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A Senhora Viscondessa

Chapter 55: Digressão
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About This Book

The narrative follows a viscondessa whose glittering social life conceals persistent melancholy and longing. Scenes shift from lavish balls to quiet domestic rooms, tracing flirtations, jealous confrontations, and tender bonds with figures such as Alfredo and her companion Virginia. Careful depiction of fashion, pets, and household ritual highlights the tension between public display and private desire. Episodes of threat and temptation reveal vulnerabilities beneath aristocratic polish, while recurring reflections on solitude, vanity, and maternal yearning shape a portrait of a woman navigating social expectation, passion, and the costs of that society’s enforced roles.

XXVI

A Viscondessa

São decorridos quatro annos.

A Viscondessa, docemente reclinada numa chaise longue, lê os annuncios do Diario de Noticias, sorvendo, de quando em quando, uns gólos de café, com a evangelica paciencia de uma mulher aborrecida.

Ao longo da parede do quarto destacam alguns quadros, representando, entre outras, as magestosas imagens de Ninon de Lenclos, de Marion Delorme, de Madame Pompadour, da Dama das Camelias, etc.

São nove horas da noite. Alfredo chega; põe o chapéu em cima d'uma ètagere, onde, por acaso, se encontram algumas musicas em desalinho, e, accendendo resignadamente um charuto havano, vem sentar-se n'uma cadeira, defronte da Viscondessa.

Virginia, entrando pouco depois, trouxe uma bandeja de prata, coberta de pequenas garrafas de licôr.

Alfredo sorri-se, o, com os dedos da mão esquerda, dá um geito gracioso ás guias do bigode.

A Viscondessa, erguendo-se, dirige-se, a passo lento e medido, na direção da porta de entrada.

--Então já Mabilia? (Era este o nome da Viscondessa.) Porque eu entrei, assim te retiras immediatamente. Comprehendo tudo. Declaraste-me um amor profundo, ethéreo, como só o sabe ter uma virgem, e hoje nem sequer alimentas por mim uma indifferença vulgar, uma d'estas indifferenças que um estranho facilmente dispensaria a outro estranho. Pobre de ti, desgraçada, que jámais serás feliz n'esta vida... Quizeste ser rainha, não é verdade? ao meu amor unico preferiste uma coterie numerosa, aduladora, que te lisongiasse o paladar já extincto? Pois bem: tu te arrependerás um dia. Até lá, porém, lembra-te que será eterna e implacavel a minha vingança, eterna como a Providencia e implacavel como a tyrannia.

--E és tu quem me falla em vingança; tu, Alfredo, a quem eu, ainda pura, loucamente entreguei o meu coração e o que é mais ainda a minha honra... tu! o miseravel, que jurando amar-me te rias de mim nos botequins e nos restaurantes; tu, emfim, o cynico seductor da minha ingenuidade e da minha singelesa... oh! não... por Deus, não...

Alfredo, levantando-se, aproximou-se da Viscondessa, e, tomando-lhe a mão direita, que elle apaixonadamente comprimiu contra o peito, prorompeu nos seguintes termos:

--Mas ouve, Mabilia--tu bem vês que eu te amo; pois não reparas como enlouqueço, se me negas a tua affeição? oh! não! tu não has de ser tão cruel, que me despreses assim de um momento para o outro, não é verdade! Ora escuta: não vês como bate este nobre coração? e tu has de deixal-o assim... não... tu és boa, eu bem sei, e serias incapaz de commetter um crime...

--Alfredo!... Alfredo!...

--Falla, Mabilia... dize, dize que ainda me amas só uma vez... e eu serei teu, teu para sempre...

--Que te amo!... oh! se te amo!...

E a Viscondessa, pallida, cahiu desmaiada nos braços do seu amante.

No horisonte uma nuvem, passando, toldara momentaneamente o reflexo do luar. Um doce silencio envolvia o aposento da Viscondessa, cuja face livida se reflectira de um modo estranho á superficie de um longo espelho de Venesa. Junto d'ella, ajoelhado quasi, estava Alfredo, singularmente excitado e nervoso.

Um ignorado personagem, de longa barba até ao peito, baixo e gordo, assomou ao limiar da porta.

--É a segunda vez, senhor Alfredo, que tenho a honra de o convidar a sahir d'esta casa, disse o intruso.

--Com que direito?--retorquiu Alfredo, virando-se.

--Com o direito que me dá a minha honradez sobre a sua miseravel corrupção.

--Senhor!..

--Duas palavras ainda; por Deus! não vale zangar: esta senhora que ahi está prostrada e quasi morta, foi uma victima do seu cynismo, entende? É mister que tudo isso seja pago e quanto antes. Aqui tem.

