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Amor de Perdição: Memorias d'uma familia

Chapter 16: VIII.
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About This Book

The narrative explores the tragic love story of a young man, Simão Antonio Botelho, who faces the harsh realities of life and love in 18th-century Portugal. After being exiled for a crime, he reflects on his lost youth, family, and the deep emotional scars left by unfulfilled desires. The work delves into themes of passion, sacrifice, and the societal constraints that dictate personal relationships. Through the lens of familial ties and societal expectations, it examines the interplay between love and despair, ultimately portraying the devastating effects of unattainable love and the quest for redemption.

—Foi elle que me abonou dez moedas de ouro para me estabelecer; mas paguei-lh'as, Deus louvado. Ha de haver seis mezes que elle me mandou chamar a Vizeu, e me disse que tinha trinta peças para me dar, se eu lhe fizesse um serviço. «O que v. s.^a quizer, fidalgo.» E vai elle disse-me que queria que eu tirasse a vida a um homem. Isto boliu cá por dentro comigo, porque, a fallar a verdade, um homem que mata outro n'um apêrto não é um matador de officio, acho eu, não é assim?

—De certo…—respondeu Simão, adivinhando o remate da historia—quem era o homem que elle queria morto?

—Era v. s.^a… Ó homem!—disse o ferrador com espanto—O senhor nem sequer mudou de côr!

—Eu não mudo nunca de côr, senhor João—disse o academico.

—Estou pasmado!

—E vm.^ce não acceitou a incumbencia, pelo que vejo—tornou Simão.

—Não, senhor; e então logo que elle me disse quem era, a minha vontade era pregar-lhe com a cabeça n'uma esquina.

—E elle disse-lhe a razão porque me mandava matar?

—Não, meu fidalgo; eu lhe conto. Na semana adiante, quando soube que o senhor Balthazar (raios o partam!) tinha sabido de Vizeu, fui fallar com o senhor Corregedor, e contei-lhe tudo o que se passára. O senhor corregedor esteve a scismar um pouquinho, e disse-me, e v. s.^a ha de perdoar por eu lhe dizer o que seu pae me disse tal e qual.

—Diga.

—Seu pae começou a esfregar o nariz, e disse-me: «Eu sei o que é isso. Se aquelle bréjeiro de meu filho Simão tivesse honra, não olharia para a prima d'esse assassino. Cuida o patife que eu consentia que meu filho se ligasse a uma filha de Thadeu de Albuquerque!..» Ainda disse mais coisas que me não lembram; mas eu fiquei sabendo tudo. Ora aqui tem o que houve. Agora, appareceu-me aqui v. s.^a, e a noite passada foi a Vizeu. Perdoará a minha confiança; mas v. s.^a foi fallar com a tal menina: e eu estive vai não vai a seguil-o; mas como ia meu cunhado, que é homem para tres, fiquei descançado. Elle contou-me um encontro que v. s.^a teve á porta do quintal da menina. Se lá torna, senhor Simão, vá preparado para alguma coisa de maior. Eu bem sei que v. s.^a não é medroso; mas d'uma traição ninguem se livra. Se quer que eu vá também, estou ás suas ordens; e a clavina que deu policia ao almocreve ainda alli está, e dá fogo debaixo d'agua, como diz o outro. Mas, se v. s.^a dá licença que eu lhe diga a minha opinião, o melhor é não andar n'essas encamizadas. Se quer casar com ella, vá pedir a seu pae licença, e deixe o resto cá por minha conta; ponto é que ella queira, que eu, n'um abrir e fechar d'olhos, atiro com ella para cima d'uma égua de chupêta, que alli tenho, e o pae e mais o primo ficam a vêr navios.

—Obrigado, meu amigo—disse Simão—Aproveitarei os seus bons serviços, quando me forem necessarios. Á noite hei de ir, como fui a noite passada, a Vizeu. Se houver novidade, então veremos o que se ha de fazer. Conto comsigo, e creia que tem em mim um amigo.

Mestre João da Cruz não replicou. D'alli foi examinar miudamente a fecharia da clavina, e entender-se com o cunhado sobre cautelas necessarias, em quanto descarregava a arma, e a carregava de novo com uns balotes especiaes que elle denominava «amendoas de pimpões».

N'este intervallo, Marianna, a filha do ferrador, entrou no sobrado, e disse com meiguice a Simão Botelho:

—Então sempre é certo ir?

—Vou, porque não hei de ir?

—Pois Nossa Senhora vá na sua companhia—tornou ella, sahindo logo para esconder as lagrimas.

VI.

Ás dez horas e meia da noite d'aquelle dia, tres vultos convergiram para o local, raro frequentado, em que se abria a porta do quintal de Thadeu de Albuquerque. Alli se detiveram alguns minutos discutindo e gesticulando. Dos tres havia um, cujas palavras eram ouvidas em silencio e sem replica pelos outros: Dizia elle a um dos dois:

—Não convém que estejas perto d'esta porta. Se o homem apparecesse aqui morto, as suspeitas cahiam logo sobre mim ou meu tio. Afastem-se um do outro, e tenham o ouvido applicado ao tropel do cavallo. Depois apressem o passo, até o encontrarem de modo que os tiros sejam dados longe d'aqui.

—Mas…—atalhou um—quem nos diz que elle veio hontem a cavallo, e hoje vem a pé?

—E' verdade! - accrescentou o outro.

—Se elle vier a pé, eu lhes darei aviso para o seguirem depois até o terem a geito de tiro, mas longe d'aqui, percebem vocês?—disse Balthazar Coutinho.

—Sim, senhor; mas se elle sáe de casa do pae, e entra sem nos dar tempo?

—Tenho a certeza de que não está em casa do pae, já lh'o disse. Basta de palavriado. Vão esconder-se atraz da igreja, e não adormeçam.

Debandou o grupo, e Balthazar ficou alguns momentos encostado ao muro. Soaram os tres quartos depois das dez. O de Castro-d'Aire collou o ouvido á porta, e retirou-se acceleradamente, ouvindo o rumor da folhagem sêcca que Thereza vinha pizando.

Apenas Balthazar, cosido com o muro, desapparecêra, um vulto assomou do outro lado a passo rapido. Não parou: foi direito a todos os pontos onde uma sombra podia figurar um homem. Rodeou a igreja que estava a duzentos passos de distancia. Viu os dois vultos direitos com o recanto que formava a juncção da capella mór, e sobre o qual cabiam as sombras da torre. Fitou-os de passagem, e suspeitou; não os conheceu; mas elles disseram entre si, depois que elle desapparecêra:

—É o João da Cruz, ferrador, ou o diabo por elle!…

—Que fará a esta hora por aqui?!

—Eu sei!

—Não desconfias que elle entre n'isto?

—Ágora! Se entrasse, era por nós. Não sabes que elle foi mochila do nosso amo?

—E tambem sei que pôz a loja com dinheiro do nosso amo.

—Pois então que mêdo tens?

—Não ha mêdo; mas tambem sei que foi o corregedor que o livrou da forca…

—Isso que tem! O corregedor não se importa com isto, nem sabe que o filho cá está…

—Assim será; mas não estou muito contente… Elle é homem dos diabos…

—Deixal-o ser… tanto entram as balas n'elle como n'outro…

A discussão continuou sobre varias conjecturas. De tudo o que elles disseram uma coisa era certissima: ser o vulto o João da Cruz, ferrador.

Teria este dado trezentos passos, quando os criados de Balthazar ouviram o remoto tropel de cavalgadura. Ao tempo que elles sahiam do seu escondrijo, sabia João da Cruz á frente do cavalleiro. Simão aperrou as pistolas, e o arreeiro uma clavina.

—Não ha novidade—disse o ferrador—mas saiba v. s.^a que já podia estar em baixo do cavallo com quatro zagalotes no peito.

O arreeiro reconheceu o cunhado, e disse:

—És tu, João?

—Sou eu. Vim primeiro que tu.

Simão estendeu a mão ao ferrador, e disse commovido:

—-Dê cá a sua mão; quero sentir na minha a mão de urn homem honrado.

—Nas occasiões é que se conhecem os homens—redarguiu o ferrador.—Ora vamos… não ha tempo para fallatorio. O senhor doutor tem uma espera.

—Tenho?—disse Simão.

