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Amor de Salvação

Chapter 18: XVI
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About This Book

This work explores the complexities of love, contrasting the themes of pure and impure affection. It delves into the misfortunes associated with misguided love, emphasizing that true redemption often arises from suffering and moral struggle. The narrative suggests that while happiness may be fleeting and less documented, the journey through turmoil is essential for personal growth and the eventual embrace of honorable love. The author reflects on the nature of love as a transformative force, illustrating that even through despair, one can find a path to salvation and renewal.

XV

Affonso de Teive contava os dias, e, no ultimo dia, a hora e instantes em que devia receber carta de Theodora. Esperou uma semana em alvoroço, e já, ao decimo dia a mallograda esperança o atormentava. A incerteza da recepção alliviava-o por momentos; outros, porém, sobrevinham em que elle se considerava desconsiderado pela caprichosa ou vingativa mulher. O mais graduado oraculo do seu conselho, D. José de Noronha, racionalmente, opinava que a mulher, authora de taes cartas, por força devia responder; e do silencio concluia que se transviára a resposta enviada. Chegou a confirmação d'esta hypothese, na seguinte pergunta de Theodora:

«Instantemente rogo que no primeiro correio, me digas se me escreveste. Sobejam-me razões para conjectural-o. Estou em ancias. Esta incerteza martyrisa-me mais que o teu desprezo. Responde-me depressa. Dirige a tua resposta—pedida com lagrimas—para Barcellos. Calculo o dia em que ella deve alli estar. Irei pessoalmente recebel-a. T. P.»

Lida a pergunta, Affonso abancou para responder. Posta a primeira palavra, ergueu-se de salto. Chamou o criado da cavalhariça. Mandou pençar os cavallos para jornada longa. Sentou-se a escrever a D. José de Noronha. Cuidou seguidamente dos aprestos para a partida; e, duas horas antes da sahida do correio, galopava na estrada do Porto. A meia jornada fraquearam os cavallos. Affonso fez remonta em Coimbra, sem discutir o preço das novas cavalgaduras, e chegou a Barcellos duas horas primeiro que o correio.

Quando apeou na estalagem de Barcellinhos, encostou a cabeça esvaida á borda d'um leito, e adormeceu. Rompia a manhã. A mim me contou elle que, dormindo uma hora, acordára tranzido do horror de um sonho. Vira Theodora em trajos de bacchante, revolteando umas walsas lubricas, e atirando-se ebria, e torpe de impudicicia, aos braços d'um homem. Era um sonho; mas, ao despertar, Affonso sentia abrir-se-lhe o coração a golpes de arrependimento. A prostração era invencivel: adormeceu outra vez, e sonhou que via sua mãe agonizante nos braços de Mafalda. Acordou espavorido; ergueu-se arrancando a mãos freneticas aquella imagem da fronte; o arrependimento era já lançada de remorso. Abriu o relogio: viu que era ainda tempo de fugir... Diz elle que fugiria... ai! eu não creio que elle fugisse, não! Chamára o criado para arreiar os cavallos... eis que, ao cimo da rua sôa tropel de ferraduras, e faz-se rapida paragem á porta da estalagem. Affonso descora, vai de encontro ás vidraças, e vê apear a morgada.

O quarto d'elle era contiguo á sala commum. Já Affonso lhe ouvia os passos escada acima, e logo a voz ordenando ao lacaio que amantasse os cavallos e fosse receber as suas ordens. Foi elle manso e manso espreitar pela fechadura. Respirava em arquejos ao visinhar-se da porta. Curvou-se, inspirando sofrego o ar que lhe sahia a sacões do peito. Viu-a. Estava com o braço esquerdo encostado á mesa central da sala, e a face reclinada para a mão. Com a direita chibatava, como alheada do que fazia, o pó acamado no roçagante vestido de casimira verde escuro. Verde era o véo do chapéo, que, momentos depois, ella tirou com um rapido movimento, e rojou ao longo da mesa. Levou ambas as mãos ás fontes, afastando os anneis dos cabellos, que se encaracolavam rosto abaixo até ás espaduas. Demorou-se momentos n'aquella postura. Ergueu-se impaciente, e passeou d'um a outro lado da casa, vibrando o chicote, e tirando com força pelo trancelim d'ouro do relogio. Volveu a sentar-se, com o rosto voltado em cheio contra a porta, d'onde Affonso a observava. «Poucos traços lhe vi então das feições menineiras com que a deixára—me disse elle—Da menina admiravel o que ella ainda tinha era o ar angelico; mas a belleza da mulher deslumbrava as reminiscencias da creança.»

Venceu Affonso os impetos que o empuxavam para abrir a porta. Esperou, sem saber o que: esperava o desencantamento, esperava o dom da palavra retrahido ao coração.

Entrou o lacaio que ella mandou logo ao correio com um bilhete alli escripto a lapis. Desde este momento, Affonso já sabia o que esperava: queria vêl-a affligida com a falta da carta. No intervallo, Theodora chamou o criado da hospedaria, e pediu café. O criado, ouvidas as ordens, dirigiu-se ao quarto de Affonso: este viu-o, e afastou-se. Aberta a porta subtilmente, perguntou o criado se s. exc.ª queria almoçar. Affonso respondeu com um aceno negativo. Fechada a porta, perguntou Theodora:

—Quem é que está n'aquelle quarto?

—Não sei, fidalga—respondeu o moço.

Affonso repoz-se á fechadura.

Chegou o lacaio.

—Trazes?—exclamou ella como assustada.

—Não ha, minha senhora.

—Não?!—bradou ella batendo o pé—É impossivel! É impossivel! Deve lá estar uma carta!...

—Saberá v. exc.ª que eu li a lista primeiro, depois fui dentro perguntar ao homem que dá as cartas—disse o lacaio, e sahiu.

—Inferno!—clamou ella estorcegando os dedos que estalavam nas articulações.—Maldita eu seja, que tão aviltada me tornei!

Sentou-se a arfar, e a chorar, e logo depois levantou os pulsos comprimindo as fontes.

Pôz depois as mãos enclavinhadas junto dos labios, encostou a barba ao pollex da mão esquerda, abaixou a cabeça, e meditou.

Entrava o criado com a bandeja. Theodora, estremecendo como atemorisada, relanceou os olhos sobre o criado, e disse-lhe com desabrimento:

—Deixe ficar. Cá me sirvo. O lacaio que almoce, e apparelhe.

N'este momento Affonso abriu a porta, e disse com a voz convulsa:

—Um passageiro pede uma chavena do café de v. exc.ª

O leitor já sabe por todos os romances, por todos os dramas, e por todos os actos da vida real, semelhantes, muito ou pouco, a este, o que Theodora fez. Um ah! ou dous, é o nariz de cêra para todas as surprezas, fabricado desde Homero, ou mais de longe. Adão, quando viu Eva, devia dizer: ah! A Eva, quando viu a serpente, se não fugiu eu vou jurar, sem menoscabo do historiador Moises, que mais ou menos nervosa, exclamou ah! A interjeição é coeva do homem, que nasceu cheio de espantos.

Espanto, porém, igual ao da morgada, se o houve, foi o meu, quando Affonso me disse que Theodora não expediu do seio interjeição nenhuma, nem ah!, sequer.

—Pois que?!—perguntei eu com a respiração abafada—Que disse ella?!

—Levantou as mãos, ajuntou-as sobre o seio, postas em oração; depois, cahiu em joelhos, ia cahir, quando eu, ajoelhado tambem, a recebi, a desfallecer.

—Não disse nada, por tanto!... E desfalleceu sinceramente?

—Fazes-me essa pergunta como quem conheceu a mulher...—respondeu Affonso—Asseveras-me que te estão contando factos ignorados?

—Pois eu podia saber o que se passou na estalagem de Barcellinhos?!—repliquei—Eu ignoro d'essa mulher tudo, menos o que toda a gente sabia. Vi Palmyra em Lisboa comtigo... mas, se tu crês que um homem, acostumado a fazer romances, é uma especie de naturalista, que só com um osso recompõe um animal desconhecido, admitte-me que eu tenha adivinhado a alma inteira de Theodora com os poucos, mas caracteristicos traços que me deste do seu caracter. Authorisado, pois, pela tua pergunta, afouto-me a dizer que o desmaio da amazona foi menos de theatral, por que nem sequer foi precedido da inevitavel interjeição. Assim que me disseste, Affonso, que ella não desentranhou do intimo seio um estridulo ah! entendi que Theodora era mais artificial que o proprio artificio, mais theatral que o mesmo theatro.

—A narrativa—redarguiu Affonso de Teive—vai perdendo a seriedade que demandava o caso. Cansaço ou enojo, dir-te-hei que me sinto já constrangido n'estas memorias. Acho-me um pouco identificado com a minha vida passada; repassei o Lethes interposto, e olho com saudades para as margens que deixei. Se, como diz o Dante, nada ha ahi mais triste que recordar na miseria os tempos felizes, é, pelo menos nauseabundo recordar em tempos felizes vergonhosas miserias. Todavia, como já agora, inexoravel romancista, me não dispensas o remate d'este longo prologo do capitulo final do meu livro—livro que eu chamaria Amor de Salvação—concluirei a historia, e irei depois purificar meus labios no rosto de meus filhos.

