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A Senhora Viscondessa

Chapter 16: VIII
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About This Book

The narrative follows a viscondessa whose glittering social life conceals persistent melancholy and longing. Scenes shift from lavish balls to quiet domestic rooms, tracing flirtations, jealous confrontations, and tender bonds with figures such as Alfredo and her companion Virginia. Careful depiction of fashion, pets, and household ritual highlights the tension between public display and private desire. Episodes of threat and temptation reveal vulnerabilities beneath aristocratic polish, while recurring reflections on solitude, vanity, and maternal yearning shape a portrait of a woman navigating social expectation, passion, and the costs of that society’s enforced roles.

VII

Entre amigos

Tudo disposto e preparado.

Somos quarenta convivas á mesa. A viscondessa está bella, verdadeiramente bella, sem os artificios que deslumbram, nem as vaidades que enojam. Completa agora vinte e seis annos, volvidos entre o regaço da mãe que se finou e os beijos do pae cuja existencia, por duvidosa, se ignora. Alfredo está tambem, mas triste, acabrunhado, pesaroso, olhando indifferentemente as pessoas que o rodêam, comendo pouco, bocejando muito e bebendo mais.

Dois creados serviam a sôpa. Pelo lado direito da mesa, parallelo-grammo, offerecia-se a sôpa Julienne alternada pela esquerda com a sôpa allemã.

Um mysterioso silencio envolvia quasi todos os hospedes. Umas leves palavras apenas se trocavam de par para par. Nos calices transparecia o xerez--o louro e ingenuo xerez dos estomagos delicados.

Esgotados os primeiros copos e retirada a primeira coberta de peixe com molho á ingleza, appareceu o Chateau-Lafitte. Alfredo, reclinando-se na cadeira, sorriu-se meigamente. Um cavalheiro importuno, levantando-se, de cópo erguido, disse:

«Minhas senhoras e meus senhores: n'este vinho, eu saúdo a França, mãe desvelada do pensamento moderno.»

E todos beberam.

Entretanto o silencio recomeçara novamente. Os creados, em nervoso phrenesi, retiravam os pratos sujos para logo os substituir por outros lavados. Telintavam os talheres de prata. Quatro bicos de gaz alumiavam a mesa, matisada de flôres, cuja côr deliciava todos os olhos e cujo perfume embriagava todas as pituitarias. Na parede, pintada a azul-dourado, destacavam uns quadros comicos, alegres, folgasões, uns quadros de caçador logrado, perfeitamente pittorescos, perfeitamente escolhidos.

Estava-se n'um vol-au-vent de frangos. O vinho correspondente era, se bem me lembro, Madeira sêcco. Conversava-se já de extremo para extremo. Algumas damas, agitando os leques, abriam os olhos, afogueadas em calor. Por ordem da viscondessa abriram-se as janellas. Uns cégos, que, então, passavam na rua, começaram de tocar uns velhos landúns, perfeitamente detestaveis e anachronicos.

«O fado! o fado!--gritou Alfredo.

E os homens principiaram a tocar o fadinho das salas.

Servida uma mayonnaise de linguados, servida ainda uma galantina de gallinha com aspic, passou-se a um ponche à la romaine. As rolhas do champague saltavam ferventes e impetuosas, como uma catadupa de topasios. Os creados corriam como possessos. As senhoras apoiavam as faces rubras, sobre o hombro direito dos namorados. No espaço campeava a lua, na sua doce pallidez, espreitando meigamente o festim da viscondessa.

Seriam dez horas da noite, quando, depois de concluidos os assados--patos com azeitonas, perús com truffas e espargos--se começou a tirar o doce. Comiam uns podim saboyon au rhum e outros bavaroise de fruta. O licôr escolhido era o Chartreusse. Alfredo, erguendo-se, propôz um brinde.

«Bebo á saude da senhora viscondessa--exclamou elle--á saude da sua felicidade, e á saude de seu futuro filho.»

E, sem mais poder suster-se de pé, cahiu sentado na cadeira. Todos o olharam com um olhar interrogativo. A viscondessa, encarou-o, com uma santa e terna delicadesa. Os outros, por prudencia, calaram-se.

Cá fóra numerosas tropas atravessavam as ruas. Portugal, constitucional, saùdava o seu nunca--esquecido vinte e quatro de Julho.

Terminados os brindes, que foram immensos e ruidosos, continuaram todos para o salão. Só Alfredo, por confiança na casa, ousou ficar á mesa, a cujo extremo adormeceu. E, suspeitando que fumava, dormiu um longo e pesado somno.

Quando realmente deu por si soavam tres horas nos relogios da casa. Meio adormecido e meio acordado, olhou e viu duas sombras, que, a um recanto do aparador, se agitavam docemente. Aproximando-se mais reconheceu então uma das creadas da casa, conversando airosamente com um garboso gentil homem.

--Ora pois!--regougou elle.--Nem mais nem menos. Tudo corre bem e todos teem rasão...

E sahiu, assobiando a carta adorada da Grã-Duquesa.

Na carta que eu tive, Amelia formosa,

Me disseste amor...