E passando-lhe uma pistola para a mão, o desconhecido, medindo dez passos na sala, tomou a defensiva.

--Espero que a sua covardia se não estenderá ao ponto--continuou elle--de fazer com que, em vez de um duello, se dê um assassinato n'esta casa.

A Viscondessa, languida e sensual, descerrou as palpebras com infinda morbidez.

No relogio da sala soavam onze horas da noite.

No céu a lua era sem mancha.

Um leve ruido apenas se deixava ouvir, produzido pelos passos na calçada.

Subito uma detonação feriu os ares.

Alfredo, allucinado, desfechára a pistola sobre o desconhecido.

Uma nuvem de fumo envolveu, conjunctamente, a Viscondessa, a este tempo já restabelecida, e o seu mysterioso protector, inanimado, ferido e quasi cadaver.

Virginia correu veloz.

A Viscondessa, soluçando tristemente, chamava ainda Alfredo, sem de modo algum haver notado a sua rapida fuga.

--Como eu sou infeliz, meu Deus!--exclamou ella.

E ao longe só os echos lhe repetiram os queixumes magoados.

XXVII

Digressão

A mulher nasceu para realisar a sua felicidade por meio do matrimonio.

Sem familia, pedra angular do grande edificio, chamado humanidade, o progresso seria uma vã mentira e a civilisação um triste retrocesso.

O matrimonio é um complemento da vida humana. Se é verdade que para o desenvolvimento do corpo carecemos de alimento e de hygiène, tambem não é menos verdade que para o desenvolvimento do espirito carecemos de amisade e de consolações.

Não ter familia o mesmo é que sentir o vacuo do espirito, isto é, o isolamento da propria existencia e o horror da propria vida.

A prostituição da mulher não é simplesmente um vicio, por todos os titulos condemnavel: é mais ainda--é a ausencia da familia.

Quantas mulheres se não terão perdido á mingoa do carinho maternal!

Entrae nos bordeis. Percorrei serenamente esses antros sombrios, onde a sordidez se enlaça com o crime. Analysae o riso bestial da mulher perdida. Não! Ella não se ri, porque ella, filha bastarda de uma sociedade, que a repudia--ella, apenas, sabe contrahir-se, agitar-se, fingir, e á maneira de uma féra, aproximar-se dos que lhe trazem comida.

A mulher, que uma noite se vê sem pão, sem officio, sem familia, prostitue-se ao amanhecer.

E o mundo--que ingrato mundo!--cospe-lhe na face o negro anathema do desdem o do desamor.

Mulheres, que habitaes a lobrega mansão da desgraça, sabei que se a opinião vos condemna--o coração absolve-vos!

E depois, de que vos vale a opinião? Que vos trouxe ella na hora da desdita? Sabe condemnar-vos? Pois bem, em vez da maldição pedi-lhe virtude e amor.

Oh! a opinião! sua excellencia a deusa opinião, essa é que é de facto a grande prostituta.

A necessidade conduz a mulher pelo caminho da perdição. É um fado de todos os dias. Tambem é a necessidade quem conduz o homem pelos atalhos do crime. Sabiamol-o. Ganhar para comer é uma lei da naturesa. Se os meios são máos os fins é que são rigorosamente os mesmos. Deixemos as lamentações para os Jeremias do seculo.

A opinião que se aproxime. Mas quem é ella?--o dinheiro que suborna? a politica que corrompe? os parasitas que avassalam? o impudor que exulta? o vicio que contamina? o luxo que esterilisa? a infamia que cresce?

E sabes tu, minha cocotte, porque te chamam mulher perdida, sem honra e sem pundonor? Pois bem, fica aprendendo--é porque tu és simplesmente uma filha da desgraça.

Queres, porém, ser honesta, virtuosa e candida?

Procura uma familia; trabalha na doce companhia de teu marido; mostra ao mundo os teus filhos--os filhos das tuas entranhas e do teu amor: que te importa depois a voz da opinião--a opinião está como a realesa, está gasta e pôdre.

A Viscondessa não estava, de certo, n'este caso. Uma boa mãe, um bom marido, um filho terno, tel-a-iam salvado do abysmo que a esperava.

E quantas vezes não é o instincto da maternidade a causa do vicio e do crime?

XXVIII

Ainda a Viscondessa

No meio de todas as suas loucuras era a Viscondessa uma nobre e esplendida mulher.

