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Amor de Salvação

Chapter 15: XIII
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About This Book

This work explores the complexities of love, contrasting the themes of pure and impure affection. It delves into the misfortunes associated with misguided love, emphasizing that true redemption often arises from suffering and moral struggle. The narrative suggests that while happiness may be fleeting and less documented, the journey through turmoil is essential for personal growth and the eventual embrace of honorable love. The author reflects on the nature of love as a transformative force, illustrating that even through despair, one can find a path to salvation and renewal.

—E que lêr—ajuntou Affonso de Teive—continúa, se queres.

Perfilei as minhas faculdades intelligentes, e segui a leitura:

«A contas, homem de ferro, que endureceste o teu fragil barro d'outro tempo ao fogo de baixas paixões, a contas com a mulher desprezivel!

«Que fazias tu, quando eu me estorcia de saudades de ti, e dôres do meu captiveiro, dentro das grades das Ursulinas?

«Quando soubeste que a tyrannia me fechava a sete chaves n'uma cella, e me media os atomos de ar, que eu respirava a furto, que fazias tu para resgatar os quinze annos d'uma mulher que queria o sol das flôres, das aves, dos mendigos, do ultimo verme que se arrasta e cumpre o seu destino debaixo dos olhos de Deus?»

—Parece-me, reflecti eu, que esta senhora arredonda ambiciosamente os periodos, meu caro Affonso; e, se me dás licença, direi que ha estylo de mais n'este periodo!... Estou morto por te perguntar que impressão te fazia isto ha quinze annos!...

«Lê, e no fim fallaremos—disse Affonso. E eu li:

«Não respondas. A vil, a abjecta, a desgraçada é generosa. Não respondas. Ri, e escuta.

«Abandonada por ti, enganada, não sei por que nem com que fim, por tua mãe, achei-me fraca para cruzar os braços, e esperar a morte. Á borda do abysmo, vi uma tabua de salvação. Sabia que, segurando-me n'ella, as mãos se rasgariam em chagas incuraveis. Sabia-o; mas agarrei-me á tabua de salvação. Escutei a desgraça; que não tinha outro anjo, nem outro demonio que me aconselhasse. Escutei-a, e aceitei o marido que ella me deu. Perdi-me para a vida da alma; mas encontrei a vida dos olhos e dos ouvidos, e do seio, onde me roia a serpente da soledade e do desabrigo.

«Vi arvores, vi estrellas, ouvi os canticos da terra e os amorosos murmurios da natureza festiva. No centro do mundo era eu a unica mulher sem mãe, sem pae, sem amigo, sem coração que se abrisse ás cinzas do meu. Não importa. Via o sol no firmamento; e para além do sol, a infinita luz dos que bem-disseram a mão do Senhor que, á sua vontade, desdobra um crepe de trevas sobre os corações, que, em sua innocencia, não ousam interrogal-o como Job!»

—De mais a mais—reflecti eu—lida nos livros sagrados!... Posso, sem indiscrição, perguntar se a authora d'esta carta morreu ou vive escorreitamente?

«Espera que a concatenação dos factos te elucide—respondeu Affonso.

Prosegui, lendo, com espanto maior que o meu costume, se acerto de topar cousas escriptas por pessoas de juizo duvidoso:

«Trasbordou um dia a amargura de minha alma. Não sabia onde me levava a vertigem. Corri leguas. As arvores, que gemiam um som, as fontes que tinham uma voz, os trovões que estalavam do céo de bronze, as catadupas que bramiam no despinhadeiro, tudo me dizia o teu nome. Corri as montanhas que nos viram meninos; reconheci a fraga onde nossas mães se sentavam; orei á cruz de pedra, que está na quebrada da serra. E não te vi. Dous mezes te procurei, sem balbuciar o teu nome. E, quando ha um anno te avistei encostado ao hombro de tua mãe, a voz do meu orgulho de desgraçada disse-me: Se elle quizer que tu te percas por elle, amanhã não terás honra, nem familia, nem marido, nem creatura sobre a terra que te não insulte.

«E escrevi-te, Affonso! Aquelle papel era uma renunciação, aquellas palavras queriam dizer:—Dá-me a perdição como salvamento; dá-me a infamia como gloria; o mundo vai apedrejar-me, e eu cuidarei que elle me acclama virtuosa; todas as devassas me julgarão indignas d'ellas; e eu, contente da minha deshonra, estenderei benignamente a mão a todas as miseraveis, que m'a cuspirem.

«E tu, Affonso? Como me julgaste morta para a virtude, aproximaste-te do cadaver, pozeste-lhe sobre o peito um pé, calcaste, viste-lhe nos labios o sangue do coração, e escarraste-lhe!

«Voltei do outro mundo. A mulher, que viste ha pouco, era um phantasma. Os cabellos negros, que adornastes com tres flôres n'aquelles formosos quinze annos, cahiram-te aos pés. As flôres vem aradas do fogo do inferno. O phantasma voltou ás suas labaredas, para nunca mais te crestar o riso dos labios com as chammas dos seus olhos. Vai tu ao céo, e pede a Deus que me deixe adorar-te na eternidade das penas. Pede-lhe que me dê eternidade para a expiação, e eternidade para o amor. Adeus.»

Não sei bem dizer d'onde me vieram as lagrimas. Sei que terminei a leitura da carta, já quando os olhos mal discriminavam as letras.

Como a gente, ás vezes, chora?...

Era o estylo!

 

XI

Sorriu Affonso do meu melindroso sentimentalismo, retorceu destrahidamente os longos bigodes por sobre a barba listrada de fasciculos brancos, afogueou o seu cachimbo de barro negro, e continuou:

«Eu é que verdadeiramente chorava, quando acabei de lêr esse papel. Ficas sabendo a impressão que em mim fez a carta de Theodora. Não ha vergonha que eu omitta n'esta confissão geral. Sou o juiz do homem que fui. Julguei-me e condemnei-me ao opprobrio de levantar da lama o coração velho, e mostral-o com nausea ao enojo dos que vão passando...

—Mas eu não vejo ahi cousa indecorosa de que te envergonhes!...—atalhei.

«Vês, pelo menos, a baixeza do meu espirito, senão antes a crassa sandice de pensar que as accusações de Theodora estavam justificadas por essa frandulagem de palavras sonoras, e apostrophes melo-dramaticas. O castigo da minha miserrima estupidez virá depois... Lá chegaremos.

«Li terceira vez a carta, e abri a janella do meu quarto. O vento ramalhava nas carvalheiras, e o céo d'aquella noite não tinha uma estrella. Appeteci embrenhar-me na escuridão do arvoredo. Abri de manso a porta do meu quarto, e, pé ante pé, ganhei a varanda d'onde era facil o salto á rua. Acabava eu de saltar, quando do escuro de uma janella contigua á varanda, me surdiu a voz de Mafalda.—Não tinhas necessidade de saltar, primo—disse ella—Chamasses que se te abriam as portas.

«—Estás a pé ainda, minha prima?—perguntei eu, corrido da surpreza, e algum tanto contrariado da espionagem.—Nunca me deito mais cedo—respondeu ella com brandura—Quando as noites são assim tristes, gosto de as vêr... Está vento, primo;—continuou retirando-se—não estejas ahi ao ar desamparado. Boas noites.»

«E fechou rapidamente a janella.

«Encaminhei-me á alamêda dos banhos, na inepta esperança de vêr alli vestigios de Theodora, ou não sei se ella mesma. Não sei ao que ia. É impossivel explicar o intento que nos impelle em casos semelhantes, quando a gente, alguns annos depois, inquire de si mesmo o sentido das suas intenções: são actos estranhos á razão, dos quaes só póde desculpar-se o delírio. A verdade é que eu fui á alamêda, e andei, palmo a palmo, recordando-me do local em que ella me sahiu, e a direcção que tomára na retirada. Sentei-me n'um dos bancos de pedra, e conjecturei se ella teria estado alli sentada. Cerrei ouvidos a todos os rumores para escutar o som das palavras de Theodora, que me ecoavam do intimo coração. Atirei com a alma supplicante e desesperada áquelle céo de bronze, negro como ella. Pedia a Deus o esquecimento da mulher, com a vehemencia do justo atribulado que pede a corôa do triumpho.