VIII

De passagem

Entre um bom jantar e um bom espirito existe, ao que parece, uma profunda analogia. Tous les gens d'esprit sont gastronomes--dizia Balzac. De todos os animaes, o unico, que sabe comer, é o homem--escrevia um outro auctor francez. D'este modo o jantar entre amigos é uma quasi necessidade da nossa existencia e um salutar incentivo a duas ou tres horas de boa e franca jovialidade.

Em Portugal dão-se jantares, mais como ostentação vã, do que verdadeiramente como meio de melhor expandirmos os nossos affectos, as nossas ideias, os nossos desejos, as nossas ambições. A nossa mesa distingue-se das mesas estrangeiras, não só pela má escolha das comidas, senão tambem pela exaggerada seriedade com que costumamos assistir a taes solemnidades. Dir-se-hia que, em taes momentos, estamos presenciando o enterro de nossos paes.

Ora o jantar, o bom jantar, sadio e leve, deve sobretudo correr alegre, isento de malquerenças, semeado de phrases espirituosas e de anecdotas interessantes. O jantar é, por via de regra, um pretexto para solidificar velhas relações de amisade; um pretexto para nos rirmos á vontade, um pretexto para conversarmos intimamente.

Os estrangeiros, comprehendem de ordinario estas festas, tirando os casacos, bebendo bem e comendo melhor. Nós outros, os portuguezes que, não obstante sermos uma caricatura viva de tudo quanto vem de fóra, tanto queremos primar pela gravidade que comprehendemos perfeitamente o contrario. Mal nos rimos, porque nem mesmo rir sabemos. O espirito nem sempre se amolda com todas as modulações de linguagem. Parece que á lingua portugueza foi vedado o dizer ligeiro, amavel, faceto, que tanto distingue a França moderna. Nós somos um povo, naturalmente indolente, um povo de apaixonados, como tão bem nos definiu M.me de Sevigné.

Voltemos, porém, á cosinha.

Tem um grande defeito: falta-lhe como em geral ao nosso viver, a boa elegancia, o sabor, a pimenta, que torna as comidas mais gostosas e mais facilmente digestivas. Não temos originalidade, e por isso imitamos. O unico prato que a meu vêr existe classicamente portuguez, mas soberanamente enjoativo, é o leitão. Na provincia, sobretudo, assa-se um leitão a proposito de qualquer festa. São nossos, exclusivamente nossos, o leitão e os foguetes.

Depois note-se--na nossa mesa não ha aquelle aceio que tanto seria para desejar, e que tão proverbial é entre os ingleses. Uma toalha, perfeitamente branca, aromatica, transparente, é já de si um notavel passo para um bom jantar. As indigestões nascem quasi sempre do mau tempero das comidas: parece que se odeia a agua e lavam-se os mantimentos como em baptismo de mouros.

Entre as classes mais altas da sociedade são despresadas as comidas vegetaes. Só o povo as aprecia; e porisso tambem é elle em geral mais robusto, mais fortemente organisado, e mais naturalmente atreito á espontaneidade e ás alegrias da vida.

O temperamento depende das condições alimenticias em que nos encontramos. O bom e o mau humor tambem d'ellas provêm. No modo, porque nos alimentamos reside, pois, uma grande parte da nossa felicidade.

As comidas, demasiadamente gordas, geram a obesidade tão peculiar aos nossos provincianos; ao passo que o alimento vegetal torna o homem ligeiro, amavel e espirituoso.

Á mesa da viscondessa respirava-se um invejavel aceio e uma limpesa pouco vulgar entre nós. A propria toalha attrahia, não só pela sua extrema brancura, senão tambem por uma deliciosa fresquidão, que de ordinario exhalava.

Grave era a viscondessa, mas espirituosa. Ninguem sabia tratar melhor os seus hospedes, nem com mais liberdade. Como aphorismo passava já em julgado que eram bons, substanciosos e alegres os jantares da viscondessa.

É que, á parte os seus caprichos, a viscondessa comprehendeu a vida moderna, tal qual ella deve ser: commoda, aceiada e elegante.

Nem porisso lhe queiramos mal, mas antes façamos por imital-a.

IX

Pobresa e miseria

É singelo o quadro; tocante até.

Uma pobre velha, habitando uma alcova humida e sombria, treme de frio, gemendo por vezes. Serve-lhe de leito uma pouca de palha enxarcada e nauseabunda. Ao lado uma panella velha, tosca e ligeira, cuja grande utilidade é aparar a agua, que a miudo se despenha do telhado.

Por uma fresta, lavrada no alto da parede, côam-se tristemente uns tenues raios de luz. Dir-se-hia que á desgraça até o sol é vedado.

Pelo soalho esburacado e carcomido occultam-se uns bichos infernaes, molles, gellalinosos. O tecto, artisticamente cinzelado pelo longo e imperioso trabalho da aranha, quasi se não distingue d'entre a escuridão que cerca o aposento.

E Maria, a desventurada creatura, jaz immersa em intima dôr, abandonada aos vermes que lhe róem as carnes syphiliticas, negras, cobertas de pustullas e de putrefacção. Querem conhecel-a?

