FIM DA FESTA DE MAIO.
CANTO I.
Pag. 204. verso 4.º
Como das bagatelas que forçadamente tenho semeado por alguns d’esses Jornaes, que he o mesmo que escrever em folhas e atira-las ao ar, algumas haja que não mereção de todo perder-se, estas me pareceo i-las recolhendo a meus livros, por qualquer modo que fossem achando cabida, para não ser como a Sibilla de Cumas, que em uma vez se lhe desmandando com os ventos as folhas que tinha escritas, ja para sempre tirava d’ellas o sentido: neo ponere in ordine curat. Por isso traslado do Num. 3 do Jornal dos Amigos das Letras, todo o seguinte Artigo[15].
Antonii Feliciani de Castilho,
GALATEA: CARMEN.
Advertencia Preliminar
O fragmento latino que se vos offerece, sob o titulo de Galatea, he huma tentativa e nada mais: e quem mo quisesse haver a ostentação, não só mostrára quam pouco me conhece, mas ainda com atrocissima injúria me aggravaria. Discorridos são hoje mais de dez annos, depois que, desejoso de refrescar lembranças de conhecido com as Romanas Musas companheiras e alegria de minha infancia, me dei ao passatempo de metrificar em latim, ja os pensamentos que primeiros me occorrião, ja algum episodio de minhas proprias obrinhas; sendo assim, que esta fabula de Galatea a trasladei do Poema da Festa de Maio, no meu livro da Primavera. Sei bem que não ha hoje, e especialmente por cá, leitores para o latim, sendo a final chegado o prazo de, com razão e sem o mínimo escrupulo, se poder chamar tal lingua morta e enterrada: sei mais que, inda mal, não respondem estes meus versos ao que eu anciára que elles fossem, e nem valem mais que uma boa parte dos ahi impressos na custosa Coléção de Poetas do nosso Padre Reis; e com tudo, a despeito d’estas duas tão fortes razões, e tão valentes para me deverem dissuadir, convim em que tão pobre couza se désse á estampa. Será, segundo muitas vezes se escreve em Prologos, para incitar engenhos a fazerem melhor? não. Pois será, como tambem em Prologos se usa de escrever, para que os Aristarchos me ensinem o que, o como, e o por onde devo corrigir e melhorar? menos; que não sei eu de um só que se hoje occupe com semelhantes vaidades. Como por tanto me livrarei da desmerecida taxa de presunçoso? confessando, como tambem em Prologos se costuma, mas d’esta vez com verdade, que o faço por obedecer a dezejos de pessoa, com quem muito me importa estar em tudo bem.
CANTO II.
Pag. 237. versos 15 e 16.
A questão, se sim ou não se ha de o homem alimentar de substancias animaes, tem sido muitas vezes, e com oppostas sentenças, debatida por filosofos, poetas, naturalistas e medicos. A affirmação e a negação achárão para argumentos ja uso e consenso de povos em todos os tempos, ja razões intrinsecas tiradas de nossa propria conveniencia. He assunto que requeria larga escritura, e em que a qualquer seria facil dissertar eruditamente. Voar-lhe-hei pelas summidades.