«Levantei-me, e andei por as trevas, esbarrando nas arvores, e refrigerando o fogo da testa e mãos nas fontes e charcos que topava. Ao arraiar da manhã, estava eu nas raizes da Falperra. Senhoreou-me então um somno lethargico e invencivel. Adormeci com a face encostada á raiz d'uma arvore, e acordei, coberto de camarinhas de orvalho, ao calor dos primeiros raios do sol. Retrocedi pela estrada das Taipas, e entrei em casa, quando meu tio Fernão, admirado de minha falta, andava indagando dos criados, se eu sahira de madrugada.

«Mafalda appareceu-me com o semblante pallido, os olhos raiados do muito chorar, e o azul-violeta das olheiras carregado e distendido até meia-face. Meu tio ligeiramente alludiu á minha falta, na presença da filha. Sahimos da mesa de almoço, e entramos na sala, onde Mafalda recordava as suas musicas ao piano, e, algumas vezes, se acompanhava cantando. N'este dia, a adoravel penitente sentou-se ao piano; e, com uma só das mãos, dedilhou umas toadas monotonas, mas celestialmente saudosas e melancolicas. O velho acenou-me, a occultas da filha. Segui-o; sahimos, e caminhamos a pé na direcção das ruinas de Citania. A meio caminho estava uma casa alagada, com uns lanços de muro ainda em pé. O velho avisinhou-se das ruinas, estendeu o braço com o indicador apontado, e disse: Aquelles pardieiros pertenceram a teu tio-avô Christovão de Teive. N'aquelle tempo, os homens de vida infamada, quando os ultimos invernos lhe geavam na cabeça, e os sinos, dobrando a finados, lhes attrahiam os olhos para a sepultura, o remorso penetrava-os até ao amago, e estorcia-os nas roscas das suas mil viboras, até que Deus se amerceava d'elles, e os tomava para o seu tribunal. Teu tio-avô foi um mau desgraçado. O amor de uma mulher da côrte entrou-lhe no coração, e apodreceu-lh'o á força de lhe derrancar o sangue com as torturas da perfidia. O moço empestado veio para a provincia, e sevou o seu odio em quantas victimas pôde surprehender adormecidas no regaço do seu anjo de innocencia. Aos quarenta annos, pesou sobre elle a maldição de Deus. Desde a raiz dos cabellos até á raiz das unhas chagou-se-lhe o corpo de lepra. De repente, em redor d'elle fez-se uma solidão horrenda. Desampararam-no todos. Nem os engeitadinhos, indigitados como filhos d'elle, ousavam chegar-lhe um pucaro de agua. Christovão de Teive tinha esta casa, aqui afastada de visinhos, construida não sei para que fim ha tres seculos. Aqui se encerrou e viveu quinze annos aquelle vivo amortalhado nas ulceras da sua pelle. A sua companhia era a ama, que o amamentára, e que Deus, em recompensa, preservou da terribilissima enfermidade. Morreu o desamparado, legando esta casa á mulher que lhe cerrára as palpebras. A enfermeira foi depós elle, devolvendo a casa aos herdeiros de seu amo. Cincoenta annos depois, quando eu aqui vim, encontrei estes pardieiros. Dos nossos parentes ninguem poz pé a dentro das soleiras, que alli estão, onde existiram as portas...

«Deteve-se meu tio breves instantes, e concluiu:—Affonso, o divino Mestre doutrinava com parabolas: o homem d'estes calamitosos tempos moralisa com exemplos. Teu tio-avô começou como tu: vê tu, meu sobrinho, se vingas um correr de vida melhor que o d'elle. Se uma mulher te cancerou o peito, esconde-te, depura-te, faz-te bom, e depois volve ao mundo a procurar a felicidade do coração. Em quanto esse dia de regeneração não chegar, foge das mulheres puras. Eu tenho uma filha unica, um thesouro que Deus me confiou. Minha filha chora por ti. Affonso, se as lagrimas d'ella te não resgatam das presas d'uma mulher perdida, foge, e foge hoje mesmo. Agora, silencio, Affonso...

«Na madrugada do dia seguinte, sahi das Taipas, e fui para Ruivães. Dias depois, desisti do plano de me formar, e fui para o Porto. Sahia um vapor para Liverpool: embarquei, e estive na Inglaterra; passei a França; e de França fui residir na Suissa uns seis mezes. O arrependimento de deixar minha mãe e a minha terra seguiu-me sempre. Resolvi regressar por muitas vezes; mas, fatalmente, a primeira imagem que eu via, voando em espirito á patria, não era a de minha mãe. Ella sempre, Theodora sempre!

«Ao cabo de um anno de expatriação, voltei para o Porto. Dava-me então como curado. A memoria d'ella era já fria: o pulso não se accelerava, nem do coração me subia á cabeça um golfo ardente de sangue. Fui alegrar minha mãe, ao lado da qual encontrei Mafalda, que lhe assistia á convalescença d'uma perigosa enfermidade. Notei sensivel mudança no rosto de minha prima. Os risos do anjo tinham ascendido ao céo no perfume de suas orações. A coruscante luz d'aquelles olhos tinham-na apagado os prantos. As madeixas cahiam-lhe soltas sem flôres, sem ornatos, como dons de quem os esquece, ou não sabe de que elles valham ás venturas da existencia. Porém, formosa da aureola santa da dôr sem culpa. Que paixão me avassallou n'aquelles primeiros dias! com que religiosidade eu beijava a mão de minha mãe aquecida pelos labios d'ella! Recordo-me de a encontrar sosinha no pomar. Sentei-me ao lado da mulher purissima. Tomei-lhe com subita sofreguidão os dedos que me offereciam um pomo. Não ousei beijar-lh'os... apenas balbuciei: minha querida irmã!... Mafalda respondeu—Deves assim chamar-me, por que eu já me afiz a chamar minha mãe á tua, meu primo.

«A paz dos primeiros dias, aquelle suave repousar do espirito, entre as duas carinhosas almas, que m'o distrahiam com as indiziveis doçuras da domesticidade, durou menos de tres semanas. Ao sentir-me fatigado da igualdade de todas as horas, angustiei-me, e cobrei horror do meu futuro. «Que abominavel homem sou!» dizia eu no meu intimo senso, repellindo-me a mim proprio com uma restante força de virtude—Se me repugna o crime, por que a não esqueço? Se a não posso esquecer, para que me devoro n'estas covardes tentativas de lhe fugir? Odeio-a, e, em minha alma lhe exoro perdão d'este odio. Se me doe o coração saudoso d'ella, abomino-me, e recurvo sobre mim proprio as unhas d'esta feroz paixão.

«A fugir de mim mesmo, ia abrigar-me sob os olhos de Mafalda. Ella via nos meus olhares a submissão imploradora, e não entendia a covarde procedencia d'aquelle fital-a com tanta brandura. Apreciou-me erradamente. Teve-se em conta de amada. E, quando eu mais atormentado pelejava com a visão de Lessa e da lamêda das Caldas, Mafalda rehavia do céo os jubilos de outros dias, e a purpura do rosto. A compadecida amargura, com que eu a fitava, afigurava-se á ingenua menina a expressão do amor contemplativo, como ella o sentira e escondera sempre de todos, salvo de seu pae.

«Minha mãe, a occultas da sobrinha, perguntava-me a respeito d'ella cousas, cujo fito estava posto no casamento. Eu respondia a verdade, como se Deus necessitasse interrogar a minha consciencia. Mostrava receios de ter desbaratado as flôres do coração, ao apuro de não ter já virtudes que me fizessem um digno esposo d'ella. Minha mãe não podia entender-me; obrigava-me suavemente a explicações, e, ouvindo-me, dizia soluçante: «Não se quebrou ainda o fatal encantamento!... Deus te salve, meu desgraçado filho!»

«A quarenta passos de distancia de minha casa está uma cruz de pedra tosca, sobre uma peanha de cantaria. A esta cruz se referia Theodora, na carta que lêste. Quando ella tinha seis annos, esteve com sua mãe uma temporada em nossa casa, e voltou alli aos nove. Algumas vezes nossas mães se sentaram nos degraus do cruzeiro, em quanto nós, com vergonteas floridas de acacias e arvores de fructa, teciamos uns desageitados festões que dependuravamos dos braços da cruz.

