Ao fundo d'um muro, coberto de ramos de amendoeiras, diante d'uma cancella pintada de vermelho, dois servos esperavam, sentados n'um tronco cahido, com os olhos baixos e as mãos sobre os joelhos. Topsius parou, puxou-me o albornoz:
—É este o horto de José de Ramatha, um amigo de Jesus, membro do
Sanhedrin, homem d'espirito inquieto, que se inclina para os Essenios…
E justamente, ahi vem Gad!
Do fundo do horto, com effeito, por uma rua de murta e rosas, Gad descia correndo com uma trouxa de linho e um cabaz de vime enfiados n'um pau. Parámos.
—O Rabbi? gritou-lhe o alto Historiador, transpondo a cancella.
O Essenio entregou a um dos escravos a trouxa, e o cesto que estava cheio de myrrha e d'hervas aromaticas; e ficou diante de nós um momento, tremulo, suffocado, com a mão fortemente pousada sobre o coração para lhe serenar a anciedade.
—Soffreu muito! murmurou, por fim. Soffreu quando lhe trespassaram as mãos… Mais ainda ao erguer da cruz… E repelliu primeiro o vinho de Misericordia, que lhe daria a inconsciencia… O Rabbi queria entrar com a alma clara na morte por que chamára!… Mas José de Ramatha, Nicodemus, estavam lá vigiando. Ambos lhe lembraram as coisas promettidas uma noite em Bethania… O Rabbi então tomou a malga das mãos da mulher de Rosmophin, e bebeu.
E o Essenio, pregados em Topsius os olhos reluzentes, como para cravar bem seguramente na sua alma uma recommendação suprema, recuou um passo e disse com uma grave lentidão:
—Á noite, depois da ceia, no eirado de Gamaliel…
E outra vez desappareceu na rua fresca do horto, entre a murta e as roseiras. Topsius deixou logo a estrada de Joppé: e estugando o passo por um atalho agreste, onde o meu largo albornoz se prendia aos espinhos das piteiras, explicava-me que a bebida de Misericordia—era um vinho forte de Tharses, com succo de papoulas e especiarias, fornecido por uma confraria de mulheres devotas para insensibilizar os suppliciados… Mas eu mal escutava aquelle copioso espirito. No alto d'um aspero outeiro, todo de rocha e urze, avistára, destacando duramente no claro azul do céo liso, um montão de gente parada: e em meio d'ella sobrelevavam-se tres pontas grossas de madeiros e moviam-se, faiscando ao sol, elmos polidos de Legionarios. Turbado, encostei-me á beira do caminho, n'um penedo branco que escaldava. Mas vendo Topsius marchar, com a sabia serenidade de quem considera a Morte uma purificadora libertação das fórmas imperfeitas—não quiz ser menos forte, nem menos espiritual: arranquei o albornoz que me abafava, galguei intrepidamente a collina temerosa.
D'um lado cavava-se o Valle de Hinom, abrazado e livido, sem uma herva, sem uma sombra, juncado d'ossos, de carcassas, de cinzas. E diante de nós o môrro ascendia, com manchas leprosas de tojo negro, e a espaços furado por uma ponta de rocha polida e branca como um osso. O corrego, onde os nossos passos espantavam os lagartos, ia perder-se entre as ruinas d'um casebre de adobe: duas amendoeiras, mais tristes que plantas crescidas na fenda d'um sepulchro, erguiam ao lado a sua rama rala e sem flôr, onde cantavam asperamente cigarras. E na sombra tenue, quatro mulheres descalças, desgrenhadas, com rasgões de luto nas tunicas pobres, choravam como n'um funeral.
Uma, sem se mover, hirta contra um tronco, gemia surdamente sob a ponta do manto negro: outra, exhausta de lagrimas, jazia n'uma pedra, com a cabeça cahida nos joelhos, e os esplendidos cabellos louros desmanchados, alastrados até ao chão. Mas as outras duas deliravam, arranhadas, ensanguentadas, batendo desesperadamente nos peitos, cobrindo a face de terra; depois, lançando ao céo os braços nús, abalavam o môrro com gritos—«oh meu encanto, oh meu thesouro, oh meu sol!» E um cão, que farejava entre as ruinas, abria a guela, uivava tambem, sinistramente.
Espavorido, puxei a capa do douto Topsius—e cortámos pelas urzes até ao alto, onde se apinhavam, olhando e galrando, obreiros das officinas de Gareb, serventes do Templo, vendilhões, e alguns d'esses sacerdotes miseraveis e em farrapos, que vivem de negromancia e d'esmolas. Diante da branca capa em que Topsius se togava, dois cambistas, com moedas d'ouro pendentes das orelhas, arredaram-se, murmurando bençãos servis. Uma corda d'esparto deteve-nos, presa a postes cravados no chão para isolar o alto do môrro, e, no sitio em que ficáramos, enrolada a uma velha oliveira que tinha pendurados dos ramos escudos de Legionarios e um manto vermelho.
Então, ancioso, ergui os olhos… Ergui os olhos para a cruz mais alta, cravada com cunhas n'uma fenda de rocha. O Rabbi agonisava. E aquelle corpo que não era de marfim nem de prata, e que arquejava, vivo, quente, atado e pregado a um madeiro, com um pano velho na cinta, um travessão passado entre as pernas—encheu-me de terror e d'espanto… O sangue que manchára a madeira nova, ennegrecia-lhe as mãos, coalhado em torno aos cravos: os pés quasi tocavam o chão, amarrados n'uma grossa corda, rôxos e torcidos de dôr. A cabeça, ora escurecida por uma onda de sangue, ora mais livida que um marmore, rolava d'um hombro a outro dôcemente; e por entre os cabellos emmaranhados, que o suor empastára, os olhos esmoreciam, sumidos, apagados—parecendo levar com a sua luz para sempre toda a luz e toda a esperança da terra…
O centurião, sem manto, com os braços cruzados sobre a couraça de escamas, rondava gravemente junto á cruz do Rabbi, cravando por vezes os olhos duros na gente do Templo, cheia de rumores e de risos. E Topsius mostrou-me defronte, rente á corda, um homem cuja face amarella e triste quasi desapparecia entre as duas longas mechas negras de cabello que lhe desciam sobre o peito—e que abria e enrolava com impaciencia um pergaminho, ora espiando a marcha lenta do sol, ora fallando baixo a um escravo ao seu lado.
—É Joseph de Ramatha, segredou-me o douto Historiador. Vamos ter com elle, ouvir as coisas que convém saber…
Mas n'esse instante, d'entre o bando sordido dos servos do Templo e dos sacerdotes miseraveis que são nutridos pelos sobejos dos holocaustos, rompeu um ruido mais forte como o grasnar de corvos n'um alto. E um d'elles, colossal, esqualido, com costuras de facadas através da barba rala, atirou os braços para a cruz do Rabbi, e gritou n'uma baforada de vinho:
—Tu que és forte, e querias destruir o Templo e as suas muralhas, porque não quebras ao menos o pau d'essa cruz?
Em torno estalaram risadas alvares. E outro, espalmando as mãos sobre o peito, curvado com infinito escarneo, saudava o Rabbi:
—Herdeiro de David, oh meu principe, que te parece esse throno?
—Filho de Deus! Chama teu pai, vê se teu pai te vem salvar! rouquejava a meu lado um magro velho, que tremia e sacudia a barba, apoiado ao seu bordão.
Alguns vendilhões bestiaes apanhavam torrões seccos a que misturavam cuspo, para arremessar ao Rabbi: uma pedra por fim passou, resoou cavamente no madeiro. Então o Centurião correu, indignado; a folha da sua larga espada lampejou no ar; e o bando recuou blasphemando—emquanto alguns embrulhavam na ponta do saião os dedos que escorriam sangue.
Nós acercámo-nos de José de Ramatha. Mas o sombrio homem abalou bruscamente, esquivando a importunidade do sabio Topsius. E, magoados com a sua rudeza alli ficámos junto d'um tronco de oliveira secca, defronte das outras cruzes.
Os dois condemnados tinham acordado do primeiro desmaio, sob a frescura da aragem da tarde. Um, grosso, pelludo, com os olhos esbugalhados, o peito atirado para diante e as costellas a estalar, como se n'um esforço desesperado quizesse arrancar-se do madeiro—urrava sem descontinuar, medonhamente: o sangue pingava-lhe em gottas lentas dos pés negros, das mãos esgaçadas: e abandonado, sem affeição ou piedade que o assistissem, era como um lobo ferido que uiva e morre n'um brejo. O outro, delgado e louro, pendia sem um gemido, como uma haste de planta meio quebrada. Defronte d'elle uma mulher macilenta e em farrapos, passando a cada instante o joelho sobre a corda, estendia-lhe nos braços uma criancinha núa, e gritava, já rouca: «Olha ainda, olha ainda!» As palpebras lividas não se moviam: um negro, que entrouxava as ferramentas da crucificação, ia empurral-a com brandura: ella emmudecia, apertava desesperadamente o filho para que lh'o não levassem tambem, batendo os dentes, tremendo toda: e a criancinha entre os farrapos procurava o seio magro.