Rica e formosa, fôra esta mulher. Cheia de venturas e mimos deslisára a sua vida, sem mais attritos do que aquelles que ordinariamente nos dá o tempo e a natureza.

Acariciada pelo anjo do amor e embalada nos sonhos gentis da opulencia, Maria sentiu-se a um tempo admirada e requestada pela mais guapa fidalguia do seu paiz.

Seus paes, habituados áquelle unico thesouro, eram inexoraveis no cumprimento das suas profundas e intimas affeições. Nada exigia, que para logo não fosse satisfeito. O mais leve capricho tentavam-no elles realisar com a satisfação de um escravo, que por sua senhora arriscára a vida.

Assim cresceu aquelle arbusto. Descuidado e candido, não houve vento que lhe açoutasse as tenras vergontesa. O sol, saúdava-o todas as manhãs, e a primavera encontrou-o viçoso, coberto de flôr e de esperanças.

Veiu, porém, a tempestade. O sul rugiu temeroso. No espaço precipitaram-se as nuvens, prenhes de electricidade. A arvore, mal segara, tremeu na sua raiz, e desappareceu da terra.

Onde estava Maria? Porventura iria ella em busca de algum anjo bom, seu irmão?

Fragil, como qualquer mulher, Maria não ousára resistir á fatalidade que a dominava. Fugiu. Fugiu romanticamente, por um lençol, atado á janella de sacada, e á meia-noite.

Como quer que fosse o facto, em si escandaloso, excitou naturalmente a indignação publica. A burguesia commentou-o á noite nos clubs e cafés, concluindo por ver n'elle uns laivos de obscenidade, impossivel de admittir-se no seio de uma familia honesta e séria.

Em que pese, porém, aos nossos indigenas sociaes, o caso era mundano, e frequentissimo até em mulheres demasiadamente imaginosas.

Ao cabo de dois annos, Maria resuscitou; não para a vida, mas para a morte.

O rosado do rosto transformára-se-lhe subitamente numa pallidez transparente, sepulchral, doentia. Os olhos, encovados, haviam perdido o seu primitivo brilho. Nada existia já que não fosse triste e profundamente doloroso.

A mulher virtuosa cahira victima indefesa, ás mãos de um maltrapilho infame. O miseravel seductor, retirára comsigo o seu dinheiro e o seu carinho.

Abandonada a si, Maria, refractaria ao trabalho, sem pae, sem mãe, sem irmãos, sem amigos, olhou em redor de si, e viu a sociedade que de longe lhe acenava.

Correu a ella com um filho nos braços. Engolphou-se nos seus prazeres, trocou a honra pelo pão quotidiano, pôz em almoeda a consciencia pelo futuro do innocente, que ao lado d'ella soffria e chorava tambem.

Era nobre, e pagava pela corrupção commum...

A mocidade ganhou-a, como poude. Viveu-a, e tanto bastava.

Depois chegou a velhice e a tristesa; depois a pobresa e a miseria.

Julio, a este tempo já era crescido, e velava pela mãe sollicitamente.

De que poderiam comtudo valer os minguados ceitis com que lhe era remunerado o seu trabalho de todos os dias?

Se elle e ella adoecessem, quem mais os trataria? quem, porventura, se amerciaria d'aquella terrivel indigencia?

--Ninguem!...--respondia-lhe logo a consciencia.

E a consciencia não costuma mentir.


Julio viera, pois, da fabrica e encontrára sua pobre mãe moribunda, sem remedio, sem medico e sem dinheiro.

Parou no limiar da porta. Encarou a velha de frente e viu-lhe os braços estendidos em signal de compaixão. Extactico, cego, allucinado, entrou-se o desventurado moço em profundo scismar.

Ao descerrar as palpebras amortecidas por um somnambulismo infernal--Julio, emxugando os olhos, com uma ponta da blusa, sorriu-se, como se do céu houvera baixado uma inspiração sagrada.

--Desgraçado de mim!--exclamava elle doridamente.--Trabalhar um dia inteiro e não ter á noite que comer... É triste... muito triste... Esgotar o sangue das minhas veias, em alheio proveito, e receber, no fim da semana, um vil salario, que mal me chega ás primeiras necessidades da vida... É infame... muito infame... Alugar as minhas faculdades e o meu pensamento, sem outro fim que não seja o proprio aviltamento e a propria degradação... É vil... muito vil.. Oh! meu Deus!... antes a morte! mil vezes a morte...

E assim cahiu inanimado o honrado moço sobre o desventurado cadaver de sua santa mãe.

A scena era realmente tão obscura, que mal poderia provocar as vistas d'esse mundo, que é louco e grande.--Passou, como tudo o que é modesto, desapercebida e ignorada.


No dia immediato um raio de sol, espreitando muito de soslaio pela fresta do telhado, apenas encontrára a solidão e a ruina, na mesma alcova, onde Julio e sua mãe, por tanto tempo agonisaram.

No cemiterio mexia-se uma porção de terra, afim de occultar aos olhos do mundo o desditoso cadaver d'aquella santa e virtuosa velha.