«Levou-me para lá o coração dez annos depois. Sentei-me na peanha da cruz. Acaso relanceei os olhos pela pedra, que lhe formava o sôcco, e vi letras. Reparei, e reconheci os caracteres de Theodora. Eram duas datas: 5 de Julho de 1848, com a assignatura inicial T. P. Seguia-se a outra, em letras mais de fresco: 10 de Setembro de 1849, com as mesmas iniciaes, e as seguintes palavras: Aqui veio orar a alma penada. Eu estava então em 15 de Setembro d'aquelle anno. Cinco dias antes, pois, alli tinha estado Theodora.

«Recolhi-me com febre. Á celestial graça de Mafalda, que me sahiu ao tope da escada, respondi com uma affectuosidade falsa. Importunava-me o anjo. Eu queria então uma orgia infernal. Queria arder e palpitar no deleite sequioso, que zomba dos deveres, e insulta o espantalho da moral, impassivel carrasco das organisações ardentes. O aspecto mavioso de Mafalda era uma lança que me traspassava. Fugi-lhe, e, por alguns dias, raras horas nos encontramos.

«Voltei novamente ao cruzeiro. Do braço esquerdo da cruz pendia uma corôa de flôres do campo; e, na base, inscripta outra data: 20 de Setembro de 1849—Meia noite—O sol de amanhã queimará as flôres; mas o braço da cruz redemptora permanecerá aberto para os desgraçados. T. P.

«Eu queria esconder de minha mãe estas inscripções, feitas a lapis. Embebi um lenço em agua, e desfil-as. Hei-de agora confessar-te que a pertinacia de Theodora, por algumas horas, me pareceu ridicula.

—Tambem a mim me está parecendo isso, ainda agora—observei eu, animado pela confissão da pessoa, menos idonea para embicar no irrisorio romanticismo da esposa de Eleuterio Romão dos Santos.

«Mas, proseguiu Affonso de Teive—esta judiciosa critica, no dia seguinte, converteu-se em piedade...

—Em amor—atalhei.

«Amor, sim, amor indomavel, amor faminto de vêl-a e de ouvil-a, de chorar com ella, de arrebatal-a ao marido, e insultar a sociedade e Deus na posse d'ella.

«Esporeava-me este designio, quando entrei em casa. Minha prima estava na primeira sala. Ergueu-se. Tomou-me com brandura a mão, levou-a ao coração arquejante, e disse-me:—Os braços da cruz redemptora estão sempre abertos para os desgraçados. As palavras, embora escriptas por mão criminosa, são santas. Meu pobre Affonso, já que ella te deu a desgraça, aceita-lhe tambem o conselho.—Beijou-me a palma da mão, e sahiu da sala.

«Mafalda tinha visto, primeiro que eu, as palavras de Theodora. Comprehendera o mysterio, resistira ao impeto de as tirar, e, desde aquella hora, promettera a Deus exercitar todos os recursos de seu coração para me acautelar das cavillações da mulher ardilosa.

«Que poderia fazer a simples creatura? O infinito das forças humanas fez ella em meu resgate; mas muito já por noite dentro de minha vida lhe havia de conceder o céo um pleno dominio em minha razão.

«Logo, ao outro dia, Mafalda pediu-me que sahisse com ella a um passeio longe por esses pinhaes fóra até ao mosteiro de Landim.

«Sosinhos?—lhe perguntei—Por que não! sosinhos, com os nossos anjos da guarda, e o coração de tua mãe comnosco, meu querido Affonso.

«Sahimos. Mafalda ia taciturna. De encontro ao meu braço direito batia-lhe o coração com celeridade irregular. E eu sentia um enleio, uma constricção de alma, que não atinava com os termos communs d'uma palestra entre dous primos. No alto d'um sêrro, d'onde haviamos de descer para umas veigas, Mafalda sentou-se, e abrangeu com os olhos lagrimosos a redondeza dos horisontes. Perguntei-lhe que razão tinha para chorar. Respondeu-me que a mortificava a idéa de me vêr ir talvez para sempre do lado de minha mãe e dos parentes que me estremeciam.

«Quem te disse que eu deixo minha mãe e parentes?—redargui—Dizes-m'o tu, se eu t'o perguntar com as mãos postas—respondeu ella, pondo as mãos em supplica.

«Tartamudiei confusamente. As minhas palavras vinham falsificadas do espirito. Aqueceram-se-me as faces, porque eu não estava afeito a mentir. O coração teve quinhão d'este pejo: a meiga creatura, que me interrogava, tinha uns ares de divinisação, que me incutiam uma especie de escrupulo religioso.

«—Vejo que te afflijo, meu primo—interrompeu Mafalda—És ainda bom, que não podes mentir á tua amiga. Queres ir ao teu destino... Vai, mas... escuta-me...

«Seguiu-se um longo silencio, que ella mesma interrompeu, exclamando, em pranto desfeito:—Não posso!... A Virgem do céo não ouviu os meus rogos!...

«Acariciei-a com o melindre de irmão, instando-a a que fallasse. Articulou ainda algumas palavras desatadas, faceis, porém, de se ligarem em meu espirito prevenido. Atalhei-a muito commovido, n'estes termos: «Deves ter directo instincto do céo, minha prima, por que a tua alma virginal é pura de toda a falsidade, e não póde ser enganada. Sabes que eu vou fugir, sem eu ter annunciado a nossa mãe este novo golpe. Fujo, minha irmã, por que entre a tua celestial dedicação e as minhas desvairadas paixões está o infinito. Tu és a creatura que ainda não sonhou o mal, sedenta d'uma alma cheia das crenças da juventude. Vês a minha vida, posta em assedio pelas tentativas da mulher unica do meu amor, da mulher perdida para mim e para si propria perdida... observas isto com teus olhos inexperientes, e pasmas do poder infernal d'esta mulher. Oh! que Deus te livre de ainda veres o mundo, despido das vestes que a tua candura lhe empresta! Deus te poupe a debruçares-te sobre o abysmo d'onde se tira a luz, ao clarão da qual se observam as chagas da sociedade. Esconde-te de mim, e de todo homem que viu o mundo; esconde-te, anjo do paraiso, para que nenhum homem te diga o que viu. Eu não sei como ousaria contar-te as minhas desventuras, Mafalda. A tua linguagem perdi-a, quando sahi d'estas florestas, onde nós nos entendiamos como as avesinhas do céo se entendem. Que hei-de eu dizer-te hoje? Com que termos te mostrarei a minha indignidade!

«Mafalda poz-me com muita suavidade a mão na bocca, e disse:—Não digas mais nada, meu irmão, que já disseste tudo... A mulher unica do teu amor... a mulher unica do teu amor é... ella!...—Os soluços embargaram-lhe a voz. Falleceram-me a mim espiritos com que tentasse consolal-a. Todas as palavras, sem vehemencia de dentro, seriam pallidas e vans. Mentir, bem que eu podesse, de que serviria?... O meu silencio era angustioso. Recriminava-me por me ter exposto áquelle dialogo...»

«Com satisfação a vi erguer-se, e dizer-me:—Voltemos, primo?... Vamos para casa. Não percas instantes da companhia de tua mãe. Vamos...»

«N'este momento, á raiz da serra, onde ia a estrada de Landim, passava uma mulher cavalgando a galope. Ia sósinha. Eu não a tinha visto ainda, quando Mafalda, apontando-a com o braço tremulo disse:—A mulher unica do teu amor...

«N'este instante, esqueci o anjo, que me estava alli chorando, não sei mesmo se desejei que Deus o chamasse para a sua patria; e adorei o demonio, que passava lá em baixo, com o véo esvoaçante, por entre nuvens de pó, sacudidas das patas do arremessado cavallo.

 

XII

Cerravam-se cada dia mais espessas as trevas em volta do perplexo animo de Affonso de Teive. A obsessão de Theodora não lhe dava treguas. Nas circumvisinhanças de Ruivães já se fazia reparada a amazona, umas vezes sósinha, outras seguida do lacaio, e algumas vezes ao lado do marido, a quem ella não prestava mais attenção que ao lacaio. Affonso, em quanto a mim, resistindo á tentação, iniciava-se para consociar-se no reino celestial com os santos da sua familia, mortos sob o estandarte da cruz; mas, a juizo de muita gente, muito menos benemeritos da auréola da santidade. Morrer com o céo a abrir-se além no horisonte, ouvindo já os hymnos dos anjos, é glorioso e exultante; porém, morrer gotejando em lagrimas o sangue do coração, sem visões bemaventuradas, sem estimulo de predestinado, morrer do amor de uma mulher que se arrasta submissa aos pés do triumphador que a despreza e adora... sublime extravagancia, se querem que lhe eu não chame santissimo martyrio!

