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A Senhora Viscondessa

Chapter 87: Post-scriptum
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About This Book

The narrative follows a viscondessa whose glittering social life conceals persistent melancholy and longing. Scenes shift from lavish balls to quiet domestic rooms, tracing flirtations, jealous confrontations, and tender bonds with figures such as Alfredo and her companion Virginia. Careful depiction of fashion, pets, and household ritual highlights the tension between public display and private desire. Episodes of threat and temptation reveal vulnerabilities beneath aristocratic polish, while recurring reflections on solitude, vanity, and maternal yearning shape a portrait of a woman navigating social expectation, passion, and the costs of that society’s enforced roles.

XXXVI

Toldam-se os horisontes

Nem sempre a felicidade nos sorri. Quando menos o acreditamos, embacia-se o prisma que sonhavamos perpetuo e immorredoiro, e as illusões começam de cahir uma por uma.

É assim a vida; é assim o mundo: rodeado de formosas apparencias e colmado de negra podridão.

Áquelles que possuem o raro condão de saber disfarçar as mais intimas tristesas da vida; áquelles a quem Deus não dotou com o precioso instincto da arte; áquelles, emfim, para quem a paciencia é a norma, e que se não apaixonam, que se não arrebatam, que se não enthusiasmam, gelados, mudos, frios como o sepulchro.--a esses, pouco pódem importar as tristesas do poeta e as suas profundas melancholias, que são como que o lento e sombrio finar da existencia.

Ó noites de agonia, noites de isolamento--como vós sois tristes e duras de passar! O mundo, que vos detesta, ó doces e amargosas horas da experiencia, foje de vós! Ao vosso lado só tendes os poetas e os artistas e os sábios e todos aquelles que no horror da noite procuram o ideal da humana perigrinação.

Bemdictas sejaes vós, companheiras do tumulo, porque me ensinastes o soffrer!

*
*       *

A Viscondessa era um d'esses raros typos angelicos, que despresando a opinião das maiorias, porventura o mais estupido de todos os preconceitos. se entregam febril e vertiginosamente nas azas do seu capricho, sem outro intento que não seja o louco voar atravez as idealidades que de continuo se lhe desenham na mente esbraseada.

Eu gósto d'estas mulheres, d'estas candidas andorinhas, que, superiormente ás outras mulheres, suas irmãs, se alimentam no tepido halito da primavera, embriagadas e seduzidas pela doce irradiação do céu.

Se péccam não é d'ellas a culpa. Quem poderá dizer á ave, á meiga filha da luz: tu voarás para aqui? e ao rouxinol, o adoravel amigo dos poetas: tu cantarás a taes horas? e ao oceano, o titanico athleta da creação: tu não correrás? Quem?

A Viscondessa era uma creança com sêde de amor, boa e ingenua como todas as creanças. Infeliz ou não--o certo é que um dia ella se encontrou sem amante e sem dinheiro. Alfredo roubara-lhe o coração, e o que é mais ainda--a crença no amor; Henrique, ingrato explorador, subtrahira-lhe os titulos da sua fortuna. N'estes termos, que fazer? A quem recorrer se o amor, assim e tão de subito--se lhe transformára em inimisade e a fortuna em pobreza?

A Viscondessa, perplexa, hesitante, nervosa, chamou pela sua creada.

--Sabes Virginia--dizia ella á sua amiga--que estamos roubadas?

--Roubadas... minha senhora?!

--Sim, roubadas... e roubadas por Henrique, a quem nós n'esta casa tratamos com um carinho de irmãs...

--Oh! meu Deus!... meu Deus!... e que havemos de fazer, minha senhora?

E Virginia beijou pela primeira vez na sua vida a angelica fronte da Viscondessa.

A desgraça tem este condão mysterioso: torna-nos irmãos involuntariamente.

--Não é verdade, Virginia, que tu nunca me has de abandonar?

--E quem pensará em tal, senhora Viscondessa?

--Pois bem: espera um bocadinho, que me has de levar uma carta á rua da Emenda.

--O que V. Ex.a quizer, minha senhora.

A Viscondessa sentou-se á mesa; tomou uma folha de papel e principiou a escrever nos seguintes termos:

«Excellentissimo senhor Barão:

«Pela primeira vez ouso incommodal-o. Se Vossa Excellencia, porém, adivinhasse a triste situação em que actualmente me encontro, por certo me desculparia estas instantes linhas. Entretanto, impellida pelas circumstancias, quero acreditar que Vossa Excellencia se não furtará a vir procurar-me hoje mesmo.

