Pôsto que o escrever de Varão tão conhecido dentro e fóra d’este Reino, qual foi o Sr. Antonio Ribeiro dos Santos, já possa a muitos parecer escusado, o deixar de o fazer, mais que seja por alto, nem a opportunidade da occasião mo consente, nem menos mo consentiria o gôsto, que sempre do refrescar essas memorias me resulta; por quanto na primavera de minha vida, e primeira manhã de minha poesia, foi que a boa de minha fortuna me deu conhecer este Nestor de nossa Literatura, que já então, ao cabo da sua longa e proveitosa carreira, ornado de muitos méritos de sciencias e virtudes, respeitado e apontado de longe, pouzava sereno e magestoso, aguardando pela sua hora, á beira da eternidade.
Que fosse nascido nas terras do Douro, d’onde lhe prouve tomar nome de Elpino Duriense; que fizesse com bons mestres seus estudos; que se tornasse, lendo na Universidade de Coimbra, um de seus mais lustrosos luminares; que na Igreja e no Estado occupasse mui subidos empregos; que fosse o amigo e centro de quantos bons engenhos em seu tempo florecerão, não faltará quem o escreva entre seus outros muitos louvores. Tão pouco me deterei dispartindo entre a Jurisprudencia, a Historia, as Antiguidades, a Literatura, e a Poesia o opulentissimo cathalogo de suas Obras, cuja maxima, e por ventura optima parte, ainda até agora não viu a luz. Não hão de ser mãos tão debeis como as minhas as que revolvão tamanhos trofeos, nem em tão pequeno espaço como este coubéra retratar completo Homem que abrangeu duas idades, bem fazendo-lhes mutuamente a uma pela outra; anticipando em meio do seculo passado o gôsto, o apuro, a filosofia d’este nosso; transplantando para o presente o estudo, a boa fé, o saber do passado; e legando ao futuro thesouros que andou desencantando das antiguidades remotissimas. Menos arremessados são meus dezejos, e mais seguros, que só quero levar meus leitores a com este bom velho encetarem conhecimento.
Corre a primavera do anno de 1814 ou 15, que eu certo o não sei. A morada de Elpino, que em um dos mais desafrontados altos de Lisboa está formosamente situada, longe do bolicio, como bem cabia á sua indole pacifica e genio estudioso, he um templo de Musas, religiosamente vedado aos olhos e vozes de profanos, isto he dos máos e ignorantes, unicos de todos os entes para quem sua porta e animo não erão hospedeiros. Por aquellas salas, gravemente ataviadas á laia dos nossos antigos, de sedas e arrazes, alcatifas, tremós, espaldares e soberbos quadros dos mais perigrinos pintores, reina o silencio, e uma lembrança dos antigos e abundosos tempos de nossos avós, que tanto conforma com os nobres e portuguezes pensamentos de suas poesias, as quaes se raras vezes voão sublimes, nunca, nem por sombras, desmentem da boa moral e sã filosofia. Aqui o bom Elpino nos recebe cordialmente, a meus irmãos e a mim; os filhos do seu amigo são seus amigos, os estudiosos das Musas portuguezas e romanas são os seus amores. O ancião, que ainda entre sabios podéra ser ouvido como oraculo, remoça-se conversando com meninos, apouca-se para que o melhor comprehendão, orna-lhes a moral e o estudo com quantas flores sabe; do centro da gloria lhes ensina por onde se abre o caminho que para lá conduz; e pelo grande espirito e persuasão com que falla, talvez consegue crear algumas vehementes vocações literarias. Outras vezes nos convida para a bibliotheca, suas delicias, e nos acompanha com a alegria na boca. Os seus olhos, como que ao fim de tanto lêr ja quizessem descançar para sempre, não lhe alumião o caminho; e semilhante áquelle grande Bardo Ossian, a quem velho e cego, piedosa conduzia a moça Malvina para os logares usados de sua inspiração, no hombro de uma menina, sua afilhada e leitora, segurava o bom de Elpino uma das mãos, emquanto com a outra arrimada a um bordão, palpava o caminho, e se ajudava em seu quebrado andar.