Aquella vaga tradição, que em toda a parte permanece, de uma primitiva idade do mundo innocente e felicissima, entre as couzas de que reza, aponta sempre o não se comer de animal algum, senão só de frutas, hervas, leite e mel. De outro modo se não podião sustentar, conforme parece pelo ancianíssimo Genesis, os moradores do Paraizo, não só homens, porem todos os viventes. Quadrava o preceito e toava o uso pelo menos á humana natureza, que ainda agora, se a bem espreitarmos na infancia, ou antes de alterada por contrarios habitos, se afflige e revolve com o aspéto do sangue e morte. Verdade he, que depois da queda de nossos primeiros pais, nem o Testamento velho nem o novo, tornão a prohibir as carnes; mas toques da mesma nativa compaixão para com os animaes não lhes faltão, dos quaes pelo menos se deduz por bom discurso, que se os tivermos de comer, ainda ahi nos devemos haver com a possivel mansidão, poupando cruezas escuzadas, como são, e se costuma, atormenta-los na agonia por lhes refinar o sabor, caçar, montear e pescar por passatempo e pelo mero gôsto de malfazer. Lê-se nos Proverbios, segundo as versão dos Setenta: Justus miseretur animas jumentorum suorum; viscera autem impiorum crudelia.—O que justo fôr ha de se apiedar da condição dos seus brutos; mas as entranhas dos impios não se apiedão da nenhuma couza.—No Exodo: Non coques hædum in lacte matris suæ.—Não cozas o cabrito no leite de sua mãi.—He dito para ser ruminado, pelo mimoso do afféto que recende. No Deuteronomio: Si ambulans per viam, in arbore vel in terra nidum avis inveneris, et matrem pullis vel ovis desuper incubantem, non tenebis eam cum filiis sed abire palicris, ut bene sit tibi, et longo vivas tempore.—Se o acaso te deparar no caminho, quer em arvore quer no chão, um ninho de ave, e a mãi estiver a agazalhar os filhos ou os ovos, não a tomes com os filhos, senão que em boa hora a deixes ir, para que boa estrêa te venha, e vivas largos annos.—
Entre os Santos Padres, que são os depositarios e dispenseiros do espirito christão, alguma couza se podéra citar que autorizasse este genero de piedade. Sabida he a de que usou S. Anselmo, uma vez para com uma lebre, outra para com um passarinho. Tertulliano se maravilha de que entre christãos, os haja que se accommodem a ser carniceiros: nescio an dolendum an erubescendumn sit;—não sei, diz elle, se mais he para se haver lástima, se vergonha. S. João Chrisosthomo escreva, que se não podia ser santo sem uma estremada suavidade de affétos, e muita vehemencia de bem querer, não só aos nossos, mas ainda aos estranhos, em tanta maneira que até aos brutos animaes abranja essa mansidão. (Homil. 29. na Epist. ad Rom.) E dizia bem, que nas vidas de não poucos santos resplandecem as provas. S. Francisco de Assiz resgatava os cordeiros que hião para o córte, pagava e soltava as redadas dos peixes e os viveiros das aves. Mas não apontemos mais, por não enjoar filosofos, digo filosofos de nossa terra, dos que nos assoalhão filosofia de torna viagem, porque os lá de fóra ja deixarão muito para traz a impiedade.
Não he porem necessario ser christão, senão que basta ser homem, para repartir com os brutos do thesouro da charidade, de que muitos d’elles usão a seu modo, não só para com os seus, mas para comnosco. Sendo assim que onde os não maltratão, são elles de indole muito mais benigna: em Inglaterra, segundo se diz, nem ha cão que ladre, nem besta que escoucinhe: em não sei que ilha dezerta, acharão os primeiros descobridores, em aportando, (segundo encontrei na Escolha de Viagens por John Adams) serem tão cortezes as aves de que toda era chêa, que não fogião dos novos hospedes, antes os festejavão e se deixavão pôr a mão; semelhantemente ao que da ilha das Garças aponta João de Barros Dec. 1 Liv. 1 Cap. 7, aonde “como não erão traquejadas de gente (as garças e outras aves), ás mãos tomarão (os marinheiros de Nuno Tristão) tanta quantidade d’ellas, que ficou por refresco ao navio.” Dos leões he corrente entre os naturalistas não perseguirem, mas esquivarem-se dos perseguidores, embrenhando-se cada vez mais pelos seus sertões adentro, sendo alias mui leves de domesticar, e folgando de acompanhar, como rafeiros innocentes, a trôco de qualquer esmola de pão, por largo espaço de leguas. Muitas são em toda a parte, mormente em Africa, as serpentes, que namoradas do bom gazalhado, trocão seus matos pelas pouzadas humanas, e n’ellas se hão como boas comadres da familia. O cavallo do Arabe he o contubernal e primeiro amigo de seu dono: um bom Arabe na morte do seu cavallo deveria de se expressar pouco mais ou menos como Millevoye o suppoem na Elegia. Muitos prezos tem logrado domesticar aranhas e ratos, até o ponto de, no meio das asperezas de um segredo, se poderem esquecer por muitas horas do seu desamparo, crueldades e injustiças humanas. No páteo da rezidencia parochial de S. Mamede da Castanheira do Vouga, todos os dias a horas certas viamos acudir ao almoço e cêa que ás nossas pombas desparriamos, todos os passarinhos da vizinhança, que ja traziamos tão correntes, que nos vinhão comer aos pés, por saberem (porque os brutinhos sabem muito mais do que nós outros cuidâmos) que n’aquella cazinha da solidão moravão amigos seus, e nunca terem ouvido tiro, nem enxergado rede no pequeno arredor do templo e passaes solitarios.[16] Se a tudo isto e a muitos outros exemplos se lançar conta, alguma verdade se achará no affirmarem poetas, que no discaír da idade de oiro, ao mesmo tempo que se os homens corromperão degenerando em crueis, se forão as feras tornando bravias e desabridas.