Soldados, sentados no chão, desdobravam as tunicas dos suppliciados: outros, com o elmo enfiado no braço, limpavam o suor—ou por uma malga de ferro, a goles lentos, bebiam a posca. E em baixo, na poeira da estrada, sob o sol mais dôce, passava gente recolhendo pacificamente dos campos e dos hortos. Um velho picava as suas vaccas para o lado da porta de Genath: mulheres, cantando, carregavam lenha: um cavalleiro trotava, embrulhado n'um manto branco. Ás vezes os que atravessavam o caminho ou voltavam dos pomares de Gareb avistavam as tres cruzes erguidas: arregaçavam a tunica, subiam a collina devagar através das urzes. O rotulo da cruz do Rabbi, escripto em grego e em latim, causava logo assombro. «Rei dos Judeus»! Quem era esse? Dois moços, patricios e sadduceus, com brincos de perolas nas orelhas e bordaduras d'ouro nos borzeguins, interpellaram o Centurião, escandalisados. Porque escrevera o Pretor—«Rei dos Judeus»? Era aquelle, alli pregado na cruz, Caio Tiberio? Só Tiberio era rei da Judêa! O Pretor quizera offender Israel! Mas em verdade só ultrajava Cesar!…
Impassivel, o Centurião fallava a dois Legionarios que remexiam no chão em grossas barras de ferro. E a mulher que acompanhava os sadduceus, uma romana miudinha e morena, com fitas de purpura nos cabellos empoados d'azul, contemplava suavemente o Rabbi e aspirava o seu frasco de essencias—lamentando decerto aquelle moço, rei vencido, rei barbaro, que morria no poste dos escravos.
Cansado, fui sentar-me com Topsius n'uma pedra. Era perto da oitava hora judaica: o sol, sereno como um heroe que envelhece, descia para o mar por sobre as palmeiras de Bethania. Diante de nós o Gareb verdejava, coberto de jardins. Junto ás muralhas, no bairro novo de Bezetha, grandes panos vermelhos e azues seccavam em cordas ás portas das tinturarias; um lume vermelhejava no fundo d'uma forja; crianças corriam, brincando sobre a borda d'uma piscina. Adiante, no alto da torre Hippica, que estendia já a sua sombra sobre o valle de Hinom, soldados de pé na amurada apontavam a setta aos abutres voando no azul. E para além, entre arvoredos, surgiam, frescos e rosados pela tarde, os eirados do palacio de Herodes.
Triste, com o espirito disperso, eu pensava no Egypto, nas nossas tendas, na vela que lá me esquecera ardendo, fumarenta e vermelha—quando avistei, subindo a collina devagar, apoiado ao hombro da criança que o conduzia, o velho que já cruzáramos na estrada de Joppé, com uma lyra presa á cintura. Os seus passos arrastavam-se mais incertos, na fadiga d'uma jornada penosa; uma tristeza abatia-lhe sobre o peito a clara barba ondeante; e debaixo do manto côr de vinho, que lhe cobria a cabeça, as folhas da corôa de louro pendiam raras e murchas.
Topsius gritou-lhe: «Eh, Rapsodo!» E quando elle, tenteando as urzes do caminho, se acercou—o douto Historiador perguntou-lhe se das dôces Ilhas do mar trazia algum canto novo. O velho ergueu a face entristecida; e muito nobremente murmurou que uma mocidade imperecivel sorri nos mais antigos cantos da Hellenia. Depois, tendo assentado a sandalia sobre uma pedra, tomou a lyra entre as mãos vagarosas; a criança, direita, com as pestanas baixas, pôz á bôca uma flauta de cana; e, no resplandor da tarde que envolvia e dourava Sião, o Rapsodo soltou um canto já tremulo, mas glorioso e repassado de adoração, como ante a ara d'um templo, n'uma praia da Ionia… E eu percebi que elle cantava os Deuses, a sua belleza, a sua actividade heroica. Dizia o Delphico, imberbe e côr d'ouro, afinando os pensamentos humanos pelo rythmo da sua cythara; Atheneia, armada e industriosa, guiando as mãos dos homens sobre os teares; Zeus, ancestral e sereno, dando a belleza ás raças, a ordem ás cidades; e acima de todos, sem fórma e esparso, o Fado, mais forte que todos!
Mas subitamente um grito varou o céo no alto da collina, supremo e arrebatado como o de uma libertação! Os dedos frouxos do velho emmudeceram entre as cordas de metal: com a cabeça descabida, a corôa do louro épico meio desfolhada, parecia chorar sobre a lyra hellenica, d'ora em diante e para longas idades silenciosa e inutil. E ao lado a criança, tirando a flauta dos labios, erguia para as cruzes negras os olhos claros—onde subia a curiosidade e a paixão d'um mundo novo.
Topsius pediu ao velho a sua historia. Elle contou-a, com amargura. Viera de Samnos a Cesarêa, e tocava o konnor junto ao Templo d'Hercules. Mas a gente abandonava o puro culto dos heroes; e só havia festas e offrendas para a Boa Deusa da Syria! Acompanhára depois uns mercadores a Tiberiade: os homens ahi não respeitavam a velhice, e tinham corações interesseiros como escravos. Seguira então pelas longas estradas, parando nos postos romanos onde os soldados o escutavam; nas aldeias de Samaria batia ás portas dos lagares; e para ganhar o pão duro tocára a cythara grega nos funeraes dos barbaros. Agora errava alli, n'essa cidade onde havia um grande Templo, e um Deus feroz e sem fórma que detestava as gentes. E o seu desejo era voltar a Mileto, sua patria, sentir o fino murmurio das aguas do Meandro, poder palpar os marmores santos do templo de Phebo Dydimeo—onde elle em criança levára n'um cesto e cantando os primeiros anneis dos seus cabellos…
As lagrimas rolavam pela sua face, tristes como a chuva por um muro em ruinas. E a minha piedade foi grande por aquelle Rapsodo das ilhas da Grecia, perdido tambem na dura cidade dos judeus, envolto pela influencia sinistra d'um Deus alheio! Dei-lhe a minha derradeira moeda de prata. Elle desceu a collina, apoiado ao hombro da criança, lento e curvado, com a orla esfarrapada do manto trapejando nas pernas núas, e muda e mal segura do cinto a lyra heroica de cinco cordas.
No emtanto, em torno ás cruzes, no alto, crescera um rumor de revolta. E fômos encontrar a gente do Templo, com as mãos no ar, mostrando o sol que descia como um escudo d'ouro para o lado do mar de Tyro, intimando o Centurião a que baixasse os condemnados da cruz antes de soar a hora santa da Paschoa! Os mais devotos reclamavam que se applicasse aos crucificados, se ainda viviam, o crurifragio romano, quebrando-lhes os ossos com barras de ferro, arrojando-os ao despenhadeiro de Hinom. E a indifferença do Centurião exasperava o zelo piedoso. Ousaria elle macular o Sabbath, deixando um corpo morto no ar? Alguns enrolavam a ponta do manto para correr, e ir a Acra avisar o Pretor.
—O sol declina! O sol vai deixar o Hebron! gritou de cima d'uma pedra um levita, aterrado.
—Acabai-os, acabai-os!
E ao nosso lado, um formoso moço exclamava, requebrando os olhos languidos, movendo os braços cheios de manilhas d'ouro:
—Atirai o Rabbi aos corvos! Dai ás aves de rapina a sua Paschoa!
O Centurião, que espreitava o alto da torre Marianna onde os escudos suspensos luziam batidos pelo sol derradeiro—acenou devagar com a espada. Dois Legionarios, lançando pesadamente ao hombro as barras de ferro, marcharam com elle para as cruzes. Eu, arripiado, agarrei o braço de Topsius. Mas diante do madeiro de Jesus o Centurião parou, erguendo a mão…
O corpo branco e forte do Rabbi tinha a serenidade d'um adormecimento: os pés empoeirados, que ha pouco a dôr torcia dentro das cordas, pendiam agora direitos para o chão como se o fossem em breve pisar: e a face não se via, tombada para traz mollemente por sobre um dos braços da cruz, toda voltada para o céo onde elle puzera o seu desejo e o seu reino… Eu olhei tambem o céo: rebrilhava, sem uma sombra, sem uma nuvem, liso, claro, mudo, muito alto, e cheio de impassibilidade…
—Quem reclamou o corpo d'este homem? gritou, procurando para os lados, o Centurião.
—Eu, que o amei em vida! acudiu Joseph de Ramatha, estendendo por cima da corda o seu pergaminho.
O escravo que esperava junto d'elle depoz logo no chão a trouxa de linho e correu para as ruinas do casebre onde as mulheres choravam entre as amendoeiras.
E por traz de nós, Phariseus e Sadduceus que se tinham juntado estranhavam com azedume que José de Ramatha, um membro do Sanhedrin, assim solicitasse o corpo do Rabbi para o perfumar e lhe fazer soar em torno as flautas e os prantos d'um funeral… Um d'elles, corcovado, com esfiadas melenas luzidias d'oleo, affirmava que sempre conhecera José de Ramatha inclinado para todos os innovadores, todos os sediciosos… Mais d'uma vez o vira fallar com esse Rabbi junto ao campo dos Tintureiros… E com elles estava Nicodemus, homem rico que tem gados, que tem vinhas, e todas as casas que estão d'ambos os lados da Synagoga de Cyrenaica…
Outro, rubicundo e molle, gemeu:
—Que será da nação, se os mais considerados se juntam aos que adulam o pobre, e lhe ensinam que os fructos da terra devem ser igualmente para todos!…
—Raça de Messias! bradou o mais moço com furor, atirando o bastão contra as urzes. Raça de Messias, perdição d'Israel!