—Theodora—continuou Affonso—quando quiz abrir os olhos, arrancou-se dos meus braços, exclamando:—Repelle-me, que eu sou indigna de ti. Agora reconheço a minha miseria, agora que te vejo, ó Affonso, ó anjo da minha infancia, que eu deixei fugir para o seio da mulher digna, da mulher pura, da creatura perfeita para quem tu nasceste!...

—Ha ahi muito estylo—interrompi—A mulher compunha! Vê-se que leu e aproveitou. O deputado de Braga é que tinha olho de D. João de Maraña para as mulheres de letras. E depois?

—Eu venci o espaço que ella deixára recuando e abracei-a. N'este movimento, senti nas faces o contacto dos caracoes desfeitos. Osculei-a na fronte...

—Gosto—atalhei—do comedimento honesto da palavra... Osculei-a... sim, senhor... Assim é que um pae de oito filhos conta a historia dos seus beijos. E ella tambem te osculou?

—Sofregamente, doudamente, segurando-me a face pelos cabellos.

—Isso tambem é de rigor theatral. A mulher conhecia a scena!—perdôa as interrupções. De proposito as faço para te dar azo a inspirares fôlego novo, visto que já te afadiga o conto. E vai depois...

—Rebentou-me a bolhões do peito a eloquencia da paixão. Era uma alma virgem que se abria. Abria-se um thesouro intacto, d'onde nem sequer tirára uma palavra para mentir a outra mulher. Ella entrecortava-me, sorvendo-me as expressões nos labios, ou abafando-m'as no seio palpitante e ardente como o arquejar estuoso do vulcão. Este lance febril, de minutos no viver de meu espirito, absorvêra uma hora, segundo a vida do tempo...

—E depois—acudi eu—começaram a tratar de assumptos circumspectos com discreta serenidade.

—Contou-me ella que o marido, com ar de tyranno tolo...

—A phrase é d'ella, tyranno tolo?—perguntei.

—É. Desgostar-me-hia o tom zombeteiro com que me ella fallava do pobre homem, se eu não estivesse...

—Corrompido—conclui—Querias dizer isto?

—Era isso verdadeiramente. Dizia, pois, ella que o marido lhe fallava em correspondencias de Lisboa, mordendo o beiço, ou esgaravatando nos pavilhões dos ouvidos, costume d'elle, quando os ciumes lhe faziam prurido nas orelhas.

—Disse-t'o assim ella?—interrompi com a mais ingenua irritação.

—Disse-m'o assim, com pouca differença, mezes depois, quando eu estava mais corrompido que ella para provocal-a ás originalidades da sua veia sarcastica: do que me confesso em opprobrio meu. Delineamos o nosso futuro. Foi ella quem o programmou. Iriamos para longe. Propuz Lisboa, ou Madrid, ou Paris. Quiz Lisboa, no intento de requerer divorcio. A fuga teria execução antes de oito dias. Eu ficaria em Barcellos, disfarçado, occulto, durante o dia. Á meia noite apearia a um oitavo de legua de Tibães. Theodora estaria no seu gabinete de estudo, e as vidraças coariam a luz da sua lampada, companheira das lucubrações intellectuaes, insuspeitas ao marido. Referendado o programma e rubricado com um osculo (repara, que não me descomponho) ouvi estropeada de cavallo na rua. Momentos depois...

—Querem vêr que chega Eleuterio!—atalhei com alvoroço e alegria parvoa, senão cruel.

—Eleuterio Romão dos Santos, em pessoa, tropeando nas escadas que subiam para a sala, onde nós estavamos tranquillos como Paulo e Virginia (perdoai-me santas almas a comparação!) nos rochedos de S. Domingos! Agora tu, Caliope, me ensina a contar o successo estranho!... Eleuterio viu ainda o desencadearem-se os braços de Theodora do meu pescoço. Parou, estacou, empederniu-se, estupidificou-se no limiar da porta.

—E Theodora? narra-me da esposa surprehendida; que fez ella?—perguntei com inquieto empenho.

—Theodora, pendidos os braços, fitou Eleuterio com sobranceria, deu dous passos, postou-se diante de mim, e disse, voltada para o marido:

—Que me quer? A minha alma é livre.

—Esperava outra cousa eu! Isso parece-me estupidamente immoral. É caso novo e feio esse! E tu, que fizeste tu?

—Nada.

—Dos tres é quem andaste melhor. Parabens! E elle, o marido, que fez depois? que respondeu á Panthasilea?

—Respondeu que lhe ia dar cabo da casta, e tirou uma luzente podôa de dous gumes do bolso interior da judia.

—Uma podôa! Outra novidade! E arremetteu com ella?

—Quando elle sacou do ferro, passei para a frente de Theodora.

—Desarmado?

—Desarmado: as pistolas estavam no meu quarto. Mas a Panthasilea virgiliana, como tu apropriadamente a denominas, repelliu-me com um braço, e mostrou na extremidade do outro uma pistola abocada ao peito do marido.

—Novidade terceira!—acudi eu, quasi suspeitoso da logração do conto—Tu não estás inventando, Affonso?

—É inepta a pergunta; mas perdoavel. Não invento, meu amigo. Conto verdades que me entristecem. Recordar-me agora do gesto consternado do marido d'ella, punge-me devéras. Tremia-lhe o ferro na mão ameaçadora, e já o rosto se lhe estava banhando em lagrimas. Desceu o braço quebrantado por agonia mais lacerante que a ira, e fitou em mim os olhos chammejantes. De mim, relanceou-os á mulher; e, desafogando a custo as palavras, disse:

—Castigada te veja eu, e Deus me vingue!

—Não esperava eu que elle dissesse isso. Ha concisão e angustia suprema n'esse appellar a Deus—reflecti eu condoido, não obstando têl-o visto, como fica escripto, no arraial de S. Braz de Landim, annos antes, em geito de muita felicidade, e grande frescura de animo e coração—E continuei no meu impertinente interrogatorio, tendo em vista que o leitor fosse bem informado:—Eleuterio, depois, sahiu, ou que fez?

—Chorou, embebeu as lagrimas no lenço, e disse: «Eu não te obriguei a ser minha mulher. Se casaste foi por que quizeste. Se tinhas outra inclinação, não dissesses a meu pae que me querias.»

—Que impressão fizeram em ti essas palavras tão simples e sinceras?—perguntei.

—Má impressão!—respondeu Affonso de Teive—pessima impressão! Desviei involuntariamente os olhos d'ella: a razão sahiu por momentos do seu chiqueiro, e teve dó da alienação da minha pobre alma. Eleuterio, por ultimo, rematou assim: «Não tenho mulher. Vou para minha casa, e vai tu para a tua.» E sahiu. Theodora voltou-se para mim, atirando a pistola sobre a mesa, e disse: «Estou livre. Aqui me tens, Affonso. Aqui está a tua Palmyra, com o virgem coração que lhe conheceste, mais valioso do que era, mais depurado dos instinctos maus, graças aos trabalhos que me angustiaram a vida. Queres-me assim, Affonso?...

—Abraçaste-a fervorosamente, convulsamente—interrompi eu.

—Não: disse-lhe com uma falsa graça no rosto:—quero-te assim: partiremos hoje mesmo para Lisboa. «E os meus fatos, as minhas joias?—perguntou ella—Tenho brilhantes que eram de minha mãe.»—Deixa-os. Terás brilhantes, se elles forem precisos á tua felicidade—«A minha felicidade!—exclamou Theodora, ajoelhando-se-me de mãos postas—a minha felicidade é uma choça comtigo, no ermo, no isolamento de todos os prazeres da sociedade»—Ergui-a com amor. Tocou-me o contraste d'aquella humildade com a arrogancia da resistencia ao marido.

—A esta procella de commoções violentas, seguiu-se um intervallo de silencio morno, concentração por ventura dolorosa em que os nossos olhares mutuamente se interrogavam. Eu via minha santa mãe, e a purissima imagem de minha prima. Theodora não sei o que via: póde ser que estivesse lendo a pagina negra do seu destino, voltada pela mão do Senhor. Eu de mim esforçava o contentamento no rosto: os olhos viam-na embellezados; o ambiente escaldante que ella aquecia com o seu halito coava-me lume até ás medullas dos ossos; mas o formidavel grito da moral repercutia-me no senso intimo da minha queda. Desgraçadas e atrozes ligações as que principiam assim! É que a sentença da justiça divina foi já lavrada.

Theodora abriu a janella da sala e aspirou com força; encostou-se ao peitoril, com os olhos cravados nos cabeços da serra da Tranqueira.

—Em que meditas, Palmyra?—perguntei-lhe eu.

