The Project Gutenberg eBook of A viagem da Índia: poemeto em dois cantos
Title: A viagem da Índia: poemeto em dois cantos
Author: Fernandes Costa
Release date: January 11, 2008 [eBook #24245]
Most recently updated: January 3, 2021
Language: Portuguese
Original publication: Lisboa: Imprensa Nacional, 1896
Credits: Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
A VIAGEM DA INDIA
Poemeto em dois cantos
por
FERNANDES COSTA
A VIAGEM DA INDIA
JUSTIFICAÇÃO DA TIRAGEM
3 exemplares em papel de linho branco nacional 1:000 em papel de algodão de 1.ª qualidade
quarto centenario do descobrimento da india
contribuições
da
sociedade de geographia de lisboa
A VIAGEM DA INDIA
Poemeto em dois cantos
por
FERNANDES COSTA
LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1896
Luciano Cordeiro
o iniciador
e incançavel propugnador do moderno movimento
geographico portuguez
CANTO PRIMEIRO
A IDA
CANTO PRIMEIRO
A IDA
I
Vae em busca da India enfeitiçada,
Sobre as ondas azues, pandas as vélas.
II
Accesa levam n'alma a viva luz
Da fé, e nos pendões a cruz de Christo!
III
Em demanda de ignotas vastidões,
Onde vão novo ninho edificar.
IV
Deus vos leve, romeiros, Deus vos traga,
E a vossa obra, eterna e benta seja!
V
Da noite, o céu cobriu e o mar infindo...
Perdeu-se a lusa armada no mysterio.
VI
No céu alto, as estrellas repetiam:
«Vae ali a fortuna portugueza!»
VII
Dizia: «Raça ousada! raça forte!
Dentro em pouco, outra irmã vos guiará!»
VIII
Sobre as ondas ignotas, astro ignoto,
A divina Akher-Nahr, fanal do Gama!
IX
O mar o engole, quando ao alto, a prumo,
Anda o Centauro percorrendo o céu!
X
Longe o Dragão, retorso e desconforme,
Busca do mar a fria sepultura.
XI
Lá vem do Sul, a remontar, a Pomba,
Quando ao norte, Cepheu desapparece.
XII
N'aquella nova cúpula diversa,
Que sobre mar e terra a noite extende.
XIII
O symbolo christão, que n'alma impera,
Não vista, mas cantada pelo Dante!
XIV
Dir-se-ía, que da treva está saíndo,
Á voz de Deus, segunda creação!
XV
«Quem viu tal aventura, tal portento?
D'onde vem esta gente, e aonde vae?»
XVI
«Astros novos, propicios ou contrarios,
Estes astros do céu, que estrellas são?»
XVII
Olhos postos na cruz e a mão na espada,
Leva em si Portugal e o seu destino.
XVIII
De Moisés o destino andou boiando,
N'uma cesta de vime, sobre o Nilo!
XIX
Avançam para o fulgido Nascente,
Hão de ver, no seu throno, a rosea Aurora!
XX
Em vão ha de rugir o mar irado,
Em vão clamar o céu desconhecido.
XXI
Não houvesse, em annaes de povo algum,
Memoria d'outro feito assim igual.
XXII
Escalar os humbraes do paraiso,
Transpôr os proprios términos do mundo!
XXIII
Em frente, muito em frente, a India os chama...
Atraz, já muito atraz, a patria espera!
XXIV
Serão monstros do mar, que estão bramando?..
Ou d'Africa os leões, que estão rugindo?..
XXV
É Portugal, que vae dizendo á terra:
«É tempo já de despertar agora!»
XXVI
D'azas abertas, para os seus penhascos,
Corvos marinhos, crocitando voam.
XXVII
Aves d'agoiro, a reclamar, sombrias,
Aquellas presas para o seu repasto.
XXVIII
N'um mar de chumbo, sepulchral mansão,
Que obriga a ter saudades da tormenta!
XXIX
Ligeira avança, e traz do norte o rumo...
É bom prenuncio... mas as naus engana!
XXX
Trará no bojo horrisona procella?
Ou sôpro brando á calmaria estiva?