—Atraz da igreja estão dois homens que eu não pude conhecer; mas não se me dava de jurar que são criados do senhor Balthazar. Salte abaixo do cavallo, que ha de haver mostarda. Eu disse-lhe que não viesse; mas v. s.^a veio, e agora é andar com a cara para a frente.

—Olhe que eu não tremo, mestre João—disse o filho do corregedor.

—Bem sei que não; mas, á vista do inimigo, veremos.

Simão tinha apeado. O ferrador tomou as rédeas do cavallo, recuou alguns passos na rua, e foi prendêl-o á argola da parede de uma estalagem.

Voltou, e disse a Simão que o seguisse a elle e ao cunhado na distancia de vinte passos; e que, se os visse parar perto do quintal de Albuquerque, não passasse do ponto d'onde os visse.

Quiz o academico protestar contra um plano, que o humilhava como protegido pela defeza dos dois homens; o ferrador, porém, não admittiu a réplica.

—Faça o que eu lhe digo, fidalgo—disse elle com energia.

João da Cruz e o cunhado, espiando todas as esquinas, chegaram de fronte do quintal de Thereza, e viram um vulto a sumir-se no angulo da parede.

—Vamos sobre elles—disse o ferrador—que lá passaram para o adro da igreja; n'este entrementes, o doutor chega á porta do quintal e entra; depois voltaremos para lhe guardar a sahida.

N'este proposito, moveram-se apressados, e Simão Botelho caminhou com as pistolas aperradas na direcção da porta.

Em frente do muro do jardim de Thereza havia uma cascalheira escarpada, que se esplainava depois n'uma alamêda sombria.

Os dois criados de Balthazar, quando o tropel do cavallo parou, recordaram as ordens do amo, no caso de vir a pé Simão. Buscaram sitio azado para o espreitarem na sahida, e entraram na alamêda quando o academico chegava á porta do quintal.

—Agora está seguro—disse um.

—Se lá não ficar dentro….—respondeu o outro, vendo-o entrar, e fechar-se a porta.

—Mas além vem dois homens…—disse o mais assustado, olhando para a outra entrada da alamêda.

—E vem direitos a nós… aperra lá a clavina…

O melhor é retirarmos. Nós estamos á espera de outro, e não d'estes.
Vamos embora d'aqui…

Este não esperou convencer o companheiro: desceu a ribanceira do cascalho. O mais intrepido teve tambem a prudencia de todos os assassinos assalariados: seguiu o assustadiço, e deu-lhe razão, quando ouviu após de si os passos velozes dos perseguidores. Sahiu-lhes o amo de frente, quando dobravam a esquina do quintal, e disse-lhes:

—Vocês a que fogem, seus poltrões?

Os homens pararam de envergonhados, aperrando os bacamartes.

João da Cruz e o arreeiro appareceram, e Balthazar caminhou para elles, bradando:

—Alto ahi!

O ferrador disse ao cunhado:

—Falla-lhe tu, que eu não quero que elle me conheça.

—Quem manda fazer alto?—disse o arreeiro.

—São tres clavinas—respondeu Balthazar.

—Olha se os demoras a dar tempo que o doutor saia—disse João da Cruz ao ouvido do arreeiro.

—Pois nós cá estamos parados—replicou o criado de Simão.—Que nos querem vocês?

—Quero saber o que tem que fazer n'este sitio.

—E vocês que fazem por cá?

—Não admitto perguntas—disse o de Castro-d'Aire, aventurando alguns passos vacilantes para a frente.—Quero saber quem são.

Mestre João disse ao ouvido do cunhado:

—Diz-lhe que se dá mais um passo que o arrebentas.

O arreeiro repetiu a clausula, e Balthazar parou.

Um dos criados d'este chamou-o ao lado para lhe dizer que aquelle dos dois, que não fallava, parecia ser o João da Cruz. O morgado duvidou, e quiz esclarecer-se; mas o ferrador ouvira as palavras do criado, e disse ao cunhado:

—Vem comigo, que elles conhecem-me.

Dizendo, voltou as costas ao grupo, e caminhou ao longo do quintal de Thadeu de Albuquerque. Os criados de Balthazar, gloriosos da retirada, como de uma derrota certa, apressaram o passo na cola dos suppostos fugitivos. O morgado ainda lhes disse que os não seguissem; mas elles, momentos antes covardes, queriam desforrar-se agora, correndo após o inimigo tanto quanto lhe tinham fugido antes.

Simão Botelho ouvira os passos ligeiros dos seus homens, e, compellido pelo susto de Thereza, abrira a porta do quintal, sem saber ainda quem elles fossem. João da Cruz, com ar galhofeiro, já quando os perseguidores se viam, disse ao filho do corregedor, se estava ajustado o casamento, que não havia panno para mangas.

Simão entendeu o perigo, apertou convulsamente a mão de Thereza, e retirou-se. Queria elle reconhecer os dois vultos parados a distancia; mas João da Cruz, com o tom imperioso de quem obriga á submissão, disse ao filho do corregedor:

—Vá por onde veio, e não olhe para traz.

Simão foi indo até encontrar o cavallo. Montou, e esperou os dois inalteraveis guardas que o seguiam a passo vagaroso. Maravilhara-os o subito desapparecimento dos criados de Balthazar, e recearam-se de alguma espera fóra da cidade. O ferrador conhecia o atalho que podia levar os da emboscada ao caminho, e revelou o seu receio a Simão, dizendo-lhe que picasse a toda a brida, que elle e o cunhado lá iriam ter. O academico recebeu com enfado a advertencia, admoestando-os a que o não tivessem em tão vil preço. E acintemente soffreou as rédeas, para não forçar os homens a aligeirar o passo.

—Vá como quizer—disse mestre João—que nós vamos por fóra do caminho.

E subiram a uma rampa de olivaes, para tornarem a descer encubertos por moitas de giestas, cozendo-se aos torcicolos d'uma parede parallela com a estrada.

—O atalho vai acolá onde a serra faz aquelle cotovêllo—disse o ferrador ao cunhado—hão de alli passar, ou já passaram. A estrada vai mesmo na quebrada d'aquelle outeirinho. Os homens é d'alli que lhe vão atirar, encobertos pelos sobreiros. Vamos depressa…

E um pouco descobertos, e outro curvados á sombra das devêzas, chegaram a um vallado d'onde ouviram os passos dos dois homens que atravessavam o pontilhão de um córrego.

—Já não vamos a tempo—disse afflicto o João da Cruz—os homens vão atirar-lhe, porque o cavallo trupa cá muito atraz.

E corriam já sem temor de serem vistos, porque os outros tinham dobrado o outeiro, em cujo valle corria a estrada.

—Os homens vão atirar-lhe…—disse o ferrador.

—Gritemos d'aqui ao doutor que não vá p'ra diante.

—Já não é tempo… Ou o matem ou não matem, quando voltarem são nossos.

Tinham já passado o pontilhão, e subiam a ladeira, quando ouviram dois tiros.

—Arriba!—exclamou João da Cruz—que não vão elles metter-se á estrada, se mataram o fidalgo.

Tinham vencido a chã, esbofados e anciados, com as clavinas aperradas. Os criados de Balthazar, ao invez da conjectura do ferrador, retrocediam pelo mesmo atalho, suppondo que os companheiros de Simão iam adiante batendo os pontos azados á emboscada, ou se tinham retardado.

—Elles ahi vem!—disse o arreeiro.

—Nós cá estamos—respondeu o ferrador, sentando-se, a coberto de um cômoro.—Senta-te também que eu não estou p'ra correr atraz d'elles.

Os assassinos, a dez passos, viram de frente erguerem-se os dois vultos, e ladearam cada qual para seu lado, um galgando os sucalcos de uma vinha, o outro atirando-se a uns silveiraes.

—Atira ao da esquerda!—disse João da Cruz.

Foram simultaneas as explosões. A pontaria do ferrador fez logo um cadaver. Os balotes do arreeiro não estremaram o outro entre o carrascal onde se embrenhára.

A este tempo assomava Simão no tezo d'onde lhe tinham atirado, e corria ao ponto onde ouvira os segundos tiros.

—É v. s.^a, fidalgo?—bradou o ferrador.

—Sou.

—Não o mataram?

—Creio que não—respondeu Simão.