«E n'esta esperança fecho esta carta, tendo a honra de ser

De vossa excellencia
serva respeitosa

S. C.
Lisbôa
Largo de Camões

A Viscondessa de B***

..............................

Virginia, tomando das mãos da Viscondessa este bilhete, competentemente sellado com o carimbo da casa, sahiu na direcção acima indicada.

XXXVII

Uma victima

E Cecilia? que será feito d'ella?

Pela callada das trévas, á meia noite, ha sombras que vagueiam pelas ruas como visões informes, famintas, esqueleticas. Á sahida dos theatros abeiram-se de nós vultos esfarrapados, cheios de dôr e de vergonha, que nos estendem a mão carcomida e triste. Cada um d'esses vultos representa, no grande drama social, uma consciencia offendida ou uma crença ludibriada. Não se descobrem nunca esses desgraçados, porque não desejam ser reconhecidos. Se é mãe e tem filhos, pede em nome dos filhos; se é pae e tem familia, pede em nome da familia; se é só e miseravel, pede em nome da miseria.

Cecilia não estava precisamente n'este caso. Cedendo, ainda que violentada, ás seducções do parocho, que por toda a parte a seguia com a voracidade de um lobo,--a joven aldeã, para quem o ideal se não havia de todo extinguido, veiu para a capital. Pobre mulher inexperiente, coitada! que media o mundo pela craveira da sua innocencia...

Emfim, depois de muito indagar, de muito ouvir e muito procurar, soube ella que o Sr. José Xavier era negociante e residia em Alcantara.

Sem delongas deu-se pressa a rapariga em chegar ao almejado paraiso. Quando subia a escada, açodada e veloz, como uma gazella, um creado a reteve.

--Que quer vm.--perguntou-lhe o guarda portão.

--Desejo fallar ao Sr. Julio--retorquiu Cecilia.

--Não é aqui que elle mora; póde procurar n'outra parte.

--Ai! não, enganei-me; é ao Sr. José Xavier que eu pretendo...

E n'isto Julio descia a escada. Cecilia nem sequer o reconhecêra. De passagem, perguntou Julio ao creado quem era aquella mulher.

--Uma desgraçada que pretende esmola--respondeu o interrogado.

--Pois bem: mande-lhe dar dez tostões.

E o amo sahiu, sem, ao menos, virar a cabeça.

O primeiro pensamento de Cecilia foi correr atraz de Julio. Mas não! Ella estava vexada, profundamente vexada de si mesmo. Até quasi chegou a duvidar que fosse aquelle o seu antigo amante.

--Não, decerto não é elle... reflexionava ella comsigo.

--Aqui tem--exclamava o creado, offerecendo-lhe dez tostões--aqui tem, póde retirar-se.

Cecilia acceitou a esmola authomaticamente. Muda, sem proferir uma palavra, olhou para o homem como uma alucinada. Só depois, cá fóra, trémula e nervosa, reconheceu a degradação por que havia passado. Uma dolorosa agitação lhe percorria os membros febris. Não podendo mais conter-se, transbordando de raiva e de agonia, desmaiou sobre as pedras da calçada.

Ó sociedade, ó mysterio dos mysterios, quanta victima tua, não terá perecido assim, á fome, ao relento e ao frio?

Ó humanidade, ó triste e ignorado Ashawerus, como é espinhosa a tua sorte e tremendo o teu fadario!

XXXVIII

Julio feito barão

--Póde vossa excellencia acreditar, senhora Viscondessa, que emquanto eu viver nada faltará n'esta casa.

--Oh! Deus o abençoe, senhor barão...

--Agora--e antes de me retirar, permitta-me vossa excellencia, que sem abusar da sua generosidade eu lhe narre em breves traços uma pequena e eloquente historia ha pouco succedida entre nós: «Ha de haver já bastantes annos que um homem ignorado (nada importa o nome) veiu procurar trabalho em Lisboa. Fugido á lei que o perseguia e afastado da mulher que amava--entrou n'um theatro. Entre as damas que pela sua belleza mais realçavam destacava-se uma a quem esse desgraçado entregou o coração e a vida. Mas, ai d'elle! A sorte perseguia-o horrivelmente. Elle, coitado, era apenas um operario, um modesto operario, e ella uma aristocrata, uma distinctissima aristocrata. Correram os dias. O miseravel, vendo-se fortemente abalado na sua dolorosa existencia, abandonou a fabrica, e fez-se escudeiro d'essa senhora. Nem um gesto sequer elle perdera, emquanto lhe fôra dado viver n'aquella casa. Tudo aproveitou o desventurado, curtindo a sós comsigo a immensa paixão que tristemente o devorava. Um dia, porém, em que elle, porventura mais agitado do que nunca, pretendêra subtrahir-se aos fidalgos olhares da sua ama, uma fatal circumstancia o obrigou a deixar aquella casa.