Em todos os tempos, e até por fóra e mui longe d’esta religião charidosa, houve quem bem entendesse como entes nossos conterraneos n’este orbe, irmãos nossos em viver, sentir, padecer e acabar, com sangue e coração como nós, com amor, prazeres e filhos como nós, bebendo como nós no immenso vaso do pai commum o mesmo ar, a mesma luz, as mesmas aguas, e comendo comnosco á mesma mesa do universal banquete, poderião quando muito servir-nos de pasto; mas fóra d’ahi, qualquer injúria que se lhes accrescentasse, seria hortorosa profanação e violação da natureza. Plutarcho e Quintiliano referem, que os Athenienses castigarão severamente algumas sevicias commettidas contra animaes. O Alcorão espalhou por todos os povos, que largamente senhorea, muita d’esta benignidade: raro Mahometano deixará de matar a fome ao cão de seu inimigo. Na China passa esta beneficencia muito adeante. Que no-lo diga em seu estilo chão o nosso Fernão Mendes, ou talvez o Jesuita que em seu nome, e por um modo tão rijo de crer, compilou tantas e tão preciosas noticias do Oriente, mui desacreditadas em tempo, ja hoje em parte mui abonadas de verdadeiras. Padre ou marinheiro, diz assim: (falla de uma feira que no rio de Batampina, em caminho de Nanquim para Pequim, se faz com mais da duas mil ruas de barcaças, nas quaes ha para vender tudo a que no mundo se pode pôr nome.) “Ha tambem outras embarcações em que os homens trazem grande soma de gayolas com passarinhos viuos e tangendo com instrumentos musicos dizem em voz alta á gente que os ouve, que libertem aquelles cativos que são criaturas de Deos, a que muita gente acede a lhes dar esmola com que resgata daquelles cativos os que cada um quer e os lança logo a avoar, e toda a gente dando hũa grande grita lhe diz, pichau pitanel catão vocaxi, que quer dizer, dize lá a Deos como cá o servimos. Ha outros homens que noutras embarcações trazem grandes panellas cheyas de agoa, em que trazem muitos peixinhos viuos que tomão nos rios nũas redes de malha muyto miudas, tambem pela mesma maneira vem bradando que libertem aquelles cativos por seruiço de Deos que são innocentes que nunca peccarão, a que tambem a gente dando sua esmola, comprão daquelles peixinhos os que querem e os tornão logo a lançar no rio, dizendo, vayte embora, e lá dize de mym este bem que te fiz por seruiço de Deos. E estas embarcações em que estas cousas se trazem a vender não se hão de contar por menos soma que de cento e duzentas para cima.”
Na India são n’esta virtude extremosissimos. Alguns viajantes tanto encarecem a couza, que chegão a affirmar haverem por lá, ainda no seculo passado, hospitaes para as mais asquerosas sevandijas, como piolhos, pulgas e persovejos.
Pôsto que tudo quanto até aqui tenho trazido, possa parecer uma diversão do principal propozito, não o he, por quanto d’estes misericordiosos affétos he que se tem em parte derivado a abstinencia de carnes, observada por muitas pessoas, communidades, seitas e povos: em parte digo, porque em outros diversos fundamentos tem tambem estribado, como veremos.