Era a bibliotheca o íntimo retiro d’este ermitão do Parnaso, fugida para longe das casas, pôsto que tão quietas, e frescamente assentada em meio de muitas sombras, verduras e aromas de seu jardim, hortas e pomares. Grandissima cópia de livros, longamente procurados e custosamente juntos, e entre os quaes se estremavão no numero e riqueza os Gregos, os Romanos, e os antigos Portuguezes, alí estavão juntos, entre o susurro estudioso das ramas e os cantares descuidosos dos passaros. Um Apollo de marmore com a sua lira em punho, parecia estar-se mui bem cabido e contente no meio d’aquelle seu alcaçar, cercado de tantos seus cultores, servido por tão venerando Sacerdote. Lembranças são estas que trago colhidas de minha infancia, e que transplanto para aqui, por não querer que se percão.
Áquelle Homem, n’aquellas tardes, e debaixo d’aquelle této, devo a grande veneração que ainda hoje consagro aos meus livros latinos, não poucos dos quaes mos deu elle proprio; e tocados de suas mãos poeticas, me inspirão ainda agora poesia e virtude, até cerrados, e n’elles confio que me hajão de servir de pranchas, com que n’este pélago de freneticas e descompostas innovações, me não deixe, como tantos que mais valião do que eu, totalmente sossobrar. Nos seus ouvidos indulgentes lançava não só as primicias dos meus versos, mas ainda as traças e esperanças de obras que borbulhavão de uma seiba virgem de quatorze annos. Escutava elle tudo com desvellada benevolencia, umas vezes apontando-me melhores caminhos ou mais faceis, outras desviando-me de commettimentos maiores que meus annos e forças; agora revelando-me regras, logo insinuando-mas com exemplos, com que sempre fiel e muito a ponto lhe acudia a memoria. Não he verdade que ha em tudo isto um não sei que, por onde o que o pratíca não póde menos ser de um grande homem? Oxalá meus esforços melhor houvessem respondido a suas diligencias, ou me não houvesse elle desamparado no começo da carreira, para a qual apenas me aparelhou! Sim, porque embora me hajão a vaidade, a gratidão péde que eu publique, foi este Pontifice das Musas que me iniciou no seu culto, e no seu paternal enthusiasmo me disse—Tu serás poeta.—Scena digna de um pincel eloquente: um ancião coroado de louros, e cego como Homero, sagrando ao culto da mais bella das Artes, um menino cego como elle!
NOTAS
[1] Alguma vez publicarei o que acerca d’isto disputamos por Cartas, de Lisboa para Coimbra, o Padre José Agostinho de Macedo e eu. Negava aquelle escriptor, de incontrastavel talento, que a Poesia Allemã e Suissa mais fosse do que a nossa rica em graças naturaes, e amena frescura, antes affirmava que a nossa a excedia grandemente. Ou não escrevia elle deveras, ou se convenceo do erro, como será de ver das Cartas, quando ellas aparecerem. O motivo porque até hoje as tenho dos publicos olhos resguardadas, outro não foi senão recêo de que se me attribuisse a vãgloria a publicação de uma disputa em que tamanho sujeito me cedeo, principalmente sendo notorio que o favor que em seus escritos deu ás minhas primeiras tentativas poeticas e infantis, jamais o denegou com o andar do tempo, antes o reforçou com mui graciosos louvores.
[2] Conceder-lha-heis, se ja não tiverdes determinado emprega-la em outro uso, ou fundar nesse sitio alguma caza de Commissão que nada faça, ou algum quartel de guarda que legisle sobre os destinos publicos.
[3] O Livro Le mie Prigione, quanto á utilidade prática leva, me parece, a palma á Imitação de Kempis. Em Kempis apparece a descrição da caridade e piedade, em Silvio a applicação d’ellas aos successos da vida. Kempis aconselha, Silvio ensina a perdoar, a amar, e a ser feliz, em despeito da fortuna: dá o exemplo d’isso, he elle proprio o exemplo.