—Este desalmado deixou fugir o melro—tornou João da Cruz—mas o meu lá está a pernear na vinha. Sempre lhe quero vêr as trombas…

O ferrador desceu os três socalcos da vinha, e curvou-se sobre o cadaver, dizendo:

—Alma de cantaro, se eu tivesse duas clavinas não ias sósinho para o inferno!

—Anda d'ahi!—disse o arreeiro—deixa lá esse diabo, que o senhor doutor está ferido n'um hombro. Vamos depressa, que está o sangue a escorrer-lhe.

—Eu vi duas cabeças a espreitarem-me de cima de uma ribanceira, e cuidei que eram vocês—disse Simão, em quanto o ferrador, com a destreza de habil cirurgião, lho enfaixava o braço ferido com lenços.—Parei o cavallo, e disse: «Ólé! ha novidade?» Logo que me não responderam, saltei para terra; mas ainda eu tinha um pé no estribo quando me fizeram fogo. Quiz saltar á ribanceira, mas não pude romper o matto. Dei uma volta grande para achar subida, e foi então que dei fé de estar ferido…

—Isto é uma arranhadura—disse João da Cruz—olhe que eu sei d'isto, fidalgo! Estou affeito a curar muitas feridas.

—Nos burros, mestre João?—disse o ferido, sorrindo.

—E nos christãos tambem, senhor doutor. Olhe que houve em Portugal um rei que não queria outro medico senão um alveitar. Hei de mostrar-lhe o meu corpo que está uma rêde de facadas, e nunca fui ao cirurgião. Com ceroto e vinagre sou capaz de ir resuscitar aquelle alma do diabo que alli está a escutar a cavallaria.

N'isto ouviu-se um leve rumor de folhagem no matagal para onde tinha saltado o companheiro do morto.

João da Cruz, como galgo de fino olfacto, fitou a orelha e resmungou:

—Querem vocês vêr que ellas se armam!… Dar-se-ha caso que o outro ainda esteja por alli a tremer maleitas!…

O rumor continuou, e logo um bando de passaros rompeu d'entre a folhagem chilreando.

—O homem está alli!—tornou o ferrador.—Passe-me cá uma pistola, senhor Simão!

Correu mestre João, e ao mesmo tempo uma grande rostilhada se fez entre as moitas de codêços e urzes.

—Elle estrinça lenha como um porco do monte!—exclamou o ferrador.—Ó cunhado, bate este matto com alguns penedos; quero vêr sahir o javali da moita!…

Para o outro lado da bouça estava um plaino cultivado. Simão, rodeando a sebe, conseguira saltar ao campo por sobre a pedra d'um agueiro.

—Tenha lá mão, mestre; não vá você atirar-me!—bradou Simão ao ferrador.

—Pois o fidalgo já ahi anda!?. Então está fechado o cêrco. Eu cá vou fazer de furão. Se este nos escapa, não ha nada seguro n'este mundo!

Não se enganaram. O criado de Balthazar Coutinho, quando se atirára desamparado á brenha, desnocára um joelho, e cahira atordoado. O arreeiro não examinou o effeito do tiro, porque atirara á ventura, e achava natural que o fugitivo se não molestasse. Quando volveu a si do aturdimento da queda, o homem arrastou-se lentamente até encontrar um cerrado de arvores silvestres, em que pernoitava a passarinhada. Como os melros cacarejassem esvoaçando, o criado de Balthazar retrocedeu para o mato, cuidando que ahi escaparia; mas o arreeiro jogava enormes calhaus em todas as direcções, e alguns acertavam mais que as balas do seu bacamarte. João da Cruz tirou do bolço da jaqueta um podão, e começou a cortar a selva de carvalhas novas e giestaes que se emmaranhavam em redor do escondrijo. Já cansado, porém, e vendo o pouco luzimento do trabalho, disse ao arreeiro:

—Petisca lume, vai alli dentro buscar um pouco de restolho sêcco, e vamos pegar fogo ao mato, que este ladrão ha de morrer assado.

O perseguido, quando tal ouviu, tirou do maior perigo coragem para fugir, rompendo a espessura e saltando a parede da tapada para o campo de restolho em que o arreeiro andava apanhando palha, e Simão esperava o desfecho da montaria. Correram a um tempo o arreeiro e o academico sobre elle. O fugitivo, sentindo-se alcançado, lançou-se de joelhos e mãos erguidas, pedindo perdão, e dizendo que o amo o obrigára áquella desgraça. Já a coronha do bacamarte do arreeiro lhe ia direita ao peito, quando Simão lhe reteve o braço.

—Não se bate assim n'um homem!—disse o moço—Levanta-te, rapaz!

—Eu não posso, senhor. Tenho uma perna quebrada, e estou aleijado para a minha vida.

N'este comenos chegou o ferrador, e exclamou:

—Pois este tratante ainda está vivo!

E correu sobre elle com o podão.

—Não mate o homem, senhor João!—disse o filho do corregedor.

—Que o não mate! essa é de cabo de esquadra! Com que então o fidalgo quer pagar-me com a forca o favor de o acompanhar… eim?

—Com a forca!?—atalhou Simão.

—Podéra não! Quer que este homem fique para ir contar a historia? Acha bonito? Lá v. s.^a, como é filho de ministro, não terá perigo; mas eu, que sou ferrador, posso contar que d'esta vez tenho o baraço no pescoço. Não me faz geito o negocio. Deixe-me cá com o homem…

—Não o mate, senhor João; peço-lhe eu que o deixe ir. Uma testemunha não nos póde fazer mal.

—O quê?—redarguiu o ferrador—v. s.^a saberá muito, mas de justiça não sabe nada, e ha de perdoar o meu atrevimento. Basta uma só testemunha para guiar a justiça na devassa. Ás duas por tres, uma testemunha de vista, e quatro de ouvir dizer, com o fidalgo de Castro-d'Aire a mexer os pausinhos, é forca certa, como dois e dois serem quatro.

—Eu não digo nada; não me matem, que eu nem torno a ir para
Castro-d'Aire—exclamou o homem.

—Deixe-o ficar, João da Cruz… vamos embora…

—Isso!—acudiu o ferrador—chame-me João da Cruz, para este maroto ficar bem certo de que sou o João da Cruz!… Com effeito, não sei o que me parece v. s.^a querer deixar com vida um alma do diabo que lhe deu um tiro para o matar!

—Pois sim, tem você razão; mas eu não sei castigar miseraveis que me não resistem.

—E se elle o tivesse matado, castigava-o? Responda a isto, senhor doutor!

—Vamos embora—tornou Simão—deixemos para ahi esse miseravel.

Mestre João scismou alguns momentos, coçando a cabeça, e resmungou com descontentamento:

—Vamos lá… Quem o seu inimigo poupa, nas mãos lhe morre.

Tinham já sahido do plaino e saltado a tapada, e iam descendo para a estrada, quando o ferrador exclamou:

—Lá me ficou a minha clavina encostada á sebe. Vão indo, que eu venho já.

O arreeiro conduzia o cavallo, que pacificamente estivera tozando a relva das paredes marginaes da estrada, quando Simão ouviu gritos. Conjecturou com certeza o que era.

—O João lá está a fazer justiça!—disse o arreeiro. Deixál-o lá, meu amo, que elle é homem que sabe o que faz.

João da Cruz appareceu d'ahi a pouco, limpando com fentos o podão ensanguentado.

—Você é cruel, senhor João!—disse o academico.

—Não sou cruel—disse o ferrador—o fidalgo está enganado comigo; é que diz lá o dictado, morrer por morrer, morra meu pae que é mais velho. Tanto faz matar um como dois. Quando se está com a mão na massa, tanto faz amassar um alqueire como tres. As obras devem ser acabadas, ou então o melhor é não se metter a gente n'ellas. Agora, levo a minha consciencia socegada.

A justiça que prove, se quizer; mas não ha de ser por que lh'o digam aquelles dois que eu mandei de presente ao diabo.

Simão teve um instante de horror do homicida, e de arrependimento de se ter ligado com tal homem.

VII.

O ferimento de Simão Botelho era melindroso de mais para obedecer promptamente ao curativo do ferrador, enfronhado em aphorismos de alveitaria. A bala passára-lhe de revez a porção muscular do braço esquerdo; mas algum vaso importante rompêra, que não bastavam compressas a vedar-lhe o sangue. Horas depois de ferido, o academico deitou-se febril, deixando-se medicar pelo ferrador. O arreeiro partiu para Coimbra, encarregado de espalhar a noticia de ter ficado no Porto Simão Botelho.