A mãe do lastimavel moço, antes de avisada da intentada partida d'elle, resolveu impôr-lhe o seu arbitrio de mãe com severidade. Informada por Fernão de Teive, sabia que Theodora fazia miudas investidas ás redondezas de Ruivães, e que Affonso não era estranho, bem que a não houvesse encontrado, aos planos da impudente mulher. A palavra «adulterio», no espirito de D. Eulalia, tinha uma significação de horror, como se o crime não tivesse exemplo na humanidade, nem remorso que o contrapesasse na balança da misericordia divina. O pavor de que um filho seu, um descendente de santos, e, pelo menos honrados varões, podesse dar ao mundo o escandalo de tamanha perversidade, accendeu-a em louvavel indignação. Inesperadamente é chamado Affonso ao quarto de sua mãe para ouvir estas pesadas e seccas palavras:

—Eu preciso de morrer em paz com o mundo, que nunca escandalisei, penso eu, e Deus me perdôe se a minha vaidade me faz esquecer as culpas. Em quanto viva, peço-te, como amiga, se não devo antes ordenar-te como mãe, que me poupes á vergonha de esconder a face, quando me pedirem contas dos sentimentos de religião e honra que te insinuei na alma. Temo que me perguntem que fiz eu da herança, que teu pae fiou de mim para te eu ir entregando, assim que tivesses razão para recebel-a... herança de virtude e probidade que tu levas em principio de desbarate. Mando-te que te retires para longe d'esta terra. Vai para Lisboa, se te agrada; ou vai viajar, se antes queres. É bom que saibas os cabedaes que tens. A tua casa rende seis mil cruzados: conta com elles, e com o valor das propriedades, se, para salvação de tua honra, precisares que ellas se vendam. Não voltes para mim sem me poderes jurar, pelas cinzas de teu pae, que a lembrança peccaminosa de Theodora morreu em teu coração. Deus Nosso Senhor te abençôe, filho. A minha ultima oração será rogar ao Creador que restitua á casa onde as gerações legaram umas ás outras a tradição de grandes serviços a Deus ligados a grandes serviços á patria: religião, honra, e trabalho, o nobre trabalho da espada de uns, e da sciencia d'outros. Tu sahes da trilha de teus avós, consumindo tua mocidade em dissabores de que ninguem, senão eu, póde compadecer-se. Vai. Se poderes, sê forte, sê homem. Se a ultima fraqueza te levar ao ultimo crime, guarda ao menos uma parte da alma para a contrição no remate da vida.

Nunca, até áquella hora, Affonso vira e ouvira assim sua mãe. Mesmo na admoestação, denotára sempre o pesar com que o fazia; e para o compensar da magoa, acudia logo com as caricias. Por causa de Theodora, as reprehensões eram sempre disfarçadas na grave mas dôce persuasão do conselho. Querer afastal-o de si, nem por sombra de palavra o indicára nunca. E agora, no semblante, na rigidez da phrase, na postura do rosto, e arrugado da testa, Affonso achou tanta mudança para espantar-se como affligir-se.

Ia elle responder, e ella, para logo, d'um gesto de silencio, o fez calar, dizendo:

—Não te quero ouvir: Deus que te ouça; mas vai. Cá fico eu velando os dias d'esta menina, que teve a desventura de te amar. Consolar-nos-hemos eu e ella, orando por ti. Ámanhã partirás. Tua mãe ordena.

Affonso, ao despedir-se de sua mãe, teve a intuição de que a não veria mais. A maior agonia da sua vida, até áquelle momento, foi essa. Ajoelhou-se a beijar-lhe as mãos, que molhou de lagrimas. E ella abençoou-o serenamente, com os olhos no crucifixo do seu oratorio. Ao lado d'elles, estava Mafalda, livida, hirta, tranzida d'um frio, que a fazia tiritar. Não chorava. Podia comparar-se a sua atribulação á da mãe que tambem tinha enxutos os olhos. Porém, quando Affonso lhe estendeu a mão, e disse: «adeus!» ella, arrancou do intimo um cortante grito, e lançou-se nos braços d'elle, debulhada em pranto.

 

XIII

Foi Affonso de Teive para Lisboa. Como ia desgostoso e intratavel, rejeitou a aposentadoria em casa do tio desembargador. Mobilou casa no bairro de Buenos-Ayres, na menos frequentada das ruas. Desligou-se do trato das relações adquiridas em casa do magistrado, e evitou novos conhecimentos. Vestiu de livros as paredes do seu gabinete, propondo-se o recreio do estudo, e o trabalho mesmo da composição, sem o intento de fazer-se conhecido no mundo litterario. Em quanto o espirito se lhe entreteve nos apetrechos de casa e aconchegos de quem tencionava viver n'ella os dias e as noites, curtos intervallos de magoa o assoberbaram; assim, porém, que o bulicio cessou, e os tapetes das elegantes salas não davam rumor de um passo, e Affonso, sentado á sua banca de estudo, ouvia apenas as cadencias do pendulo do relogio, condensaram-se-lhe em volta do espirito as nuvens torvas, que se haviam rarefeito, bafejadas pela aragem da esperança, e nunca tão compressora o sopesou a mão da tristeza. Os livros atediavam-no; o escrever acendia-lhe o espirito a um grau penoso de excitação. Todos os seus manuscriptos fragmentarios ou desatados, que eu vi treze annos volvidos, accusavam uma obstinada paixão da qual o poeta hauria argumentos contra a Providencia que o desamparára, na batalha comsigo mesmo.

Aos vinte e dous annos, aceitar longo tempo e voluntariamente um jugo de vida assim, é virtude imaginaria. Para outras civilisações, lá estava o deserto do anachoreta, e a Palestina do cruzado: um e outro se deixavam devorar das angustias do ermo, ou cortar do ferro islamita; e lá iam encontrar-se no céo, a cobrarem o seu patrimonio de alegrias infindas, ganhado a troco d'uma hora de orgulho satisfeito—que mais não é o contentamento d'esta breve fugida que fazemos do ventre á sepultura. N'estes tempos, porém, a tanta luz, a tanto estrondo, em tamanho desentranhar-se a terra em novos enfeites de si propria, agora que o céo se deixa contemplar, já não como paragem de futuras vidas, senão como estrellado involtorio d'este globo cujas delicias nos foram dadas em desconto do breve tempo que as saboreamos; agora, em summa, que o viver sem gozar é um triste, senão estupido, preludio da morte, em redor da sepultura, que loucura é esta de Affonso de Teive que não rompe mundo a dentro, com seis mil cruzados de renda, vinte e dous annos, bizarria de fidalgo, e physionomia dotada de graças attractivas de todos os olhos?

Era necessario que a sociedade culta delegasse um dos seus ornamentos a intimar Affonso de Teive para comparecer, réo de lesa-illustração, á barra do seculo XIX. O enviado, escolhido a ponto, foi, como por acaso, encontrar Affonso na matta da Penha-Verde em Cintra, onde o tinham chamado saudades das suas arvores de Ruivães.

D. José de Noronha, sugeito de trinta annos, filho segundo d'uma casa titular de Lisboa, cursára alguns estudos da Universidade, contemporaneo de Affonso. Pertencia á tribu dos trossistas, e gozava as honras de caudilho nos disturbios, e maiores honras ainda de primeiro estomago em digestão de vinho. Contava-se que D. José de Noronha bebia por um pipo de almude, quando não tinha á mão o alguidar, taça ordinaria das suas libações. Este facto, presenciado com assombro e inveja, avantajou-o em consideração aos socios da taberna, e conferiu-lhe voto deliberativo em todas as barganterias nocturnas. Affonso de Teive, algum tempo associado aos tonantes, declinou da sua estima o illustre companheiro, indistincto dos outros em sua opinião. Separados pela mudança de costumes, raras vezes se viam, e mais raras se tratavam. D. José cognominava de renegado o fugitivo socio, e divulgava que o miseravel nunca bebera uma garrafa de genebra, sem se embriagar. Equivalia esta denuncia a uma grave deshonra.