Mas o Sadduceu de melenas oleosas ergueu devagar a mão, ligada em tiras sagradas:
—Socegai: Jehovah é grande: e tudo em verdade determina para melhor… No Templo e no Conselho não faltarão jámais homens fortes que mantenham a velha Ordem; e em cima dos calvarios, felizmente, hão de sempre erguer-se as cruzes!…
E todos susurraram:
—Amen!
No emtanto o Centurião, com os soldados atraz levando ao hombro as barras de ferro, marchava para os outros madeiros onde os condemnados, vivos e cheios d'agonia pediam agua—um pendido e gemendo, outro torcido, com as mãos rasgadas, rugindo terrivelmente. Topsius, que sorria friamente, murmurou: «É tempo, vamos.»
Com os olhos alagados d'agua amarga, tropeçando nas pedras, desci ao lado do fecundo critico a collina de Immolação. E sentia uma densa melancolia entenebrecer a minha alma pensando n'essas cruzes vindouras, annunciadas pelo conservador de guedelha oleosa… Assim seria, oh dura miseria! Sim! d'ora ávante, por todos os seculos a vir, iria sempre recomeçando em torno á lenha das fogueiras, sob a frialdade das masmorras, junto ás escadas das forcas—este affrontoso escandalo de se juntarem Sacerdotes, Patricios, Magistrados, Soldados, Doutores e Mercadores para matarem ferozmente no alto d'um morro o justo que penetrado do esplendor de Deus ensine a Adoração em Espirito, ou cheio do amor dos homens proclame o Reino da Igualdade!
Com estes pensamentos recolhi a Jerusalem—emquanto as aves, mais felizes que os homens, cantavam nos cedros do Gareb…
* * * * *
Escurecera e era a hora da Ceia Paschal, quando chegámos a casa de Gamaliel: no pateo, preso a uma argola, estava o burro, albardado de panos pretos, que trouxera o amavel physico Eliezer de Silo.
Na sala azul, de tecto de cedro, perfumada de malobrathro, o austero Doutor já nos aguardava estendido no divan de correias brancas, com os pés nús, as largas mangas arregaçadas e pregadas no hombro—e ao lado um bordão de viagem, uma cabaça d'agua e uma trouxa, emblemas rituaes da sahida do Egypto. Defronte d'elle, n'uma mesa incrustada de madreperola, entre vasos de barro com flôres pintadas, açafates de filigrana de prata transbordando de fruta e pedaços scintillantes de gelo, erguia-se um candelabro em fórma de arbusto, tendo na ponta de cada galho uma pallida chamma azul: e, com os olhos perdidos no seu brilho tremulo, as mãos cruzadas no ventre, Eliezer, o benigno «Doutor da Tripa», sorria beatificamente encostado a almofadas de couro vermelho. Junto d'elle dois escabellos, recobertos com tapetes da Assyria, esperavam por mim e pelo sagaz Historiador.
—Sêde bem vindos, rosnou Gamaliel. Grandes são as maravilhas de Sião, deveis vir esfomeados…
Bateu de leve as palmas. Os escravos, caminhando sem ruido nas sandalias de feltro, e precedidos majestosamente pelo homem obeso de tunica amarella, entraram, erguendo muito alto largos pratos de cobre que fumegavam.
A um lado tinhamos, para limpar os dedos, um bôlo de farinha branco, fino e molle como um pano de linho; do outro um prato largo, com cercadura de perolas, onde negrejava entre ramos de salsa um montão de cigarras fritas; no chão jarros com agua de rosa. Cumprimos as abluções: e Gamaliel, tendo purificado a bocca com um pedaço de gêlo, murmurou a oração ritual sobre a vasta travessa de prata, onde o cabrito assado fazia transbordar o môlho d'açafrão e saumura.
Topsius, bom sabedor das maneiras orientaes, arrotou fortemente, por cortezia, demonstrando fartura e deleite: depois, com uma febra de anho entre os dedos, affirmou sorrindo aos Doutores que Jerusalem lhe parecera magnifica, formosa de claridade, e bemdita entre as cidades…
Eliezer de Silo acudiu, com os olhos cerrados de gozo, como se o acariciassem:
—Ella é uma joia melhor que o diamante, e o Senhor engastou-a no centro da Terra para que irradiasse igualmente o seu brilho em redor…
—No centro da Terra!… murmurou o Historiador, com douto espanto.
Sim! E, ensopando um pedaço de bôlo no môlho d'açafrão, o profundo Physico explicou a Terra. Ella é chata e mais redonda que um disco; no meio está Jerusalem a santa, como um coração cheio do amor do Altissimo; em redor a Judêa, rica em balsamos e palmeiras, cerca-a de sombra e de aromas; para além ficam os pagãos, em regiões duras onde nem o mel nem o leite abundam; depois são os mares tenebrosos… E por cima o céo, sonoro e solido.
—Solido!… balbuciou o meu sapiente amigo, esgazeado.
Os escravos serviam em taças de prata cerveja amarella da Media. Com solicitude Gamaliel aconselhou-me que, para lhe avivar o sabôr, trincasse uma cigarra frita. E Rabbi Eliezer, sabio entre todos nas coisas da Natureza, revelava a Topsius a divina construcção do céo.
Elle é feito de sete duras, maravilhosas, rutilantes camadas de crystal; por cima d'ellas constantemente rolam as grandes aguas; sobre as aguas fluctua n'um fulgôr o espirito de Jehovah… Estas laminas de crystal, furadas como um crivo, resvalam umas sobre as outras com uma musica dôce e lenta que os prophetas mais queridos por vezes ouviam… Elle mesmo, uma noite que orava no eirado da sua casa em Silo, sentira por um raro favor do Altissimo essa harmonia, tão penetrante e suave que as lagrimas uma a uma lhe cahiam nas mãos abertas… Ora nos mezes de Kisleu e de Tebeth os furos das laminas coincidem, e por elles cahem sobre a Terra as gotas das aguas eternas que fazem crescer as searas!
—A chuva? perguntou Topsius, com acatamento.
—A chuva! respondeu Eliezer, com serenidade.
Topsius, mordendo um sorriso, ergueu para Gamaliel os seus oculos d'ouro que faiscavam de sabia ironia: mas o piedoso filho de Simeon conservava sobre a face, emmagrecida no estudo da Lei, uma seriedade impenetravel. Então o Historiador, remexendo as azeitonas, desejou saber do esclarecido Physico por que tinham os crystaes do céo essa côr azul que enleva a alma…
Eliezer de Silo elucidou-o:
—Uma grande montanha azul, invisivel até hoje aos homens, ergue-se a occidente: ora, quando o sol a bate, a sua reverberação banha o crystal do céo e anila-o.
É talvez n'essa montanha que vivem as almas dos justos!…
Gamaliel tossiu brandamente e murmurou: «Bebamos, louvando o Senhor!».
Ergueu uma taça cheia de vinho de Sichem, pronunciou sobre ella uma benção—passou-m'a, chamando a paz sobre o meu coração. Eu rosnei: «Á sua, muitos e felizes!» E Topsius, recebendo a taça com veneração, bebeu—«á prosperidade d'Israel, á sua força, ao seu saber!»
Depois os servos, precedidos pelo homem obeso de tunica amarella, que fazia resoar sobre as lages com pompa a sua vara de marfim, trouxeram a mais devota comida paschal—as hervas amargas.
Era uma travessa repleta de alface, agriões, chicorea, macella, com vinagre e grossas pedras de sal. Gamaliel mastigava-as solemnemente, como cumprindo um rito. Ellas representavam as amarguras de Israel no captiveiro do Egypto. E Eliezer, chupando os dedos, declarou-as deliciosas, fortificadoras e repassadas de alta lição espiritual.
Mas Topsius lembrou, fundado nos auctores gregos, que todos os legumes amollecem no homem a virilidade, lhe descoram a eloquencia, lhe enervam o heroismo: e com torrencial erudição citou logo Theophrasto, Eubulo, Nicandro na segunda parte do seu Diccionario, Phenias no seu Tratado das Plantas, Dephilo e Epicharmo!…
Gamaliel, seccamente, condemnou a inanidade d'essa sciencia—porque Hecateus de Mileto, só no primeiro livro da sua Descripção da Asia, encerra cincoenta e tres erros, quatorze blasphemias e cento e nove omissões… Assim dizia o leviano grego que a tamara, maravilhoso dom do Altissimo, enfraquece o intellecto!…
—Mas, exclamou Topsius com ardor, a mesma doutrina estabelece
Xenophonte no livro segundo do Anabasis! E Xenophonte…
Gamaliel rejeitou a auctoridade de Xenophonte. Então Topsius, vermelho, batendo com uma colhér de ouro na borda da mesa, exaltou a eloquencia de Xenophonte, a forte nobreza do seu sentimento, a sua terna reverencia por Socrates!… E emquanto eu partia um empadão de Commagenia, os dois facundos doutores, asperamente, romperam debatendo Socrates. Gamaliel affirmava que as vozes secretas ouvidas por Socrates, e que tão divina e puramente o governavam, eram murmurios distantes que lhe chegavam da Judêa, repercussões miraculosas da voz do Senhor… Topsius pulava, encolhia os hombros, com desesperado sarcasmo. Socrates inspirado por Jehovah! Ora lérias!
No emtanto era certo (insistia Gamaliel, já livido) que os gentilicos iam emergindo da sua treva, attrahidos pela luz forte e pura que derramava Jerusalem:—porque a reverencia pelos Deuses apparecia em Eschylo profunda e cheia de terror; em Sophocles, amavel e cheia de serenidade; em Euripides, superficial e cheia de duvida… E cada um dos Tragicos dava assim, largamente, um passo para o Deus verdadeiro!
