XVI
Transformações
Eu não sei qual seja melhor: se o ar do campo, se o ar da cidade.
É certo que muitos preferem a provincia á capital. Tambem é certo que os doentes, por via de regra, se não dão bem nos grandes centros: Entretanto a cidade, se bem que despida da ingenuidade nativa da aldeia, tem para mim o supremo encanto da actividade e do trabalho. O silencio prolongado degenera as mais das vezes n'um aborrecimento deploravel, quando não é elle o gerador de graves e dolorosas molestias.
A cidade tem as suas ruas illuminadas. Os restaurantes attrahem-nos docemente. O ruido dos cafés desperta em nós o desejo da mutua confraternidade. Se por acaso atravessamos uma rua bastante concorrida, paramos instinctivamente; olhamos para as vitrines das lojas, admiramos um objecto mais do nosso agrado, e com isso nos deleitamos.
Sobretudo apraz-nos a cidade no inverno, no tempo em que as arvores, despidas das esplendidas toilettes do verão, se nos mostram tristes e sombrias como a velhice. Então é-nos o calor mui doce e suave lenitivo. Á luz pallida do gaz distendem-se-nos os musculos enregelados, e enchem-se-nos de vida os membros confrangidos.
O café é uma invenção puramente da cidade. Rendez-vous de todas as classes sociaes, é elle para a humanidade o mesmo que a familia é para o homem. Á noite, ao cahir da tarde, quando as tristesas--aquellas vagas e mysteriosas tristesas do crepusculo--começam de entrar comnosco, nós, incitados por um desejo ardente de meigas e salutares expansões, procuramos o café naturalmente. Para alli nos dirigimos, como se elle nos fôra um templo sagrado; lá temos a nossa communhão de ideias e interesses--uma profunda e natural communhão, onde os amigos se encontram e os estranhos se abraçam.
E o theatro? e os circos? e os passeios? e a musica?
Imagine-se, pois, o leitor no theatro de D. Maria. A récita é dada em beneficio de um asylo. A plateia está replecta de espectadores, e nos camarotes, como que resplandecem, em glorioso desafio, as mais encantadoras formosuras de Lisboa: Como se disse no segundo capitulo d'este romance, o drama escolhido para esta noite era a Vida de um rapaz pobre. Apparecêra a Viscondessa, n'uma das frisas da frente, ostentando, um delicado decote, um cóllo d'alabrasto, ao qual estava cingido um valioso collar de pérolas. Proxima d'ella, e na frisa immediata, uma condessa rica, enlêvo dos negociantes accreditados, mostrava uns braços gordos, a cujos pulsos, por egual gordos e sadios, se enroscavam umas pulseiras de diamantes, compradas na mais afamada ourivesaria de Paris. Mais além uma menina loura, ha pouco sahida do collegio, tomava poses incontestavelmente estudadas ao espelho, olhando de soslaio para um moço ainda imberbe, soi-disant litterato de botequim e claqueur improvisado.
E assim succediam os factos, as pessoas e as cousas. Nas torrinhas estavam, segundo o costume, alguns rapazes, ao parecer entendedores--uns bons rapazes despretenciosos, á mistura com alguns operarios zelosos e trabalhadores.
No fim do 3.o acto, quando Alfredo entrava na frisa da Viscondessa, um ignorado personagem se levantou nas torrinhas, replecto de amor e de febre. Desceu as escadas com desusada precipitação, e entrou no restaurante. Pediu aguardente de canna e bebeu, bebeu sempre... Pediu uma folha de papel de carta, e com um lapis que trazia no bolso do casaco, escreveu um bilhete.
Embuçado e trémulo, esperou que o espectaculo terminasse. Quando, por entre a multidão que sahia do theatro, lobrigou a Viscondessa, sem atinar com a intenção dos seus actos, allucinado, doido, perdido--acercou-se della, entregou-lhe o bilhete, e fugiu.
Pobre de ti, meu Julio, espirito leviano e generoso, e agora já transformado em José Xavier, em virtude das leis do teu paiz.
O ar da cidade, para ti renovado, foi o abysmo que se te abriu aos pés.
Sem mesmo querer, olvidavas a aldeia, que te fôra consolação momentanea nas agruras da vida; e n'esse esquecimento involuntario ia-se-te a alma partida com a doce imagem da mulher honrada que por ti velava dia e noite.
Pobre de ti, meu poeta! e pobre d'aquelles, que, como tu, soffrem as mesmas e tristes inconstancias, a cujo horrivel imperio não ha nunca resistir n'este mundo de phantasmas e de vadios.
XVII
Allucinações
Quando alguma ideia nos preoccupa o espirito fortemente, o nosso primeiro movimento é estar só, isolado, em intimo colloquio com os nossos desejos.
Momentos ha em que aborrecemos a luz, como supremo escarneo aos nossos soffrimentos. N'este caso é a conversa de estranhos muitas vezes levada á conta de uma ironia pungente. Queremos fallar, e não podemos. Desejamos abrir os olhos, e conservamol-os fechados. Esforçamo-nos por chorar, e as lagrimas não correm. Então, sequestrados da sociedade, e a sós com a nossa dor, imploramos de Deus o soccorro da morte e a hora suave do passamento.
