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A Primavera

Chapter 22: OS CANTOS DE ABRIL IDILLIO.
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About This Book

A collection of pastoral poems and accompanying prologues that evoke rural scenes, seasonal renewal, and youthful memory. The poet pairs lyrical depictions of fields, shepherds, and nature’s cycles with reflective commentary on poetic practice, literary influences, and personal change; the introductory material considers the passage of time, editorial revision, and the uneasy act of revisiting early work. Traces of European pastoral models appear alongside moral and sentimental observations, while nostalgia, the contrast between past and present, and an affectionate celebration of countryside life provide thematic cohesion.

OS
CANTOS DE ABRIL
IDILLIO.

Por um serão de Abril suave e ameno,
Menalca, a bella Dafne, e seus trez filhos,
Estavão-se a folgar ante a cabana.
Por entre as parras do sonoro alpendre
A mansa lua chêa se enlevava,
Espreitando esta rústica familia.
Menalca erà ja velho: os justos Deozes,
Querendo premiar lhe a larga vida
Passada em os amar e amar aos homens,
De Citheréa ao Filho havião dito:
“Filho de Citheréa, entrega Dafne
Por esposa na Menalca, a fim que o velho
Remoce, vendo ao lar a mocidade,
E a virtude que tem o alegre em outrem.”
Amor nem sempre aos Deozes obedece,
Porem amava a Dafne; entrançou logo
A florente cadêa, e vendo-os prezos,
Tanto a si mesmo do que fez se aprouve,
Que ficou sempre entre elles na cabana.
“Filho de Citheréa, accrescentárão
Depois os Deozes, da-lhe o teu retrato
Em filhos, e uma filha irmã das Graças,
A fim que em seu crepúsculo da tarde.
O velho inda se alegre, e abrace esp’ranças:
Da-lhe prole, o fada-la a nós pertence.”
E Amor lhe déra prole, dois meninos
Seu retrato, e uma filha irmã das Graças.
Ja rosas de abril decimo florecem
No semblante de Silvia; um anno a vence
Titiro; e vence a este um anno Alexis.
Menalca, em juncos molles estendido,
Tem da esposa no candido regaço
Como em ninho amoroso a branca fronte:
Pelas feições transpira-lhe bondade;
O mistico luar o diviniza.
Dafne o contempla muda, e niveos dedos
De afagar umas cãs sentem vaidade.
Elle a querida mão colhe entre as suas,
Beijada a achêga ao rosto, os fracos olhos
Derrama pelos céos alumiados,
E fitando-os na lua “Olhai, meus filhos,
Olhai, disse elle, como brilha a lua!
Que suavidade e paz não côa ao largo
O astro das noites! como attráe da terra
Nosso espirito humilde a pensamentos
De outro mundo melhor, mansão de Deozes!
Que esp’ranças, de saudades misturadas,
Não traz a pura noite ás almas puras!
Dias que em vão suspiro, amenos dias
Da minha mocidade...! agora jazo
Como arvore das folhas despedida,
Que mais não florirá, porque o machado
Ja lhe abrio marca para se ir ao fogo.
Então era eu cantor chamado ás festas,
E afamado por longe entre os cantores
Na frauta e no rabil, porque os meus cantos
Erão sempre á Virtude e á Natureza.
Por uns serões assim, como acodião
Todos a ouvir-me! As Ninfas era fama
Que descião do bosque, e pelas sarças
Vinhão pôr mais de perto o ouvido á escuta:
E os ventos se detinhão, recostados
Aos duros troncos, sem bolir co’os ramos.
Té dizião que a frauta, em que eu tangia,
O benevolo Pan ma déra em sonhos.
E ora jaz, annos ha, de pó coberta!
Em tôrno ao meu fogão ja não se apinhão
Os pegureiros a aprender-me os cantos,
Meu cabello nevou, nevou minha alma.
Ah! se não fosseis vós, Dafne, meus filhos,
Vivido tenho assaz, pedíra aos Numes
Tornar a ver meus pais n’outras cabanas,
Onde he perpetua a luz, e a eternidade
Uma estação de musicas e flores.
Quando eu la renascer á vossa espera,
Á tua espera ó Dafne, á vossa ó filhos,
Resurgirá comigo a minha frauta;
E com ella enganando aquella ausencia,
Penosa até no Elisio, em versos novos
Louvando os Immortaes, e eterno eu mesmo,
Pedir-lhes-hei comtudo que só tarde
Vos levem para mim; que vos derramem
De virtudes e bens copiosas bençãos
Sempre n’esta cabana, onde hei nascido;
E que no meu sepulchro o passageiro
Diga parando—Ó bom pastor Menales,
Leve te seja a terra, e tu contente
Porque os teus filhos te excedêrão todos.”