Uma trança preta, côr de azeviche, lhe cobria o cóllo de cysne. A bôcca esculpturalmente pequena, quasi se desfazia n'um beijo, ethéreo, imperceptivel, como o ar. Uns olhos verdes e profundos, como os abysmos do mar, a tornavam simultaneamente imperiosa e meiga. A pequena mão aristocratica, eclipsava-se-lhe por vezes sob as rendas e os puffs do vestido. E o pé, ai, o pé era um primor, um verdadeiro primor. Calçava de ordinario um sapato de setim azul, perfeitamente ajustado a uma meia de seda, cuja transparencia nos faria logo perguntar com Alphonse Karr, onde ella collocava a liga--se abaixo se acima do joelho. O seio arfava-lhe debaixo do espartilho n'uma suave e doce ondulação, symptoma evidente de uns vedados e amorosos paraisos.

Ás vezes a Viscondessa sahia a cavallo, trajando de amazona. Um véu azul lhe encobria as feições gentis--similhantemente ao sol, que de subito se vê surprehendido por uma nuvem. Os admiradores seguiam-lhe o trote do cavallo, até que ella se perdia na sombra das estradas.

Na praia, a Viscondessa, com os cabellos desgrenhados aos ventos, poder-se-hia dizer uma actriz sublime, que, no ardor da tragedia, embriaga os espectadores. E era de vêl-a depois, sahir do banho, com as fórmas do corpo, exteriormente desenhadas n'um vestido de baetilha... um encanto...

Depois dos successos precedentemente narrados, a Viscondessa entrára-se n'uma mysteriosa e doce melancholia. Ninguem, absolutamente ninguem, lhe poderá adivinhar os intimos pensamentos. Em que pensaria ella? que fatal preoccupação a distrahia constantemente?

Imagine-se o leitor no mesmo quarto, onde se deu o triste incidente de alguns dias. O desconhecido duellista, mais que restabelecido, devora um charuto com solemne lentidão.

--E agora que estou melhor--dizia elle--deixe-me vossa excellencia declarar-lhe tudo o que penso, tudo o que sinto e tudo o que quero. Eu--senhora Viscondessa--era um negociante de poucos recursos.--Um dia tive a fatalidade de a vêr. Segui-a, frustradamente. V. ex.a, em meio dos seus esplendores, nem sequer me notáva. Soube que havia um baile em casa da senhora Viscondessa. Consegui ser-lhe apresentado. Entrei. Creio que V. ex.a nem attentou na minha pessoa. Desgraçado de mim! Estava irremediavelmente perdido. E perdão, senhora Viscondessa! Occultei-me indiscretamente atraz de um reposteiro. Depois... ai de mim... um punhal se me cravára no coração. Louco, estupidamente louco, arremetti contra Alfredo. Elle intimou-me a sahida. Fugi. Por todos os modos tentei fazer-me observado por V. ex.a. Vendo a impossibilidade dos meus esforços, recorri a este ultimo expediente. Fui eu a victima. V. ex.a na sua generosidade, tratou-me e prestou-me todo o auxilio que humanamente podia offertar-me. Pois bem. O meu nome é Henrique, e sou eu que hoje lh'o declaro, e a sós, sem testemunhas--Amo-a, minha senhora, e amo-a muito.

Perdão, senhor Henrique,--retorquiu gravemente a Viscondessa. O sr. é meu hospede, e abusa tristemente da minha confiança. Depois da provocação feita pelo sr. Henrique a Alfredo, o unico privilegiado do meu coração, ser-me-ia de todo impossivel ter por V. ex.a a minima sympathia...

Henrique, exasperado e colérico, aproximando-se da Viscondessa, segredou-lhe ao ouvido as seguintes palavras:

--Assim como soube amal-a, saberei tambem odial-a.

N'este comenos entrava Alfredo.

--Muito folgo--minha senhora e meu senhor--em os encontrar aqui juntos--dialogou elle.--Á senhora Viscondessa, a quem sou devedor dos maiores beneficios, venho pedir perdão do lamentavel facto aqui succedido. A este senhor nada direi. Em breve conto partir para a America; e n'este sentido me despeço de V. ex.a minha senhora, jurando-lhe a minha gratidão que será eterna.

--Então parte?--exclamou anciosamente a Viscondessa.

--Sim, minha senhora; negocios impreteriveis me chamam ao Rio de Janeiro.

--E é, pois, irrevogavel a sua partida?

--Sem duvida; irrevogabilissima, senhora Viscondessa.

E Alfredo, despedindo-se da amante, sahiu.--Henrique acompanhou-o. Cá fóra. porém, cada um tomou pela sua rua.

Mabilia ainda veiu á janella. Máu grado seu, Alfredo havia desapparecido.

Julgando-se para todo sempre perdida, chorou então a Viscondessa, e chorou como poucas mulheres talvez tenham chorado n'este mundo.

XXIX

Indecisões

O orvalho vem do céu á terra; as lagrimas sóbem da terra ao céu.