--Então foi o sr. barão...

--Mais duas palavras, minha senhora, e eu termino: «Infamado e corrido de vergonha entregou-se o desventurado moço ao trabalho com ardor. Próspera lhe correra a fortuna. Amparado por dois velhos, hoje mortos, que durante os primeiros annos lhe serviram de paes progrediu José Xavier tornando-se honrado e bem quisto dos seus semelhantes. Depois... oh! depois... Vossa excellencia sabe o resto...

--Sim! depois José Xavier foi feito barão, encontrando na Viscondessa de B*** a sua mais pura e desinteressada amiga.

E Julio, curvando-se, beijou solemnemente a mão da Viscondessa.

XXXIX

Denuncias e suspeitas

Alfredo, sem recursos, recorreu ao ultimo expediente de um vadio bem educado: tornou-se falsificador de notas.

Os proprios amigos d'outros tempos, ao saberem d'este facto, denunciaram-n'o á policia.

Dahi em deante principiaram as indagações e as pesquisas. A lei não afrouxára em seus esforços. E o certo é que uma manhã Alfredo acordou n'um calabouço, quasi sem luz e abandonado aos vermes.

O processo correu perante o ministerio publico. Abundaram as provas. Alfredo era realmente um criminoso. O jury, dando o seu veredictum, houve por bem coudemnal-o a degredo perpetuo, para as costas de Africa.

Embalde lhe foi a appellação interposta pelo advogado para o Supremo tribunal de justiça. Confirmada a pena o réu teve de partir.

No dia aprasado para a partida, Alfredo, inquieto, nervoso, tremulo, agitado, pediu papel e tinta. Por uma graça especial fôra-lhe deferido o requerimento.

Tomando a penna o degredado traçou no papel as seguintes linhas:

«Excellentissima senhora Viscondessa, e minha dedicada amiga.--Seria vil, e muito vil, que eu, ao deixar esta cidade, me não lembrasse de Vossa Excellencia. Cheio do contricção e de arrependimento permitta-me pois, Vossa excellencia, que, por um pouco, ajoelhe ante a sua imagem generosa.

«É um criminoso que lhe falla, minha Senhora. É um triste e miseravel peccador que vem pedir-lhe perdão. Conceder-lh'o-ha Vossa excellencia?

Sim! Alfredo não existe já. Condemnou-o a sociedade em nome da lei. Condemnaram-n'o os seus crimes.

«Dentro em pouco, vestida a estamenha do degredo, o meu nome não terá razão alguma de ser. Vegetarei como um cadaver, que, privado do espirito, se vai decompondo fibra a fibra.

«Os homens não me perdoaram. Foi-me negada a honra: tudo me foi negado. E entretanto eu tinha de viver...

«Vossa excellencia de certo comprehende este terrivel problema do mundo. Entre duas infamias preferi esta, justamente por ser a maior.

«E assim como os homens foram ingratos para commigo, assim tambem eu fui ingrato para com Vossa excellencia.

«Perdão, perdão para mim, minha santa amiga, perdão para mim que não pensava!

«Eu era apenas um triste alucinado, que á maneira de uma sombra, errava vagamente pelo mundo, com o doloroso pesadello de uma longa enfermidade.

«E porque não morri eu, então, céus?

«Para que mais prolongar este acerbo calix de amargura?

«Não creio nos homens como não creio em Deus.

Deus!... Mas porque infinita maldição me sahe esta palavra dos labios?

«Ah! sim, está ali... bem o vejo... o infernal carcereiro...

«Mas como? Deus com aquella barba? Deus tão velho? Será possivel?

«Ai! senhora Viscondessa, que a febre escalda-me os labios resequidos. Se ao menos, Deus me trouxesse agua...

«Adeus, minha boa e dedicada amiga; adeus para sempre.

«Nas suas noites de prazer não s'esqueça de libar por mim--por mim, pelo miseravel condemnado da sociedade, sua irmã.