Julio estava perdido. Tentou ser homem, mas embalde.
Pela primeira vez na sua vida entrou n'uma casa de jogo. A sorte foi-lhe adversa.
Com os cabellos em desalinho, os olhos chammejantes, e o corpo numa ancia infernal, entrou o apaixonado moço n'um botequim.
Bebeu, e embriagou-se.
A paixão é muitas vezes creança. O amor é caprichoso, quasi sempre doentio, e por via de regra em extremo exigente.
Ora a febre tem um periodo de excitação, o qual, apenas terminado, gera o aborrecimento e um indefinivel mal-estar.
É louco o homem que ama sem raciocinio, doidamente entregue aos excessos da imaginação e da phantasia. Acima do amor está a amisade.
O amor é um relampago em céu de trovoada: passa, e não dura.
A amisade é um sol que, mesmo atravez das tempestades, se conserva: não tem azas como a aguia, mas em compensação tem raizes como a arvore.
A amisade é sempre amorosa; o amor nem sempre é amigo.
Para amar basta que se seja um bom amigo; para ser amigo é que não basta só o amor.
O amor é um capricho, que póde provir de uma apparencia mal entendida.
A amisade não! A amisade nasce da reflexão combinada com o tempo.
Quantas vezes não é o amor filho do ciume?
Quantas vezes nos não deixamos nós arrastar por uma simples exaltação do nosso temperamento?
A nossa esposa deve ser a nossa primeira amiga. Na convivencia ha tempo para estudo. Ai! d'aquelle que se deixar arrastar pelo fogo das paixões, porque para esse devem ser as as desillusões um quasi assassinato moral.
Julio estava cego; caminhando ás apalpadellas mal podia atinar com o caminho.
Depois de ter jogado, depois de ter bebido, sahia para a rua.
Se o jogo é como o vinho uma embriaguez, nem porisso o amor deixa de o ser tambem.
Quasi nunca a paixão apparece só. Um homem apaixonado é um aventureiro, um espadachim, que anda atraz da sorte, desafiando-a. E porisso é que os tres irmãos gemeos--o jogo, o vinho e o amor--caminham sempre unidos e accordes.
Julio, ébrio, ameaçou as estrellas, riu-se da lua, escarneceu do céu, e insultou-se a si.
A embriaguez tem d'estas oscillações inexplicaveis: no principio é vigorosa, athletica, muscular, até que a pouco e pouco enfraquece, tornando-se inerte, covarde, miseravel: similhante a um homem que, cahindo no abysmo, solta a principio uns gritos agudos, lancinantes, e que a final, desesperado e sem força, se deixa escorregar para o fundo, onde adormece no leito do universal esquecimento.
Julio, sem ser cadaver, era no entretanto um
alucinado. E o alucinado só dista do cadaver, em
que aquelle é um morto ambulante, ao passo que
este é apenas um morto inerte, estupido e incapaz
de movimento.
XVIII
O escudeiro da senhora Viscondessa
Apenas sahido do theatro o primeiro pensamento de Julio fôra suicidar-se.
Alguma cousa, porém, impossivel de explicar-se, o prendia á vida. Demais elle era novo; contava vinte e seis annos, se tanto; possuia aspirações em larga escala; vastos affectos lhe referviam na mente escaldada. É verdade que até ahi a pobresa o não deixára sahir do seu silencio. Que lhe importava, comtudo, a obscuridade do presente, se o futuro lhe podia ser de amor e de rosas?
Uma lucta desesperadora se lhe travou então no espirito irrequieto.
--Sim! a vida--exclamava elle--oh a vida... e chama-se a isto vida... Mas se ella de facto me pertence, porque me não hei de eu desfazer della? se por naturesa, Deus me creou livre; se para mim nada existe na terra, além d'este fardo importuno a que chamam miseria, para que persistir n'elle. Não! É mister sahir d'este salão, d'este vil salão! cuja área denominam universo: procurar um outro, cujo começo é o cemiterio, e o fim, talvez, a eternidade da materia... Os homens... que são os homens? uns tristes egoistas sem consciencia e sem pundonor, uns mercenarios torpes, altivos invejosos e estupidos... perfeitamente como os outros animaes... Mas aquella mulher! e qual? Cecilia? oh, Cecilia é uma andorinha cheia de castidade, muito pura e muito simples. E depois--que lhe devo eu? se me teve amor, tambem eu a amei... se me deu affectos, tambem eu lh'os retribui. Acima d'ella, porém, está a Viscondessa. Comparál-as? oh! não, por Deus, Cecilia é uma pobre rapariga sem arte; falta-lhe a elegancia da Viscondessa, não sabe fallar, não se sabe vestir, não se sabe pentear... para que hesitar, pois? Ah! louco, que eu sou na verdade! mas se esta imagem me persegue por toda a parte, se a não posso apagar da memoria, porque me está aqui parada, aqui, aqui bem dentro, n'este coração maldicto... Sou pobre! Embora! tornar-me-hei rico; irei ao Brazil; amontoarei dinheiro sobre dinheiro; far-me-hei negociante e vendedor de café.