Mais que as dôres e os receios da amputação, o mortificava a ancia de saber novas de Thereza. João da Cruz estava sempre de sobre-rolda, precavido contra algum procedimento judicial por suspeitas d'elle. As pessoas que vinham de feirar na cidade contavam todas que dois homens tinham apparecido mortos, e constava serem criados d'um fidalgo de Gastro-d'Aire. Ninguem, porém, ouvira imputar o assassinio a determinadas pessoas.

Na tarde d'esse dia recebeu Simão a seguinte carta de Thereza:

«Deus permitia que tenhas chegado sem perigo a casa d'essa boa gente. Eu não sei o que se passa, mas ha coisa mysteriosa que eu não posso adivinhar. Meu pae tem estado toda a manhã fechado com o primo, e a mim não me deixa sahir do quarto. Mandou-me tirar o tinteiro; mas eu felizmente estava prevenida com outro. Nossa Senhora quiz que a pobre viesse pedir esmola debaixo da janella do meu quarto; senão eu nem tinha modo de lhe dar signal para ella esperar esta carta. Não sei o que ella me disse. Fallou-me em criados mortos; mas eu não pude entender… Tua mana Rita está-me acenando por traz dos vidros do teu quarto…

Disse-me tua mana que os moços de meu primo tinham apparecido mortos perto da estrada. Agora já sei tudo. Estive para lhe dizer que tu ahi estás; mas não me deram tempo. Meu pae de hora a hora dá passeios no corredor, e solta uns ais muito altos.

Ó meu querido Simão, que será feito de ti?… Estarás tu ferido? Serei eu a causa da tua morte?

Diz-me o que souberes. Eu já não peço a Deus senão a tua vida. Foge d'esses sitios; vai para Coimbra, e espera que o tempo melhore a nossa situação.

Tem confiança n'esta desgraçada, que é digna da tua dedicação…. Chega a pobre: não quero demoral-a mais… Perguntei-lhe se se dizia de ti alguma coisa, e ella respondeu que não. Deus o queira.»

Respondeu Simão a querer tranquillisar o animo de Thereza. Do seu ferimento fallava tão de passagem, que dava a suppôr que nem o curativo era necessario. Promettia partir para Coimbra logo que o podesse fazer sem receio de Thereza soffrer na sua ausencia. Animava-a a chamal-o, assim que as ameaças de convento passassem a ser realisadas.

Entretanto Balthazar Coutinho, chamado ás authoridades judiciarias para esclarecer a devassa instaurada, respondeu que effectivamente os homens mortos eram seus criados, de quem elle e sua familia se acompanhára de Castro-d'Aire. Accrescentou que não sabia que elles tivessem inimigos em Vizeu, nem tinha contra alguem as mais leves presumpções.

Os mais proximos visinhos da localidade, onde os cadaveres tinham apparecido, apenas depunham que, alta noite, tinham ouvido dois tiros ao mesmo tempo, e outro, pouco depois. Um apenas adiantava coisa que não podia alumiar a justiça, e vinha a ser que o mato, nas visinhanças do local, fôra chapotado. N'esta escuridade a justiça não podia dar passo algum.

Thadeu de Albuquerque era connivente no attentado contra a vida de Simão Botelho. Fôra seu o alvitre, quando o sobrinho denunciou a causa das sahidas frequentes de Thereza, na noite do baile. Tanto ao velho como ao morgado convinha apagar algum indicio que podesse envolvêl-os no mysterio d'aquellas duas mortes. Os criados não mereciam a pena d'um desforço que implicasse o desdouro de seus amos. Provas contra Simão Botelho não podiam adduzil-as. Áquella hora o suppunham elles a caminho de Coimbra, ou refugiado em casa de seu pae. Restava-lhes ainda a esperança de que elle tivesse sido ferido, e fosse acabar longe do local em que o tinham assaltado.

Em quanto a Thereza, resolveu Albuquerque encerral-a n'um convento do Porto, e escolheu Monchique, onde era prioreza uma sua proxima parenta. Escreveu á prelada para lhe preparar aposentos, e ao seu procurador para negociar as licenças ecclesiasticas para a entrada. Todavia, receando o velho algum incidente no espaço de tempo que medeava até se conseguirem as licenças, resolveu não ter comsigo Thereza, e solicitou a retenção temporaria d'ella n'um convento de Vizeu.

Acabára Thereza de lêr e esconder no seio a resposta de Simão Botelho, que a pobre lhe enviára ao escurecer, pendente de uma linha, quando o pae entrou no seu quarto, e a mandou vestir-se. A menina obedeceu, tomando uma capa e um lenço.

—Vista-se como quem é: lembre-se que ainda tem os meus appellidos—disse com severidade o velho.

—Cuidei que não era preciso vestir-me melhor para sahir á noite…—disse Thereza.

—E a senhora sabe para onde vai?

—Não sei… meu pae.

—Então vista-se, e não me dê leis.

—Mas, meu pae, attenda-me um momento.

—Diga.

—Se a sua ideia é obrigar-me a casar com meu primo…

—E d'ahi?

—De certo não caso; morro, e morro contente; mas não caso.

—Nem elle a quer. A senhora é indigna de Balthazar Coutinho. Um homem do meu sangue não aceita para esposa uma mulher que falla de noite aos amantes nos quintaes. Vista-se depressa, que vai para um convento.

—Promptamente, meu pae. Esse destino lh'o pedi eu muitas vezes.

—Não quero reflexões. D'aqui a pouco appareça-me vestida. Suas primas esperam-a para a acompanharem.

Quando se viu sósinha, Thereza debulhou-se em lagrimas, e quiz escrever a Simão. Áquella hora quem lhe levaria a carta? Appellou para o retabulo da Virgem, que ella fizera confidente do seu amor. Pediu-lhe de joelhos que a protegesse, e désse forças a Simão para resistir ao golpe, e guardar-lhe constancia através dos trabalhos que succedessem. Depois vestiu-se, comprimindo contra o seio um embrulho em que levava o tinteiro, o papel, e o massête das cartas de Simão. Sahiu do seu quarto, relanceando os olhos lagrimosos para o painel da Virgem, e encontrando o pae, pediu-lhe licença para levar comsigo aquella devota imagem.

—Lá irá ter—respondeu elle.—Se tivesse tanta vergonha como devoção, seria mais feliz do que ha de ser.

Uma das primas, irmãs de Balthazar, chamou-a de parte, e segredou-lhe:

—Ó menina! estava ainda na tua mão dares remedio á desordem d'esta casa…

—Qual remedio?!—perguntou Thereza com artificial seriedade.

—Diz a teu pae que não duvidas casar com o mano Balthazar.

—O primo Balthazar não me quer—replicou ella, sorrindo.

—Quem te disse isso, Therezinha?

—Disse-m'o meu pae.

—Deixa fallar teu pae, que está desatinado com o amor que te tem.
Queres tu que eu lhe falle?

—Para que?

—Para se remediar d'este modo a desgraça de todos nós.

—Estás a brincar, prima!—redarguiu Thereza.—Eu hei de ser tua cunhada, quando não tiver coração. Teu mano tem a certeza de que eu amo outro homem. Queria viver para elle; mas se quizerem que eu morra por elle, abençoarei todos os meus algozes. Pódes dizer isto ao primo Balthazar, e diz-lh'o antes que te esqueça.

—Então, vamos?!—disse o velho.

—Estou prompta, meu pae.

Abriu-se a portaria do mosteiro. Thereza entrou sem uma lagrima. Beijou a mão de seu pae, que elle não ousou recusar-lhe na presença das freiras. Abraçou suas primas, com semblante de regosijo; e, ao fechar-se a porta, exclamou, com grande espanto das monjas:

—Estou mais livre que nunca. A liberdade do coração é tudo.

As freiras olharam-se entre si, como se ouvissem na palavra «coração» uma heresia, uma blasphemia proferida na casa do Senhor.

—Que diz a menina?!—perguntou a prioreza, fitando-a por cima dos oculos, e apanhando no lenço escarlate a distillação do esturrinho.

—Disse eu que me sentia aqui muito bem, minha senhora.

—Não diga minha senhora—atalhou a escrivã.