—Em minha mãe, que era virtuosa como a tua—respondeu ella.

Esta dôr nobre, tão singelamente revelada, fez-me bem ao coração. Commoveu-me aquelle dizer de mulher, no tom da maviosa feminilidade que sôa tão brando e compadecedor nas almas de rija tempera, como era a minha. Fallamos de nossas mães, e com tantas caricias de expressão saudosa, que terminamos, beijando um do outro os olhos cheios de lagrimas.

No mesmo dia, por volta da tarde, sahimos caminho de Lisboa.

XVI

Volvido um mez sobre os successos descriptos, Affonso de Teive e Palmyra—que nunca mais se chamou Theodora—viviam n'um palacete ao Campo Grande, por ser entrada a sazão estiva.

O interior esplendido da casa sobreexcedia o exterior magestoso. Nas cavalhariças escarvavam, arrifavam e relinchavam os cavallos de trem e de passeio. No pateo, os lacaios limpavam e bruniam os arreios, e as equipagens. Sentia-se o respirar da felicidade, como escondida das invejas do mundo, n'aquelle magnifico aposento. O dono d'ella gozava-se da fama de opulento fidalgo do Minho; porém, o thesouro, que a publica admiração mais lhe encarecia, era Palmyra.

Frequentavam a casa de Affonso de Teive alguns dos amigos, que D. José de Noronha lhe dera, moços da primeira fidalguia. Ao verem a mulher, por quem Affonso desprezava todas, acharam e disseram, sem lisonja, que elle tinha soffrido e amado pouco. A espectativa de D. José fôra surprehendida pelo excedente d'uma formosura, graça e talento, não imaginados. Estes gabos, porém, proferidos a medo na presença d'ella, eram tão respeitosos e aferidos no padrão do melindre palaciano, que Affonso de Teive, nem por sonhos, aventou a possibilidade d'uma intenção desleal do amigo. Palmyra, por sua parte, quando os seus hospedes e convivas, no mais accêso dos brindes em lautos banquetes, lhe balanceavam o incensorio dos louvores, baixava os olhos, inclinava a cabeça, e mostrava aceitar resignada o incenso, em obsequio aos thuribularios.

Era aquella a atmosphera inebriante dos anhelos da morgada da Fervença. Lembranças de sua vida conjugal em Tibães afastava-as com repulsão.

A imagem de Eleuterio fazia-lhe vergonha de si mesma. Tornou-se desnecessaria a leitura ao recreio das suas noites. Preferia, á falta de theatros, passear a cavallo ao clarão da lua, ladeada de Affonso e de D. José de Noronha, a mais intima e feliz testemunha dos prazeres de Affonso. Tinham noitadas de estenderem a Cintra os seus passeios, ora serenos e contemplativos, ora em correria vertiginosa, á vontade e capricho de Palmyra, cujo cavallo negro ella denominára...

—Eleuterio?!—perguntei eu, cuidando que adivinhára, quando o meu amigo chegou a esta altura da historia.

—Não, nem tanto...—respondeu Affonso—chamava-lhe Lucifer.

—Que desprezo do monarcha do inferno! Parece-me que Palmyra não tinha virtudes para zombar assim do personagem que provavelmente lhe ha-de pedir eternas contas da nomenclatura do quadrupede!

Vamos no proseguimento d'esta celestial felicidade, em que o inferno apenas lembrava em virtude do nome do cavallo.

No termo de um anno, Affonso de Teive tinha escripto, a largos prasos, pouquissimas cartas a sua mãe. N'outro relanço viria mais bem cabido o fallar-se da virtuosa senhora e da angelical Mafalda. A promiscuidade faz-me susto de vituperal-as. Mas é preciso dizer que D. Eulalia, em cumprimento da sua promessa, remettia ao filho as quantias avultosas que elle exigia, e o producto d'uma quinta de sua legitima paterna, logo que Affonso lh'o determinou. Fernão de Teive comprára a quinta clandestinamente por intervenção do seu mordomo. O ouro entrava em torrentes n'aquella voragem, d'onde retornava em carruagens, em baixellas, em festins, em sêdas e brilhantes, em apostas soberbas no jogo, em extravagancias de soada fama, em emprestimos aos commensaes. No decurso dos doze mezes, apenas Fernão de Teive mandou um triste memento homo ao reboliço d'aquelles jubilos. Eram estas palavras unicamente: «Lembra-te, Affonso, de teu tio-avô Christovão de Teive.» Affonso sorriu e perguntou a Palmyra se lhe via signaes de lepra. A jovial creatura, informada da intencional allusão, cascalhou umas risadas de que muito se compraziam os ouvidos do amante, as quaes, no dizer de D. José de Noronha, tinham uma alegria contagiosa, que faziam bem aos infelizes. Affonso não respondeu ao velho de Fonte-Boa; mas, n'uma hora de solidão em seu particular gabinete, sommou as parcellas hauridas de sua casa, e espantou-se; calculou a quantia necessaria para vinte annos de vida, e descobriu que no fim de dez annos devia estar morto, para não pedir esmola aos parentes. Levantou-se pensativo d'esta operação arithmetica; sahiu do gabinete; e encontrou Palmyra a lembrar-lhe a conveniencia de arrematar um camarote de S. Carlos, que estava a lanços. Affonso respondeu tristemente: «Pois sim.» Palmyra não viu linha alguma extraordinaria no rosto do amante: beijou-lhe os olhos, e disse: «És um anjo!»

Desde aquelle fatal dia dos calculos sobre as despezas de vinte annos, Affonso scismava a miudo nos dez que restrictamente lhe offereciam os seus presumptivos cabedaes, contando já com o fallecimento da mãe. «Infame clausula dos meus calculos!» dizia elle com os olhos a reverem lagrimas de remordente remorso, treze annos depois.

Palmyra, a final, deu tento da melancolia de Affonso; e ainda antes de consultar-lhe a causa, perguntou se a não amava já. O interrogatorio affligiu o moço. Reconheceu que faltavam n'aquella mulher as sérias qualidades de espirito para lhe escutar o motivo de suas abstracções, em meio dos favores da fortuna.

Manifestou Palmyra o seu insoffrido orgulho. Similou um recolhimento de amargura cavillosa. Pranteou-se, perguntando ao céo, em attitude tragica, se a expiação começava tão cedo. Affonso acariciou-a, já condoido d'ella, e revelou, com desdem de seus proprios temores, a causa mesquinha d'elles. Palmyra observou-lhe que a fortuna d'ella, a sua parte, excedia o valor de vinte e cinco contos, e propoz-lhe requerer-se divorcio, desde logo. O bizarro moço recusou a proposta, ajoelhando em espirito, á generosa offerta de Palmyra.

Passou a nuvem. Requintaram os gozos e as despezas. Projectaram-se passeios ao estrangeiro. D. José de Noronha era grande parte e conselheiro n'estes prospectos de recrescente felicidade. Lembrou Palmyra a semana santa em Sevilha. Foram a Sevilha, detiveram-se por Hespanha dous mezes até presentirem uns longes de fastio. Voltaram a Lisboa no ante-gosto de planeadas excursões á Italia. Affonso de Teive entrou no seu escriptorio, em busca de cartas, e abriu primeiro uma das duas de Mafalda, antes que Palmyra o surprehendesse a lêl-as. Rezava assim a primeira:

«Meu primo. A nossa mãesinha está muito adoentada, e causa receios ao medico de Braga, que vem aqui todos os dias. Não me authorisou a chamar-te; mas eu, depois de consultar meu pae, resolvi participar-te isto, e pedir-te que venhas vêr esta santa. Ella não cessa de chorar e rogar a Deus por nós. Vem pedir-lhe que, ao sahir d'este desterro, continue a pedir no céo por ti, por mim, e por todos os infelizes. Tua prima, Mafalda

Era datada esta carta em 6 de Abril de 1852.

A outra, datada em 18 do mesmo mez, continha o seguinte:

«Meu primo. Acaba de expirar tua mãe. São cinco horas da manhã. Morreu-me nos braços. Dava tres horas o relogio, quando ella disse que havia de expirar quando raiasse o dia. Assim foi. Fallou de ti até á ultima, e ordenou-me que te mandasse uma carta, que ella escreveu no segundo dia de sua enfermidade. Admirei que não me respondesses ao menos á que eu te escrevi então. Deus sabe o que vai na tua vida. A santa lá está no céo: ella conseguirá o que fôr melhor para ti, em conformidade com os decretos do Altissimo. Aqui está meu pae a cuidar n'estes tristes preparativos para o enterro. Já dobram os sinos. Não me deixam escrever as lagrimas. Adeus, Affonso. Tua prima, Mafalda

Affonso, concluida a leitura d'esta segunda carta, bradou: «Meu Deus, meu Deus!» e cahiu de joelhos, escondendo a face nos estofos d'uma othomana.

Acudiu Palmyra aos gritos. Affonso ergueu-se, com as mãos no rosto, e, abafando os soluços, pôde dizer: «Morreu minha mãe!»

