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A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910) cover

A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910)

Chapter 19: CAPITULO IX
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About This Book

The narrative reconstructs the plot, organization, and execution of the October 1910 republican uprising, combining accounts of espionage, conspiratorial planning, arrests, bomb-making, a high-profile assassination, and battlefield episodes that forced the monarch's flight and led to proclamation of the republic. It alternates detailed chapters on covert networks, failed initiatives, participants' testimonies and lost manuscripts with a chronological report of the revolt's decisive hours, emphasizing improvisation, internal doubts, logistical shortcomings, the moral impact of revolutionary acts, and how limited armed action and enemy inaction together produced success.

CAPITULO IX

As iniciações na carbonaria augmentam consideravelmente

Falemos da carbonaria, a grande organisação secreta que representou um papel importante na revolta de 4 e 5 de outubro. Tão importante, que d'ella sahiram todos os grupos de populares armados que auxiliaram o triumpho e um dos seus membros, da mais elevada cathegoria dentro da associação vinculou indelevelmente o nome e os feitos á implantação da Republica Portugueza.

A Carbonaria vinha de longe. Ha quem supponha, talvez, que ella nasceu propositadamente para a preparação do 28 de janeiro. Não é exacto. Em 1893 já se falava vagamente na existencia d'essa organisação e em 1894 um bom nucleo de estudantes conimbricenses realisava nas margens do Mondego, pela calada da noite, reuniões secretas com todo o cerimonial mysterioso das chamadas lojas revolucionarias, independentes da maçonaria regular.

A gréve do grelo, occorrida em Coimbra ahi por alturas de 1905-1906, revelou pela primeira vez ao publico o funccionamento da Carbonaria n'aquella cidade. Um jornal de Lisboa teve a idéa de entrevistar um dos estudantes mandados sahir de Coimbra por essa occasião e elle, com uma franqueza digna de nota, pôz a questão tal qual se lhe affigurava veridica e irrefutavel. Explicou a interferencia que a Carbonaria certamente poderia ter tido na agitação da população conimbricense, a frequencia das reuniões no Choupal, estrada da Beira e para os lados de Santa Clara, em recantos ignorados da policia e dos espiões monarchicos e explicou... outras coisas mais. No dia seguinte, um grupo de estudantes, alheio a essa organisação de insubmissos, apressou-se a desmentir na imprensa as affirmações d'esse seu collega. A Carbonaria sorriu, encolheu os hombros e o incidente não tardou a esquecer. E foi bom que assim succedesse, para não reavivar as diligencias policiaes effectuadas a proposito do apedrejamento proximo de Coimbra, do comboio que transportava a Lisboa o negociador d'um famigerado convenio financeiro.

 

Mais tarde, Lisboa vê despontar officialmente a Carbonaria para as luctas politicas, embalada pela fé ardente, a tenaz propaganda de Luz d'Almeida. É o momento em que a idéa inicial d'um nucleo forte, aguerrido, de acção immediata e directa contra as instituições monarchicas, apparece tomando corpo, adquirindo um relevo fóra do commum. Da maçonaria regular, a que Luz d'Almeida já dava, n'essa época, o melhor do seu esforço intelligente, sahe como que um filamento, que é o rastilho a applicar a uma bomba monumental. Esse filamento avulta, insinua-se vagarosamente na camada popular, contorce-se em evoluções cautelosas e discretas e a Associação Carbonaria Portugueza, até então uma sombra de resistencia nacional ao despotismo, á tyrannia do throno e dos governantes deshonestos, começa a illuminar o futuro, projectando sobre a treva que o envolve uma luz viva e inapagavel. A nova aggremiação secreta não tem ainda aquelle nome. Tem outro bem differente e não tarda a ser apadrinhada por um dos mais populares caudilhos republicanos.

Luz d'Almeida multiplica-se na conquista de elementos revolucionarios. E é curioso observar como esse homem calmo, d'uma calma que se confunde com a indolencia, desenvolve uma energia rara, uma actividade incomparavel. Conhecemol-o ha quinze annos, quando, ao lado d'um companheiro inseparavel, Ferreira Manso, elle se demorava todas as noites pelo Gelo em propaganda discreta, mas infatigavel. Sempre sereno, sempre conciso, vagaroso no andar, conservando no rosto uma impassibilidade caracteristica, o olhar incidindo certeiramente sobre o pensamento de qualquer dos seus interlocutores, Luz d'Almeida é o typo por excellencia do homem de acção que, uma vez lançado n'uma idéa de combate, vae direito ao fim sem hesitações, sem pressas inuteis, sem medo, sem precipitação. O gesto é sobrio e o vestuario tambem. Não faz alarde da sua decisão nem da sua palavra persuasiva. É methodico, correcto e cauteloso e, dentro d'essa couraça de apparente indifferença, esboça os planos mais audaciosos, resolve as situações as mais difficeis.

Na primeira phase da Carbonaria é com o dr. Antonio José d'Almeida que elle collabora assiduamente. A Floresta—o nome por que é então conhecida a poderosa aggremiação secreta—conta a breve trecho milhares de adeptos. Luz d'Almeida inicia-os dia a dia n'uma progressão assombrosa. De sorte que, antes do 28 de janeiro, elle e o dr. Antonio José d'Almeida adquirem a certeza absoluta de que é justificado confiar ao elemento popular uma boa parte da execução da revolta. E se é certo que na preparação d'aquelle movimento os grupos organisados de civis não apparecem ainda, como na preparação do 4 e 5 d'outubro, totalmente filiados na Carbonaria, não o é menos que a expansão da associação secreta já é tão vasta e tende tão nitidamente a augmentar que Luz d'Almeida, tres dias após o regicidio, inicia d'uma assentada cerca de cincoenta conjurados.

Por essa altura, ao lado do vigoroso e tenaz propagandista, figuram tambem dois revolucionarios de temperamento bem diverso, mas devotadissimos ambos á causa da liberdade: Machado dos Santos e o engenheiro Antonio Maria da Silva. As suas primeiras entrevistas realisam-se no jardim de S. Pedro d'Alcantara. É ahi que esses tres homens combinam de começo a forma de dar uma orientação absolutamente pratica á Carbonaria, formando entre si o Comité Alta Venda ou, melhor, a cabeça dirigente da organisação secreta. Depois passam a reunir em casa de Machado dos Santos, na rua José Estevão, casa que a policia assalta uma bella noite, disfarçando esse assalto com uma proeza de gatunos, e decidem levar aos quarteis a semente revolucionaria. É, repetimos, no periodo de maior agitação popular provocada pela politica nefasta do regimen monarchico. Rara é a noite em que se não inicia na Carbonaria uma duzia de adeptos pelo menos.

As iniciações divergem no cerimonial. Ha iniciações rigorosas, com todos os pormenores que constituem a bem dizer uma apertada fieira e tambem as ha pró forma, quando o adepto é sobejamente conhecido e inspira absuluta confiança. Em qualquer dos casos, porém, o iniciado é sujeito a um interrogatorio sobre as suas ideias politicas e aquillo de que se julga capaz de executar no momento propicio. Muitos d'elles affirmam desde logo as suas disposições para uma acção directa e individual; outros limitam-se a prometter concurso efficaz n'uma acção collectiva. A Carbonaria não repelle os que se declaram francamente incapazes d'um acto isolado, mas que juram—o juramento é obrigatorio para todos—auxiliar a communidade uma vez chegado o ensejo de luctar contra a monarchia ou a tyrannia.