Julio nem sequer achára uma mortalha, para envolver o corpo de sua mãe.

Rasgou a blusa n'umas poucas de tiras, e, assim auxiliado, por mais alguns farrapos, que ainda lhe restavam d'outr'ora, arranjou a cobrir o corpo infectado e pestilente de sua mãe. Porque o principal effectivamente era occultar o crime d'esta grande peccadora...

Entretanto a sociedade ria-se nos botequins, e as tabernas continuavam sempre atulhadas de povo.

O mesmo Julio teve a coragem de transportar o cadaver para o cemiterio e de ahi lhe prestar as derradeiras homenagens.

Como não havia carniça, não appareceu o abutre!

Consciencia de Cain é jóia que só se mercadeja no alto mercado.

Foi mais uma lei do mundo.

Convêm, comtudo, registral-a para desafogo de todos nós.

X

Cousas dos Homens

Permitta-nos a leitora que um pouco nos demoremos sobre este incidente do nosso romance. Mais tarde volveremos a fallar da viscondessa. Por agora historiemos os factos que mais concorreram para o triumpho da nossa heroina.

Quem era Julio? quem era Maria? e porque motivo foram elles chamados para aqui?

Leitor: conheces a miseria? porventura já te foi dado contemplar esse estranho espectaculo, que a cada passo se nos representa diante dos olhos?

Á beira da estrada, ella, estendendo-te a mão carcomida e triste, pede-te esmola; na escuridão do templo, cheia de vergonha, ella occulta-se ás vistas da gentalha; no recesso das florestas, arrasta-se como um reptil, de tal maneira que nós não sabemos quem ella é, se um animal, se um homem.

E, todavia, ella, a canalha, é filha de Deus como nós.

E, todavia, elle, o Ninguem errante da sociedade, o anonymo sublime do universo, elle, o, trabalhador, tambem, como nós, tem intelligencia sentimento e vontade.

Quantas vezes, ao passar por uma rua escura e humida não tropeçamos nós com um d'esses desherdados, de faces lividas o aspecto sombrio, que, não tendo um travesseiro, onde repousar a cabeça, nem uma bilha d'agua, onde refrigerar a sede, nem um vestido, onde aquecer as carnes, vive ao acaso, alumiado, apenas, pela luz das estrellas da noite, alentado pelo orvalho do céu e ao abrigo vil das lageas das escadas?!

E, no entretanto, este ser existe.

Existe nas officinas do trabalho, e chama-se proletario; existe nos campos, e chama-se jornaleiro; existe nos hospitaes, e chama-se miseravel; existe nas prisões, e chama-se criminoso; existe nas rodas e nos hospicios, e chama-se engeitado; existe nas ruas e nas escadas, e chama-se maltrapilho; existe no universo, por toda a parte espalhado, e chama-se escravo.

Sim! o escravo é o leproso sem familia, a quem só é dado sentir a dôr das suas chagas. Elle, coitado! não tem casa, nem tem jardim, nem flores, nem amigos, nem alegrias; elle, o escravo, tem apenas, como um magro cão vadio, uns ossos que róe durante o dia e umas tristesas que o acompanham durante a noite.

E nada mais tem, o escravo!

O vicio é, em geral, uma triste consequencia da falta de meios. Perguntae ao pobre, porque se embriaga, á mulher porque se prostitue, e ao escravo porque se vende.

Embriago-me--responder-vos-ha o pobre--porque me quero esquecer do sangue que vertem as minhas feridas.

Prostituo-me--dir-vos-ha a mulher--porque tenho fome.

Vendo-me--exclamará o escravo--porque a sociedade me repudia.

E teem razão. Todos tres procuram o vicio, como alivio, como necessidade do seu espirito.

Julio era um d'esses: pertencia á rara pleiade dos independentes, d'aquelles que o Estabelecido odeia e renéga.

Muitas vezes, em creança, o pobre moço, sentado na areia da praia, e olhando o mar além, dissera em conversa intima, em que o homem interroga a consciencia, a razão, e tudo quanto o cerca:

«Como é grande o mundo, meu Deus!»

E n'uma esperança eterna, e n'uma ambição sem limites, Julio ficava-se horas e horas em prodigiosa concentração, que bem lhe denunciava a lucta, a cada passo travada no espirito nervoso e inquieto.

Mas n'este mundo são as ambições como as espumas do mar: um vento as traz e um vento as leva.

Que importavam as illusôes, se com as primeiras folhas do outomno, ellas tinham de cahir uma a uma?

As flores d'alma vão-se com o outomno da vida.

Nem sempre porém as borboletas adejam sobre as flôres; nem sempre o mesmo sol illumina as campinas.

Ante o cadaver de sua mãe, Julio emmudecera. Quando a sério, e a sós comsigo mesmo pensou na vida que no futuro o esperava, quasi instinctivamente teve vontade de se suicidar.

Olhando, porém, para o céu, ajoelhou. Um raio de esperança lhe illuminava a alma, até então em trévas.

Felizes os que, como elle, sabem esperar!