—Oh Gamaliel, filho de Simeon, murmurou Eliezer de Silo, tu, que possues a verdade, para que dás accesso no teu espirito aos pagãos?
Gamaliel respondeu:
—Para os desprezar melhor dentro em mim!
Farto de tão classica controversia, acheguei a Eliezer um covilhete de mel do Hebron—e contei-lhe quanto me agradára o caminho do Gareb entre jardins. Elle concordou que Jerusalem, cercada de vergeis, era dôce á vista como a fronte da noiva toucada d'anemonas. Depois estranhou que eu escolhesse, para me recrear, esses arredores de Gihon, cheios d'açougues, junto ao môrro escalvado onde se erguem as cruzes. Mais suave me teria sido a fragrancia de Siloeh…
—Fui vêr Jesus, atalhei severamente. Fui vêr Jesus, crucificado esta tarde por mandado do Sanhedrin…
Eliezer, com oriental cortezia, bateu no peito demonstrando mágua. E quiz saber se pertencia ao meu sangue, ou partilhára commigo o pão de alliança, esse Jesus que eu fôra assistir na sua morte d'escravo.
Eu considerei-o, assombrado:
—É o Messias!
E elle considerou-me mais assombrado ainda, com um fio de mel a escorrer-lhe na barba.
Oh raridade! Eliezer, doutor do Templo, Physico do Sanhedrin, não conhecia Jesus de Galilêa! Atarefado com os enfermos que pela Paschoa atulham Jerusalem (confessou elle) não fôra ao Xistus, nem á loja do perfumista Cleos, nem aos eirados de Hannan, onde as novas voam mais numerosas que as pombas: por isso nada ouvira da apparição d'um Messias…
De resto, acrescentou, não podia ser o Messias! Esse deveria chamar-se Manahem «o consolador», porque traria a consolação a Israel. E haveria dois Messias: o primeiro, da tribu de José, seria vencido por Gog; o segundo, filho de David e cheio de força, venceria Magog. Antes d'elle nascer começariam sete annos de maravilhas: haveria mares evaporados, estrellas despregadas do céo, fomes e taes farturas que até as rochas dariam fructo: no ultimo anno correria sangue entre as nações: emfim resoaria uma voz portentosa: e, sobre o Hebron, com uma espada de fogo, surgiria o Messias!…
Dizia estas coisas peregrinas fendendo a casca d'um figo. Depois com um suspiro:
—Ora ainda nenhuma d'essas maravilhas, meu filho, annunciou a consolação!…
E atolou os dentes no figo.
Então fui eu, Theodorico, Ibero, d'um remoto municipio romano, que contei a um Physico de Jerusalem, creado entre os marmores do Templo, a vida do Senhor! Disse as coisas dôces e as coisas fortes: as tres claras estrellas sobre o seu berço; a sua palavra amansando as aguas de Galilêa; o coração dos simples palpitando por elle; o Reino do Céo que promettia; e a sua face augusta brilhando diante do Pretor de Roma…
—Depois os Padres, os Patricios e os Ricos crucificaram-no!
Doutor Eliezer, volvendo a remexer o açafate de figos, murmurou pensativamente:
—Triste, triste!… Todavia, meu filho, o Sanhedrin é misericordioso. Em sete annos, desde que o sirvo, apenas tem lançado tres sentenças de morte… Sim, decerto o mundo necessita bem escutar uma palavra de amor e de justiça: mas Israel tem soffrido tanto com innovadores, com prophetas!… Emfim, nunca se deveria derramar o sangue do homem… E a verdade é que estes figos de Bephtagé não valem os meus de Silo!
Calado, enrolei um cigarro. E n'esse instante o douto Topsius, debatendo ainda com Gamaliel o Hellenismo e as escólas Socraticas, empinado, d'oculos na ponta do bico, soltava este resumo forte:
—Socrates é a semente; Platão a flôr; Aristoteles o fructo… E d'esta arvore, assim completa, se tem nutrido o espirito humano!
Mas Gamaliel subitamente ergueu-se: Doutor Eliezer tambem, arrotando com effusão. Ambos tomaram os cajados, ambos gritaram:
—Alleluia! Louvai o Senhor que nos tirou da terra do Egypto!
Findára a ceia Paschal. O esclarecido Historiador, que limpava o suor da controversia, olhou logo vivamente o relogio e rogou a Gamaliel permissão de subir ao terraço, a refrescar a sua emoção no ar macio d'Ophel… O Doutor da Lei conduziu-nos á varanda alumiada pallidamente por lampadas de mica, mostrou-nos a ingreme escada de ebano que levava aos eirados; e chamando sobre nós a graça do Senhor, penetrou com Eliezer n'um aposento cerrado por cortinas de Mesopotamia—d'onde sahiu um aroma, um fino rumor de risos e sons lentos de lyra.
Que dôce ar no terraço! E que alegre essa noite de Paschoa em Jerusalem! No céo, mudo e fechado como um palacio onde ha luto, nenhum astro brilhava: mas o burgo de David e a collina d'Acra, com as suas illuminações rituaes, pareciam salpicadas d'ouro. Em cada eirado, vasos com estopa ardendo em oleo lançavam uma chamma ondeante e vermelha. Aqui e além, n'alguma casa mais alta os fios de luzes, na parede escura, reluziam como um collar de joias no pescoço d'uma negra. O ar estava dôcemente cortado dos gemidos de flauta, da dolente vibração das cordas do konnor: e em ruas alumiadas por grandes fogueiras de lenha, viamos esvoaçar, claras e curtas, as tunicas de gregos dançando a callabida. Só as torres, mais vastas na noite, a Hippica, a Marianna, a Pharsala se conservavam escuras: e o mugido das suas bozinas passava por vezes, rouco e rude, como uma ameaça, sobre a santa cidade em festa.
Mas para além das muralhas recomeçava a alegria da noite paschal. Havia luzes em Siloeh. Nos acampamentos, sobre o monte das Oliveiras, ardiam fogos claros: e como as portas ficavam abertas, filas de tochas fumegavam pelos caminhos, por entre um rumor de cantares.
Só uma collina, além do Gareb, permanecera em treva. N'essa hora, por baixo d'ella, n'uma ravina entre rochas, alvejavam dois corpos despedaçados, onde os bicos dos abutres com um ruido secco de ferros entrechocados faziam a sua ceia Paschal. Ao menos outro corpo, precioso envolucro d'um espirito perfeito, jazia resguardado n'um tumulo novo, envolto em linho fino, ungido, perfumado de canella e de nardo. Assim o tinham deixado n'essa noite, a mais santa d'Israel, aquelles que o amavam—e que desde então para todo o sempre mais entranhadamente o amariam… Assim o tinham deixado com uma pedra lisa por cima: e agora entre as casas de Jerusalem, cheias de luzes e cheias de cantos—alguma havia, escura e fechada, onde corriam lagrimas sem consolação. Ahi o lar esfriára, apagado: a lampada triste esmorecia sobre o alqueire: na bilha não havia agua, porque ninguem fôra á fonte; e sentadas na esteira, com os cabellos cahidos, aquellas que o tinham seguido de Galilêa fallavam d'elle, das primeiras esperanças, das parabolas contadas por entre os trigaes, dos tempos suaves á beira do lago…
Assim eu pensava, debruçado sobre o muro, olhando Jerusalem—quando no terraço surgiu, sem rumor, uma fórma envolta em linhos brancos, espalhando um aroma de canella e de nardo. Pareceu-me que d'ella irradiava um clarão, que os seus pés não pisavam as lages—e o meu coração tremeu! Mas d'entre os pallidos panos uma benção sahiu, grave e familiar:
—Que a paz seja comvosco!
Ah! que allivio! Era Gad.
—Que a paz seja comtigo!
O Essenio parou diante de nós, calado; e eu sentia os seus olhos procurarem o fundo da minha alma, para lhe sondar bem a grandeza e a força. Por fim murmurou, immovel como uma imagem tumular nas suas grandes vestes brancas:
—A lua vai nascer… Todas as coisas esperadas se estão cumprindo… Agora, dizei! Sentis o coração forte para acompanhar Jesus, e guardal-o até ao oasis d'Engaddi?
Ergui-me, atirando os braços ao ar, n'um terror!… Acompanhar o Rabbi! Elle não jazia pois morto, ligado e perfumado, sob uma pedra, n'uma horta do Qareb?… Vivia! Ao nascer da lua, entre os seus amigos, ia partir para Engaddi! Agarrei anciosamente o hombro de Topsius, amparando-me ao seu saber forte e á sua auctoridade…
O meu douto amigo parecia enleado n'uma pesada incerteza:
—Sim, talvez… O nosso coração é forte, mas… Além d'isso não temos armas!
—Vinde commigo! acudiu Gad, ardentemente. Passaremos por casa d'alguem que nos dirá as coisas que convém saber, e que vos dará armas!…
Ainda trémulo, sem me desamparar do sapiente Historiador, ousei balbuciar:
—E Jesus?… Onde está?