Innocencio Camacho
Membro substituto do Directorio, em effectividade

 

Em dado momento surge uma contrariedade. Machado dos Santos, tendo escripto um artigo violento no Radical—jornal fundado e dirigido por Marinha de Campos—é, dado o seu posto de commissario naval, levado a conselho de guerra. Os juizes absolvem-no, mas como os inimigos dos revolucionarios não descansam, conseguem em breve afastal-o de Lisboa, desterrando-o para o ultramar. Esta contrariedade, porém, não impede que a Carbonaria progrida a olhos vistos. O comité Alta Venda decide abrir a primeira choça em Alcantara, bairro que sempre se evidenciou pelo grande amor á causa, bairro revolucionario por excellencia.

O comité recebe adhesões valiosas e a propaganda fructifica. Marinheiros, contra-mestres, cabos, sargentos, artifices, operarios, tudo acode á iniciação. Na conquista d'esses adeptos distinguem-se dois homens: o cabo Antonio (aliás sargento) e o artifice Carlos Freitas, que um zelo excepcional caracterisa. Este revolucionario toma sobre os hombros a ardua tarefa de desdobrar a choça de Alcantara e funda outra em Valle do Zebro, fornecendo ao comité um plano da escola de torpedos e varia documentação topographica.

Na choça d'Alcantara, a direcção superior da Carbonaria possue egualmente elementos civis de modelar actividade: entre muitos, Augusto Rodrigues, chefe de barraca, e José Madeira. Da choça de marinha sahem elementos de propaganda para junto dos quarteis de infantaria 2 e caçadores 2. É curiosa a forma por que esses elementos entram nos quarteis:

 

«A principio—reportamo-nos a uma informação do engenheiro Antonio Maria da Silva—cada carbonario tinha um primo no quartel; depois, conforme a necessidade de repetir as entradas, assim ia augmentando o numero de primos. Carbonario houve que, em pouco tempo, se tornou primo de toda a soldadesca. Naturalmente surgiram desconfianças por parte dos officiaes, e estas avolumaram-se com a coincidencia do apparecimento d'um folheto de Luz d'Almeida, intitulado «Dialogo entre um medico militar e um «magala», que foi largamente distribuido pelos elementos militares.»

 

Principiam então as buscas nos quarteis, buscas rigorosas que lançam o sobresalto no comité Alta Venda por causa da dureza do castigo que os iniciados certamente soffrem quando descobertos. Mas a dedicação dos carbonarios é tão grande que os maiores escolhos são transpostos com exito. Um exemplo: d'uma vez, o official de certo regimento revista a caixa d'um magala e o clarim que o acompanha na busca descobre o interessante folheto de Luz d'Almeida. Não hesita; disfarça como pode a comprometedora descoberta, apanha o folheto e occulta-o no instrumento... O clarim tambem era carbonario. E assim se consegue que esse Dialogo, d'uma propaganda utilissima, continue a espalhar pelas forças militares a ideia da revolta, apesar da campanha que os jornaes reaccionarios lhe movem sem treguas, apontando-o dia a dia ás attenções e á revindicta do governo monarchico.

 

Tratando-se da Carbonaria e da sua acção nos movimentos revolucionarios que caracterisam o ultimo periodo da vida monarchica portugueza, é necessario, antes de proseguirmos na narrativa que vimos fazendo, abrir um parenthesis que fixa um ponto de historia. Já dissemos que Coimbra antecedeu Lisboa na organisação d'essa força mysteriosa, que devia no 4 e 5 de outubro representar um papel importante. Podemos talvez falar do assumpto ainda com maior precisão. A Carbonaria de Coimbra teve o seu periodo aureo—digamos assim—de 1892 a 1894; a de Lisboa soltou os primeiros vagidos em 1897, fundada por Heliodoro Salgado, Benjamim José Rebello, Julio Dias, Sebastião Eugenio, José do Valle e varios democratas de Alcantara, que constituiam o nucleo de resistencia da chamada Aliança Revolucionaria. Pouco depois, a Alliança cedia o passo á loja irregular Obreiros do Futuro, installada na Rocha do Conde d'Obidos n'uma casa pertencente ao Credito Predial e que foi alugada a um dos carbonarios—a José do Valle se não estamos em erro—pelo sr. José Bello, ao tempo administrador das propriedades d'aquella companhia.

Essa loja irregular congregou durante largo tempo tudo o que Lisboa possuia n'essa occasião de elementos avançados, radicalissimos. A ella pertenceram os homens que mais tarde o juiz de instrucção criminal devia encarcerar como implicados em incidentes da politica interna (que o grande publico conheceu vagamente sob a designação de attentados anarchistas) e d'ella sahiram resoluções vigorosas cuja descoberta o ex-irmão Hoche d'essa epoca pagaria por bom preço. Facto digno de nota e que nos não cançaremos de repetir: a policia teve por vezes nas mãos, fechados a sete chaves, os meios de esclarecer certos mysterios, de pôr a nu intrincadas meadas revolucionarias. E não o fez porque? Porque, para alcançar exito completo, bastava-lhe concatenar habilmente certas informações. Tinha as informações, recebia denuncias que borboleteavam em volta da verdade, mas como não dispunha de sangue-frio e de esperteza sufficientes para as reunir, para as methodisar, disparatava horrivelmente e, disparatando no começo, ia até final, cega, estupida, laborando sempre no erro.

Occorre-nos n'este momento um incidente curioso a que é interessante fazer referencia. A policia um dia—e quem diz policia diz juiz de instrucção porque de certa altura por diante, desde que o Cyro e os seus superiores hierarchicos se convenceram de que a engrenagem revolucionaria não andava resumida aos tantos anarchistas que enfileiravam na famosa lista negra, as diligencias importantes passaram a ser encaminhadas com o auxilio de personagens de cathegoria—a policia um dia, insistimos, ouviu falar em que um homem de determinado appellido tomara parte saliente n'um facto que alarmou Lisboa. Não quiz saber de mais nada. Lançou-se na pista d'um rapaz, então ausente de Portugal, que usava do mesmo appellido, e forcejou imbecilmente por trazel-o ás mãos, sem procurar obter a confirmação absoluta da vaga denuncia. E tão cega, tão absorvida n'essa orientação errada, que ainda pouco antes de ser implantada a Republica tentava arrancar d'um prisioneiro politico a confissão de que esse tal rapaz realmente preponderara na execução do facto alludido... O appellido denunciado á policia era, effectivamente, o de um revolucionario ligado intimamente a esse facto; o rapaz que a policia perseguia, embora de appellido identico e amigo d'um outro que planeara o complot de exito indiscutivel, não entrara n'esse complot e só d'elle tivera conhecimento apoz a consumação do facto! É um pouco sybillino, mas é a verdade...