Assim monologava o moço operario, de si para comsigo, sem outro alento que não fosse uma paixão profunda, ardente, vulcanica. Sobre a espaçosa fronte cahira-lhe o cabello n'um singular desalinho. Os braços, crusados ao longo da mesa, bem patenteavam a afflicçao que n'aquelle momento o devorava. No interior do peito referviam-lhe as negras chammas do supplicio--aquellas chammas infernaes, remordentes, que nos são, como que o appêlo de Satan sobre a terra.
Adormeceu. Um languido torpôr se lhe apossou dos membros cançados. N'esses raros momentos de nervosa agitação, uma hora de somno vale mais positivamente, muito mais, do que uma noite bem dormida.
Quando voltou a si era dia claro no horisonte. Abriu a janella, e tomado d'uma ancia incuravel, alongou os olhos pelas montanhas longinquas. Similhante ao peregrino, que, com os olhos ávidos, mede a extensão do deserto, assim elle tambem mediu a extensão da sua dôr. Se era grande ou pequena, só o espirito ao certo lh'o poderia affirmar.
Entretanto a Viscondessa, nem sequer se lembrára mais do bilhete recebido no theatro. No dia seguinte, porém, seriam quatro horas da tarde, quando Virginia lhe annunciou a visita de um operario.
A Viscondessa, na sua proverbial delicadesa, mandou-o entrar para a sala.
Um minuto depois parava ao limiar da porta um sympathico rapaz de bigode preto, macillento e moreno. Trajava modestamente uma bluza azul e uma calça côr de cinza.
--Disseram-me que a senhora Viscondessa precisava de um creado--principiou o desconhecido.
--Como se chama?--interrompeu a senhora.
--José Xavier.
--José! pois bem: agrada-me o nome. Póde ficar. Virginia que lhe diga o que tem a fazer.
E, sem mais, virou-se a viscondessa para o outro lado, retomando a primitiva posição.
Ao jantar alguns incidentes notaveis se deram. Julio servia á mesa. Com os olhos sempre fitos na Viscondessa mal pestanejava, o pobre do rapaz. Por algumas vezes lhe cahiram os pratos da mão; por algumas vezes substituiu um prato lavado por um outro sujo; por algumas vezes se riu Virginia a bom rir. Para tal, porém, nem sequer a ama reparou em meio das suas caprichosas divagações.
Os dias iam correndo em silencio. Julio, ardendo em amor, seguia, como um cão, os mais insignificantes passos da Viscondessa. Quando ella passava pelo corredor, occultava-se atraz das portas; se podia, beijava-lhe a fimbria do vestido; quando ella sahia, entrava-lhe no quarto de vestir e ali se ficava horas esquecidas n'uma d'estas allucinações que só conhecem os espiritos febris e nervosos. N'um momento de cegueira, roubara-lhe o, retracto do album; com elle adormecia todos os dias, e com elle tambem entrava no serviço da casa.
Entretanto o diabo arma-as, quando menos a gente as espera.
Julio penetrára no quarto de sua ama. Involuntariamente se demorou mais do que o costume. A Viscondessa entrou cêdo n'esse dia. O escudeiro mal tivera tempo de se esconder d'entro de um guarda-roupa.
Ia Virginia, segundo o seu habito, a abrir o armario; quando Julio, dando um pulo para fóra, deixou espavoridas ama e creada.
--Ai! credo! Jesus! gritou Virginia--Ladrões em casa; ladrões, minha senhora.
--Que é? que é?--exclamou a Viscondessa.
--Pois não viu? O tratante do José aqui fechado!
--O José--retorquiu a senhora!
--O José, sim, minha senhora, o José...
--É verdade, senhora Viscondessa; fui eu, fui eu que commetti este enorme attentado--obtemperou Julio, trémulo de colera e de raiva. E para prova, aqui me tem a seus pés, sollicitando-lhe perdão.
--Virginia, disse a Viscondessa, paga a este miseravel, o manda-o embora.
--Já, minha senhora.
--Bem me queria a mim parecer--murmurava
a esperta da creada--que aqui andava sua
cousa encoberta.
XIX
Falla o coração
Será verdade que o coração tambem falla?
Uma cousa é amar, outra cousa é desejar. O amor deriva do coração, foco de toda a vida humana; o desejo nasce dos sentidos. Ao primeiro pertence o amor-sentimento, ao segundo o amor-sensação. Até aos trinta annos o amor póde dizer-se sentimento; o que, por via da regra, não succede já d'ahi por deante, em que elle se transforma n'um desejo material.
O amor depende, sobretudo, da educação; e assim póde ser maior ou menor, consoante o estado moral do individuo em que elle se manifesta.
