoso,
De cãs a reluzir por entre as parras.
Ser-lhe-ha boa salva o retinir dos cópos
E os das saudes misturados gritos.
Do altar meu canto agora ascenda ao Nume!
Vem ó Dona das Graças e Flores,
Volve á terra teu mago calor;
Aos que fogem de amor gera amores,
Nos que a amores se dão cria amor.
Tu és Venus, a Grecia delira
Crendo-a Filha do túrbido mar,
Tu és Venus e Musa da lira,
Cumpre á lira teu Nume exaltar.
Tu és Dríade, e Náiade, e Flora,
Mocidade e Saude e Prazer,
Com mil nomes o mundo te adora,
Mil poderes compoem teu poder.
Do Ceo puro és a noiva córada,
És só d’elle como elle he só teu;
Rica em trajos, de aromas banhada
A seus beijos te off’rece Himeneo.
Feliz extase, abraço jocundo
Do consorcio completa as prizões,
Primavera, em teu seio fecundo
Ja pullullão mais trez estações.
Á voz tua amorosa e macia,
A teu mago e perpetuo sorrir
Tudo cede, e te adora á porfia,
Como te ha de o mortal resistir?
Léda brinca a feliz meninice,
Léda a ninfa em seus dons se revê,
Lédo o velho desruga a velhice,
Tudo he lédo, e não sabe o porque.
Onde assomas o mato florece,
Desatina a avezinha a cantar,
Côr d’esp’ranças a terra amanhece,
Arde o peixe nas brenhas do mar.
Perde as iras a rábida fera,
E se estranha de ter coração.
Primavera, que és tu Primavera?
Vida, fôrça, virtude, união.
Desde que abre ao carneiro doirado
Hora alegre o celeste redil,
E das sombras e gelo espalhado
Despe as terras Favonio subtíl;
Despe a mente por ti bafejada
Suas neves e escuro invernal,
Ressuscita de flores toucada,
Enche a lira, nem sôa mortal.
Pois tu és quem me acorda e me inflamma,
A ti, Deoza, os meus versos serão.
Mas debalde o meu estro te chama,
Os meus olhos jamais te verão!
Amigos, baixo he o Sol, findem-se os hinos:
Ponde silencio aos copos falladores;
Assaz he tempo. O dia era dos campos,
Ás aguas toca a noite; a noite grave,
Recolhida, saudosa, ama pascer-se
No murmurinho de deserto rio:
Tambem o coração tem dia e noite,
E precisa dos bens desenfadar-se.
Largo dista a corrente; o passo aperte
Quem sabe quanto he grato á luz de estrellas
Ouvir palrar as Náias a deshoras.
Vamos tomando o gôsto aos fins da tarde;
E emquanto mais ligeiro o bom Josino
Corre a aprestar a barca, entreteremos
O caminhar, colhendo rosmaninho
Para o colchão nóturno. ¡Que delicias,
Ir-se acamado em flores aboiando
Á luz modesta da nascente lua!
Ama o rio os cantares de saudade;
Cantares de saudade atiraremos
Até ao mar pelas sombrias margens.
Logo que o não rogado, amigo sono,
De papoulas toucado perguiçosas,
Lá nos for procurar, e manso e manso
Forem caindo os sons e pensamentos,
Iremos amarrar na margem muda
A qualquer tronco a barca flutuante:
Lançaremos por cima o branco toldo,
Bastante abrigo do nóturno orvalho:
E estendidos macio, e conversando
Em voz baixa, embalados cederemos
Ao começado sono os restos da alma.
Quando alta noite algum de nós acorde
A um leve crepitar do linho undaute,
Cuidará que uma Náiade surgíra
Fóra da agua a cabeça curiosa,
E inclina o seio ao bôrdo; e nos espreitas
Assim como alvoreça, a luz da aurora,
E vós, madrugadoras andorinhas,
Para o campo acordado heis de acordar-nos.
Correremos as candidas cortinas,
E veremos de subito, encantados,
Sobre nós a verdura estar pendente,
Do pranto da manhã ja rociada.
Não tarda o Sol momentos em sumir-se;
No mais vivo escarlate ensopa os campos,
Tinge a folhage, os rostos nos accende,
Por montes e olivaes dos ceos oppostos
Começa a desdobrar seu manto a noite.
Busca o rustico azilo o boi tardio;
Por toda a parte os gados vão passando.
Sustenhamos o halito, escutemos
Esta distante musica toada
Que assim transporta os animos em gôstos:
He toda feminil, toda feitiços,
Vem toda ao coração; oh se a conheço!
Pastoras são, que ao longe no arvoredo,
Vão para a aldea recolhendo em chusma
O tropel dos rebanhos misturados.
Cantão, porque he sazão de primavera,
E peito de mulher, como avezinha,
Desfaz-se em canto e amor em vendo flores:
Cantão, porque de um dia assim formoso
Serão formoso as toma, e o fuso leve
Que andou por solidões um dia inteiro,
Vai girar no conchego da fogueira;
E cantão, porque flautas de pastores
Que vão na companhia, as desafião.
Mas tantos sons confunde-os a distancia,
Figura-se uma voz de tantas vozes;
Como que uma só boca a manda aos ares,
Exprime um só afféto, um só deseja.
Oh Natureza! oh Tarde! oh Primavera!...