Alfredo.»


--Um pobre rapaz, coitado!--exclamou a Viscondessa, ao terminar a leitura d'esta carta.

XL

Ao hospital

Do calabouço passaremos ao hospital. Tudo é enfermidade: com uma differença apenas--e é que, n'uns adoece o espirito, ao passo que n'outros adoece o corpo.

Ao percorrermos aquelles longos salões, onde só a doença tem o seu throno e a morte o seu prestigio; ao pararmos junto d'aquelles leitos empobrecidos, onde os gemidos da miseria se cazam tristemente com a dolorosa suavidade da esperança; ao palparmos as chagas, as desventuras e as mil angustias porque passa a humanidade n'este mundo; ao vermos tudo isto, o espirito vacilla realmente, e o coração sente-se fatal e impetuosamente abalado em tudo o que ha de mais santo, de mais nobre e de mais digno á superficie da terra.

Adoecer na flor da edade, sem protecção, sem carinho, sem a meiguice de uma irmã, de uma esposa, de uma filha--isso, só a pobreza o poderá verdadeiramente avaliar.

Ha dores que se não exprimem, que se não definem, e que estão muito acima das mundanas velleidades.

Como quer que seja, porém, Cecilia encontrou-se uma manhã no hospital de S. José, doente, triste e perdida a esperança de melhores dias.

Uma phthisica fatal lhe devorava as entranhas, profundamente abaladas. A tosse augmentava de minuto para minuto. As convulsões recrudesciam. Os medicos desesperavam da cura. E os enfermeiros, os vis mercenarios do corpo humano, abanavam as orelhas da cançados e aborrecidos.

Emfim soou a hora fatal. Após uma longa hemoptise, Cecilia abrio muito os olhos, tornou-se verde--de um verde-negro e sombrio--fez um esforço sobre si, regougou algumas palavras imperceptiveis, e cahiu para o lado.

Tinha expirado finalmente.

A aurora era então sem mancha; a cotovia annunciava um dia formoso. Tudo vivia; a luz era o prologo do amor.

Arrastada para uma sala especial, unicamente destinada aos mortos, ficou o seu cadaver em deposito, até que um esquife o levasse para o cemiterio.

Sobre o corpo putrefacto d'aquella victima desventurada não houve sequer quem derramasse uma lagrima.

É que o mundo, no seu estupido cynismo, pensa de ordinario mais em rir do que em chorar!

XLI

Sorrisos e lagrimas

--Acredita-me, Mabilia: esta felicidade para nós é inalteravel. Deixa que o mundo murmure no seu louco e estupido egoismo. Nada importa! A openião das maiorias é, em quanto a mim, uma vil e dolorosa mentira. Tendo-te a ti, que mais poderei eu ambicionar? Desafio os rios e os mares para que venham arrebatar-me do coração a tua terna e doce imagem. Que venham! E eu, impavido, arrostarei com elles, braço a braço, se tanto fôr preciso.

--Oh! Julio, meu bom amigo, por Deus, não sejas mentiroso; não digas aquillo que não sentes; se devéras me não amas, para que fallar em tal? Olha que a experiencia, meu amigo, tem-me sido uma triste e dolorosa desillusão n'esta vida...

--E és tu quem assim falla? Mas não vês, desgraçada, que essas palavras me fazem escaldar o coração? Oh! por piedade, não me mates, Mabilia:

N'este comenos Virginia entrou na saleta. Interrompido o dialogo, o nosso barão tomou, ao acaso, um jornal, que ligeiramente passou pela vista.

Antes, porém, de o pousar, estacou em uma das locaes, e leu o seguinte:

«Falleceu hontem no hospital de S. José, victima de uma phthisica pulmonar, uma pobre rapariga, por nome Cecilia da Silva. Parece que uns amores mal correspondidos foram a causa de similhante infortunio. Por se ignorar o nome do pae, que se suppõe viver na aldeia, foi o seu cadaver sepultado no cemiterio dos Prazeres, com uma simples inscripção, gravada n'uma pequena cruz de madeira.»

--Se me não engano já vi algures esta mulher!--regougou o barão, repoltreando-se na cadeira, e lançando do seu excellente charuto havano uma longa e deliciosa bafurada de fumo.

XLII

Tableau

Agora o quadro.

Atravez os quatro personagens, distingue-se um mundo de miserias.

O barão dá o braço á Viscondessa; o dinheiro acaricia a formosura.