José Barbosa
Membro substituto do Directorio, em effectividade

Outro caso pittoresco revelador da argucia policial: Certo dia os espiões da Bastilha descobriram a existencia d'um deposito de bombas n'uma casa da Baixa. Prisões, buscas, etc., o juiz de instrucção poz em scena todo o reportorio do costume. D'ahi a quarenta e oito horas, o mesmo juiz, por effeito d'uma denuncia, mandou capturar um operario extrangeiro, que se suspeitava ter no predio onde morava alguns explosivos devidamente aprestados para uma acção decisiva. A noticia d'essa captura lançou o alarme nos carbonarios que ainda andavam á solta. A denuncia era fundada e d'esta vez a policia ia, indubitavelmente, realisar uma diligencia de absoluto successo. Tornava-se necessario afastar do predio suspeito as bombas comprometedoras. Um grupo de homens decididos tomou sobre os hombros tal encargo e, meia hora antes da policia passar a busca do estylo á casa do operario, as bombas em questão eram transportadas para logar mais seguro, atravessando impunemente diversas ruas de Lisboa.

No dia seguinte, o ex-irmão Hoche chamou á sua presença o prisioneiro e quasi lhe pediu desculpa de o ter incommodado sem motivo.

—Eu sempre me quiz parecer—disse o juiz ao operario anarchista—que o senhor nada tinha com este caso das bombas... Vá descançado e trate de não se misturar com os incidentes da nossa politica interna. A minha opinião a seu respeito está formada.

O operario cumprimentou amavelmente o juiz e o juiz esfregou as mãos de contente, murmurando para o Sota da praça:

—Eu bem dizia... este rapaz nada tem com o caso das bombas...

CAPITULO X

Os estudantes militares offerecem o seu concurso á Revolução

A explosão da rua de Santo Antonio á Estrella fez desapparecer a loja Obreiros do Futuro, porque quasi todos os elementos que a compunham deram entrada nos calabouços policiaes. Mas assim que a justiça libertou esses carbonarios, a aggremiação secreta reviveu mais forte do que nunca e ao lado da Associação Carbonaria Portugueza surgiu uma outra associação retintamente anarchista, tendendo é certo para o mesmo fim revolucionario, mas divergindo um pouco nos meios de acção e na preparação e iniciação dos seus adeptos.

 

A carbonaria anarchista deu um contingente precioso para a revolução de 4 e 5 de outubro. E justo é dizel-o: trabalhava quasi ás claras. Alguns dos seus adeptos falavam de bombas e de dynamite como quem se referia a objectos de uso corrente, a artigos de primeira necessidade. A policia, entretanto, não ouvia nenhuma d'essas conversas e roçava pelo perigo com uma inconsciencia extraordinaria. Uma noite, á meza de determinado café de Lisboa que a tradicção popular apontava como rendez vous infallivel de exaltados, um anarchista conhecido propoz-se zombar da espionagem da Bastilha. Sacou do bolso do casaco um rolo côr de chocolate, mostrou-o aos convivas com o ar mais natural d'este mundo e disse em voz alta, de modo a ser ouvido por um bufo que abancára proximo:

—Sabem o que isto é? É massa para um foguinho de sala.

Um dos assistentes duvidou e elle, então, exclamou a sorrir:

—Ah! sim, pois agora vou dizer a verdade... Isto é dynamite!...

Os convivas entreolharam-se receiosos, o bufo espertou as orelhas e durante alguns segundos fez-se o silencio das grandes occasiões. O anarchista voltou á carga:

—Querem experimentar?...

O panico augmentou. Os assistentes, como movidos por uma unica mola, recuaram os bancos d'um metro... O bufo procurou abrigo n'uma outra meza. O silencio e a anciedade eram de esmagar o mais animoso. Percebia-se claramente que toda a freguezia do café queria pôr-se a salvo, mas que toda ella tambem não queria passar por medrosa. O bufo, esse, pingava suor por todos os póros.

O anarchista, sempre risonho e zombeteiro, pegou cautelosamente no rolo de chocolate, raspou-o com a unha e destacando uma particula insignificante collocou-a na pedra da meza. Depois accendeu um phosphoro e approximou a chamma d'essa minuscula substancia ameaçadora. Houve uma ligeira crepitação, a chamma lambeu por completo o ingrediente e em seu logar ficou apenas um pó amarellado que o anarchista sacudiu com um guardanapo. Nada mais... nem ruido, nem fumo, nem cheiro que se percebesse sequer ao de leve.

A assistencia readquiriu a tranquilidade, o bufo permitiu se um sorriso de troça pelo medo que antes experimentára e toda a gente se convenceu de que o anarchista mystificára o publico do café, impingindo-lhe qualquer coisa inoffensiva por um dos mais terriveis explosivos da actualidade. Toda a gente, sem exceptuar o bufo... E, no emtanto, presados leitores, o rolo côr de chocolate era mais do que sufficiente, quando applicado em circumstancias especiaes, para fazer voar, feito em migalhas, um quarteirão da rua do Ouro!

 

Mas... prosigamos na narrativa da propaganda exercida pela Associação Carbonaria Portugueza. O comité Alta Venda, uma vez bem minado o bairro de Alcantara, passa a Belem e delega no pharmaceutico Abrantes o encargo de reunir proselytos em infantaria 1, lanceiros 2 e cavallaria 4. As iniciações são ás dezenas entre soldados, cabos e sargentos. Os officiaes, mais difficeis de conquistar, representam-se na Carbonaria em reduzido numero. Os de cavallaria, então, possuem tal fama de thalassas que, durante um largo periodo, ninguem se atreve a palpital-os. Em lanceiros 2 a organisação revolucionaria conta apenas com um; em cavallaria 4 com dois e um d'elles em commissão fóra do regimento. O resto permanece fiel á monarchia e ao monarcha.

Após Belem, funda-se uma barraca exclusivamente destinada aos alumnos militares—cadetes e aspirantes. É uma força disciplinada, consciente, conhecendo bem o manejo das armas e que tem o merecimento especial de ser o processo mais facil e seguro de alliciar futuros officiaes. Muitos dos officiaes novos que mais tarde apparecem implicados na revolta de 4 e 5 de outubro procedem d'essa barraca para onde haviam entrado quando alumnos da Escola do Exercito. As entrevistas d'esses carbonarios com os chefes do movimento realisam-se em regra no jardim do Campo de Sant'Anna ou no jardim do Matadouro. Os alumnos da Escola do Exercito entendem-se directamente com o ajudante de instructor, tenente de cavallaria José Ricardo Cabral, e devem constituir, no momento opportuno, um batalhão de élite armado com as Mausers-Vergueiro existentes na Escola em numero de quatrocentas. Os da Polytechnica entendem-se com um cadete que, por seu turno, se relaciona intimamente com o tenente David Ferreira. Este official distingue os conjurados pela maneira especial como elles lhe fazem a continencia.


A barricada na Rotunda

Um episodio curioso: o maior numero de iniciações de estudantes militares é feito n'uma casa da rua Paschoal de Mello, residencia d'um guarda fiscal, dedicadissimo á ideia. N'esse predio a policia captura tres paisanos filiados na Carbonaria e o irmão do dono da casa; mas não fareja convenientemente essa pepinière de revolucionarios e os briosos estudantes que ali se reunem para conspirar conseguem escapar ao rigor da Bastilha.