E pois que a ultima que tocámos foi a India, a ella tornemos, levando por explorador e lingua, não algum estrangeiro, de que outros se contentão mais, mas um patricio nosso, dos varios que para tal officio se podérão tomar: he Duarte Barbosa, e diz:
“Ha neste regno (de Guzarate) outra sorte de Gentios, que chamaom Bramanes, estes nom comem carne, nem pescado, nem nenhũa cousa que mora, nem mataom, nem menos querem uer matar, por asy lho defender sua idolatria; e guardaom isto em tamanho estremo que he cousa espantosa, porque muytas uezes acontece leuarem-lhe hos Mouros bichos, e pasarinhos uiuos, e fazerem que hos querem matar perante eles, e estes Bramanes lhos compraom e resgataom, dando-lhe por eles muyto mais do que ualem, por lhe saluarem has uidas, e soltalos. Se tambem El Rey, ou ho gouernador da tera, tem algũu homem, porculpas que cometese, julgado ha morte; ajuntamse eles, e compramno ha justiça, se lho quer uender, pera que nom mora; e tambem algũus Mouros pedintes, quando querem auer esmola destes, tomaom muy grandes pedras, e daom com elas emsima dos ombros e barigas, como que se querem matar perante eles, e porque ho nom façaom, lhe daom muytas esmolas, e que se uaom em pas; outros trazem faquas, e daom-se cõelas cutiladas pelos braços e pernas, e pera se nom matarem lhes daom muytas esmolas; outros lhe uem has portas ha querer lhe degolar ratos e cobras, ha hos quaes eles daom muyto dinheiro por ho nom fazerem, e desta maneira saom dos Mouros muy apreciados: estes Bramanes se achaom no caminho algũu golpe de formiguas, aredam-se buscando por honde pasem sem bas pisarem. E em suas casas de dia çeaom; de dia nem de noyte acendem candea, per caso de algũs mosquitos nom irem morer no lume da candea; e se todauia tem grande necesidade de acenderem de noyte, tem hũa alenterna de papel ou de pano agomado, pera cousa nenhũa uiua poder ir morer dentro no fogo; se estes criaom muytos piolhos, nom hos mataom, e quando hos muyto aqueixaom mandaom chamar hũs homeins que antre eles uiuem, que tambem saom gentios, e eles hos haom por de santa uida, e saom come irmytães, uiuendo em muyta abstinença por reuerencia dos seus Deoses; estes hos cataom, e quantos piolhos lhe tiraom poemnos em suas cabeças, e hos criaom com suas carnes, em que dizem fazerem muy grande seruiço ha seu Idolo, e asy guardaom hũus e outros com muyta temperança ha ley de nom matarem: estes Gentios saom muy delicados e temperados em seu comer; seus manjares saom leites, manteiga, açuquar, e aros, e muytas conseruas de diuersas maneiras; seruem-se muyto de cousas de fruyta e ortaliça, e deruas de campo pera seus manjares; honde quer que uiuem tem muytas ortas e pomares.”
Na Historia de Mysore, lê-se que em Bengala, quando a violencia da fome a devastou em 1774, consumindo-lhe obra de trez milhões d’almas, forão em muito grande numero os Indios que antes quizerão deixar-se morrer á mingoa, do que acabar comsigo comer carne de animaes.
Frequente e antigo he na India este antojo, e tão notorio, que não ha porque afogar o discurso com mais exemplos. Bem podia proceder isso em parte da vegetavel abundancia e espantosa cultura d’aquellas terras, e de alguma especial compleição do clima, ou natureza ou costumes dos moradores, ou algumas outras circunstancias, segundo as quaes os corpos se dessem melhor com os pastos leves e frugaes: viria depois a religião consagrar por dogmas seus os conselhos da higiene, como com vinho, toucinho e abluções aconteceo em muito oriente á conta da lepra: para melhor incutir o preceito, cerca-lo-hia de fabulas amigas da imaginação do vulgo, como a encarnação dos Deozes em corpos de brutos, e a transmigração das almas humanas por differentes sortes de viventes até parar na vacca; materias estas de que as historias e perigrinações fazem larga menção. Dos Indios podérão tomar por mão a crença os Egipcios, os quaes, sendo moradores de solo não menos liberal, devião tambem perdoar grandemente aos animaes, em quem reverenciavão suas Divindades, ou santuarios ambulantes que d’ellas forão: e confirma-me na suspeita a conveniencia, que ja de alguem deverá ter sido notada, do boi Apis do Egito com a vacca ainda hoje sagrada dos Indios. Do Egito provavelmente trouxe Pithagoras para a Italia, em tempos de Numa ou Servio Tullio, a sua metempsícosa com a defensão do uso das carnes. Não pegou a invenção, se não foi em alguns escolares fanaticos de tamanho mestre; e nem filosofos pelo tempo adeante a sustentarão, nem poetas se valerão d’ella, afóra Ovidio nas metamorfoses, e só como narrador; e mais não deixava de ser fecunda e bem assombrada crença para poesias. Não pegou, porque não vinha propria á indole do solo ou ao temperamento dos Italos, ou, o que he mais certo, porque encontrava os antiquissimos usos de umas gentes, que primeiro tinhão sido pastoras e depois guerreiras.