—Como hei de dizer?

—Diga «nossa madre prioreza.»

—Pois sim, nossa madre prioreza, disse eu que me sentia aqui muito bem.

—Mas quem vem para estas casas de Deus não vem para se sentir bem—tornou a nossa madre prioreza.

—Não?!—disse Thereza com sincera admiração.

—Quem para aqui vem, menina, ha de mortificar o espirito, e deixar lá fóra as paixões mundanas. Ora pois! Aqui está a nossa madre mestra de noviças, a quem compete encaminhal-a e dirigil-a.

Thereza não redarguiu: fez um gesto de respeito á mestra de noviças, e seguiu o caminho que a prelada lhe ia indicando.

A nossa madre entrou nos seus aposentos, e disse a Thereza que era sua hospeda em quanto alli estivesse; e ajuntou que não sabia se seu pae escolheria aquelle convento ou outro.

—Que importa que seja um ou outro?—disse Thereza.

—É conforme. Seu pae póde querer que a menina professe em ordem rica das bentas ou bernardas.

—Professe!—exclamou Thereza.—Eu não quero ser freira aqui, nem n'outra parte.

—A senhora ha de ser o que seu pae quizer que seja.

—Freira!? a isso não póde ninguem obrigar-me!—recalcitrou Thereza.

—Isso assim é—retorquiu a prioreza—mas como a menina tem de noviciado um anno, sobra-lhe tempo para se habituar a esta vida, e verá que não ha vida mais descansada para o corpo, nem mais saudavel para a alma.

—Mas a nossa madre—tornou Thereza, sorrindo, como se a ironia lhe fosse habitual—já disse que a estas casas ninguem vem para se sentir bem…

—É um modo de fallar, menina. Todos temos as nossas mortificações e obrigações de côro e de serviços para que nem sempre o espirito está bem disposto. Ora vês-a-hi. Mas em comparação do que lá vai pelo mundo, o convento é um paraizo. Aqui não ha paixões nem cuidados que tirem o somno, nem a vontade de comer, bemdito seja o Senhor! Vivemos umas com as outras, como Deus com os anjos. O que uma quer, querem todas. Más linguas é coisa que a menina não ha de achar aqui, nem intriguistas, nem murmurações de soalheiro. Emfim, Deus fará o que fôr servido. Eu vou á cosinha buscar a ceia da menina, e já volto. Aqui a deixo com a senhora madre organista, que é uma pomba, e com a nossa mestra de noviças, que sabe dizer melhor que eu o que é a virtude n'estas santas casas.

Apenas a prioreza voltou costas, disse a organista á mestra de noviças:

—Que grande impostora!

—E que estupida!—acudiu a outra.—A menina não se fie n'esta trapalhona, e veja se seu pae lhe dá outra companhia em quanto cá estiver, que a prioreza é a maior intriguista do convento. Depois que fez sessenta annos, falla das paixões do mundo como quem as conhece por dentro e por fóra. Em quanto foi nova, era a freira que mais escandalos dava na casa; depois de velha era a mais ridicula, porque ainda queria amar e ser amada; agora, que está decrepita, anda sempre este mostrengo a fazer missões, e a curar indigestões.

Thereza, apesar de sua dôr, não pôde reprimir uma risada, lembrando-se da vida de Deus com anjos que as esposas do Senhor alli viviam, no dizer da madre prioreza.

Pouco depois entrou a prelada com a ceia, e sahiram as duas freiras.

—Que lhe pareceram as duas religiosas que ficaram com a menina?—disse ella a Thereza.

—Pareceram-me muito bem.

A velha distendeu os beiços matizados de meandros de esturrinho liquido, e regougou:

Hum!… está feito, está feito!… Ainda não são das peores; mas, se fossem melhores, não se perdia nada… Ora vamos a isto, menina; aqui tem duas pernas de gallinha, e um caldo que o podem comer os anjos.

—Eu não cômo nada, minha senhora—disse Thereza.

—Ora essa! não come nada!? Ha de comer; sem comer ninguem resiste. Paixões!… que as leve o porco-sujo!… As mulheres é que ficam logradas, e elles não tem que perder!… Que eu cá de mim, até ao presente, Deus louvado, não sei o que sejam paixões; mas quem tem cincoenta e cinco annos de convento, tem muita experiencia do que vê penar ás outras doidibanas. E para não ir mais longe, estas duas, que d'aqui sahiram, tem pagado bem o seu tributo á asneira, Deus me perdôe se pécco. A organista tem já os seus quarenta bons, e ainda vai ao locutorio derreter-se em finezas; a outra, apesar de ser mestra de noviças á falta d'outra que quizesse sêl-o, se eu lhe não andasse com o olho em cima, estragava-me as raparigas…

Este edificante discurso de caridade foi interrompido pela madre escrivã que vinha, palitando os dentes, pedir á prelada um copinho de certo vinho estomacal com que todas as noites era brindada.

—Estava eu a dizer a esta menina as peças que são a organista e a mestra—disse a prioreza.

—Oh! são para o que lhe eu prestar! Lá foram ambas para a cella da porteira. A esta hora está a menina a ser cortada por aquellas linguas, que não perdoam a ninguem.

—Vaes tu vêr se ouves alguma coisa, minha flôr?—disse a prelada.

A escrivã, contente da missão, foi imperceptivelmente ao longo dos dormitorios até parar a uma porta que não vedava o ruido estridente das risadas.

No entanto dizia a prelada a Thereza:

—Esta escrivã não é má rapariga: só tem o defeito de se tomar da pinguleta; depois não ha quem a ature. Tem uma boa tença, mas gasta tudo em vinho, e tem occasiões de entrar no côro a fazer ss, que é mesmo uma desgraça. Não tem outro defeito; é uma alma lavada, e amiga da sua amiga. É verdade que ás vezes… (aqui a prelada ergueu-se a escutar nos dormitorios, e fechou por dentro a porta) é verdade que, ás vezes, quando anda azuratada, dá por paus e por pedras, e descobre os defeitos das suas amigas. A mim já ella me assacou um aleive, dizendo que eu, quando sahia a ares, não ia só a ares, e andava por lá a fazer o que fazem as outras. Forte pouca vergonha! Lá que outra fallasse, vá; mas ella, que tem sempre uns namorados pandilhas que bebem com ella na grade, isso lá me custa; mas, emfim, não ha ninguem perfeito!… Boa rapariga é ella… Se não fosse aquelle maldito vicio…

Como tocasse ao côro n'esta occasião, a veneranda prioreza bebeu o segundo calice do vinho estomacal, e disse a Thereza que a esperasse um quarto de hora, que ella ia ao côro, e pouco se demoraria. Tinha ella sahido, quando a escrivã entrou a tempo que Thereza, com as mãos abertas sobre a face, dizia em si: «Um convento, meu Deus! isto é que é um convento!»

—Está sósinha?—disse a escrivã.

—Estou, minha senhora.

—Pois aquella grosseira vai-se embora, e deixa uma hospeda sósinha? Bem se vê que é filha de funileiro!… Pois tinha tempo de ter prática do mundo, que tem andado por lá que farte… Pois eu havia de ir ao côro; mas não vou para lhe fazer companhia, menina.

—Vá, vá, minha senhora, que eu fico bem sósinha—disse Thereza, com a esperança de poder desafogar em lagrimas a sua afflicção.

—Não vou, não!… A menina aqui estarrecia de mêdo; mas a prelada não tarda ahi. Ella, se póde escapar-se do côro, não pára lá muito tempo. A apostar que ella lhe esteve a fallar mal de mim?

—Não, minha senhora, pelo contrario…

—Ora diga a verdade, menina! Eu sei que esta cegonha não falla bem de ninguem. Para ella tudo são libertinas e bebadas.

—Nada, não, minha senhora; nada me disse a respeito d'alguma freira.