—Em casa de José de Ramatha, segredou o Essenio espreitando em roda como o avaro que falla d'um thesouro. Para que nada suspeitasse a gente do Templo, mesmo na presença d'elles depositámos o Rabbi no tumulo novo que está no horto de José. Tres vezes as mulheres choraram sobre a pedra que segundo os ritos, como sabeis, não fechava inteiramente o tumulo, deixando uma larga fenda por onde se via o rosto do Rabbi. Alguns serventes do Templo olharam, e disseram: «Está bem.» Cada um recolheu á sua morada… Eu entrei pela porta de Genath, nada mais vi. Mas, apenas anoitecesse, José e outro, fiel inteiramente, deviam ir buscar o corpo de Jesus, e com as receitas que vem no livro de Salomão fazel-o reviver do desmaio em que o deixou o vinho narcotisado e o soffrimento… Vinde pois, vós que o amaes tambem e crêdes n'elle!…
Impressionado, decidido, Topsius traçou a sua farta capa: e descemos, n'um cauto silencio, pela escada que do terraço levava um caminho de pedra miuda collado á muralha nova d'Herodes.
Longo tempo marchámos na escuridão, guiados pelas roupagens brancas do Essenio. D'entre casebres em ruinas, por vezes um cão saltava uivando. Sobre as altas ameias passavam mortiças lanternas de ronda. Depois uma sombra que tossia ergueu-se de sob uma arvore, triste e molle como se sahisse da sua sepultura; e roçando o meu braço, puxando a capa de Topsius, rogava-nos através de gemidos e baforadas d'alho que fôssemos dormir ao seu leito que ella perfumára de nardo.
Parámos finalmente diante d'um muro, a que uma esteira grossa d'esparto cerrava a entrada. Um corredor que ressumbrava agua levou-nos a um pateo rodeado por uma varanda, assente sobre rudes vigas de madeira: o chão molle como lodo abafava o rumor das nossas solas.
Gad, tres vezes espaçadas, soltou o grito dos chacaes. Nós esperavamos no meio do pateo, á borda d'um poço, coberto com tábuas: o céo, por cima, guardava a escuridão dura e impenetravel d'um bronze. A um canto, emfim, sob a varanda, um clarão vivo de lampada surgiu—alumiando a barba negra do homem que a trazia e que lançára sobre a cabeça a ponta d'um albornoz pardo de galileu. Mas a luz morreu sob um sôpro forte. E o homem, lentamente, na treva, caminhou para nós.
Gad cortou a desolada mudez:
—Que a paz seja comtigo, irmão! Estamos promptos.
O homem pousou devagar a lampada sobre a tampa do poço, e disse:
—Tudo está consummado.
Gad, estremecendo, gritou:
—O Rabbi?
O homem atirou a mão para abafar o grito do Essenio. Depois, tendo sondado a sombra em redor com olhos inquietos que reluziam como os d'um animal do deserto:
—São coisas mais altas do que podemos entender. Tudo parecia certo. O vinho narcotisado fôra bem preparado pela mulher de Rosmophim, que é habil e conhece os simples… Eu tinha fallado ao Centurião, um camarada a quem salvei a vida na Germania, na campanha de Publius. E, quando rolámos a pedra sobre o tumulo de José de Ramatha, o corpo do Rabbi estava quente!
Mas calou-se: e, como se o pateo fechado sob o céo negro não fosse bastante secreto e seguro, tocou no hombro de Gad, e sem um rumor dos pés nús recolheu á escuridão mais densa sob a varanda, até ás pedras do muro. Nós, rente a elle e mudos, tremiamos de anciedade:—e eu senti que uma revelação ia passar, suprema e prodigiosa, alumiando os Mysterios.
—Ao anoitecer, segredou o homem por fim com um murmurio triste d'agua correndo na sombra, voltámos ao tumulo. Olhámos pela fenda: a face do Rabbi estava serena e cheia de magestade. Levantámos a pedra, tirámos o corpo. Parecia adormecido, tão bello, como divino, nos panos que o envolviam… José tinha uma lanterna: e levámol-o pelo Gareb, correndo através do arvoredo. Ao pé da fonte encontrámos uma ronda da Cohorte auxiliar. Dissemos: «é um homem de Joppé que adoeceu, e que nós levamos á sua synagoga.» A ronda disse: «passai». Em casa de José estava Simeon o Essenio, que viveu em Alexandria e sabe a natureza das plantas: e tudo fôra preparado, até a raiz do baraz… Estendemos Jesus na esteira. Démos-lhe a beber os cordiaes, chamámol-o, esperámos, orámos… Mas ai! sentiamos, sob as nossas mãos, arrefecer-lhe o corpo!… Um instante abriu lentamente os olhos, uma palavra sahiu-lhe dos labios. Era vaga, não a comprehendemos… Parecia que invocava seu pai, e que se queixava de um abandono… Depois estremeceu: um pouco de sangue appareceu-lhe ao canto da bocca… E, com a cabeça sobre o peito de Nicodemus, o Rabbi ficou morto!
Gad cahiu pesadamente de joelhos, soluçando: e o homem, como se todas as coisas tivessem sido ditas, deu um passo para buscar a sua lampada ao poço. Topsius deteve-o, com avidez:
—Escuta! Preciso toda a verdade. Que fizestes depois?
O homem parou junto a um dos pilares de madeira. Depois, alargando os braços na escuridão, e tão perto das nossas faces que eu sentia o seu bafo quente:
—Era necessario, para bem da terra, que se cumprissem as prophecias! Durante duas horas José de Ramatha orou, prostrado. Não sei se o Senhor lhe fallou em segredo; mas, quando se ergueu, resplandecia todo e gritou: «Elias veio! Elias veio! Os tempos chegaram!» Depois, por sua ordem, enterrámos o Rabbi n'uma caverna que elle tem, talhada na rocha, por traz do moinho…
Atravessou o pateo, tomou a sua lampada. E recolhia lentamente, sem um rumor, quando Gad, erguendo a face, o chamou através dos seus soluços:
—Escuta ainda! Grande é o Senhor, na verdade!… E o outro tumulo, onde as mulheres de Galilêa o deixaram, ligado e envolto em panos, com aloes e com nardo?
O homem, sem parar, murmurou, já sumido na treva:
—Lá ficou aberto, lá ficou vazio!…
Então Topsius arrastou-me pelo braço tão arrebatadamente que tropeçavamos no escuro contra os pilares da varanda. Uma porta ao fundo abriu-se, com um brusco estrondo de ferros cahidos… E vi uma praça, rodeada de pallidos arcos, triste e fria, com herva entre as fendas das lages dessoldadas, como n'uma cidade abandonada. Topsius estacou, os seus oculos faiscavam:
—Theodorico, a noite termina, vamos partir de Jerusalem!… A nossa jornada ao Passado acabou… A lenda inicial do christianismo está feita, vai findar o mundo antigo!
Eu considerei, assombrado e arripiado, o douto Historiador. Os seus cabellos ondeavam agitados por um vento de inspiração. E o que levemente sahia dos seus finos labios retumbava, terrivel e enorme, cahindo sobre o meu coração:
—Depois d'ámanhã, quando acabar o Sabbath, as mulheres de Galilêa voltarão ao sepulchro de José de Ramatha onde deixaram Jesus sepultado… E encontram-no aberto, encontram-no vazio!… «Desappareceu, não está aqui!…» Então Maria de Magdala, crente e apaixonada, irá gritar por Jerusalém—«resuscitou, resuscitou!» E assim o amor d'uma mulher muda a face do mundo, e dá uma religião mais á humanidade!
E, atirando os braços ao ar, correu através da praça—onde os pilares de marmore começavam a tombar, sem ruido e mollemente. Arquejando, parámos no portão de Gamaliel. Um escravo, tendo ainda nos pulsos pedaços de cadêas partidas, segurava os nossos cavallos. Montámos. Com um fragor de pedras levadas n'uma torrente, varámos a Porta d'Ouro: e galopámos para Jerichó, pela estrada romana de Sichem, tão vertiginosamente que não sentiamos as ferraduras ferir as lages negras de basalto. Adiante, a capa branca de Topsius torcia-se açoutada por uma rajada furiosa. Os montes corriam aos lados, como fardos sobre dorsos de camêlos na debandada d'um povo. As ventas da minha egoa dardejavam jactos de fumo avermelhado:—e eu agarrava-me ás clinas, tonto, como se rolasse entre nuvens…
De repente avistámos, alargada, cavada até ás serras de Moab, a planicie de Canaan. O nosso acampamento alvejava junto ás bragas dormentes da fogueira. Os cavallos estacaram, tremendo. Corremos ás tendas: sobre a mesa, a vela que Topsius accendera para se vestir, havia mil e oitocentos annos, morria n'um fogacho livido… E derreado da infinita jornada atirei-me para o catre, sem mesmo descalçar as botas brancas de pó…
Immediatamente me pareceu que uma tocha fumegante penetrára na tenda, esparzindo um brilho d'ouro… Ergui-me, assustado. N'um largo raio de sol, vindo dos montes de Moab, o jocundo Potte entrava, em mangas de camisa, com as minhas botas na mão!
Arrojei a manta, arredei os cabellos, para verificar melhor a mudança terrivel que desde a vespera se fizera no Universo! Sobre a mesa jaziam as garrafas do champagne com que brindaramos á Sciencia e á Religião. O embrulho da Corôa d'Espinhos pousava á minha cabeceira. Topsius, no seu catre, em camisola e com um lenço amarrado na testa, bocejava, pondo os oculos de ouro no bico. E o risonho Potte, censurando a nossa preguiça, queria saber se appeteciamos n'essa manhã—«tapioca ou café».