XXXI
São hostes mil de pombos emigrantes,
Que as terras vão buscar d'onde elles vêm!
XXXII
Julgam ser os pinhaes de Portugal
Que foram recebel-os ao caminho!
XXXIII
São cachos vivos, são tropeis, são montes...
Que as naus adornam sob o peso ingente!
XXXIV
Destinos altos! vão assim trocados!
É Deus que o manda, Deus assim fez tudo!
XXXV
—Por que a levem á patria sacrosanta,—
Cada um, sua prece lhe confia!
XXXVI
Deixada pela espuma crystallina,
Da nau do Dias, que as cortou primeira.
XXXVII
Extendeu-a no mar a mão da Esperança,
Na direcção da Gloria e do Futuro!
XXXVIII
Em demanda do Sonho, que as persegue,
Navegam quatro naves de crystal!..
XXXIX
Vão em busca das Ilhas Encantadas,
Onde dorme o divino Encantador!
XL
Quem vae as quatro naves dirigindo?..
Vae o genio immortal da humanidade!
XLI
Vae a Fé, vae a Força, vae o Querer,
A Vontade, que emfim consegue tudo.
XLII
O saber, o pensar de um grande rei,
E a tradição, que um rei maior deixou.
XLIII
Lá vae, de Portugal o pensamento,
Ao leme de uma esquadra portugueza!
XLIV
Então perdida a esteira, que hoje os guia,
Engano e trevas hão de ter sómente.
XLV
Mal sabem, que os aguarda a voz immensa
Do assombrado gigante Adamastor!
XLVI
Onde luctam as ondas alterosas,
E o vento, em turbilhões, contínuo geme.
XLVII
Portas de inferno, onde Cerbéros latem,
De tripla fauce e triplicados dentes.
XLVIII
Portas de luz, que ao exito conduzem;
Portas do Sonho! portas da Visão!
XLIX
Nas liquidas montanhas de um mar verde,
Que as naus afunda, e soffrego as devora!
L
Em tal desesperar, que a Deus bradavam,
As almas lhes guardasse, e não as vidas.
LI
É castigo de Deus, que os vae chamando
Aos confins onde eterna a noite seja?..
LII
Em este despontando, logo desce
Na treva immensa, cada vez mais fria!
LIII
Que prateia as madeixas de seus paes,
E aquece as cabecinhas de seus filhos.
LIV
Que faz abrir as rosas dos seus maios,
E que doira os trigaes do seu paiz!
LV
Este, aqui, é um sol de sepultura,
Mortiça luz, sem brilho e sem calor.
LVI
Aperta-os ali dentro a immensidade!
O espaço, como um tumulo, os encerra!..
LVII
Para a morte, de certo, á véla solta,
Para o silencio... a solidão... a treva!..
LVIII
A costa retrocede, o céu remonta...
É força as proas apontar a leste!..
LIX
O piloto maior que o mundo viu,
O que soube fazer maior façanha.
LX
Foi o genio do Gama, resoluto,
Quem dobrou as vontades e venceu.
LXI
E Adamastor escuta, a vez primeira,
A grande voz da lusa artilheria!
LXII
Ouviu, em plenas ondas subjugadas,
A resposta, que a armada lhe enviou!
LXIII
Mudo e quedo, o phantastico gigante,
Humilhado, de nuvens se cobriu!
LXIV
Das costas africanas vir a aurora,
Caír nas salsas ondas o poente.
LXV
Sobre a terra, á sinistra, o sol descia!
Erguia-se do mar a madrugada!..
LXVI
Segredos são, que ninguem sabe; enganos,
Com que a mãe natureza os vae mantendo.
LXVII
Depois, as naus inteiras engulidas,
Precipitam-se em lôbregas cavernas.
LXVIII
—Como um grupo de estrellas conjugadas,
Umas ás outras são pharol e guia!—
LXIX
Vae á India levar a Cruz e a Espada;
É ali, é ali, Jerusalem!
LXX
Ninguem pense no termo da viagem,
Sem que surja a fulgente apparição!
LXXI
De nunca, em caso algum, retroceder
Nem um só palmo do caminho andado!