Abandonada a carreira dos estudos, por força de successivas reprovações, D. José foi para a familia, que o recebeu sem espanto do mau exito, nem mesmo pesar. O fidalgo libertino tinha bom patrimonio materno, e um pae, cujo desregramento de vida absolvia os desatinos do filho. A sociedade recebeu-o prazenteiramente, deu-lhe a primeira linha na cohorte dos elegantes, e victoriou-o com alguns tropheus de conquistas, comminadas no codigo penal, e gloriosas nos salões. D. José absteve-se da ebriedade em publico, é isso verdade; mas indemnisou-se em vicios, que seriam muito mais nocivos á humanidade, se as maiorias compartissem dos ultrages afflictivos, que vão na intimidade obscura, e mesmo na publica exposição das familias. Não vem isto para dizer que todas as familias ultrajadas se afflijam. Em Lisboa, principalmente, as excepções são tantas, que suaria o topete quem quizesse achar a regra. Lá, haveis de encontrar muito d'uma cousa chamada «philosophia», sciencia, que foi necessario inventar-se, á medida que umas certas virtudes de portas a dentro deram em saltar pelas janellas, e voar por ahi fóra, não sei para onde, naturalmente para a India, onde as viuvas se queimam em demonstração de fidelidade aos maridos defunctos. Ha-de ser isso.

Affonso de Teive reconheceu D. José, que sahiu d'um rancho de senhoras a comprimental-o. Eram cousas diversissimas vêl-o em Coimbra, ou alli em Cintra ao lado das senhoras da primeira distincção, como lá se diz, e quasi sempre em rigorosa verdade, omittindo-se a qualidade distinctiva. O menos preço em que o fidalgo do Minho tivera o de Lisboa, desvaneceu-se logo. A compostura, o trajo, a seriedade, os ademanes, aquillo tudo, digamol-o assim, aromatizado do palacio e côrte, demudou a má opinião de Affonso em estima attenciosa e quasi amigavel.

Em breves termos, se disseram mutuamente as suas residencias, convencionando-se logo em se encontrarem e conviverem a miudo. D. José de Noronha, como da terra, foi o primeiro a visitar Affonso. Frequentaram-se assiduamente, e chegaram a termos de se hospedarem á vez, e ás temporadas de tres dias, nas casas um do outro.

Claro é: Affonso contou suas penas, com sincera expansão, ao amigo. Era o primeiro estranho a ouvir-lh'as. Mostrou-lhe as cartas de Theodora, encarecendo-lhe a belleza, superior mesmo ao genio revelado na escripta. Nada menos que genio o meu pobre Affonso descobrira nas cartas da esposa de Eleuterio Romão. D. José de Noronha, por sua parte, passava do espanto ao assombro a cada periodo interrogativo da famosa missiva, que me fez rir e chorar—caso unico na minha vida extraordinaria.

—E tu podeste, Affonso—disse D. José—podeste resistir a esta mulher?!... És aleijado, ou tens peito de rocha, ou cheiras a santo! Abre-me bem os refolhos do teu espirito. Esclarece-me este phenomeno. É certo que nunca respondeste a esta mulher, nem a procuraste?

—É certo—respondeu Affonso, quasi envergonhado da confissão.

—Ó pobre Joseph! ó mallograda Hiempsal! Conheces bem a Hiempsal... a esposa do ministro de Pharaó! Quantas capas tencionas assim deixar em lindas mãos?... Ai de ti, Affonso de Teive, que, a final, sahirás do mundo sem capa, e coberto de lama!... Tu não sabes que estás em 1850, e que tens de alijar a carga de dous seculos, se não quizeres ir a pique, varar no ridiculo inexoravel com os homens da tua fortuna e da tua figura. Origines ficticios, que nem sequer resalvam com o estudo dos attributos divinos a sua ignorancia dos attributos humanos... Pobre Theodora... a formosa mulher, que se rojava a teus pés, quando tu, por brio mesmo de tua vaidade ferida, devias ter ido beijar-lhe os cabellos, e não arrancar-lh'os. Pobre menina, casada com um homem chamado Eleuterio... que mais?

—Eleuterio Romão dos Santos—disse Affonso, sorrindo no tom imitante do dizer galhofeiro do amigo.

—Eleuterio Romão!... Eu não sei—proseguiu D. José—se amaria a esposa de um homem chamado Eleuterio!... Mas, nas condições de cara e estylo em que está Theodora, amaria, quer-me parecer que amaria, Affonso, obrigando-a a promover o chrysma do conjuge... Fallemos serios, serios como rapazes, que tem o estricto dever de não serem palermas, do contrario seremos victimas de todos os Eleuterios. É necessario que escrevas a essa mulher; isso não te priva de escreveres a outras muitas, visto que estás aqui a ares, e tens ainda a balda de escrever meditações... Que ratão és tu, Affonso! Eu, em Coimbra, achava-te uma graça! Quando tu publicavas no «Trovador» umas lamurias lamartinianas, que davam idéa de seres um desgraçado, que vivias das brizas do claro Mondego, e tu, meu patarata, em quanto fazias chorar as meninas com os versos, emborcavas torrentes de cognac por uma catadupa esponjosa que muitas vezes receei que me apeasses do meu pedestal!... Patusco!... Fallemos agora serios. Escreve á Theodora, se tens algum resto de pudor... Não me digas que estás soffrendo por ella, que deixaste por ella tua mãe, que renunciaste ao amor de um anjo por causa d'ella... Não me digas tal, que eu nem posso admirar-te a virtude nem a parvoice. A virtude seria medir o espaço que separa a tua alma do coração atraiçoado de Theodora, e interpor n'esse espaço trinta mulheres, com tanto que te não privasses da companhia de tua mãe, nem lhe désses desgostos muito menores que este. Devias adorar tua prima porque era um anjo, e devias desejar a outra porque era um demonio. Que fizeste tu quando ella casou? Choraste, e com tamanho aggravo dos teus brios que consentiste que o mundo te visse chorar, a ti, rapaz de vinte annos, gentil, e rico! Pondera bem n'esta vilipendiosa calamidade, meu caro Affonso. Salta sobre dez annos de tua existencia para diante, e diz-me que nojo te ha-de fazer este Affonso, quando o Affonso de 1860 achar que tem o mesmo nome, e quasi a mesma figura!...

E continuou por largo espaço n'este sentido.

Escutava o filho de Eulalia o discurso de D. José, lardeado de facecias, e, por vezes, attendivel por umas razões que se lhe cravavam fundas no espirito. As réplicas sahiam-lhe frouxas e mesmo timoratas. Já elle se temia de responder cousa de fazer rir o amigo. Violentava sua condição para o igualar na licença da idéa, e por vezes, no desbragado da phrase. Sentia-se por dentro reabrir em nova primavera de alegrias para muitos amores, que se haviam de destruir uns aos outros, a bem do coração desprendido salutarmente de todos. A sua casa de Buenos-Ayres aborreceu-a por afastada do mundo, boa tão sómente para tolos infelizes que fiam do anjo da soledade o despenarem-se, chorando. Mudou residencia para o centro de Lisboa, entre os salões e os theatros, entre o reboliço dos botequins e concurso dos passeios. Entrou em tudo. As primeiras impressões enjoaram-no; mas, á beira d'elle, estava D. José de Noronha, rodeado dos próceres da bizarria, todos aporfiados em tosquiarem um dromedario provinciano, que se escondêra em Buenos-Ayres a delir em prantos uma paixão callosa, trazida lá das serranias minhotas. Ora, Affonso de Teive antes queria renegar da virtude, que já muito a medo lhe segredava os seus antigos dictames, que expor-ser á irrisão de pessoas d'aquelle quilate. É verdade que ás vezes duas imagens lagrimosas se lhe antepunham: a mãe, e Mafalda. Affonso desconstrangia-se das visões importunas, e a si se accusava de pueril visionario, não emancipado ainda das crendices do poeta inexperto da prosa necessaria á vida.

Escrever, porém, a Theodora, não vingaram as suggestões de D. José. Por ventura, outras mulheres superiormente bellas, e agradecidas ás suas contemplações, o traziam preoccupado e algum tanto esquecido da morgada da Fervença.