—Chora, no meu seio—disse ella commovida—chora, meu querido filho! Tens ainda este grande coração que te abriga na tua angustia.

Estas palavras alancearam mais a alma do meu amigo. Pareceram-lhe um sacrilegio, uma injuria á memoria da mulher, cuja vida fôra uma enchente de virtudes. «O coração da adultera a dar abrigo á dôr de um filho!» Era a consciencia que assim lhe gritava, não era ainda o tedio. Era, talvez, a repugnancia de se encostar ao seio da mulher por amor de quem deixára morrer sua mãe, esquecida, desprezada mesmo, lembrada algumas vezes como senhora mieira da casa, cujo herdeiro elle era.

Affonso pediu a Palmyra que o deixasse sosinho. Ferida em sua vaidade, considerando-se inutil em consolar o homem fraco, o homem debulhado em lagrimas, Palmyra cruzou os braços e abanou a cabeça. O atribulado moço não vira aquelle gesto; mas ouvira as palavras que o denunciavam:

—Não basta o amor da mulher amante para consolar as saudades de uma mãe. Eu tambem a tinha, quando te amava, e abriguei-me no teu coração. Que differença!...

Affonso irou-se; mas abafou a colera n'um gesto de impaciencia. Palmyra comprehendeu-o, retirou-se, lançando os olhos ás duas cartas, que estavam abertas. Encostou-se á mesa, e leu-as sem lhes pôr mão. Lidas, sorriu-se, remexeu ainda na lingua uma ironia infame, não ousou proferil-a, e sahiu. É que a mulher impura muitas vezes espumára o pus do cancro do orgulho, que a roia, na face immaculada de Mafalda, que o moço indiscreto algumas vezes, com fatuidade, relembrava como desgraçada na sua amoravel dedicação.

Assim que Palmyra sahiu, Affonso, a tremer calefrios, deslacrou a carta de sua mãe. Dizia assim:

«Meu filho. Muito ha que eu peço a Deus que me despene. Já me cançava a vida com tão aturado padecer, e nenhuma esperança de remedio.

«Agora espero que a misericordia do Senhor me attenda; e, se me diz verdade o coração, é chegada a hora de eu escrever umas linhas, que te serão mandadas quando eu tiver passado.

«Bem sabes tu, meu filho, que eu, cheia de terror do teu peccado, voltei para Deus a minha afflicção, e nenhuma palavra de censura te escrevi. O que eu podia fazer para livrar-te estava inutilmente feito. Era tardio tudo que fizesse depois. A infeliz creatura estava já comtigo. Ninguem sem ordem do céo poderia remil-a de sua perdição. Á minha presença veio o desgraçado marido de Theodora pedir-me que te movesse a influir no animo de sua mulher o recolher-se n'um mosteiro. Consultei primeiro a vontade divina, e depois a razão humana. As minhas orações, se podessem com Deus alguma cousa, lá iriam ter á tua alma em abalo de consciencia. O Senhor não quiz. As pessoas a quem pedi voto sobre escrever-te, segundo o pedido do homem de Theodora, todas me disseram que eu ia abaixar a minha dignidade n'um requerimento vão e desconforme á natureza da tua desgraça. Abaixar a minha dignidade não me custava nem humilhava; mas, sem esperança de te mover com as minhas pobres razões, antes quiz orar, e orar sempre a quem tudo podia.

«Bem sabes, meu filho, que eu, nem mesmo ao remetter-te n'um anno o rendimento de quatro, afóra o producto da quinta vendida, nada te disse respeito á causa dos teus desperdicios, promettedora de tua inevitavel pobreza.

«Conheci que eu, em tua vida, já nem sequer valia para amiga, muito menos devia esperar respeitos e amor á minha authoridade de mãe. Disse commigo que era irremediavel a tua desgraça, e esmoreci de todo em todo.

«Mandou o Senhor para o meu lado tua virtuosa prima. Choramos ambas; mas o anjinho, mesmo em prantos, consolava a pobre que lhe via a alma em grandissimas mortificações.

«Agora, meu filho sempre querido, é tempo de te abençoar, de te perdoar as dôres que me déste, e rogar-te que me vejas aos pés do Altissimo, se a sua misericordia me descontar as agonias nas muitas culpas de minha vida. Não te mortifique o pezar de me haver deixado morrer, sem que a tua vida se lavasse, pelo arrependimento, do deshonroso crime que a disforma. A todo o tempo, se sentires o voluntario brado da consciencia, escuta-o, remedea-te, e foge de ti mesmo para te encontrares na justiça benigna do perdoador de crimes iguaes. Eu serei então em espirito comtigo para te ajudar a reformar o teu animo, e alentar em teus desfallecimentos.

«Dos desbarates e perdimento dos teus haveres, faz muito por salvar ao menos esta casa onde nasceste, e a quinta que te dará abundante pão na velhice, se Deus t'a der, como tempo de merecer o céo. Aqui nasceu teu pae, e muitas gerações de santas e honradas pessoas. Salva esta casa, que tens n'ella a sepultura de teus paes e avós.

«Se alguma vez voltares aqui, e tua prima fôr viva, estima-a, em paga dos carinhos que lhe fico devendo, e do beijo de filha, que ella me ha-de dar, quando eu expirar em seu seio. Aqui te lança sua derradeira benção a tua boa mãe, Eulalia

 

XVII

Encerrou-se Affonso por espaço de oito dias, inconsolavel aos afagos de Palmyra. Os amigos, seus socios de vida viciosa e soberba de sua culpa, e contubernaes logrativos das dissipações, enfureciam-lhe o tormento do remorso. Furtava-se á vista d'elles, fechando-se, quando vinham, com o semblante composto de falso compadecimento, lembrar ao amigo, em lucto de oito dias, que um homem de razão clara tinha obrigação de ser superior a soffrimentos communs e naturalissimos, taes como a morte de uma mãe. Palmyra ia ao salão receber os pezames, e combinava-se com os cavalheiros admirados da pusillanimidade de Affonso. «Eu soffro muito—dizia ella a D. José de Noronha alquebrando o rosto em desconfortada pena—ao vêr que a minha solicitude consoladora nada póde com Affonso. O coração da mulher, que renunciou á satisfação do dever, e se immolou aos caprichos transitorios d'um homem, deve tambem renunciar o poderio de desviar d'uma sepultura os olhos d'elle. Assim se é castigada, quando se é culpada como eu.» A taes razões, proferidas com os olhos no tecto, respondia D. José de Noronha:—Eu hei-de acreditar que Affonso deixou de amar apaixonadamente v. exc.ª, quando elle se confessar um monstro, e a honra fôr banida d'este mundo. Eu só comprehendo o esquecimento da honra, quando é preciso sacrifical-a a uma senhora como v. exc.ª Ainda bem que ha uma só, para se não abjurarem os deveres sociaes.—Ora, o estylo de Affonso—digamol-o de corrida—era muito mais lhano e correntio.

O filho de Eulalia, passado o primeiro mez de lucto, disse com suaves maneiras a Palmyra que o seu animo estava passando por estranho reviramento, no tocante a prazeres falsos do mundo;—que resolvia diminuir as suas relações e as suas superfluidades;—que tencionava occupar algumas horas na leitura, em que felizmente Palmyra o acompanharia, revivendo a sua esquecida affeição aos livros;—que aceitava como inspiração de sua santa mãe o desapegar-se de regalos vãos, deleites de mera vaidade, que perdem seu sabor ainda antes de se acabarem: finalmente, concluiu Affonso: «Vivamos como amantes que dispensam serem admirados para serem venturosos.»

Palmyra sorriu, e disse:

—Bem sei... bem sei, Affonso.

—Que sabes tu? perguntou brandamente o moço—Diz o que sabes, minha amiga.

—Comprehendo a mola occulta do teu novo programma de vida... É o cansaço... Já me chamas tua amiga. A mulher, que ama, quando lhe dão tal nome, sabe que é cousa de pouca monta para quem lh'o dá. Falla-me claro: sentes o entojo de impressões novas? As cartas de tua prima é que levantaram em teu espirito essas poeiras de tardia virtude? Nada de refólhos, Affonso. A minha opinião é que nenhum de nós se constranja. As pêas, impostas mesmo pelo dever, são um infortunio muito meu conhecido. Fazes-me pena, se o experimentas. Amas tua prima, Affonso?

—Não amo minha prima—respondeu serena e pacientemente o moço—Se amasse Mafalda, de certo não estaria ao lado de Palmyra. Estimo-a como irmão; respeito-a religiosamente hoje, por saber que o ultimo alento de minha mãe o recebeu ella nos labios... Porém, que tens tu com minha prima? Que injustas referencias são essas que continuamente lhe estás apontando? Que mal te fez a triste menina, que vive e morrerá sem outro prazer senão o da sua virtude mal remunerada n'este mundo?...