Na Ilha da Palma, acharão os nossos, quando descobrião, conquistavão e amansavão aquelle archipelago, (senhorio traspassado depois em Castella, mas padrão glorioso do nosso Infante D. Henrique) serem mantimento dos moradores hervas, leite e mel.—Com este particular exemplo me acóde a memoria, mas alguns outros semelhantes de outras ilhas me parece ter achado pelas historias, de que me não ficou nem fiz a lembrança preciza.
Com a propagação da fé christã renasceo religiosa a abstinencia na Europa, por motivo não de brandura, mas de mortificação. Apparecerão Ordens numerosas de religiosos, primeiro só de homens, logo tambem de mulheres, que renunciando todos os carnaes deleites para melhor apurarem os do espirito, tomando o exemplo dos primitivos eremitas que se abastavão com as hervas, raizes, frutas silvestres, e aguas dos montes, não só cortarão pelas demazias na quantidade do sustento, não só o estreitarão com regra de jejuns, mas em varios de seus institutos o expurgarão de todo animal terrestre ou volatil, não consentindo, quando muito, senão em algum marisco secco e fraco, para regalo das festas. E he para notar como ainda os mais rígidos observantes logravão saude inteira e robusta, e chegavão ao ultimo fio da velhice: mens sana in corpore sano.
Annos ha que me recordo de ter achado em uma Gazeta de Lisboa, estar-se creando em Manchester uma seita, que por filosofica defendia tomar qualquer sustento animal. Era noticia de Gazeta, não affirmarei que tivesse pé, e se o teve, não sei em que parou.
Ja que estamos com Inglezes, fallemos de Franklin. Este homem, a quem a probidade e o juizo fizerão filosofo e liberal, e não a devassidão e o estouvamento, tendo lido, di-lo elle, o livro em que Tryon recommenda a dieta vegetal, determinou-se em a observar. Pô-lo por obra, e limitando-se em arroz e batatas, e ás vezes ainda em menos, como passas, bolaxa ou pão, com uma gota de agua, não só forrou do seu salario (era ainda então compositor de imprensa) com que poder comprar livros, mas do seu tempo acerescentou para estudos o que as refeições e digestões lhe podérão consumir: fez progressos proporcionados á clareza de ideas e fortaleza de percepção, que são o fruto da temperança no comer e beber. Seguio constante por algum tempo, não pouco, até que chega á ilha de Block, assiste a uma pesca, revolvem-se-lhe nas entranhas as maximas do seu Tryon, dá por genero de assassinio aquelle matar viventes, que nem tinhão feito nem erão capazes de fazer o mínimo mal. Poem-se os mortos ao lume, recende o guizado; o filosofo no seu tempo gostára apaixonadamente de peixe; entra pelo nariz a tentação, estremece a filosofia, e em boa hora lhe acode com uma bulla de composição, lembrando-lhe como ao abrir e limpar d’aquelles peixes, lhes víra dentro do buxo outros peixinhos mais pequenos. “Pois que he isto, diz elle entre si, se vós uns a outros vos comeis, porque não hei de eu tambem comer-vos a vós?” N’essa hora e com esta palavra se lhe quebrou o fadario; o que muito bem prova, acrescenta o bom homem, sermos nós animaes racionaes, sabendo, como sabemos, achar pretextos plausiveis para quanto nos póde dar gôsto.
Outro autor muito afamado de nossos dias, Raynal, era igualmente sobrio. A Senhora Marqueza d’Alorna, que muitas vezes o teve a jantar, me contou, que nunca o víra comer mais que algumas poucas hervas e fruta, nem beber senão agua. Era, observava ella, como um conviva das Ninfas, custando a crer como com aquellas refeições de idillio se podessem sustentar tantos nervos d’alma e de pensamento.