O plano de acção esboçado para essa legião ardente e generosa é simples, mas arriscado. Ás tantas da noite marcada para o inicio do movimento, um automovel deve levar á Escola do Exercito as munições de que os estudantes necessitam; a chegada do vehiculo corresponderá para os revolucionarios ao signal da insubordinação. Os audaciosos rapazes teem que arrombar a casa das armas e conter quietos e calados os officiaes de serviço e alguns estudantes reaccionarios; teem que proceder com cautela para não despertar antes de tempo a atenção da guarda municipal aquartelada em Cabeço de Bola; os estudantes da Polytechnica e do Instituto Industrial aguardarão nas immediações da Escola do Exercito o momento de se juntarem aos seus collegas...

 

Na tarde de 15 de julho de 1910—em que se suppõe azado o ensejo de fazer rebentar a bomba—um grande nucleo de estudantes militares organisa uma reunião no Jardim Botanico. Um d'elles, delegado pelos restantes, recebe a incumbencia de ir falar ao almirante Candido dos Reis e declarar-lhe que estão todos promptos a iniciar o movimento, sahindo á rua ainda que isolados. Á primeira vista, talvez esta declaração pareça uma fanfarronada. Mas não é. Os estudantes revolucionarios teem parentes, paes, irmãos, etc., em todos os corpos da guarnição de Lisboa e não julgam crivel que a dedicação a um principio absurdo conduza ao sacrificio dos entes mais queridos... O delegado dos estudantes ao falar a Candido dos Reis nota que o almirante o escuta com as lagrimas nos olhos. Candido dos Reis ouve a declaração peremptoria e energica do delegado e depois exclama commovido:

—E assim se perde este povo! O que o senhor me diz agora, já m'o repetiram hoje dezenas de creaturas!...

É que o almirante não supporta em 15 de julho de 1910 o adiamento da revolta, como de resto o já não tinha supportado em 28 de janeiro de 1908. Convencido em absoluto de que a Revolução conta suficientes elementos para triumphar, não comprehende como, possuindo-se esses elementos, alguem hesite em lançar fogo ao rastilho da bomba...

 

Para a barraca organisada com estudantes militares, o revolucionario de elite que é Pinto de Lima contribue com uma grande parcella do seu esforço individual. Esse rapaz modesto, em cujo olhar scintilla a fé viva do propagandista incançavel, apparece-nos pela primeira vez collocado no plano que justamente lhe compete, por effeito de uma phrase elogiosa de João Chagas. O eminente publicista acaba de nos resumir por uma fórma brilhante, clara e suggestiva, o prologo do movimento de 4 e 5 de outubro, quando o seu olhar, fixando-se em Pinto de Lima, que ao nosso lado o escuta, toma uma expressão inilludivel. «É preciso salientar o papel que elle assumiu na revolução», diz-nos João Chagas, «trabalhou como poucos e a Republica deve-lhe muito».

Estas palavras na bocca d'um homem que, como João Chagas, as não prodigalisa sem sinceridade, são o melhor diploma a qualificar a actividade e a energia do valente rapaz. De resto, Pinto de Lima não exerceu apenas a sua acção junto dos estudantes militares. Conquistou para a boa causa dezenas de soldados, cabos e sargentos, entrou nos quarteis a arranjar proselytos e ainda na madrugada de 5 de outubro, quando entre as forças acampadas no Rocio lavrava a mais perigosa incerteza, elle por lá andou animando, encorajando e preparando o terreno para um desenlace victorioso.

 

Com o regresso de Machado Santos do ultramar, o aspecto e a fórma da propaganda da Carbonaria mudam por completo. Machado Santos substitue o engenheiro Antonio Maria da Silva nos trabalhos de Alcantara, disciplinando fortemente esses elementos, imprimindo-lhes toda a força da sua fé e da sua coragem. O numero de adhesões cresce de maneira assombrosa. Machado Santos faz prodigios; não descança, não trepida, não hesita. Chega a expôr-se... Auxiliam-no Augusto Rodrigues e Franklin Lamas. Após esse grandioso trabalho de Alcantara, examinados os relatorios, o comité Alta Venda conclue que esse bairro constitue um baluarte inexpugnavel. É tempo de lançar as vistas para outros pontos. Cabe a honra á infantaria 16. Machado Santos toma a seu cargo a tarefa, auxiliado por Antonio Meyrelles e o soldado José, hoje sargento por distincção, e faz comicios, verdadeiros comicios aos soldados, na Serra de Monsanto, a que assistem dezenas de homens de artilharia 1 e d'aquelle regimento. Em artilharia 1 é auxiliado por Armando Porphirio Rodrigues, enfermeiro do hospital inglez, onde o engenheiro Antonio Maria da Silva inicia o 2.º tenente José Carlos da Maia e varios outros. Em engenharia, a propaganda é feita pelo alfaiate Antonio dos Santos e pelo Oliveira dos bonnets. Em infantaria 5 é o cabo Benevides; na guarda-fiscal o soldado Domingues e, em todos os regimentos, a Carbonaria conta dentro em pouco com elementos de superior valia. O numero é assombroso e a qualidade é fina, excepcionalmente corajosa e dedicada.

 

Fóra de Lisboa a propaganda da Carbonaria tambem é intensissima. Malva do Valle, Carlos Amaro, Carlos Olavo, Pires de Carvalho, Manuel Alegre, Mario Malheiros e outros formam a Junta Carbonaria da Região Central que abrange Aveiro, Coimbra e Vizeu. Por esse tempo tambem já existem nucleos poderosos em Vianna do Castello, Braga e Villa Real de Traz-os-Montes, distinguindo-se n'este ultimo os revolucionarios Adelino Samardan e Antonio Granjo. Ao sul forma-se o nucleo de Evora, mercê dos esforços de Estevão Pimentel que não tarda a trocar o conforto da sua casa abastada pelas sensações e perigos do proselytismo; auxiliam-no n'esse trabalho insano de todas as horas o dr. Feliciano Caeiro e o sargento Andrade, um bravo do Cuamato. Em Beja, distingue-se na propaganda revolucionaria o dr. Pereira Coelho; no Algarve, em Faro, o tenente Stockler, o tenente Cerqueira e o dr. Gil. Mas, soccorramo-nos mais uma vez das informações do engenheiro Antonio Maria da Silva:


José Nunes
Auctor de diversas bombas explosivas

 

«Ainda no Norte é o caixeiro viajante Alvaro Mendes que estabelece 20 choças carbonarias, entre as quaes se destaca a do Entroncamento, por causa dos elementos da Escola Pratica de cavallaria que inicia. Em Santarem é o capitão de artilharia 3, Figueiredo, o agronomo Veiga e o dr. Queiroz, secretario geral do governo civil. É Malva do Valle quem impulsiona fortemente a Carbonaria Central. Em Estremoz é tambem Estevão Pimentel que inicia varios sargentos de cavallaria 3 que foram denunciados por um camarada, sendo transferidos. Em Lisboa organisa-se o comité dos correios e telegraphos, sendo meu auxiliar Amandio Junqueiro. Distingue-se o carbonario Lameiras, telegraphista, auxiliado por Balduino da Matta, Jacintho Henriques, Moysés Teixeira, Lorena Queiroz e Gualberto Pires. Merece tambem especial menção a barraca Garibaldi, onde trabalham Antonio Francisco dos Santos e o publicista Ribeiro de Carvalho, iniciando um numero consideravel de empregados dos electricos.»