—Virtude!...—interrompeu Palmyra franzindo os labios no sorriso da ironia injuriosa—Sempre a virtude de tua prima em campo para contrastar naturalmente os meus vicios!... Pouquissima generosidade é a tua Affonso!... Terei eu de ouvir ainda de tua bocca o libello e a condemnação das minhas culpas?! Póde ser, póde ser, e eu, envelhecida pela experiencia de poucas semanas, não terei de que espantar-me.

—Offendem-me as tuas injustiças—redarguiu Affonso soffreando a impaciencia—Que direito te dou para tanto?

—Direito? queres, por acaso, dizer-me que estou em tua casa?!

—Essa pergunta é aviltante, Palmyra!... Onde está a tua intelligencia, a tua critica, e propriamente a tua vaidade?—redarguiu Affonso de Teive—Desconheço-te, estás a descer sem impulso estranho...

—A descer da tua consideração?—acudiu ella resabiada.

—Quem o duvída? A mulher de alma nunca faz semelhantes perguntas a um homem como Affonso de Teive. Queria eu dizer que não te dava direito, ou causa a offender-me.

—Bem!—tornou ella amaciada a voz com falso accordo—Aceito a explicação. Perdôemo-nos reciprocamente, e sejamos... sejamos... amigos, sim?

—Como tu feriste ironicamente a palavra amigos!...

—É que me não tôa bem nos ouvidos do coração—replicou Palmyra risonha, chegando a face aos labios do moço, que a beijaram friamente.

—Em quanto ao teu novo traçado de vida—volveu ella—queres que se cumpra, em rigor, como está ordenado, sim?

Ordenado, não é o termo proprio—Consulto-te, expuz em breve as minhas razões; mas se te despraz...

—Apraz-me tudo que te contenta, meu Affonso. De hoje em diante reformam-se os nossos costumes. Vendem-se os trens? trespassa-se o camarote? vamos habitar uma casa modesta... Queres, Affonso? Tambem eu.

Não escapou a Affonso o tom ironico de taes perguntas. Cahiu em si de repente, e viu-se em começos de castigo. Apagaram-se muitas luzes do altar em que elle tinha o bello barro idolatrado. Fugiram-lhe para sobre o tumulo de sua mãe os olhos d'alma, e viram Mafalda de joelhos na lagem da capella com a face apoiada no marmore do jazigo. As luzes restantes do altar ficaram para lhe amostrar o odioso da mulher de Eleuterio.

Ás perguntas retrincadas não respondeu Affonso... Ergueu-se, e sahiu do seu quarto. Refugiou-se no mais recondito do palacio, para chorar a salvo do opprobrioso sorriso de Palmyra. Depois, voltou ao seu escriptorio, e escreveu a Mafalda esta carta, significativa de mudança temporaria, senão fundamental, em seu espirito:

«Prima Mafalda. Vai ao pé do tumulo de minha mãe, e repete-lhe as palavras d'esta carta. A justiça de Deus esmaga-me. Sou eu que vergo debaixo do fardo de affronta que levantei da lama com minhas proprias mãos. O arrependimento dos desvarios da mocidade não costuma atalhar tão cedo a carreira dos grandes desgraçados. Fere-me Deus tão cedo! é por que me quer desatar d'este jugo de infamia. Auxiliem-me as orações de minha mãe, que eu sou fraco. Venham golpes de desengano, bem pungentes, para que se faça o dia da razão em minha vida. A aurora d'este dia já aponta; mas o meu coração ainda está envolvido em trevas, e cheio de amargura. Santas devem ser as tuas orações, Mafalda. Eu dobro o joelho ante a memoria de nossa mãe, ouso invocar a sua intercessão no céo; sei que a alma bemaventurada não repelle o mau filho que a crucificou nos ultimos annos, quando me ella pedia seio onde encostar as suas cans. Mafalda, anjo solitario, que vês com os olhos puros as estrellas da nossa infancia, ora por mim, dá-me a tua piedade, que nenhuma outra me dá este mundo. Escreve-me, diz ao teu veneravel pae que me escreva. Lembra-lhe os pardieiros das Taipas... Diz-lhe que o neto de Christovão de Teive sente já no coração o corroer das ulceras que carcomeram a pelle do emparedado. Amai-me ambos, defendei-me de mim proprio, que o esteio da religião não póde com o peso de meus desatinos. Teu primo, Affonso

Mandou Affonso lançar a carta na caixa postal. Um quarto de hora depois, entrava Palmyra, fremente de raiva, com a carta aberta, exclamando:

—Isto é uma grande miseria, e uma grande infamia, snr. Affonso de Teive! A minha dignidade vem pedir que esta affrontosa carta seja reformada.

Affonso lançou mão da carta, e recuou horrorisado da villania de Palmyra. Seccou-se-lhe a garganta e labios ao queimar d'um halito de colera que lhe calcinava o peito. Não pôde fallar. Sahiu do quarto, chamando a brados o criado a quem incumbira a remessa da carta. Já não era criado de Affonso o miseravel que vendera o sigillo de seu amo pelo ouro d'elle mesmo: fugira bem remunerado. No entanto Palmyra esbravejava de sala em sala, soltando gritos pavorosos. Affonso, congestionadas as fontes de sangue, e o coração em arrancos no peito, fincava os dedos nas carnes da face, tapando os ouvidos para não ouvir os clamores da mulher cuja furia recrescia á proporção do desprezo com que os proprios criados lh'a escutavam.

Affonso de Teive sahiu aforrado como quem foge; foi lançar a carta por sua mão; divagou horas no mais desfrequentado dos arvoredos do Campo Grande. Ahi sentiu orvalhos do céo esfriar-lhe o afôgo da febre. Olhou ao céo com mãos erguidas, e disse: «oh minha mãe!» Ao cahir da noite, voltou a casa, e viu no pateo o gig de D. José de Noronha. O seu lacaio particular, antigo criado de sua mãe, acercou-se cautelosamente d'elle, e disse-lhe:

—Fidalgo, não se afflija... Tenha animo, fidalgo, e não deixe fazer o ninho atraz da orelha.

O chulo da phrase offendeu-o, e a intenção mysteriosa ainda mais.

—Que queres dizer, animal?—perguntou Affonso.

O criado coçou-se fechando os olhos, e respondeu:

—Lá em cima está o snr. D. José de Noronha.

—Que tem isso? não o tens aqui visto tantas vezes? Responde.

—Tenho, tenho, e Deus sabe se cá por dentro me não tem dado guinadas de lhe partir na cabeça o gig.

—Por que? Vem cá... Entra n'esta loja commigo... Falla claro!—dizia Affonso com suffocativa vehemencia—Que desconfias tu de D. José?

—Desconfio, fidalgo, que a snr.ª D. Palmyra não é fiel a v. exc.ª

—Mentes! mentes!—bradou Affonso—Prova-m'o, senão mato-te.

—Não ha-de matar, se Deus quizer, senhor morgado—volveu tranquillamente o Tranqueira, nome que merece lembrado.—Faz favor de tomar ar, e ouvir com socego. Estes negocios não vão assim de afogadilho. Dê tempo ao tempo.

—Não é tempo ao tempo, é já, já, immediatamente. Diz o que sabes, Tranqueira, que se me fende a cabeça.

—Fidalgo, ahi vai o que sei. O criado que fugiu esta manhã, sem que eu lhe podesse pôr os dez mandamentos, foi cá mettido pelo lacaio da senhora, e era lá muito collaço d'ella. Uns dias por outros, pisgava-se do serviço o rapaz, e andava por lá quatro horas. Antes de hontem, tirei-me dos meus cuidados, e fui-lhe na pista muito á socapa. Levei-o d'olho até á rua de Santa Barbora, e lá esgueirou-se-me. Querem vossês vêr que o diabo as arranja? disse eu cá c'os meus botões. Estará elle mettido em casa do D. José de Noronha? Meu dito meu feito! D'ahi a menos de tres credos sahia o malandro de casa do tal supplicante, e vinha anda que anda por alli fóra. Sahi-lhe eu d'uma travessa, e disse: «Tu d'onde vens, Antonio?» O patife engasgou-se, e nem p'ra traz nem p'ra diante. Tate! disse eu, aqui ha tratantada. Se elle fosse a cousa boa dizia-o. Puz-me a considerar no que havia de fazer. Eu se lhe digo que o vi sahir de casa de D. José, espanto a caça, e fico por mentiroso, dizendo o que vi a meu amo! Que hei-de eu fazer? Embucho o que sei; tomo á minha conta espreitar a ama...—a ama! que a leve o diabo, que quem me paga é o fidalgo!—espreito e se pilho a melgueira em termos, esbarronda-se o negocio, e meu amo dá cabo d'este ladrão que o veio deshonrar a sua casa.

Affonso, além da voz do Tranqueira, ouvia um zunido e fisgadas dentro do craneo, como se lá se contorcesse e mordesse o cerebro um enxame de vespas.