O amor mais verdadeiro é aquelle que se não exprime. A attracção de sympathias deve dar-se naturalmente sem necessidade de expansões, que lhes viciem a puresa inicial.
O selvagem, por exemplo, ama até ao ciume. Quando não póde saciar os seus desejos, apunhala-se a si ou apunhala a amante. É que o selvagem, na sua natureza desordenada, é um diamante por lapidar.
O ciume accusa falta de confiança na mulher a que nos dedicamos, só por um inconcebivel egoismo poderemos ser arrastados a um vicio tão execrando, como abjecto.
Julio amava a Viscondessa com um amor selvagem, forte, violento. Tinha ciumes della; seguia-a por toda a parte; e não raro succedia fechar-se n'um quarto, e ahi, com o retracto deante de si, chorár e chorar copiosamente.
Ora a Viscondessa era de facto uma mulher bem educada, mas soberanamente viciada pela lisonja dos homens.
Tres são de ordinario as causas do orgulho na mulher: a formosura, a riquesa e o nascimento.
A formosura, pela demasiada contemplação das proprias qualidades, gera o coquettismo; a riquesa a vaidade; o nascimento a soberba.
A mulher formosa tem em si mesmo a causa da sua destruição. Lisonjeada pelos homens, torna-se inconstante. Depois, note-se--a inconstancia é um excesso de ternura, uma superabundancia de bondade.
A simulação é propria ás mulheres. Ao amor fingido de uma mulher corresponde de ordinario o amor mentiroso de um homem. As mulheres fingem, porque, desde creanças, as ensinaram a fingir. É um vicio de educação.
A riquesa é a antithese da virtude. Foi a pobresa que gerou a caridade. Mulher rica é mulher, quasi sempre, voluntariosa; muito senhora de si, deseja ser obedecida como rainha.
O nascimento nem sempre é um prejuizo. Ha mulheres aristocraticas em cujas acções se revela a suprema distincção. É mais para temer-se o excesso de republicanismo, do que o excesso de aristocracia.
A Viscondessa era simultaneamente formosa, rica e nobre. Se desattendia as expansões do operario, invisiveis para ella, não era tanto por orgulho, que realmente não tinha, como, e principalmente, por uns ligeiros, mas inapagaveis, vestigios da infancia.
É justo que o coração do homem seja equilibrado pela intelligencia da mulher. Mas Julio amava sem ser amado, o que é decerto uma loucura, baptisada com o nome de martyrio.
Amor não correspondido, é amor que degenera em odio.
Homem allucinado não reconhece meio termo: ou ama com paixão, ou odeia com rancor.
Julio, qual outro viajante, deixara-se seduzir por uma miragem doce e agradavel. Olhou. A vertigem toldára-lhe a vista. Quando descerrou as palpebras á luz do dia, um peso enorme lhe obscurecia o cerebro. Quiz pensar e não pôde.--Mas que terei eu, interrogava a si mesmo. E, em redor d'elle, tudo annunciava um vago e mysterioso silencio.
Estava apaixonado.
O coração batia-lhe d'entro do peito com viva e prolongada violencia. A cabeça era fria, e os sentidos mal davam accordo de si.
Ai! d'aquelles que só a voz do coração escutam,
porque para esses é a paixão um ignorado
martyrio e a vida um tristissimo cemiterio.
XX
Casa burguesa
Era um gosto entrar a gente em casa do sr. Francisco Alves. Tudo respirava ali um aceio, por tal fórma invejavel, que o espirito em verdade se sentia bem, muito bem, ante aquella limpesa, tão rara em Portugal como prodiga em qualquer outro paiz.
No bairro de Alcantara era o sr. Francisco conhecido como um modelo de philantropia e de bons sentimentos. Os jornaes por vezes resavam da sua pessoa, assim como da sua catholica esposa, a sr.a Felisbella de Menezes.
Emfim o sr. Alves era modesto sem ostentação, simples sem atavios, e amavel sem rancor.
O sr. Francisco Alves era o que em boa linguagem se póde dizer--um portuguez de lei.
De um rico tio provinciano herdára elle uns dez contos de reis, em metal sonante, com os quaes comprou uma mercearia bem fornecida e já bem accreditada na capital.
Atirou-se, pois, o sr. Francisco ao negocio, e sempre com fortuna e sempre com bons auspicios.
Um dia virou-se elle para a esposa, e disse:
--Ó Felisbella, se tu quizesses, uma vez que foi esteril o nosso matrimonio, traziamos um rapasito para casa, e adoptavamol-o como nosso filho? Que dizes?
--Olha, menino--tu bem sabes que eu estou por tudo o que tu quizeres. Vae tu mesmo a um asylo se assim te apraz, e escolhe-me lá um pequenote; mas que seja bonito, entendes?
--Pois está dito, mulher! amanhã tratarei d'isso.
E, com taes intenções, deitou-se á noite o sr. Francisco Alves, n'um bello colxão de commoda lã.