Deixei sahir deliciosamente do peito um ruidoso, consolado suspiro. E no jubilo triumphal de me sentir reentrado na minha individualidade e no meu seculo pulei sobre o colxão, com a fralda ao vento, bradei:
—Tapioca, meu Potte! Uma tapioca bem docinha e mollesinha, que saiba bem ao meu Portugal!…
IV
Ao outro dia, que fôra um radioso domingo, levantámos de Jerichó as nossas tendas; e caminhando com o sol para occidente; pelo valle de Cherith, começámos a romagem de Galilêa.
Mas ou fosse que a consoladora fonte da admiração houvesse seccado dentro em mim, ou que a minha alma, arrebatada um momento aos cimos da Historia e batida ahi por asperas rajadas de emoção, não se pudesse já aprazer n'estes quietos e êrmos caminhos da Syria—senti sempre indifferença e cansaço, do paiz de Ephraim ao paiz de Zebelon.
Quando n'essa noite acampámos em Bethel, vinha a lua cheia sahindo por traz dos montes negros de Gilead… O festivo Potte mostrou-me logo o chão sagrado em que Jacob, pastor de Bersabé, tendo adormecido sobre uma rocha, vira uma escada que faiscava, fincada a seus pés e arrimada ás estrellas, por onde ascendiam e baixavam, entre terra e céo, anjos calados, com as azas fechadas… Eu bocejei formidavelmente e rosnei:—«Tem seu chic!…»
E assim rosnando e bocejando, atravessei a terra dos prodigios. A graça dos valles foi-me tão fastidiosa como a santidade das ruinas. No poço de Jacob, sentado nas mesmas pedras em que Jesus, cansado como eu da calma d'estas estradas e como eu bebendo do cantaro d'uma Samaritana, ensinára a nova e pura maneira de adorar; nas encostas do Carmello, n'uma cella de mosteiro, ouvindo de noite ramalhar os cedros que abrigaram Elias, e gemerem em baixo as ondas, vassallas de Hyram rei de Tyro; galopando com o albornoz ao vento pela planicie de Esdrelon; remando dôcemente no lago de Grenesareth, coberto de silencio e de luz—sempre o Tedio marchou a meu lado como companheiro fiel, que a cada passo me apertava ao seu peito molle, debaixo do seu manto pardo…
Ás vezes, porém, uma saudade fina e gostosa, vinda do remoto Passado, levantava de leve a minha alma, como uma aragem lenta faz a uma cortina muito pesada… E então, fumando diante das tendas, trotando pelo leito sêcco das torrentes, eu revia, com deleite, pedaços soltos d'essa Antiguidade que me apaixonára:—a Therma romana onde uma creatura maravilhosa de mitra amarella se offertava, lasciva e pontifical; o formoso Manassés levando a mão á espada cheia de pedrarias; mercadores, no Templo, desdobrando os brocados de Babylonia; a sentença do Rabbi com um traço vermelho, n'um pilar de pedra, á porta Judiciaria; ruas illuminadas, gregos dançando a callabida… E era logo um desejo angustioso de remergulhar n'esse mundo irrecuperavel. Coisa risivel! eu, Raposo e bacharel, no farto gozo de todos os confortos da Civilisação—tinha saudade d'essa barbara Jerusalem que habitára n'um dia do mez de Nizam, sendo Poncius Pilatus procurador da Judêa!
Depois estas memorias esmoreciam como fogos a que falta a lenha. Na minha alma só restavam cinzas—e, diante das ruinas do monte Ebal ou sob os pomares que perfumam Sichem a Levitica, recomeçava a bocejar.
Quando chegámos a Nazareth, que apparece na desolação da Palestina como um ramalhete pousado na pedra d'uma sepultura—nem me interessaram as lindas judias por quem se banhou de ternura o coração de Santo Antonino. Com a sua cantara vermelha ao hombro, ellas subiam por entre os sycomoros á fonte onde Maria, mãi de Jesus, ia todas as tardes, cantando como estas e como estas vestida de branco… O jocundo Potte, torcendo os bigodes, murmurava-lhes madrigaes; ellas sorriam, baixando as pestanas pesadas e meigas. Era diante d'esta suave modestia que Santo Antonino, apoiado ao seu bordão, sacudindo a sua longa barba, suspirava: «Oh virtudes claras, herdadas de Maria cheia de graça!» Eu, por mim, rosnava seccamente: «lambisgoias»!
Através de viellas onde a vinha e a figueira abrigam casas humildes, como convém á dôce aldeia d'aquelle que ensinou a humildade, trepámos ao cimo de Nazareth, batido sempre do largo vento que sopra das Idumeias. Ahi Topsius tirou o barrete saudando essas planicies, esses longes, que decerto Jesus vinha contemplar, concebendo diante da sua luz e da sua graça as incomparaveis bellezas do reino de Deus… O dedo do douto Historiador ia-me apontando todos os lugares religiosos—cujos nomes sonoros cahem na alma com uma solemnidade de prophecia ou com um fragor de batalha: Esdrelon, Endor, Sulem, Thabor… Eu olhava, enrolando um cigarro. Sobre o Carmello sorria uma brancura de neve; as planicies da Perea fulguravam, rolando uma poeira de ouro; o golfo de Kaipha era todo azul; uma tristeza cobria ao longe as montanhas de Samaria; grandes aguias torneavam sobre os valles… Bocejando, rosnei:
—Vistasinha catita!
Uma madrugada, emfim, recomeçámos a descer para Jerusalem. Desde Samaria a Ramah fomos alagados por esses vastos e negros chuveiros da Syria que armam logo torrentes rugindo entre as rochas, sob os aloendros em flôr: depois, junto á collina de Gibeah onde outr'ora no seu jardim, entre o loiro e o cypreste, David tangia harpa olhando Sião—tudo se vestiu, de serenidade e de azul. E uma inquietação engolfou-se em minha alma como um vento triste n'uma ruina… Eu ia avistar Jerusalem! Mas—qual? Seria a mesma que vira um dia, resplandecendo sumptuosamente ao sol de Nizam, com as torres formidaveis, o Templo côr de ouro e côr de neve, Acra cheia de palacios, Bezetha regada pelas aguas d'Enrogel?…
—El-Kurds! El-Kurds! gritou o velho beduino, com a lança no ar, annunciando pela sua alcunha musulmana a cidade do Senhor.
Galopei, a tremer… E logo a vi, lá em baixo, junto á ravina do Cedron, sombria, atulhada de conventos e agachada nas suas muralhas caducas—como uma pobre, coberta de piolhos, que para morrer se embrulha a um canto nos farrapos do seu mantéo.
Bem depressa, transpassada a Porta de Damasco, as patas dos nossos cavallos atroaram o lagedo da rua Christã: rente ao muro um frade gordo, com o breviario e o guardasol de paninho entalados sob o braço, ia sorvendo uma pitada estrondosa. Apeámos no Hotel do Mediterraneo: no esguio pateo, sob um annuncio das «Pilulas Holloway» um inglez, com um quadrado de vidro collado ao olho claro, os sapatões atirados para cima do divan de chita, lia o Times; por traz d'uma varanda aberta, onde seccavam ceroulas brancas com nodoas de café, uma goela roufenha vozeava: C'est le beau Nicolas, holà!… Ah! era esta, era esta, a Jerusalém Catholica!… Depois ao penetrar no nosso quarto, claro e alegrado pelo tabique de ramagens azues, ainda um instante me rebrilhou na memoria certa sala, com candelabros d'ouro e uma estatua d'Augusto, onde um homem togado estendia o braço e dizia: «Cesar conhece-me bem!»
Corri logo á janella a sorver o ar vivo da moderna Sião. Lá estava o convento com as suas persianas verdes fechadas, e as gotteiras agora mudas n'esta tarde de sol e doçura… Entre socalcos de jardins, lá se torciam as escadinhas, cruzadas por Franciscanos d'alpercatas, por judeus magros de sujas melenas… E que repouso na frescura d'estas paredes de cella depois das estradas abrazadas de Samaria! Fui apalpar a cama fofa. Abri o guarda-roupa de mogno. Fiz uma caricia leve ao embrulhinho da camisa da Mary, redondo e gracioso com o seu nastro vermelho, aninhado entre piugas.
N'esse instante o jocundo Potte entrou a trazer-me o precioso embrulho da Corôa d'Espinhos, redondo e nitido com o seu nastro vermelho; e alegremente deu-me as novas de Jerusalem. Colhera-as do barbeiro da Via-Dolorosa e eram consideraveis. De Constantinopla viera um firman exilando o Patriarcha grego, pobre velho evangelico, com uma doença de figado, que soccorria os pobres. O snr. consul Damiani affirmára na loja de reliquias da rua Armenia, batendo o pé, que antes do dia de Reis, por causa da birra do murro entre os Franscicanos e a Missão Protestante, a Italia tomaria armas contra a Allemanha. Em Bethlem, na egreja da Natividade, um padre latino n'uma bulha, ao benzer hostias, rachára a cabeça d'um padre copta com uma tocha de cera… E enfim, novidade mais jubilosa, abrira-se para alegria de Sião, ao pé da porta de Herodes, deitando sobre o valle de Josaphat, um café com bilhares, chamado o Retiro do Sinai!