O criado continuou:

—Antes de hontem á noite appareceu aqui o D. José. Fui em palmilhas atraz d'elle. Vi-o entrar na sala do tapete azul, e retirei-me assim que vi v. exc.ª entrar tambem com a senhora. Desde então não tornou cá senão agora; mas como lá está com elle outro amigo, acho que não tem duvida, e por isso vim para aqui esperar o fidalgo. Aqui está o que eu sei, meu amo. Bote lá as suas contas, e deixe-me dar uma carga de lenha ao tal menino, se fôr preciso.

Affonso poz a mão direita sobre o hombro do Tranqueira, e disse:

—Obrigado, teu amo agradece-te os cuidados que tens com a sua honra. Recommendo-te que não digas uma palavra a tal respeito. Ouves, Tranqueira?

—Então isto fica em agua de bacalhau?—perguntou o criado, abrindo e fechando as mãos.

—Já disse: nem uma palavra. Os teus cuidados agora passam para mim.

—Bem me fio eu n'isso!—murmurou o lacaio na ausencia do amo.

Affonso entrou no seu quarto; viu-se a um espelho: esperou que o rubor da excitação se descorasse, compoz o semblante, e passou á sala onde estavam Palmyra, D. José de Noronha, e um particular amigo d'este.

Palmyra, no sophá, tinha os braços em cruz sobre o seio, e a face inclinada sobre elles. D. José de Noronha folheava sobre a jardineira as Mulheres de Walter-Scott. O amigo estava sentado na poltrona contigua ao sophá. Cortejou Affonso os dous cavalheiros, depois de estender a mão a Palmyra, com tão demasiada ceremonia, que lhe não roçou as pontas dos dedos. Esta acção, depois da lucta da manhã, pareceu naturalissima á esposa de Eleuterio. Depois, achegou-se serenamente de D. José, observou a Flora Mac-Ivor do romancista escocez, concordou com D. José na primazia da gentileza d'esta heroina, disse poucas mais palavras, e pediu licença para recolher-se, obrigado por uma fortissima enxaqueca. Tudo isto com um natural irreprehensivel.

Entrou Affonso no gabinete de Palmyra. Havia alli uma secretária de mogno, com espelhos, cravejada de gavetinhas moldadas pelo feitio dos antigos contadores. Tiradas as gavetas da primeira serie, encontravam-se uns falsos de segredo, conhecido d'elle, que fôra o primeiro possuidor da engenhosa alfaia. Instigado pela suspeita, tirou Affonso pelos botões da gaveta central: estava fechada, e as duas lateraes abertas. Concluiu que a do meio segredava uma revelação. Procurou um ferro geitoso com que fazer saltar a fechadura: serviu-lhe a ponta d'um punhal. Cedeu a fragil lingueta, estalando. Tirou Affonso a gaveta, que continha joias: levou o dedo ao imperceptivel botão que abria o falso, e tirou dous macetes de cartas, e uma solta. Abriu esta, e leu as primeiras linhas. Uma sombra de duvida seria estupidez maxima. Dizia: É preciso cuidado com o lacaio de A. Encarou-me hontem de certa maneira... Emprega o nosso Antonio na espionagem d'alguma suspeita. Amanhã vai commigo o D. A. M. se fôr propicia a occasião elle sahirá a tempo. &c.

Passou Affonso ao seu quarto para deliberar meditando. Que lance para meditações! D'ahi a pouco ouviu o rugir das sêdas de Palmyra. Lançou-se apressado sobre o leito, com a fronte entre as mãos.

—Estás melhor?—disse ella maviosamente.

—Não.

—Cuidei que estarias deitado. Que has-de tomar, meu filho?—Volveu ella, inclinando-se ao rosto de Affonso—Que tomas de ceia?

—Nada.

—Estás ainda muito irado contra mim?—replicou ameigando-o.

—Deixa-me, que me custa fallar. Vai á sala, se está lá gente.

—Irei, se de nada te sirvo aqui, e de mais a mais te importuno. Ainda lá estão aquelles maçadores... Logo voltarei a saber de ti.

 

XVIII

Voltou Palmyra á sala, e, momentos depois, reappareceu no quarto d'Affonso, perguntando se D. José de Noronha e D. Antonio Mascarenhas podiam, não incommodando, visital-o. Affonso respondeu, sem alteração, que lhes agradecia o cuidado; mas, confiado na amiga familiaridade com que o tratavam e eram recebidos, esperava que o deixassem estar em silencio, a vêr se assim a dôr de cabeça se mitigava. Palmyra entrou bem assombrada na sala, e disse a D. José: «Não ha que desconfiar. São saudades de Mafalda, rebuçadas nas saudades da mãe.»

Entretanto, Affonso, lançando-se do leito, examinava os fulminantes das pistolas... Seja elle o narrador d'este indescriptivel trance:

«Ao tempo em que eu revocava toda a minha reflexão para bem definir os actos sequentes ao homicidio, senti no coração uma rija pancada, e, para assim dizer, quasi apalpei ante meus olhos desvairados o vulto de minha mãe. Depuz as pistolas, e ajuntei as mãos. Ainda agora me maravilha a passagem rapida da vertigem, em que a minha honra me impunha matar o infame, para a tranquilla consideração sobre a inefficacia do homicidio como vingança da perfidia. Attribuo esta mudança inverosimil, segundo a logica das paixões, a mais forte poder que o da alma humana. N'esta suspensão, pedi ao espirito de minha mãe que me acudisse com o conselho salvador. Não ouvi resposta alguma, nem o meu entendimento concebeu algum designio. O que vi foi a imagem de Eleuterio, na sala da estalagem de Barcellinhos, no momento em que, lavado em lagrimas, dizia á mulher: «Castigada te veja eu, e Deus me vingue!»

«Eis aqui a resposta da alma bemaventurada; eis aqui as indirectas respostas da Providencia.

«Entendi que soára para mim a hora da expiação, annunciada pela visão do marido, cortado de angustias, superiores á minha. Faziam-se acceleradas transformações em meu animo; todas, porém, estranhas ao primeiro intento de matar. Lembrou-me fugir a occultas de minha casa, e esconder da infame e do mundo a explicação da minha fuga. Acudia-me logo outra idéa argumentando contra a miseria d'aquella. Lembrou-me propor a Theodora a separação, reservando a razão da proposta. Não sei quantos projectos disparatados ou irrisorios se atropellaram na minha pobre cabeça. «Serei eu um covarde?» perguntava eu logo á minha consciencia. Vinha então outra vez Eleuterio postar-se ante mim, e dizer á mulher que o fitava com desprezo: «Castigada te veja eu, e Deus me vingue.»

«Desligado da menor premeditação, assalteou-me de repente uma idéa, cujo alcance e desfecho eu não curei prever. Tirei dos bolsos as cartas de Palmyra, encontradas no segredo da secretária, e dirigi-me á sala. Ao sahir da porta do meu quarto vi um vulto a sumir-se na extrema do corredor. Estuguei o passo, e o vulto parou. Era o meu criado Tranqueira. Perguntei-lhe o que fazia alli. «Estou de plantão» respondeu elle. Ainda agora, ou agora verdadeiramente, é que eu posso rir da resposta e admirar o homem que a deu. Inclinou-se ao meu ouvido, e continuou: «Como dei fé que o patrão se deitou, não quiz deixar o negocio ao Deus dará: é o que foi.»

«Entrei na sala a passo mesurado, e quasi a subitas. Estava D. José ao lado de Palmyra na mesma othomana. D. Antonio folheava as Mulheres de Walter-Scott. Palmyra estremeceu, ao vêr-me assomar debaixo do reposteiro. D. José, embrutecido pela surpreza, não se moveu da posição denunciante da extrema familiaridade. Em minha presença, nunca elle se assentára a par de Palmyra no mesmo estôfo. Voltando a si da estupefacção de momentos, ia levantar-se, quando eu lhe disse:

«—Não se incommode, snr. D. José de Noronha. Está bem. Os meus amigos em minha casa são os donos d'ella.

—Essas maneiras exquisitas, Affonso...—tartamudeou D. José, em quanto Palmyra, perplexa ainda, manifestava sua duvida no abrimento da bocca e esgazeado das faces.

«Não respondi á banal reflexão de Noronha. Voltei-me para D. Antonio, e disse-lhe:—O snr. Mascarenhas é de mais aqui. Se fôr propicia a occasião, elle sahirá a tempo—diz a carta do nosso amigo D. José. V. exc.ª devêra já ter sahido.

«Relanceei de revez um olhar a Palmyra. Vi-a sobresaltada e livida, agitando-se em convulsos movimentos, sem todavia se erguer do sophá. D. José erguera-se, apoiando-se ao espaldar de uma cadeira. D. Antonio encarava-me com ares de pavor. Eu continuei:—A figura do snr. Mascarenhas n'este quadro é de mais. Queira sahir.

—Eu vou com D. Antonio—disse o Noronha.

«—Elle que o espere na rua—respondi, voltando levemente a cabeça sem o encarar.

«D. Antonio tomou o chapéo com presteza, abaixou a cabeça a Palmyra, e sahiu, cortejando-me.