Veio o rapaz para casa. A sr.a Felisbella queria-o para doutor, o sr. Francisco, para merceeiro.
O pequerrucho era engraçado, muito engraçado, cheio de bons ditos e de palavras amaveis.
Á sr.a Felisbella tratava elle por mamã, e ao sr. Francisco por papá.
--Sempre tem uma graça, este pequeno!--dizia o Alves, ás vezes para a mulher.
--E os ditos então? se tu lh'os ouvisses... retorquia a bondosa da sr.a Felisbella.
--Pois, menina, parece-me que dá em doutor o diabo do rapazelho.
--Ora! se eu bem t'o dizia.
--E tinhas razão, tinhas, lá isso tinhas. E ha de ser um doutor, assim elle queira.
O rapaz cresceu. Foi para a escola, e deu boa conta de si. Foi para Coimbra, e tomou grau em direito. Depois metteu-se advogado, e é hoje um dos mais distinctos homens de lettras do nosso paiz. Sempre grato á sr.a Felisbella, visita-a todos os dias. Ao sr. Francisco Alves já advogou algumas questões, e, ao parecer, com gloria para ambos.
Não parava, porém, aqui a abnegação do sr. Francisco.
Acontecia frequentemente elle vir para casa mais tarde do que desejava. Se por acaso encontrava algum pobre estendido na rua, ao relento e ao frio, levantava-o, e trazia-o comsigo. Chegado ao lar mandava-lhe arranjar uma boa ceia, vestia-o no dia seguinte, e deixava-o seguir o seu caminho.
E a isto, leitor generoso, chama o mundo ser boçal.
XXI
Considerações
A nossa sociedade é essencialmente burguesa. Actualmente todos gritam contra o burguezismo, e entretanto ninguem está isento d'esse peccado, se peccado se lhe póde chamar. E cousa singular! ao passo que a aristocracia vai descendo até ás regiões do plebeismo, a burguezia, por seu turno, eleva-se, e tenta em breve ser a Excellencia do paiz.
O moderno fidalgo portuguez não existe já. Antigamente um aristocrata, pur sang, tornava-se respeitavel por uma educação sisuda e por uma illustração opulenta. Hoje dá-se perfeitamente o contrario. O bom fidalgo, faia de recente data, abandalha-se na convivencia dos cocheiros, tocando o fado pelas ruas, durante a noite, picando touros, usando jaqueta e facha de seda e vivendo entregue á ociosidade, que é o vicio, e á embriaguez, que é a doença e muitas vezes a morte.
Outr'ora havia um certo pundonor em conservar intactas as tradições de familia, demonstrando-se assim que a honradez do nome é um dever sacrosanto para verdadeiros fidalgos.
Agora não! Uma pateada, dada num theatro a uma actriz, um conflicto levantado em qualquer praça publica, uma desobediencia á authoridade, um adulterio commettido com a mulher do seu amigo intimo: tudo isto são peripecias galantes para a nossa mocidade, que, á falta d'outro, tem o estimulo do egoismo e da arruaça.
Ora eu peço licença a s. ex.as, os srs. viscondes, para lhes notar que não é esse o caminho da nobresa. Deus me defenda de offender melindres, que muito longe estão d'esta regra. Excepções existem, e aliás excepções respeitaveis.
Afigura-se-nos, porém, que a instrucção é presentemente mais peculiar á burguesia do que á aristocracia. D'entre os burgueses raro é aquelle que não tem a sua livraria sufficientemente enriquecida de bons auctores, e rarissimo ainda mais aquelle que não lê tres ou quatro jornaes todos os dias.
Os filhos da burguesia seguem as escolas publicas, occupam os primeiros logares do estado, e possuem actividade e intelligencia em larga escala.
Onde existe maior gráu de moralidade: na aristocracia ou na burguesia? E o trabalho, d'onde sahe elle? E as revoluções, a quem as devemos nós, senão á burguesia?
Não ha classe alguma da sociedade que, passado um certo numero de annos, se não corrompa.
As classes são na sociedade como as instituições: gastam-se e aniquilam-se, decorrida uma certa phase historica.
A burguesia vai cahindo nos mesmos defeitos da antiga nobresa--sabemol-o; sem embargo a burguesia tem ainda vantagens sobre a aristocracia.
Entre a burguesia e a plebe existe, porém, uma outra classe, que ao mesmo tempo participa da segunda pelo seu nascimento e da primeira pela sua actividade: esta classe não tem nome; vive do producto das suas lojas, das suas propriedades e da sua economia. A ella pertencia o sr. Francisco Alves, expressão de bondade christã e de virtude evangelica.
Aos domingos encontram-se estes pequenos negociantes--que outro nome não sei eu que elles tenham--em longo e aturado passeio pelos campos e pelas estradas. Ahi, reunidos em familia, comem o seu pedaço de queijo com pão, e bebem o seu meio quartilho de vinho. E isto apenas aos domingos, que, aos dias de semana, a alvorada vem quasi sempre encontral-os no trabalho.
