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A Primavera

Chapter 18: NOTA de Augusto Frederico de Castilho.
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About This Book

A collection of pastoral poems and accompanying prologues that evoke rural scenes, seasonal renewal, and youthful memory. The poet pairs lyrical depictions of fields, shepherds, and nature’s cycles with reflective commentary on poetic practice, literary influences, and personal change; the introductory material considers the passage of time, editorial revision, and the uneasy act of revisiting early work. Traces of European pastoral models appear alongside moral and sentimental observations, while nostalgia, the contrast between past and present, and an affectionate celebration of countryside life provide thematic cohesion.

NOTA
de Augusto Frederico de Castilho.

Pag. 118. verso 6.

Vejamos, meu Irmão, a tua escolha. &c.

Quando um autor, para publicar os seus pensamentos se entrega á nossa boa fé o lealdade, os nossos olhos e mãos para logo mudão de dono, ficão seus; tem de vigiar e selar o depósito confiado, para que nada se lhe accrescente nem cercêe: qualquer palavra, qualquer vírgula de mais ou de menos, por muito que as pareção estar pedindo este ou aquelle passo do texto, são mais que violação de testamento, porque ideas são propriedade mais real e sagrada do que bens da fortuna. Assim he, mas cumpre que não seja assim na presente occasião: faltarei ao direito do autor e á minha obrigação de secretario, para cumprir com outra mais santa lei, a do amor fraterno, alliviando aqui, e em mais de uma maneira, o meu coração, ás escondidas do mesmo autor, para quem serão grande novidade estas linhas, quando de alguem (que não de mim) as chegar a ouvir ler.

Direi em primeiro lugar, que na Festa da Primavera, cujas honras forão na maior parte a meu Irmão, os versos a que esta Nota vai lançada tanto abalo fizerão em mim, que pela primeira vez os lia, que eu me vi necessitado a interrompê-los coberto de lagrimas e afogado em soluços, para me ir lançar no seio d’elle, protestando-lhe assim, com um silencio que eu não tive palavras para romper, que os seus dezejos de vivermos para sempre unidos, ja em mim erão necessidade, e que o pensamento de separação se me representava tão atroz e impossivel como a elle. Eu o vi profundamente commovido entre os meus braços, e foi esta a primeira vez em que nos-fizemos uma declaração tão expressa e amor, nós que semelhantes aos Dois amigos de Gessner, sempre tinhamos vivido e contávamos com viver um para o outro, sem ainda uma só vez nos havermos dado o nome de amigos. O meu voto, ufano-me de o dizer, tem sido santamente cumprido: ja la vão quinze annos, e eis-me aqui ao lado d’elle, eis-me tão inseparavel como tinha sido desde menino até áquella hora! que digo? ainda mais, porque para reparar a perda horrivel que elle acaba de experimentar; eu carecia de ter agora em mim, em vez de um, dois ou mais corações para lhe offerecer.

Agora cumpre-me preencher o principal fim d’esta Nota, transcrevendo para aqui alguns versos parallelos a estes, de um meu Poemetto, que com o titulo de Primavera recitei n’aquelle mesmo Dia. Os elogios que o leitor vai achar, não mos inspirou só a amizade fraternal, mas a convicção em que ainda hoje estou, e hoje muito mais, do subido mérito do elogiado. Aqui era o lugar de desmentir um grande numero, talvez a maior parte das sentenças, que sôbre a valia d’estes poemas a sua modestia (em tudo excessiva) lhe dictou no Ante-Prologo, e principalmente no Prologo d’este Livro: mas não cuido que a minha licença possa chegar tanto adeante: calar-me-hei, bastando-me agora ter desabafado, por algum modo, nos versos que se vão ler.

E tu, meu caro Irmão, tu me arrabatas,
Quando magico attráes aos sons da lira,
As Musas da Danubio á foz do Tejo.
Oh dize-me onde has visto a Natureza,
Virgem tão bella para ti sorrindo?
La na idade infantil, quando teus olhos
Inda na luz formosos se espraiavão,
¿Veio ella mesma perfumar-te o berço,
Tingir-te em rósea côr dos ceos o espaço,
Encher-te o ar de ignotas harmonias,
De affétos orvalhar-te o brando seio,
E com magas visões doirar teus sonhos?
Sim veio; e quaes na mente que as afaga
As maternas feições impressas ficão,
Taes seu olhar, e voz, e graça, e tudo
Te vivem, te reluzem pela mente,
Doirão-te a escuridão, compõem-te um mundo,
Em silencio te admiro ha longo tempo;
E até (que fui tão louco) ouzei co’as tuas
Minhas fôrças medir, tentar-te a gloria.
Não somos nós irmãos, me disse eu mesmo?
Não corremos iguaes no longo estudo?
Pois ha de a lira d’elle ousar prodigios,
Sem que, para a imitar, desperte a minha?
Mas que vale o dezejo, o sangue, o estudo!
Tu sabes remontar-te aos ceos n’um vôo:
Eu tento, eu me debato, ergo-me, cáio,
No inglorio chão cançado me adormeço:
Será pois d’elle só a eternidade.
Só d’elle? a sua gloria aos dois nos basta;
Qual nossos corações amor vincula,
Tal has de unir, ó fama, os nomes d’ambos.
Com todo o eterno sôpro enchendo a tuba,
“Este o maior, dirás dos lusos vates!”
Dirás depois mais baixo: “Este com os olhos
“Leo e estudou do Irmão, do terno amigo.”