Eis aqui os primeiros dias da graciosa estação. Das flores lhe chamárão os poetas; melhor podérão chamar-lhe flor do anno. A terra, como viuva ainda verde que se enfeita para novas bodas, a terra pelo sol repassada de amorosa quentura, vendo-o volver a afaga-la, depois de lhe haver por tanto tempo fugido, arrêa-se de todas suas galas, esperançosa sorrí por entre a sua grinalda florída, embebe-se em perfumes, acerca-se de musicas voluptuosas, e suspira brandamente dentro nos arvoredos recem vestidos, nos valles alcatifados, pelas margens dos rios outra vez serenos. Com razão foi a Primavera consagrada dos antigos ás Musas e Graças: com razão se escolhião as suas vésperas para o Pontifice Maximo accender o novo fogo, que devia durar todo o anno: com razão os pais de nossa lingua derão a esta parte do anno um nome feminino, e os pintores apparencias de formosa moça; emquanto Estio, Outono e Inverno pela aspereza, pela fôrça, pela gravidade, pertencião a outro sexo. Cada fonte se aliza em um espelho; cada pedra se veste em assento aveludado; cada haste nua se desaperta n’um ramalhete: tornão-se os bosques outras tantas republicas populosas, cujos cidadãos, livres como as virações, voão, cantão, brincão, acaricião-se, desposão-se, educão a sua prole bafejada do ceo, e parecem não respirar senão o prazer da independencia, da ternura e da melodia. A natureza revoca á vida innumeraveis especies de animaes de que o Inverno só continha o germen; ás outras infunde, como aos passaros, um contentamento, uma ligeireza, uma attráção, que o Inverno lhes havia roubado ou amortecido. Do ceo chove fecundidade sôbre tudo que he vivo; e tudo o que he vivo sáe trajado de festa, e por toda a parte encontra mesa que Deos lhe assoalha, carregada de sua abundancia com luxo, magnificencia e formusura.
A humana especie não podia em tão geral favor ser esquecida, antes foi o seu quinhão de todos o mais largo. O amor, que para nós não tem uma estação exclusiva, n’esta entretanto se nos desenvolve com recrescida atividade: he porque o proprio ar, empregnado de elementos vitaes, nos está coando aos peitos uma extraordinaria energia: he porque tudo em de redor exemplos são que nos cativão: he porque o alvoroço e festa do universo convidão o coração a gozar: he porque ao florir da rosa dos jardins, muita e muita rosa esmorecida se reanima nas faces da belleza: he porque a voz da mulher então sáe, não sei como, ainda mais doce; e tanto ellas mesmas sem o saber o sentem, que em toda a parte em que as horas e circunstancias do seu canto não andão assentadas nas tarifas da moda, insensivelmente se achão a cantar, e este novo attrátivo parece n’ellas uma necessidade, como he nas aves da primavera. Dir-se-hia que a natureza nos manda as flores nos dias em que o amor nos instiga a offerecê-las.
Mas os feitiços da Primavera não se limitão nos da recreação e amor. Um medico vos dirá que he ella a estação da saude; um sabio a do vigor mental; um navegante a do princípio de confiança nos seus mares: o artífice a saúda como a que abre a porta a longos dias; o pastor como a mãi da abundancia; o agrícola vê as esperanças do anno desparzidas por suas terras, por suas vinhas, por seus pomares. Ah! só os homens das cidades, tristemente condenados á fadiga e ao luxo, quasi não encontrão a primavera no seu anno! Para esses reduz-se a mais algumas horas de luz, e a uma pouca mais serenidade em um ceo sem horizontes. Se ao menos se podesse esta serenidade reflétir nas nossas almas!... mas os redemoinhos das novidades, os raios das intrigas ambiciosas, o frio do desalento e carregadas nuvens ao longe esterilizão tudo, e se uma ou outra flor de esperança nos desabrocha a medo, lá está logo a reflexão, filha do conhecimento dos homens, que a faz com um sôpro desapparecer. O anno dos nossos destinos teve um inverno bem longo e rigoroso: n’elle sulcámos a terra para semear liberdade e ventura, adubámo-la com o nosso sangue e corpos de nossos irmãos, regámo-la com o nosso suor e lágrimas; e agora que nós e nossos filhos esperavamos ao menos a florescencia que nos augurasse frutos para o futuro, a Deos approuve de outro modo, e uma torrente de iniquidades, que não quer parar, continúa a assolar a terra de nossos avós.