O sr. Alves enfileirara-se n'este grupo ignorado, e delle herdára os habitos e as tradicções.
E o certo é que se não foi um anjo, na verdadeira
acepção da palavra, foi pelo menos um bom
homem, honrado e caritativo.
XXII
Um hospede
N'uma noite tempestuosa em que a caridade, silenciosa sempre e occulta quasi sempre se encarrega de velar pela miseria sobre a terra,--voltava o sr. Francisco Alves a Alcantara, onde anciosamente o esperava a carissima metade da sua alma.
Na occasião, porém, em que descia a calçada da Pampulha, notou elle vagamente uma sombra que a um recanto permanecia n'uma mudez quasi sepulchral. Aproximando-se, reconheceu um homem, mais cadaver do que outra cousa. A tristesa tomou-o, então, dos pés á cabeça. Cheio de terror, livido, nervoso, lembrou-se o senhor Alves de chamar a policia. Não era essa, todavia, a tendencia do seu coração generoso e leal. Emfim esperou. Casualmente passava um trem de praça. Chamou o cocheiro, e levantando o homem que elle supposéra ebrio, introduziu-o na carruagem.
A sr.a Felisbella, como de antiga e patriarchal usança era n'aquella casa, resava a sua corôa, correndo o rosario entre os dois dedos da mão direita--o index e o polgar. Auxiliava-a em tão piedoso, quanto catholico mister, uma creada velha, beata pelos modos, quarentona já, mas amiga da sua ama.
A sala, em que ellas estavam, chamada casa de engommar, representava um quadrado perfeito, com vinte pés de comprido sobre vinte de largo, rodeada por doze cadeiras de coiro, antigas, segundo todas as apparencias, herdadas de parentella abonada.
Ao centro, uma mesa de páu preto, caprichosamente torneada, recebia invariavelmente, todas as noites, um velho candieiro de metal amarello, comprado n'um leilão de ferros velhos.
O sr. Francisco Alves, entrando em casa, nem sequer se déra ao trabalho de incommodar sua mulher. Arrastou o moribundo para um quarto, cuja cama principalmente sobresahia pela alvura da roupa, e foi elle mesmo chamar um medico.
N'este comenos concluía a sr.a Felisbella a sua nocturna devoção. Ignorando tudo o que em volta d'ella se passava, pegou no candieiro, pela aza superior; e, arrastando-se com difficuldade--porque a sr.a Felisbella era gorda e rheumatica--dirigiu-se para o quarto, parando no corredor umas tres ou quatro vezes.
A ausencia do marido incommodava-a, porém, sobremaneira. Terá elle sido preso?--monologava ella de si para comsigo.--Mas o meu Francisco nunca foi atreito a barulhos. Nada. E quem me diz a mim que algum namorico...
E n'estas duvidas adormeceu a esposa do sr. Alves, merceeiro.
A noite, como todos os contrastes d'este mundo, corrêra alegre para uns e triste para outros. A sr.a Felisbella dormira umas boas oito horas, ao cabo das quaes acordou, pensando no sr. Francisco.
--Ó Francisco, Francisco!--gritava a pobre da mulher com toda a força dos seus pulmões.
E o sr. Francisco Alves assomou ao limiar da porta.
--Queres-me alguma cousa, Felisbella?--respondeu elle.
A mulhersinha enfiou, apenas viu o marido. Não sabendo com que desculpar-se, calou-se. Porque a sr.a Felisbella--diga-se já de passagem--respeitava devéras o sr. Francisco, a quem na sua mocidade entregára o coração e a vontade.
Como quer que fosse, porém, o sr. Francisco, prudente como os que o sabem ser, entrou por si mesmo em explicações. Contou tudo o que durante a noite lhe havia occorrido; recommendou finalmente o rapaz á vigilancia de sua mulher, e sahiu.
Quando á tarde voltou a casa, communicaram-lhe que o doente já fallava. Alegrou-se. N'esse dia bebeu mais um cópo de vinho ao jantar, e deu um beijo na face direita da sr.a Felisbella.
Decorrêra um mez.
Em casa do sr. Francisco Alves reina uma alegria desusada. É domingo. Preparam-se todos para ir jantar ao campo. A sr.a Felisbella dobra o seu chale de toukin branco e calça a sua luva de retroz preto. O sr. Alves leva um chapéu de palha do Chili. E o nosso doente--agora já restabelecido e companheiro de passeio--traja modestamente um fato preto.
A comitiva, assim composta, seguia para Queluz. Impossivel nos fôra descrever a amizade que n'esse dia reuniu aquelles tres entes queridos.
O sr. Francisco Alves brindou o seu hospede, appellidando-o com o doce nome de filho. A sr.a Felisbella sorriu devotamente; e a creada, a velha creada, exclamou sentenciosamente:
XXIII
Transição
Na escolha do espectaculo manifesta-se, em geral, o bom gosto do espectador. Não quero eu com isto dizer que, muitas vezes, não seja a curiosidade o motor das nossas acções; mas, emfim, o que cumpre saber-se é que n'um theatro, n'um circo, n'uma exposição está, por via de regra, representada a civilisação de um povo.