Mas, um dia, Affonso, n'uma roda de mancebos a quem dava de almoçar, recebeu esta carta de Theodora:

«Compadeceu-se o Senhor. Passou o furacão. Tenho a cabeça fria da beira da sepultura, d'onde me ergui. Aqui estou em pé diante do mundo. Sinto o peso do coração morto no seio; mas vivo eu, Affonso. Meus labios já não amaldiçoam, minhas mãos estão postas, meus olhos não choram. O cadaver ergueu-se na immobilidade da estatua do sepulcro. Agora não me temas, não me fujas. Pára ahi onde estás, que as tuas alegrias devem de ser muito falsas, se a voz d'uma pobre mulher póde perturbal-as. Olha... se eu hoje te visse, qual foste, ao pé de mim, anjo da minha infancia, abraçava-te. Se me dissesses que a tua innocencia se baqueára á voragem das paixões, repellia-te. Eu amo a creança de ha cinco annos, e detesto o homem de hoje.

«Asserena-te, pois. Esta carta que mal póde fazer-te, Affonso? Não me respondas; mas lê. Á mulher perdida relanceou o Christo um olhar de commiseração e ouviu-a. E eu, se visse passar o Christo, rodeado de infelizes, havia de ajoelhar e dizer-lhe: «Senhor! Senhor! é uma desgraçada que vos ajoelha e não uma perdida. Infamias uma só não tenho que a justiça da terra me condemne. Estou acorrentada a um dever immoral, tenho querido espedaçal-o, mas estou pura. Dever immoral... por que não, Senhor! Vós vistes que eu era innocente; minha mãe e meu pae estavam comvosco.

«Abafaram-me n'uma jaula; eu queria amar-vos fóra dos violentos ferros, deixei-me matar diante da vossa imagem por um sacerdote do vosso culto. O vosso sacerdote, Senhor Deus da Justiça, praticou uma immoralidade, levantando sobre as faculdades d'esta alma esmagadas o patibulo do meu coração. Foi immoral o dever, que me legislaram em vosso nome, Senhor. E eu, sem vociferar contra o mundo, que me arroxêa a gonilha no pescoço, a vós ajoelho, Deus dos reprobos das alegrias d'este mundo, exorando-vos que me deis um amigo.

«É o que eu diria ao Deus da adultera e da Magdalena, Affonso. E o Senhor piedoso havia de ouvir-me, e de tua alma, fulminada pela inspirativa misericordia do Justo dos justos, sahiria um gemido piedoso por a mulher desamparada. Sê meu amigo

Recusava-se Affonso a deixar vêr a carta: era, porém, uma descortezia sonegal-a, entre moços, que francamente haviam alli relatado á competencia, as façanhas amorosas dos ultimos quinze dias.

—Homem indigno da nossa estima!—exclamava D. José de Noronha—Grande cynico! podes tu negar aos teus amigos dous minutos do innocente prazer de ouvirem o estylo d'uma Sevigné provinciana, que, para ser mulher de época, só lhe falta affeiçoar-se a um homem que lhe rasgue os horisontes d'um destino esplendido!? Venha a carta!

—A carta! a carta!—exclamaram todos, empunhando os copos.

—Um brinde á formosa das montanhas!—bradou D. José.

—Depois de lida a epistola!—emendou um commensal.

—Antes e depois!—redarguiu o proponente do brinde, e ajuntou:—Á saude de Theodora, bella e espirituosa, amada e amantissima, pura quanto póde sêl-o a mulher que nos braços d'um marido reserva para o homem amado a virgindade do coração!

—Á saude de Theodora—conclamaram todos, exceptuando Affonso, cujo aspecto arguia tristeza.

Seguiu-se um brinde enthusiastico ao ditoso Affonso, que sobrepunha a formosa minhota a quantas lisboetas de tez e olhos arabes lhe tinham offerecido a alma n'um sorriso.

Affonso agradeceu, com gesto de mal dissimulado dissabor.

Reiteraram os convivas o pedido da carta. Affonso hesitava ainda. O mais ebrio d'aquella mocidade patricia, representante dos mais illustres appellidos da época heroica de Portugal, ousou tomar a carta de sobre a mesa, e abril-a com estrondosos applausos dos outros. Affonso de Teive estendeu impetuosamente o braço, e tirou a carta da mão do hospede.

—Isso é um insulto a todos!—exclamou D. José de Noronha.

—Não é insulto—replicou o de Ruivães—é preito a todas as mulheres, e com especialidade ás desgraçadas.

Disse, e incendiou o papel na chamma do castiçal em que acendiam os charutos.

O tom amargo d'aquellas palavras commoveu os convivas, que, por bom acerto, se encontraram todos de indole sentimental, quando as vaporações alcoolicas lhes ennublavam a porção intellectual, que era n'elles diminuta, como de direito heraldico. D. José, compondo o rosto d'uns vislumbres de rectidão e bom discurso, perorou ácerca da probidade de Affonso, e, em nome dos communs amigos, agradeceu a lição, e levantou novo brinde ao hospedeiro moço que tão digno era da estima dos homens como da confiança das mulheres.

 


 

Este capitulo não dispensa uma nota illustrativa, respondendo temporanmente á critica illustrada que me perguntar como pude eu pôr em traslado uma carta queimada á luz do castiçal, minutos depois que Affonso a lêra? É por que o rascunho d'esta carta, escripta com entrelinhas, emendas, e borrões, escripta por Theodora, estava ainda em poder de Affonso de Teive em Dezembro do anno proximo passado. Opportunamente se dirá como Affonso de Teive se apossou do rascunho. Então a critica verá que poucas cousas succedem na vida tão naturalmente.

Relevem-me estas demasias de escrupulo: que eu difficilmente consentirei que a má fé me apanhe em flagrante inverosimilhança.

Assim é que eu quizera que se escrevesse a historia patria, com este timbre e rigor de verdade. Por mingoa de desvelos analogos na averiguação dos factos historicos é que nós ainda não sabemos bem quantos filhos bastardos fizeram os nossos monarchas: falha que desluz algum tanto o panegyrico das virtudes dos reis portuguezes. Aprendam os historiadores.

 

XIV

No mesmo dia, um deputado chegado do Minho, entregou a Affonso uma carta de sua mãe, incluindo outra de Mafalda. A senhora de Ruivães felicitava o filho por saber que elle procurava os passatempos da capital, admoestando-o a que procedesse honradamente no gozo dos prazeres, para que elles se não derrancassem em flagellos da consciencia, e infamia. Mafalda, em poucas linhas, pedia-lhe que se não esquecesse d'ella, e fosse fiel á promessa de estimal-a como irmã.

O deputado bracharense era sujeito que sabia as cousas para as dizer, e saltava a quatro pés por cima d'isto que chamam delicadeza em assumptos de coração.

Pelo que, o expansivo deputado fallou assim a Affonso:

—Ainda me lembro de v. exc.ª, quando rapazola estudava rhetorica em Braga. Está certo de ser agarrado pelo regedor, quando foi ás Ursulinas atacar as freiras? Pois fui eu quem, a pedido de sua mãe, lhe vali no processo instaurado.

—Não sabia—atalhou Affonso—Aproveito a opportunidade para agradecer a v. exc.ª...

—Não tem de que. Mas, com effeito—volveu o deputado, a rir de esperto—olhe v. exc.ª o que fazem mulheres... ou mulherinhas... por que a final a morgadinha da Fervença acanalhou-se até ir casar com um bruto de Tibães... Soube isto v. exc.ª?

—Perfeitamente. Era impossivel que eu o não soubesse...—respondeu attentamente Affonso.

—Eu conheço Eleuterio Romão dos Santos—continuou o informador—O homem torce as grandes orelhas que tem, por que ella tem-lhe feito dar a agua pela barbella. V. exc.ª ha-de saber isto...

—Não sei senão que Theodora é mulher de Eleuterio.

—Então eu lhe conto. A rapariga tem figados, e ninguem o dirá vendo aquella lesma, que parece feita de manjar branco. Assim que entrou em casa, e se viu com o sogro Romão e com a sogra Eleuteria deu ao diabo a cardada, poz-se nas suas tamancas, e mobilou as suas salas e os seus quartos á moderna. O Eleuterio quiz reguingar-lhe; mas ella, ás primeiras testilhas, fallou em divorcio, ou cousa peor ainda, que era, pelos modos, fugir de casa, e procurar v. exc.ª O marido poz as mãos na cabeça, quando ouviu fallar em divorcio. A fortuna alli é quasi toda de Theodora. Se ella se levantasse com o seu casal, o velhaco do tio, que preparou semelhante desgraça de casamento, dava um estouro. Começaram a fazer-lhe todas as vontades á moça. Para que lhe ha-de ella dar? Imagine lá v. exc.ª para que lhe deu na veneta?