 

Surge a difficultar a marcha do proselytismo o famoso caso de Cascaes. É esse caso que põe inesperadamente o juiz de instrucção criminal na pista dos trabalhos da Associação Carbonaria Portugueza; é elle egualmente que contribue para que na imprensa appareçam pela primeira vez vagas indicações sobre a constituição organica das associações secretas. Vem a proposito pormenorisal-o.

CAPITULO XI

Os dynamitistas preparam a «artilharia civil»

O caso de Cascaes veiu a publico em meiados de outubro de 1909. Um incidente sem importancia fez descobrir o cadaver de Nunes Pedro sobre uns rochedos da Bocca do Inferno. Ao principio suppôz-se que esse homem se suicidara, atirando-se de grande altura; mas a breve trecho percebeu-se que o cadaver apresentava signaes d'uma aggressão violenta e as auctoridades locaes apressaram-se a communicar a descoberta ao juizo de instrucção criminal. Por outro lado, o então administrador do concelho de Cascaes, sr. Fernando Castello Branco, tendo encontrado no fato do morto uns papeis que alludiam ás relações da victima com varios carbonarios, metteu-se logo no comboio e veiu a Lisboa conferenciar com a policia. Horas depois, a policia ia de Lisboa a Cascaes investigar o caso e iniciava uma serie de prisões, tendentes a demonstrar que a morte do Nunes Pedro fôra planeada e executada por uma terrivel associação secreta inexoravel para todos os que a atraiçoavam.

A primeira d'essas prisões, a do empregado do commercio Domingos Guimarães, foi effectuada em Villar Formoso por um agente da policia repressiva da emigração clandestina. Uma vez realisada, espalhou-se: 1.º que o Nunes Pedro estava implicado no desapparecimento de cartuchame armazenado na Alfandega de Lisboa; 2.º que esse desapparecimento fôra provocado por uma indicação de varios republicanos, que assim se preparavam e armavam para um proximo movimento revolucionario; 3.º que, apenas descoberta a falta de cartuchame, esses republicanos, tinham compellido o Nunes Pedro a fugir para Badajoz, e que elle dias depois de se ter acoitado n'essa cidade hespanhola escrevera duas cartas uma a Domingos Guimarães e outra ao armeiro Heitor Ferreira, pedindo-lhes dinheiro e ameaçando-os de denunciar á policia portugueza a falta do cartuchame; 4.º que, em face d'essa ameaça, o Domingos Guimarães partira para Badajoz a socegar o Nunes Pedro, que o trouxera a Lisboa disposto a fazel-o embarcar para a Africa, mas que depois de se encontrarem os dois na capital, o Nunes Pedro renovara a ameaça, decidindo então os carbonarios supprimil-o.

Isto, repetimos, foi o que se espalhou ou melhor foi o que a policia espalhou, mal teve nas mãos o empregado do commercio amigo da victima e denunciado como um dos principaes fautores do famoso caso. Após Domingos Guimarães, o juizo de instrucção criminal capturou outro empregado do commercio chamado Manuel Martins Pereira Ribeiro, accusando-o de ter acompanhado o Guimarães e o Nunes Pedro a Cascaes e de ter cumplicidade na morte do segundo. Affirmou-se até n'essa occasião que o Nunes Pedro fôra violentamente aggredido com uma bengala pertencente ao Ribeiro e que este e o Guimarães haviam declarado á policia:

 

... terem deliberado fazer desapparecer o Manuel Nunes Pedro, visto este ser prejudicial, pois podia revelar o segredo das associações revolucionarias segundo as ameaças de denuncia que já tinha feito...

 

Outra informação policial entregue á imprensa periodica disse tambem que o Pereira Ribeiro reconhecera como sua a bengala acima referida, que o Nunes Pedro soffrera primeiro a aggressão dos seus companheiros de passeio a Cascaes e a seguir é que fora precipitado sobre os rochedos da Bocca do Inferno. Calculavam os aggressores que o mar, lambendo os rochedos, afastaria o cadaver para bem longe, mas o plano falhara e o cadaver lá tinha ficado no local, a compromettel-os e a comprometter a vasta organisação secreta a que elles pertenciam... Isto, tornamos a insistir, dizia a policia com o ar sorridente e orgulhoso de quem descobre uma boa pista e se dispõe a esclarecer um mysterio de alto cothurno.

 

Uma nova prisão veiu complicar ainda mais o romance da Bastilha: a d'um outro empregado do commercio, Adelino Luiz Fernandes, primo em segundo grau de Manuel Nunes Pedro. A policia teve-o enclausurado, incommunicavel, durante 92 dias, interrogou-o altas horas da noite, exerceu sobre elle varias violencias e, no entanto, as suas declarações em nada depuzeram contra os revolucionarios que o juizo de instrução apontava teimosamente como os eliminadores d'aquelle seu parente. Adelino Luiz Fernandes confirmava o facto do Nunes Pedro ter fugido para Badajoz a fim de se eximir a qualquer responsabilidade no desapparecimento do cartuchame; confirmava o ter elle escripto de Badajoz ao Domingos Guimarães e ao armeiro Heitor Ferreira, pedindo-lhes dinheiro e envolvendo esse pedido n'uma ameaça clara; dizia mais—que Nunes Pedro regressara de Badajoz a Lisboa em 16 de outubro de 1909, indo para um armazem do Poço do Bispo, onde se conservara dois dias; que sabendo que o primo era socio do Centro Antonio José d'Almeida, falara ao presidente do Centro, o professor Camello Neves expondo-lhe as difficeis circumstancias em que se encontrava a viuva do Nunes Pedro e que o professor, condoido da sorte da infeliz, lhe dera uma pequena quantia, uns cinco mil réis. Mas se o Adelino Luiz Fernandes affirmava tudo isto, dizia egualmente que nunca percebera nos accusados a intenção de eliminarem o primo, nunca relacionara a sua morte com a ameaça que elle enviara de Badajoz e que o Nunes Pedro, por mais do que uma vez, lhe significara o desejo ardente de sahir de Lisboa com destino á Africa Portugueza.

A policia, porém, enlevada na descoberta d'um fio tenuissimo que a collocara na pista da Carbonaria, torceu a seu talante essas declarações e desatou a prender mais gente: o commerciante Jorge Francisco de Carvalho, que sabia da estada do Nunes Pedro no armazem do Poço do Bispo; o commerciante Joaquim Francisco e o vendedor de leite Joaquim Adrião Alves, compadre do Domingos Guimarães. Este ultimo declarou no juizo de instrucção que o compadre, sendo seu hospede desde o começo de outubro de 1909, sahira de Lisboa no dia 13, que regressara no dia 16, que passara fóra de casa a noite de 18 (a noite do celebre caso), que no dia 19 fôra procurado por tres individuos e que no dia 21 fôra preso em Villar Formoso.

Ainda outra prisão: a do professor do Instituto Brigantino Artur Alvaro Pereira de Sousa. A policia implicou com elle e tentou ligal-o á morte do Nunes Pedro apenas pelo seguinte:

O professor estava a ler os jornaes que relatavam o caso e ao ver que os suppostos criminosos, no dizer dos mesmos jornaes, tinham deixado no fato do morto uns papeis compromettedores, exclamou: «Deram bota!». Foi o sufficiente. D'ahi a pouco era preso e fortemente assediado pelo juiz de instrucção.