—E se disse, deixal-a dizer. Ella o vinho não o bebe, suga-o, é uma esponja viva. Em quanto a libertinagem, tomára eu tantos mil cruzados como de amantes ella tem tido! Faz lá uma pequena ideia, menina!…

A escrivã bebeu um calice de vinho da sua prelada, e continuou:

—Faz lá uma pequena ideia! Ella é velhissima como a sé. Quando eu professei já ella era velha como agora, com pouca differença. Ora, eu sou freira ha vinte e seis annos; calcule a menina quantas arrobas de esturrinho ella tem atulhado n'aquelles narizes! Pois olhe, quer me creia, quer não, tenho-lhe conhecido mais de uma duzia de chichisbeos, não fallando no padre capellão, que esse ainda agora lhe fornece a garrafeira, á nossa custa, entende-se. É uma dissipadora dos rendimentos da casa. Eu, que sou escrivã, é que sei o que ella rouba. Eu tenho immensa pena de vêr a menina hospedada em casa d'esta hypocrita. Não se deixe levar das imposturices d'ella, meu anjinho. Eu sei que seu pae lhe mandou fallar, e a encarregou de a não deixar escrever, nem receber cartas; mas olhe, minha filha, se quizer escrever, eu dou-lhe tinteiro, papel, obreias e o meu quarto, se para lá quizer ir escrever. Se tem alguem que lhe escreva, diga-lhe que mande as cartas em meu nome; eu chamo-me Dionizia da Immaculada Conceição.

—Muito agradecida, minha senhora—disse Thereza, animada pelo offerecimento.—Quem me déra poder mandar um recado a uma pobre que mora no bêcco do…

—O que quizer, menina. Eu mando lá logo que fôr dia. Esteja descansada. Não se fie de alguem, senão de mim. Olhe que a mestra de noviças e a organista são duas falsas. Não lhe dê trela, que, se as admitte á sua confiança, está perdida. Ahi vem a lêsma… Fallemos n'outra coisa…

A prelada vinha entrando, e a escrivã proseguiu assim:

—Não ha, não ha nada mais agradavel que a vida do convento, quando se tem a fortuna de ter uma prelada como a nossa… Ai! eras tu, menina? Olha, se estivessemos a fallar mal de ti!

—Eu sei que tu nunca fallas mal de mim—disse a prelada, piscando o olho a Thereza.—Ahi está essa menina que diga o que eu lhe estive a dizer das tuas boas qualidades…

—Pois o que eu disse de ti—respondeu soror Dionizia da Immaculada Conceição—não precisas de perguntar, porque felizmente ouviste o que eu estava dizendo. Oxalá que se podesse dizer o mesmo das outras que deshonram a casa, e trazem aqui tudo intrigado n'uma meada, que é mesmo coisa de peccado.

—Então não vaes ao côro, nini?—tornou a prioreza.

—Já agora é tarde… Tu absolves-me da falta, sim?

—Absolvo, absolvo; mas dou-te como penitencia beberes um copinho…

—Do estomacal?

—Podéra…

Dionizia cumpriu a penitencia, e sahiu para, dizia ella, deixar a prelada na sua hora de oração.

Não delongaremos esta amostra do evangelico e exemplar viver do convento, onde Thadeu de Albuquerque mandára sua filha a respirar o purissimo ar dos anjos, em quanto se lhe preparava crysol, mais depurador dos sedimentos do vicio, no convento de Monchique.

Encheu-se o coração de Thereza de amargura e nojo n'aquellas duas horas de vida conventual. Ignorava ella que o mundo tinha d'aquillo. Ouvira fallar dos mosteiros como de um refugio da virtude, da innocencia e das esperanças immorredoiras. Algumas cartas lêra de sua tia, prelada em Monchique, e por ellas formára conceito do que devia ser uma santa. D'aquellas mesmas dominicanas, em cuja casa estava, ouvira dizer ás velhas e devotas fidalgas de Vizeu virtudes, maravilhas de caridade, e até milagres. Que desillusão tão triste e ao mesmo tempo que ancia de fugir d'alli!

A cama de D. Thereza estava na mesma cella da prioreza em alcova separada, com cortinas de cassa.

Quando a prelada lhe disse que podia deitar-se querendo, perguntou-lhe a menina se poderia escrever a seu pae. A freira respondeu que no dia seguinte o faria, posto que o senhor Albuquerque ordenasse que sua filha não escrevesse: assim mesmo, ajuntou ella, que lh'o não prohibiria, se tivesse tinteiro e papel na cella.

Thereza deitou-se, e a prelada ajoelhou diante d'um oratorio, rezando a corôa a meia voz. Se o murmurio da oração infadasse a hospeda, não teria ella muita razão de queixa, por que a devota monja ao segundo Padre-Nosso cabeceava de modo que já não atinou com a primeira Áve-Maria. Levantou-se, cambaleando uma mesura ás imagens do sanctuario, foi deitar-se, e pegou a ressonar.

Thereza afastou subtilmente as cortinas do seu quarto, e tirou de entre o seu fato o tinteiro de tarraxa e o papel.

A lampada do oratorio lançava um froixo raio sobre a cadeira, em que Thereza pozera os seus vestidos. Desceu da cama, ajoelhou ao pé da cadeira, e escreveu a Simão, relatando-lhe miudamente os successos d'aquelle dia. A carta rematava assim:

«Não receies nada por mim, Simão. Todos estes trabalhos me parecem leves, se os comparo ao que tens padecido por amor de mim. A desgraça não abala a minha firmeza, nem deve intimidar os teus projectos. São alguns dias de tempestade, e mais nada. Qualquer nova resolução que meu pae tome, dir-t'a-hei logo podendo, ou quando podér. A falta das minhas noticias deves attribuil-a sempre ao impossivel. Ama-me assim desgraçada, porque me parece que os desgraçados são os que mais precisam de amor e de conforto. Vou vêr se posso esquecer-me dormindo. Como isto é triste, meu querido amigo!… Adeus.»

VIII.

Marianna, a filha de João da Cruz, quando viu seu pae pensar a chaga do braço de Simão, perdeu os sentidos. O ferrador riu estrondosamente da fraqueza da moça, e o academico achou estranha sensibilidade em mulher affeita a curar as feridas com que seu pae vinha laureado de todas as feiras e romarias.

—Não ha ainda um anno que me fizeram tres buracos na cabeça, quando eu fui á Senhora dos Remedios a Lamego, e foi ella que me tosqueou e rapou o casco á navalha—disse o ferrador.—Pelo que vejo o sangue do fidalgo deu volta ao estomago da rapariga!… Estamos então bem aviados! Eu tenho cá a minha vida, e queria que ella fosse a enfermeira do meu doente…. És ou não és, rapariga?—disse elle á filha, quando ella abriu os olhos, com rosto de corrida da sua fraqueza.

—Serei com muito gosto, se o pae quizer.

—Pois então, moça, se hás de ir costurar para a varanda, vem aqui para a beira do senhor Simão. Dá-lhe caldos a miudo; e trata-lhe da ferida; vinagre e mais vinagre, quando ella estiver assim a modo de roixa. Conversa com elle, não o deixes estar a malucar, nem escrever muito, que não é bom quando se está fraco do miôlo. E v. s.^a não tenha aquellas de ceremonia, nem me diga a Marianna—a menina isto, a menina aquillo. É—rapariga dá cá um caldo; rapariga, lava-me o braço, dá cá as compressas—e nada de politicas. Ella está aqui como sua criada, porque eu já lhe disse que, se não fosse o pae de v. s.^a, já ella ha muito tempo que andava por ahi ás esmolas, ou peor ainda. É verdade que eu podia deixar-lhe uns bensinhos, ganhos alli a suar na bigorna ha dez annos, afóra uns quatrocentos mil reis que herdei de minha mãe, que Deus haja; mas v. s.^a bem sabe que, se eu fosse á forca ou pela barra fóra, vinha a justiça, e tomava conta de tudo para as custas.

—Se vocemecê tem uma casinha soffrivel—atalhou Simão—póde, querendo, casar a sua filha n'uma boa casa de lavoira.

—Assim ella quizesse. Maridos não lhe faltam; até o alferes da igreja a queria, se eu lhe fizesse doação de tudo, que pouco é, mas ainda vale quatro mil cruzados bons; o caso é que a moça não tem querido casar, e eu, a fallar a verdade, sou só e mais ella, e tambem não tenho grande vontade de ficar sem esta companhia, para quem trabalho como moiro. Se não fosse ella, fidalgo, muita asneira tinha eu feito! Quando vou ás feiras ou romarias, se a levo comigo, não bato, nem apanho; indo sósinho, é desordem certa. A rapariga já conhece quando a pinga me sobe ao capacete do alambique, pucha-me pela jaqueta, e por bons modos põe-me fóra do arraial. Se alguem me chama para beber mais um quartilho, ella não me deixa ir, e eu acho graça á obediencia com que me deixo guiar pela moça, que me pede que não vá por alma da mãe. Eu cá, em ella me pedindo por alma da minha santa mulher, já não sei de que freguezia sou.