LXXII
«Quando elle a mortes cem desafiava,
Quem é que uma só morte ali temia?»
LXXIII
Quando a gente dizia: A terra! a terra!..
Gritava-lhes o Gama: Ao largo! ao largo!..
LXXIV
Acenando, de longe, á lusa armada,
Em torres de esmeralda e de saphyra!
LXXV
Como espectros, no templo da memoria,
Eternamente, os homens e os navios!
LXXVI
Ah! Deus vos mostre a India refulgente!
Deus vos leve, romeiros, Deus vos traga!
CANTO SEGUNDO
A VOLTA
CANTO SEGUNDO
A VOLTA
I
Do mar e das tormentas alquebrada,
Vem subindo rasteira caravela!
II
Tocam sinos nas torres da cidade;
É louvado o Senhor dos Navegantes!
III
Tremúla, á brisa, o regio pavilhão
Sobre o Tejo, nos Paços da Ribeira.
IV
Tem toda a gente os olhos postos n'ella!
Vão salvando, na borda, as columbrinas!
V
Por boas vindas dar, alvoroçadas
Ostenta quantas galas tem, Lisboa.
VI
É a barca do eterno Encantamento;
Vem das Ilhas do grande Encantador!
VII
Pomba perdida, não pertence ao bando,
Que ha muito tempo do pombal saíu.
VIII
—Mas traz, tambem, o que a ninguem parece—
Traz a gloria maior de Portugal!
IX
Grande empreza, phantastica, inaudita,
Que outra maior jamais alguem a fez!
X
Sobre a esteira de espuma reluzente,
O sulco aberto, aberto ainda está!
XI
Traz o sopro vital que tudo anima,
Traz o genio immortal da humanidade!
XII
Os que foram ao longe ouvir os brados
E as funestas visões do Adamastor.
XIII
Os sonhos transformando na verdade,
De polo a polo completando a esphera!
XIV
Depois de terem visto o céu primeiro,
Com todo o norte, descaír no mar.
XV
Quando já nenhuns olhos os seguiam:
«Vae ali a fortuna portugueza!»
XVI
«Quem deu ser a taes homens? como e quando?
D'onde vem esta gente, e aonde vae?»
XVII
«Ó astros, que jámais nos conheceram,
Á India vamos; dae-nos vós a mão!»
XVIII
Quando as proas altivas as rasgavam:
«Vão as portas abrir de novas eras!»
XIX
Na luz confusa de um saber previsto,
Mas não levados pela mão do Acaso;
XX
Missionarios do Bem e do Progresso;
Missionarios... e não aventureiros.
XXI
Perturbar em remotos continentes,
A quietação dos homens e das cousas.
XXII
Por mares nunca d'antes navegados,
Desenhando os confins da terra inteira.
XXIII
Foram, sempre, deixando a patria amada,
Pelo mundo em pedaços repartida.
XXIV
Desvendar os mysterios da natura,
Meio mundo ensinando a outro meio.
XXV
Para o seu curso dirigir nos mares,
Uma estrella do céu não foi bastante!
XXVI
A maritima força de Veneza,
E a fortuna da grande Alexandria.
XXVII
Das columnas herculeas ao Vermelho,
O negro continente recortaram.
XXVIII
Hão de agora affrontar-lhe a gloria van,
E, em mar remoto, enchel-o de terror.
XXIX
Os pendões abatendo do Crescente,
Ante as glorias do symbolo christão.
XXX
Nos topes accendeu dos rijos mastros,
Do Santelmo divino a chamma azul.
XXXI
Descer do céu as trombas sequiosas,
Bebendo em sorvos largos o Oceano.
XXXII
E demandando antarcticas alturas,
Chegaram quasi ás regiões da treva.
XXXIII
Altos mares, de infinda profundeza,
Onde sonda nenhuma o fundo achou.
XXXIV
Iam, á raça humana abrir o mar,
Findando aquella eterna solidão.
XXXV
Ver o berço da nossa humanidade,
Como os Magos o berço de Jesus.
XXXVI
Chamar á vida, despertar a terra,
Do somno seu, profundo e secular.
XXXVII
Huri, rainha e fada do Oriente,
Das torres de saphyra debruçada.