Por ultimo, a policia ainda enclausurou um antigo cobrador do Centro Antonio José d'Almeida, Manuel José do Espirito Santo Amaro. Com este accusado succedeu um episodio interessante. O juiz, prevenindo-o de que o ia confrontar com o professor Camello Neves, insinuou-lhe:

—Quando eu o acarear com esse homem, affirme que elle o encarregou de comprar pistolas automaticas e de guardar alguns cartuchos de dynamite.

Mas o antigo cobrador, chegado o momento da confrontação, não representou o papel que o juiz lhe distribuira e a policia, indignada, perdendo a cabeça, expulsou o Amaro do gabinete do ex-irmão Hoche.

 

De toda esta trapalhada de averiguações, de capturas a esmo, de clausura rigorosa, de incommunicabilidade por largos periodos ao sabor da Bastilha, resultou serem enviados ao tribunal como intromettidos no caso de Cascaes apenas estes individuos: Domingos Guimarães, Manuel Martins Pereira Ribeiro, o professor Camello Neves, o commerciante Pereira de Sousa, o vidraceiro Agapito Vieira e Silva, o alfaiate Eduardo Filippe Amores e o commerciante Manuel Mendes. Todos esses homens foram julgados dias depois de proclamada a Republica e todos elles foram absolvidos. E apesar de que, n'esse julgamento, o delegado se esforçou por demonstrar que o Domingos Guimarães é que assassinara o Nunes Pedro e que os outros accusados tinham sido seus cumplices, a defeza, apreciando o caso á luz d'um criterio desapaixonado, evidenciou sem hesitação que o processo fôra simplesmente um vomito negro do antigo juiz de instrucção e que n'elle não se devia tocar pelo receio do contagio. O processo, accrescentou a defeza, não podia merecer a menor confiança; forjado na Bastilha, que a Republica destruiu, n'elle figuravam como testemunhas individuos que tinham estado presos durante largos dias de regimen inquisitorial e n'elle existiam declarações arrancadas aos accusados por meio de torturas que um moderno Scarpia puzera em pratica a altas horas da noite. A um d'esses accusados o juiz de instrucção dissera até uma vez, insurgindo-se contra a negativa formal que elle oppunha a certas affirmações de accusação:

—Ah! você não confessa!... Pois emquanto não confessar não lhe dou cama nem comida, nem consinto que sua mulher o visite!...

 

Mas se o caso de Cascaes, espremido até ao maximo pelo juiz de instrucção, deu simplesmente a embrulhada, que já assignalámos e que o julgamento em fins de 1910 liquidou n'um sopro, serviu, no emtanto, á policia para arrancar com furia extranha sobre a Associação Carbonaria Portugueza. As chamadas diligencias sobre aggremiações secretas constituem um documento interessante e bem elucidativo da argucia do ex-irmão Hoche e dos seus sequazes. Cada primo que entrava nos calabouços da Bastilha soffria um interrogatorio cerrado, que degenerava a breve trecho n'umas insinuações capciosas, n'umas falinhas mansas destinadas a seduzir a victima.

—Ora vamos lá, dizia o juiz pondo nos labios o seu melhor sorriso... confesse, diga tudo o que sabe. É melhor para si porque beneficia d'uma esplendida attenuante quando chegar ao tribunal e é melhor para mim, porque termino mais rapidamente as minhas indagações. Confesse... porque, se o fizer, levanto-lhe a incommunicabilidade...

A sereia policial envolvia assim o carbonario n'uma rede de encantos, de miragens deliciosas, babujava-o d'uma peçonha que o Sota da Praça tambem distillava ao tocar-lhe a vez de palpar o paciente. Em regra, o carbonario resistia. E então os dois, reassumindo toda a ferocidade que os caracterisava, soccorriam-se das ameaças, das violencias, para obter a tal confissão que, no seu acanhado entender, simplificava tudo. Um dia, o presidente do conselho de ministros, espicaçado certamente pelas referencias dos jornaes que qualificavam de inutil o supremo esforço do ex-irmão Hoche, e se insurgiam contra o largo periodo de clausura rigorosa em que elle encerrava os presos das associações secretas, chamou o juiz ao seu gabinete e inquiriu d'elle o estado do famoso processo e quaes os resultados alcançados pela averiguação da Bastilha. O ex-irmão Hoche, suppondo ingenuamente que o trabalho já feito era merecedor d'um elogio dispensado pelo chefe do governo, desentranhou-se logo em pormenores do que sabia sobre a organisação da Carbonaria.

O ministro ouviu-o attento, fel-o repetir a affirmação de que a vastissima organisação revolucionaria comprehendia muitos milhares de homens e, assim que elle acabou, perguntou-lhe quantos dos filiados nas associações secretas conseguira prender em trez mezes de diligencia policial. O ex-irmão Hoche citou um numero: duas ou tres duzias de carbonarios... O ministro deu um pulo na cadeira:

—O que? Pois o senhor tem a pretensão de capturar toda a gente que pertence a essas associações?... Convence-se que pode metter na cadeia muitos milhares de homens?... Pare lá com isso!... Mande para o tribunal os que já conseguiu enclausurar e dê por concluida a investigação!...

O juiz assim fez. Não evitou o fiasco, mas livrou-se de ser surprehendido pela implantação da Republica, ainda a prender e a interrogar os revolucionarios da Associação Carbonaria Portugueza. Para mais, n'essa altura das suas diligencias, já um bom nucleo de aggremiados sob a direcção do comité Alta Venda tinha esboçado uma diversão aos cuidados e ás attenções da Bastilha com a explosão de um petardo na egreja de S. Luiz e promettia continuar a série até que o ex-irmão Hoche se capacitasse da improficuidade das suas tentativas.


Dr. Malva do Valle
Membro substituto do Directorio em effectividade

 

Disse-se por mais do que uma vez que muitos dos individuos capturados por causa dos trabalhos da Carbonaria, apenas chegados ás mãos do juiz, se descosiam sem a menor hesitação e procuravam com uma denuncia completa readquirir a liberdade sob fiança. O engenheiro Antonio Maria da Silva, interrogado a tal respeito dias depois da Revolução, oppoz um desmentido formal a esses boatos:

«Effectuadas as primeiras prisões, vimos logo que os chefes das choças e cabanas eram poupados—systematicamente poupados. Isto significava que se os presos não tinham fórma de resistir á pressão inquisitorial do Scarpia azul e branco e se viam arrastados, como unica solução, até á denuncia, escolhiam de preferencia os camaradas de menor responsabilidade. De resto, já tinhamos previsto que esse meio era o unico para forçar a sahida do cul de sac asphyxiante constituido pela instrucção criminal. Esses homens não foram delatores: foram martyres. E quizera poder, n'esta hora de resgate, abraçal-os como bons camaradas que sempre foram e que tiveram a honra de occupar a vanguarda do sacrificio.»