Mulher que chora, é mulher que sabe amar.

Porque muito chorou, perdoou Christo á Magdalena do Evangelho.

As lagrimas são como o balsamo: retemperam e dulcificam.

Felizes os que sabem chorar!

A creança é como a aurora: ambas choram e ambas alegram.

Em pranto de mulher não se póde crêr--diz o rifão.

Será verdade que ás lagrimas dos olhos nem sempre correspondem as lagrimas do coração?

Chorar sempre é chorar--affirma um poeta e com razão.

Nada mais facil do que calumniar uma mulher. A nossa sociedade está colmada de espadachins. Todos os nossos rapazes se apresentam com ares de Juans Tenorios in nomine. Todos têm aventuras a contar. Poucos ha que se não julguem com direito a insultar as mulheres, coitadas! que, em verdade, pouco mais têm do que muita paciencia para os aturar.

As lagrimas, em espiritos delicados, são uma necessidade dos seus corações privilegiados. Não ha odio que ás lagrimas não cêda.

A Viscondessa via fugir-lhe a felicidade. Chorava.

A esposa tambem chora, ao ver desapparecer o navio, que, ao longe, lhe conduz o esposo querido.

Santas e doces lagrimas, que tantas vezes tendes suavisado sobre a terra os intimos e dolorosos soffrimentos, como é grandioso o vosso poder!

E vós mesmos, ó scepticos mascarados, que tão estupida e egoistamente sabeis illudir as pobres victimas da vossa stulticia--dizei-nos--em quantos escriptos, arrancados a corações honestos e indefesos, não tendes vós encontrado o vestigio de uma lagrima?

Não ha sympathia que pela lagrima não brote e se enraize.

A lagrima é como um lago, na serenidade do seu correr e no reflectir das suas imagens.

Para esse sangue d'alma--na suave expressão de um poeta--apenas ha um remedio--a consolação.

A Viscondessa chorava e continuava indecisa.

Semelhante a um arbusto, que, açoutado pelo vento, deixa cahir sobre a terra o orvalho; assim a Viscondessa, ao dar accôrdo de si, deixou cahir no seu candido seio as perolas consoladoras do seu espirito.

Bemaventuradas perolas! e oxalá que todos assim as tivessem!...

XXX

Glorias do operario

Entretanto o nosso operario, agora já transformado em negociante, vai seguindo o seu caminho, a despeito da intriga e da inveja, com que a sociedade, em geral, costuma premiar o trabalho e a honradez.

Julio, retemperado no cadinho dos grandes soffrimentos, fizera-se homem repentinamente. Julgando apagada a imagem da Viscondessa no seu espirito, dedicou-se ao trabalho com fervôr. Levantava-se habitualmente ás seis horas da manhã, ia receber as ordens da sr.a Felisbella, e partia. Só regressava a casa ás oito ou nove da noite, hora em que elle tomava chá. E este programma, assim praticado, com a regularidade de um pendulo de relogio, poucas vezes era transgredido, a não ser n'um ou outro domingo.

A mercearia prosperara a olhos vistos. Diziam os freguezes, e com razão, que a bôa alma de Francisco Alves em nada ficára a dever ao sr. José Xavier.

Além da loja tinha, porém, Julio um escriptorio de commissões maritimas, de cuja responsabilidade auferia annualmente sólidos e lucrativos interesses.

Em poucos annos adquirira Julio o senso pratico, tão prudente, como indispensavel nas cousas da vida. O nome de José Xavier acreditara-se solidamente na praça do commercio. Muitos invejavam já a fortuna do mercieiro; muitos o calumniavam tambem. Entretanto Julio, com aquelle orgulho que só a consciencia sabe dar, era invariavel, senão implacavel, na missão que voluntariamente se imposera.

Um dia apparecera-lhe na loja um conhecido, parasita do Chiado.

--Desejo fallar ao sr. José Xavier, começou o Maryalva.

--Um seu creado, respondeu Julio.

O recem-vindo descobriu-se solemnemente.

--Um negocio importante me traz aqui, continuou. Acabo de saber por um amigo intimo que é V. Ex.a não só um dos mais generosos cavalheiros d'esta cidade, senão tambem que são brilhantes as qualidades que adornam o elevado espirito de V. Ex.a...

--Bem! e depois..., interrompeu o mercieiro.

--E depois, precisando eu de dinheiro, estou certo que V. Ex.a m'o não negará...

--A outra porta, amigo, rematou Julio.

--Sempre é bem malcreado..., rosnou o pretendente.

E sahiu.

Com estes factos, porém, contrastavam outros, dignos do maior elogio.

Amanhecera-lhe um mendigo á porta do escriptorio.

--Que quer aqui?, perguntou Julio.