Aqui sentio caír na fronte calva
Uma calada lagrima, e doeo-lhe
Ter nublado o prazer de seus Penates.
Senta-se, alegra o rosto, enchuga os olhos;
E unindo ao seio a esposa “Ouvi meus filhos:”
O cantar diz co’a noite, agrada á lua,
Contenta á vossa mãi. Cantai louvores
D’este suave Abril; nunca em meus versos
Deixei de o celebrar, quando era moço.
Os pastores de outr’ora Abril sagrarão
A Venus, graciosa Mãi de tudo.
Vede-a n’aquella estrella estar sorrindo;
As glorias do seu mez são glorias d’ella.
Alexis, principia, eu te acompanho
Co’a tua mesma frauta; os sons da frauta
Dão como vida ás solidões da noite.
Seja a toada a que inventei (quão lédo!)
No dia que nasceste, e a nossos olhos
Se doirou de alegria esta cabana:
Bem a sabes, começa, e Pan te ajude.
ALEXIS.
Eu amo o verde Abril, porque he formoso,
Todo está chêo de arvores vestidas.
TITIRO.
Eu amo o alegre Abril, porque he sonoro;
Vem cantado por bandos de avesinhas.
SILVIA.
Eu amo o rico Abril porque he cheiroso,
Espalha em cada prado um mar de flores.
ALEXIS.
A folhagem traz sombra, as sombras trazem:
Seus folgares da sésta á gente grande,
E a nós para brincar franca licença.
TITIRO.
As aves são dos ares alegria;
Chamão na madrugada os preguiçosos,
E divertem na lida aos lavradores.
SILVIA.
Flores dão côr á terra, e cheiro ás auras;
Flores são mãis da fruta; os Deozes rindo
As crearão, e rindo acceitão flores.
ALEXIS.
O Pan que está na gruta do arvoredo
Não pára senão lá, por mais que o mudem;
Sinal que um bosque e a sombra apraz aos Deozes.
Tudo ali he formoso á maravilha!
Por baixo a fresquidão, por cima o verde;
A terra de reflexos variada;
O této sonoroso e movediço;
Mais alto, o ceo azul, dado ás amostras.
E que direis do rio entre arvoredos?
¿Como se pintão na agua aquellas folhas,
E o vento que as revolve, e as pombas alvas
Pelos ramos, e um sol desfeito em muitos?
Parece que no fundo do remanso
Tem Pan outro arvoredo, igual em tudo.
Quando hoje eu lá passava, a Pan dei graças,
Porque achei que um tal sítio encantaria
Ó meu Pai, teus passeios solitarios.
TITIRO.
Fonte como a das Náiades nenhuma:
Cantão-lhe em volta passaros sem conto;
Sinal que o bando alado apraz ás Ninfas.
Por ali me regala ir espreitando
Tantos ninhos por entre tantas folhas.
Admiro a perfeição d’aquelles berços,
E o tino com que os pobres de uns brutinhos
Os souberão livrar a soes e a chuvas:
Aqui uma avezinha inda sem pennas,
Outra a romper da casca; alem uns ovos
Branquejão d’entre o musgo, e ja palpitão;
Se os tóco, sinto dentro o passarinho,
E fujo com temor que a mãi o engeite.
¡Ver as mãis vir do pasto alvoraçadas,
Darem o almoço aos filhos que pipilão,
E co’as azas e peito agazalha-los!
E ver logo os maridos tão contentes
A gorgear-lhe á roda! o porque o fazem
Mal sabeis vós; cuidais que he diverti-las!
Oh que não: he ja dar lições e exemplos
De canto aos filhos seus: não de outra sorte
O nosso pai nos ensinou seus versos.
SILVIA.
C’roas frescas de rosas cada dia
De Citheréa ás portas amanhecem;
Sinal que a Citheréa aprazem flores.
Todo o anno era Abril se eu fôra a Deoza!
Nunca no meu altar e ás minhas portas
Faltarião montões de flores frescas.
Todas só para ti as cobiçava,
Ó minha mãi: com ellas te enfeitára
Cada hora do dia; cada noite
As renovára ao leito onde tu dormes;
Não porias teus pés senão em flores.