Se depois de autores de livros se póde citar quem não sabe ler, em Grada, lugarejo da Bairrada, vivia um moço que eu conheci, o qual nunca provára vacca. Perguntado a causa, não era religião, nem filosofia, nem tedio natural, mas effeito de um vehementissimo e entranhado amor que tinha aos bois, com quem se creára, com quem vivia, lavrava, e dormia paredes meias. Rústico era, e sem o cuidar discorria e fallava como o Sabio de Cheronea, quando dizia, que por tudo quanto o mundo tinha, não venderia nunca o boi que em seu serviço envelhecêra.
Afóra os monges, filosofos e amigos dos bois, ha ainda uma grande quantia de homens, puro comedores de vegetaes em quasi todo o anno: são os moradores das serras e aldêas pobres, a quem a estreiteza de sua fortuna mal dá licença para chegarem á carne por entrudo e paschoa, e poucas mais vezes e só escassissimamente, ao pescado, vizita mui rara em terras mesquinhas do sertão. De choupanas sei eu, e quasi de inteiros lugares, pelas abas da Serra do Caramulo, onde oito annos vivi, que de pouco mais se sustentão que do pão de centeio e milho, batatas e alguns legumes: e estes asperissimos banquetes, em que até pelo demais fallece o agro vinho verde de seus montes, trazem-os comtudo mais rijos e sãos no trabalho, do que as grandes ucharias aos mimosos das cidades.
Acabarei estes exemplos com o que melhor conheço, que he o meu. Quando eu compuz estes versos da Festa de Maio, era como ja no Ante-Prologo disse, todo Gessnérico: trazia a alma toda a nadar no coração empapado com os mais brandos affétos do mundo, como rosa a boiar em vaso de leite: amava as plantas e tratava com ellas como com entes sensitivos; todos os entes sensitivos amava-os como amigos e companheiros: tinha fantasia pronta, que muito ajuda em todo o genero de bem querer; esta me revelava de contínuo e me ataviava de suas fabulas e côres a particular vida e cheíssimo mundo de cada inséto; e porque esse seu mundo e vida dizia tanto com o meu, e o commum de seus substanciaes interesses com o commum dos substanciaes interesses dos homens, acontecia que imaginando-me ora grilo, ora passaro, ora borboleta, tinha aprendido uma perfeita, e se dizè-lo posso, egoista charidade para com todos elles. Ouvi debater a questão do uso das carnes: as razões affirmativas podião ter mais fôrça, mas as negativas dizião com o meu gôsto; he meia persuasão; caírão-me tão bem, que logo me dei, se não por convencido, por persuadido: e como persuadido e convencido escrevi os versos, que por isso aos indifferentes se de contrária sentença, devem parecer, como em verdade são, sobejos, exagerados e declamatorios.
Era o escrito fruto de minha opinião; mas esta, como accontece, se roborou por elle, e até tal ponto se confirmou, que do que até alí não passára de poetica theoria, instituí fazer prática minha em toda a vida, renunciando qualquer genero de alimento animal. Por duas vias se fazia de mal o tenta-lo, ja porque em couza tão excetuada do geral não deixarias de caír estranhezas e zombarias, ja porque tanta sobriedade entre quem a não usava, era genero de martirio continuamente renovado. Mas contra estes dois contrastes prevalecião outros dois argumentos: primeiro, minha consciencia, que repugnava banquetes de sangue: segundo, o presuposto em que estava, de que as faculdades da alma se havião de adelgaçar e crescer onde o corpo fosse favorecido da parcimonia. Metti-me Pithagorico aos vinte e trez d’Agosto do anno de 1822, tendo sido gastos os mezes, que desde a feitura do poema decorrerão até esse, em acabar de me resolver e aparelhar para tão grande façanha; e permaneci na observancia do voto até vinte e trez d’Agosto do seguinte anno. Acabei o noviciado, e em lugar de professar, despedi-me. Tive minhas razões; e ainda que pouco se me havia de dar agora do que se podesse dizer ácerca de um indivíduo, que n’esse tempo tinha o nome que eu hoje tenho, e do qual, segundo as theorias dos medicos, não conservo hoje uma só particula, sendo eu um, vivo e junto; elle outro, morto e disperso por todo esse mundo: todavia, porque ainda temos commum um leve som, que he o nome, quero lançar pontualmente na balança do juizo dos meus leitores os seus porques; e bons ou máos, forão estes.