«A mulher da estalagem de Barcellinhos voltou ao corpo de Theodora. Eil-a em pé, com a serpente da soberba a enfuriar-lhe os gestos.

—Que significa isto?—exclamou ella—Acabemos esta situação sem grandes scenas! Que vem dizer-me o snr. Affonso?

«Confessarei que me senti pequeno diante d'este cynico interrogatorio! Que havia eu de responder á mulher, que rebatera com escarneo e arrogancia as moderadas aggressões do marido? Com que direitos ia eu alli, deshonrado, pedir contas de sua e minha honra, a ella que estava perdida? E, se a infamia era commum de ambos, por que ambos eramos criminosos, que falsos brios tinha eu por mim a inspirar-me uma resposta digna d'aquellas perguntas? Sómente assim posso agora dar-me contas de minha mudez de então.

«E ella, acorçoada pelo meu espantado silencio, proseguiu:—Abjurei dos deveres da honra, perdi-me, atirei-me cegamente aos seus braços, snr. Affonso de Teive. Satisfiz os seus caprichos, favoreci-lhe o orgulho de ter uma odalisca no seu palacio, prestei-me a enfeitar de falsos risos o meu semblante, mostrei-me ao mundo com o ar alegre da escrava que idolatrava a sua servidão, em quanto o snr. Affonso, enlevado nos ideaes amores d'uma prima...

«—Infame!—atalhei eu—Se tem de citar nomes de mulheres no seu arrazoado, procure-as, se as conhece, nas derradeiras paragens do vicio!... Não suje o nome de mulher alguma; toda a mulher, não cahida na ultima abjecção, impõe respeito á amante de D. José de Noronha, hospedada em casa de Affonso de Teive.

—Bem!—exclamou ella—a amante de D. José de Noronha agradece a hospedagem, promette mesmo pagal-a da altura da sua independencia, e vai sahir, impondo silencio ao insultador.

«—Pois saia—tornei eu—mas leve comsigo o esterco com que sujou a minha casa!—e, dizendo, atirei-lhe ao rosto os macetes das cartas.

«Palmyra, como se um aspide lhe mordesse um pé, deu um salto de fera enjaulada. D. José de Noronha tremia.

«E eu continuei, voltado contra elle:—A infamia é assim: tem esses desmaios de covardia, que desarmam o odio, e levariam á piedade, se o nojo não estivesse áquem da virtude da compaixão. Snr.ª D. Palmyra, aqui tem um paladino, que a não ha-de deixar corar sem desforço diante dos seus insultadores. Siga-o. Tem uma sege ás suas ordens, se o seu pudor lhe não permitte entrar no carro do amante. Em quanto ao snr. D. José de Noronha, saia, e espere-a na rua.

Palmyra fugiu da sala em arremettidas de louca. D. José sahiu com o rosto abatido sobre o peito. E eu cahi extenuado sobre uma cadeira, cuidando morrer alli afogado de congestão de sangue no coração. D'ahi a momentos ouvi o gritar estridente de Palmyra, e um grande reboliço no pateo. Quiz debalde levantár-me. As pernas tremiam-me como se todos os nervos me estivessem golpeados.

«Abaterei agora a linguagem tragica do successo para te narrar o que se passava no pateo.

«O Tranqueira, posto de plantão, como elle dissera, não sahiu da sala de espera, ou do proximo corredor. Momentos antes da sahida de D. José, descera elle ao pateo. Quando o aturdido infame ia passando, sahiu Tranqueira do seu quarto com a lanterna do serviço das cavalhariças. Avisinhou-se de D. José, metteu-lhe a luz á cara, e disse-lhe: «O fidalgo, se me não engano, leva a sua pontinha de febre!... Acho-o muito vermelho; e não será mau refrescar-lhe a cabeça. «Disse, depoz a lanterna, sobraçou-o pela cintura, fincou-lhe a mão esquerda no gasnête, levou-o de borco sobre a cisterna do deposito d'agua para os cavallos, e baldeou-o dentro, exclamando: «Ha-de ir fresco, ha-de ir fresco, seu alfacinha!» Os outros criados ainda quizeram valer-lhe; mas Tranqueira desfizera-se do jockey de D. José, rechaçando-o com um pontapé tangido por furia, digna de melhor adversario. O desgraçado cahira de cachapuz, e lográra logo romper com a cabeça á flôr d'agua; mas do pescoço abaixo ficou empoçado, sem poder marinhar aos bordos da cisterna, á mingoa de pega onde afincar as unhas. O instincto da vida vencera o da vergonha. D. José gritava, e o Tranqueira, dando-lhe as boas noites, fôra para a cavalhariça arraçoar os cavallos. Os brados chegaram aos ouvidos de Palmyra, a tempo que o jockey se erguia do pontapé que o desintestinára, para, muito a custo, acudir ao amo. Desceu Palmyra anciada ao pateo, no momento em que o eleito de sua alma, na bocca da cisterna, sacudia as bicas d'agua, e tiritava estalejando as maxillas.

«Fulminou-a o ridiculo! Só o ridiculo podia sossobrar aquella alma de tempera, feita para reagir a todos os embates. Retrocedeu do portão para o escuro do pateo. Nem a commiseração lhe deu alentos para se aproximar do ensopado moço. Odiou-lhe talvez a covardia n'aquella hora. Odiou-se talvez a si propria. Não sei. Avisaram-me que ella estava prostrada, e sem sentidos, no lagêdo do pateo. Dei ordem ás criadas que a transportassem ao seu leito. Minutos depois, abandonei a minha casa, levando commigo o criado que me vira nascer, o unico homem diante de quem eu podia chorar.

 

XIX

«No dia seguinte, mandei de Cintra o criado a casa, informar-se dos successos decorridos... Quererias tu... agora penso que tu desejas saber como foi aquella minha noite... Passei-a na ida para Cintra. Quer-me parecer que parte de minhas faculdades moraes ia atrophiada. Volteavam em redor de minha intelligencia uns corpos, ora negros como o recesso dos abysmos, ora igneos como as fitas dos coriscos. Nem a memoria de minha mãe se mesclava ao revolutear das minhas concepções desconcertadas. Era a febre, a procella do sangue encapellada na cabeça. O criado teve o instincto de comprehender-me. Raras palavras me disse com resposta. Algumas vezes senti-me aferrado pelo seu braço; era quando eu ia despenhar-me do cavallo, sem dar tento da vertigem.

Contava-me elle depois que eu, a intervallos longos, expedia gritos que lhe eriçavam os cabellos, e vociferava insultos, esporeando freneticamente o cavallo.

Aqui tens a minha noite: não tenho outras memorias. Apenas me recordo que aos primeiros assomos da manhã se romperam os diques das lagrimas, e chorei por muito tempo.

O criado partiu de Cintra com ordem de colher noticias. Voltou, entregando-me um papel aberto, que o escudeiro lhe dera, escripto por Palmyra. Era uma declaração de divida indeterminada, ou que havia de fixar-se pela avaliação dos objectos de seu uso, que ella, ao sahir de minha casa, levava comsigo. Deviam ser vestidos e joias. Palmyra, por tanto, havia sahido na manhã d'aquelle dia.

Ao entardecer, quando a tristeza cahia do céo, como um lucto de almas não já desditosas, mas ainda arraiadas do iris da esperança, confrangeram-se-me em dôr ineffavel as fibras do coração, dôr de saudade voracissima, saudade de Palmyra, desejo ardente de vêl-a não sei se para cahir-lhe de joelhos aos pés, se para escarrar-lhe no rosto. Nenhum allivio pedido a todas as potencias de minha imaginação, pedido a Deus, e ao amor de minha mãe, nenhum conforto experimentei. Era a desesperação, que pensa no suicidio. Deitei-me, confiado na esperança de cahir em lethargia de sentidos. Revolvi-me sobre espinhos em incendio febril. Se algum instante o sopor me desfallecia, pulava-me o coração com tamanho impeto que eu espertava convulso, atirando-me do leito contra a janella, em agonias de estrangulado. O maximo horror das minhas visões era ella, nos braços d'aquelle miseravel, áquella hora. As minimas circumstancias d'um espectaculo de devassidão, as mais secretas, e lubricas minudencias se me traçavam patentes a uma claridade infernal. A oração, esse divino desabafo de enormes afflicções, nem esse bem me valia um relampago de socego á alma. Começava orando, a anciedade recrescia, a fé desamparava-me, e então sobrevinha o desprezo de Deus, a negação da Providencia, e um feroz deleite de blasphemar. Eu amava a mulher abysmada, a mulher prostituida! Eu, santo Deus, com instinctos tão nobres, educação tão religiosa, e respeitos tão profundos á dignidade! Pensava-o eu assim; dava-me eu então os epithetos usurpados á honra!... Eu que me infatuára perante o mundo de acorrentar á minha vaidade a mulher formosa, em cuja fronte a moral escrevera um estigma, que eu cobria de brilhantes e flôres, cuidando que a sociedade havia de respeital-a assim, e humilhar-se diante da minha affrontadora opulencia! Eu, verme esmagado, ousar pedir contas a Deus da iniquidade do seu arbitrio, e renegal-o como ente inutil ao remedio da minha desgraça!...