Encarando essas prisões sobre outro aspecto: o juiz, effectuando-as, tinha a impressão de que dava assim um golpe bem fundo na organisação revolucionaria. Pois succedia exactamente o contrario. A Carbonaria fortaleceu-se de maneira consideravel logo que o ex-irmão Hoche desatou a perseguir os seus filiados. A cada noticia de tortura inflingida aos carbonarios encerrados na Bastilha correspondia, por parte da vastissima aggremiação, um impeto irreprimivel de solidariedade. E assim se explica como, decorridos tres mezes de sobresaltos, de anciedade, provocados pelas démarches da policia e apezar do exilio necessario de Luz d'Almeida e de alguns dos seus mais valiosos collaboradores, a Carbonaria, longe de vêr diminuida a sua expansão, tinha alargado tanto a sua rêde de iniciações que os dirigentes suppunham attingido o maximo grau de propaganda util e efficaz e julgavam desnecessario proseguir na conquista de novos adeptos.

 

Passemos a outro capitulo da historia revolucionaria: a prisão de João Borges no armazem de bombas da rua dos Correeiros, prisão que patenteou á policia o auxilio que os dynamitistas deviam prestar aos republicanos revolucionarios. Passadas algumas horas sobre ella, que na tarde d'um domingo morto, fez despertar, curiosa e receiosa, uma boa parte da população lisboeta, recebeu-se na redacção d'um jornal republicano esta missiva, que é opportuno recordar e transcrever:

 

Sr. redactor.—Como v. naturalmente sabe, o caso das bombas é mais uma fantochada preparada «ad hoc», para inglez ver e surtir um effeito, que ainda ninguem attingiu, mas que innegavelmente dá tolice. Para mim é ponto assente que o João Borges e o juiz de instrucção vão feitos na manigancia; nem d'outra fórma se explica o sangue frio e a confiança de que está investido o tal Borges. Se não vae feito com o juiz, um valente que pega assim em bombas á mão como se mexesse em batatas, então vae feito com elementos reaccionarios para fins que ninguem percebe.

O facto do juiz de instrucção criminal pegar assim em bombas á unha, dá a nota de que sabia muito bem o quanto ellas tinham de inoffensivas.

Se v., sr. redactor, fosse juiz d'instrucção, se fosse um Cyro, um Sota da Praça, ou outro qualquer Sherlock Holmes de fancaria, já teria perguntado ao tal Borges quem é que lhe offereceu 6 contos para desempenhar aquelle papel e quem é que lhe dava 1$500 réis por dia a elle e a algum outro dos que elle andou a convidar para a tal farçada.

Em quanto o governo consentir um juiz d'aquella força e os reaccionarios dentro do paiz, ha de haver destas scenas. Quem é que come que na travessa da Palha, n'uma casa de meretrizes, se fabricavam bombas? Aquella só do ex-irmão Hoche...

Se fossem bombas verdadeiras, aonde estava elle já?

Que paiz este!... Quando veremos nós isto ás direitas?—De v. etc—X.

 

Commentemos esta carta, porque ella dá ensejo a desfazer umas teias de aranha que ainda velam o olhar indeciso de muito patriota.

CAPITULO XII

As bombas de João Borges eram pagas pela «Joven Portugal»

Em primeiro logar, rememoremos os factos... Foi, como já dissémos, na tarde d'um domingo morto que a policia commandada pelo juiz de instrucção pôz em alvoroço a rua dos Correeiros, investindo contra o deposito de explosivos que João Borges ali estabelecera. O juiz tinha ido ao cemiterio acompanhar um enterro. Em meio da cerimonia funebre, appareceu-lhe um guarda da judiciaria, enviado pelo chefe Ferreira, e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. O juiz surpreendido, chamou o Cyro, que andava proximo, e, largando o enterro, veiu até á travessa da Palha com o ar preoccupado de quem trazia um mysterio na consciencia.

No local do crime, procedeu com o mais completo alheiamento da gravidade das circumstancias. Subiu a escada do predio suspeito e teria ido até ao quarto de João Borges sem dar por coisa alguma, quando o Cyro lhe indicou o criminoso, que tambem caminhava em direcção ao aposento, placido, sorridente, com aquelle ar de desimportado que tão nitidamente o caracterisa. O juiz mandou-o prender e, assim que se encontrou dentro do deposito, olhou em volta e teve um gesto de receio. As bombas accumulavam-se em grande quantidade—eram ás duzias. Mas o João Borges, que lhe seguia ironico os movimentos, apressou-se a socegal-o:

—Não tenha medo... estão descarregadas.

O mais modesto dos policias teria desconfiado n'esta altura que o deposito dos explosivos tentava liquidal-o, deixando que elle proprio provocasse a acção destruidora d'um d'esses engenhos. Mas o juiz não pensou em tal. Para provar que era homem sem medo, sorriu-se como o João Borges e, pegando n'uma bomba, revirou-a cuidadosamente nos dedos. Depois ainda fez umas considerações de caracter philosophico sobre a propaganda libertaria que o Cyro, valha a verdade, não percebeu, e sahiu da rua dos Correeiros para se internar no seu gabinete da Bastilha, a reflectir maduramente na descoberta, que, segundo confessou logo no dia seguinte, lhe fôra indicada pelo presidente do conselho, pelo chefe do governo.

A noticia da diligencia espalhou-se ao começo da noite por uma fórma extraordinaria. A seguir á prisão de João Borges, a policia fez outras capturas, quasi todas no mesmo local da primeira, e a Bastilha principiou a trabalhar, avida e tenazmente, na descoberta dos cumplices do proprietario de tanto cylindro metallico destruidor. Para os que estavam no segredo do caso, a prisão de João Borges era uma consequencia natural da sua insouciance. Desimportado como sempre fôra, admirava até que ha mais tempo a policia o não tivesse incommodado e chamado a capitulo. Mas, para a maioria, a diligencia policial envolvia um ponto de interrogação que a carta n'outro logar reproduzida assignala por maneira inilludivel.


As forças revolucionarias na Rotunda

No domingo á noite, nos centros de cavaco, o caso foi discutidissimo. E como o juiz, n'uma nota para a imprensa, affirmasse que João Borges lhe confessara ter fabricado explosivos para os utilisar logo que ao governo Teixeira de Sousa succedesse um governo reaccionario, estabeleceu-se immediatamente uma corrente de opinião que um dos commentadores eventuaes do caso resumia d'este modo:

—A scena passou-se assim... O Teixeira de Sousa, por intermedio do Alpoim e este por intermedio de um dos seus antigos companheiros de lucta no 28 de janeiro, conseguiu que o João Borges, de boa fé, arranjasse as bombas. Logo que soube que ellas estavam prestes a servir, denunciou o fabricante ao juiz de instrução e com a declaração attribuida ao João Borges de que as bombas só rebentariam sob as patas de um ministerio reaccionario, faz o seu jogo no paço e consegue facilmente convencer o rei D. Manuel de que, emquanto elle estiver no poder, nada tem a receiar por parte dos elementos mais avançados;

Outra versão dava o João Borges identificado com a policia para armar uma pavorosa e d'essa, por influencia de diversos libertarios, se fez echo a maioria dos jornaes. Mas em todas ellas surgia sempre esta pergunta maliciosa que, no simples enunciado, lançava immenso veneno nas intenções do revolucionario preso:

—Quem lhe deu o dinheiro para o fabrico das bombas? Aquillo custa caro... O João Borges não tem cheta...