XXXVIII
D'onde se volta pela mão da Gloria,
Ou d'onde nunca se voltou jamais.
XXXIX
Já o céu lhes estava destinando
A lyra inimitavel de Camões!
XL
—Refulgente prodigio de Arte e Crença,—
As naves portentosas de Belem!
XLI
Sepultaram no mar, piedosamente,
Tantos, tantos irmãos que lhes morreram!
XLII
A nova que em si traz, é quem a anima:
«Foi descoberta a India abençoada!»
XLIII
O sol da Meia Idade vae descendo,
O alvor desponta, já, de um novo dia!
XLIV
Que da gloria da humilde embarcação,
Viverá Portugal, eternamente.
XLV
A patria em boas mãos depositou
A espada, a cruz, e todo o seu destino.
XLVI
Pois fez, o esforço vosso, verdadeiro
O sonho que tivera Portugal.
XLVII
Trouxe-vos Deus a porto e salvamento,
A vossa obra foi bemdita e boa!
XLVIII
Como um barco de lenda, panda a véla,
Bordada a cruz de Christo em seu pendão!
XLIX
Hão de armadas estar, de todo o mundo,
Saudando a caravela, que não morre!
L
Unindo n'um só laço, os reis e os povos,
Saudar, em honra vossa, o reino antigo.
LI
Marinheiros virão de toda a terra,
Á patria dos mais rudes marinheiros.
LII
Se muito foi, que a Portugal servistes,
Mais servistes, ainda, a extranha gente.
LIII
As aguias, d'hoje em dia, andam colhendo
As pennas, que das azas lhe caíram!
LIV
Cada um dos pedaços do seu manto
Dá hoje a um povo inteiro, que vestir!
LV
Por famintos abutres devorado,
Na montanha da Gloria, a que subiu!
LVI
Nave eterna!.. Na pôpa leva as quinas,
E a figura do Gama, na amurada.
LVII
Vinte esquadras, que o mundo aqui mandou,
Abrem alas ao fulgido navio!
LVIII
Vêm ver, ainda, como audaz tremula
O pavilhão que os precedeu nos mares!
LIX
Pousar no Tejo, que sustinha d'antes
Sobre o seu dorso, galeões sagrados!..
LX
Dizêl-o ouvimos,—não hajaes desdoiro:—
«São bem mais leves estas naus de agora!»
LXI
Almirantes! sabeis, que honrar o Gama,
É honrar o maior de todos vós!
LXII
Não é sonho da nossa phantasia;
É nitida visão que temos n'alma!
LXIII
Mil bandeiras, que o mar conhece agora,
Vêm saudar a primeira, que o passou!
LXIV
Sêde digno, em memoria do passado,
Das honras, que ao presente recebeis!
LXV
Quem, tão grande passado, a tanto obriga,
Quem tal papel desempenhou no mundo!
LXVI
A gloria é grande, mas pesada herança:
Mantel-a pura, deve dar cuidados.
LXVII
Hoje vemos um céu de inquietações,
Por sobre as nossas almas extendido.
LXVIII
Não é fria mortalha, nem lençol,
Que o corpo envolva d'um heroe jacente.
LXIX
As maldições merece do futuro,
Mostrando ser indigno do legado.
LXX
Somos o rijo povo, que não morre!
Pois, se morto parece, resuscita!
LXXI
De mãos ligadas, amarrada e presa,
Á columna das proprias tradições.
LXXII
De povo, que entre os povos escolhido,
Aos povos, seus irmãos, impõe respeito.
LXXIII
A todo o filho que de ti mal diga...
Nem descanço lhe dês de sepultura!
LXXIV
Quem o nome de patria pronuncia,
Sem, lá no fundo, estremecer de amor!
LXXV
Leva o Gama, de pé, junto á amurada,
E uma cruz escarlate em cada vela!
LXXVI
Se leva a gloria do passado ingente,
Leva, tambem, a esperança no porvir!
Aos 24 dias do mez de agosto do anno
M DCCC XCVI
Imprensa Nacional de Lisboa
PARA A
COMMISSÃO EXECUTIVA
DO