O theatro é hoje o rendez vous da moda. Nos espectaculos, e á vista de dramas perfeitamente phantasticos e inuteis, aprendem as nossas elegantes a soletrar os primeiros rudimentos do amor, do coquettismo e as supremas illusões.
Durante a representação, que devia ser eschola e estudo, occupam-se os rapases em averiguar procedencias amorosas, em discutir escandalos, em calumniar mulheres, em fomentar pequenas intrigas de bastidor, emfim, em passar a vida, rindo á custa dos similhantes.
Ora a missão do theatro não póde, por fórma alguma, estar reduzida a um mero passa-tempo, sem realidade e sem vantagem, que se possa dizer immediata. O theatro não é simplesmente um divertimento para os olhos, mas ainda mais uma lição para o espirito. Não se tracta apenas de seguir a moda, o figurino, com receio de que os outros nos taxem de retrogados, de inconvenientes, de provincianos. Por modo algum. Aqui o caso muda um tanto de figura. É preciso que da nossa parte, haja o bom gosto na escolha e o bom-senso da critica. Aliás não passaremos nunca de uns miseraveis authomatos, sem consciencia, sem dignidade e sem brio.
Um dos primeiros empenhos do nosso seculo é agradar. E se é certo que o habito não faz o monge, tambem não é menos certo que o monge se conhece pelo habito.
É á França, aquella França egualmente grande pelo pensamento e pela frivolidade, que nós devemos a introducção dos figurinos na sociedade europêa. E note-se que o figurino em tudo preside actualmente, por infelicidade nossa--na mesa, na litteratura, na industria, no commercio, nas artes, na sciencia, absolutamente em tudo. Nas altas classes sociaes pelo trajo de um homem avalia-se o trajo de todos os outros homens. No campo da poesia pelo realismo de um poeta avalia-se o realismo de todos os outros poetas. E assim seguidamente; porque a uniformidade, embora o não queiram, é uma lei dos nossos costumes e das nossas cousas.
A elegancia é uma prova de bom gosto, indubitavelmente. Mas a elegancia, como tudo o que nos pertence, deve ser individual, variada, como o sentimento humano, e distincta, como o gosto de cada um, isto é deve ser original.
Durante o inverno, por exemplo, vai-se ao theatro lyrico, não tanto porque a musica nos delicie o ouvido e nos eleve o espirito, obrigando-nos á concentração e á melancholia, mas, sim, e principalmente, porque é do bom-tom, é chic ter assignatura em S. Carlos.
E apregoam-se já os beneficios da musica classica, como se a nossa educação e o nosso temperamento nos permittissem ser uns perfeitos entendedores das harmonias eminentemente profundas de Mozart, de Beethowen, de Sthephenheller, de Schubert e d'outros mais.
D'aqui infere-se naturalmente que nós, um povo peninsular em quem deviam brotar as magneticas expansões e os ardentes enthusiasmos, apenas somos uns meros escravos da moda, indolentes por habito, sem o ideal que seduz, e privados do raciocinio que illustra.
Os risos, francamente abertos e sinceramente verdadeiros, sóem ainda encontrar-se nas classes medias, semi-burguesas, para assim o dizer. Só o trabalho póde dar alegria. E porisso os que não trabalham conservam o sorriso quasi permanentemente ao canto da bocca, um sorriso amarello, felino, sorriso desgostoso e desconfiado.
O sr. Francisco Alves sabia rir, porque tambem sabia trabalhar. Não frequentava os theatros, porque, á similhança dos da sua egualha, desconhecia a moda totalmente. Vivia para a familia e com ella se divertia. Tambem tinha amigos. Aos domingos chamava-os, reunia-os a si, e ia para o campo, ficando-se por lá até á noite.
Comendo, bebendo e rindo á vontade, o sr. Alves estava no seu paraiso, longe da serpente que tentou Eva a comer do fructo prohibido, perfeitamente a bem com Deus e comsigo mesmo.
Bem hajam os que, como elle, comprehendem
por este modo a felicidade sobre a terra!
XXIV
Confidencia
Um dia a sr.a Felisbella apparecêra de luto na missa da Ajuda, dando o braço direito a um sympathico moço, alto e moreno.
Francisco Alves já não era d'este mundo. A mercearia passára a outro dono.