Se o passageiro ás vezes me pergunta,
Quando me encontra á borda do caminho,
“Quem he a tua mãi?” eu lhe respondo
Chêa de gloria “A minha mãi he Dafne!”
Hontem de tarde o graciosa Amintas,
O pobre guardador das duas cabras,
Quando o meu pão lhe dei pedio-me um beijo,
Chamou-me bella, e disse que o meu rosto
Era como o de Dafne, ou como as rosas.
Sendo assim, bella sou, que outra pastora
Igual a minha mãi não ha na aldea,
Nem flor em todo o mundo irmã da rosa.
ALEXIS.
O vizinho Milão, que hoje he tão rico,
Não tinha mais que uma arvore, e de terra
Só quanto aquella sombra lhe cobria.
“Corta-a Milão, dizião-lhe os pastores,
Alegras teu campinho, e terás lenha
Para aquecer a choça um meio inverno”—
—“Eu? respondia o triste, eu pôr machado
Na boa da minha arvore? primeiro
Me falte lume alheio o inverno todo,
Que eu mate a que a meu pai ja dava séstas;
A que de meu avô me foi mandada,
Que a não poz para si; e a que nos braços
Me embalou tanta vez sendo menino.
Os Deozes a existencia lhe dilatem,
Que assim lhe quero eu muito, e o meu campinho
Produza o que podér, que eu sou contente.”—
Sorrião-se os pastores; o carvalho
Cada vez mais as sombras estendia,
E Milão de anno em anno hia a mais pobre.
Lembrou-lhe um dia, em bem, que uma videira
Plantada a par com o tronco, o enfeitaria,
E os cachos pendurados pela cópa
Lhe darião tambem sua vindima:
E eis que ao abrir a cova, acha um thesouro!
Desde então ficou rico, e diz-me sempre,
Que os Deozes immortaes lhe hão dado em prémio
Por amar suas arvores. He elle
Quem mas ensina a amar, são d’elle os versos,
Com que ao bosque de Pan cantei louvores.
TITIRO
Deozes, tocai o peito de Mirtilo
Porque não sáia máu quando fôr grande.
Hoje, entrando na mata, o vi la dentro
Andar armando aos passaros. Que pena,
Disse em mim; não ser passaro um momento;
Não poder ir correndo o bosque aos pios,
E dizendo em cada arvore “Cautella
Meus irmãozinhos do ar; vejo inimigo;
Não saiaes; o inimigo anda no bosque...!”
Paciencia, assim mesmo hei de acudir-lhes.
Vou-me por entre as moutas rastejando
Até ao ouco e immenso castanheiro,
Que abre em seu tronco uma portada de heras,
E se nomêa a casa de Silvano.
Trepo, e dentro me escondo: os meus vizinhos
Lá por cima na cópa papeavão,
Cuido que adivinhando o que eu faria.
Encósto a boca á fresta carcomida,
Que está fronteira ao portico da entrada,
E clamo em rouca voz “Pára Mirtilo.”
Parou, ergueo-se, e poz-se a olhar em roda;
Vendo tudo em socego ás redes torna.
Com voz mais estrondosa e mais horrenda,
Torno-lhe eu a bradar “Mirtilo pára.”
Não esperou terceira: arroja tudo,
Salta, vôa; oh que riso! uns echos fêos
Lhe hião gritando apoz “Mirtilo pára.”
Somio-se; á terra pulo, espreito o mato,
Acho as redes, os presos sólto, os mortos
Levo-os onde ôlho de ave os não descubra:
Encho-as de pedras, na torrente as lanço,
E corro a procura-lo—“Oh tu não sabes,
Lhe digo, de que morte escapo agora!
Não te engano, era um Deos, vi-o eu, rangia
Os dentes, bracejava uma alta fouce,
Vinha a saír das sombras do arvoredo;
Vio-me e gritou me “Pára” eu páro e chóro.
—“Es tu que andas armando ás minhas aves?
Pois eu vou dar-te o ensino; as tuas redes
Ja te lá vão por esse rio abaixo,
E agora has de ir tu morto á caça d’ellas.”—
E então vem para mim, co’a fouce aos lanços
Cortando pelo ar—“Bom Deos, perdoa,
Lhe grito a soluçar co’as mãos erguidas,
Eu sou Titiro, o filho de Menalca,
As tuas aves amo, e temo os Deozes:
Eu redes, eu caçar!”—“Estou perdido!