Marianna ouvia o pae, escondendo meio rosto no seu alvissimo avental de linho. Simão estava-se gosando na simpleza d'aquelle quadro rustico, mas sublime de poesia e naturalidade.

João da Cruz foi chamado para ferrar um cavallo, e despediu-se n'estes termos:

—Tenho dito, rapariga; aqui te entrego o nosso doente: trata-o como quem é, e como se fosse teu irmão ou marido.

O rosto de Marianna acerejou-se quando aquella ultima palavra sahiu, natural como todas, da bôca de seu pae.

A moça ficou encostada ao batente da alcova de Simão.

—Não foi nada boa esta praga que lhe cahiu em casa, Marianna!—disse o academico—Fazerem-na enfermeira d'um doente, e privarem-na talvez de ir costurar na sua varanda, e conversar com as pessoas que passam….

—Que se me dá a mim d'isso!—respondeu ella, sacudindo o avental, e baixando o coz ao logar da cintura com infantil graça.

—Sente-se, Marianna; seu pae disse-lhe que se sentasse… Vá buscar a sua costura, e dê-me d'alli uma folha de papel e um lapis que está na carteira.

—Mas o pae tambem me disse que o não deixasse escrever…—replicou ella, sorrindo.

—Pouco, não faz mal. Eu escrevo apenas algumas linhas.

—Veja lá o que faz…—tornou ella, dando-lhe o papel e o lapis—Olhe se alguma carta se perde, e se descobre tudo…

—Tudo, o quê, Marianna? Pois sabe alguma coisa?!

—Era preciso que eu fosse tola. Eu não lhe disse já que sabia da sua amizade a uma menina fidalga da cidade?

—Disse; mas que tem isso?

—Aconteceu o que eu receava. V. s.^a está ahi ferido, e toda a gente falla n'uns homens que appareceram mortos.

—Que tenho eu com os homens que appareceram mortos?

—Para que está a fingir-se de novas?! Pois eu não sei que esses homens eram criados do primo da tal senhora? Parece que v. s.^a desconfia de mim, e está a querer guardar um segredo que eu tomára que ninguem soubesse, para que meu pae e o senhor Simão não tenham alguns maiores trabalhos…

—Tem razão, Marianna, eu não devia esconder de si o mau encontro que tivemos…

—E Deus queira que seja o ultimo!… Tanto tenho pedido ao Senhor dos Passos que lhe dê remedio a essa paixão!… O peor futuro eu que ainda está por passar…

—Não, menina, isto acaba assim: eu vou para Coimbra, logo que esteja bom, e a menina da cidade fica em sua casa.

—Se assim fôr, já prometti dois arrateis de cêra ao Senhor dos Passos; mas não me diz o coração que v. s.^a faça o que diz…

-Muito agradecido lhe estou-disse Simão commovido—pelo bem que me deseja. Não sei o que lhe fiz para lhe merecer a sua amizade.

—Basta vêr o que seu paesinho fez pelo meu—disse ella, limpando as lagrimas.—O que seria de mim, se me elle faltasse, e se fosse á forca como toda a gente dizia!… Eu era ainda muito nova quando elle estava na enxovia. Teria treze annos; mas estava resolvida a atirar-me ao poço, se elle fosse condemnado á morte. Se o degradassem, então ia com elle, ia morrer onde elle fosse morrer. Não ha dia nenhum que eu não peça a Deus que dê a seu pae tantos prazeres como estrellas tem o ceo. Fui de proposito á cidade para beijar os pés a sua mãesinha, e vi suas manas, e uma, que era a mais nova, deu-me uma saia de lapim, que eu ainda alli tenho guardada como uma reliquia. Depois, cada vez que ia á feira, dava uma grande volta para vêr se acertava de encontrar a senhora D. Ritinha á janella; e muitas vezes vi o senhor Simão. E talvez não saiba que eu estava a beber na fonte, quando v. s.^a, ha dois para tres annos, deu muita pancada nos criados, que era mesmo um reboliço que parecia o fim do mundo. Eu vim contar ao pae, e elle até cahiu ao chão a dar risadas como um doido… Depois nunca mais o vi senão quando v. s.^a entrou com o tio de Coimbra; mas já sabia que vinha para esta desgraça, porque tinha tido um sonho, em que via muito sangue, e eu estava a chorar, porque via uma pessoa muito minha amiga a cahir n'uma cova muito funda…

—Isso são sonhos, Marianna…

—São sonhos, são; mas eu nunca sonhei nada que não acontecesse. Quando meu pae matou o almocreve, tinha eu sonhado que o via a dar um tiro n'outro homem; antes de minha mãe morrer, acordei eu a chorar por ella, e mais ainda viveu dois mezes… A gente da cidade ri-se dos sonhos; mas Deus sabe o que isto é… Ahi vem meu pae… Senhor dos Passos! não vá ser alguma má nova!…

João da Cruz entrou com uma carta que recebêra da pobre do costume. Em quanto Simão leu a carta escripta do convento, Marianna fitou os seus grandes olhos azues no rosto do academico, e a cada contracção da fronte d'elle, angustiava-se-lhe a ella o coração. Não teve mão da sua ancia, e perguntou:

—É noticia má!

—Tu és muito atrevida, rapariga!—disse João da Cruz.

—Não é, não—atalhou o estudante.—Não é má a noticia, Marianna. Senhor João, deixe-me ter na sua filha uma amiga, que os desgraçados é que sabem avaliar os amigos.

—Isso é verdade; mas eu não me atrevia a perguntar o que a carta diz.

—Nem eu perguntei, meu pae; foi porque me pareceu que o senhor Simão estava afflicto quando lia.

—E não se enganou—tornou o doente, voltando-se para o ferrador.—O pae arrastou Thereza ao convento.

—Sempre é patife d'uma vez!—disse o ferrador, fazendo com os braços instinctivamente um movimento de quem aperta entre as mãos um pescoço. N'este lance um observador perspicaz veria luzir nos olhos de Marianna um clarão de innocente alegria.

Simão sentou-se, e escreveu sobre uma cadeira, que Thereza espontaneamente lhe chegou, dizendo:

—Em quanto escreve, vou olhar pelo caldinho, que está a ferver.

«É necessário arrancar-te d'ahi—dizia a carta de Simão.—Esse convento ha de ter uma evasiva. Procura-a, e diz-me a noite e a hora em que devo esperar-te. Se não podéres fugir, essas portas hão de abrir-se diante da minha cólera. Se d'ahi te mandarem para outro convento mais longe, avisa-me, que eu irei sósinho, ou acompanhado, roubar-te ao caminho. É indispensavel que te refaças de animo para te não assustarem os arrojos da minha paixão. És minha; não sei de que me serve a vida se a não sacrificar a salvar-te. Creio em ti, Thereza, creio. Ser-me-has fiel na vida e na morte. Não soffras com paciencia; lucta com heroismo. A submissão é uma ignominia, quando o poder paternal é uma affronta. Escreve-me a toda a hora que possas. Eu estou quasi bom. Diz-me uma palavra, chama-me, e eu sentirei que a perda do sangue não diminue as forças do coração.»

Simão pediu a sua carteira, tirou dinheiro em prata, deu-o ao ferrador, e recommendou-lhe que o entregasse á pobre com a carta.

Depois ficou relendo a de Thereza, e recordando-se da resposta que déra.

Mestre João foi á cosinha, e disse a Marianna:

—Desconfio d'uma coisa, rapariga.

—Que é, meu pae?

—O nosso doente está sem dinheiro.

—Porquê? o pae como sabe isso?

—É que elle pediu-me a carteira para tirar dinheiro, e ella pezava tanto como uma bexiga de porco cheia de vento. Isto bole-me cá por dentro! Queria offerecer-lhe dinheiro, e não sei como ha de ser…

—Eu pensarei n'isso, meu pae—disse Marianna reflectindo.

—Pois sim; cogita lá tu, que tens melhores ideias que eu.

—E se o pae não quizer bolir nos seus quatrocentos, eu tenho aquelle dinheiro dos meus bezerros; são onze moedas d'ouro menos um quarto.