--Eu senhor, sou pobre, não tenho cama, nem pão...--respondeu o desgraçado.

E Julio, tirando uma libra do bolso, disse:

--Póde procurar-me todos os mezes para receber egual quantia.

E seguiu para o trabalho.

Julio transformára-se, pois, n'um homem severo, sem as paixões que arrebatam, nem os egoismos que offendem. Á parte a propria felicidade e a da sr.a Felisbella, a quem elle tratava por mãe, pouco mais lhe interessava n'este mundo.

Com a convivencia dos homens tornara-se concentrado, desconfiando de tudo e de todos. Advogando de preferencia os proprios interesses, era, todavia, generoso, para quem o devia ser.

Os pobres conheciam-no de longe. E Deus abençoava-lhe as acções, tornando-o um homem rico, forte e corajoso.

XXXI

O que faz o talento

Uns sóbem e outros descem: é a roda do mundo. Á dos alcatruzes se similha, segundo Sá de Miranda: uns para baixo, outros para cima, uns cheios, outros vazios.

A vontade conduz á felicidade. Homem que sabe querer é homem de talento ordinariamente.

O talento, por si, deixará de ser uma superioridade; quando a egualdade, sob o mesmo grau, nivelar a educação e a instrucção.

O talento, comtudo, é variavel e complexo: para uns, ter talento é saber grangear fortuna; para outros, é saber escrever e orar e discutir; para outros ainda, o talento cifra-se na gravidade da apparencia, e no modo austero da vida.

A mulher resume por via de regra o seu talento n'um olhar profundo, num sorriso angelico e n'um espirito facilmente maleavel e insinuante.

A educação faz com que só o homem se ostente em meio do viver social.

A mulher tem uma esphera limitada: o seu mundo é a familia; a sua convivencia o marido, os filhos, os parentes e os creados. Porisso se crê, embora erradamente, que só ao homem aprouve Deus conceder o talento.

A curiosidade é a fonte, não só da sciencia, em geral, como tambem de toda a humana descoberta. Ora a mulher é sobretudo curiosa. D'aqui a sua aptidão para todo e qualquer ramo da actividade social.

Somos pela emancipação da mulher. Desejára-mos vel-a ao lado de um doente, consolando-o e distrahindo-o; desejáramos que as creanças recebessem d'ella os primeiros rudimentos da linguagem; desejáramos, é verdade, que por ella fossem exercidos muitos dos mesteres da vida: mas, a par de tudo isto, somos abertamente contra a sua emancipação politica.

O talento não tem sexo. Ante a critica, ante a illustração, ante o bom-senso, todos somos eguaes.

Joanna d'Arc, o typo da virilidade e do patriotismo, é por ventura tamanha como Victor-Hugo, o grande, Victor-Hugo, o humanitario; George Sand cathedra á altura de Byron, o primeiro poeta do universo.

Para que hesitar, pois? Onde o direito de menospresar aquillo que, ao contrario, e em consciencia, devêramos santificar?

O que perde o homem é o orgulho, quando não é a inveja. A par de tantas ambições vale-nos a preguiça, que as domina e refreia.

Porque subira Julio? que força occulta o tornava sympathico e favorecido da fortuna?

Perguntae á felicidade quem a creou, quem lhe deu origem, quem a tornou forte e independente!

O acaso é, muitas vezes, e sem o sabermos, a causa da nossa ventura e das nossas acções.

Mas o acaso não é cego. Depende de uma certa presciencia do futuro.

Julio era modesto, primeiro titulo de recommendação. A modestia torna sympathicos o talento e a virtude.

Depois, havia n'elle o bom-senso de esperar com resignação tudo o que, durante a vida, lhe podesse sobrevir. Nada o surprehendia. Estava sempre prompto para qualquer eventualidade, fosse ella de que natureza fosse.

Tinha, portanto, a rara sciencia de conciliar com a prudencia o bom-senso.

Porisso tambem subiu, e porisso tambem subirão todos aquelles que assim procederem.

O mundo depende de geito, apenas. Tão despresiveis são os demasiadamente Catões como os demasiadamente relaxados.

No meio-termo está a lei de toda a sociedade humana.

XXXII

Vestigios e ruinas

Similhante a um velho castello roqueiro, coberto de hera e parietarias, assim Alfredo vivia, doente, sem dinheiro, arruinado, mas generoso no fundo.

O seu fato preto, invariavel em todas as estações do anno, principiara de tornar-se velho e esverdeado pela acção corrosiva das chuvas doentias e dos sóes abrasadores. A camelia desapparecera-lhe para sempre do seu logar habitual. Emfim Alfredo, esgotados os derradeiros recursos patrimoniaes, era mais um authomato da indigencia, do que verdadeiramente um homem de espirito, critico e mordaz, qual n'outros tempos o havia sido.