Eis a luz.

A doença caminha a par do degredado: o corpo corre parallelo com o espirito.

Eis a sombra!


O espectador que ajuize.

Hontem o amor; hoje a pobreza; amanhã o esquecimento.

Post-scriptum

(Ao leitor)

Este romance não mira aos applausos da galeria. Tão pouco prima, nem pelo complicado do enredo nem pelo difficil das situações. São capitulos singelos, estes, que acabam de lêr-se, só pela arte inspirados e por amor d'ella concluidos.

E a arte é a verdade.

Por muitos hão de estas paginas ser aborrecidas. Por muitos hão de ellas ser odiadas. Nada importa. A consciencia acima de tudo.

Entendeu o auctor que era sobre tudo descriptivo o romance moderno, profundamente descriptivo, cheio de analyse, critica, de bom-senso e da naturalidade; de pouco dialogo e de muita observação; havendo todo o escrupulo em pôr de parte o devaneio, na dissecação dos homens e das cousas.

Ao ideal d'este livro presidiram, pois, as realidades presentes e passadas. O typo da Viscondessa, atraz esboçado, poderá não agradar a todos, é verdade; mas é, no entanto, um typo real, perfeitamente real. Uma mulher ingenua, simples, caprichosa, sacrifica o seu coração, a sua tranquillidade, o seu amor a um elegante rapaz, filho dos restaurantes, e, como os restaurantes, viciado e corrupto. D'aqui a perdição da heroina e o triumpho do galã.

Outro tanto succede com a figura angelica da aldeã. Victima do confessionario, cahiu, andorinha ferida, a quem roubam o ninho e os filhos; sedenta de prazer, resvalou no abysmo.

Alfredo, se bem que generoso e sympathico, é, todavia, um moço perdido, alucinado pelos vinhos e pelas grandes ceias, incapaz de conceber outros pensamentos que não sejam o da sua indolencia e o do seu bem-estar. Acaba porisso como, naturalmente, devia acabar--nas costas d'Africa.

O contrario quasi se dá com Julio. Trabalhando, vence os escolhos da adversidade; convivendo com o mundo, torna-se como o mundo, calvo na corrupção e no cynismo.

E muito de proposito, pois que não fallo aqui na mãe e na esposa, dediquei este livro ás boas mães e ás boas esposas: ás boas mães, para que sejam esmeradas na educação das filhas, e ás boas esposas, afim de que saibam estimar a virtude, como a primeira e a mais indestructivel de todas as riquezas.

A maternidade é uma fonte de boas acções. Quem sabe se foi este o defeito da Viscondessa e de Cecilia? O santo amor de mãe despertaria incontestavelmente n'estas duas mulheres outros mundos muito diversos que não os da imaginação e os do capricho.

A logica não foi, pois, sacrificada. Antes pelo contrario temos fé em que será ella a gloriosa redemptora d'este enormissimo peccado.

Coimbra,
4 de Fevereiro
da 1874

O Auctor.

FIM.

INDECE

   Pag.
  Dedicatoria5
Cap.IUm baile7
«IIA senhora Viscondessa13
«IIIAlfredo25
«IVContrastes37
«VNo restaurante45
«VISem sahir do mundo53
«VIIEntre amigos59
«VIIIDe passagem65
«IXPobreza e miseria71
«XCousas dos homens79
«XINa taberna85
«XIIPerigos e consequencias91
«XIIIContinuação97
«XIVNovos mundos103
«XVPrimeiros amores107
«XVITransformações113
«XVIIAllucinações119
«XVIIIO escudeiro da senhora Viscondessa125
«XIXFalla o coração133
«XXCasa burgueza139
«XXIConsiderações143
«XXIIUm hospede149
«XXIIITransição155
«XXIVConfidencia161
«XXVMais confidencias165
«XXVIA Viscondessa171
«XXVIIDigressão170
«XXVIIIAinda a Viscondessa183
«XXIXIndecisões189
«XXXGlorias do operario193
«XXXIO que faz o talento190
«XXXIIVestigios e ruinas203
«XXXIIICausas e motivos209
«XXXIVLatet anguis213
«XXXVCritica219
«XXXVIToldam-se os horisontes223
«XXXVIIUma victima229
«XXXVIIIJulio feito barão233
«XXXIXDenuncias e suspeitas237
«XLNo hospital243
«XLISorrisos e lagrimas247
«XLIITableau251
  Epilogo253
  Post-scriptum255