—Pois fallaremos: pensa tu no modo de elle aceitar sem remorsos.

Remorsos, na linguagem pouco castigada de mestre João, era synonimo de escrupulos ou repugnancia.

Foi Marianna levar o caldo a Simão, que lh'o rejeitou como distrahido em profundo scismar.

—Pois não toma o caldinho?—disse ella com tristeza.

—Não posso, não tenho vontade, menina; será logo. Deixe-me sósinho algum tempo; vá, vá; não passe o seu tempo ao pé d'um doente aborrecido.

—Não me quer aqui? irei, e voltarei quando v. s.^a chamar.

Dissera isto Marianna com os olhos a reverem lagrimas.

Simão notou as lagrimas, e pensou um momento na dedicação da môça; mas não lhe disse palavra alguma.

E ficou pensando na sua espinhosa situação. Deviam de occorrer-lhe ideias afflictivas, que os romancistas raras vezes attribuem aos seus heroes. No romance todas as crises se explicam, menos a crise ignobil da falta de dinheiro. Entendem os novellistas que a materia é baixa e plebea. O estylo vai de má vontade para coisas razas. Balzac falla muito em dinheiro; mas dinheiro a milhões: não conheço, nos cincoenta livros que tenho d'elle, um galã n'um entre-acto da sua tragedia a scismar no modo de arranjar uma quantia com que pague ao alfaiate, ou se desembarace das rêdes que um usurario lhe lança, desde a casa do juiz de paz a todas as esquinas, d'onde o assaltam o capital e juro de oitenta por cento. D'isto é que os mestres em romances se escapam sempre. Bem sabem elles que o interesse do leitor se gela a passo igual que o heroe se encolhe nas proporções d'estes heroesinhos de botequim, de quem o leitor dinheiroso foge por instincto, e o outro foge tambem, porque não tem que fazer com elle. A coisa é vilmente prosaica, de todo o meu coração o confesso. Não é bonito o deixar a gente vulgarisar-se o seu heroe a ponto de pensar na falta de dinheiro, um momento depois que escreveu á mulher estremecida uma carta, como aquella de Simão Botelho. Quem a lêsse diria que o rapaz tinha postadas, em differentes estações das estradas do paiz, carroças e folgadas parelhas de mulas, para transportarem a Paris, a Veneza, ou ao Japão a bella fugitiva! As estradas, n'aquelle tempo, deviam ser boas para isso; mas não tenho a certeza de que houvessem estradas para o Japão. Agora creio que ha, porque me dizem que ha tudo.

Pois eu já lhes fiz saber, leitores, pela bôca de mestre João, que o filho do corregedor não tinha dinheiro. Agora lhes digo que era em dinheiro que elle scismava quando Marianna lhe trouxe o caldo rejeitado.

A meu vêr, deviam attribulal-o estes pensamentos:

Como pagaria a hospitalidade de João da Cruz?

Com que agradeceria os desvelos de Marianna?

Se Thereza fugisse, com que recursos proveria á subsistencia de ambos!

Ora, Simão Botelho sahira de Coimbra com a sua mesada, que não era grande, e quasi lh'a absorvêra o aluguel da cavalgadura, e a groseta generosa que déra ao arreeiro, a quem devia o conhecimento do prestante ferrador.

As reliquias d'esse dinheiro déra-as elle á portadora da carta n'aquelle dia. Má situação!

Lembrou-se de escrever á mãe. Que lhe diria elle? Como explicaria a sua residencia n'aquella casa? D'este modo não iria elle dar indicios da morte mysteriosa dos dois criados de Balthazar Coutinho?

Além de que, sobejamente sabia elle que sua mãe o não amava; e, a mandar-lhe algum dinheiro em segredo, seria escassamente o necessario para a jornada até Coimbra. Péssima situação!

Cansado de pensar, favoreceu-o a providencia dos infelizes com um somno profundo.

E Marianna entrára pé ante pé na sala, e ouvindo-lhe a respiração alta, aventurou-se a entrar na alcova. Lançou-lhe um lenço de cassa sobre o rosto, em roda do qual zumbia um enxame de moscas. Viu a carteira sobre uma banqueta que adornava o quarto, pegou d'ella, e sahiu pé ante pé. Abriu a carteira, viu papeis, que não soube lêr, e n'um dos repartimentos duas moedas de seis vintens. Foi restituir a carteira ao seu logar, e tomou d'um cabide as calças, collête, e jaqueta á hespanhola, do hospede. Examinou os bolsos, e não encontrou um ceitil.

Retirou-se para um canto escuro do sobrado, e meditou. Esteve meia hora assim, e meditava angustiada a nobre rapariga. Depois ergueu-se de golpe, e conversou longo tempo com o pae. João da Cruz escutou-a, contrariou-a; mas ia de vencida sempre pelas replicas da filha; até que, a final, disse:

—Farei o que dizes, Marianna. Dá-me cá o teu dinheiro, que não vou agora levantar a pedra da lareira para bolir no caixote dos quatrocentos mil reis. Tanto faz um como outro: teu é elle todo.

Marianna deu-se pressa em ir á arca, d'onde tirou uma bolsa de linho com dinheiro em prata, e alguns cordões, anneis e arrecadas. Guardou o seu oiro n'uma boceta, e deu a bolsa ao pae.

João da Cruz apparelhou a egoa, e sahiu. Marianna foi para a sala do doente.

Acordou Simão.

—Não sabe!?—exclamou ella com semblante entre alegre e assustado, perfeitamente contrafeito.

—Que é, Marianna?

—Sua mãesinha sabe que v. s.^a aqui está.

—Sabe?! isso é impossivel! quem lh'o disse?

—Não sei; o que sei é que ella mandou chamar meu pae.

—Isso espanta-me!… E não me escreveu?

—Não, senhor!… Agora me lembro que talvez ella soubesse que o senhor aqui esteve, e cuide que já não está, e por isso lhe não escreveu… Poderá ser?

—Poderá; mas quem lh'o diria!? Se isto se sabe, então podem suspeitar da morte dos homens.

—Póde ser que não; e ainda que desconfiem, não ha testemunhas. O pae disse que não tinha mêdo nenhum. O que fôr, soará. Não esteja agora a scismar n'isso… Vou-lhe buscar o caldinho, sim?

—Vá, se quer, Marianna. O ceu deparou-me em si a amizade de uma irmã.

Não achou a moça na sua alegre alma palavras em resposta á doçura que o rosto do mancebo exprimira.

Veio com o «caldinho» diminuitivo que a rhetorica d'uma linguagem meiga approva; mas contra o qual protestava a larga e funda malga branca, a par da travessa com meia gallinha loira de gorda.

—Tanta coisa!—exclamou, sorrindo, Simão.

—Coma o que podér—disse ella córando.—Eu bem sei que os senhores da cidade não comem em malgas tamanhas, mas eu não tinha outra mais pequena, e coma sem nojo, que esta nunca serviu, que a fui eu comprar á loja, por pensar que v. s.^a não quizera hontem comer por se atrigar da outra.

—Não, Marianna, não seja injusta, eu não comi hontem pela mesma razão que não cômo agora: não tinha, nem tenho vontade.

—Mas coma por eu lhe pedir… Perdôe o meu atrevimento… Faça de conta que é uma sua irmã que lhe pede. Ainda agora me disse…

—Que o ceu me dava em si a amizade d'uma irmã…

—Pois ahi está…

Simão achou tão necessario á sua conservação o sacrificio, como ao contentamento da carinhosa Marianna. Passou-lhe na mente, sem sombra de vaidade, a conjectura de que era amado d'aquella dôce creatura. Entre si disse que seria uma crueza mostrar-se conhecedor de tal affeição, quando não tinha alma para lh'a premiar, nem para lhe mentir. Assim mesmo, bem longe de se affligir, lisongeavam-o os desvelos da gentil moça. Ninguem sente em si o pêso do amor que inspira e não comparte. Nas maximas afflicções, nas derradeiras horas do coração e da vida, é grato ainda sentir-se amado quem já não póde achar no amor diversão das penas, nem soldar o ultimo fio que se está partindo. Orgulho ou insaciabilidade do coração humano, seja o que fôr, no amor, que nos dão, é que nós graduamos o que valemos em nossa consciencia.