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A Primavera

Chapter 7: DUAS PALAVRAS DE INTRODUÇÃO
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About This Book

A collection of pastoral poems and accompanying prologues that evoke rural scenes, seasonal renewal, and youthful memory. The poet pairs lyrical depictions of fields, shepherds, and nature’s cycles with reflective commentary on poetic practice, literary influences, and personal change; the introductory material considers the passage of time, editorial revision, and the uneasy act of revisiting early work. Traces of European pastoral models appear alongside moral and sentimental observations, while nostalgia, the contrast between past and present, and an affectionate celebration of countryside life provide thematic cohesion.

DUAS PALAVRAS DE INTRODUÇÃO

Fôra o inverno de 1821 para 22 dos mais desabridos e temerosos de que entre os vivos se faz memoria. Na Beira, onde me então achava, vião-se arrancados e espedaçados bosques, olivaes e pomares, sementeiras afogadas, pontes demolidas, e os rios sem margens. Dos 25 de Dezembro até os 9 de Janeiro, que me demorei em uma aldeinha, uma legua desviada de Coimbra, saboreando no trato cordeal de alguns amigos e parentes as férias, então mui festivas, de meus estudos, foi sempre tão atada e rigorosa a porfia das invernadas, que nos falseou quasi de todo a recreação mais apetecida dos que fartos da cidade, vão alguma hora ao campo desenfadar-se. De não passear nos vingavamos o melhor que o tempo e lugar no-lo consentião: práticas desaffrontadas de constrangimento, temperadas de bom sal, e muitas vezes substanciaes; a voltas d’ellas, leituras accommodadas ao mais dos gostos, poesia, e improvisos de charadas e adivinhações nos enchião as horas não contadas. As espaçosas noites e boa parte dos dias, se levavão n’estes e semelhantes passatempos, em de redor de uma farta fogueira, segundo he costume d’aquellas terras. Por alguma rara tarde, quando o sol descobria, e o ar um pouco mitigado nos consentia saír, nos hiamos, ora pelo jardim onde se explanava um soberbo lago, outr’ora pela orla mais assoalhada dos laranjaes, que mui corpulentos e viçosos, acenavão de seus ramos com frutos e flores, pondo a vista, o cheiro e o gôsto em doce competencia de delicias. Era ainda aquillo, ou ja era, umas lembranças, uns longes de primavera no coração do inverno, saíamos da prisão dos lares, aproveitavão-se com sofreguidão: talvez nenhum dia de perfeita primavera na longa cadêa d’elles me pareceo nunca melhor e mais ledo, do que estas pobres tardes sonegadas ao mez do Natal. A fantasia enganada do sol, toda se me desatava em poeticas flores, o que n’esses tempos só por maravilha me acontecia fóra da primavera, e luares do verão. Quando vinha a noite, acceita ao meu coração, (que sempre de si o conheci, não sei porque, amigo de com ella suspirar saudades), e ja todos ao conchego do nosso lume fiel nos tornavamos alvoraçados, comigo só me hia pouzar a um canto, colhendo, concertando e accrescentando com mui entranhado contentamento, quantas florinhas me havia brotado a fantasia. De saudades da primavera me parece ainda agora que nascião todas; o que certo sei, he que ahi, e n’um imaginar d’estes meus, me veio a lembrança e desejo de escrever á Primavera uma Epistola. Se n’isto abusei ou não da licença tão concedida a poetas, não o sei; sei que no ditar estes versos para se escreverem, e no conceber-lhes o assunto a passear ou a seroar, gozei prazeres que ja a crítica me não póde tirar. Se contra o bom juizo pequei, todo o meu pezar he não poder outra vez peccar pelo mesmo modo, nem outra vez namorar-me da Primavera: os annos que a trazem ás arvores no-la levão a nós, e ja la vão quinze, (quinze annos!) sôbre o tempo em que eu brincava com estas innocencias.

Lisboa: 9 de Dezembro de 1836.