—Primeiro: que a abstinencia de uma só pessoa não poupava uma unica existencia de animal. Segundo: que era presunção ridicula o desquitar-se um sujeito, por alguns argumentos, de uma opinião e uso quasi universal, sendo assim que todos os homens, guerreando-se entre si por crenças religiosas, por sisthemas filosoficos, por principios de política e sciencias, por modas e gostos, todos se conformavão no comer das carnes. Terceiro: que realmente era obstinação o desconhecer como a natureza nos não aparelhára só para comer e digerir vegetaes. Quarto: estar-nos ella dando nos proprios animaes, que uns de outros se sustentão, uma prova de ser menos escrupulosa do que Pithagoras e a poesia. Quinto: que ella propria os multiplica á proporção do que uns a outros devem tragar. Sexto: que se ella faz com que cada passada, cada pedra que movemos, cada gota de agua que engolimos, cada fruto ou folha que aproveitamos, cada sôpro que inspiramos ou expiramos, cada movimento emfim que fazemos, ainda dos mais indispensaveis para a vida, a destrua a milhões e milhões de entes conhecidos, e a numero talvez ainda maior de desconhecidos, não ha porque nos tenha a grande peccado, o aumentar-mos por nosso bem a lista com mais algumas unidades. Setimo: que o adelgaçamento e crescimento de minhas faculdades intelletuaes que eu esperára d’aquella mais leve nutrição, não só se não tinha verificado, mas antes o contrário succedêra, pôsto que de diversas causas podésse pender o successo: e por muito tempo me ficou o costume de, quando via versos fracos e desengraçados, dizer: Devião estes de ser compostos por quem não comia senão hervas. Outavo, ultimo, e não leve motivo: que ainda que pouco dado ás delicias da gula, o cheiro e presença de melhores iguarias do que as minhas, de dia em dia me tentava mais, e quando succedia achar-me entre gente alegre e em mesa de festa, as ondas de tentação, que eu forcejava dissimular o melhor que podia, crescião e redobravão com os motejos dos circunstantes, que bem poderião ter sal, mas não que adubasse as minhas insôssas hervas.
De todos os varios antecedentes deduzo, que sem embargo das objeções, autoridades e exemplos, o uso das carnes se ha de ter por licito, e por dithirambico o que lá fica no texto: mas que fóra do caso de necessidade ou clara utilidade, e alem do ponto em que essa necessidade ou utilidade pararem, toda a sevicia contra viventes he immoral, injusta, insensata, e digna de muito grande castigo.
E tanto isto assim he, que, porque todo o carniceiro de officio contrahe na alma e nos modos alguma couza de cruento e de tigre, em muitas partes se tem por infame. Em Portugal, nenhum mechanico honrado e de conta acceitaria um tal para sogro ou genro, ainda com grosso cabedal de renda; nem de boca plebea pode saír mais afrontosa injúria que o nome de magarefe. Em Inglaterra não os admittem jurados em causa crime. Na principal ilha das Canarias encontrárão seus descobridores, que os naturaes, com viverem á lei de sua rudeza silvestre, “havião por couza mui torpe esfolar alguem gado, e n’este mister de magarefes lhes servião os cativos que tomavão; e quando lhe estes falecião, buscavão homens dos mais baixos do povo para este officio, os quaes vivião apartados da outra gente e não os communicavão em aquelle mister” (Barr. Dec. 1. L. 1. C. 12.)—Bem hajão os inglezes, que formão sociedades para proteger animaes, e abençoado seja o inglez Deputado Martin, que para lhes fazer bem, se arrosta com os escarneos dos praguentos. Bem hajão os allemães, que em seus campos não perdoão multa municipal aos que, no levar rezes pelos caminhos, as atravessão deante de si na albardadura, ou tolhidamente as apinhoão dentro em carros. E bem haja a nossa Camara, quando conseguir desterrar o escandalo do afrontoso trato que nossos carreiros dão a seus bois, como ja desterrou a atroz e immoral matança dos porcos perante os olhos do povo.