Subitamente, saudades dolentes do passado, cinzas que me cobriam a alma foram varridas por um fresco vento de mocidade e de modernidade… Pulei sobre o ladrilho sonoro:
—Viva o bello Retiro! A elle! ás iscas! á carambola! Irra! que estava morto por me refestellar! E depois ás mulherinhas!… Põe ahi o embrulho da Corôa, bello Potte… Isso significa muito bago! Jesus, o que ahi a titi se vai babar!… Planta-o em cima da commoda, entre os castiçaes… E logo, depois da comidinha, Pottesinho, para o Retiro do Sinai!
Justamente o sabio Topsius entrava esbaforido, com uma formosa nova historica! Durante a nossa romagem a Galilêa, a Commissão de Excavações Biblicas encontrára, sob lixos seculares, uma das lapides de marmore que, segundo Josepho e Philon e os Talmuds, se erguiam no Templo, junto á Porta Bella, com uma inscripção prohibindo a entrada aos Gentilicos… E elle instava que marchassemos, engolida a sopa, a pasmar para essa maravilha… Um momento ainda me rebrilhou na memoria uma Porta, bella em verdade, preciosa e triumphal, sobre os seus quatorze degraus de marmore verde de Numidia…
Mas sacudi desabridamente os braços, n'uma revolta:
—Não quero! gritei. Estou farto!… Irra! E aqui lh'o declaro, Topsius, solemnemente: de hoje em diante não torno a vêr nem mais um pedregulho, nem mais um sitio de Religião… Irra! Tenho a minha dóse: e forte, muito forte, doutor!
O sabio, enfiado, abalou com a rabona collada ás nádegas.
* * * * *
N'essa semana occupei-me em documentar e empacotar as Reliquias Menores que destinava á tia Patrocinio. Copiosas e bem preciosas eram ellas—e com devotissimo lustre brilhariam no thesouro da mais orgulhosa Sé! Além das que Sião importa de Marselha em caixotes—rosarios, bentinhos, medalhas, escapularios; além das que fornecem no Santo Sepulcho os vendilhões—frascos d'agua do Jordão, pedrinhas da Via Dolorosa, azeitonas do Monte Olivete, conchas do lago de Genesareth—eu levava-lhe outras raras, peregrinas, ineditas… Era uma taboinha aplainada por S. José; duas palhinhas do curral onde nasceu o Senhor; um bocadinho do cantaro com que a Virgem ia á fonte; uma ferradura do burrinho em que fugiu a Santa Familia para a terra do Egypto; e um prégo torto e ferrugento…
Estas preciosidades, embrulhadas em papeis de côr, atadas com fitinhas de sêda, guarnecidas de tocantes disticos—foram acondicionadas n'um forte caixote, que a minha prudencia fez revestir de chapas de ferro. Depois cuidei da Reliquia Maior, a Corôa de Espinhos, fonte de celestiaes mercês para a titi—e de sonora pecunia para mim, seu cavalleiro e seu romeiro.
Para a encaixotar, ambicionei uma madeira preclara e santa. Topsius aconselhava o cedro do Libano—tão bello que por elle Salomão fez alliança com Hyram rei de Tyro. O jocundo Potte porém, menos archeologico, lembrou o honesto pinho de Flandres benzido pelo Patriarcha de Jerusalem. Eu diria á titi que os prégos para o pregar tinham pertencido á Arca de Noé: que um Ermitão os achára miraculosamente no monte Ararat; que a ferragem que n'elles deixára o lodo primitivo, dissolvida em agua benta, curava catarrhos… Tramámos estas coisas consideraveis, cervejando no Sinai.
Durante esta atarefada semana, o embrulho da Corôa d'Espinhos permanecera na commoda entre os dois castiçaes de vidro: foi só na vespera de deixarmos Jerusalem que o encaixotei com carinho. Forrei a madeira de chita azul, comprada na Via Dolorosa; fiz fôfo e dôce o fundo do caixote com uma camada d'algodão mais branco que a neve do Carmello; e colloquei dentro o adoravel embrulho, sem o remexer, como Topsius o arranjára, no seu papel pardo e no seu nastro vermelho—porque estas mesmas dobras do papel vincadas em Jerichó, este mesmo nó do nastro atado junto ao Jordão, teriam para a snr.^a D. Patrocinio um insubstituivel sabor de devoção… O esguio Topsius considerava estes piedosos aprestes, fumando o seu cachimbo de louça.
—Oh Topsius, que chelpa isto me vai render! E diga lá, amiguinho, diga lá! Então acha que eu posso affirmar á titi que esta Corôa d'Espinhos foi a mesma que…
O doutissimo homem, por entre o fumo leve, soltou uma solidissima maxima:
—As reliquias, D. Raposo, não valem pela authenticidade que possuem, mas pela fé que inspiram. Póde dizer á titi que foi a mesma!
—Bemdito sejas, doutor!
N'essa tarde, o erudito homem acompanhára aos Tumulos dos Reis a Commissão de Excavações. Eu parti, só, para o Horto das Oliveiras—porque não havia, em torno a Jerusalem, lugar de sombra onde mais gratamente em tardes serenas gozasse um pachorrento cachimbo.
Sahi pela porta de Santo Estevão; trotei pela ponte do Cedron; galguei o atalho entre piteiras até ao murosinho, caiado e aldeão, que cerra o jardim de Gethsemani. Empurrei a portinha verde, pintada de fresco, com a sua aldraba de cobre: e penetrei no pomar onde Jesus ajoelhou e gemeu sob a folhagem das Oliveiras. Alli vivem ainda, essas arvores santas que ramalharam embaladoramente sobre a sua cabeça fatigada do mundo! São oito, negras, carcomidas pela decrepitude, escoradas com estacas de madeira, amodorradas, já esquecidas d'essa noite de Nizam em que os anjos, voando sem rumor, espreitavam através dos seus ramos as desconsolações humanas do filho de Deus… Nos buracos dos seus troncos estão guardados enxós e podões: nas pontas dos galhos raras e tenues folhinhas, d'um verde sem seiva, tremem e mal vivem como os sorrisos d'um moribundo.
E em redor que hortasinha caridosamente regada, estrumada com devoção! Em canteiros, com sebes de alfena, verdejam frescas alfaces: as ruasinhas areadas não têm uma folha murcha que lhes macule o aceio de capella: rente aos muros, onde rebrilham em nichos doze Apostolos de louça, correm alfobres de cebolinho e cenoura fechados por cheirosa alfazema… Porque não floria aqui, em tempos de Jesus, tão suave quintal? Talvez a placida ordem d'estes uteis legumes calmasse a tormenta do seu coração!
Sentei-me debaixo da mais velha oliveira. O frade guardião, risonho santo de barbas sem fim, regava com o habito arregaçado os seus vasos de rainunculos. A tarde cahia com melancolico esplendor.
E, enchendo o cachimbo, eu sorria aos meus pensamentos. Sim! Ao outro dia deixaria essa cinzenta cidade, que lá em baixo se agachava entre os seus muros funebres como viuva que não quer ser consolada… Depois uma manhã, cortando a vaga azul, avistaria a serra fresca de Cintra: as gaivotas da patria vinham dar-me o grito de boa acolhida, esvoaçando em torno aos mastros; Lisboa pouco a pouco surgia, com as suas brancas caliças, a herva nos seus telhados, indolente e dôce aos meus olhos… Berrando «oh titi, oh titi!», eu trepava as escadas de pedra da nossa casa em Sant'Anna: e a titi, com fios de baba no queixo, punha-se a tremer diante da Grande Reliquia que eu lhe offerecia, modesto. Então, na presença de testemunhas celestes, de S. Pedro, de Nossa Senhora do Patrocinio, de S. Casimiro e de S. José, ella chamava-me «seu filho, seu herdeiro!» E ao outro dia começava a amarellecer, a definhar, a gemer… Oh delicia!
De leve, sobre o muro, entre as madresilvas um passaro cantou: e mais alegre que elle cantou uma esperança no meu coração! Era a titi na cama, com o lenço negro amarrado na cabeça, apalpando angustiosamente as dobras do lençol suado, arquejando com terror do Diabo… Era a titi a espichar, retesando as canellas. N'um dia macio de Maio mettiam-n'a já fria e cheirando mal, dentro d'um caixão bem pregado e bem seguro. Com tipoias atraz, lá marchava D. Patrocinio para a sua cova, para os bichos. Depois quebrava-se o lacre do testamento na sala dos damascos, onde eu preparára para o tabellião Justino pasteis e vinho do Porto: carregado de luto, amparado ao marmore da mesa, eu afogava n'um lenço amarfanhado o escandaloso brilho da minha face: e d'entre as folhas de papel sellado sentia, rolando com um tinir d'ouro, rolando com um susurro de searas, rolando, rolando para mim os contos de G. Godinho!… Oh extasi!
O santo frade pousára o regador, e passeava com o Breviario aberto n'uma ruasinha de murta. Que faria eu, na minha casa em Sant'Anna, apenas levassem a fetida velha, amortalhada n'um habito de Nossa Senhora? Uma alta justiça: correr ao oratorio, apagar as luzes, desfolhar os ramos, abandonar os santos á escuridão e ao bolor! Sim, todo eu, Raposo e liberal, necessitava a desforra de me ter prostrado diante das suas figuras pintadas como um sordido sacrista, de me ter recommendado á sua influencia de calendario como um escravo credulo! Eu servira os santos para servir a titi. Mas agora, ineffavel deleite, ella na sua cova apodrecia: n'aquelles olhos, onde nunca escorrera uma lagrima caridosa, fervilhavam gulosamente os vermes: sob aquelles beiços, desfeitos em lôdo, surgiam emfim sorrindo os seus velhos dentes furados que jámais tinham sorrido… Os contos de G. Godinho eram meus; e libertado da ascorosa senhora, eu já não devia aos seus santos nem rezas nem rosas! Depois, cumprida esta obra de justiça philosophica, corria a Paris, ás mulherinhas!