A sua extrema liberalidade, com os donos dos restaurantes e cafés, fez com que, ainda durante algum tempo, elle podesse frequentar gratuitamente estas casas. Passados mezes, porém, os donos dos botequins, attentando-lhe nas botas rotas e nas calças fragmentadas, quasi o despediram de vez, mostrando-lhe uma má e feia catadura.

Em tão afflictivo lance recorreu aos camaradas d'outr'ora. Nenhum delles apparecia já. Todos--e cada um por sua vez,--o tentavam afastar.

Finalmente Alfredo, envergonhado de si e enfastiado do mundo, só de noite apparecia. Evitando os credores, e cosendo-se com a sombra das paredes, elle, o filho da luz e do magnetismo da vida, sollictou dos amigos o pão ázimo da desventura. Á sahida dos theatros--pois que em casa difficilmente os encontrava--esperava resignadamente a turba jubilosa dos espectadores conhecidos; por vezes conseguira d'ella uns magros vintens; por vezes tambem lhe sahira mallograda a tentativa.

Lembrou-se da Viscondessa, a quem, por um louco capricho, mentindo, affirmára que partiria para o Brazil. Tudo em vão. O orgulho--desgraçado orgulho!--abafára-lhe no peito esse passo miseravel.

Começou, então, o desalento, como um vidro moido, de consumir-lhe a, já de si, inutil existencia.

N'um momento lucido em que o espectro da fome, esqualido e magro como Satan, se lhe desenhava deante dos olhos com as cem boccas hediondas, Alfredo, a par de um suor glacialmente cortante, experimentou o que jámais e em sua vida experimentára--uma ancia de trabalho, para o qual, em verdade, nunca se sentira predisposto.

Embalde, porém, lhe foram essas visões. Passageiro e ephemero se lhe antolhou o iris da redempção sobre a terra.

Sonharia acaso? Trabalhar... e em que? A intelligencia havia-se-lhe apagado, ao contacto de uma embriaguez quasi habitual. Sentir, era-lhe impossivel, uma vez que do coração nada mais restava, além de uma sensação perfeitamente estupida e material: e vontade, se a tinha, quasi nem já se revelava.

Do rapaz d'outros tempos, galanteador e elegante, apenas restava uma sombra. A barba medrára a esmo. O cabello, cobrindo-lhe a góla do casaco, imprimia-lhe um aspecto singularmente triste e repugnante. Encaral-o de frente o mesmo era que tomal-o por um salteador disfarçado.

Um dia, foi Julio casualmente surprehendido, no seu escriptorio, por esta desgraçada victima de uma exaggerada e dolorosa ociosidade.

--Que me quer? interrogou o negociante.

--Eu, senhor, fui rico, e sou hoje pobre, Em nome da mulher, que ambos amámos, venho pedir-lhe um emprestimo de duzentos mil réis...

--Em nome da mulher que só eu amei e que o senhor perdeu--convido-o a retirar-se d'esta casa.

--Muito bem! uma vez que assim o querem, far-me-hei ladrão--exclamou Alfredo.

E fez-se fabricante de notas falsas.

XXXIII

Causas e motivos

Diz-se geralmente que a humanidade esta enfêrma.

A mocidade padece uma horrivel molestia--o tédio.

A corrupção physica caminha a par da corrupção moral. As aguas são detestaveis; o ar pouco sadio, contaminado de miasmas e de putrefacção. De modo que as nossas cidades modernas são uns verdadeiros sorvedouros de existencias humanas, onde os obitos crescem sobre os nascimentos na razão de um por mil.

Com o movimento das calçadas o pó levantado, introduzindo-se pelos olhos, pela bocca, pelo nariz, é tambem uma causa de lenta, mas real, consumpção.

As phthisicas abundam. As molestias de garganta são quasi geraes. Os homens sentem-se tristes, abatidos, sem espirito e sem vitalidade. As mulheres, na maioria franzinas e chloroticas, arrastam uma vida authomatica, sem consciencia nem utilidade.

Faltam os grandes prazeres do campo, os robustos passeios da caça, as salutares digressões pelos pinheiraes, onde os pulmões se purificam ao contacto do ar resinoso e sadio.

As praias frequentam-se por moda. Toma-se o banho, e vai-se a um salão, eschola de dança e de galanteria. Ninguem pensa em passeiar á beira-mar; e mesmo quando casualmente se passeia pela praia é mais por comprazer do que por uma natural necessidade do organismo.

Ora tanto o mar como o campo são bons pelo resultado, que d'elles se tiram. Não só o corpo, mas tambem o espirito devem tomar parte nos vastos panoramas, nos horisontes limpidos e no vago da natureza.