A esperança conduz Colombo, e descobre mundos!

XI

Na taberna

Entrava-se por um beco immundo, torcia-se á direita, e estava-se lá, no antro do crime, em que a vida e a fortuna se joga, o bem estar, a tranquilidade, o socego, toda a harmonia da existencia humana.

Exteriormente, apresentava a taberna um aspecto mesquinho e lugubre. Um distico, apenas, no alto da parede indicava aos transeuntes que ali «se vendia vinho verde

No largo portal da entrada, coroado por um ramo de louro, viam-se uns traços obscenos, riscados a giz, e, ao parecer, escriptos em maré de embriaguez.

Portas a d'entro, reinava uma alegria feroz, confusa e tristemente desconsoladora.

Uns jogavam, riam outros, e gritavam todos.

--Salto no valete--dizia um.

--Mico no terno--interrompia outro.

E assim, ébrios de vinho e ambiciosos de fortuna, jogavam elles, sem outro alento que não fosse o vicio e o esquecimento.

De subito, uma gargalhada estrugiu pelos ares.

Por uma das mesas, esgravatada e cebenta, rolou veloz um enorme cangirão de vinho, por onde á porfia bebiam os convivas alegres.

A taberneira, mulher roliça e de cabello na venta, servia com respeito os freguezes, na maioria lavradores e campinos.

A um canto, e sobre o junco, que cobria o lagedo da sala, estava um berço, onde uma creança dormia tranquillamente, em companhia de um gato malhado, velho hospede na casa.

Ao lado do berço um cão, apoiado sobre as mãos e com a orelha levantada, olhava filamente na direcção da porta de entrada.

Para além do balcão, duas pipas de vinho e uma pratelleira, cujas divisões continham pão, queijo e figos; tudo, já se vê, velho, amarellecido pelo tempo, e modico no preço.

--Viva o nosso Julio!... viva!...--exclamaram os jogadores, voz em grita.

O saúdado moço, de braços crusados e em mangas de camisa, nem sequer lhes respondeu.

Entrou, passeou a vista pela sala, e quedando-se com pesar, vociferou:

--Nem mãe, nem... dinheiro...

Como por encanto, fez-se um silencio sepulchral na taberna. O jogo parou; e instinctivamente erguidos, correram todos á presença do Julio.

Prestes, porém, se apagou a mudez, a fim de novamente ser interrompida pela mais temerosa de todas as vozerias.

--Não póde ser; não póde ser. Abaixo a tyrannia. Vamos a acabar com elles. Malhados de uma figa... Queremos sangue e mais sangue... que nem um só escape... Querem-nos roubar o nosso trabalho... os infames... Ladrões abaixo... Não queremos ladrões... A elles... todos a elles...

A taberneira exasperada, pedia ordem, levantando os braços. Em cima do balcão latia o rafeiro agudamente. O gato, espreguiçando-se, escoara-se com mysteriosa perfidia, por entre as pipas vasias. Um raio de lua, reflectindo-se phantasticamente sobre a cara da creança, que chorava, produzia um contraste singular, e sobremaneira interessante. Dir-se-hia que pela innocencia velava o céu em toda a sua magestade e grandesa.

N'um momento a porta rangeu nos gonzos.

--Em nome da lei declaro presos os desordeiros--bradou um vulto.

--Em nome de que lei?--retorquiu um dos agitadores.

--Em nome da nossa lei, em nome da lei portugueza--insistiu o primeiro, descobrindo-se.

Á vista do policia, até a taberneira gritou. Vergado ao peso de uma mão de ferro, aspera e cortante, e apanhado a sós, o espião do governo, atravessado por tres fortes navalhadas, rolou immediatamente aos pés de Julio, que para elle olhava desconsoladamente.

Momentos depois a taberna estava só, escura, e triste.


Quem, dois dias depois, entrasse n'esta mesma casa, e attentasse nos personagens, ali reunidos, pouca differença de certo havia de notar.

Lia um dos operarios em voz alta a Revolução de Setembro, quando inopinadamente se lhe deparou a seguinte local:

«Ante-hontem, cerca da meia noite, deu-se um grave tumulto n'uma taberna situada para as bandas de Alfama. A policia anda em cata dos desordeiros, e de crêr é que, em breve, elles soffram o justo castigo das suas loucuras.»

Taes palavras foram, como é natural, ouvidas com terror, da parte dos circumstantes.

Um silencio profundo envolvera a taberna. Mudos e reflexivos, ninguem ousava proferir uma palavra.

De repente apagou-se o gaz. O ruido tornara-se insupportavel, medonho, confuso.

--Traição... traição...--repetiram todos.

E o silencio recomeçou de novo.

XII

Perigos e consequencias

N'este nosso paiz ficam muitas vezes impunes os crimes mais graves, castigando-se os mais insignificantes.

A lei penal muitas vezes dá existencia aos crimes, imaginando penas para delictos imaginaveis.

Parece que a justiça social nem sempre cumpre o seu dever. O roubo corre muitas veses authorisado pela lei, n'um inpudor por tal fórma insólito, que de vergonha faria córar uma bachante.

