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A Primavera

Chapter 21: ADVERTENCIA.
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About This Book

A collection of pastoral poems and accompanying prologues that evoke rural scenes, seasonal renewal, and youthful memory. The poet pairs lyrical depictions of fields, shepherds, and nature’s cycles with reflective commentary on poetic practice, literary influences, and personal change; the introductory material considers the passage of time, editorial revision, and the uneasy act of revisiting early work. Traces of European pastoral models appear alongside moral and sentimental observations, while nostalgia, the contrast between past and present, and an affectionate celebration of countryside life provide thematic cohesion.

ADVERTENCIA.

Notar-se-ha que por todos os Poemettos d’este livro se dão sempre versos á infancia, e n’este Idillio tem ella não uma parte, nem a principal, senão o todo: se o porque, pode importar a alguem, agora lho direi brevemente.

Parece-me um Menino, de todas as couzas graciosas que Deos fez u graciosissima. Aquelle ajuntamento e consonancia de tantos dotes; formosura, d’elle proprio nem buscada nem sabida; graças que lhe ninguem ensinou; singeleza e candura; alegria, fraqueza, innocencia; e muito afféto, e muito mostra-lo; e total descuido do porvir; e não o temer nada; e a poesia particular do seu dizer; e a sua grammaticazinha natural que a nó nos faz rir, couzas são estas que apoz si me levão esquecido e encantado. No trato d’estes botões da humanidade, que vem abrindo, parece-me, e ja pareceo a muitos, poderem-se lucrar boas vantagens: ja não fallo em seu bondoso contentamento que talvez se pega, e na felicidade de recobrarmos horas de meninice, imitando-os, sem saber, a elles, como elles nos imitão a nós; fallo porem no muito que o nosso espirito se acostuma então a estremar o bom do máo, e a joeirar cá dentro o puro do impuro, para nem por sonhos profanar o que das mãos da natureza saío e se conserva santo. E demais, um Menino não sabe nada, quer saber tudo, e por tudo nos pergunta: ¿não he isso estar-nos pondo a caminho de muitos descobrimentos de verdades e relações das couzas, que nunca aliás por nossa preguiça ou descuido fariamos?—Muitas pessoas vejo, e faz-me pena, desamarem as creanças, despreza-las, havê-las por menos de gente, tolher-lhes as fallas, as obras de sua idade, e Deos sabe se tambem o entendimento: eu por mim, quero-lhes muito, porque entendo que excedem em valia aos seus desprezadores, e sinto que a mim me levão grande vantagem em bondade e ventura. De um ajuntamento esplendido mil vezes tenho fugido para elles: no campo, melhor que em nenhuma outra parte, saboreio esta doçura a meu contento. Todos os pequenos das aldeas em que tenho estado me conhecem, e sei que são meus amigos: apinhão-se-me ao redor em me vendo; invento jogos, historias ou conversas para elles; divirto-os, divertem-me; uns com outros, e uns de outros aprendemos.

Erão horas bem doiradas essas de minha vida, como as ja tivéra João Jaques, como as terão tido muitos, e como as poderáõ ter quantos as dezejarem.

Lisboa: 7 de Janeiro de 1837.