Por outro lado, a maneira serena e até chocarreira como o preso encarava a sua prisão, a attitude quasi de desafio que elle, ironico e desdenhoso, lançava á policia, quando esta, atormentada e preoccupada, o arrancava á esquadra do Caminho Novo para os interrogatorios no juizo de instrucção, tudo isso chocava a opinião seria e pacata, predispunha-a pessimamente contra a victima da Bastilha. Se João Borges, ao atravessar as ruas de Lisboa n'essa peregrinação estopante, longe de se sorrir para os amigos e conhecidos, bem disposto, com o ar de quem não teme as garras da auctoridade, evidenciasse uma gravidade de compostura equivalente á gravidade da sua situação, então, sim, então é que a opinião seria e pacata o olharia como um martyr da Ideia e o lastimaria por não haver chegado ao fim da sua obra demolidora.

Ninguem ou quasi ninguem se recordava de que João Borges evidenciara desde a sua apparição nos centros revolucionarios essa insouciance do perigo a que já nos referimos; ninguem ou quasi ninguem fazia reviver na memoria esse traço nitido da sua individualidade e que João Borges, para explicar ao primeiro curioso que o defrontasse o funccionamento de uma bomba, raras vezes olhava primeiro em volta a verificar se algum bufo o espreitava. E como não era natural que a pessoa ou pessoas que o tinham auxiliado monetariamente no fabrico das bombas viessem n'essa altura proclamar em publico e raso a verdadeira proveniencia do dinheiro que a opinião seria e pacata via constantemente ao lado do tal ponto de interrogação, as entrelinhas sobre João Borges, as phrases reservadas a respeito do seu procedimento esvoaçavam de grupo em grupo, creando-lhe uma atmosphera antipathica.

Ia longe o tempo em que a descoberta d'um deposito de bombas correspondia ao silencio receioso da grande maioria e revestia um tal caracter de coisa sensacional que poucos, muito poucos mesmo, se atreviam a referir-se-lhe sem palavras de condemnação. Mas se esse tempo já ia distante, o certo é que só uma infima parcella de revoltados encarava desassombradamente a prisão de João Borges. O resto encolhia-se n'uma prudente apreciação, vaga e indefinida... não fosse a historia futura revelar que o dinheiro utilisado na compra dos materiaes indispensaveis á confecção dos engenhos sahira do cofre da Bastilha, da burra do sr. Antonio Centeno ou da caixa do Quelhas...

Dois ou tres jornaes acabaram por dissipar taes receios e desconfianças. Dois ou tres artigos, um d'elles escripto por José Barbosa—um dos membros do Directorio do Partido Republicano—rehabilitaram na grande massa o fabrico dos explosivos e salientaram a coragem dos fabricantes. E era justo que isso se fizesse. Não se comprehendia que, uma vez lançados no caminho da actividade revolucionaria todos os homens que se dicidiam em dado momento a auxiliar a implantação da Republica, os que promoviam essa implantação na cupula d'uma chefia organisadora os abandonassem á ferocidade da Bastilha e os não soccorressem com o incentivo de um elogio, que, até certo ponto, lhes podia dulcificar as agruras do carcere. Se n'outras epocas de preparação da Revolta, os acontecimentos se não desenrolaram com a mesma logica e os dirigentes d'essa preparação procuraram, antes de se solidarisarem com graves responsabilidades, afastar do seu campo de acção o menor indicio de convivencia com libertarios, no caso de João Borges—justo é consignal-o—a honestidade de consciencia sacrificou quaesquer pensamentos de cobardia e os bombistas tiveram a seu lado alguns dos homens que lhes haviam solicitado a necessaria collaboração. E um d'esses homens, assim que teve ensejo de transpôr triumphante os humbraes da Bastilha, a sua primeira démarche consistiu exactamente em libertar as victimas do juiz de instrucção, os revolucionarios que elle enclausurara por effeito do fabrico de explosivos. Tinha essa divida a saldar e saldou-a primeiro que a qualquer outra.

 


Machado Santos

Afinal, quem forneceu dinheiro ao João Borges para o fabrico das bombas?... A Joven Portugal (fracção da Carbonaria) por intermedio de Manuel Bravo. As bombas, importadas do estrangeiro, durante a organisação do 28, tinham provado mal—eram verdadeiras bombas de fancaria—e necessitava-se, para o novo movimento, de explosivos que cumprissem. Recorrera-se então á industria nacional, em que se occupavam não só aquelle revolucionario como outro de grande relevo em toda a agitação politica comprehendida no periodo de 1907 a 1910—o operario José Nunes. Falemos d'elle com alguma minucia, porque o merece.

 

Obrigado em 1908 a exilar-se em Africa para não cahir nas garras da policia, por lá andou algum tempo, luctando desesperadamente contra o clima, mas sem perder a confiança cega que possuia n'um proximo advento da Republica. Assim, logo que poude regressar a Lisboa e foi readmittido na Imprensa Nacional, continuou a trabalhar dedicadamente no fabrico de explosivos, aperfeiçoando-se n'uma arte que, para elle, já não tinha segredos.

Um dia o actor Vieira Marques procurou-o e convidou-o a fazer parte d'um grupo que se destinava a auxiliar praticamente a Junta Liberal na sua campanha de exterminio das ordens religiosas. Esse grupo, porém, não tinha a menor ligação com a Junta, que ignorava, em absoluto, a sua existencia. A Junta fazia a propaganda pela palavra e pela escripta; o grupo em questão propunha-se fazel-a pelo facto. José Nunes, que aliás não pertencia a nenhuma das divisões da Carbonaria, acceitou o convite e assim nasceram os Mineiros (seis individuos) dirigidos pelo photographo Virgilio de Sá.

As attenções do grupo fixaram-se principalmente em dois dos focos occupados pela reacção: o convento do Quelhas e a capella da travessa das Mercês. Tornava-se urgente destruil-os a ambos. José Nunes recebeu a incumbencia de preparar os apparelhos indispensaveis a essa destruição. O engenheiro dos Mineiros fabricou uma bomba enorme que mais tarde esteve exposta no Museu da Revolução—bomba que, sendo destinada ao Quelhas, devia, apoz a explosão, espalhar no ambiente grande quantidade de gazes deleterios. O actor Vieira Marques, tres noites consecutivas, aventurou-se a entrar na cerca do famoso convento, afim de escolher o local mais apropriado á collocação do engenho destruidor—visto que os Mineiros queriam poupar á tragica sentença as numerosas creanças ali internadas.

Para o ataque á capella da travessa das Mercês, José Nunes tambem principiou a confeccionar outro apparelho de identico poder combativo. E foi elle proprio que uma noite de novena entrou no templo, onde os frades da Aldeia da Ponte haviam estabelecido o seu quartel-general, e reconheceu o terreno. Mas nenhum dos dois projectos foi por deante, porque n'esta altura do periodo revolucionario, o engenheiro dos Mineiros recebeu convite do grupo Vedeta (filiado na Carbonaria) para lhe fabricar uma certa porção de bombas. O grupo Vedeta era dirigido por Carlos Kopke e Roque de Miranda. José Nunes devotou-se com enthusiasmo á satisfação da encommenda e a Revolução triumphante surprehendeu-o em meio do seu perigoso trabalho.