Lagrimas de prazer vertem meus olhos!
Somos em bosques de propícias Fadas?
Ou vaguêo ja Sombra, e vós comigo,
Na semi-vida e semi-luz do Elisio?
Ja tudo se esvaío, tudo he silencio:
Por campo e campo ao largo impera a Noite.
Erguida a lua nova o horror lhe troca
Em saudosa tristeza, e o mocho alerta
La do alto a ajuda com o piar carpido:
Ja ouço o estrepitar das frescas aguas.
Vem barquinha da noite, perguiçosa,
Vem, toma o rosmaninho, e a nós recebe,
Oh que ameno he pousar passada a lida,
Em meio de aguas tantas, rodeado
De amigos bons, e triste, não de proprias
Tristezas, sim das mansas do Universo!
Ouvi, amigos meus, os meus dezejos,
Quaes mos ora no seio estão brotando
A hora, o sítio, a lua, aquelles pios;
Relevai que ao folgar vos furte instantes.
Seios Deozes minhas supplicas ouvissem,
Um torrão fertil, rústica vivenda,
Houvérão de abrigar-me a vida pura:
La minhas ambições se fartarião
De nobre, de quieta obscuridade.
Mas pois que de outra sorte aprouve aos Deozes,
E o fio, não de lã grosseira e nívea,
Me torcem, mas de ferro as trez do Averno,
Guardai vós na memoria o meu dezejo.
Depois que entre os abraços delirantes
De todos os que amei, findar meus dias,
Sepultai-me n’um valle ignoto e fertil[10].
Para marcar da sepultura o sítio,
Sôbre o cadaver, que vos foi tão caro,
Mangeronas plantai, cuja verdura
Em roda fechem variados lirios.
Na raiz funda de soberba olaia
Pouze a minha cabeça, e o tronco amigo
Sobre mim curve a cópa florecente.
Mil piteiras unidas, ostentando
Na hastea vaidosa as flores amarellas,
Em quadrado não grande me defendão
Das incursões das cabras roedoras.
Em meu tronco se escreva este epitafio:
Foi poeta amador da Natureza:
D’entre as sombras ancioso a procurava,
Qual terno amante a bella fugitiva.
Sôbre isto pendurai sonora flauta,
Que se revolva á discrição do vento.
Não cerque os ossos meus, não mos ensombre
Nem teixo nem cipreste; arvores quatro
Quizéra só no meu jardim de morte.
N’um canto a larangeira graciosa,
Que mescla util e doce, a flor e o fruto:
N’outro a figueira sob as amplas folhas
Modesta occulte seus nectareos mimos:
Defronte um pecegueiro em frutos mostre
Que amavel he pudor, quando enche faces
De penugem subtil inda cobertas:
No ultimo canto ... (a escolha me confunde)
Plantai no ultimo canto uma ginjeira,
He a arvore da infancia, até na altura;
D’esta por sua mão colhe um menino
A mui ridente baga, e ri de ufano.
Alguns tempos depois que a fria terra
Meus restos encerrar, á minha olaia
Vós, meus amigos, vós dareis meu nome,
Pois de mim se nutrio, e eu serei n’ella.
Dos guerreiros nos tumulos afiem
Faminta espada os barbaros guerreiros:
No sepulchro do sabio o sabio estude;
E dos reis nos marmoreos monumentos
Vá sonhar a ambição, grandeza e pompas:
Vós soltos de freneticas loucuras
Aqui vireis mil vezes vizitar-me,
Na amizade pensar que nos uníra,
E unir-nos deverá transposto o Lethes.
Porque me interrompeis com taes suspiros?
Ah! deixai-me acabar. Quando sentados
Emtorno a mim na flórida alcatifa,
Guardardes meditando alto silencio,
Se d’entre as mangeronas que me cobrem,
Saír acaso a borboleta errante,
¿Não vereis n’ella o espirito do amigo
Que vem gozar do sol a claridade?
Quando o suave rouxinol de noite
Da minha olaia gorgear nos ramos,
Não pensareis, de santo horror tranzidos,
Que feito rouxinol, meus cantos sólto?
Sim pensareis, e erguendo-se inspirado
Algum lhe ha de bradar “Ó meu Amigo!”
Responderáõ “Ó meu Amigo” os bosques;
E vós direis que o meu fantasma errante
Da argentea lua á muda claridade,
Á conhecida voz d’alem responde,
E em tudo encontrareis a imagem minha.
Se inda então meus costumes vos lembrarem,
Se vos lembrar meu coração piedoso,
Velai que em meu retiro as bellas aves
De caçador cruel cantem seguras:
Amor, o leve Amor, com arco d’oiro,
Só elle e mais ninguem, logre atirar-lhes;
Careço de amorosa melodia
Que me poetize o sono derrabeiro:
Morto que nada tem preciza d’estas
Pobres delicias rusticas, se folga
Que a namorada moça, o terno amante
Juntos ou sós, a vizitá-lo acudão.
Então ao som de languidos suspiros,
De alegres cantos, de amorosos versos,
De ternas queixas, de perdões suaves,
Muitas vezes contente a minha Sombra;
Formando ao pôr do sol vermelha nuvem,
Girará n’estes ares, revolvendo
Da passada existencia almas lembranças.
FIM DO POEMETTO