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A Primavera

Chapter 39: ABRIL
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About This Book

A collection of pastoral poems and accompanying prologues that evoke rural scenes, seasonal renewal, and youthful memory. The poet pairs lyrical depictions of fields, shepherds, and nature’s cycles with reflective commentary on poetic practice, literary influences, and personal change; the introductory material considers the passage of time, editorial revision, and the uneasy act of revisiting early work. Traces of European pastoral models appear alongside moral and sentimental observations, while nostalgia, the contrast between past and present, and an affectionate celebration of countryside life provide thematic cohesion.

ABRIL

Este mez, assim chamado por abrir o seio da terra á fecundidade; consagrado desde a infancia de Roma á Deoza da formosura, á Mãi das Graças, Amores, e Jogos, he o primeiro que ouza, por debaixo ainda das últimas nuvens chuvosas do inverno, sair e folgar com seu manto verde, e bordado de flores. O dia da sua entrada era para os nossos antepassados uma festa popular, menos estrepitosa que o Carnaval, de que parecia imitação, mas tambem mais innocente e serena. Ignoro se esse costume o herdárão elles de nações mais antigas, com quanto dos Romanos o não houvessem, de quem tantos outros lhes vierão. Tão pouco me recordo de haver lido alguma origem historica aos brinquedos rituaes do primeiro de Abril; mas sabido he que elles existírão em nossa terra, e inda hoje se lhes conservão os restos, mormente pelas Provincias. O dinheiro pregado nas ruas, as cartas, e prezentes de lôgro, a pedra que chamavão das agulhas, a fôrca de Judas, e outras quejandas bagatelas para rir, estão entretendo n’esta hora bastantes dos nossos aldeões do norte.

As lembranças velhas tem para mim muito grande saudade, e doçura; doe-me o coração quando vejo ir-se perdendo estas seculares tradições que a ninguem fazião mal, ainda que nascidas em berço de superstição, e que de bom tinhão o transportar-nos a tempos sabidos, e remotos, ou a tempos mais remotos ainda, e ignorados. E que he o que as apaga, e fica em seu lugar? odios, pobreza, e desgraças. Oh! aonde estará um poeta amigo dos serões e da innocencia, que se apresse em nos escrever os Fastos do nosso bom Portugal? No meio da confusão desconsolada do presente, nós beijariamos essa obra como santa reliquia em terra de infieis: veriamos um iris vão mas brilhante, entre nuvens de tormenta. Para excitar algum bom engenho a no-lo dar, he que eu coméço, e continuarei sempre a recordar nos seus dias proprios as nossas antiguãlhas: o que farei com muita avidez, porque d’aqui a alguns annos, o investiga-las será ja tarde. Assim os pintores Italianos se deleitão copiando os restos amortecidos das pinturas a fresco que sobre-vivem ao grande Imperio, e os antiquarios trasladão avidamente os enrolados livros das cidades soterradas, antes que de todo se desfação em pó.