A cada passo, e com a maior facilidade, se sancciona uma injustiça. Quem não tem padrinho, morre mouro--diz o rifão. E o certo é que o pobre, o eterno Job da orphandade,--se não morre mouro, morre, pelo menos, de atrophia, indigente, sem pão, sem agua, e o que é mais, sem espirito.

Ao percorrer as humidas cavernas--morada e abrigo dos proletarios--de dó se nos enlucta o sentimento. Como é que a Providencia tão prodiga e generosa; como é que o sol, alargando seus raios encantadores, tanto pelas cumiadas das montanhas mais longinquas como pela escuridão dos valles mais reconditos--como é que todo este mixto de luz e de céu, póde consentir o infortunio no mundo?

A aspiração é sêde que se não extingue. Mas aspirar sem esperança; anceiar sem uma possibilidade de realisação final, deve ser triste, muito triste, para já não dizer desesperador.

Para voar, concede a naturesa azas á aguia. Assim tambem para sermos livres, rigorosamente livres, para executarmos os vastos planos da nossa vontade, carecemos nós de meios, sem os quaes tudo nos seria baldado e inutil.

E dizem que a lei é egual para todos!

Entre dois cidadãos--um casado, outro solteiro, um pobre outro rico--que soffrem a mesma pena, onde é que está a egualdade?

Divagando, porém, iamos fugindo do nosso caminho. Voltemos ao romance.

A policia não afrouxára nos seus esforços. Indagou, correu, perguntou. Ao cabo de uma semana, estavam seis individuos dados por suspeitos. Entre elles indigitára-se Julio como um dos principaes cumplices no crime acima descripto. Se fôra ou não acertada a escolha, isso só os factos posteriores o poderão affirmar. Por agora basta que o leitor nos acompanhe.

Dolorosa é a recordação do carcere. Sem luz e sem ventilação, são as nossas cadeias uns verdadeiros antros, cuja atmosphera impregnada de particulas venenosas, quasi sempre gera no seu seio os vicios mais execrandos e as doenças mais incuraveis.

Um drama simples e vulgar ao mesmo tempo, poderá, talvez, iniciar-nos nos verdadeiros mysterios d'este inferno.

Ouçamol-o.

Um homem rico decahira um dia da sua fortuna. Habituado ás commodidades da vida, encontrou-se repentinamente privado do necessario. Acostumado aos falsos amigos, viu-se sem amigos. Olhou. Quatro filhos o encaravam. Uma esposa lhe sorria. Fôra bom o seu coração. Nunca até ali se dera um unico facto que lhe manchasse a consciencia. Examinou os bolsos. Dinheiro não havia já. Recorreu ao trabalho. O trabalho fez-se esperar. Mendigou. Ainda era pouco. Os filhos continuavam a chorar. A esposa continuava a morrer. Que fazer, pois? Roubar. E roubou. Roubou um pão porque tinha fome. E dois. E tres. E quatro. A lei, inexoravel como a Parca, encontrou-o uma noite. Levou-o para o Limoeiro. Pediu-se, sollicitou-se, em nome da desgraça. Tudo embalde! Os poderes publicos cumpriam o seu dever. N'uma casita humida, situada ao Salitre, definhavam, ao cabo de cinco dias, quatro creanças e uma mulher. No Limoeiro creava-se mais um monstro, e inutilisava-se um homem. E tudo isto com uma prodigiosa simplicidade.

É a historia de Valjean sem o auxilio do arcebispo!

Ao moço-operario não succedeu, felizmente, outro tanto. A Providencia encarregou-se de velar por elle. E o certo é que a evasão de cinco presos deu-se rigorosamente n'esta época. Julio foi um dos que, a salvo da prudencia, recuperaram a liberdade.

XIII

Continuação

Seriam 2 horas da madrugada. A lua brilhava em pleno espaço. O Tejo era Sereno. Apenas de longe em longe um rumor surdo, vago, incomprehensivel, acordava a naturesa do seu pacifico somno nocturno.

Por sobre as mansas aguas deslisava um bote suavemente. As estrellas, reflectindo-se na bahia, similhavam, pela vivacidade irrequieta do brilho, um cardume de peixes em debandada. A viração era fresca, e deliciosamente salutar.

Cantavam os remeiros, umas tristes canções, repassadas de melancholia e de patriotismo. Os remos, batendo na agua, produziam o effeito de um chrystal facetado, em desordem, mas atrahente.

Nem uma dissonancia sequer apparecia n'este immenso panorama, a um tempo eloquente e respeitavel.

É que a alma da naturesa, symbolo do infinito sobre a terra, é incomparavelmente superior á alma do homem, expressão do contingente e do relativo.

As montanhas, elevavam-se a distancia, na firme immobilidade de phantasmas. Dormia a cidade socegadamente. No convez de um navio mercante ladrava um cão da Terra-Nova. Nas embarcações de guerra ouvia-se distinctamente e com rarissimos intervallos o passo moroso das sentinellas.