—Eu sei cá...—disse anhelante de curiosidade Affonso.

—Fez-se doutora!... Mandou comprar dous carros de livros ao Porto; fechou-se no seu escriptorio, que parecia uma livraria de convento, e começou a lêr de noite e de dia. Lá de dia passe; mas de noite, dava isso que pensar a Eleuterio casado á face da igreja, e dono da mulher pelos seus justos cabaes. Passado tempo, deu-lhe outra mania: fez-se cavalleira, e rompia a galope pelo campo de Santa Anna em Braga, a levantar poeira que parecia um esquadrão de cavallaria! Não parou ainda aqui o desarranjo d'aquella cabeça! Tomou lacaio, deu-lhe libré avivada de vermelho, e andava por essas estradas do Minho com o lacaio em correrias de douda. Uma hora viam-na em Landim, outr'ora em Santo Thyrso, depois em Lessa de Palmeira... Que novidades lhe estou contando!...—concluiu sorrindo o narrador.

—E do procedimento d'ella que se dizia?—atalhou Affonso, vivamente empenhado nas revelações do chanissimo legislador.

—Do procedimento d'ella a que respeito?—perguntou o deputado, com suspeitoso sorriso.

—Amantes, quero dizer se a opinião publica lhe dava amantes.

—Eu lhe digo: quando v. exc.ª estava em Lessa com sua mãe, e a morgada lá foi com o marido, alguem disse que o marido era um simplorio. Ora isto parece-me que alguma cousa queria dizer...

O deputado espirrou uma risada de finura velhaca, e ajuntou:

—Depois, quando v. exc.ª esteve em Ruivães uma temporada, e Theodora sahia para aquelles lados, já todo o bicho careta dizia que o adulterio estava provado por todos os artigos do codigo, e por mais alguns que esqueceram aos corpos legisladores.

Aqui deu o representante de Braga uma segunda risada, expressiva de agudeza muito mais faceta. Affonso sorriu-se, e deixou-o esvasiar a pojadura da verbosidade chula.

—Não se falla por lá de mais ninguem que eu saiba—tornou o deputado—Mas o marido! aquelle palerma, que lhe não vai á mão, e a deixa andar em filistrias de cavallo e lacaio, faz-me pena, sinceramente lh'o digo, por que houve alguem que me affirmou que a mulher, quando está fechada na livraria, não o admitte á sua presença, e até me disseram que ella passa toda a noite a consultar os seus livros! Logo: aquelle marido está n'uma posição critica, matrimonialmente fallando. Parece-lhe isso, snr. Affonso?

Aqui expediu o sujeito terceira risada, que tinha idéa occulta, a meu vêr, inconciliavel com o comedimento desejavel n'uma pessoa grave... de mais a mais deputado a côrtes!

—E como está ella?—perguntou Affonso—Ainda é bonita?

—Agora é que ella está completa. Encheu muito de hombros, e tudo á proporção. Está muito alta, e esvelta, que parece ingleza. E o garbo com que ella sacode um cavallo... V. exc.ª está a mangar commigo?—perguntou de subito o deputado, após um instante de reflexivo silencio?

—Se estou a mangar com v. exc.ª?! que pergunta!

—Sim! pois o snr. Affonso vem-me perguntar a mim se ella está bonita?! Quem sabe melhor que v. exc.ª como ella está?!... Ora, meu amigo, vá contar essas historias aos da Lourinhã. Cá para mim vem barrado!

—Dou-lhe palavra de honra—redarguiu Affonso—que a minha pergunta foi sincera. Eu vi Theodora; mas tão de relance, que não pude reparar-lhe nas feições.

—A sua palavra de honra tem para mim o peso d'um Evangelho,—tornou gravemente o cavalheiro de Braga.—Pois, senhor, o mundo está enganado. A voz geral dá v. exc.ª como amante de Theodora. Eu não me atrevia a dizer-lh'o tanto ás escancaras; porém, chegadas as cousas a este ponto, fique sabendo que ninguem acredita na sua innocencia, excepto o Eleuterio, que é muito bom homem.

É escusado dizer que o individuo riu de novo, esfregou as mãos, e exclamou abruptamente aguilhoado pelo instincto oratorio:

—Ainda ha quem case! Ainda ha victimas que espontaneamente se offereçam no altar das mulheres! Chegamos a um tempo em que ninguem póde sinceramente dizer que conhece seu pae. Os assentos dos baptismos estão todos falsificados. Os mandamentos da lei de Deus, o nono sobre todos, vai ser tirado do cathecismo. Vem ahi um tempo em que o artigo da lei santa ha-de ser assim reformado: «Não desejarás a tua mulher para não incommodar os direitos do proximo!» Onde irá isto assim parar, snr. Affonso de Teive?

O deputado entre serio e risonho, prolongou por tres quartos de hora, em estylo declamativo, um aranzel de lugares-communs, entremeado de pilherias, com referencia á degeneração da sociedade, no capitulo casamento. Affonso achava picante de grosso sal a iracundia comica do legislador, e estimulava-lhe a veia. A final o deputado, contente de si, foi para S. Bento, mais que muito persuadido de ser elle o predestinado para levantar voz no parlamento decretando a moralisação das familias.

Affonso ficou pensativo. As revelações lisongeavam-no. O odioso do caracter de Theodora desvaneceu-lh'o a impressão já magestosa, já condolente do viver da morgada. Uma sublime desgraçada!—dizia elle comsigo—Uma sublime desgraçada, que, ligada a mim, seria a mais sublime das creaturas!

E, trabalhado por esta idéa que pertinazmente lhe martellou no animo, Affonso de Teive arrependeu-se de ter queimado a carta recebida na manhã d'aquelle dia. Queria relêl-a, mettêl-a a beijos na retentiva do coração!

Á noite foi ao theatro, e entreteve-se largo tempo com D. José de Noronha. Versou a pratica sobre o aceitar benignamente os acommettimentos de Theodora. D. José mostrava-se já enfastiado da imbecilidade moral do seu amigo, e, por tanto lhe pedia, que de todo em todo esquecesse a mulher, e se portasse como rapaz de certa ordem; ou obedecesse ao coração, aceitando a felicidade das mãos fosse de quem fosse.

N'esta mesma noite, o moço, vencido a final pela irresistivel necessidade de ser semelhante a todos os homens, escreveu uma estirada carta. Principiava nas recordações da infancia de ambos: devia de ser alta e amoravel poesia, como o coração a trasborda, se d'um ponto negro da vida os olhos rompem as trevas, e vão lá ao longe remergulhar-se no pelago da luz, que mais não ha-de raiar em nossos dias. Tristeza mais que todas magoativa!

Depois, memorava os dias de amor, desabrochado já o seio em plena florescencia, com os seus desejos balbuciados em phrases todas alma e enleio, dulcissima linguagem, que era ainda a das chimeras pueris, mal desvanecidas no trajecto da infancia á adolescencia. Poesia ainda, flôr sempre lustrosa e verdejante, porque a sua tige está continuo a medrar em lagrimas, d'onde paixão nenhuma hedionda dos vindouros tempos lhe ha-de extirpar a raiz.

Seguia-se o recordar as dôres atrozes do abandono d'ella, quando o moço em Lisboa e Ruivães, duas vezes se atirára aos braços da morte, aceitando o inferno, se o lembrar-se o condemnado da mulher que amou na terra, não era lá o maximo tormento.

A final, após os queixumes, subia-lhe do coração aos olhos n'uma lagrima o perdão. Perdão e amor: que não ha ahi, em alma humana, perdoar ingratidões sem beijar a mão que nos alanceou. Esquecer, sim; mas esquecer é desprezo, não é perdão.

Escripta e fechada a carta, sobreesteve Affonso no remettêl-a. Acaso iria ella, sem desvio, ás mãos de Theodora? As injustas suspeitas não poderiam ter Eleuterio de sobre-aviso? E, de mais, reatadas as ligações de estima, iria Affonso, contra a vontade de sua mãe, para casa, e sustentaria alli o cortejo á mulher casada?

Estes quesitos fallavam á razão; porém, a pobresinha da razão, estava já escondida na consciencia, e a consciencia ensurdecera com a guisalhada do baile carnavalesco em que seu dono a mandára estudar os costumes do seu tempo.