Disseste que eu ... Mirtilo me interrompe.”
—“Não, Mirtilo, socega, eu não lho disse,
Nem sabia que tu ... fallemos baixo
Que nos não ouça o Deos. Olha, este p’rigo
Passou, mas outra vez não te aventures,
Que eu bem sei como o vi, não te perdoa.
Deixa ás pobres das aves innocentes
Divertir-te e cantar; nada mais querem;
Não tens razão, não teus de as perseguires.
Quanto ás redes, eu quero consolar-te:
Ouve Mirtilo, acceita este cestinho
De cana entretecida em juncos verdes,
E este meu cajadinho em boa altura
Liso, airoso, e sem nós.”—Assim dizendo,
Enfiei-lhe no braço o meu cestinho
De cana entretecida em verdes juncos,
E entreguei-lhe o cajado. Então Mirtilo
Me abraçou, e saltando de contente,
Jurou-me nunca mais armar ás aves.
SILVIA.
Glicera por vaidosa he que ama as flôres:
Apanha-as para si não para os Deozes,
Não lhas merece a Mãi e alcança-as Mopso.
Quando em nosso jardim vejo Glicera,
Ja me eu ponho a tremer: corta as melhores,
He seu costume; enfado-me, sorri-se;
Chóro, ri-se; e enfeixando-as, me repete:
“Que te servem por ora estas floritas?
Deixa passar mais cinco primaveras,
E então sim, nem mais uma hei de furtar-te;
Pois sei te hão de servir quaes me hoje servem.”
Coitado de quem he como eu menina,
Que se manda esperar por primaveras!
Que podia eu fazer? queixei-me ás Ninfas.
Hontem, ja pôsto o sol, quando erão horas
De logo vir Glicera, a presumida,
Que furta e vai cantando; ajoelhei-me
Co’as mãos póstas por entre as minhas flôres.
E disse: “Como as arvores tem ninfas,
Que lhes morão la dentro e as aviventão,
Ha ninfazinhas a velar nas flores.
Ninfazinhas das flores, escutai-me:
Se a rega, com que as folhas aquecidas
Vos refresquei ha pouco, vos foi grata,
Olhai por vós, fazei com que Glicera,
Como eu vos vi e ouvi, vos veja e ouça;
Apparecei-lhe como a mim, por sonhos,
Vestidas de mil côres, perfumadas,
Pequenas, mui mimosas, e só outras
Em não mostrar-lhe a ella um ar festivo.
Dizei-lhe como os Deozes vos crearão
Para amores de zefiros, recreio
De borboletas e olhos, e formosas
Copeiras do formoso mel doirado:
Dizei-lhe que tão bella e curta vida
Não se deve encurtar, que as deshumanas
Tem máo fim, que apezar de passageiras,
Ninfas sois, e o Destino ha de vingar-vos:
Que se tornar sacrílega a colher-vos,
Vossos fragrantes ultimos suspiros
Seráõ de queixa aos ceos, e antes de tempo
As rosas no seu rôsto hão de murchar-se.”
Como eu isto dizia, entrou Glicera:
Murchas trazia as rosas de seu rôsto,
Não rio, nem colheo nada, e suspiráva.
Penada de a assim ver, beijei-a, e disse:
“Se alguma d’estas flores te contenta,
Eu mesma a vou cortar.”—“Não (me responde)
Ja não quero mais flores, Mopso ingrato
As que ultimas lhe dei deo-as a outrem:
Como as flores me engeita hei de engeita-lo.”
Ao que eu logo acudi—“Vês tu, Glicera,
Fallei verdade ou não? nascem as flores
Só para as nossas mãis, e para os Deozes,
Da-lhas tu, e verás se hão de engeitar-tas.”
MENALCA.
Basta meus filhos, basta; não ha sombras
Tão gratas no verão, cheiro de flores
Tão suave, ou tão ledo canto de aves,
Que me recrêem como os vossos versos.
Vinde, vinde, abracemo-nos, ó filhos:
Dei-vos eu a doutrina; engenho os Fados;
Mas os Deozes virtude: alcatifais-me
De bem viçosa esp’rança o meu declivio:
Dais-me o que nem pedir ouzava aos Deozes.
Antevejo a florir-me a sepultura ...
DAFNE.
Entremos na cabana: aquella nuvem
Quer encobrir a lua; ergueo-se o vento,
Não tarda muito algum ligeiro orvalho.