«E uma vez que tanto lhe devo, sr.a Felisbella--dizia o desconhecido uma noite--forçoso se me torna narrar-lhe toda a minha vida. Fui pobre, sem recursos. Minha mãe morreu-me nos braços. Coitada! Por amor de mim soffreu e por amor de mim morreu tambem. Eu quiz trabalhar, e não encontrei trabalho. Um dia prenderam-me sem culpa formada. Evadi-me da cadeia. Vagueei incerto até que um honrado camponez me acolheu em sua casa. Amei-lhe a filha, com quem prometti casar. Era uma boa rapariga; chamava-se Cecilia. Envergonhei-me de estar n'aquella casa sem nada fazer. Ella comprehendeu-me. Juntou as suas economias, e atirou-mas ao regaço. Que prodigiosa abnegação, sr.a Felisbella! E eu que até então me chamava Julio vim para a cidade com este nome supposto. Alguns mezes se passaram. Uma noite--que maldita noite aquella, minha senhora!--fui ao theatro de D. Maria. Olhei para um camarote, e fiquei fascinado com o rosto de uma Viscondessa. Depois vieram as allucinações. Tentei esquecer-me d'ella, mas embalde! Fiz-me seu escudeiro. Apanhado n'um armario, fui despedido por ladrão. Depois, oh! depois, cahi doente. O sr. Alves encontrou-me...
(A sr.a Felisbella limpou uma lagrima).
... e encontrar-me elle, o mesmo foi que estar eu com a Providencia. Passou-me a loja--que me deu fortuna, e sobretudo passou-me o seu nobilissimo espirito, que Deus tem em sua santa paz. A sr.a Felisbella sabe como eu o amei. Se nunca lhe pedi que me tratasse por Julio, e não por José Xavier, foi--Deus me perdoe,--por suspeitar que elle se irritasse contra mim.
E Julio, ajoelhando, beijou as mãos convulsas
da sr.a Felisbella de Menezes.
XXV
Mais confidencias
Para muito se amar, quer-se silencio e solidão--dizia Balzac.
O amor é por natureza melancholico. Quem ama, soffre. A melancholia não é uma doença physica, é apenas uma enfermidade moral.
Uma cousa é a tristesa, outra cousa é a melancholia: a primeira parte da intelligencia e é, por via de regra, filha de intimas preoccupações; a segunda origina-se no coração, e nasce de um sentimento, que só por meio da pallidez do rosto exteriormente se manifesta. A velhice é quasi sempre melancholica.
Entre a melancholia e a saudade existe uma profunda analogia: ambas se concentram e ambas se alimentam no mesmo ideal, no amor.
A sr.a Felisbella de Menezes, nos seus dias de vagar, sentava-se á janella, e apoiando o queixo sobre as mãos, olhava vagamente as montanhas, os rios e o céu.
Atravez a nuvem que passa e a estrella que scintilla e a lua que enbranquece, existe sempre uma doce esperança infinita, ethérea, incommensuravel, que nos é como que o acordar de um sonho de primavera.
Esperar é desesperar--diz o rifão. E entretanto todos esperam; porque a esperança é o futuro, o glorioso amanhã da humanidade que soffre.
Para a mulher não existe o passado. Que importa o amor, que hontem se finou com a ingratidão de um amante?
Deixae-nos correr um véu sobre as alegrias de hontem. Deixae-nos esquecer, fingindo ignorancia e despreso.
O presente é um logogripho, que ninguem decifra. Se agora somos felizes, quem nos diz, todavia, que essa felicidade se ha de prolongar, tornando-se eterna e duradoura?
Ao passo que a curiosidade nos estimula o espirito em differentes direcções, a esperança, pelo contrario, apenas nos incita na direcção de uma linha recta, cuja extensão é o infinito, vagamente illuminado pelo sol do futuro.
Oh! o futuro é a dourada cadeia, que põe directamente a terra em communicação com o céu; o futuro, o que ha de vir, é sempre um orvalho, que dulcifica os amargores da desventura.
Perguntae ao desgraçado que força occulta e mysteriosa o prende ainda a este mundo de miserias.
Perguntae ao sabio porque estuda, e ao operario porque trabalha, e á mãe porque ama, e ao filho porque obedece.
A esperança, para espiritos bem-formados, não é simplesmente uma suave illusão, mas ainda mais uma verdadeira necessidade da nossa existencia.
Esperar é trabalhar com ardôr, viver com fé, existir com crença e amizade.
De todas as virtudes sociaes a primeira inquestionavelmente é a esperança.
O homem, de ordinario, procura a felicidade; a mulher espera-a. Por isso a condição da mulher, embora mais triste e desconsolada que a do homem, não deixa ainda assim de ser suavemente acariciada pelo balsamo do céu.
Ser feliz é saber esperar,
Julio adquirira em pouco tempo esta sciencia da vida, graças aos bons conselhos da sr.a Felisbella de Menezes.
Crêr, esperar e amar--taes são as tres joias preciosas, sem as quaes a educação se tornaria esteril e inutil.
Sem crença não póde existir a sublime dedicação de esposa nem a adoravel abnegação da mãe.
Sem amor, impossivel seria a vida da mulher, cuja missão é christãmente consoladora e amiga.
Mulheres, que viveis na desgraça, se quereis ser felizes--acreditae no santo amor de um filho, esperae de Deus a crença na maternidade, e vivei na intima e doce consolação de vossos maridos.
A familia é amparo da misaria e arrimo dos que soffrem.
Felizes os que sabem cumprir sobre a terra a
primeira e a mais indiscutivel lei da natureza!