É verdade que a demasiada concentração póde conduzir a uma nostalgia perigosa; entretanto, entre dois males, é muito preferivel a tristesa, embora sombria e consumidora, á alegria extravagante, brutal e insensata.

Não, meus bons rapases, não é assim que se vive. Vocês são doentes, porque não têm um ideal, um trabalho util, uma missão civilisadora.

De que vos servem os cafés, com os seus jogos de dominó?--Antigamente conversava-se, contavam-se anecdotas interessantes, e ria-se a gente com a familia, mas com aquelle bom riso infantil, que é a demonstração de festa e de regosijo. Hoje não. Hoje, como nos bons tempos romanescos, ha a cima de tudo isto o aborrecimento de tudo e por tudo.

Ora, minhas senhoras, se a vida em si é triste, façamos por tornal-a agradavel e util--util sobretudo.

Alfredo era a perfeita imagem do que deixamos dito. A syphilis contaminara-lhe o organismo. Á pobresa de sangue reunira-se a pobresa de espirito.

É o que succede com a maioria dos rapazes: quando chegam a completar um curso estão velhos na intelligencia e gastos no corpo.

Para tamanha molestia um unico remedio ousamos aconselhar:

--limpeza--

isto é:

--campo e mar--

Que s. s.as, os senhores facultativos, se não irritem comnosco por tão interessante descoberta.

XXXIV

Latet anguis

A primavera, a doce filha da harmonia e da luz, desentranhava-se em flôres e fructos. Rejubilavam as aves no arvoredo frondente. O céu era azul, limpido. Nem uma nuvem lhe maculava a superficie chrystallina e pura.

Nada mais delicioso do que esta rapida transição de uma estação, agreste e fria, para uma outra agradavel e sympathica. Dir-se-hia que um velho, sulcado do rugas, se metamorphoseára subitamente, como o Fausto, n'um elegante moço, cheio de vida e de aspirações.

As arvores, toucadas de flôr, recebiam das auras vaporosas o amoroso abraço de todos os annos. O sol, dourando com as suas palhetas luminosas os arbustos vividos e scintillantes--reflectia-se suavemente sobre as aguas do ribeiro, que, em amoravel ondulação, serpeavam atravez os terrenos pedregosos, parando, ora atraz de um rochedo, com o qual confidenciavam ternamente, ora atraz de uma planta, com a qual se enroscavam de passagem.

Ao longe os pinheiraes acordavam as solidões com as vibrações da sua harpa plangente. O rouxinol, casto como a andorinha, desferia a medo o seu eloquente hymno de amor. É que elle o artista, filho do céu e do canto, pressentira, primeiro que nenhum outro ser da creação, o aproximar alegre do sol e da vida.

Meiga como uma mãe dedicada, a pomba, symbolo de virgindade, arrulhava de manso, muito de manso, como amante que não deseja ser escutada. E a aguia, a altiva rainha do espaço, guindara-se, por entre nuvens, até ás ignotas regiões do infinito.

Entretanto--e como que para contrastar--o peixe, o maldicto das trevas, mal elevara a gélida escama ao lume d'agua, para logo a mergulhar de novo, no lodo, sua morada habitual. O insecto, o desprotegido do dia, esperava a noite, sua irmã, para assim deixar em paz o lobrego buraco, para onde um raio de sol prestes o afugentara.

Os campos eram verdes e promettedores. Percorria-os o boi, quasi sem cessar, na extrema paciencia dos animaes possantes.

A montanha, despindo o lençol, que durante mezes a envolvera--deixara de alvejar, afim de se tornar um throno de contemplação e de magestade.

E de facto subia o lavrador á cumiada do seu monte, e de lá, passeando os olhos avidos em volta do campo, com o qual, em verdes annos, se matrimoniára--entoava cantos jubilosos e amigaveis.

E a aldeã, resplandecendo de feliz contentamento, apurava a sua saia de chita que para os dias santos havia sido feita e arranjada.

Cecilia, porém, está de lucto. Os olhos verdes, fartos de chorar, brilham profundamente como o abysmo dos mares. Ella é triste, coitada! e sem esperança. Morrera-lhe o pai.

--Olha, Cecilia--dizia-lhe o velho na sua derradeira hora--parece-me que o teu noivado só no céu poderá ter logar. Perdôa tu ao ingrato assim como eu lhe perdôo...

E expirou.

Quatro mezes volvidos sobre este caso estava a pobre rapariga profundamente mergulhada nos seus mais intimos pensamentos, quando uma leve pancada, vibrada sobre o vidro da janella, a fez estremecer e agitar.