[4] Quem bem reparar na justiça rigorosa (de cruel a taxaráõ alguns) com que eu proprio trato a minha Musa, perdoar-me-ha quando por amor ás nossas letras, aponto um defeito em meu mestre e amigo o Snr. Antonio Ribeiro dos Santos. Inda assim, porque me não fique remordendo a consciencia, como expiação, e mui suave, porei no fim do volume um penhor do meu respeito e grato animo a tão grande varão; capitulo ja impresso no Jornal dos Amigos das Letras, mas por isso mesmo apenas conhecido.
[5] Meu irmão Augusto Frederico de Castilho.
[6] Meu irmão Adriano Ernesto de Castilho.
[7] As Senhoras Mellos, a quem pertence a Lapa e a Quinta das Canas.
[8] Na Primavera de meu Irmão Augusto Frederico de Castilho ha um lugar parallelo, não quanto á expressão, mas quanto ao pensamento principal. Releva porem que em duas couzas se advirta: a uma, que nenhum de nós foi plagiario, nem o podiamos ser, porque todos compunhamos em segredo; a outra, que o passo do poema, em que elle descreve Nize a figurar de Primavera, leva grande vantagem de valia a estes versos!
[9] Augusto Frederico de Castilho.
[10] O meu amigo Jose Vitorino Freire Cardozo da Fonseca (Etmiro) tinha começado em uma sua quinta na Beira um jardim, tal como o descrevo aos seguintes versos, e que pretendia consagrar á minha memoria. Mal haja aquelle, a quem semelhante penhor de amizade não enternece!
[11] Veja-se a Quarta Edição do Diccionario chamado de Moraes.
[12] Lamartine no Prologo de Jocelyn
[13] Em Maio se poem o ponto aos Estudos da Universidade, que eu n’aquelles tempos cursava. Só os que por ahi tem passado, podem entender o alvoroço com que he recebido.
[14] Antigo nome da Serra de Estrella d’onde nasce o Mondego.
[15] Por esta occazião me importa fazer um annuncio ao Publico. Ei-lo: declaro que se esse Jornal inexperadamente acabou, não foi minha a culpa, assim como de nenhum dos sócios, mas somente dos acontecimentos, assim publicos como privados da Sociedade: com elle nunca tive outras algumas relações senão as onerosas e de trabalho, que eu tomava comtudo com muito gôsto. Todos os sócios o sabem, mas interessa-me que o saiba toda a gente, para me salvar de quaesquer desasizadas reclamações.
[16] Em podendo ser, publicarei um volume de poesias, que lá compuz acerca d’aquella bemaventurada solidão, onde annos vivi ignorado e contente, na residencia de meu Irmão Augusto Frederico.
[17] Tudo isto, que eu julgava para sempre meu, passou! Aprouve a Deos mostrar-me só de relance a felicidade! Pouco mais de dois annos a illustre e digna sobrinha de Nicolau Tolentino de Almeida, a Senhora D. Maria Izabel de Baenna Coimbra Portugal, se sacrificou toda a felicitar-me: o Pai de todo o amor e de toda a virtude a chamou logo para o seu seio: era aquelle um Anjo que faltava no ceo. Esta Nota ao poema, vai como se achava feita quando ella ja me não escrevia, senão a espaços, mas ainda se comprazia de me ouvir dictar. Quando o seu fim era ja inevitavel, todos o sabião e talvez ella mesma, e eu contava ainda com largos annos de fortuna. O mesmo advirto quanto ás mais Notas e accrescentamentos d’este Livro, que tudo estava pronto (faltando só algumas poucas notas que não fiz nem ja farei) antes do fatal dia um de Fevereiro passado: dois se imprimio erradamente no Post Scriptum do Prologo. Se outrem não tivesse conservado essa data, e me não advertisse da inexatidão em que mal informado caí, ainda agora a podéra eu ignorar: esse dia, as vesperas e os seguintes não tiverão para mim nenhuma ráia nem de luz, nem do sôno, nem de alguma outra das couzas que estremão os dias.—12 de Maio de 1837.