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A Primavera

Chapter 40: MAIO.
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About This Book

A collection of pastoral poems and accompanying prologues that evoke rural scenes, seasonal renewal, and youthful memory. The poet pairs lyrical depictions of fields, shepherds, and nature’s cycles with reflective commentary on poetic practice, literary influences, and personal change; the introductory material considers the passage of time, editorial revision, and the uneasy act of revisiting early work. Traces of European pastoral models appear alongside moral and sentimental observations, while nostalgia, the contrast between past and present, and an affectionate celebration of countryside life provide thematic cohesion.

MAIO.

He a apparição d’este mez uma festa da natureza, em que sempre os homens se alegrárão: quizeramos poder tributar-lhe algumas flores pelas tantas que nos elle concede. Não teçamos o seu encomio d’aquillo que sendo sensivel a todos não carece de ser descrito. Zéfiros e rosas, rolas e rouxinoes, abelhas e borboletas, a terra toda verde, o ceo todo azul, as noites começando a fugir como envergonhadas de esconder as alegrias da natureza, objétos são que ainda que desde a origem do mundo se apresentem sempre novos, já se tornárão lugares communs nas descrições da poesia. Voltemo-nos para as recordações; embalemos e adormeçamos com ellas por um pouco o espirito martirisado dos absurdos e crueldades d’estes máos tempos, em que ja se não crião fabulas risonhas e innocentes, coloridas pela imaginação, animadas pelo amor.

Forão os homens antigos os que idolatras da concordia, para melhor a insinuarem á terra, collocárão nos astros a sua imagem brilhante, e ao signo de Maio chamarão o signo dos Gémeos. Elles forão os que sensiveis aos encantos das Artes, consagrarão este mez a um Deos, que vivificando a natureza pela luz e calor, presidia com a Lira na mão aos prestigiosos artificios que a embellezão. Almas petrificadas ha ahi, para quem estas saudades do mundo antigo são frivolas, comparadas com um artigo de gazeta; para nós he delicioso andar mergulhando pelo oceano dos seculos, e não voltar a assentar-nos na nossa Ilhota escabrosa e esteril, senão carregados dos coraes, das pérolas, das riquezas formosissimas, que se cá não produzem. O fundador de Roma dedicou aos mancebos (Juvenes) o mez de Junho; era essa a idade que lhe fazia ganhar vitorias, mas ja primeiro havia consagrado o Maio aos velhos (Majores), porque feroz como era, Romulo experimentava o afféto que nos attráe para com o antigo. Passemos por alto Festas misteriosas da Deoza Bona, celebradas pelas Romanas no primeiro de Maio, em todo o segredo dos Penates e sem testemunha de varão; visitas das Vestaes ao Pontifice Maximo e principaes Magistrados da Republica; contemplemos a expiação dos Lémures, pois que usos nossos me parecem ter d’ahi recebido origem.

Á meia noite levantava-se o pai de familias, hia-se descalço, calado, e chêo de terror santo, á fonte, dando por todo o caminho amiudados estalos com os dedos para afugentar os genios máos. Lavava trez vezes as mãos, e tornando-se para casa, vinha atirando uma a uma, por cima da cabeça e para traz de si, favas negras, de que trazia chêa a boca, e articulando taes palavras—com estas favas me resgato a mim e aos meus:—o que por nove vezes repetia, sem olhar para traz, para não espantar o espétro que vinha apanhando as favas negras. Tomava agua por uma ou duas vezes, batia n’um vaso de bronze, e para conjurar a sombra a lhe largar a casa, por nove vezes repetia—Sahi, ó manes paternos.—Eis provavelmente d’onde provierão estes sustos vagos que ainda se dão a sentir aos homens rusticos no princípio de Maio; este uso de se repartirem e comerem castanhas seccas para evitar que o Maio se apodere de nós. A imaginação do bom povo perdeo de vista essas larvas, mas o medo que ellas produzírão lhe ficou: he uma especie de moeda, que safada como está de passar de mãos em mãos, ainda conserva a sua valia.

Outros costumes de Maio tem o nosso Portugal, a que folgáramos que alguem escavasse e descobrisse a raiz, sendo certo que na historia a devem ter. O Maio pequenino, que seguido de todas as crianças do bairro, corre enfeitado de flores, as ruas da cidade, ao som de um cantar antigo e uniforme; aquellas mimosas Maias tão arraiadas e donosas, que á orla dos caminhos se encontrão comprimentando os passageiros; aquell’outro estilo, ja talvez hoje passado, de se deitarem n’um mesmo leito um casal de creanças innocentes, para se lhes cantar em roda um como epithalamio, ou trova de suas bodas; os descantes amorosos dados com a viola n’esta occasião pelos aldeões ás suas escolhidas; não provirá tudo isto de alguma ja perdida lembrança de cultos da Deoza Maia? E a usança de ornar com flores Maias as portas e interior das casas, não será reflexo distante dos festejos Romanos á Deoza Bona?

A religião, que para si tomou ornato de tantas joias ao Paganismo, não se desdenhou tambem de perfilhar este mez. Em muitas freguezias, pelas nossas provincias do norte, o bom Parocho vai benzer no princípio de Maio a bandeja de rosas que entre os devotos se distribuem e se commungão, porque esta flor abençoada traz felicidade.—Vem depois aquellas tão esperançosas, tão cantadas e tão sabidas Ladainhas de Maio.—Hoje os camponezes de França vão plantar o seu Maio á porta das pessoas honradas da sua freguezia: os Inglezes renovão de certo modo as antigas Vigilias de Venus: os Gregos, como se os seus poetas d’outro tempo os inspirassem ainda, e a era das Elegias tornasse a reviver, vão descantar amores e pendurar grinaldas aos umbraes das suas inclinações: e os moradores de Roma, segundo nos foi dito por quem lá foi a essa terra de saudades, ainda agora se reunem na fonte de Egeria a respirar as delicias da natureza, debaixo d’aquelle ceo de tanto amor, que não a pensar em Numa e na grandeza antiga dos Romanos, de que a elles só veio em herança a terra coberta de muitas ruinas.

¿Para que servem todas estas memorias, nos estão perguntando os insaciaveis de Politica? e nós não lhes sabemos responder senão que a nós estes pensamentos nos fazem muito bem, e que aos amigos de passatempos innocentes se não ha de prohibir o que a ninguem faz mal. Deixai-nos ser algum dia do anno semi-pagãos. São as superstições da Politica ambiciosa as que empecem á felicidade, mas estes graciosos prejuisos de nossos pais a nenhuma couza do mundo danão. E de mais, se havemos de dizer toda a verdade, a fé, que a estes pobres erros acompanha, costuma trazer comsigo muita piedade religiosa, e n’ella alguma doçura moral, que nem sempre vai por onde vai a desenganada Filosofia. Ditoso d’aquelle engenho que podesse trazer outra vez ao mundo a innocencia que nos lá ficou no paiz das fabulas! mas interromper um sonho de poesia quando se julga que a felicidade vem apoz os nossos passos, voltarmo-nos, como Orfeo, para a abraçar, e vermo-la fugir e desapparecer n’um ai, e um mundo de realidades dolorosas estender-se immenso deante de nós, oh! isto he muito triste!