«Mal me entreluziu a manhã, fiz apparelhar os cavallos, e voltei para Lisboa sem proposito feito. Durante a caminhada, o meu velho Tranqueira, em quanto as cavalgaduras se desfadigavam, acercou-se de mim com os olhos envidrados de lagrimas, e disse a medo: «Meu amo, vamos embora de Lisboa; vamos para a nossa terra, que Deus e a Virgem Maria dará remedio.» Não respondi; mas pensei. A quietação da minha aldêa convidava-me; porém, entrando em espirito no interior da minha casa de Ruivães, ouvia com pavor o som dos meus passos n'aquellas salas desertas: faltava-me minha mãe alli: o anjo consolador fugira antes do meu resgate. Acudia-me á lembrança a minha triste Mafalda, a irmã terna, a meiguice da virgem compadecida; porém o meu coração, a porejar o esqualor da sua hedionda chaga, rejeitava os balsamos d'um affecto purificador.

«O tumulto das grandes cidades, com o seu engodo, attrahente da desordem da vida, quadrava mais á minha alma sedenta de não sei que filtros de lagrimas e sangue. Estava traçado o meu plano, quando cheguei a Lisboa. Qualquer resolução sacode o mais paralysado espirito. Senti-me forte para entrar em minha casa. Fui ao gabinete de Palmyra, e abri as suas gavetas despejadas de todas as cousas d'algum valor. A minha razão logrou um momento de lucidez: afigurou-se-me rasteira a indole de uma mulher, que, em conflicto de tamanha vergonha, tivera animo para se andar por suas proprias mãos enfardando vestidos e enfeites, no intento de vestir as galas seductoras de amantes novos. Refugi como envilecido dos aposentos de Palmyra. Fui ao meu quarto. Fiz encaixotar as minhas roupas. Guardei a correspondencia de minha mãe e de Mafalda. Queimei os restantes papeis, excepto as cartas de Theodora das Ursulinas. Por quê? Nem eu sei. Queria aquellas memorias da creança que então morrera...

—«Chamei os criados, e despedi-os. Mandei fechar as portas ao meu Tranqueira, e, n'esse mesmo dia, expedi ordens para a venda de carruagens, cavallos, e mobilia. Alguns amigos conseguiram rastrear a minha residencia obscura n'um hotel inglez em Buenos-Ayres.

«Procuraram-me, e eu não os recebi. A minha vaidade envergonhava-se d'elles. Nem a despedaçadora curiosidade de saber o destino de Palmyra pôde vencer o orgulho escarnecido.

«No fim de nove dias, recebi carta de Mafalda, respondendo á minha. Eil-a aqui: «Ambos te queremos do coração, Affonso. Meu pae não diz a teu respeito palavra de censura: chama-te infeliz, e mais nada. Quando tua mãe dizia em ancias: «perdi meu filho!» o meu bom pae ajuntava sempre: «elle virá, minha irmã, que a sua indole é boa.» Mostrei-lhe a tua carta, e vi-o chorar; pedi-lhe que te escrevesse, e elle disse-me: «escreve-lhe tu, com a benção de teu pae; diz-lhe que o amas sempre: eu dou-lhe o amor da minha Mafalda, consinto que ella o ame; é o mais que posso dar-lhe.» Estas palavras escrevo-t'as por sua ordem, e desconfio que são inuteis para a tua felicidade. Ainda assim, em quereres a nossa amizade, primo Affonso, nos dás grande satisfação.

«Vejo que vives muito amargurado, desde que morreu a nossa chorada mãe. Se te mortifica o pezar de não ter vindo assistir-lhe á morte, tranquillise-te a certeza de que ella te perdoou. Bem sabes que santinha e que mãe ella era. Eu fui lêr á beira da sua sepultura a tua carta. Li-a em voz alta, cortada de gemidos. Depois orei muito, e levantei-me de ao pé d'ella tão desopprimida e satisfeita que tomei por instincto do céo a minha alegria. Póde ser que esta carta vá encontrar-te no gozo do allivio que eu senti então.

«Bom seria, meu primo, que tu mandasses cuidar um pouco nos negocios da tua casa. Meu pae faz o que póde, e dirige o teu procurador; mas receia de não zelar os teus interesses como queria por falta de saude, e pela distancia em que vivemos de Ruivães.

«Adeus, meu querido irmão. Cuida em ser feliz, e lembra-te com amizade da tua Mafalda

«Respondi logo a esta carta, participando a minha prima que ia sahir para Pariz, no proposito de assentar alli a minha residencia. Expressões affectuosas escassamente lhe disse as vulgares, as necessarias á formalidade de relações entre primos que se estimam. É que eu via em mim o aviltado homem que estava sendo, e de Mafalda mesmo tinha eu um certo pejo, vaidade ainda, a vaidade do homem que se julga desapreciado aos olhos de uma mulher, que o vê rejeitado d'outra, embora villissima, embora repulsada da sociedade de mulheres aptas para honestamente avaliarem o merecimento do homem desprezado. Eu não queria nem podia, coberto de infamia por Palmyra, ir acolher-me ao amor de Mafalda. E depois, e sobre tudo, meu amigo, bem que eu quizesse, não poderia amal-a então como a teria amado quinze dias antes, insuspeitoso da lealdade de Palmyra. Sabem os experimentados, poderás tu sabel-o, que é uma excepção d'almas futeis a passagem rapida d'uma affeição a outra, quando nos pesa o opprobrio d'uma perfidia. O coração está lanhado, a fronte não ousa erguer-se para a mulher do amor de salvação, a dignidade geme sob um peso de vilipendio, que cuidamos lêr nos olhares affrontadores de todo o mundo, olhares que por vezes exprimem compaixão. Mas o que é em casos taes a piedade, senão injuria?!

«Escrevi ao meu procurador ordenando-lhe a venda de todas as minhas propriedades, salvando a casa e quinta de Ruivães. Na volta do correio, avisou-me elle de que havia comprador prompto; e, poucos dias depois, recebi ordens de pagamento de trinta mil cruzados. Com estas ordens, vinha carta de meu tio Fernão de Teive. Dizia assim: «Tua prima está enferma, por isso não te escreve; e eu tambem adoentado e tristonho mal posso escrever-te. Recebemos a nova da tua mudança para Paris. Vai com Deus, Affonso. Póde ser que a tua felicidade lá esteja. Folgo de te vêr ir desligado da personagem que, segundo me dizem, foi a final o que era rigoroso que fosse. Diante da mulher perdida todos os homens são iguaes. Quereres tu o privilegio que o marido não teve, seria um absurdo do teu orgulho. Theodora está em Braga promovendo o divorcio a fim de levantar-se com o seu patrimonio. O Eleuterio, por intervenção de um meu compadre, quiz que eu entrasse como ouvinte e conselheiro em suas cousas. Aceitei o convite como quem tem pouco que fazer, e passa as suas horas na cama a agasalhar a gôta. Sou o depositario do borrador das cartas que ella te escrevia, seductoras em verdade, e dignas de irem á estampa. Onde foi esta mulher aprender tanta palavra?! Estou em dizer que anda aqui muito amor de diccionario; e os successos posteriores levam-me a crêr que era ainda peor o amor da creatura. Aqui estou eu a fallar comtigo á laia de rapaz! e o caso é que a dôr do calcanhar esquerdo espalhou.

«O teu procurador avisa-me que vendeu as tuas quintas de Leiroz e Gestal. Para te não dizer cousas tristes, e evitar que torne a dôr do calcanhar, ponho aqui ponto. Mas sempre te direi, como irmão de tua mãe, e teu amigo devéras, que, exhaurido o teu patrimonio, tens a minha casa. Se eu morrer—e ainda bem!—antes d'esse dia (dia, talvez, inevitavel!) deixarei dito a Mafalda que seja sempre o que tua mãe e eu fomos para ti: o coração devotado sem condições. Adeus. Quando tiveres vagar, escreve-nos de Paris—Teu tio F. de Teive

«Alegrou-me a nova da ausencia de Palmyra de Lisboa. O dragão do ciume desencravou-me as garras do peito. Que estupida alegria! A suspensão da perfidia que importava ao desaggravo do meu orgulho? Quão lastimaveis e ridiculos somos, se uma vez perdemos o norte da legitima, da decente probidade! Nenhum liame da sã moral resiste ao cancro do coração. Até o regenerarmo-nos tem para nós um certo ar de baixeza de animo, scena de comedia que faz rir o mundo.

«E eu, ancioso de um mundo novo, fui para França. Que cuidas tu que eu ia procurar em França?

—O methodo mais facil de gastar os trinta mil cruzados—respondi eu.

—Não me lembravam os trinta mil cruzados: ia procurar uma mulher; ia procurar o amor de salvação.