O bom frade, risonho na sua barba de neve, bateu-me no hombro, chamou-me seu filho, lembrou-me que se fechava o Santo Horto e que lhe seria grata a minha esmola… Dei-lhe uma placa: e recolhi regalado a Jerusalem, devagar, pelo valle de Josaphat, cantarolando um fado meigo.
Ao outro dia de tarde, tocava o sino a Novena na egreja da Flagellação quando a nossa caravana se formou á porta do Hotel do Mediterraneo, para partirmos de Jerusalem. Os caixões das reliquias iam sobre o macho, entre os fardos. O beduino, mais encatarrhoado, abafára-se n'um ignobil cachenez de sacristão. Topsius montava outra egoa, séria e pachorrenta. E eu, que por alegria puzera uma rosa vermelha ao peito, resmunguei, ao pisarmos pela vez derradeira a Via Dolorosa:—«Fica-te, possilga de Sião!»
Já chegávamos á porta de Damasco quando um grito esbaforido resoou, no alto da rua, á esquina do convento dos Abyssinios:
—Amigo Potte, doutor, cavalheiros!… Um embrulho! Esqueceu um embrulho…
Era o negro do Hotel, em cabello, agitando um embrulho que logo reconheci pelo papel pardo e pelo nastro vermelho. A camisinha de dormir da Mary! E recordei que com effeito, ao emmalar, eu não o vira no guarda-roupa, no seu ninho de piugas.
Esfalfado, o servo contou que depois de partirmos, varrendo o quarto, descobrira o embrulhinho entre pó e aranhas, detraz da commoda; limpára-o carinhosamente; e como fôra sempre seu afan servir o fidalgo lusitano, abalára, mesmo sem a jaleca…
—Basta! rosnei eu, sêcco e carrancudo.
Dei-lhe as moedas de cobre que me atulhavam as algibeiras. E pensava: «Como rolou elle para traz da commoda?» Talvez o negro atabalhoado que, arrumando, o tirára do seu ninho de piugas… Pois antes lá permanecesse para sempre, entre o pó e as aranhas! Porque em verdade este pacote era agora audazmente impertinente.
Decerto! eu amava a Mary. A esperança que em breve na terra do Egypto seria apertado pelos seus braços gordinhos ainda me fazia espreguiçar com langor. Mas guardando fielmente a sua imagem no coração, não necessitava trazer perennemente á garupa a sua camisinha de dormir. Com que direito pois corria esta bretanha atraz de mim, pelas ruas de Jerusalem, querendo installar-se violentamente nas minhas malas e acompanhar-me á minha patria?
E era essa idéa de patria que me torturava, emquanto nos afastavamos das muralhas da Cidade Santa… Como poderia eu jámais penetrar com este pacote lubrico na casa ecclesiastica da tia Patrocinio? Constantemente a titi se encafuava no meu quarto, munida de chaves falsas, aspera e avida, rebuscando pelos cantos, nas minhas cartas e nas minhas ceroulas… Que cólera a esverdearia se n'uma noite de pesquizas ella encontrasse estas rendas babujadas pelos meus labios, fedendo a peccado, com a offerta em letra cursiva «Ao meu portuguezinho valente!»
«Se soubesse que n'esta santa viagem te tinhas mettido com saias, escorraçava-te como um cão!» Assim o dissera a titi, em vesperas da minha romagem, diante da Magistratura e da Egreja. E iria eu, pelo luxo sentimental de conservar a reliquia d'uma luveira, perder a amizade da velha que tão caramente conquistára com terços, pingos d'agua benta e humilhações da razão liberal? Jámais!… E, se não afoguei logo o embrulho funesto na agua d'um charco, ao atravessarmos as choças de Kolonieh, foi para não revelar ao penetrante Topsius as covardias do meu coração. Mas decidi que mal penetrassemos com a noite nas montanhas de Judá, retardaria o passo á egoa, e longe dos oculos do Historiador, longe das solicitudes de Potte, arrojaria a um barranco a terrivel camisa da Mary, evidencia do meu peccado e damno da minha fortuna. E que bem depressa os dentes dos chacaes a rasgassem! Bem depressa os chuveiros do Senhor a apodrecessem!
Já passáramos o tumulo de Samuel por traz dos rochedos d'Emmaus, já para sempre Jerusalem desapparecera aos meus olhos, quando a egoa de Topsius, avistando uma fonte, n'um valle cavado junto á estrada, deixou a caravana, deixou o dever—e trotou para a agua, com impudencia e com alacridade. Estaquei, indignado:
—Puxe-lhe a redea, doutor! Olha que descaro d'egoa! Ainda agora bebeu… Não lhe ceda! Puxe mais! Não lhe toque, homem!
Mas debalde o philosopho, com os cotovêlos sahidos, as pernas esticadas, lhe repuxava bridões e clinas. A cavalgadura abalou com o philosopho.
Corri tambem á fonte, para não abandonar n'aquelle ermo o precioso homem. Era um fio d'agua turva, escorrendo d'uma quelha, sobre um tanque escavado na rocha. Ao pé branquejava, já partida, a grande carcassa d'um dromedario. Os ramos d'uma mimosa, alli solitaria, tinham sido queimados por um fogo de caravana. Longe, na espinha escarnada d'uma collina, um pastor, negro no céo opalino, ia caminhando devagar entre as suas ovelhas com a lança pousada ao hombro. E na sombria mudez de tudo a fonte chorava.
Aquella quebrada era tão deserta que me lembrou deixar alli a desfazer-se, como a ossada do dromedario, o embrulhinho da Mary… A egoa do Historiador beberava com pachorra. E eu procurava aqui, além, um barranco ou um charco—quando me pareceu que junto da fonte, e misturado ao pranto d'ella, corria tambem um pranto humano.
Torneei um penedo que avançava soberbamente como a prôa d'uma galera—e descobri, agachada e refugiada entre as pedras e os cardos, uma mulher que chorava, com uma criancinha no regaço: os seus cabellos crespos espalhavam-se pelos hombros e pelos braços, que os trapos negros mal cobriam: e sobre o filho, que dormia no calor do collo, o seu chôro corria, mais contínuo, mais triste que o da fonte, e como se não devesse findar jámais.
Gritei pelo jocundo Potte. Quando elle trotou para nós, agarrando a coronha prateada da sua pistola, suppliquei que perguntasse á mulher a causa d'essas longas lagrimas. Mas ella parecia entontecida pela miseria: fallou surdamente d'um casebre queimado, de cavalleiros turcos que tinham passado, do leite que lhe seccava… Depois apertou a criança contra a face—e suffocada, sob os cabellos esguedelhados, recomeçou a chorar.
O festivo Potte deitou-lhe uma moeda de prata; Topsius tomou, para a sua severa conferencia sobre a Judêa Musulmana, um apontamento d'aquelle infortunio. E eu, commovido, procurava na algibeira o meu cobre—quando me recordei que o dera n'um punhado ao negro do Hotel do Mediterraneo. Mas tive uma util inspiração. Atirei-lhe o perigoso embrulho da camisinha da Mary; e a meu pedido o risonho Potte explicou á desventurada que qualquer das peccadoras que habitam junto á torre de David, a gorda Fatmé ou Palmira a Samaritana, lhe daria duas piastras d'ouro por esse vestido de luxo, de amor e de civilisação.
Trotámos para a estrada. Atraz de nós a mulher lançava-nos, por entre soluços e beijos ao filho, todas as bençãos do seu coração: e a nossa caravana retomou a marcha—emquanto o arrieiro adiante, escarranchado sobre as bagagens, cantava á estrella de Venus que se erguera esse canto da Syria, aspero, alongado e dolente, em que se falla d'amor, de Allah, d'uma batalha com lanças, e dos rosaes de Damasco…
* * * * *
Ao apearmos de manhã no Hotel de Josaphat, na vetusta Jaffa—prodigiosa foi a minha surpreza vendo, pensativamente sentado no pateo, com um bojudo turbante branco, o mofino Alpedrinha!… Fiz-lhe ranger os ossos n'um abraço voraz. E quando Topsius e o jocundo Potte partiram, debaixo do guardasol de paninho, a colher novas do paquete que nos devia levar á terra do Egypto—Alpedrinha contou-me a sua historia, escovando o meu albornoz.
Fôra por tristeza que deixára a «Alexandriasinha». O Hotel das Pyramides, as maletas carregadas, tinham já saturado a sua alma d'um tedio insondavel: e o nosso embarque no Caimão para Jerusalem dera-lhe a saudade dos mares, das cidades cheias d'historia, das multidões desconhecidas… Um judeu de Keshan, que ia fundar uma estalagem em Bagdad com bilhar, alliciára-o para «marcador». E elle, mettendo n'um sacco as piastras juntas nas amarguras do Egypto, ia tentar essa aventura do Progresso junto ás aguas lentas do Euphrates, na terra de Babylonia. Mas, cansado de acarretar fardos alheios, buscava primeiro Jerusalem, insensivelmente, levado talvez pelo Espirito como o Apostolo, para descansar com as mãos quietas a uma esquina da Via Dolorosa…