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A triste canção do sul (subsidios para a historia do fado) cover

A triste canção do sul (subsidios para a historia do fado)

Chapter 3: NOTAS DE RODAPÉ:
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About This Book

The author offers a historical and philological study of fado, tracing the word from its Latin root associating destiny with song and examining how fatalistic ideas in poetry and popular belief shaped themes of melancholy and resignation. He surveys how the term came into use for popular songs, consults dictionaries and period sources, compares fado with contemporary popular genres, and documents its performance practice and lyrical subjects as forms of urban expression. The text combines archival examples, lexical analysis, and cultural observation to explain the music’s evolution and social resonance.

Quem canta seus males espanta,
Quem chora seus males augmenta,

diz o nosso povo como um axioma de therapeutica prática para curar as doenças da alma.

O Fado abre uma valvula de segurança ao desafogo da escória social, tão abundante em todas as capitaes, especialmente em Lisboa, que é uma cidade indolente e pobre.

Todo o portuguez é poeta. São numerosos os improvisadores em Portugal, até nas classes menos cultas, e especialmente entre ellas.

A lingua parece auxiliar esta predisposição hereditaria, tradicional, não só por ser triste e convidar á cadencia dolente, mas tambem por se adaptar facilmente á metrificação, especialmente á redondilha, que se encontra feita e perfeita em todos os prosadores.

Castilho deu-se, com uma paciencia de cégo, ao trabalho de «medir» a prosa de alguns classicos, e achou dentro d’ella a contextura espontanea de varios metros.

Os musicos em Portugal não são tão abundantes como os poetas, o que mostra que se repete uma banalidade, com resaibos mythologicos, quando se diz que a musica é irmã da poesia.

Aprendemos sem esforço as melodias simples e singellas, como as do Fado corrido, porque são como que uma resonancia natural do proprio genio da lingua, uma especie de metrificação musical, parallela á versificação instinctiva do povo.

Mas os bons compositores de musica, tanto nas classes illustradas como nas populares, não avultam pelo numero.

O Fado das ruas, cujo rythmo é facil, muito adaptavel á memoria e ouvido do povo, póde ter escasso merito litterario e artistico, mas tem sempre um alto valor ethnographico: é a historia cantada das classes e dos individuos inferiores.

Não padece duvida que muitos dos nossos Fados populares provéem de pessoas mais instruidas do que o povo; mas são escriptos para elle, que não os assimilará se os não entender.

Por isso grande numero dos nossos Fados mira á observação de phenomenos sociaes quotidianos, de interesses e particularidades de classe, ao retrato e biographia de typos da rua, quanto mais despresiveis mais apreciados pelo povo, que os conhece de perto.

Outros Fados, especialmente os politicos, e os que celebram algum acontecimento grave, são uma exploração de momento, um recurso de occasião, que pretende aproveitar a sensação causada no povo tanto pelas tranquibernias dos governos e dos collegios eleitoraes, como pelos factos de importancia occorridos nas classes superiores.

De modo que, póde bem dizer-se, o Fado é em nossos dias um poderoso instrumento de divulgação, que se transmitte facilmente, por meio da imprensa, com uma rapidez electrica.

Sob o ponto de vista da satyra e do epigramma, os Fados substituem os mordentes Pater noster de outr’ora, que não encontravam tão faceis meios de circulação como aquelles que a publicidade moderna proporciona.

Camillo, referindo-se a um Pater noster castelhano, que satyrisava Clemente VII, diz com razão: «É o que hoje chamaríamos o Fado do Papa

Caricatura do typo fadista no cortejo com que os estudantes da Escola Polytechnica de Lisboa celebraram a publicação do «Decreto do cuspo».

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] A lingua portuguesa, noções de glottologia geral e especial portugueza, por F. Adolpho Coelho.

[2] Historia do theatro portuguez no seculo XVIII, pag. 153.

[3] O sr. visconde de Castilho (Julio) quando, ao descrever uma noite de S. João na quinta da Boa Vista em Carnide, põe Vieira Luzitano, que nasceu em 1699, a arranhar na banza, como outros rapazes, «os accordes lacrimosos e dulcissimos de um fado», dá a esses accordes um nome que se não podia referir á epoca do serão, mas emprega uma designação generica em o nosso tempo, por dar a impressão da indole melancolica que sempre tiveram entre nós as canções populares.

Tomada ao pé da lettra, com relação áquella época, a palavra Fado seria um anachronismo.

[4] «É um canto plangente, estremamente singelo em estylo de fabordão. Pode-se por isso acreditar na sua origem popular; tem pelo menos esse caracter.» Ernesto Vieira, A arte musical, n.ᵒ 79, IV anno.

[5] A ultima nau portugueza, reminiscencias por Theodoro José da Silva, Lisboa, 1891.

[6] O Povo Portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. I, pag. 62.

[7] O Povo Portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. I, pag. 385.

[8] Pag. 321.

[9] Ainda em 1886 o sr. Borges de Figueiredo escrevia no seu livro Coimbra antiga e moderna: «A viola foi sempre um dos instrumentos mais favoritos dos conimbricenses. Nas serenatas do Mondego e n’outras pelas ruas e suburbios da cidade, reina ella a par da flauta e do violão (viola franceza), já enchendo os ares de suas harmonias, já formando o acompanhamento de graciosos cantares.»

[10] Revista Portugueza, n.ᵒ 6, 1894-95.

[11] No mesmo periodico, n.ᵒ 1.

[12] Os nomes d’estas canções variam, segundo o seu genero, de terra para terra: são cantigas, modas, lôas, reisadas, chulas, trobos, remances (nos Açores, aravias) jacras (xácaras) etc.

[13] Ernesto Vieira, Dicc. Mus.

[14] A Tradição, revista de ethnographia portugueza, IV anno, n.ᵒ 1.

[15] Historia da poesia popular portugueza, pag. 89, e Epopeas da raça mosarabe, pag. 321.