Mal se levantara ella e já uma sombra, abrindo a vidraça, saltava de um pulo para o centro da casa.

--O senhor prior por aqui?--exclamou a ingenua catholica.

--É verdade, minha filha. É justamente o teu prior que Deus manda a esta casa... Sabia que estavas triste. Haviam-m'o dicto as estrellas do céu. Consolar os tristes é um dever do bom parocho.

--E minha mãe, senhor padre João, consentirá ella...

--A cima de tua mãe está a voz do céu que aqui me traz. Conta-me a tua vida, Cecilia. Não tenhas receio de mim. Eu saberei aconselhar-te.

A Egreja para tudo tem remedio. Só Deus sabe premiar os bons e castigar os máus.

E o padre, procurando um escabello, foi sentar-se ao pé de Cecilia.

A rapariga, córando de pejo, conservára os olhos cravados no chão.

Assim durou, por alguns minutos, esta scena.

--Como tu és boa, minha filha--rompeu alfim o padre.

E, sem mais, imprimiu-lhe um beijo na face.

Assim, como a pomba ferida por caçador experiente, assim tambem Cecilia tentara esquivar-se ás grosseiras amabilidades do seu respeitavel parocho.

--Embalde--gritava o padre. É Deus que assim m'o ordena!...

E, ao longe, um guitarrista que passava cantava tristemente a seguinte quadra de Gonçalves Dias:

«O amor da mulher é qual nuvem
Que o vento impelle no ar;
O amor da mulher é voluvel
É tão vario, como a onda do mar.»

XXXV

Critica

Nós não somos d'aquelles que exageradamente comdemnam o clero.

Nada mais santo, nada mais suavemente consolador do que o bom padre, especie de medianeiro entre Deus e os homens.

Para quem não tem um pai natural; para aquelles que a Providencia exilou do seu lado, e que a miseria acolheu no seu seio; para aquelles que, longe do ruido e das alegrias do mundo, a sós comsigo mesmo sentem o gottejar das proprias chagas; para os desgraçados, para os infelizes, para os tristes, o padre, pela sua apparencia christãmente cariciadora, é mais do que um companheiro, porque é um pai, enviado pelos anjos do céu aos anjos da terra.

Não foram um simples vicio, uma vã ostentação, e um estulto prurido que nos levaram a condemnar aquillo que, por sua natureza, deve ser exemplar, vivo e sacro-santo.

Não! Se condemnámos o máu padre, como planta nociva á humanidade, foi por um dever.

Quem tem irmãos, e filhas e esposa, não póde existir ao acaso, sem a necessaria superintendencia em todos os actos da sua vida, d'ellas.

A mulher, que do collegio não tirou a educação conveniente, que um dia experimentou a immoralidade do confessionario e os espinhos do mundo, póde ser tudo, menos uma esposa, menos uma irmã, menos uma mãe.

O padre toma parte nas scenas mais luctuosas da familia: se adoecemos, é elle que nos traz o balsamo ao espirito em trévas; se desesperamos, é elle que nos faz ver o iris da bonança; se hesitamos, é elle que nos encaminha e nos dirige.

Então, e porisso mesmo, é que o padre deve ser um bom homem.

O esboço que no precedente capitulo deixámos delineado, posto que excepção, foi por nós fielmente observado.

Que se não illudam os espiritos timoratos e frageis. Quando máu, ninguem mais severamente merece ser condemnado do que o padre.

Nas aldeias os exemplos multiplicam-se. A ociosidade, por um lado, e o celibato, por outro, muito têm concorrido para essa cadeia de lorpesas, a cada passo relatadas na imprensa e nas differentes casas de reuniões publicas.

O fanatismo nunca foi religião. Seguir os preceitos do Evangelho, não é perfilhar as doutrinas do sr. Sousa Monteiro nem as diatribes da Palavra.

Amae-vos uns aos outros como eu vos amei--disse Christo.

Amemo-nos, sim, mas sem corrupção, sem egoismo, sem impuresa.

Que a esposa seja uma conselheira de seu marido e uma perceptora de seus filhos--tal deve ser o desejo do bom padre.--Porque um padre é acima de tudo um educador, e como tal carece de muita illustração, de muito bom senso e de muita heroicidade.

Se os rapases não podem satisfazer a esta nobre missão, escolham-se os velhos. Se com o clero periga a honestidade das mulheres, acautellem-se os homens, e aprendam por uma vez a distinguir o bom do mau, aquillo que lhes convém d'aquillo que lhes não convém.

D'outro modo continuaremos eternamente divididos, odiando-nos como inimigos, e pelejando uns contra aos outros, cegamente, loucamente, sem ideal, sem raciocinio e sem vontade.