Os catraeiros cantavam sempre:

«Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia noite com vagar soou;
Que paz tranquilla! dos vaivens da sorte
Só tem descanço quem ali baixou.»

E ao longe os echos repetiam a ballada do poeta.

O escaler abicou, emfim, á praia. A aurora começava a roxear o horisonte. Uma luz delicada, fina, como a porcellana, transparecia por entre nuvens.

Um vulto de homem, embuçado n'um largo capote, saltou á praia.

Julio, fugitivo, tomára a prompta resolução de por algum tempo se occultar no bairro de Alcantara.

Duas palavras ainda sobre elle:

Julio era um rapaz ambicioso. Amava egualmente a liberdade e o trabalho.

De têmpera rija, era o seu caracter. Odiando o jesuitismo, por instincto, não poucas vezes chegára a commetter excessos e desvarios.

Frequentava a taberna, do mesmo modo que nós frequentamos o café; ali discursava com os companheiros, concluindo sempre em favor da liberdade e contra a reacção.

Na noite em que o prenderam exclamára elle para os camaradas de trabalho:

«Nem sempre a escravidão ha de pesar sobre nós. Quem tiver coragem, acompanhe-me. Uma vez que não querem a paz, acceitaremos a guerra, mas uma guerra sem tréguas, uma guerra eterna e violenta.»

D'este modo Julio era a perfeita personificação do escravo, que, sentindo a grilheta ao pé, deseja emancipar-se e tornar-se homem, como os seus similhantes.

Alfredo, não tendo coragem para realisar os seus planos, embora bom e generoso no fundo, tornara-se devasso, e adormecera inconscientemente nos braços da sensualidade estupida. Julio, não! Julio estava puro; reagia ainda com heroicidade contra a geral corrupção da sociedade.

Entre estes dois homens, ambos moços e sympathicos, existia uma differença apenas: Alfredo pertencia á mocidade dos cafés, incomparavelmente mais inutil que a mocidade da taberna, composta, na generalidade, por operarios honestos, como Julio.

Mais tarde, porém, nos encontraremos novamente com Alfredo.

XIV

Novos mundos

Penetremos em Alcantara.

É um bairro pobre, habitado por operarios, n'uma grande parte, e por homens do mar.

Na extrema do riacho, para a direita, alveja uma pequena casa, situada na falda de um monte.

Para ahi entrou Julio, a fim de se occultar ás pesquisas da policia.

Durante o dia conservava-se fechada a casa, como querendo demonstrar ao publico, que ella era realmente deshabitada.

Á noite quatro operarios, voltando do trabalho, batiam de mansinho á porta.--Julio percebendo pelo toque ser os companheiros, levantava-se da enxerga em que de ordinario jazia, e dava volta á chave.

No interior da habitação reinava a miseria em toda a sua hediondez.

Uma enxerga apenas, abrigava, durante a noite, cinco esqueletos de homens, sem alegria, sem pão e sem futuro. Os mumias da desgraça!

De manhã, ao levantar, reuniam quatro ou seis trapos velhos, e, por vergonha, occultavam á multidão os proprios ossos do corpo.

Na cosinha existiam, por acaso, duas côdeas de brôa, arrancadas aos dentes das cadellas leprosas, uma bilha com agua e um pequeno ramo de carqueja.

A estes quatro animaes, trabalhadores n'uma fabrica de lanificios, se incorporara Julio.

Pouco tempo, porém, durou similhante situação. Ao cabo de alguns mezes a policia lançára as suas vistas para os lados de Alcantara. Isto soube-se, e chegou aos ouvidos de Julio, a este tempo já viciado por toda a casta de corrupção.

Com nova tão para desesperar, quasi endoideceu o moço-operario. Uma noite mesmo, encontrando um policia civil, e tomando-lhe da mão direita, disse:

--Olé--sabe quem eu sou? Ah! não sabe? pois bem: fique sabendo...

E fugindo, estendeu-o no chão com uma fortissima bofetada.

Assim se passaram alguns dias, de louca anciedade. Por tradicção conhecia Julio um velho aldeão, de quem a mãe repetidas vezes lhe fallára. Uma noite, deixando o casebre de Alcantara, demandou a provincia, onde lhe sorriram os primeiros raios de felicidade.

Mas Julio já não era o mesmo homem. O desanimo ganhara-o por momentos. É condão da miseria transformar o homem physica e moralmente num monstro de paixões.

A barba crescera-lhe. O corpo definhava-se-lhe a olhos vistos. No coração principiavam os espinhos a crescer e a vegetar. Emfim, aos pés do operario um abysmo, um immenso abysmo se abria.

E ai do homem, que um momento escorregar no precipicio; porque para esse não haverá salvação possivel.

A mulher, que uma vez peccou, habilita-se a ser uma eterna peccadora. O homem que um dia se prostituiu, fica para sempre prostituido.

Nem sempre, porém, nos abandonam os anjos do céu.

Á beira do despenhadeiro tivera Julio o seu anjo da guarda.

Abençoada a mão, que n'um raio de amor nos traz a esperança e a consolação!