Quero rematar com uma reflexão, que ja acima podéra ter cabido, mas que por dezejar da-la por conselho, e pô-la onde melhor se recommendasse, muito de industria deixei para o fecho. Vai o dito a pais e educadores, a quem toca. Nada importa mais, do que affazer cedo os meninos a uma grande suavidade de costumes: assim foi creado o bom Montaigne. Se os eu tivesse, parece-me que tambem assim os crearia, e bem bons frutos lhes havia de colher na minha velhice. Primeiro que tudo, parece-me que me conformaria com Rousseau em os não alimentar desde o leite senão com vegetaes, por entender como elle, serem estes mais accommodados a suas naturezas, e mais proprios para fisicamente os suavizar e humanar. Mas não quero agora averiguar isto que pertence a medicos; outro he o meu alvo. Não consentíra jamais que presenceassem espetaculos de atrocidades ou injustiça; e quando a minha má estrella lhos presentasse, procuraria afea-los com boas razões, mais de affétos e lagrimas que de raciocinios. As urbanas corridas de touros e as aldeanas festas de alanceamento de pombos, frangos e patos, como couzas antiquissimas e nacional feição, as respeito; mas não levára la os meus tenrinhos, que são mui branda cera para qualquer bom ou máo cunho. Se de alguem lhes fosse insinuada a correntissima abusão de nossos provincianos, de que em casa que devasta ou maltrata os ninhos do seu beirado, tudo vai para traz e de fôrça se ha de aguardar por enterramento, calára-me, porque acho razão a Fontenelle em dizer, que se na mão tivesse fechadas todas as verdades do mundo, Deos o defendesse de a abrir.
Dar-lhes-hia, da Historia natural poetizada, tanta luz, quanta bastasse para levarem grande interesse nos fados de cada individuozinho que respira: um raio de tal luz póde bastar para pôr fim a muita dureza que provenha de cegueira. Conheci e tratei com um parocho de fóra da terra, que desgostoso de que uma sua fregueza, rapariga nova, não pozesse reparo em maltratar animaes, a chamou brandamente, explicou-lhe como tudo que era nascido devia ter algum entendimento, capacidade para dores e prazeres, parentes, amigos e affeições. Com isto só a fez outra, e tão outra desde essa hora, que onde depois se lhe fazia de mister dar morte a uma pomba ou gallinha, ainda que em seu páteo não forão creadas, ja o coração se lhe confrangia, tremião-lhe os pulsos, e chegada á execução, não corria mais sangue da ferida, que mal acertava, do que lagrimas de seus olhos.—De mim mesmo me parece agora, que se escrevi os versos a que me refiro, e em commenta-los me alargo tanto, e uma e outra couza de tão boa mente, de tudo deve ter sido raiz a creação, em tudo excellente e n’esta parte bem empregada, que meu pai se esmerou em dar a todos seus filhos.
Outra couza fizera eu principalmente; era commetter-lhes o trato e tutela de alguns animaes caseiros, a quem podessem chamar seus. N’este exercicio aprenderião a ser observadores, vigilantes, serviçaes; tomarião com o gôsto da propriedade o amor do trabalho, havendo-se ja por algum modo como pais de familias; costumar-se-hião a acautelar, previnir e amar; tomarião para toda a vida o geito de amparar fracos e desvalidos, e de não ver um qualquer indivíduo, sem logo compor na imaginação a historia completa do seu viver, do seu padecer, do seu precizar.
Da efficacia de tal methodo, e tão simples, e tão formoso, tenho eu uma muito amavel prova de minhas portas a dentro. Uma mulher, toda boa, toda extremosa, tomou unicamente a peito o vingar-me da natureza; cerca-me de contínuo, como um anjo, de amor e de luz; empresta-me olhos para eu ver o mundo e as obras dos seculos; tira deante dos meus passos todos os espinhos no caminho da vida; inventa-me um encantamento novo para cada minuto; diz-me e faz-me entender como a verdadeira felicidade se não compoem de grandes pedaços, mas sim de atomozinhos que de longe se não podem perceber; repete-me e persuade-me que nasci para as Musas e para o amor, e não para a política, nem para os odios, serve-me, vela-me e defende-me como a filho, ama-me como a esposo, zela o meu nome como o de irmão; lançou a sua vida na minha vida, o seu pensamento no meu pensamento; existe pelo meu amor, morreria se lhe elle faltasse. Quem lhe ensinou tão generosa, tão nova benevolencia? quem lhe deo tantos segredos de fazer feliz? as suas aves e pombas, a sua amiga, e alguns livros, unica sociedade da cella, onde desde seus annos verdes a Providencia ma estava guardando e aperfeiçoando[17].