Foi a carta com direcção a Braga. Era dia de feira quando ella chegou ao correio: estava alli o marido de Theodora vendendo cereaes. Foi á lista postal vêr se seu pae tinha carta de parentes do Brazil; e, como não se entendia bem com os nomes maiores de tres syllabas, pediu que lhe lessem a lista inteira. Quando o obsequioso leitor chegou a Theodora Palmyra Villar de Sousa, exclamou Eleuterio:

—É a minha mulher! Ha-de ser carta do livreiro.

Convem saber que a morgada se entendia directamente com os seus livreiros fornecedores.

Eleuterio foi tirar a carta, e deu-lhe nos olhos, afóra o lustre do sobre-escripto, o lacre azul fechado com armas, e, mais que tudo, a marca de Lisboa.

Não me atrevo a compôr o soliloquio de Eleuterio Romão. Sei que elle andava com a carta ás voltas, entre mãos, e ás vezes esfregava entre dous dedos o papel, como se pelo tacto podesse inferir do contheudo. Estava com elle o regedor da sua freguezia, o mesmo que lêra a lista, e lhe lia na alma agora.

—Que estás a malucar, Eleuterio?—disse elle—A modo que essa carta te deu no gôto!...

—A fallar a verdade—respondeu o marido de Theodora—esta letra não na conheço, nem estas armas reaes!... Minha mulher não conhece ninguem em Lisboa, e estas letras, compadre, parece que rezam Lisboa.

—É como diz: Lisboa, sem tirar nem pôr. E então?... achas que ella...

—Estão-me a dar guinadas de abrir isto!... Que dizes tu, compadre?

—Eu cá, se fosse commigo, já a carta estava aberta. Mulher minha a ter cartas, sem eu saber de quem!... Deus me defenda!

Palavras mal eram ditas, que Eleuterio quebrou o lacre, e passou a carta ao regedor, dizendo:

—Lê lá... ella é tamanha! parece uma sentença!... Vamos vêr isso, que eu já me não sinto escorreito.

O regedor tomou o manuscripto de oito paginas entre as mãos, poz-se em attitude abrindo as pernas em circumflexo, tossiu, tomou folego, deu crena de saliva aos beiços, e leu engasgadamente: «D'onde vem esta celestial harmonia, que a minha alma ouviu, quando o céo me bafejava a infancia, e as delicias todas da existencia me eram prenunciadas nos sonhos?...»

O regedor revirou os olhos pasmados a Eleuterio, e disse:

—Tu percebeste isto, compadre?

—Assim me Deus salve, que não percebi palavra,—respondeu Eleuterio Romão esbugalhando os olhos sobre a escripta cabalistica.

—Portuguez acho que é!—tornou o regedor, consultando a opinião do compadre.

—Isso é, lá portuguez é... Ora torna a dizer.

O leitor repetiu, e disse:

—Falla aqui em alma, e sonhos, e delicias. Sabes que mais? Isto, seja lá o que fôr, não me cheira bem!... Aqui, Deus me perdôe, ha maroteira d'aquella casta!... Deixa-me vêr mais um bocado a vêr se pesco alguma cousa. E, continuando, leu:

«Sonhos de anjo, alumiados pela imagem lucida da filha da minha alma! volvei, volvei, orvalhai a flôr requeimada, dai uma lufada de primavera ao meu coração regelado pelos frios d'esta infinda noite... Oh minhas donosissimas chimeras!...»

—E agora entendeste?—voltou o regedor—eu estou como a Felicia d'Abrantes, peor que d'antes. Isto se não é latim, é o diabo por elle!

—Queres tu que se pergunte a alguem!?—acudiu Eleuterio—A gente ha-de achar quem lhe explique isto cá em Braga... Falla-se ahi a um padre que eu conheço, ao capellão das Ursulinas.

—Dizes bem... Tu não has-de ir para casa sem tirar isto a limpo... Queres tu vêr que ahi vem o homem que nos explica o negocio?—perguntou o magistrado administrativo—É meu compadre Fernão de Fonte Boa.

Era Fernão de Teive, conhecido por de Fonte-Boa, por ser lá o seu morgadio. Com o velho fidalgo vinha Mafalda, apoiada no braço d'elle, com doentio aspecto.

O regedor descobriu de longe a cabeça, e sahiu ao encontro de Fernão, que o recebeu com o agrado dos antigos fidalgos.

—Que é feito de ti, compadre, que te não vejo ha cem annos?—disse o velho—Desde que te fizeram regedor, acho que não cuidas senão em fabricar deputados, e comer os salpicões dos recrutas passados pela malha! Anda lá, meu homem, que em tempos melhores havias de ganhar o posto de capitão-mór, que geito para comer os saudosos lombos tens tu. Então que é feito, rapaz? quem é aquell'outro? Se me não engano, é o Eleuterio do Romão.

—Para servir a v. exc.ª—disse Eleuterio com tres mesuras de cabeça exageradas—Sou eu para servir a v. exc.ª

Fernão inclinou um olhar ironico sobre o hombro da filha, e disse com um mal represo frouxo de riso:

—Aqui tens o marido da morgadinha da Fervença.

Mafalda escassamente lançou um olhar ao sujeito, e baixou os olhos com gesto de notavel commoção.

E o regedor tirando a carta da algibeira, disse:

—Eu queria consultar o meu excellentissimo compadre a troco d'uma carta que nem eu nem meu compadre Eleuterio entendemos. A gente, como o outro que diz, o que sabe é de lavoura, e mal assigna o seu nome. O caso é este: aqui o compadre achou no correio esta carta p'rá mulher. Teve lá seus arrepios, e abriu-a. Começamos a lêr, mas nem p'ra traz nem p'ra diante. As palavras parecem portuguezas, acho eu; mas nós não sabemos o que ellas rezam. Se o senhor compadre fizesse favor de lêr isto...

Fernão de Teive ia a tomar a carta já aberta da mão do regedor, quando sentiu extraordinario peso no braço esquerdo, olhou em sobresalto, e viu Mafalda a desmaiar, com o rosto banhado de suor. Chamou-a, e ella, expedindo uns agudos soluços, quiz em vão pendurar-se do pescoço do pae. Tomou-a o velho nos braços com tremente anciedade, e transportou-a para dentro de uma loja, pedindo a brados um facultativo.

O regedor e Eleuterio seguiram Fernão, afflictos do successo. Na mão do regedor estava ainda a carta. O velho, sem atinar com o motivo do accidente, olhou machinalmente para o papel, e teve um repellão intuitivo, sem ainda o comprehender.

Tirou com desabrimento a carta da mão do compadre, examinou-a pela luneta, leu as primeiras linhas, desviou os olhos, meditou, lançou de arremesso o papel ao chão, e disse:

—Deixem-me... não sei o que é... Vão-se embora...

Os homens iam sahir, quando elle os chamou com phrenesi, pediu a carta, e desfêl-a em pedacinhos, exclamando:

—Isto não é nada, nada vale, podem ir com Deus.

Eleuterio estava assombrado, e o compadre abria e fechava a bocca em signal do seu espanto e compaixão. Em boa fé, o regedor acreditou atacado de demencia o velho, ao vêr a filha em trances de morte. Afastaram-se em consultas, dando cada qual sua razão do caso, bem que Eleuterio ia mediocremente satisfeito da rasgadura da carta.

Quando recobrou o alento, Mafalda levou as mãos ao rosto do pae, e murmurou mui carinhosa:

—Perdôe-me, por quem é! Perdôe esta fraqueza da sua infeliz filha!

—Pobre anjo—balbuciou o velho—Que has-de tu fazer-lhe? Deus mandou-te aquelle desengano... Recebe-o tu, reportada e humilde, de suas divinas mãos. Precisavas d'isto, para em fim te convenceres.

Mafalda pediu ao pae que a levasse ao primeiro templo aberto. Ajoelhou ao altar do Senhor dos afflictos, chorou, e viu as lagrimas do velho ajoelhado á beira de ella. Ergueu-se com pacifico semblante e disse:

—Estou melhor, meu pae. Deus não falta aos infelizes sem culpa, nem mesmo aos culpados... Tambem orei pelo primo Affonso.

—Eu não orei—disse o pae—mas rasguei o documento de sua infamia.