XV

Primeiros amores

Um sol ardente batia de chapa sobre um eirado de pedra, em cujo espaço se abrigava cuidadosamente o fructo de uma boa colheita de milho.

Ao lado, e fóra do alpendre, elevavam-se tres medas de palha, unico alimento annual, aos pacientes trabalhadores d'aquelle campo.

Por entre as louras e amontoadas espigas brincavam em candida innocencia duas formosas e galantes creanças.

A tarde declinava docemente. No pinheiral longinquo gemia a rôla uns tristes e magoados queixumes. Os cantos jubilosos dos lavradores iam perder-se nas solidões distantes. O céu era sem nuvens; e as aguas de chrystal, mansas e innocentes, como as lagrimas de uma creança, deslisavam com ligeiros attritos, atravez dos terrenos pedregosos.

Um cão preto, guardador de gados, saltando alegremente, annunciára em repetidas curvas, a proxima chegada de seu dono.

A pouca distancia d'ali assomou logo um velhote de rosto prasenteiro e agradavel. As duas creanças, erguendo-se de um pulo, desappareceram por entre a sombra do arvoredo.

Apenas um moço, altivo, de tez morena e bronseada, permanecêra na mesma posição sem dar por cousa alguma do que em de redor d'elle se havia passado.

O velho chegou, trazendo os dois pequenos pela mão. Olhou com piedade para a estatua da tristesa, que tão profundamente o impressionava, abeirou-se d'ella, e prorompeu nos seguintes e magoados termos:

--Então que é isso, meu Julio? tão triste e pesaroso? já lhe não valem de nada as palavras d'este velhote, que tanto do coração lhe quer? e esta familia que é a sua? Ora vamos, mostre-se alegre para comnosco. Aperte-me esta mão que é rude, mas honrada. Seja-me franco, se alguma cousa o afflige. Nada receie. Olhe que todos nós o estimamos devéras.

--Meu Pae...--exclamava Julio, debulhado em lagrimas,--meu bom Pae...

O lavrador, puxando por um lenço encarnado, que habitualmente trazia no bolso direito da jaqueta, muito de soslaio limpou os olhos humedecidos. As duas creanças, acompanhando-o, como que por instincto lhe beijavam as mãos bemfazejas.

O sol, atufando-se nas aguas do oceano, reverberava por sobre a terra silenciosa os seus derradeiros raios. A brisa era tépida, como a noite. Algumas folhas sêccas, prenuncio do outomno, alastravam o sólo.

Julio entrara-se em doloroso scismar. A sós comsigo mesmo, pensou muitas vezes no suicidio, companheiro e amparo dos que soffrem. Mas não. Uma esperança o alimentava. Um vago ideal o seduzia.

Após profundo meditar alçou a cabeça para o céu. A imaginação cedera o seu logar á intelligencia. Julio estava salvo. A seu lado respirava um archanjo celeste.

Olhou. Cecilia, a pomba immaculada, depositara aos pés do seu amante uma bolsa, cheia de libras, thesouro de trabalho e de economia.

Que esplendida creança! e que nobilissima abnegação!

--Tu aqui, Cecilia?...

--Sim, aqui, ao pé de ti, meu Julio. Tudo adivinhei. Se é preciso que partas, parte: vae procurar a fortuna, por que tanto anceias. No entanto lembra-te sempre de que deixas n'esta casa não só um pae que te estima mas tambem uma mulher que te ama.

--Cecilia, meu doce amor, como eu quizera ser feliz comtigo. Mas tu bem vês, minha filha: sou pobre, nada tenho. Repudiado pela sociedade, que me julga um criminoso, apenas a tua e a minha desgraça poderia fazer n'este momento. Parto ámanhã. Com o nome mudado, entrarei n'uma fabrica. Trabalharei, trabalharei muito. E tu, Cecilia, que és boa e meiga, como as estrellas do céu, não me esqueças nunca nas tuas piedosas orações. Deus ha de ouvir-te, porque Deus tambem é bom. Um dia, quem sabe? voltarei rico a esta casa. Tenho fé em Deus que hei de voltar. E tu tambem tens fé, não é assim, Cecilia?

--Fé, meu amigo, só eu tenho na morte. Alguma cousa me diz que a felicidade não foi feita para nós. Paciencia. Que, ao menos, o céu nos receba!--é este o meu maior desejo.

Um curto, mas doloroso intervallo se seguiu a estas palavras. Cecilia, sufocada pelos soluços rasgava com os proprios dentes as pontas do avental, chorando amargamente.

Julio envidava todos os seus esforços afim de a consolar. Nem um nem outro, porém, sabiam o que faziam.

--Vamos, meu Julio, assim é preciso. Animo, animo e adeus...

Um abraço os reuniu; e um beijo--um prolongado e triste beijo os separou.


Oito dias depois, Cecilia mostrava a seu pae uma carta de Julio, cuja leitura elle terminou chorando.

--Pobre rapaz!--exclamava o bom do velho, limpando os olhos com as costas da mão.

E voltando-se para sua filha, começou de beijal-a ardentemente.

Doce esperança do céu lhe illuminára a fronte, encanecida na virtude e no trabalho!